| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Revolução Francesa 01 – Luís, o Bem-Amado – Jean Plaidy

A mulher na janela olhava para a avenue de Paris; dali, podia divisar a Grande Écurie e a Petite Écurie; e havia muito movimento nas calçadas. Trémula, tentava evitar que a criança notasse seu nervosismo. Mas o menino puxava—lhe a saia. — Maman Ventadour, você está olhando lá para fora e não para mim! Deu as costas para a janela e, ao pousar os olhos no garoto, sua expressão suavizou—se, como sempre fazia por esta criança tão linda e amada. — Olhe! — comandou ele. Enquanto a duquesa de Ventadour assentia para denotar que ele tinha sua atenção, o menino colocou as mãos no tapete e lançou os pés ao ar. Seu rosto, de cabeça para baixo, avermelhado pelo esforço, ria para ela, exigindo sua aprovação. — Muito bem, muito bem, meu querido — aprovou a duquesa. — Mas você já me mostrou o quanto é inteligente, e isso me basta. Ao pôr—se em pé, o menino inclinou a cabeça para um lado, seus cabelos castanhos e grossos caindo sobre o rosto animado. — Quero lhe mostrar de novo, mamãe. — Agora já chega, meu amor. — Só mais uma vez, maman. — Só mais uma vez — concordou. Ela o observou dar sua cambalhota e gritar deliciado enquanto punha mais uma vez os pés no ar. E ela sorriu, dizendo a si mesma: Quem conseguiria ferir esta criança? Quem sentiria por ela qualquer coisa além de encanto por seu charme e beleza? Agora o menino estava satisfeito. Caminhou até a duquesa e parou ao seu lado. Deitou a cabeça sobre um seio da duquesa enquanto ela se permitia enroscar os dedos naquelas mechas de cabelo castanho. A duquesa foi incapaz de resistir ao impulso de abraçá—lo forte, porque temia que, com um de seus movimentos súbitos, o menino fitasse seu rosto e sentisse nele sua apreensão. — Você está me machucando, maman — disse o menino. Mas a duquesa não ouviu o menino, porque agora estava recordando do dia, três anos antes, em que salvara sua vida ao entrar na sala do dr. Fagon. Caso ela não tivesse interferido, o médico teria empreendido uma de suas “curas” drásticas neste corpinho precioso, assim como fizera na mãe, no pai e no irmão do menino. — Cuidarei desta criança—dissera a duquesa naquele dia. E acrescentara, com uma determinação feroz: — Apenas eu e mais ninguém.


Não houve protesto, o que foi estranho, considerando que madame de Maintenon acreditava que Fagon era o maior médico da França. Mas talvez três mortes em um ano tivessem abalado até mesmo a sua fé. Ou talvez, ao perceber o tom ferozmente maternal da duquesa de Ventadour, madame de Maintenon tenha considerado sensato experimentar os seus cuidados em lugar do tratamento desastroso de Fagon. Assim, para fora da sala do médico — com a criança de dois anos nos braços, envolvida nos lençóis que levara consigo marchara a madame de Ventadour; e dia e noite passara cuidando sozinha da criança doente, tornando—se sua guardiã e dama de companhia, e ocupando o lugar da mãe do menino, que morrera seis dias antes do pai dele. Agora o menino desvencilhou—se de seus braços, e duas mãos gorduchas pousaram no colo da mulher enquanto ele a fitava. — O bisavô está indo embora — disse o menino a ela. Ela respirou fundo, mas não respondeu nada. — Então ele não vai mais ser rei — prosseguiu o menino. Assim, só pode haver um rei da França. Você sabe quem, mamãe. Ela colocou a mão no seio; o menino era tão observador que devia ter notado seu coração tamborilante perturbando o tecido da blusa. Ele tinha recuado e estava apoiado sobre as mãos, as pernas meneando no ar, o rosto corado e travesso. — Eu vou lhe dizer, maman. Quando meu bisavô for embora, eu serei o rei da França. No quarto real, Lê Rói Soleil aguardava a morte da mesma forma como vivera, com absoluta dignidade. Estava deitado na cama grande, quase tão alta quanto a cornija, que tinha os cantos decorados com penas de pavão. As cortinas douradas e prateadas eram de damasco; sendo final de agosto, ainda não era época para as mais pesadas, de veludo vermelho. Em vida, o rei seguira o rígido Protocolo de Versalhes, e era característico dele que continuasse a segui—lo mesmo com a morte tão próxima. A pessoa mais calma na câmara do moribundo era o próprio, Luís XIV. O rei confessara e recebera a extrema—unção, cerimónia que ocorrera sob o testemunho dos súditos que foram ao palácio vêlo morrer, como no passado tinham ido assisti—lo dançar nos salões e caminhar nos jardins belíssimos nas cercanias do castelo. Luís aceitou—os agora como aceitara—os sempre. Ele era seu rei e, embora exigisse deles obediência cabal, não faltaria em cumprir o que julgava seu dever para com os súditos. O rei dispensara madame de Maintenon, a guardiã de seus filhos, com quem se casara secretamente trinta anos antes. Ela chorara com grande pesar, e o rei não suportava vê—la às lágrimas. — Você lamenta ver que pouco tempo me resta — dissera—lhe o rei.

— Mas não deve chorar por mim, pois sou um velho e vivi por muito tempo. Achou que eu era imortal? Já fiz a minha confissão. Coloquei minha alma na guarda do Senhor. Agora que me encontro em meu leito de morte, lamento apenas não ter levado uma vida santa. Madame de Maintenon concordara com um meneio de cabeça. Ela jamais perdera ocasião de recordá—lo de seus pecados; e quando ela não estava presente, o rei sentia mais facilidade emesquecê—los. A dor em sua perna às vezes era tão aguda, que o rei não conseguia pensar em mais nada. Os banhos de ervas e leite de asno tinham falhado em curar sua perna, e de nada adiantara quando tentaram esconder—lhe que a gangrena havia se instalado; ele mesmo sugerira a amputação, mas era tarde demais. O rei estava vivendo suas últimas horas. Estava tudo acabado; o longo reinado chegara a um fim. Durante 72 anos Luís XIV fora rei da França, ascendendo de estimado a adorado; e talvez porque em toda a sua vida jamais esquecera completamente a humilhação sofrida por sua família durante a guerra da Fronda, quando era apenas um menino, Luís adquirira aquela dignidade suprema, aquela determinação de que ele sozinho deveria ser o chefe de seu reino. Létat, cest mói!, “O Estado sou eu!”, dissera ele. E isso jamais fora esquecido. Quando se vê à beira de seu fim, um homem recorda incidentes que pareceram insignificantes quando ocorridos, mas que ao serem recordados, revelam—se marcantes. Houve uma ocasião emque Luís prestou visita ao conde de Chantilly, e o peixe encomendado para o banquete não chegou. O cozinheiro, tão transtornado pelo que lhe pareceu uma grande tragédia — o rei por direito divino precisar sentar—se a um banquete que não era perfeito —, cometeu suicídio por ser incapaz de conviver com tamanho opróbrio. E, naquela época, pensou Luís, isso não parecera incongruente. Olhou para o passado e se viu caminhando majestoso através da vida. As cerimónias da corte na qual desempenhara a parte central foram executadas como se a sua pessoa fosse sacra; e ele chegara mesmo a acreditar nisso. Luís defendera ferreamente sua posição como chefe do Estado; e ao contrário de outros reis da França, não permitira que suas amantes influenciassem o governo de seu reino. Ele era o Estado — ele e mais ninguém. Aqui nesta cama, da qual sabia que jamais iria se levantar, Luís dispunha de tempo para rever sua vida e, até certo ponto, avaliar seus atos. Sempre houvera aqueles que lhe diziam que ele era umdeus, e ele não tivera qualquer intento em contradizer isto. Mas deuses não agonizavam numa cama com um membro podre a destruí—los. Ele era mortal; ele era repleto de fraquezas humanas; e como nunca houvera quem lhe apontasse essas fraquezas, ele jamais tentara suprimi—las.

Ele sabia que a cada dia na França havia pessoas que morriam de fome, e que fora ele quemdesperdiçara em guerras a substância da França. Ah, mas ele não fizera isso pela glória da França, pelo enriquecimento de seu povo? Não, ele fizera isso pela glória de Luís XIV, pelo enriquecimento de Luís XIV! A guerra sempre o excitara. Luís nutrira sonhos de um império colonial francês, o maior do mundo. E por todo o país havia exemplos de seu amor pela ostentação. Havia este castelo em si, Versalhes, que ele exigira ser o mais esplêndido no mundo; e não foi por acidente que muitos simbolismos infiltraram—se nas decorações. As colunas de Lê Vau tinham tencionado representar os meses do ano; as máscaras sobre as janelas do térreo mostravam o progresso de um homem ao longo da vida, pois Versalhes pretendia representar um sistema solar que circundava um grande sol… e esse sol era Lê Rói Soleil, o Rei Sol. E devido a essa paixão por erigir castelos altos, devido a essa determinação em ir à guerra, muitos de seus súditos tinham sofrido. Se pudesse recomeçar tudo, pensou o rei moribundo, eu agiria diferente. Faria dos meus súditos a minha primeira preocupação, e eles iriam amar—me agora como amaram—me no dia em que me fizeram seu rei — aos quatro anos de idade. Quatro anos de idade!, ruminou. Jovem demais para ser rei da França. E agora, na ala infantil, tão próxima a este aposento, havia outro menininho que dentro de um ou dois dias — talvez dois, porém não mais — usaria a coroa da França. Contemplando a ascensão de Luís XV, Luís XIV ficou tão alarmado com o futuro que esqueceu de lamentar o passado. Ergueu a mão e prontamente um homem com cerca de quarenta anos abeirou—se de seu leito. — Vossa vontade, sire. — indagou. Luís perscrutou o rosto de seu neto, Philippe, duque de Orléans, que tanto lembrava ao rei seu próprio irmão, o monsieur ardiloso e por vezes violento que sempre amaldiçoara o destino que o trouxe ao mundo dois anos depois de Luís. Orléans também possuía uma reputação um tanto má. Seus casos com mulheres — porque neste aspecto era diferente do pai —eram notórios; sua ambição era extrema; desprezava a religião e levava volumes de Rabelais para a igreja, para lê—los durante a missa; dizia—se que ele nutria interesse por magia negra e detinha um conhecimento vasto de poções (era suspeito de haver envenenado os pais do pequeno delfim, o duque e a duquesa de Bourgogne); e bebia desregradamente. Ainda assim, Luís sabia que Orléans não era tão mau quanto os rumores faziam— no parecer, e que por gozar de certo prazer com sua notoriedade, exagerava—a. Talvez quisesse inspirar medo naqueles que o cercavam. Orléans tinha uma natureza boa e um coração generoso; era inteligente; possuía consciência plena dos perigos que ameaçariam um país sem líder; e nutria um grande amor por sua família. Seu amor pela mãe era testemunho disso. Era gentil e terno com o delfim. Luís sabia que os rumores de que Orléans envenenara os pais do menino eram falsos.

Ele era um homem forte, e um país governado por um príncipe regente necessitava de homens fortes. — Sobrinho, traga o menino. Preciso falar com ele antes de morrer. Orléans prestou uma mesura ao rei. Em seguida, chamou um dos seus homens, posicionado à porta da câmara: — Sua Majestade convoca o delfim. Traga—o imediatamente. O pequeno Luís, mão dada com madame de Ventadour, permitiu—se ser conduzido à câmara do rei. Estava ciente da solenidade da ocasião, pois todas as visitas ao bisavô eram solenes. Ao ser chamado, não teve certeza se queria ir; preferiria ser levado a um dos pajens jovens e brincar comele de cavalinho ou amarelinha. Esse aí, pensou Luís, sorrindo para o menino enquanto passava. O menino fez uma mesura, mas madame de Ventadour estava puxando o delfim. A atenção de Luís foi inconsequentemente direcionada para as esculturas de crianças brincando, que o rei imaginara para o jardim. As esculturas pareceram—lhe reais. — Maman, eu queria pular o muro e ir brincar com eles. Mas madame de Ventadour não o ouvia, e ao ver seus lábios premidos, o menino lembrou que ela o levava para visitar seu bisavô; mas apenas por ummomento, porque sua atenção logo foi capturada pelo vitral oeil—de—boeuf, que dava nome a esta câmara. Soltando a mão de madame de Ventadour, o pequeno Luís correu até o vitral. Mas ela logo estava ao seu lado. — Agora não, meu querido. Recebemos uma convocação do rei, e quando o rei ordena, todos devem obedecê—lo. Luís se manteve de semblante cerrado, uma pergunta nos lábios; mas não a formulou, sabendo que se o fizesse madame de Ventadour não iria responder. Ela não estava pensando nele; estava pensando no quarto estatal por trás deste oeil—de—oeuf, ao qual ele e ela tinham sido ordenados a comparecer, e no qual estavam prestes a entrar. O silêncio naquele quarto alarmou a criança. O menino logo percebeu que todos ali voltaramsua atenção para ele. Viu homens e mulheres lacrimosos. Viu seu bisavô deitado na cama magnífica.

Um padre rezava à balaustrada que ficava a alguns metros da cama, e o propósito para tal era impedir que as pessoas se aproximassem demais. Porém o que mais chamou a atenção do menino foi o cheiro doentio que lhe era novo e que o encheu de repulsa. Madame de Ventadour levara—o à beira da cama. Ali ela se ajoelhou, mas sem soltar—lhe a mão. O pequeno Luís observou a mão trémula do bisavô estender—se para tocar o ombro da guardiã. — Eu lhe agradeço, madame — disse o rei. — Acomode o delfim naquela cadeira de braço para que eu possa olhar para ele. Madame de Ventadour obedeceu. A atenção do pequeno Luís foi momentaneamente desviada da cama para a cadeira de braço que era vasta e parecia prestes a engoli—lo. Suas pernas ficarammantidas retas para fora e ele olhou para os próprios pés como se pertencessem a um estranho; mas então a percepção daquele cheiro doentio de morte lembrou—o de que esta era uma ocasião diferente de todas as outras. Ele não queria estar aqui. Ansiava pela informalidade de seus próprios aposentos, ou pela fascinação do oeil—de—boeuf; queria perambular pelos jardins, brincando de se esconder de madame de Ventadour. Queria menear os dedos nas águas frias das fontes; brincar na Groute de Thétis ou na Orangerie. Arqueou os ombros, esquecendo novamente do odor nestes aposentos, envolvido por uma tensão reconhecível até mesmo por sua mente infantil. Mas seu bisavô estava falando com ele, e todos ouviam e olhavam solenemente para o menino. — Minha criança querida — começou o bisavô, e Luís dirigiu—lhe o sorriso que madame de Ventadour acreditava ser o mais encantador do mundo. — Muito em breve você será rei. O delfim continuou a sorrir. Ele teria uma coroa. Será que conseguiria dar cambalhotas usando uma coroa? Mal podia esperar para tentar. — O maior rei no mundo — prosseguiu o bisavô. — E jamais deverá esquecer o seu dever para com Deus. Rezo para que não venha a agir como eu. Evite guerras, minha criança. Permaneça em paz com os seus vizinhos.

Existe felicidade na paz. Sirva o povo. Trabalhe arduamente para aliviar o sofrimento de seus súditos. Ouça os bons conselheiros… O pequeno Luís observava aboca do bisavô; ele continuou a sorrir. Mas sua atenção logo foi atraída pelo quadro de Davi tocando a harpa, que pendia a um lado da cama, com o de João Batista do outro. Ele sabia quem eram eles, porque madame de Ventadour uma vez lhe dissera. Será que ele conseguiria tocar uma harpa? Ele ia ser rei… o maior rei no mundo, então poderia tocar harpa, se quisesse. Ele se perguntou se João Batista sabia dar cambalhotas. — Eu quero agradecer—vos, madame—estava dizendo o rei —, pelo cuidado com que brindou a esta criança. Continue a fazêlo, eu vos rogo. Madame de Ventadour respondeu, numa voz embargada de emoção, que seria de seu maior prazer obedecer ao comando de Sua Majestade. — Minha criança — disse o rei ao pequeno Luís —, é seu dever amar madame de Ventadour. Jamais esqueça o que ela fez por você. com essas palavras o rei capturou a atenção do garoto. Isto era algo que podia compreender. Ele começou a se remexer na cadeira; queria pegar a mão de madame de Ventadour e arrastá—la dali. Estava cansado deste cómodo; não gostava mais dele. Nem Davi nem João Batista encantavam—no mais. — Madame, traga o menino para perto de mim — disse o rei. — Meus olhos estão falhando e não posso vê—lo com clareza. Quando madame de Ventadour o tomou nos braços, o menino sussurrou: — Não. Mas madame de Ventadour não lhe deu confiança. O menino foi sentado na cama e ficou tão perto do velho, que pôde ver as linhas profundas em seu rosto e o suor em sua fronte. As linhas pareciam sulcos de arados nos campos. Luís imaginou—se correndo por esses campos, para longe… muito longe de Versalhes e do leito de morte de seu bisavô.

As mãos velhas seguraram o menino; ele foi capturado num abraço apertado — um abraço coma morte, assim lhe pareceu. O pequeno Luís estava se sentindo sufocado; o rosto velho e o odor onipresente nauseavam—no; ele queria gritar para ser resgatado, mas tinha medo. Prendeu a respiração. Maman Ventadour dissera que todas as coisas ruins passam depressa. Como tomar remédio. Seja um menino bom; tome este remédio e logo lhe darei um doce para remover o gosto. — Senhor, ofereço—vos esta criança — disse o rei. — Rogo—vos para que a abençoe. Para que ela possa honrar ao Senhor como um verdadeiro rei cristão e um rei da França. — Não consigo respirar — disse o delfim baixinho. — Não gosto do senhor, bisavô. O senhor é muito quente e as suas mãos me queimam. O pior ainda estava por vir. Os lábios velhos tocaram os lábios novos. Esta era uma coisa ruim que não podia ser suportada. Um choro alto se elevou do delfim. — Maman, maman… — suplicou. Madame de Ventadour estava agora ao lado da cama, preparada para, em defesa de sua criança adorada, enfrentar a majestade de um rei e a dignidade da morte. Enquanto a madame tomava o menino nos braços, o pequeno Luís virou—se para ela, sorriso estampado no rosto, e abraçou com força seu pescoço, aninhando o rosto em sua curva delicada — a doce e cheirosa maman, o refúgio seguro num mundo assustador. Os olhos de madame de Ventadour rogaram compreensão ao rei. — A senhora deve levar o delfim de volta aos seus aposentos — disse o moribundo Luís. Quando o rei sentou—se calmamente em sua cama, não houve uma pessoa sequer no castelo que não tenha ficado pasma com a forma como ele se preparou para morrer. Profundamente arrependido de seus erros passados, Luís estava determinado a deixar o Estado em ordem. Luís compreendera que, embora na primeira metade de seu reinado tivesse engrandecido o país e brindado a França com uma era próspera, o país agora estava atolado em dívidas, a população se encontrava reduzida, e havia pobreza por toda parte. Essas eram consequências da guerra, e Luís aprendera tarde demais que as guerras traziam mais desastres que glórias.

