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A revolução vegana: Por quê e como avançamos rumo à próxima etapa da história – Joseph de la Paz

Quando acabares de ler esta página, 300 000 animais terão morrido às mãos do homem. Se observares o mundo com atenção, verás o ineludível inferno em que o tornámos para a maior parte dos habitantes deste planeta. Por quê? A civilização humana, com todos os seus grandes avanços, assenta na exploração diária e implacável dos mais fracos. Perante a passividade da maior parte de nós, a humanidade está há séculos emestado de guerra com os animais. A nossa política é a superioridade, a agressividade e o domínio. Os animais devem ser domesticados ou extinguidos, devorados ou encarcerados. A revolução agropecuária consolidou-se há aproximadamente 10 000 anos. Chegou o momento de deixá-la para trás. Não se trata somente de uma necessidade imperiosa, tendo em conta a situação do mundo, mas todos os avanços e revoluções anteriores – desde a roda e a imprensa até aos meios de comunicação de massas e a Internet – desembocam, lógica e inevitavelmente, neste momento: estamos às portas da próxima etapa na evolução do homem. “Cheira-se, ouve-se, sente-se. Ao longe, uma fumaça de pó levanta-se. É uma caravana que se aproxima, pouco a pouco, diretamente a nós. É uma era nova que começa. A revolução vegana está a chegar…” Este livro não é uma dissertação sobre a história ou as características do veganismo. Tampouco é uma listagem dos motivos para ser vegano ou das atrocidades cometidas todos os dias no mundo. E, evidentemente, não se pretende convencer ninguém que não tenha dado já um passo em frente. Pensas que os animais são seres sensíveis que merecem um tratamento respeitoso da nossa parte? Interessas-te pelo veganismo? Sentes que por detrás da abstenção de consumir produtos de origemanimais há muitas mais coisas? Preocupas-te com o futuro da humanidade? Se assim for, fica comigo. Proponho-te um percurso através dos principais sete motivos pelos quais a revolução vegana é necessária, desde os mais egoístas até aos mais altruístas; um percurso pelos benefícios físicos, mentais, sociais, materiais e espirituais que podemos ter graças ao veganismo. Proponho-te reformularmos a nossa compreensão do que significa ser vegano e descobrirmos as diferentes camadas que se ocultam por detrás da oposição ao consumo de produtos de origem animal. Proponho-te observarmos, com uma visão renovada, o que acontece em nosso redor, identificarmos de que forma avança o veganismo, em várias frentes, tal como avançaram outras ideias que hoje emdia são aceites sem qualquer discussão. A revolução vegana não é somente necessária, é inevitável. Toda a história humana conduz-nos até este momento. Olhemos para o futuro com espírito de superação e com esperança. Um mundo vegano será um mundo melhor. Está nas nossas mãos.


Comecemos.

Fomos educados na crença de que precisamos de comer muita proteína, tanto para crescermos como para mantermos os nossos corpos saudáveis e em forma. Também nos ensinaram que a proteína, a “boa” proteína, procede principalmente do reino animal, na forma de carne, peixe, ovos, leites e derivados. Mas a verdade é que estávamos errados. Em primeiro lugar, precisamos muito menos proteína do que pensamos e ingerimos. A melhor prova disso? O leite materno. É lógico pensar que é quando somos bebés que mais crescemos e, portanto, precisamos da maior quantidade de proteína da nossa vida. Se analisarmos a percentagem de proteína no leite materno vemos que há somente entre 0,9%[i] e 1,2%, dependendo da forma como calcularmos os dados. Comparativamente, o leite de vaca contém 4 vezes mais proteínas; o leite de coelho tem 10 vezes mais. Não é de estranhar. Nós, humanos, temos características diferentes das de outros animais. Com efeito, cada espécie animal possui as suas próprias particularidades. No nosso caso, a prioridade é o desenvolvimento do cérebro e um crescimento físico lento para dar mais tempo à aprendizagemsocial e ao apego aos progenitores. Em certos casos, os dados disponíveis referem a presença de 5-7% de proteínas no leite materno. A diferença assenta no facto de o cálculo ser realizado, neste caso, como percentagem do total das calorias[ii]. Quer isto dizer que um bebé até 6 meses de idade recebe aproximadamente 6% das suas calorias na forma de proteína. Depois, a natureza diz-nos, através das alterações na composição do leite materno, que essa percentagem continua a diminuir. Mas se decidirmos utilizar este método de cálculo, seja por que motivo for, deveríamos comparar o leite materno com outros alimentos. Assim, por exemplo, os brócolos crus aportam 33% das suas calorias na forma de proteína. Os pistachos torrados aportam 15%. A conclusão é simples. Nas etapas de maior crescimento do ser humano, as percentagens de proteína de que precisamos são muito menores do que as que consumimos atualmente. Exprimido de um ponto de vista diferente, poderíamos dizer o seguinte: é impossível ter uma carência de proteínas que não vá acompanhada ou seja causada por uma simples falta de calorias. Dito de outro modo, se não se tiver fome, é porque tudo indica que já se ingeriu bastante proteína. A exceção seria a de uma pessoa que se empenhasse em comer somente açúcar ou bolachas de chocolate.


