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A Revolucao Russa – Rosa Luxemburgo

“Não nos falta nada, minha mulher, meu filho, para sermos livres como os pássaros; nada, a não ser tempo!” (Dehmel, citado por Rosa Luxemburg) I Conta Mathilde Jacob, secretária e amiga de Rosa Luxemburg, que, ao ser presa no início de janeiro de 1919 – momento em que a caçada aos spartakistas se torna mais e mais violenta –, foi visitada na prisão de Moabit por um jovem advogado. Pergunta-lhe o que se passa lá fora. Resposta: “Nada de novo. Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht foram assassinados. Agora temos novamente sossego 1 .” “Sangue clamava por sangue! O banho de sangue pelo qual Liebknecht e Rosa Luxemburg eramresponsáveis clamava por castigo. Este não tardou, e no caso de Rosa Luxemburg foi cruel, mas justo. A galiciana foi espancada até à morte. A temível e todo-poderosa cólera popular exigia vingança.” Assim se exprimia a imprensa de direita, no caso o Tägliche Rundschau 2 . Logo após o assassinato dos dois chefes spartakistas correu a versão de que Karl Liebknecht teria sido baleado numa tentativa de fuga, ao ser transportado para a prisão de Moabit, e Rosa Luxemburg linchada pela multidão enfurecida. Estranha versão, aceita sem crítica, até mesmo pelo comissário do povo Philipp Scheidemann, antigo companheiro de partido, para quem Liebknecht e Luxemburg “foram vítimas da sua própria tática terrorista e sanguinária. (…) A derrota do levante spartakista significa para o nosso povo e, em particular, para a classe operária, um ato de salvação que, perante a história, tínhamos o dever de realizar 3 .” A versão não tardou a ser denunciada pela imprensa de esquerda. Quando a verdade sobre o assassinato se tornou pública, o governo foi forçado a processar os criminosos. A corte marcial realizou-se de 8 a 14 de maio de 1919.Ojulgamento não passou de uma farsa, como o próprio assassino reconheceu 4 . Muito se disse sobre o fim violento de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, prenúncio de tempos sombrios. É certo que o governo socialdemocrata não deu ordem expressa para assassinar os dois chefes spartakistas. Também é certo que nada fez para impedi-lo. Em 1962, o capitão Pabst, 1º oficial do Estado-maior da divisão da cavalaria da guarda, uma das formações paramilitares criadas no início de 1919 para combater os grupos de esquerda, deu a entender, em entrevista a Der Spiegel, que fora diretamente responsável pelo assassinato. Mais tarde, no início de 1966, o mesmo Pabst, então com 85 anos, declarou: “Precisamos reconhecer nosso passado. Ninguém deve envergonhar-se daquilo que fez. Dei aos homens a ordem, que foi cumprida como devia ser. Esses homens foram dignos da Alemanha 5 .


” Quando indagado por que dera ordempara matar uma mulher que notoriamente tivera um papel passivo no levante spartakista, Pabst contou uma estranha história: um dia, um comandante de regimento, nobre e católico, chegara à divisão do Estado-maior e pedira permissão para que Rosa Luxemburg falasse à tropa. O oficial, ouvindo-a, ficou tão impressionado que a “considerou uma santa”, “um novo Messias.” Pabst: “Nesse momento, dei-me conta do enorme perigo que essa mulher representava. Era pior que os outros, os que estavamarmados. Tomei a decisão, assim que fosse comandante de regimento, de eliminar essa demagoga”. Disse ainda temer que, mesmo se Rosa fosse novamente presa, seria posta em liberdade mais cedo ou mais tarde. Decidiu-se, por isso, a fazer justiça por conta própria 6 . O ódio irracional da direita pelos spartakistas e, em particular, por Rosa Luxemburg, persistiu na Alemanha Ocidental, o que em parte se explica por ela ser judia, estrangeira e marxista. Em 1974, o governo socialdemocrata da RFA decidiu lançar um selo comemorativo em sua homenagem. Essa iniciativa desencadeou intensa campanha de repúdio, fazendo vir novamente à tona velhos conflitos não resolvidos. Eis um exemplo: “…fui membro dos corpos francos, ‘Divisão de Ferro’. (…) Sob o comando do ministro socialdemocrata Gustav Noske, os corpos francos realizaram seu dever patriótico de manter o bolchevismo afastado do Reich. E este é o mérito histórico de Friedrich Ebert e Gustav Noske: ter aniquilado o sangrento levante da Liga Spartakus… 7” O assassinato continua sendo justificado, agora, em nome da defesa contra o terrorismo que tomava conta da Alemanha. Rosa é confundida pela opinião pública com Ulrich Meinhof. Já na Alemanha oriental, até recentemente, Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht eram encarados, pela burocracia dirigente, como os pais fundadores e primeiros mártires do comunismo alemão. O 15 de janeiro, data do assassinato, era a ocasião de reafirmá-lo e de ligar o nome de ambos às conquistas materiais ali realizadas com grandes dificuldades, como se essas conquistas encarnassem o “novo mundo” socialista por eles sonhado. Não deixa de ser curioso que também a oposição, na Alemanha oriental, se manifestasse contra o regime em nome das ideias da própria Rosa. Mesmo agora, após a derrota do comunismo, grupos socialistas de oposição continuam exigindo a necessidade de se resgatar suas ideias políticas, como alternativa democrática e socialista ao comunismo e ao capitalismo. Que Rosa Luxemburg seja até hoje odiada pela direita, na Alemanha, é compreensível e revela muito dessa sociedade. Mas que continue sendo uma figura controversa nos meios de esquerda, cujas ideias e exemplo são reivindicados, tanto pelos comunistas ortodoxos quanto pelos socialistas democráticos, já é mais difícil de compreender. Tentaremos esclarecer essa controvérsia, expondo rapidamente a sua trajetória intelectual e política na socialdemocracia alemã, detendo-nos, particularmente, no período da revolução (1918-1919), que acreditamos crucial nessa trajetória. Além disso, os três textos publicados nesta coletânea são fundamentais para compreendermos a polêmica. Os dois primeiros, um por criticar a teoria leninista do partido, o outro a política autoritária dos bolcheviques logo após a insurreição de outubro, foram continuamente utilizados pelos socialistas democráticos contra os comunistas, muitas vezes com citações fora de contexto. Já o terceiro deles, “Oque quer a Liga Spartakus?”, é menos dado a utilizações ambíguas, uma vez que Rosa aí defende claramente sua posição democrática, socialista e revolucionária. II Rosa Luxemburg nasceu a 5 de março de 1870, em Zamosc, Polônia, sendo a mais nova dos cinco filhos do casal 8 .

O pai, Elias, era madeireiro e simpatizava com os movimentos nacionalistas revolucionários da Polônia. A mãe, Lina Löwenstein, descendia de uma família de rabinos. Mais de um terço da população de Zamosc era judia, como os Luxemburg. Estes tinham grande admiração pela cultura alemã, a mãe gostava em particular de Schiller, de tal maneira que em casa falava-se o alemão. Rosa aprendeu cedo também o polonês e o russo. A partir de 1873, em virtude de sérios problemas financeiros, a família muda-se para Varsóvia onde, em 1880, Rosa passa a frequentar um ginásio para moças. Em 1887, começa a participar do movimento operário polonês, ilegal. Em 1889, para não ser presa, foge para Zurich onde estuda ciências, matemática, direito e economia política na universidade. Em 1897, defende sua tese de doutorado sobre o desenvolvimento industrial na Polônia. Um ano mais tarde vai para Berlim, para trabalhar na socialdemocracia alemã. Pode-se dizer que os 23 anos que vão de 1891 a 1914, extremamente ricos do ponto de vista teórico, tem como fio condutor a criação, o apogeu e o desmoronamento da II Internacional. É contra esse pano de fundo que se destaca a obra de Rosa Luxemburg do período. Ao chegar a Berlim, o SPD atravessa um momento difícil que a imprensa burguesa chama de “crise do marxismo”, e que se traduz no revisionismo de Bernstein. Contra essa tendência reformista no interior da socialdemocracia Rosa Luxemburg escreve Reforma social ou revolução? 9 Com essa polêmica, torna-se conhecida e respeitada no interior do Partido Social Democrata Alemão (SPD). Um ano após sua chegada a Berlim, Rosa toma consciência da fraqueza teórica do SPD, sobretudo da superficialidade da implantação do marxismo no partido, que era sobretudo dominado pelos políticos pragmáticos. Passa então a ter como objetivo lutar contra o torpor que domina a socialdemocracia alemã, mesmo correndo o risco de desagradar a quase todos, em virtude de suas posições intransigentes e inconformistas. Entretanto, a rejeição parece não incomodá-la. Rosa sabe que nunca será totalmente aceita no SPD, e isso por três razões: por ser mulher, judia polonesa e marxista de extrema-esquerda. O que não a impede de lutar contra todas as posições que considera equivocadas. Sua linha de conduta é cristalina: permanecer livre acima de tudo, tanto do ponto de vista pessoal quanto político. Embora nessa época Rosa já seja uma personalidade estabelecida no SPD, não se sente à vontade “na atmosfera pequeno-burguesa da socialdemocracia alemã 10 .” Um caráter inquieto, sempre embusca do que considera as posições teóricas e políticas corretas, não lhe permite ficar imobilizada usufruindo da notoriedade adquirida. Em agosto de 1904, o Congresso Socialista Internacional de Amsterdã, em que o revisionismo é finalmente derrotado pelo marxismo ortodoxo 11 , provoca o início de uma mudança de orientação que a leva a reexaminar os objetivos e a estratégia de toda a esquerda marxista. Os dois meses passados na prisão de Zwickau permitem-lhe refletir sobre a polêmica entre ortodoxos e revisionistas e chegar à conclusão de que o papel representado pelo marxismo ortodoxo “não me encanta nem um pouco 12 .” Rosa não tem como objetivo ser guardiã da ortodoxia.

A nova proposta por ela elaborada centra-se na ideia de que apenas fortalecendo o lado revolucionário dentro da organização se poderá combater o oportunismo que toma conta das suas fileiras. Foi também nessa época, mais precisamente no início de 1904, que Rosa publicou “Questões de organização da socialdemocracia russa”, o primeiro texto da presente coletânea. Neste artigo, contra o que considera o excessivo centralismo de Lenin em relação ao partido, defende a ideia de que as direções têm um papel insignificante na elaboração da tática. Esta é muito mais resultado de grandes atos criadores da luta de classes, na maior parte das vezes espontânea, que invenção dos dirigentes. Rosa teme que a concepção centralizadora de Lenin sufoque e controle a atividade do partido russo, alertando para o risco de dominação de um movimento operário ainda jovem por uma burocracia centralizada nas mãos de intelectuais. Este artigo, um dos muitos que escreveu contra as tendências blanquistas, conspirativas no movimento operário russo e polonês, acabou tendo grande divulgação nos meios de esquerda anti-stalinistas, justamente por chamar a atenção para o perigo do sufocamento da atividade das massas por um partido centralista e burocrático. A mudança de orientação acima mencionada, que se esboça no final de 1904, só irá solidificar-se verdadeiramente a partir da revolução russa de 1905. Os artigos, a correspondência e os discursos dessa época são testemunhas de seu entusiasmo em relação aos acontecimentos na Rússia e na Polônia. O contato direto com a revolução é o que provoca a grande mudança desses anos, dando-lhe novo vigor e novas perspectivas. Em contraste com a dinâmica revolucionária em São Petersburgo e Moscou, fica ainda mais evidente para ela o imobilismo do SPD. É nesse período que elabora sua concepção da greve de massas revolucionárias e escreve Greve de massas, partido e sindicatos 13 , onde faz um balanço da Revolução Russa. A experiência revolucionária fortaleceu nela a convicção de que as grandes transformações históricas não são desencadeadas pelas organizações (ainda que estas tenham um papel relevante a desempenhar nesse processo), e de que a consciência de classe é resultado da luta revolucionária: “um ano de revolução deu ao proletariado russo essa ‘educação’ que trinta anos de lutas parlamentares e sindicais não podem dar artificialmente ao proletariado alemão 14 .”) Rosa divulga incansavelmente sua concepção da greve de massas em inúmeros artigos e discursos, procurando, ao mesmo tempo, dar novo conteúdo ao papel que desempenha no SPD: não ser apenas crítica, mas também direção intelectual e política de uma esquerda revolucionária. Começa então a tomar corpo a formação de uma ala esquerda independente, em divergência com o centro do partido, para quem o marxismo não passava de ideologia legitimadora.

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