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A restauracao das horas – Paul Harding

George Washington Crosby começou a alucinar oito dias antes de morrer. Do leito de hospital alugado, colocado no meio de sua sala de jantar, via insetos entrando e saindo de rachaduras imaginárias no teto de gesso. As vidraças das janelas, um dia já bem-instaladas com uma boa camada de massa, estavam soltas nas molduras. A próxima ventania as derrubaria, fazendo-as tombar na cabeça de seus familiares sentados no sofá, na namoradeira e nas cadeiras da cozinha que a esposa de George trouxera para acomodar a todos. A torrente de vidraças os espantaria da sala, os netos do Kansas, de Atlanta e de Seattle, a irmã da Flórida, e George ficaria ilhado na cama, cercado por um fosso de estilhaços. O pólen e os pardais, a chuva e os esquilos intrépidos que ele passara meia vida espantando das casinhas de pássaros irromperiam na casa. George construíra o lugar com as próprias mãos — tinha deitado os alicerces, erguido a estrutura, unido os canos, passado os fios, argamassado as paredes e pintado os quartos. Certa vez, um raio acertou a casa enquanto ele soldava a última junta do tanque de água quente, na fundação aberta. Arremessou-o contra a parede oposta. George se pôs de pé e terminou a junta. As rachaduras na argamassa eram reparadas, canos entupidos eram desobstruídos, tábuas descascadas eram lixadas e recebiam uma nova mão de tinta. Pegue um pouco de argamassa, falou, sustentado pelas almofadas da cama, que parecia estranha e institucional entre os tapetes persas, os móveis coloniais e as dúzias de relógios antigos. Pegue um pouco de argamassa. Meu Deus, argamassa, alguns fios e um par de ganchos. Dá para arranjar tudo por uns cinco dólares. Tudo bem, vovô, disseram. Tudo bem, papai. Um vento soprou pela janela aberta atrás dele e clareou cabeças exaustas. Ouviu-se o som de um jogo de bochas no gramado lá fora. Ao meio-dia George se viu momentaneamente sozinho enquanto a família preparava o almoço na cozinha. As rachaduras do teto se ampliaram, viraram fendas. As rodas travadas da cama afundaram em novas rachas que se abriam no piso de carvalho sob o tapete. A qualquer momento o chão iria ceder. A barriga inútil de George subiria até seu peito como se estivesse numa montanha-russa na Feira de Topsfield, e, com um solavanco de estalar a coluna, George e a cama pousariam no porão, em cima das ruínas esmagadas de sua oficina. George imaginou a cena, como se o colapso já tivesse acontecido: o teto da sala de estar, agora dois andares acima, uma chaminé perfurada entre as tábuas esfarpadas do piso, canos de cobre retorcidos e fios elétricos feito veias cortadas delimitando as paredes e apontando para ele no centro de toda aquela ruína.


Vozes murmuraram da cozinha. George virou a cabeça, na esperança de que alguém pudesse estar sentado um pouquinho além da porta, segurando no colo um prato de papel com salada de batata e fatias de rosbife enroladas, na mão um copo plástico com refrigerante. Mas a ruína persistiu. George pensou ter chamado, mas as vozes de mulheres na cozinha e as de homens no jardim murmuravam sem interrupção. George ficou deitado em seu monte de destroços, olhando para cima. O segundo andar caiu sobre ele, com as vigas de pinho e o encanamento sem saída (os canos fechados jamais haviam chegado à pia e ao sanitário que ele um dia pretendera instalar) e cabides com velhos casacos e caixas de jogos de tabuleiro e quebra-cabeças e brinquedos quebrados esquecidos e sacos com fotos de família — algumas tão velhas que haviam sido expostas em placas de alumínio —, tudo desabou para o porão, ele incapaz até de erguer uma mão para proteger o rosto. Mas George era praticamente um fantasma, quase feito de nada, por isso a madeira e o metal e os maços de papelão e de papel impressos em cores vívidas (avance seis casas para a rua singela! A bisavó Noddin coberta por um xale, austera, franzindo o cenho para a câmera, absurda com aquele chapéu que parecia o monte funerário de um marinheiro, com flores e véu), que de outra forma teriam esmagado seus ossos, caíram sobre ele e rodaram para os lados feito um cenário de cinema, ele ou eles fac-símiles de coisas prévias, reais. Ali estava George, deitado entre fotos da formatura e velhos pulôveres de lã e ferramentas enferrujadas e recortes de jornal sobre sua promoção a chefe do departamento de desenho mecânico do científico local, e depois sua nomeação como conselheiro estudantil, e depois sua aposentadoria e vida subsequente como comerciante e restaurador de relógios antigos. As engrenagens de bronze mutiladas dos relógios que ele estivera consertando estavam espalhadas em meio à bagunça. George