Os impostos estavam mais altos, e novas taxas, como a capitation, haviam sido impostas. Quando viajara através do país e admirara as construções suntuosas que mandara erigir, deveria tê—los vistos não como monumentos à arte e ao bom gosto do rei, mas como o sinal de uma extravagância pela qual o povo sofrido não podia pagar. Luís tardou demais a ver esses erros, mas agora estava disposto a fazer o que estivesse ao seu alcance para retificá—los. A França precisava de um rei tão forte quanto ele fora em sua juventude, e o que a França tinha? Um menininho de cinco anos. Que calamidade caíra sobre este país! Seu filho, o Grande Delfim, sucumbira à varíola. O filho do Grande Delfim, o duque de Bourgogne, morrera, segundo diziam, de desgosto — seis dias depois de ter a esposa vitimada pela rubéola —, pois era lendária a devoção do duque à duquesa. O filho mais velho deles, o duque de Bretagne, então com cinco anos, morrera no mesmo ano, deixando seu irmão mais novo como o delfim da França. Era como se um feitiço maligno tivesse sido lançado sobre a França para privá—la de seus governantes. Um menininho de cinco anos como rei da França! Ele sabia que não havia tempo para remorso; precisava agir depressa. Ainda assim, tudo que podia fazer era aconselhar seus ministros, pois apesar de o rei jamais ter sido desobedecido em vida, quem poderia dizer que isso continuaria assimdepois de sua morte? Colocou de lado as caixas de despacho e convocou aos seus aposentos os homens mais importantes da França. Silenciosa, demoradamente, Luís estudou os rostos dos homens a quem pretendia confiar as tarefas mais importantes do reino: o duque de Orléans e o duque de Maine. Orléans era arguto; ele seria, até que o pequeno Luís alcançasse a maioridade, o chefe da família real; ele deveria ser o regente. Maine, o filho do rei com madame de Montespan, fora legitimado; era um homem admirável, religioso, que seguia uma vida virtuosa; ele era a escolha ideal para ser o encarregado pela educação do rei. Os olhos do velho rei começavam a embaçar, mas ele conseguiu levantar um pouco o corpo e falar aos homens que ladeavam seu leito: — Meus amigos, estou imensamente satisfeito com seus serviços, e lamento não tê—los recompensado como merecem. Eu lhes imploro, sirvam ao delfim como serviram a mim. Lembrem, ele ainda é jovem, tem apenas cinco anos. Recordo vividamente das provações que sofri em minha infância quando, quase com a mesma idade, herdei o trono da França. Que haja harmonia entre vocês todos; é nela que repousa a segurança do Estado. Nomeio o meu sobrinho, o duque de Orléans, regente da França. Rezo para que ele governe bem e que vocês o obedeçam e que algumas vezes pensem em mim. Muitos dos homens de pé em torno da cama estavam chorando. — Não tenho muitas horas mais para viver — prosseguiu Luís. — Sinto a morte próxima a mim. Sobrinho, nomeio—o regente. E a você, Maine, meu filho, peço que cuide da educação desta criança.

