| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A República de Platão – Recontada Por Alain Badiou – Alain Badiou

A República é o mais extenso, o mais famoso e o mais influente dos diálogos de Platão. Forammuitos os comentários a esse diálogo na Antiguidade, que serviu também de inspiração para diálogos semelhantes como o De Re Publica de Cícero, origem do próprio termo “república”. No Renascimento inspirou igualmente pensadores políticos que o tomaram como ponto de partida para os novos modelos de Estado que surgiam com o declínio do mundo medieval e do feudalismo. A República pode ser vista como uma longa reflexão sobre a decadência da democracia ateniense, mas contém sobretudo a proposta por Platão de um modelo alternativo de Estado, talvez melhor dizendo, um ideal de Estado, um projeto político fundamentado teoricamente. A República pode ser considerada assim como nossa primeira “utopia”. Nesse diálogo Platão mostra que a crítica a Atenas, a cidade real, com todas as suas deficiências, só pode ser feita de modo efetivo com base nesse modelo, que fornece assim os critérios para a crítica. Estão postos aí pela primeira vez a crítica como objetivo da filosofia e as condições em que esta pode ser feita, o que leva à famosa relação teoria-prática. Platão parte de uma discussão sobre o que seria uma cidade justa, para a discussão sobre a justiça, daí para a necessidade do conhecimento sobre o que é a justiça, e finalmente para uma análise do próprio processo de conhecimento, central para a filosofia na visão platônica. Dessa forma, o diálogo contém alguns dos grandes temas da tradição filosófica e esse é um dos motivos pelos quais se tornou uma referência fundamental. Contém também alguns dos textos mais belos e mais famosos de Platão como a “Alegoria da Caverna”, talvez o texto mais citado de toda a tradição filosófica. É um dos melhores exemplos do estilo platônico em toda a sua grandiosidade, desde o recurso aos mitos – são vários ao longo do texto – até o exercício argumentativo de sua dialética implacável. É na República que o personagem Sócrates adquire toda a sua força de guia dos filósofos. Platão não separa o problema da política do problema do conhecimento, não separa a discussão sobre a verdade da discussão sobre a justiça – isso só ocorrerá na filosofia posteriormente. As questões se remetem umas as outras e essa é uma das características centrais da dialética platônica. É nada mais nada menos do que essa obra, com toda a sua imensa carga histórica de influências, comentários, interpretações, que Alain Badiou toma como referência e como ponto de partida do que é certamente uma das leituras mais originais e provocadoras desse texto. Não se trata de uma tradução, ou de uma retradução, nem de um comentário, nem de uma introdução ao texto, o que seria uma a mais dentre os muitos que já existem. Pode-se dizer que o que temos mesmo é uma recriação da República, com todos os riscos que isso acarreta, tratando-se de Platão e de um de seus textos mais traduzidos e comentados já desde a Antiguidade. Acompanhando de perto o texto de Platão, a dialética interna do diálogo, os vários estilos que adota, sua retórica mesmo, Badiou vai nos provocando a uma nova leitura, a uma recriação do texto que retoma o contexto da época, as crises da Atenas do século IV a.C., mas ao mesmo tempo trazendo-o até nós, mostrando assim como se constitui ainda, e se constituiu sempre, em um poderoso instrumento para nos fazer pensar. O diálogo é assim recriado por Badiou, que introduz novos personagens e novos interlocutores, desde leitores historicamente importantes desse texto como Hegel, até personagens criados ou recriados como o interlocutor feminino Amanda, a versão recriada por Badiou do personagem platônico Adamanto. A recriação da trilogia Sol, Linha Dividida e Caverna no capítulo 11 nos permite retomar toda a problemática do real, do conhecimento e da política, envolvidos nesses textos em uma perspectiva que efetivamente revela a atualidade do pensamento platônico, para além da fórmula repetida pelos historiadores da filosofia. Esse exercício pode ser por vezes surpreendente. Deixa claro como Platão, sem deixar de ser Platão, se revela um interlocutor nosso, do tempo presente, de inquietações do pensamento não apenas perenes, mas perenes porque podem ser ressituadas em novos contextos, porque dizem respeito ao que permanece em nossas vidas, em nossa sociedade. Isso justifica sua “atualização” do texto de Platão recorrendo a um vocabulário filosófico inexistente na filosofia grega com termos como “sujeito” e adaptando a terminologia platônica, interpretando-a através de uma temática atual como a questão do Desejo e o problema do Outro.


Um aspecto importante e inovador do trabalho de Badiou sobre o diálogo – e que merece destaque exatamente por isso – é sua redivisão do texto, que deixa de ter os dez “livros” tradicionais, questão que remonta à Antiguidade mas não a Platão, pois são originários dos gramáticos de Alexandria. Propõe uma nova divisão em dezesseis partes que correspondem à sua leitura e que ao mesmo tempo questionam a “sacralidade” dos formatos tradicionais dos textos clássicos que nem sempre, como é o caso, refletem a concepção de seu autor. Por que não redividi-los, se a divisão tradicional retrata apenas a leitura dos alexandrinos? As referências modernas e contemporâneas a filósofos como Nietzsche, a poetas como Fernando Pessoa, a Freud e a Lacan, a personagens históricos como Hitler, Mussolini e Stálin, ilustram concretamente a atualidade do diálogo e ao mesmo tempo mostram como nossa leitura é inevitavelmente sempre uma recriação a partir de nossa perspectiva histórica, de nossos interesses filosóficos, teóricos, intelectuais. Isso não só é assim, mas deve ser assim, essa é a forma pela qual se lê um grande texto filosófico, o que torna este texto um texto vivo e o que mostra que clássico é aquele que permanece para além de suas fronteiras históricas, de sua motivação inicial. É claro que, como o próprio Badiou esclarece no Prefácio, isso só é possível porque A República o acompanha há longos anos, tem sido para ele uma leitura constante, e é esse exercício de leitura e releitura – do próprio texto no original grego e da consideração de seus grandes comentários – que vai revelando as novas e mais diversas facetas do texto, mostrando como suas questões, mais do que a proposta platônica em si, adquirem novas dimensões a partir dessas leituras recorrentes emmomentos diferentes, com base em outras preocupações, por motivos os mais diversos: pelo simples prazer de ler o texto, para servir de inspiração ou de ponto de partida para uma conferência, umcurso, um ensaio. Portanto, a leitura erudita se combina com o interesse filosófico e com a liberdade interpretativa, transformando o texto sem descaracterizá-lo, mas revelando sua grandeza, sua pertinência e sobretudo preservando sua dinâmica interna, seu funcionamento como diálogo, sua contribuição para o desenvolvimento da filosofia até nossos dias. Uma das principais qualidades do texto de Badiou é nos revelar ele próprio, através desse exercício, como um texto filosófico pode nos tocar de tantas diferentes formas, pode ser apropriado, retomado, retrabalhado a partir de nosso olhar, de nossos interesses. É como se Badiou estivesse nos convidando, talvez até mais, nos desafiando a fazer isso, cada um de nós leitores, por nós mesmos, não só com A República – mas por que não? – com todo grande texto filosófico. PREFÁCIO Como escrevi este livro aventuroso Este livro me exigiu seis anos de dedicação. Mas por quê? Por que esse trabalho quase maníaco a partir de Platão? É porque é dele que necessitamos prioritariamente nos dias de hoje, e isso por uma razão precisa: ele deu impulso à convicção de que nos governar no mundo supõe abrir algum tipo de acesso ao absoluto. Não porque um possível Deus sobreponha-se a nós (Descartes), ou por sermos nós mesmos figuras historiais do devir-sujeito desse Absoluto (Hegel e Heidegger), mas sim porque o sensível que nos entretece participa, para além da corporeidade individual e da retórica coletiva, da construção das verdades eternas. Esse motivo da participação, a respeito do qual sabemos que ele faz mistério, permite-nos ir alémdas normas do que chamei de “materialismo democrático”. Ou seja, a afirmação de que não existemsenão indivíduos e comunidades, tendo, entre si, a negociação de alguns contratos dos quais tudo que os “filósofos” de hoje pretendem nos fazer esperar é que possam ser equânimes. Como na realidade essa “equanimidade” só oferece ao filósofo o interesse de constatar que ela se realiza no mundo, e, cada vez mais, sob forma de uma intolerável injustiça, cumpre efetivamente ousar afirmar que, para além dos corpos e das linguagens, há verdades eternas. Cumpre do mesmo modo pensar que corpos e linguagem participam, no tempo, da renhida elaboração dessa eternidade. O que Platão não cessou de tentar fazer os surdos escutarem. Voltei-me então para A República, obra central do Mestre, dedicada precisamente ao problema da justiça, para fazer brilhar sua força contemporânea. A partir do texto grego tal como fornecido por Émile Chambry em meu velho exemplar da coleção bilíngue Budé (Les Belles Lettres, 1949), no qual eu já trabalhava com ardor há 54 anos e que, por via de consequência, está coberto de consideráveis estratos de anotações advindas de épocas diversas. Com efeito, inspirei-me em A República ao longo de todas as minhas aventuras filosóficas. Sempre achei aberrante a divisão em dez livros desse texto grego, divisão que não fazia sentido senão para os gramáticos de Alexandria. Divido-o segundo o que julgo ser seu verdadeiro ritmo, num prólogo, alguns capítulos e um epílogo. O número dos capítulos variou durante o trabalho, passou de nove para dezesseis, por razões de coerência interna. Por fim, “trato” dezoito segmentos. Para começar, não os trato na ordem. Em absoluto.