olhou para o alto, três andares acima, vendo as vigas expostas do telhado e as capas gordas de isolante prateado que corriam entre elas. Algum de seus netos (qual?) havia fixado o isolamento anos atrás, e agora duas ou três camadas estavam soltas e balançavam feito línguas de lã cor-de-rosa. O teto desabou, trazendo uma avalanche de madeira e pregos, tela de alcatrão, telhas e isolante. Ali estava o céu, coberto de nuvens de topo plano que pairavam feito uma frota de bigornas cruzando o azul. George teve a sensação crua e úmida de estar ao ar livre quando se está doente. As nuvens se detiveram, pararam por um instante e tombaram sobre sua cabeça. Seguiu-se o próprio azul do céu, escoando das alturas para dentro daquele caótico fosso de concreto. Em seguida caíram as estrelas, tinindo em torno dele como ornamentos desprendidos do céu. Por fim, a própria vastidão negra se desatou e precipitou como um manto sobre toda aquela pilha, cobrindo a obliteração confusa de George. Quase setenta anos antes de George morrer, seu pai, Howard Aaron Crosby, ganhava a vida dirigindo uma carroça. Era uma carroça de madeira. Era uma cômoda montada sobre dois eixos e rodas raiadas. A cômoda tinha dezenas de gavetas, cada uma com um aro de latão, abertas com um indicador em gancho e contendo pincéis e óleo de peroba, pó para os dentes e meias de náilon femininas, creme e lâminas de barbear. Havia gavetas com cera de sapato e cadarços para botas, cabos de vassoura e bases de esfregão. Havia uma gaveta secreta na qual ele guardava quatro garrafas de gim. Howard transitava sobretudo por estradinhas vicinais, trilhas de terra que penetravam em bosques e chegavam a clareiras ocultas onde se via uma cabana de madeira cercada de serragem e tocos de árvore e uma mulher com vestido liso e o cabelo puxado para trás com tanta força que ela parecia estar sorrindo (não estava), parada sob um batente de porta torto e, nas mãos, uma escopeta para caçar esquilos, carregada.

Ah, é você, Howard. Bem, acho que preciso de um dos seus baldes de alumínio. No verão, Howard sentia cheiro de urze e cantava someone’s rocking my dreamboat e fitava uma mariposa (mira a moça, para e pousa; ele imaginava ser uma espécie de poeta) e as borboletas-monarcas vindas do México. A primavera e o outono eram as épocas mais rentáveis, o outono porque os moradores dos grotões estocavam para o inverno (Howard empilhava produtos na carroça e avançava sobre folhas de bordo flamejantes), a primavera porque já estavam desabastecidos, às vezes havia semanas, esperando que as estradas abrissem e Howard pudesse reiniciar suas rondas. Nessa época as pessoas se aproximavam da carroça como que sonâmbulas: de olhos vívidos e vorazes. Howard às vezes voltava dos bosques com encomendas de caixões — uma criança, uma esposa envolta num tecido grosso, rígida na cabana de guardar lenha. Howard era funileiro. Panelas de alumínio, ferro trabalhado. Solda derretida e vertida num molde de cerâmica. Mercúrio, remendos. De quando em quando uma panela consertada a marteladas, lisa outra vez, um tinido sibilante, um tímpano tímido sob o dossel da floresta boreal. Andarilho, latoeiro, mas sobretudo baterista de escovas e esfregões. George sabia cavar e despejar as fundações de concreto para construir uma casa. Sabia serrar a madeira e pregar a armação. Sabia passar a fiação pelos quartos e instalar o encanamento. Sabia montar a parede de gesso. Sabia deitar o piso e telhar o teto. Sabia construir degraus de tijolos. Sabia passar a massa nas janelas e pintar as molduras. Mas não sabia arremessar uma bola e não aguentava caminhar um quilômetro; detestava fazer exercício, e ao se aposentar, aos sessenta anos, nunca mais deixou seu coração se acelerar, a não ser que precisasse abrir caminho entre arbustos densos para chegar a um bom lago com trutas. A falta de exercício pode ter sido a razão pela qual, ao terminar seu primeiro tratamento com radiação para o câncer na virilha, suas pernas incharam feito duas focas mortas numa praia e então ficaram enrijecidas como troncos. Antes de ficar acamado, George caminhava como um amputado de guerra antes da invenção das próteses modernas; cambaleava como se à sua cintura tivessem sido presas duas pernas de pau com pinos de ferro. Quando a mulher de George tocava suas pernas à noite na cama, por cima do pijama, pensava em carvalho ou bordo e precisava se forçar a pensar em outra coisa para não se imaginar descendo até a oficina no porão e pegando lixas e verniz e lixando as pernas do marido e as envernizando com um pincel como a um móvel. Certa vez ela quase engasgou, tentando conter uma risada, quando pensou, Meu marido, a mesa. Depois se sentiu tão mal que chorou.