Eu pediria a vocês que não esquecessem de que ele ainda é jovem… jovem demais. Eu manteria o menino com sua guardiã, por quem, como todos vimos, ele é tão profundamente afeiçoado, até seus sete anos. Ao chegar a essa idade, ele deve ser tirado de madame de Ventadour e aprender a se tornar um rei. Cavalheiros, despeço—me de todos. Vocês vêem um rei próximo à sepultura e outro ainda perto do berço. Cumpram seu dever para com o seu país. Longa vida à França! Não havia mais nada que ele pudesse fazer. A noite estava próxima e ele não tinha certeza se veria outro dia. Convocou seus sacerdotes e, durante a noite inteira, eles permaneceram ao seu lado. O rei rezou com eles. Ele estava preparado para partir. — Senhor meu Deus, não me faça esperar muito — murmurou. Quando, na manhã de 1 de setembro, a luz do alvorecer penetrou aquela câmara dourada, as pessoas ao redor da cama ouviram o estertor em sua garganta. Os olhares que trocaram foramsignificativos. — Uma hora, talvez duas… — sussurraram. Estavam certos. Às oito e quinze daquela manhã, Luís XIV abdicou do esplendor que ele criara em Versalhes e o legou aos seus herdeiros. O grão—camarista foi solicitado à câmara. Ele já sabia para qual propósito. Dali a pouco ele caminhou até a sacada, e as pessoas que haviam se aglomerado lá embaixo emexpectativa a este evento suspiraram ao ver a pluma negra no chapéu do camarista. — Lê Rol est mort! — gritou. Então ele deu um passo para trás e apareceu novamente, desta vez usando um chapéu com uma pluma branca. — Vive lê Rói! — bradou. O jovem Luís fora levado por madame de Ventadour até a Galerie dês Glaces. A galeria fascinou—o imensamente.

Ela lhe parecia imensa, um mundo em si própria. Ele ficou parado em pé, fitando as figuras alegóricas que decoravam o teto e se imaginou lá em cima entre elas; era fascinante ver—se refletido nos espelhos com aquele cenário de conto de fadas de flores prateadas e candelabros imensos. Sentia—se feliz em estar ali porque naquele dia vira pessoas demais pela janela de seus aposentos. Elas estavam todas vigiando o castelo, e todas lhe pareceram insuportavelmente feias. Aqui na grande galeria ele estava sozinho com madame de Ventadour, e tudo que podia ver (por quilómetros e quilómetros, disse a si mesmo) era brilhante e bonito. Ele sentia um desejo ardente de correr de uma extremidade à outra da galeria e estava prestes a fazê—lo quando sentiu a mão de sua guardiã pressionando seu ombro, e viu que várias pessoas vinham em sua direção. À frente dessas pessoas estava seu tio Orléans; Luís gostava do tio, que estava sempre preparado para uma brincadeira e o fascinava porque todos o consideravam malvado. E ali estavamtambém o duque de Maine, o conde de Toulouse, o duque de Bourbon e o duque de Villeroi. Esta era realmente uma ocasião especial. Como sempre, Luís virou—se para maman Ventadour para ver qual era sua reação a essa intrusão. Ela estava em pé completamente imóvel, quase como um soldado em posição de sentido, e quando seus olhos encontraram os dele, Luís soube que ela estava muito ansiosa e que ele deveria comportar—se de uma forma que a deixasse orgulhosa. E como amava—a tanto e sempre queria agradá—la, o que aliás não era difícil, ele também se manteve imóvel, esperando. Seu tio Orléans foi o primeiro a chegar a ele. Em vez de erguê—lo e colocá—lo em seu ombro como sempre fazia, ajoelhou—se, tomou sua mão e a beijou. — Como o primeiro de seus súditos, sire, venho prestar minha homenagem e meus serviços à Vossa Majestade — disse Orléans. Luís compreendeu. Seu bisavô havia partido, conforme ele ouvira sussurrarem que aconteceria, e ele próprio era agora o rei. Seus pensamentos inquietos estavam estranhamente concentrados; ele não tentou puxar a espada do tio ou puxar os botões de ouro em seu casaco; estava absorvido por apenas um pensamento: Ele era o rei. A partir de agora ele seria chamado de “sire” e “Vossa Majestade”; os homens iriam curvar—se diante dele e um dia ele iria dormir na grande cama real. Portanto, à medida que cada um desses homens ajoelhou—se diante dele e jurou sua fidelidade, o pequeno Luís manteve—se ereto, olhos brilhando, para que aqueles que o vissem perguntassem a si mesmos: É possível que alguém tão jovem possa entender tanto? E madame de Ventadour manteve— se ao seu lado, transparecendo seu orgulho pela criança a quem tanto amava. Nos dias que se seguiram, o jovem Luís descobriu que havia desvantagens em ser rei. Ele queria dizer: “Basta! Nada mais de reis!”, como quando fazia quando brincava. Era desconcertante descobrir que isto não era um jogo, e que prosseguiria por toda sua vida. Ele precisava comparecer a certas ocasiões solenes, ficar imóvel durante um longo tempo e dizer o que lhe mandavam. Isso podia ser cansativo.

Madame de Ventadour estava vestindo—o em roupas novas de que ele não gostava. Elas eram pretas e roxas, e ele precisava usar um chapéu de crepe hediondo. — Não gosto destas coisas, maman — protestou. — Precisaremos usá—las ao menos uma vez. — Mas não quero usá—las nem mesmo uma vez. — Você precisa ser obediente, meu amor. — Eu não sou o rei, maman! Os reis precisam usar roupas feias? O bisavô não usava. — Ele as teria usado se o povo esperasse isso dele. Reis precisam fazer o que o povo espera que eles façam. — Então de que vale ser rei? — inquiriu Luís. — Isso é uma coisa que você ainda vai descobrir — prometeu madame de Ventadour. E o pequeno Luís se calou, ansioso por fazer essa descoberta. Mas a espera era longa e tediosa. Ele precisou ir a Paris e lá comparecer a um lit de justice no qual o duque de Orléans seria proclamado formalmente regente. Foi um momento empolgante quando ele foi conduzido para a Grande Chambre. Parecia haver uma miríade de pessoas em toda parte, e quando ele entrou, todos se levantaram e tiraram os seus chapéus. Ele olhou—os com uma curiosidade tímida e alguém gritou: — Vive lê Rói! Esse viva ao rei era dedicado a ele próprio, e Luís teria corrido na direção do homem que gritara isso, não houvesse uma mão contentora sobre ele. Madame de Ventador ficava o tempo todo ao seu lado. Luís declarara que não iria a parte alguma sem ela, e embora a madame tivesse meneado a cabeça e dito que ele deveria crescer depressa e aprender a estar sem sua companhia, ele sabia que ela ficaria feliz com isso; assim, era seguro insistir; ele bateria o pé se necessário e diria a todos eles… a cada um deles… que não iria a parte alguma sem a sua querida maman. Ele foi erguido num par de braços fortes que, logo descobriu, pertenciam ao duque de Tresmes, que era o grão—camarista. Mas tudo estava bem, porque maman caminhava bem ao lado do duque. Numa extremidade da Grande Chambre ficava um trono, e neste fora colocada uma almofada de veludo. O duque de Tresmes acomodou Luís na almofada, e madame de Ventadour disse em voz alta: — Messiews, o rei os convocou para expressar seus desejos. Seu camarista irá explicá—los. Luís olhou intensamente para a sua guardiã.

Os desejos dele? Ele se perguntou quais seriam. Seria uma surpresa? Alguma coisa que ele tinha dito a ela que queria… como fazia nos dias santos? Mas ele não conseguia entender sobre o que eles falavam. Era tedioso ficar sentado naquela almofada de veludo. Levantou os olhos para sua governanta, dirigindo—lhe uma expressão suplicante. “Vamos embora agora”, queria sussurrar—lhe. Mas quando estava prestes a falar ela desviou o olhar rápido e ele sentiu medo de falar. Ficou olhando fixamente para o veludo azul com as flores—de—lis bordadas. Então notou o chapéu vermelho maravilhoso que era usado pelo arcebispo de Paris. Ele nunca tinha visto umchapéu como aquele antes. Luís agora sabia o que queria. Queria aquele chapéu vermelho porque odiava o seu próprio chapéu de crepe preto. Ele era o rei e podia ter o que quisesse, porque, do contrário, de que valia a pena ser rei? O arcebispo ajoelhou—se e o chapéu ficou muito perto. As mãpzinhas de Luís investiram para agarrá—lo; e ele teria conseguido se a sempre vigilante madame de Ventadour não o tivesse detido a tempo.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |