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A Resposta Certa – David Nicholls

Todos os jovens se preocupam com as coisas; é parte natural e inevitável de crescer. E, aos 16 anos, minha maior preocupação na vida era a de nunca mais alcançar nada tão bom, tão puro, tão nobre ou verdadeiro quanto o resultado do meu exame de admissão ao ensino médio. É claro que, na época, achei que não fosse nada demais. Não emoldurei o certificado nem nada tão esquisito. Nem vou entrar no mérito das notas, porque senão pareceria muito competitivo, mas definitivamente gostei delas; isto é, das qualificações. Dezesseis anos, e a primeira vez que me senti qualificado para alguma coisa. Claro que isso foi há muito, muito tempo. Agora, tenho 18 anos e gosto de pensar que estou bem mais sábio e indiferente em relação a essas coisas. Por isso, comparativamente, não liguei muito para o resultado dos meus exames para a faculdade. Além do mais, acreditar que se pode, de algum modo, avaliar a inteligência com um sistema ridículo e antiquado de prova escrita é obviamente 4 uma ilusão. Dito isso, tive as melhores notas da Langley Street Comprehensive School em 1985. As melhores em 15 anos na verdade: três As e um B, somando 19 pontos — pronto, falei — mas, sério, não acho que isso seja particularmente relevante, só mencionei de passagem. E, de qualquer maneira, comparando com outras qualidades, como coragem (fisicamente falando) ou popularidade, beleza, pele boa ou uma vida sexual ativa, saber um monte de coisas acaba não sendo tão importante assim. Mas, como meu pai costumava dizer, o crucial da educação são as oportunidades que ela traz, as portas que abre. Porque, sem isso, o conhecimento em si é um beco sem saída, especialmente na minha atual posição, numa quartafeira à tarde de um fim de setembro, numa fábrica de torradeiras. Passei as férias trabalhando no setor de expedição da Ashworth Electricals, o que significa que sou responsável por colocar as torradeiras nas caixas antes de elas serem mandadas aos varejistas. É claro que não existem muitas maneiras diferentes de se colocar uma torradeira numa caixa, por isso esses dois meses têm sido meio chatos, mas, olhando pelo lado positivo, recebo uma libra e 85 pence por hora, o que não é tão ruim, mais quantas torradas conseguir comer. Como é meu último dia aqui, fiquei de olho em qualquer sinal de um possível cartão de despedida sendo passado disfarçadamente entre meus colegas, assim como da vaquinha para o presente de despedida, esperando para descobrir a que pub iríamos para nossos últimos drinques juntos, mas já são 18h15. Então, posso deduzir que todo mundo já foi para casa. O que é bom, porque, de qualquer modo, tinha outros planos. Então, recolho as minhas coisas, pego algumas canetas esferográficas e um rolo de fita adesiva transparente no armário do escritório e saio rumo ao píer, para encontrar Spencer e Tone. 5 Com 2.360 jardas, ou 2,158 quilômetros, o Southend é, oficialmente, o maior píer do mundo. Talvez seja grande demais, para ser honesto, principalmente quando você está carregando muita cerveja. Trouxemos doze latas grandes de Skol, almôndegas de porco agridoce, um arroz frito especial e uma porção de batatas fritas com molho curry — sabores do mundo todo — , mas, até chegarmos ao fim do píer, as cervejas já estão quentes e as marmitas, frias.


Como é uma comemoração especial, Tone também teve de carregar o seu ―som arrasaquarteirãoǁ, que é do tamanho de um pequeno guarda-roupa, mas, e, é preciso que se diga, nunca abalará quarteirão nenhum nessa cidade. No momento, está tocando uma fita gravada por Tone chamada The Best Of The Zep, e nos sentamos num banco no final do píer enquanto assistimos ao sol se pôr majestosamente sobre a refinaria de petróleo. — Você não vai virar um babaca, vai? — pergunta Tone, abrindo uma lata de cerveja. — Como assim? — Ele quer dizer que você não vai dar uma de universitariozinho para cima da gente — explica Spencer. — Bom, eu sou universitário. Quer dizer, vou ser. Então… — Não… O que estou dizendo é que você não vai virar um babaca que só olha para o próprio rabo e voltar para casa no Natal vestindo beca, falando latim e discorrendo sobre ―temáticasǁ, ―problemáticasǁ e essas coisas… — É, Tone. É exatamente o que vou fazer. — Não faça. Porque você já é babaca demais e não precisa ficar mais babaca ainda. Tone tem o costume de me chamar de babaca ou de veadinho. O truque é fazer uma espécie de ajuste linguístico e tentar pensar nisso como termos afetuosos, do mesmo jeito que os casais falam ―queridoǁ e ―meu bemǁ. Ele acaba de conseguir um emprego num depósito em Currys e está começando a desenvolver um interessante gosto por roubar aparelhos estéreos portáteis, como 6 o que estamos ouvindo agora. Também é dele essa fita do Led Zeppelin. Tone gosta de falar que é metaleiro, o que soa melhor do que roqueiro ou fã de heavy metal. Também se veste como um metaleiro: calça jeans escura e um cabelo longo e lustroso jogado para trás feito um viking afeminado. Na verdade, o cabelo de Tone é a única coisa afeminada nele. Afinal, estamos falando de um cara ultraviolento. O ponto alto de uma noite bem-sucedida com Tone é chegar em casa sem ter a cabeça enfiada no vaso com alguém dando descarga. Agora está tocando ―Stairway to Heavenǁ. — Tone, a gente precisa mesmo ouvir essa porra de baboseira hippie? — pergunta Spencer. — Isso é O Zep, Spence. — Eu sei que é O Zep, Tone. É por isso que eu quero que você desligue essa merda. — Mas O Zep é o máximo.

— Por quê? Só porque você acha? — Não, porque eles foram uma banda muito importante e influente. — Eles estão falando de fadas, Tony. É constrangedor… — Não são fadas… — Elfos, então — intervenho. — Não são apenas fadas e elfos. É Tolkien, é literatura… — Tone adora essas coisas: livros com mapas na página de abertura e capas com mulheres grandes e assustadoras usando lingerie e correntes, empunhando espadas enormes, o tipo de mulher com quem ele se casaria num mundo ideal. O que, em Southend, é mais possível do que se imagina. — Qual é a diferença entre uma fada e um elfo afinal? — pergunta Spencer. — Sei lá. Pergunta pro Jackson. Ele que é o fodão. 7 — Eu não sei, Tone — respondo. O solo de guitarra começa, e Spencer se contorce. — Isso termina alguma hora ou só continua, continua, continua e continua…? — São 7 minutos e 32 segundos de pura genialidade. — Pura tortura, isso sim — digo. — Por que é sempre você quem escolhe a música, afinal? — Porque o som é meu… — Que você afanou. Tecnicamente, ainda pertence ao Currys. — É, mas eu compro as pilhas… — Não, você afana as pilhas… — Não essas. Essas eu comprei. — Quanto custou a pilha, então? — Custou uma libra e 98 pence. — Então, se der a você 0,66 pence a gente pode ouvir alguma coisa decente? — Tipo o quê? Kate Bush? Tudo bem, Jackson, vamos ouvir Kate Bush então. Vamos todos nos divertir muito ouvindo Kate Bush, nos divertir muito, muito mesmo, dançando e cantando junto com Kate Bush… — Enquanto Tone e eu discutimos, Spencer simplesmente se debruça sobre o som, ejeta The Best Of The Zep e joga a fita longe, no mar. Tone grita ―Ei!ǁ, atira a lata de cerveja nele e os dois saem correndo pelo píer. É sempre melhor não se envolver muito nessas brigas. Tone tende a ficar meio fora de controle, possuído pelo espírito de Odin ou sei lá o que, e, se me envolvo, acabo com o Spencer sentado nos meus braços com Tone peidando na minha cara. Por isso, prefiro ficar sentado, quieto, bebendo minha cerveja e 8 vendo Tone tentar passar as pernas de Spencer por cima do guarda-corpo do píer.

Mesmo sendo setembro, já se pode sentir que o ar da noite começa a ficar úmido e frio, uma sensação de fim de verão, e fico feliz por estar vestindo meu casaco do exército. Sempre odiei o verão; o jeito como o sol brilha na tela da TV durante a tarde, a insistente pressão para se usar short e camiseta. Odeio short e camiseta. Se me sentasse do lado de fora de uma farmácia usando short e camiseta, garanto que alguma velhinha tentaria me dar uma moeda. Não… Estou mesmo ansioso é pelo outono, sair chutando folhas a caminho da aula, conversar animadamente sobre poetas metafísicos com alguma garota chamada Emily, Katherine ou François, algo assim, de meias-calças de lã e cabelinho chanel, e aí voltar para o quartinho dela no sótão e fazer amor na frente da lareira elétrica. Depois, vamos ler T. S. Eliot em voz alta e beber vinho do Porto antigo e de qualidade em tacinhas de vidro, enquanto ouvimos Miles Davis. Pelo menos, é assim que imagino que vai ser a experiência universitária. Gosto da palavra experiência. Soa como andar de montanha-russa. A briga terminou. Tone está gastando o excesso de sua agressividade jogando as almôndegas de porco agridoce nas gaivotas. Spencer volta colocando a camisa para dentro da calça, senta ao meu lado e abre outra lata de cerveja. Realmente, Spencer leva jeito com a lata de cerveja: parece até que ele está tomando uma taça de martíni. Spencer é a pessoa de quem mais vou sentir falta. Ele não vai fazer faculdade, apesar de ser a pessoa mais inteligente que já conheci, assim como a mais bonita, a mais centrada e a mais maneira. Nunca diria isso a ele, claro, pois soaria meio assustador, mas nem é preciso; está na cara que ele sabe disso. Poderia ir para a faculdade se quisesse mesmo, mas fez merda nos exames, não de propósito, claro, mas todo mundo viu o que ele fez. Estava sentado na carteira ao lado da minha na prova de inglês, e dava para ver pelos movimentos da caneta que ele não estava escrevendo; estava desenhando. Na questão sobre Shakespeare, ele desenhou As alegres comadres de Windsor, e, na de poesia, uma ilustração que intitulou ―A experiência de Wilfred Owen nos horrores das 9 trincheiras em primeira mãoǁ. Fiquei tentando fazer com que se virasse para mim, para lançar um olhar amigável de ―qual é, cara?ǁ, mas ele manteve a cabeça abaixada, desenhando, e, depois de uma hora, levantou e saiu, piscando para mim, e não foi uma daquelas piscadelas convencidas. Foi com os olhos embargados e vermelhos, como se fosse um soldado raso indo ao encontro do batalhão de fuzilamento.

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