A teimosia de algumas das mulheres do interior com quem entrava em contato em suas rondas diárias fez crescer em Howard, acreditava ele, ou teria acreditado se tivesse pensado conscientemente no assunto, uma paciência racional e inabalável. Quando a empresa de sabão parou de produzir o velho produto, adotando uma nova fórmula e mudando o desenho da embalagem, Howard teve de suportar debates nos quais logo se teria dado por vencido, caso seus adversários não fossem clientes. Cadê o sabão? Este é o sabão. A caixa é diferente. É, eles mudaram. Qual era o problema da caixa antiga? Nenhum. Por que mudaram? Porque o sabão é melhor. O sabão é diferente? É melhor. Não tinha nada de errado com o sabão antigo. É claro que não, mas este é melhor. Não tinha nada de errado com o sabão antigo. Como este pode ser melhor? Bom, ele limpa melhor. Antes limpava bem. Este limpa melhor — e mais rápido. Bom, eu vou levar só uma caixa do sabão normal. Este é o sabão normal agora. Eu não posso comprar o meu sabão normal? Este é o sabão normal; eu garanto. Bom, eu não gosto de experimentar um sabão novo. Não é novo. O senhor é quem manda, sr. Crosby. O senhor é quem manda. Bem, madame, está faltando mais um centavo. Mais um centavo? Para quê? O sabão custa um centavo a mais, agora que é melhor. Eu tenho que pagar um centavo a mais por um sabão diferente numa caixa azul? Eu vou levar só uma caixa do meu sabão normal.

George comprou um relógio quebrado em segunda mão. O dono lhe deu de brinde a cópia de um manual de consertos do século XVIII. Pôs-se a cutucar as entranhas de relógios velhos. Por ser maquinista, sabia de relações de engrenagens, de pistões e pinhões, de física, da resistência dos materiais. Por ser ianque da costa norte, sabia onde o velho dinheiro repousava, cochilava, sonhando com fábricas de lã e pedreiras, cotações pelo telégrafo e caça à raposa. Descobriu que os banqueiros pagavam bem para que suas teimosas relíquias de família continuassem a marcar a hora. Sabia substituir à mão o dente gasto na roda da soneria. Apoie o relógio com a face para baixo. Desenrosque os parafusos; talvez apenas os puxe da caixa de cedro ou de nogueira, as roscas há muito transformadas em pó espanado da cornija da lareira. Retire o fundo do relógio como a tampa de um baú de tesouro. Aproxime a luminária de braço longo, logo acima do ombro. Examine o metal escuro. Veja os pinhões emperrados com poeira e óleo. Veja as ondulações azuis, verdes e roxas de metal martelado, torcido, inflamado. Meta o dedo no relógio; cutuque a roda de escape (cada parte tem um nome perfeito — escape: o final da máquina, o local por onde a energia vaza, é libertada, marca o tempo). Aproxime o nariz; o metal tem cheiro tânico. Leia os nomes entalhados nas engrenagens: Ezra Bloxham–1794; Geo. E. Tiggs–1832; Thos. Flatchbart–1912. Remova as engrenagens escurecidas da caixa. Mergulhe-as em amônia. Depois as retire com o nariz ardendo, os olhos lacrimejantes, veja-as reluzir como estrelas através das lágrimas. Lime os dentes. Fixe os rubis.