Começo (em 2005) pelo prólogo, continuo no que veio a ser o capítulo 16, em seguida deambulo, ora mais perto do fim, ora mais perto do início, até que, por volta do inverno de 2010-11, não me resta mais senão reduzir uma espécie de centro, composto pelos capítulos 7 e 8, que não são os mais fáceis nem os mais engraçados. Guardei o pão preto para o fim. O que significa “tratar” o texto? Começo tentando compreendê-lo, totalmente, em sua língua. Vou armado de meus queridos estudos clássicos, incluindo minhas leituras anteriores de diversas passagens, do dicionário Bailly (Hachette, 16ª edição, 1950), da gramática de Allard e Feuillâtre (Hachette, 1972) e das três traduções em francês amplamente disponíveis: a de Émile Chambry mencionada acima, a de Léon Robin (La Pléiade, 1950) e a de Robert Baccou, pela Garnier-Flammarion (1966). Obstino-me, não deixo passar nada, quero que cada frase (e Platão às vezes escreve frases com uma extensão e complicação memoráveis) faça sentido para mim. Esse primeiro esforço é um cara a cara entre mim e o texto. Não escrevo nada, quero apenas que o texto me fale sem guardar algum irônico segredo em suas reentrâncias. Em seguida, escrevo o que a compreensão adquirida do trecho grego que estimo consumada fornece para mim em pensamentos e frases. O resultado, embora nunca seja um esquecimento do texto original, sequer de seus detalhes, quase nunca é, contudo, uma “tradução” no sentido usual. Platão, portanto, está onipresente, embora talvez nem uma única de suas frases seja exatamente reproduzida. Escrevo essa primeiríssima versão na página da direita de um grande caderno de desenho da Canson (utilizarei 57 cadernos desse tipo). É um rascunho terrivelmente rasurado. Em seguida, em geral no dia seguinte, reviso a primeira versão, tão calmamente quanto possível, e transcrevo essa revisão na página da esquerda do caderno que faz face ao rascunho. Frequentemente, afasto-me mais um nível da literalidade do texto original, mas sustento que esse afastamento deriva de uma fidelidade filosófica superior. Essa segunda versão manuscrita é passada para Isabelle Vodoz, que a transforma num arquivo de computador. Ela marca em vermelho no corpo do texto o que lhe parece permanecer obscuro ou canhestro. Quando o arquivo vem para mim, corrijo-o, levando em conta tanto as marcações de Isabelle Vodoz como as minhas próprias observações. O que gera uma terceira versão, que podemos declarar final, excetuando-se a inevitável revisão final visando unificar o conjunto. Raramente aconteceu-me capitular. Aqui e ali, algumas frases gregas não me inspiraram. Os eruditos as repetirão, alimentando assim as peças de meu julgamento como apóstata. É no capítulo 8 que se encontra a mais grave dessas capitulações: uma passagem inteira é pura e simplesmente substituída por uma improvisação de Sócrates que é de minha lavra. Pouco a pouco, no próprio movimento desse tratamento, procedimentos mais gerais aparecem, os quais serão aplicados e variados na sequência do trabalho. Alguns exemplos. Introdução de um personagem feminino: Adimanto torna-se Amanda.

Completa liberdade das referências: se uma tese é mais bem sustentada por uma citação de Freud do que por uma alusão a Hipócrates, preferiremos Freud, que suporemos conhecido de Sócrates, o que é de somenos. Modernização científica: o que Platão afirma de muito criterioso a partir da teoria dos números irracionais revela-se igualmente criterioso se falamos de topologia algébrica. Modernização das imagens: a Caverna do famoso mito assemelha-se de tal forma a um imenso cinema que só nos resta descrevê-lo e aos prisioneiros de Platão tornarem-se espectadores-prisioneiros do midiático contemporâneo; será a mesma coisa, melhorada. Leviandade com a História: por que deixar subsistir as guerras, revoluções e tiranias do mundo grego, se são ainda mais convincentes a guerra de 14-18, a Comuna de Paris ou Stálin? Manutenção constante de um verdadeiro diálogo, fortemente teatralizado: qual a utilidade em manter as intermináveis falsas perguntas de Sócrates, às quais os jovens, páginas a fio, respondem apenas “sim” ou “claro” ou “evidentemente”? É preferível ou aceitar um longo discurso sem interrupção ou confiar uma parte do desenvolvimento aos interlocutores. Preferível também que, às vezes, os ouvintes de Sócrates mostrem-se recalcitrantes. A tese antipoética de Sócrates é tão rígida que até ele, percebemos claramente, desejaria que fosse falsa. Que então um dos jovens resista, que se declare de ponta a ponta não convencido, e a divisão íntima que induz a poesia na filosofia, divisão da qual Platão teve o pressentimento, será claramente reproduzida. O leitor detectará sem dificuldade outros procedimentos desse gênero. Evidentemente, meu próprio pensamento e, mais genericamente, o contexto filosófico contemporâneo infiltram-se no tratamento do texto de Platão, e sem dúvida na mesma proporção de minha inconsciência disso. Foi com toda a consciência, porém, que introduzi, por assim dizer axiomaticamente, mudanças notórias na “tradução” de certos conceitos fundamentais. Cito duas dessas decisões, cujo alcance é considerável. Transformei a famosa “Ideia do Bem” em “Ideia da Verdade”, ou pura e simplesmente em “Verdade”. Mudei igualmente “alma” para “Sujeito”. Assim, falaremos em meu texto da “incorporação de um Sujeito a uma Verdade”, em vez de “elevação da alma em direção ao Bem”, e das “três instâncias do sujeito” em vez da “tripartição da alma”. Tudo bem pesado, essas famosas três partes, com frequência intituladas “concupiscência”, “coração” e “razão”, serão retomadas, como instâncias, como “Desejo”, “Afeto” e “Pensamento”. Também permiti-me traduzir “Deus” por “grande Outro” e, vez por outra, simplesmente por “Outro”. Algumas vezes proponho deliberadamente diversas palavras modernas para ressoar uma única palavra grega. Por exemplo, a terrível “Politeia” que dá seu título tradicional ao livro de Platão. A tradução por “República” não faz mais nenhum sentido nos dias de hoje, se é que um dia teve um. Emmeu texto, emprego pelo menos cinco palavras, dependendo do contexto, nas diferentes passagens emque esbarro com “politeia”: país, Estado, sociedade, cidade ou pólis, política. Para qualificar o empreendimento singular de Platão, a “Cidade ideal”, que ele propõe, utilizo três expressões: política verdadeira, comunismo e quinta política. Em outras ocasiões, introduzi explicitamente uma discussão, uma hesitação, acerca da palavra adequada. Por exemplo, na longa passagem sobre a tirania e o homem tirânico, Sócrates emprega espontaneamente as palavras oriundas do texto grego (tirania, tirano), enquanto Amanda insiste com obstinação em falar de fascismo e fascista. Dessa forma, espero ter conseguido combinar a proximidade constante com o texto original e umdistanciamento radical, mas ao qual o texto, tal como pode funcionar hoje, confere generosamente sua legitimidade. É isto, no fim das contas, a eternidade de um texto.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |