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A Revolucao Alema (1918-1923) – Isabel Maria Loureiro

De 1918 a 1923, a Alemanha foi palco da primeira revolução numa sociedade industrial desenvolvida. Depois da Revolução Russa em 1917, pela primeira vez pareciam possíveis as perspectivas de uma vitória do socialismo no Ocidente. Mas, contrariamente ao que ocorreu na Rússia, a Revolução Alemã fracassou, e a vitória das forças conservadoras acabou por pavimentar o caminho para a queda da República e a ascensão do nazismo. Poucos períodos históricos no século XX suscitaram tanto interesse por parte dos estudiosos quanto os anos que precederam a vitória de Hitler, a chamada República de Weimar (1919-1933). Foram tempos de grande efervescência cultural e política, em que a Alemanha imperial passou por profundas transformações, que não bastaram, porém, para liquidar os resquícios do antigo regime. A sociedade alemã precisou de duas guerras mundiais e da barbárie nazista para finalmente abandonar o Sonderweg (caminho particular) e entrar no círculo das democracias ocidentais, o que o historiador H. A. Winkler denominou “longo caminho para o ocidente”. Não vai aqui nenhum juízo de valor, no sentido de transformar em modelo a democracia parlamentar – hoje mais que nunca apenas uma máscara para a acumulação do capital -, embora seja perfeitamente compreensível que a experiência do nazismo tenha tornado desejável, por parte dos alemães, a aceitação dos valores democráticos do Ocidente. Depois da Segunda Guerra Mundial, os historiadores alemães procuraram responder a estas perguntas cruciais: como tinha sido possível a chegada de Hitler ao poder e se o caminho da catástrofe poderia ter sido evitado. Uma das pesquisas mais esclarecedoras, para dar resposta a essas questões, feita a partir dos anos 1960 por historiadores como E. Kolb e o próprio Winkler, diz respeito ao papel dos conselhos na chamada Novemberrevolution de 1918-1919 (Revolução de Novembro). Ela mostra, a partir de exaustivas fontes primárias, que apesar das peculiaridades da formação social do país, a ascensão de Hitler não era, para retomarmos o título do livro de E. Niekisch, “uma fatalidade alemã” Eis uma boa razão para revisitar essa revolução derrotada. Mas, se ela não bastasse, ainda haveria uma outra. Esse período mostra em filigrana de que modo as divergências teóricas e práticas no campo da esquerda alemã – que culminaram no assassinato dos dois líderes da extrema esquerda, Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, no dia 15 de janeiro de 1919 – deram origem a uma guerra civil perversa, que abriria um abismo insuperável entre socialistas “moderados” e “radicais”, levando ao fortalecimento e à vitória da contrarrevolução nazista. Lembrar não só os vitoriosos, mas também, como quer o historiador inglês E. P. Thompson, os “becos sem saída, as causas perdidas e os próprios perdedores”, é um modo de recuperar as esperanças do passado. Delas fazem parte os conselhos de operários e soldados, que Hannah Arendt considerava o “tesouro perdido” da tradição revolucionária. Após a queda do Muro de Berlim e o colapso dos países comunistas, quando grande parte da esquerda mundial aderiu alegremente à Realpolitik, vale a pena refletir sobre um momento da história em que a utopia socialista ainda não tinha sido atirada ao depósito das coisas inúteis. Sem querer (nem poder) entrar no campo minado das controvérsias historiográficas, não resta dúvida de que o século XX alemão, e em particular o período que vai do imediato pós-Primeira Guerra Mundial até a derrota definitiva do movimento revolucionário em outubro de 1923, só pode ser entendido se retrocedermos à segunda metade do século XIX, quando são criadas as estruturas da Alemanha moderna. Comecemos com um lugar-comum que tem livre circulação desde o século XVIII e que em seguida é retomado por Marx e por um número considerável de estudiosos da história da Alemanha: o tema do atraso econômico, político e intelectual do país em comparação com a Inglaterra e outras nações da Europa continental que tinham feito a revolução burguesa. A servidão predominava, a ponto de alguns príncipes ainda venderem seus súditos a países estrangeiros como soldados mercenários; uma censura severa reprimia qualquer sinal de resistência. A burguesia alemã, dispersa em cerca de trezentos territórios com interesses divergentes, não tinha força para unificar em torno de seu programa as outras camadas sociais que se opunham a uma nobreza arrogante, detentora de privilégios grotescos já eliminados nas nações do outro lado do Reno pelas revoluções burguesas.


A nobreza reinava sem oposição. Era contra a “brutal mediocridade” dessa sociedade estamental, “abaixo do nível da história”, que Marx defendia, em 1843, uma solução radical. Na sua análise, o descompasso do país com o presente apresentava uma oportunidade histórica rara. Não se tratava de repetir o modelo moderado das revoluções democrático-burguesas limitadas à mudança política, precisa mente porque na Alemanha não existia uma burguesia capaz de ser sujeito dessa revolução, mas de investir em uma revolução social que seria levada a cabo pelo proletariado nascente. Essa era a única alternativa ao cortejo de misérias decorrentes do capitalismo que começava a implantar-se na Alemanha. 0 prognóstico de Marx pareceu em vias de realizar-se em duas ocasiões: a primeira durante a vaga revolucionária que agitou a Europa em 1848 e se encarnou na Alemanha num forte movimento liberal e democrático reivindicando um Estado democrático-parlamentar, direitos e liberdades civis, tudo isso ligado à palavra de ordem de unificação do país. No interior desse movimento protagonizado pela burguesia, uma fração mais radical advogava, além da soberania do povo, a igualdade social; em outras palavras, mudanças sociais profundas, visando a abolir a sociedade de classes, origem da miséria do proletariado que começava a surgir. A questão social era, já nessa época, motivo de inquietação. Mas a alta burguesia, temendo o radicalismo do povo (operários e burguesia democrata), abandonou seus antigos aliados. No primeiro semestre de 1849, os soldados prussianos aniquilaram os revolucionários que tinham esperado criar, no verão de 1848, uma nação democrática. A segunda ocasião em que o prognóstico de Marx parecia prestes a realizar-se surgiu no final da Primeira Guerra Mundial, no período que vai de 1918 a 1923. Porém, mais uma vez, venceu o “partido da ordem” contra as forças da democracia radical. As razões dessa derrota, que deixou marcas indeléveis na esquerda do século XX, são o que o leitor verá a seguir. Na Alemanha da segunda metade do século XIX, existiam dois projetos políticos em disputa: um liberal e democrático, o outro militarista e reacionário. Com a derrota em 1849 do ideal de uma Alemanha democrática, as elites conservadoras da Prússia, que haviam participado com a Áustria da repressão à revolução – nobreza, burocracia, militares -, lideradas por Bismarck (ministro-presidente da Prússia a partir de 1862 e chanceler do Reich desde 1871), passam a comandar militarmente o processo de unificação nacional. A maior parte da burguesia alemã une-se em torno de Bismarck, inimigo declarado do liberalismo desde 1848, para que ele realize a unidade do país tornada indispensável pelo desenvolvimento das forças produtivas. De 1850 a 1870, a Alemanha, principalmente a Prússia (mas também os pequenos principados e cidades livres que em seguida formariam o Estado alemão), experimenta um desenvolvimento econômico rápido, o que permite criar condições para a unificação nacional. Esta, por sua vez, favorece o desenvolvimento econômico. Só que agora, em vez de ser fruto de um movimento liberal e democrático, a unificação é feita pelo alto, pela diplomacia e pela guerra. De 1862 a 1871, a Prússia anexou principados e cidades livres e obteve algumas vitórias militares contra a Áustria, a Dinamarca e a França (1870-1871). Com isso, a Alemanha se tornou rapidamente a principal potência da Europa continental, na forma de uma confederação sob a hegemonia da Prússia conservadora. Depois da vitória sobre a França, nascia, da guerra e do sangue, o Estado nacional alemão, o Kaiserreich, fortemente marcado pelo espírito militar e autoritário da aristocracia agrária prussiana. Isso ocorreu no dia 18 de janeiro de 1871, quando Guilherme (1797-1888), rei da Prússia, aceitou em Versalhes o título de “imperador alemão”. Desde então, a política alemã tornou-se claramente belicista, não se limitando mais a defender as fronteiras nacionais, mas exigindo a anexação de territórios, começando pela Alsácia-Lorena, eterno espinho na garganta dos franceses. Em outras palavras, os Junker prussianos, nobres proprietários de terras, conseguiram impor à sociedade alemã seu modelo político-institucional militar e autoritário – apoiados por parte da burguesia liberal -, que internamente não oferecia condições para o enraizamento de uma tradição revolucionária democrática, e externamente representava uma ameaça para seus vizinhos europeus.

Esse compromisso entre nobreza agrária prussiana e burguesia deu uma configuração peculiar à Alemanha moderna. 0 diagnóstico de Marx em 1867, no “Prefácio” à primeira edição do primeiro volume de 0 capital, ao retomar o tema do desenvolvimento “desigual e combinado”, resume de modo preciso a configuração social alemã: Onde a produção capitalista se implantou plenamente entre nós, por exemplo, nas fábricas propriamente ditas, as condições são muito piores do que na Inglaterra, pois falta o contrapeso das leis fabris. Em todas as outras esferas tortura-nos – assim como em todo o resto do continente da Europa Ocidental – não só o desenvolvimento da produção capitalista, mas também a carência do seu desenvolvimento. Além das misérias modernas, oprime-nos toda uma série de misérias herdadas, decorrentes do fato de continuarem vegetando modos de produção arcaicos e ultrapassados, com o seu séquito de relações sociais e políticas anacrónicas. Somos atormentados não só pelos vivos, como também pelos mortos. (1983, p.12) O predomínio da Prússia no processo de unificação da Alemanha também teve sérias consequências no plano cultural. Em contraste com os países do outro lado do Reno, a socie dade alemã se formou num ambiente dominado pela tradição militar de comando e obediência – e pela glorificação da força. O Exército era um organismo privilegiado e seus membros, cidadãos que gozavam de prerrogativas, como a que dava a um subtenente prussiano o direito de exigir que umcivil lhe cedesse o lugar na calçada. A virtude primeira do soldado, a disciplina, se estendia a todos os cidadãos. Um exemplo gritante da mentalidade militar do Segundo Império era o das confrarias estudantis universitárias (Burchenschaft), impregnadas de espírito semifeudal. 0 estudante candidato à confraria precisava passar pela prova do duelo, demonstração de honra e coragem, em que cada concorrente sofria um corte no rosto, cujo resultado, visto como uma distinção de classe, era uma cicatriz ostensiva e permanente. Na passagem do século, até mesmo as confrarias estudantis liberais viraram adeptas dessa prática ridícula. Fazer parte de uma confraria significava uma adesão ao espírito aristocrático e conservador do império. 0 Kaiserreich era assim uma sociedade formada de indivíduos disciplinados, treinados para obedecer às ordens do alto sem questioná-las, como exigia o imperador Guilherme II (1859-1941) em 1891, em Potsdam, dirigindo-se aos recrutas na hora do juramento: Os senhores ) .uraram-me fidelidade; isso significa que os senhores são meus soldados … Dada a agitação socialista atual, é possível que eu lhes ordene que atirem em membros da sua família, irmãos ou até mesmo pais. Mas mesmo então, será preciso que os senhores executemminhas ordens sem um murmúrio. (Badia, 1975, p.50) Não por acaso, os estudiosos da época são unânimes ao apontar no alemão médio traços de submissão e servilismo em relação aos de cima, compensados pela agressividade com os de baixo. É com essa matéria-prima psíquica que será moldada mais tarde a massa amorfa dos “pequenos nazistas”. Além disso, a Alemanha imperial tinha também os traços de uma sociedade patriarcal – pelo código civil, as mulheres e os filhos eram subordinados ao marido. Com muita luta – o movimento feminista organizado data do fim do século XIX -, as mulheres conseguiram, desde o começo do século XX, ter acesso ao ensino superior científico e ao mercado de trabalho, embora recebessemsalários 30% a 40% inferiores aos dos homens. Uma das peculiaridades do movimento feminista consistia em que a luta pela igualdade de direitos civis e políticos não se separava de uma certa imagem da mulher, fundamentada na feminilidade e no sentimento materno. Aliás, a grande época do movimento feminista burguês, representado pela Federação Feminina Alemã (Bunddeutscher Frauenverein), fundada em 1894, acabou com a Revolução de 1918, quando as mulheres obtiveram o direito de votar e ser votadas. No caso do movimento feminista proletário, liderado pela militante social-democrata (e mais tarde comunista) Clara Zetkin, com sua crítica à estrutura familiar patriarcal, as coisas eram bem mais complicadas.

A libertação das mulheres estava vinculada à abolição do capitalismo, o que implicava uma luta visando à transformação estrutural da sociedade, não apenas a mudanças formais. A modernização rápida do país revelava outra peculiaridade do comportamento local: o alemão, numa atitude compensatória, via a si mesmo como um ser superior, portador da “Cultura”, identificado com os valores elevados do espírito e contra o materialismo da “civilização” ocidental, percebido como destruidor da pacata vida tradicional. Thomas Mann, no seu primeiro romance, Os Buddenbrook, ao fazer a crônica da decadência de uma família da alta burguesia do norte da Alemanha, simboliza no artista Hanno, o ultimo varão da linhagem, a recusa do mundo pragmático encarnado na ideia de progresso material do Ocidente. Essa suposta superioridade germânica, que exaltava a “comunidade” tradicional, “orgânica”, em contraposição à “sociedade” composta de indivíduos alienados, produto da modernização capitalista, acabou se traduzindo, na época do nazismo, na oposição entre Estado autoritário e democrático, o primeiro sendo visto como o único capaz de proteger a “cultura” germânica da decadente “civilização” ocidental. Em 1890, Guilherme II inaugurou uma fase de política expansionista. A fim de concorrer com a Inglaterra, aumentou a frota naval com o objetivo de conquistar mercados para a economia alemã, o que ficou conhecido como Weltpolitik (política mundial ou imperialista). Teve apoio entusiástico da direita, que se organizou na Liga Pangermanista (Alldeutscher Verband), fundada em 1891, que contava entre seus membros numerosos industriais, professores universitários, generais, jornalistas, políticos, e cuja tarefa era difundir entre o povo as ideias de conquista. Acreditava-se que as virtudes de um povo que se considerava superior, dotado dos melhores generais e dos maiores homens de cultura, lhe davam o direito de aumentar seu “espaço vital” por meio de conquistas. Essa ideologia, difundida pelos discursos do imperador e os cursos do historiador nacionalista (e antissemita) Von Treitschke, penetrou fundo na população. 0 nacionalismo exaltado, beirando o chauvinismo, aliado a um antissemitismo difuso (os judeus sendo identificados como grosseiros acumuladores de dinheiro), deitou profundas raízes na sociedade alemã. Em resumo, a Alemanha do Kaiserreich, desde sua criação (1871) até a Primeira Guerra Mundial (1914), enfrentava todos os problemas de uma sociedade industrial-capitalista pouco desenvolvida, e tentava resolvê-los nos limites das estruturas de poder herdadas do passado, de tal maneira que os privilégios das antigas elites não eram questionados. Na verdade, os grupos dirigentes queriam a industrialização sem as inovações políticas correspondentes: a Alemanha do Segundo Império era umEstado moderno industrializado numa velha casca política autoritária e semifeudal. Daí resultaram as enormes dificuldades para a formação da Alemanha moderna e que estão na origem dos acontecimentos posteriores. Para a social-democracia, essa formação social peculiar representava um problema complicado. Democratizar um país no qual as estruturas repressivas eramum obstáculo implicava que toda revolução política tendia a ser também uma revolução social. Ao mesmo tempo, os conflitos entre capital e trabalho acabavam mascarados como problemas de participação política. A questão social, como já observamos, era um problema da Europa industrializada do século XIX. A social-democracia nasceu e se desenvolveu tendo como alvo de suas críticas a pobreza crescente dos trabalhadores. Bismarck, para combater a social-democracia que via como força desestabilizadora – costumava dizer que “contra os social-democratas só servem os soldados” -, usou todas as armas ao seu alcance, de medidas de política social, ainda que limitadas, para a classe trabalhadora (seguro contra doença, acidentes, amparo à velhice), até a lei de exceção contra os socialistas (1878-1890). Sua política ilustra bem o dito de Lampedusa: é preciso “mudar alguma coisa para que tudo continue igual”. Em uma palavra, a Prússia marcou a Alemanha com seu rosto de Jano bifronte: uma burguesia triunfante, mais voltada para o lucro que para os “estéreis” debates parlamentares, e os grandes proprietários de terra a leste do Elba, cuja arrogância e força militar a Europa temia desde os anos 1860.

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