Seja como for, uma pessoa que comesse exclusivamente pão ou batatas, para dar um exemplo, sofreria de escorbuto (carência de vitamina C); mas não teria carência de proteína. Para o caso se subsistir alguma dúvida, façamos um desafio público e recorramos ao levantamento de casos de malnutrição e carência de proteínas. Façamos mesmo um donativo de 100 euros por cada caso registado de internamento hospitalar devido a carência de proteína não associada a falta de calorias. Quantos casos desses conheces? Mas, para não sermos melindrosos e com vista a mostrar que não há problema em obter proteína dos alimentos vegetais, atenhamo-nos às recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde): 0,8 gramas de proteína por quilo de massa corporal. Isto equivale, de acordo com parâmetros de boa saúde e condição física, a 10,9% do aporte calórico total diário. Continua a ser, porém, muito menos do que contêm a maior parte dos alimentos vegetais. Em segundo lugar, é preciso esclarecer o mito da “proteína completa”. Não existe uma proteína boa e uma proteína má: podemos encontrar no reino vegetal toda a proteína exigida pelo nosso corpo para o seu bom funcionamento. Vejamos em primeiro lugar o que é uma proteína. As proteínas são moléculas compostas de aminoácidos. Conhecem-se 21 tipos de aminoácidos, dos quais 9 devem ser ingeridos através dos alimentos, sendo que os restantes podem ser reciclados pelas nossas células. Acreditou-se sempre que a proteína animal era mais completa, porque contém os 9 aminoácidos essenciais. Contudo, sabe-se hoje que também os vegetais possuem todos os aminoácidos essenciais, embora um destes exista em quantidades muito baixas. Este é o motivo pelo qual se recomenda normalmente a combinação de certos alimentos. Embora no início parecesse uma arte muito complexa, trata-se na verdade de algo muito simples. É preciso combinar um certo tipo de legumes (grão-de-bico, lentilhas, feijão verde, favas, ervilhas…) com um certo tipo de cereais (trigo, arroz, cevada, milho, aveia…). Para isso, a sábia gastronomia popular do mundo vem em nosso auxílio: arroz com feijão, pita com hummus ou falafel, mujaddara (arroz com lentilhas)… Além disso, contrariamente ao que se pensava no passado, não é preciso combinar estes alimentos na mesma refeição. Ao que parece, nem sequer é preciso que seja durante o mesmo dia, pois o corpo sabe armazenar e utilizar os aminoácidos necessários para construir proteínas. Ainda assim, se isto nos parecer complexo e nos empenharmos em não diversificar minimamente a nossa alimentação – com os outros problemas nutritivos que isso implicaria –, acabaremos por ter a nossa dose recomendada de proteína. Embora não pareça uma ideia muito atrativa, só para ilustrar e demonstrar este ponto, importa saber que a ingestão de 12,75 taças de milho aporta os 63 gramas de proteína “completa” recomendados para um adulto masculino com 80 quilos[iii]. Se não se gostar de milho, pode-se comer 15,5 taças de arroz cozido, ou 8 batatas grandes, ou 2,5 taças de tofu. São dados científicos dos mais básicos. Mas às vezes é mais útil e significativo conhecer os casos de atletas e desportistas de topo veganos. Há cada vez mais, em muitos países.[iv] Especialmente apelativos são os casos do mundo do culturismo.