Posicione as molas. Conserte o relógio. Acrescente o próprio nome. Funileiro, timpaneiro. Tim, tim, tim. Tintinabulante. Havia o som das panelas e dos baldes. Havia também o som nos ouvidos de Howard Crosby, um tinido que começou à distância e foi se aproximando até se acomodar em seus ouvidos, depois entranhar neles. A cabeça de Howard ressoava como um badalo de sino. O frio invadia as pontas de seus pés e fazia trepidar as entranhas do tinido, atravessando o corpo de Howard até seus dentes tiritarem e seus joelhos vacilarem, obrigando-o a se abraçar para não desmanchar. Essa era sua aura, um halo frio de eletricidade química que o circundava imediatamente antes de ser atingido por uma convulsão plena. Howard tinha epilepsia. Sua mulher, Kathleen, Kathleen Black quando solteira, dos Black de Québec mas de um ramo reduzido e austero da família, afastava as mesas e as cadeiras e o conduzia até o chão no centro da cozinha. Envolvia um graveto de pinho num guardanapo para que Howard o mordesse, de modo a não engolir nem mastigar a própria língua. Se a convulsão viesse logo, Kathleen enfiava o graveto nu entre os dentes de Howard, e ele acordava com a boca cheia de farpas e com gosto de seiva, a cabeça tal qual um pote de vidro cheio de chaves velhas e parafusos enferrujados. Para remontar o relógio desmantelado, a platina principal é depositada sobre um leito de pano macio, de preferência camurça grossa dobrada várias vezes. Cada roda e seu eixo são inseridos no orifício correto, começando pela roda central e seu fuso corrediço, esse maravilhoso cone sulcado entregue à humanidade pelo sr. Da Vinci, seguindo até a menor, os dentes de uma entrelaçados no pinhão da seguinte, e assim por diante, até que o balanço do mecanismo sonoro e a roda de escape do trem de engrenagens ocupem seu devido lugar. Agora o horologista examina uma engenhoca aberta que parece retirada de um conto de fadas; as peças avançam e retrocedem como uma máquina preguiçosa num sonho. O tempo do universo não pode ser marcado de tal forma. Um apetrecho tão frágil e torto só poderia contar as horas fantásticas de fantasmas ingovernáveis. A chapa dianteira das engrenagens é tomada na mão e encaixada nas árvores das molas de corda e de percussão, que são, entre as diversas partes, as maiores e mais fáceis de encaixar. Isso feito, o horologista levanta então esse raquítico sanduíche de tripas soltas ao nível dos olhos, mantendo as peças próximas entre si pela compressão das duas chapas, tomando cuidado para não aplicar pressão de mais (danificando assim as extremidades mais finas das árvores não alinhadas) nem de menos (o que faria com que a máquina quase reformada se desmontasse, fosse reduzida às suas partes constituintes, que frequentemente escapam para recantos obscuros e empoeirados da oficina do horologista, causando muita profanação e blasfêmia). Quando o paciente horologista terminar seu empreendimento, se, ao ter sua roda central girada com o polegar, o relógio guinchar e gaguejar em vez de zunir e murmurar com uma lógica metálica, o processo deverá ser revertido e executado mais uma vez com calma racionalidade, até que os demônios da desordem sejam conjurados. Em relógios com apenas um trem de engrenagens, reanimar a máquina é simples.

Dispositivos mais sofisticados, os que são construídos com habilidades adicionais — uma pantomima da lua ou um bobo fazendo malabarismos com frutas — requerem destreza e tenacidade quase infinitas. (O autor já ouviu falar de um relógio, supostamente visto na Boêmia Oriental, que se assemelhava a um grande carvalho moldado em ferro e bronze em torno do mostrador. Com o passar das estações de sua terra natal, os milhares de folíolos de cobre que adornavam os ramos da árvore, cada um atrelado a um carretel fino como um fio de cabelo, passavam do verde-esmeralda a um vermelho metálico. Então, graças a mecanismos admiráveis no interior da caixa — esculpida à semelhança de um dos pilares míticos que teriam um dia sustentado a Terra —, os ramos perdiam as folhas, que espiralavam em seus fios, caíam e se espalhavam na parte baixa do mostrador. Se tal máquina de fato existiu, nem mesmo o sr. Newton poderia ter se sentado aos pés de árvore mais maravilhosa.) — de O horologista lógico, Reverendo Kenner Davenport, 1783 George Crosby se lembrou de muitas coisas ao morrer, mas numa ordem que não conseguia controlar. Examinar a própria vida, fazer o inventário que, como sempre imaginara, um homem deveria fazer ao chegar ao fim, era testemunhar uma massa em movimento, os ladrilhos de um mosaico a girar, rodopiar, redesenhar, sempre em feixes de cores reconhecíveis, elementos familiares, unidades moleculares, correntes íntimas, mas também já independentes de sua vontade, mostrando-lhe um eu distinto a cada vez que tentava fazer uma avaliação. Cento e sessenta e oito horas antes de morrer, George se espremeu pela janela do porão da Igreja Metodista de West Cove e tocou a campainha na noite do Dia das Bruxas. No porão, esperou que seu pai o açoitasse pela travessura. O pai soltou uma enorme gargalhada e deu um tapa na própria perna, porque George havia forrado o fundilho das calças com edições velhas do Saturday Evening Post. Ficou sentado em silêncio no jantar, temendo olhar para a mãe porque já eram onze da noite e o pai ainda não estava em casa, e ainda assim a mãe os fez sentar diante da comida fria. Casou-se. Mudouse. Foi metodista, congregacionalista e, finalmente, unitarista. Desenhou máquinas e deu aulas de desenho mecânico e teve ataques cardíacos e sobreviveu, acelerou pela rodovia nova antes de inaugurada com os amigos da faculdade de engenharia, ensinou matemática, fez um mestrado em pedagogia, prestou orientação vocacional a alunos da escola secundária, voltou ao norte todos os verões para pescar com mosca junto aos parceiros de pôquer — médicos, policiais, professores de música —, comprou um relógio quebrado e uma reimpressão de um manual de consertos do século XVIII num mercado de pulgas, aposentou-se, fez viagens em grupo à Ásia, à Europa e à África, consertou relógios por trinta anos, mimou os netos, contraiu Parkinson, contraiu diabetes, contraiu câncer, e estava deitado num leito de hospital no meio da sala, bem ali onde ficava a mesa de jantar, com suas duas partes dobráveis que se abriam nos feriados. George nunca se permitiu imaginar seu pai. Uma vez ou outra, porém, quando estava consertando um relógio, quando uma mola que ele tentava convencer a entrar em seu tambor se soltava da árvore e explodia, cortando-lhe as mãos, às vezes danificando o resto do mecanismo, George tinha uma visão do pai no chão, chutando cadeiras com os pés, amontoando tapetes, luminárias caindo das mesas, a cabeça batendo nas tábuas do piso, os dentes fincados num graveto ou nos dedos de George. A mãe de George vivera com ele e com a família até morrer. De vez em quando, sobretudo durante as refeições, talvez por ser esse o local em que seu marido se adiantara a ela, conseguira ludibriá-la, deixando-a na mesa de jantar com seus planos de se livrar dele, lembrava-se de como o pai de George fora um homem frívolo. No café da manhã, ela abocanhava uma colher de mingau de aveia e retirava a colher do aperto da dentadura com sucções e tinidos assombrosos e dizia algo como, Um poeta, rá! Ele tinha um cérebro de passarinho, era uma gralha, uma ave biruta batendo asas por aí com esses ataques e tudo o mais. Mas George perdoava o coração desafeiçoado da mãe. Sempre que pensava no que os lamentos amargos da mãe tentavam estancar, George era tomado de lágrimas e se detinha, olhava por sobre as manchetes do jornal do dia, inclinava-se e lhe beijava a fronte canforada. A tal gesto ela dizia, Não venha tentar me fazer sentir melhor! Aquele homem enturvou para sempre a minha paz de espírito. Maldito palerma! E até isso fazia George se sentir melhor; essas ladainhas incessantes a apaziguavam, fazendo-a recordar que aquela vida havia ficado para trás.

Deitado em seu leito de morte, George queria ver o pai mais uma vez. Queria imaginar o pai. Sempre que tentava se concentrar e voltar atrás, escavar bem fundo, para longe do presente, uma dor, um ruído, alguém virando-o de um lado a outro para trocar os lençóis, as toxinas que vazavam de seus rins entupidos pelo câncer para o sangue cada vez mais espesso e escuro o traziam de volta para seu corpo esgotado e sua mente desordenada. Uma tarde, na primavera anterior à sua morte, George, cuja doença se consolidava, decidiu ditar memórias e histórias de sua vida num gravador. A mulher tinha saído para fazer compras, por isso ele levou o aparelho à sua mesa de trabalho no porão. Abriu a porta entre a oficina e o quarto de ferramentas. Havia ali um fogão a lenha, entre a furadeira de bancada e o torno mecânico. Amassou uns jornais velhos e os colocou no fogão, junto a três troncos do feixe de lenha que ele guardava empilhado num canto remoto da oficina, junto à porta que dava para o depósito. Acendeu o fogo e ajustou a chaminé, na esperança de aquecer o frio cimentoso do porão. Retornou à sua mesa na oficina. Havia um microfone barato plugado ao gravador, que não ficava em pé na presilha que o envolvia. A presilha era tão leve que a volta no fio que ligava o microfone ao gravador o fazia tombar a toda hora. George tentou endireitar o fio, mas o microfone não ficava em pé, por isso se contentou em apoiá-lo sobre o gravador. Os botões do apetrecho eram duros, e era preciso fazer algum esforço ao apertá-los até que se acomodassem em seu lugar com um clique. Cada botão estava marcado com uma abreviatura críptica, e George teve de experimentar cada um deles até estar convencido de que havia encontrado a combinação correta para gravar sua voz. A fita no gravador tinha um rótulo cor-de-rosa desbotado no qual fora datilografado Coletânea de blues antigo, Copyright Hal Broughton, Jaw Creek, Pensilvânia. George recordou que ele e a mulher tinham comprado a fita em algum dos cursos para a terceira idade do Elderhostel College que fizeram durante o verão havia anos. Ao apertar o play pela primeira vez, uma voz de homem, fina e remota, chilreou uma canção sobre um cão do inferno em seu encalço. Em vez de rebobinar a fita, George sentiu que esse lamento seria uma boa introdução à sua narrativa, por isso apenas se pôs a gravar. Aproximou-se do microfone com os braços cruzados e apoiados na beira da mesa, como quem responde perguntas num tribunal. Começou formal: Meu nome é George Washington Crosby. Nasci em West Cove, Maine, no ano de 1915. Mudei-me para Enon, Massachusetts, em 1936. E assim por diante. Depois dessas estatísticas, descobriu que só conseguia pensar em anedotas chulas e ligeiramente obscenas, ligadas sobretudo a façanhas idiotas realizadas depois de beber muito uísque durante uma viagem de pesca, e frequentemente centradas em dar de cara com um guarda florestal com um cesto cheio de trutas e sem licença de pesca, ou numa pistola que um médico havia levado para o bosque: Se essa pistola for nove milímetros, vou beijar a sua bunda congelada bem aqui no gelo; a letra de uma música chamada “Abra os olhos, mulher, com você acordada é melhor”.

E assim por diante. Mas depois de um punhado dessas histórias, pôs-se a falar do pai e da mãe, de seu irmão Joe e das irmãs, dos cursos noturnos que fez para terminar a faculdade e de ser pai. Falou da neve azul e de barris cheios de maçãs e de cortar lenha congelada tão frágil que ressoava ao ser partida. Falou da sensação de ser avô pela primeira vez e de pensar no que deixaremos para trás depois de morrer. Quando a fita chegou ao fim, uma hora e meia mais tarde (depois de virar o lado uma vez, quase sem se dar conta), e o botão de record saltou com um estalido, George chorava abertamente e lamentava a perda desse mundo de luz e de esperança. Profundamente comovido, tirou a fita da máquina, virou-a de volta ao início, encaixou-a em seu confortável berço de cabeçotes e pinos guias e apertou o play, pensando que talvez preservasse esse estado de sofrimento puro e límpido ao escutar a reprodução da narrativa. Imaginou que suas memórias pudessem soar como as de um estranho admirável, uma pessoa que ele não conhecia mas que reconhecia de imediato e amava enternecido. Em vez disso, a voz que ouviu soou nasalada e chorosa, além de, ainda pior, não muito polida, como se ele fosse um caipira chamado, talvez por gozação, a testemunhar sobre coisas sagradas, como se não fosse o testemunho, e sim sua hesitação ao proferi-lo, a razão de sua presença ante algum senado medonho e celestial. Escutou seis segundos da fita antes de ejetá-la e jogá-la nas chamas que ardiam no fogão. Capim e flores silvestres cresciam alto entre os sulcos das estradas de terra, alisando o ventre da carroça de Howard. Ursos coletavam frutas nos arbustos à beira da estrada. Howard tinha um mostrador de pinho, preso com fitas de couro falso e tingido para parecer imbuia. Dentro, no falso veludo, viam-se brincos dourados baratos e pingentes de pedras semipreciosas. Howard abria esse mostrador para mulheres malvestidas do interior enquanto seus maridos cortavam árvores ou ceifavam a roça. Howard lhes mostrara a mesma meia dúzia de peças na última vez que passara por ali, quando pensou, Esta é a estação — conservas feitas, pilhas altas de lenha, vento forte e mais frio, a noite mais cedo a cada dia, a escuridão e o gelo que avançam do norte, eles enfurnados na madeira bruta das cabanas, nos abrigos rústicos que cedem e por vezes sucumbem sob o peso da escuridão e do gelo, sepultando famílias durante o sono, a escuridão e o gelo e às vezes o céu rubro entre as árvores: o desgosto de um sol frio. Pensou, Compre o pingente, segure-o na mão descoberta entre as pregas do vestido e deixe que a luz baixa do fogo o roce de madrugada enquanto você espera o telhado sucumbir ou a sua força de vontade rachar e o gelo ficar grosso demais para ser cortado com o machado, você ali parada calçando as botas de seu marido no lago congelado à meia-noite, o golpe seco da lâmina no gelo tão pequenino sob as estrelas que giram gélidas, o véu insonoro dos céus, que o seu marido jamais despertaria de seu sono na cabana do outro lado do gelo, jamais ouviria e viria correndo, semicongelado, vestindo apenas as ceroulas, para salvá-la, para evitar que você abra um buraco no gelo e entre nele como numa veia azul que desce para o fundo negro e lamacento do lago, onde você não veria nada, talvez apenas sentisse nas trevas o movimento de algum peixe sonolento que tivesse os sonhos letárgicos de mares ancestrais perturbados pelo seu mergulho com o vestido de lã e as botas pesadas. Talvez não sentisse nem isso ao se debater em roupas que parecem piche frio, e ao alentecer, acalmar-se até, e ao abrir os olhos e procurar um pulso de prata, uma superposição de escamas, e ao fechá-los outra vez e sentir as pálpebras se transformarem numa pele escorregadia, íctica, o sangue atrás delas frio de súbito, e ao perceber que não se importa, que quer finalmente descansar, quer por fim nada além do murmúrio súbito e novo que corre entre os seus olhos. O gelo é grosso demais, não pode ser atravessado. Você nunca vai conseguir. Nunca conseguiria. Portanto compre o ouro, aqueça-o com a sua pele, deite-o no colo quando estiver sentada diante do fogo, e tudo o que você de outra forma terá para observar será seu marido arrasado mascando goma ou o craquelado das suas mãos secas. Mulher alguma jamais comprou uma joia. Alguma talvez erguesse um pingente de seu leito e o esfregasse entre os dedos. Ela diria, Sem dúvida, quando ele dissesse, Bom, essa sim é uma bela peça. Às vezes via o rosto de uma mulher captar por uma fração de segundo — a joia atiçava alguma esperança pessoal semiesquecida — qualquer sonho do auge distante do casamento.

Ou um sobressalto na respiração, como se algo há muito fincado com um prego ou suspenso numa corrente parecesse se desprender, mas só por um segundo. A mulher devolveria a bugiganga oferecida por Howard. Não, não, acho que não, Howard. Restituído o mostrador à gaveta, Howard daria meiavolta com a carroça no quintal e se poria novamente em marcha pelo bosque, o inverno já clausurava a gente do campo atrás dele.

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