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A resistencia – Julian Fuks

Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado. Se digo assim, se pronuncio essa frase que por muito tempo cuidei de silenciar, reduzo meu irmão a uma condição categórica, a uma atribuição essencial: meu irmão é algo, e esse algo é o que tantos tentam enxergar nele, esse algo são as marcas que insistimos em procurar, contra a vontade, em seus traços, em seus gestos, em seus atos. Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter. Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz. Poderia empregar o verbo no passado e dizer que meu irmão foi adotado, livrando-o assim do presente eterno, da perpetuidade, mas não consigo superar a estranheza que a formulação provoca. Meu irmão não era algo distinto até que foi adotado; meu irmão se tornou meu irmão no instante emque foi adotado, ou melhor, no instante em que eu nasci, alguns anos mais tarde. Se digo que meu irmão foi adotado, é como se denunciasse sem desespero que o perdi, que o sequestraram, que eu tinha um irmão até que alguém veio e o levou para longe. A opção que resta é a mais pronunciável; entre as possíveis, é a que causa menos inquietação, ou a que melhor a esconde. Meu irmão é filho adotivo. Há uma tecnicidade no termo, filho adotivo, que contribui para sua aceitação social. Há uma novidade que por um átimo o absolve das mazelas do passado, que parece limpá-lo de seus sentidos indesejáveis. Digo que meu irmão é filho adotivo e as pessoas tendem a assentir com solenidade, disfarçando qualquer pesar, baixando os olhos como se não sentissem nenhuma ânsia de perguntar mais nada. Talvez compartilhem da minha inquietude, talvez de fato se esqueçam do assunto no próximo gole ou na próxima garfada. Se a inquietude continua a reverberar em mim, é porque ouço a frase também de maneira parcial — meu irmão é filho — e é difícil aceitar que ela não termine com a verdade tautológica habitual: meu irmão é filho dos meus pais. Estou entoando que meu irmão é filho e uma interrogação sempre me salta aos lábios: filho de quem? 2. Não quero imaginar um galpão amplo, gélido, sombrio, o silêncio asseverado pela mudez de ummenino franzino. Não quero imaginar a mão robusta que o agarra pelas panturrilhas, os tapas ríspidos que o atingem até que ressoe seu choro aflito. Não quero imaginar a estridência desse choro, o desespero do menino em seu primeiro sopro, o anseio pelo colo de quem o receba: um colo que não lhe será servido. Não quero imaginar os braços estendidos de uma mãe em agonia, mais um pranto abafado pelo estrondo de botas contra o piso, botas que partem e o levam consigo: some a criança, resta a amplidão do galpão, resta o vazio. Não quero imaginar um filho como uma mulher em ruína. Prefiro deixar que essas imagens se dissipem no inaudito dos pesadelos, pesadelos que me habitamou que habitaram uma cama vizinha à minha. Não saberia descrever o que é um parto feliz. Um quarto branco, lençóis brancos, brancas as luvas que recebem o menino, brancas, plásticas, impessoais, científicas. Nenhuma felicidade, decerto, na total assepsia. Um obstetra que o acolhe em suas mãos neutras e o examina: a criança está inteira, a criança respira, é rósea sua pele, é boa a flexão dos membros, normal a frequência cardíaca.


Que a mãe não o veja, ou melhor, que não o veja a mulher que o pariu. Nenhuma utilidade na eventual confusão de sentimentos, sobretudo em momento tão suscetível, a dor do parto a esmorecer, um peso que se alivia, talvez um ligeiro vazio, nenhum ganho em tal incerteza. Um colo provisório não lhe será de nenhum proveito; melhor é que encontre tão cedo quanto possível os pais verdadeiros, braços abertos e prontos para recebê-lo, ávidos e convictos para uma plena acolhida. Se posso ser sincero comigo, prefiro não me deixar absorver pelas imagens desse nascimento. Contar de uma criança que nasce é contar de uma súbita existência, de um ser que se cria, e a ninguém importa esse momento mais do que a esse ser, a ninguém concerne esse momento mais do que à criança que surge à vida. Para conceder a esse nascimento o devido tom de alegria, o tom que eu gostaria que ele merecesse, que meu irmão merecesse como toda vida merece, eu teria que apelar aos sorrisos dos que logo se viram diante dele, dos que enfim se prestaram a chamá-lo de filho. Devem ter sido amplos esses sorrisos, digno desfalecer dos nervos que caracteriza todo ansiado alívio. Mas uma criança não nasce para aliviar, nasce e assim que nasce exige seu próprio alívio. Uma criança não chora para abrir nos outros a possibilidade de um sorriso; chora para que a tomemnos braços, e a protejam, e calem com carícias o desabrigo implacável que desde tão cedo a atormenta. Se não quero imaginar um menino como a ruína de uma mulher, também não posso imaginá-lo como a salvação de outra família, da família que seria a minha, salvação descabida que jamais deveriam lhe pedir. 3. Ele é adotado, foi o que eu disse alguma vez a uma prima que teimava em ressaltar como éramos diferentes, ele e eu, seus cabelos mais escuros e encaracolados, seus olhos tão mais claros. Na minha declaração não havia maldade ou despeito, acho, eu devia ter uns cinco anos de idade — mas, se agora me sinto impelido a me defender, talvez de fato estivesse acometido por alguma crueldade inocente, que até hoje trato de velar. Estávamos num carro dirigido pelo meu pai, e minha mãe só podia estar ausente, porque meu irmão ocupava o banco da frente, não sei se acompanhando a conversa ou perdido em pensamentos insondáveis. Fez-se um silêncio imediato. Posso ter levado umcutucão discreto da minha irmã, que imagino sentada ao meu lado, ou a pontada foi apenas o incômodo que senti ao perceber que havia errado, incômodo que tantas vezes senti sem que ninguémme acotovelasse. Tão contundente foi aquele silêncio que dele me lembro até hoje, entre tantos silêncios pouco memoráveis. Não estarei tentando me absolver do equívoco ao dizer que naquela época as orientações que recebíamos eram ambíguas e vagas. Desde sempre meu irmão soubera que havia sido adotado, era o que meus pais diziam, e esse desde sempre me deixava intrigado, ou me intriga agora: como dizer algo dessa ordem a uma criança que mal domina as palavras mais simples, com que distância ou frialdade ditar mamãe, papai, nenê, adoção? Como transmitir a importância daquele fato, com a seriedade que o assunto exige, sem lhe atribuir um peso desnecessário, sem transformá-lo num fardo que o menino jamais poderia carregar? Era Winnicott quem ditava os passos — seguimos muito do que indicava a teoria winnicottiana, eu ouviria anos mais tarde, sem compreender o termo ao certo mas notando o tom de lamento, a voz desolada. Que ele soubesse, que nós soubéssemos, que soubessem todos os habitantes da casa, era algo que se sabia fundamental. E, no entanto, de alguma maneira se instaurou a reversão desse processo, em algum momento o que era palavra se tornou indizível, calou-se a verdade como se assim ela se desfizesse. Não creio impreciso dizer que foi meu irmão quem impôs a todos o silêncio que lhe era mais confortável, e nós simplesmente aceitamos, tão gentis, tão covardes. Na minha lembrança os olhos do meu irmão estavam lacrimosos, mas desconfio que essa seja uma nuance inventada, acrescida nas primeiras vezes que rememorei o episódio, turvado já por algumremorso. Ele estava sentado no banco da frente. Se chorava, decerto continha qualquer soluço e escondia as lágrimas com as mãos; ou voltava o rosto para a janela, extraviava a vista empresumíveis pedestres.

O caso é que não me olharia, não viraria para trás. Talvez fossem os meus, os olhos lacrimosos. 4. Que força tem o silêncio quando se estende muito além do incômodo imediato, muito além da mágoa. Há anos observo em meu irmão, impressionado, sua capacidade de afastar prontamente os pensamentos que lhe desagradam, de interromper conversas sem brusquidão, de mudar de assunto sem se dar conta, de deslizar entre uma ideia e outra de forma quase instantânea, sem sobressalto. Vejo seu rosto se crispar por um segundo ante algum vago infortúnio, alguma frase infeliz que ninguém chegou a proferir, uma ínfima sugestão ou aproximação ao que o perturba, para logo retornar às suas feições comuns, à sua indiferença, sua neutralidade anestesiada. Não são poucos os indícios de que ele soube de fato esquecer, embora esquecer não seja a palavra exata — recalcar é a palavra que meus pais indicarão aqui, posso prever. Não são poucas as evidências de que ele passa longos períodos sem admitir sequer para si, sem aceitar ou reconhecer — dias ou meses, talvez anos, trancado em seu quarto sem que nada disso se aposse dele, sem que retorne à sua mente tudo o que eu não quero e não posso dizer, tudo o que eu preciso dizer. E ele não precisa dizer para si? Que força tem o silêncio quando se estende muito além, eu me pergunto, muito além do incômodo imediato, e da mágoa, mas também muito além da culpa, e assim chego enfim a me responder. Também eu fui capaz, durante muito tempo, de esquecer. Estamos no carro mais uma vez, agora a viagem é longa e o cansaço nos toma quase tanto quanto o tédio, o calor, o exaspero, e aqui de novo parece que tento justificar minha insensibilidade, minha insensatez. Por alguma razão estou irritado com minha irmã, não quero mais estar ao lado dela, partilhar a viagem e o espaço com ela, mas sou obrigado a isso e diante disso me desespero: não sou seu irmão. Anuncio que não sou irmão dela e ela se indigna, você não pode, você é meu irmão, não tem jeito, você é meu irmão e vai ser meu irmão para sempre. Eu insisto, eu não quero, você não é minha irmã e pronto, está decidido, eu já decidi. Ela apela ao meu pai, que lhe dá a devida razão disfarçando o riso, minha mãe concorda e também ri, vendo graça no absurdo de tudo, no alcance da minha teimosia. Nenhum veredito há de valer nada nesse momento: Não adianta, que se danem todos, não sou irmão dela e acabou. A anedota tornou-se um clássico na família, repetida em jantares mesmo quando todos os presentes já a ouviram, como exemplo geral do despautério infantil ou como prova da minha obstinação excessiva. É relatada sempre no tom risonho que os dois da frente, meus pais, lhe atribuíram. Dois dos que estávamos atrás também assumimos esse tom, também nos lembramos do episódio como algo cômico, passando inclusive a concebê-lo como rito de consolidação da cumplicidade que soubemos construir. Mas éramos cinco no carro. Meu irmão não se pronunciara a respeito, e ainda hoje não se pronuncia, preferindo calar em seu canto da mesa, deglutir o resto de sua comida, se retirar cada vez mais cedo. Eu estava sentado no meio, entre ela e ele, e devo ter lhe dado as costas enquanto discutia, empenhado em defender minha posição impossível. Não sei como terá soado aos ouvidos dele esse meu empenho, se lhe agradou ouvir o pouco valor que eu dava aos laços sanguíneos, se foi doloroso saber da precariedade que eu conferia aos vínculos fraternos. Eu não questionava se ele era meu irmão, a nossa relação eu não queria suspender. Mas me pergunto se ele não terá, ainda assim, por um segundo, franzido a testa, baixado os olhos, crispado o rosto de menino.

5. Caminho pelas ruas de Buenos Aires, observo o rosto das pessoas. Escrevi um livro inteiro a partir da experiência de caminhar pelas ruas de Buenos Aires e observar o rosto das pessoas. Queria que me servissem de espelho, que em cada esquina me replicassem, que eu me descobrisse argentino pela simples aptidão de me camuflar, e que assim pudesse enfim passear entre iguais. Nunca pensei como seria, para meu irmão, caminhar pelas ruas de Buenos Aires. Que incerta aflição correrá por sua espinha a cada traço reconhecível, a cada gesto habitual, a cada olhar mais fixo, a cada figura que lhe pareça familiar. Que imenso receio — ou que cruel expectativa — de que algum dia um rosto se lhe revele espelho, que à sua frente de fato apareça um igual, e que esse igual se replique emtantos mais. Súbito compreendo, ou creio compreender, por que meu irmão deixou de frequentar essa cidade que nunca soubemos abandonar. De Buenos Aires meus pais foram expulsos quando ele não somava nem seis meses de idade, de Buenos Aires nos sentíamos todos alijados enquanto não lhes permitiam retornar — mesmo que alguns de nós, minha irmã e eu, nem sequer houvéssemos pousado os pés mínimos em suas calçadas. Pode um exílio ser herdado? Seríamos nós, os pequenos, tão expatriados quanto nossos pais? Devíamos nos considerar argentinos privados do nosso país, da nossa pátria? Estará também a perseguição política submetida às normas da hereditariedade? Ao meu irmão essas questões não se colocavam: ele independia dos pais para ser argentino, para ser exilado, para ter sido privado de sua terra natal. Talvez fosse algo que invejássemos, essa autonomia de sua identidade, que ele não precisasse batalhar tanto por sua argentinidade. Ele nascera lá, ele era mais argentino do que nós, seria sempre mais argentino do que nós, por menos que isso significasse. Por isso nos surpreendeu, anos mais tarde, que ele deixasse de nos acompanhar nas visitas insistentes que fazíamos à cidade, nas longas temporadas em que tratávamos de recobrar aquele algo que nos fora, indiretamente, talvez, roubado. Caminho pelas ruas de Buenos Aires e vou parar na praça do Congresso, em frente à sede das Mães da Praça de Maio. Hesito um instante na porta, não me decido a entrar. Já estive ali outras vezes por mero turismo ou curiosidade, já percorri cada estante da livraria, já tomei um café em sua galeria, já me deixei impregnar por seus testemunhos, suas histórias, suas palavras de ordem. Agora descubro que não quero entrar, que estou parado na porta e não queria estar parado na porta. Que estou parado na porta porque queria que meu irmão estivesse em meu lugar. 6. O que fazíamos nas incontáveis noites em que dividimos o quarto? Quem dormia primeiro, relegando o outro ao silêncio e à escuridão inabitável, ao medo das sombras, ao susto dos estalos? Que devaneios erráticos acometiam aquele que restava, que fantasmas infantis o assombravam, enquanto o irmão ressonava tranquilo, indiferente, sem piedade? Quem perguntava ao outro se já dormia, apenas para preencher com a concretude da voz trêmula aquele espaço imperscrutável que os separava? São falaciosas essas perguntas, líricas demais para guardar uma verdade. Se escolho contar esta história pelos terrores noturnos, me posto no centro da aflição, me faço protagonista, atribuo ao meu irmão uma impiedade injusta. Era eu que resistia a dormir de luz apagada, eu que me levantava assustado no meio da noite, cruzava o corredor sombrio, me recolhia à cama dos meus pais. Por vezes, alta madrugada, também acolhíamos minha irmã na ampla cama de casal, e ali continuávamos dormindo, reunidos, apertados, quatro quintos da família confinados em tão poucos metros quadrados. Meu irmão permanecia à parte, entre seus próprios lençóis, e devia ser então mais profunda, se não a quietude que ele não temia, ao menos a solidão que o embalava. Essa história poderia ser muito diferente se dela eu me lembrasse.

Por oito anos convivi com meu irmão no mesmo quarto, nos mesmos quartos sucessivos, e não consigo recordar como conversávamos, se nos divertíamos, se travávamos algum jogo comum ou alguma disputa que relevasse a diferença de idade, se ele me ensinava suas malícias de criança sem que eu as lamentasse. Talvez não, talvez mantivéssemos distância, talvez intimidássemos um ao outro e nos entediássemos com o mesmo vazio que hoje, às vezes, nos toma. Lembro da geografia dos quartos, da posição da cama, da outra cama, do armário, a escrivaninha junto à janela que nos liberava para a imensidão da cidade, fosse ela São Paulo ou Buenos Aires. Lembro dos pôsteres vivazes que ele colava nas paredes, quiçá com alguma intenção de que eu partilhasse seus entusiasmos. Lembro de alguns brinquedos meus, pedaços inanes de plástico que me fascinavam, bonecos que eu envolvia em tramas complexas por toda a manhã, por toda a tarde, incansável enquanto ele não voltava. Era fértil a imaginação daquela época, fecunda ficção que hoje me abandona. Não consigo lembrar como era passar um minuto, dez minutos, uma hora ao seu lado, e também não consigo inventá-lo. Como se passaram oito anos naquele estado é uma questão que não sei responder, é mais uma noção do real que aqui se evade. Sei que ele me protegia, e não porque minha mãe insista em alardeá-lo, em ressaltar quanto ele me adorava, veladamente implorando que eu me atreva ainda uma vez a bater à sua porta. Sei que ele me protegia porque um gesto costumeiro seu não me foge à memória: sua mão pousada sobre a minha nuca, o indicador e o polegar apertando o meu pescoço, alternados, sem força, apenas indicando a direção do próximo passo. Era assim que ele me conduzia quando caminhávamos lado a lado, emmeio a qualquer multidão que porventura nos cercasse.

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