Por exemplo, Patrick Baboumian, vegano, é o Homem Mais Forte da Alemanha com 105Kg. Alex Dargatz é outro vegano que conquistou o campeonato mundial de culturismo em 2005 no seguimento de 5 anos de abstenção de produtos de origem animal. Kennet G. Williams e Joel Kirkilis também conquistaram campeonatos de culturismo na qualidade de veganos. No atletismo, precisamente nas maratonas e ultramaratonas, os atletas veganos estão a acabar comtodos os preconceitos. Há muita motivação para demonstrar que a dieta estritamente vegetariana ajuda a melhorar os registos físicos de qualquer atleta. A estrela indiscutível nesta categoria é o atleta de ultramaratona Scott Jurek, autor do livro “Correr, Comer, Viver [v]” e vencedor de diversas competições e medalhas em todo o mundo. Vegano desde 1999, conta com milhares de seguidores inspirados pelo seu estilo de vida saudável, a sua atitude ética e o seu espírito de superação. O seu último grande feito – no dia 12 de julho de 2015 – foi bater o recorde do Appalachian Trail (Trilho dos Apalaches), um percurso de montanhismo de 3500 km no Este dos EEUU que Scott Jurek completou em 46 dias, 8 horas e 10 minutos. E, ainda assim, o maior exemplo de todos é talvez o caso de Carl Lewis, um dos maiores atletas de sempre, vencedor de nove medalhas de ouro olímpicas. Após vários anos em que perdera a sua indiscutível hegemonia nas corridas de 100 metros, Lewis adotou uma dieta vegana. Passado um ano, em 1991, nos Campeonatos Mundiais de Tóquio, com seis dos oito finalistas abaixo da barreira dos 10 segundos, Carl Lewis voltou a ganhar e, além disso, bateu o recorde mundial. Com lágrimas nos olhos, ele próprio dizia: “Foi a melhor corrida da minha vida. A melhor técnica, a mais rápida. E filo com 30 anos[vi]”. A influência da dieta vegana nas suas façanhas atléticas era resumida da seguinte forma pelo próprio Carl Lewis: “O meu melhor ano de competição em velocidade foi o primeiro ano em que fiz uma dieta vegana”. Assim, seja de que perspetiva for, podemos estabelecer com consciência tranquila que não temos qualquer necessidade de ingerir proteína de origem animal. Se continuamos a fazê-lo, é por gosto ou por comodidade, não por necessidade. As doenças Mas não é só desnecessário, também é perigoso. Se decidirmos introduzir no nosso corpo, seja por que motivo for, um produto de origem animal, estamos a ingerir ao mesmo tempo toda uma série de substâncias nocivas que prejudicam a nossa saúde. Por norma, os produtos de origem animal têm níveis muito elevados de gordura e de gordura saturada. Com efeito, os animais destinados à produção de carne são cevados e engordados a toque de caixa, mais do que seria natural, pelo que o nível de gordura, já por si elevado, aumenta mais ainda, ao mesmo tempo que a sua qualidade diminui. Além disso, estão repletos de antibióticos, necessários para manter de pé animais criados emcondições muito duras e antinaturais, fruto da necessidade da indústria de “manter baixos custos e aumentar o lucro”. Os antibióticos são administrados habitualmente por pessoal não médico, cominstrumentos não esterilizados e, amiúde, em doses muito maiores do que o adequado, “pelo sim, pelo não”. Essas substâncias químicas deixam restos que permanecem na carne, ou que passamatravés do sangue para o leite ou para os ovos.

Não ingerimos somente comida com restos de antibiótico. Também introduzimos no nosso corpo bactérias fortalecidas que resistem a esses antibióticos e diminuímos o potencial efeito curativo de um antibiótico no caso de ficarmos doentes e de precisarmos dele. Com efeito, este é o motivo pelo qual já se fala de “carnívoros passivos”, pessoas que não comem produtos de origem animal mas que padecem as consequências da indústria pecuária ao confrontaram-se com bactérias e doenças cada vez mais perigosas. Os produtos de origem animal também estão infestados com hormonas. A indústria tenta lucrar com cada centímetro de terreno, cada minuto de produção e cada grama de carne. É por isso que os animais são tratados com hormonas e esteroides que aceleram o seu crescimento e aumentam o lucro do negócio. Se nos anos 50, nos EEUU, decorriam entre 84 e 91 dias desde o nascimento de uma galinha até à sua norte, atualmente, as galinhas são mortas com somente 40 ou 45 dias de vida. Esta é a norma, e ela mostra a tendência na indústria da carne, dos laticínios e dos ovos. Certamente que pode ser argumentado que também os cereais, os legumes e a fruta na agricultura moderna recebem uma enorme dose de hormonas ou inseticidas. Mais razão ainda para não consumir produtos de origem animal, se tivermos em conta que os animais não se alimentam de ar. Alimentamse precisamente de sementes, vegetais, restos de animais e restos variados da pior qualidade possível, da mais barata, com um elevado nível de pesticidas e hormonas. Quem estiver realmente preocupado com o nível de produtos químicos nos vegetais deve abster-se, em primeiro lugar, de comer proteína animal e, depois, preocupar-se com encontrar um bom fornecedor de legumes, fruta e cereais ecológicos. Acontece a mesma coisa com os transgénicos. O principal receio relativamente aos transgénicos é que ainda não sabemos como podem afetar a saúde humana a longo prazo. Escreveu-se e falou-se muito sobre os produtos vegetais geneticamente modificados. Alerta-se sobretudo, amiúde, para o consumo de soja por causa do perigo de ser transgénica. Contudo, esquece-se o facto de que a maior parte da soja e do milho transgénicos é utilizada para alimentar o gado. Com efeito, como teremos ocasião de ver mais adiante no capítulo sobre sustentabilidade e meio ambiente, pode-se dizer que a necessidade de alimentar – e cevar – tantos milhões de animais foi o que levou a indústria a desenvolver os transgénicos. Os produtos de origem animal também contêm um elevadíssimo nível de toxinas devido à enorme quantidade de inseticidas utilizados nas instalações nas quais os animais se encontram confinados e às condições de confinamento nas quais estão literalmente mergulhados em excrementos, urina, cadáveres não retirados, membros mutilados e sangue. Todas essas toxinas respiradas pelos animais acabam na nossa mesa. Mas não são só elas. Acompanham-nas vários antibióticos, hormonas de laboratório e um elevado nível de gordura. Todo este aglomerado cola-se aos nossos corpos, beneficiando da nossa falsa crença de que “precisamos” de proteína animal. O resultado é nefasto, e as provas disso são abundantes e arrepiantes: cancro, colesterol, tensão alta, diabetes, osteoporose, tumores, depressão, falhas cerebrais, doenças do coração… O que é que estamos a fazer aos nossos corpos, quando as doenças relacionadas com o consumo de produtos de origem animal não param de aumentar ano após ano? De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), entre 2000 e 2012 a percentagem de mortes no mundo relacionadas com doenças não transmissíveis aumentou 13%[vii]. 87% dos óbitos nos países ricos deveram-se a doenças não transmissíveis.

Esta lista é liderada pelo cancro, pelas doenças do coração e do cérebro, a diabetes e a insuficiência renal. Todas estas doenças estão relacionadas com o consumo de carne, peixe, laticínios e ovos. Também o estão a osteoporose, a obesidade, certas deficiências sanguíneas e outras doenças “menores”, menos fatais. Inúmeras investigações confirmaram as conclusões às quais chegou o Dr. Campbell com o seu Estudo da China[viii]. As taxas de cancro, doenças cardiovasculares, diabetes e insuficiência renal são sempre mais baixas entre os vegetarianos, e mais ainda entre os veganos. Além disso, na última década tem vindo a descobrir-se como uma dieta totalmente vegetal pode reverter doenças e curar o paciente como nenhuma outra medicina conseguiu. Não são descobertas que farão subir as ações das empresas farmacêuticas ou da alimentação; mas é nosso dever conhecer estes dados para podermos melhorar a nossa saúde e a dos seres que nos são mais próximos. Poderemos continuar a envenenar-nos somente para satisfazer o nosso guloso e insaciável apetite? Vimos que a proteína de origem animal não é necessária para o corpo. Pelo contrário, é perigosa, ao trazer com ela todo um arsenal de substâncias químicas nocivas que prejudicam a nossa saúde. Ironicamente, em vez de alcançarmos o nosso objetivo original – nutrimo-nos e fornecer ao nosso organismo as substâncias necessárias para o nosso crescimento e para a regeneração das nossas células –, o que fazemos é intoxicar-nos a nós próprios, induzidos por uma falsa crença que herdámos de geração em geração; uma crença que, durante as últimas décadas de abundância no mundo ocidental, se tornou especialmente perigosa e fatal. Prejuízos para a saúde humana da experimentação em animais Os prejuízos da exploração animal para a nossa saúde não se limitam ao que comemos. O nosso desprezo pela vida de outros animais também nos custa caro no âmbito do desenvolvimento médico. A experimentação em animais, considerada como um passo imprescindível para o estudo e a aprovação de novos medicamentos e tratamentos, é uma prática retrógrada e um obstáculo ao avanço científico. Fecha-se simplesmente os olhos perante as diferenças fisiológicas, psicológicas e circunstanciais entre os animais de laboratórios e os humanos em liberdade. Há algumas diferenças evidentes, para lá do aspeto. Os ratos, por exemplo, são os animais mais utilizados na investigação. Publicam-se no mundo, a cada hora, uma dúzia de estudos que envolvemratos, todos eles selecionados geneticamente. Estes animais carecem de baço, um órgão cuja importância é reconhecida em inúmeros processos do corpo. Os fatores psicológicos, que sabemos atualmente serem fundamentais para o sucesso ou fracasso de qualquer tratamento, mudam claramente entre animais fechados em laboratórios e humanos do século XXI. Também há outras condicionantes do meio-ambiente como a poluição, o ruído, a exposição ao sol ou os aditivos químicos na comida – como o célebre E401 – que alteram as condições básicas que deveriam ser semelhantes para dar validade às conclusões científicas que depois servem para receitar medicamentos “seguros” à população humana. Só nos EEUU, atribuem-se mais de 106 000 mortes anuais a reações adversas a medicamentos (ADR), o que as converte na quarta causa de morte[ix] nesse país. Trata-se dos mesmos medicamentos desenvolvidos através de experiências com animais e que, em termos de legislação, devem ser testados inúmeras vezes para se comprovar a sua eficácia. A inexplicável obstinação do homem em aproveitar a sua capacidade de experimentar em animais também adia a solução para problemas de saúde graves e urgentes. A fé cega nos modelos de investigação com macacos, por exemplo, enfraqueceu a luta contra a poliomielite.

De acordo comuma declaração no Congresso Americano do Dr. Albert Sabin[x], criador da vacina oral contra a poliomielite, ao observar casos de macacos infetados, concluiu-se que a infeção acontecia através do sistema nervoso, quando na verdade, nos humanos, o principal meio de contágio é o sistema gastrointestinal. Foi assim que se perderam anos no desenvolvimento da vacina e se aumentou o sofrimento, não só dos macacos, mas também de famílias inteiras em todo o mundo. O Dr. Jerry Vlasak, durante o seu primeiro ano de trabalho como interno de cirurgia nos EEUU, foi incentivado pelos seus colegas a experimentar com animais para avançar na carreira. Passou um ano fazendo vivissecção e visitando laboratórios de animais de todo o país. Foi uma experiência “alucinante”, e deixou-a para trás. Passados alguns anos, escreveu: “Aprendi que 85% de todos os dados recolhidos nas experiências com animais ia literalmente para o lixo, porque era inútil para todos, humanos e não humanos; nem sequer eram publicados, e muito menos utilizados para ajudar as pessoas. Dos restantes, quase tudo era considerado com utilidade nula para a saúde humana. E esses 1 ou 2% de informação que talvez pudesse ajudar, um dia, de alguma forma a alguém? Poder-se-ia ter obtido de forma mais exata e barata utilizando métodos modernos, progressivos e sem animais”. A prática científica de testar medicamentos e tratamentos diversos com animais para deduzir a conveniência dos mesmos para os seres humanos está a ficar obsoleta quando se compreende que as diferenças fisiológicas e anatómicas entre os humanos e os outros animais são demasiado importantes para extrapolar os resultados. Os únicos avanços verdadeiros que foram conseguidos deveram-se a terem sido testados gradualmente em pacientes que sofriam os sintomas que se pretendia tratar. Atualmente está provado que testar um medicamento com animais não serve para verificar a eficácia dos mesmos, nem pode indicar os perigos da sua utilização com humanos. Serve para se ter uma justificação na eventualidade de um processo contra a empresa farmacêutica, e é precisamente por isso que é perigoso. Pode-se receitar um medicamento novo a milhões de pessoas após ter sido testado em vários milhares de animais sem se detetar qualquer perigo, e comprovar depois que possui um efeito secundário nocivo em humanos.

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