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A Riqueza da Nacao no Seculo XXI – Bernardo Guimaraes

Haing Ngor mentiu inúmeras vezes em sua vida. Era tão bom em disfarçar e simular que, apesar de não ser ator profissional, pegou um papel no cinema e ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante em 1985. Em maio de 1975, Haing Ngor estava no Camboja. O Khmer Vermelho havia acabado de tomar o poder. Três soldados do Khmer Vermelho, adolescentes da zona rural, param e revistam o rapaz. Um deles encontra um livro, abre e não demora a concluir: – Você é da CIA! Haing Ngor mente. Diz que não sabe ler, que encontrou o livro jogado no chão e achou útil para embrulhar as coisas. Os jovens soldados engolem a história e ele escapa com vida. A verdade seria mais complicada. Ele poderia começar explicando que o livro estava em francês. É improvável que a CIA, a agência de inteligência do governo norte-americano, utilizasse o francês para qualquer documento. Porém, para adolescentes analfabetos e desacostumados com o alfabeto latino, entender a distinção entre inglês e francês seria praticamente impossível. Além disso, outra pergunta viria: o que ele estava fazendo com um livro em francês? E para essa pergunta, a verdadeira resposta seria muito perigosa. Aquele era, afinal, um livro de medicina. Haing Ngor era médico, formado pela universidade da capital do Camboja, Phnom Penn, e lá exercia a profissão. Aos olhos do Khmer Vermelho, profissionais da cidade (médicos, engenheiros) e membros da CIA não eram muito diferentes: eram todos amigos do capitalismo e inimigos dos camponeses. Haing Ngor poderia ter tentado explicar mais. Poderia ter dito que na faculdade de medicina, estudamos como funciona o corpo humano, como agem as doenças e como estas podem ser tratadas. A ciência da medicina tem evoluído com a pesquisa de pessoas pelo mundo inteiro, que publicam suas descobertas em artigos científicos. Esse conhecimento é muito útil para combater várias doenças que nos acometem – apesar de termos, ainda, muito a aprender. Haing Ngor não tentou essa linha de argumentação, mas quem poderia culpá-lo? De acordo comsuas contas, anos depois, dos 527 médicos formados na Universidade de Phnon Penn, apenas 40 sobreviveram aos três anos e meio do regime do Khmer Vermelho. Haing Ngor sobreviveu escondendo que sabia ler.[1] Por conta do distorcido modelo de mundo em suas mentes e de suas atitudes com os inimigos, os soldados do Khmer Vermelho vão ter muito poucas oportunidades de aprender que estão errados. Quase ninguém vai se atrever a explicar os benefícios do entendimento da ciência para quem detém o poder. Muitas pessoas morrerão por conta da visão equivocada de mundo que tomou conta do país, mas defender a verdade não é a melhor estratégia para quem busca escapar com vida.


Claro está, estamos no Brasil de hoje muito distantes dessa realidade. Somos muito mais prósperos, seguros e livres. Temos muito mais acesso à informação e muito mais capacidade de entender as notícias e os efeitos das políticas públicas. Somos muito mais bem informados que os soldados do Khmer Vermelho. Tendo dito isso tudo, o ponto de partida deste livro é que, a meu ver, a discussão sobre política econômica no Brasil está mal embasada. O debate é norteado por uma visão equivocada do funcionamento da economia e dos efeitos das políticas públicas. Felizmente, são os votos e não as armas que decidem quem dita as regras e determina os rumos do país. Em época de eleição, os eleitores passam os candidatos em revista – alguns com mais atenção, outros de maneira superficial. Às vezes, os eleitores flagram os candidatos portando livros e receituários que, de acordo com uma distorcida visão de mundo, atuam contra os interesses das pessoas e favorecem grupos poderosos. Como resultado, essas ideias são sumariamente fuziladas por uma quantidade suficientemente grande de pessoas. Como consequência, para evitar esse fuzilamento, muitas boas propostas deixam de ser apresentadas e defendidas, e muitas ideias ruins deixam de ser devidamente combatidas. De modo geral, os candidatos julgam que lutar contra visões de mundo arraigadas na mente do eleitor não é a melhor maneira de sobreviver à batalha política. Assim, raramente saem em defesa dos livros e receituários considerados nocivos pela população. Futuros ministros e secretários são instruídos a não falar sobre o assunto. Quando escolhem assumir que estão com o livro proibido, ou na campanha ou depois de eleitos, são frequentes as justificativas que não ousam defender o que está escrito: o livro, afinal, é bom para embrulhar as coisas. Concepções equivocadas nos levam a escolhas erradas. Muitas políticas econômicas que adotamos mais atrapalham que ajudam o desenvolvimento do país. Além disso, as campanhas eleitorais acabam beirando o surrealismo. Em 2014, mais do que em anos anteriores, os candidatos a presidente (ou suas equipes) pareciam ter visões bastante diferentes para a nossa economia. Contudo, várias das questões econômicas mais importantes foram praticamente ignoradas na campanha. Boa parte da discussão na imprensa e nas redes sociais focava em temas sobre os quais havia muito pouca ou nenhuma divergência nos reais planos dos candidatos para o mandato que começaria em2015. Este livro busca trazer o debate acerca de políticas públicas para o campo da discussão sobre o funcionamento da economia. A introdução discute equívocos comuns que permeiam a discussão sobre política econômica e atrapalham a comunicação e o aprendizado. A segunda parte do livro explica a lógica econômica por trás de tópicos como o ajuste fiscal, a política monetária, o programa Bolsa Família e várias outras questões menos aparentes, mas ainda mais importantes. A parte final mostra os caminhos trilhados pela economia brasileira nos últimos 12 anos e as visões por trás das políticas adotadas em diferentes períodos.

Essa breve história nos ajuda a entender como chegamos a um debate sobre política e economia tão descolado da realidade. Na terceira parte do livro, pessoas e partidos ocupam papel de destaque. Ainda assim, o livro é fundamentalmente sobre ideias, não sobre indivíduos ou grupos políticos. Acredito que é o bom entendimento do funcionamento da economia o fator fundamental para que nossos governos façamescolhas adequadas para o desenvolvimento do país e para a melhora das condições de vida das pessoas. Boas intenções são importantes, mas não são suficientes para gerar boas políticas públicas. Como atestam inúmeros exemplos históricos, péssimas decisões de política podem resultar de uma visão equivocada da economia. 17 de abril de 1975 foi um dia triste na história do Camboja. Foi o dia em que o Khmer Vermelho tomou o poder no país e ordenou que todos evacuassem as cidades, incluindo a capital. Aqueles que desobedeciam as ordens e teimavam em continuar em suas casas eram metralhados. Caminhando de maneira desordenada, as pessoas deixaram as cidades do país e acabaram sendo alojadas nas chamadas fazendas comunitárias para trabalhar no cultivo do arroz. O que se seguiu foi uma grande tragédia. A produção do país despencou vertiginosamente enquanto a brutalidade do regime ultrapassava os limites da ficção. Estima-se que em três anos e meio, cerca de dois milhões de pessoas (por volta de um quarto da população do país) tenham sido mortas, ou pela fome ou por meios violentos. O que salta aos olhos é que esse genocídio de proporções épicas foi perpetrado sem a intenção de matar pessoas de alguma etnia ou religião. Não foi uma matança planejada com o fim de exterminar um grupo de pessoas. Foi simplesmente o resultado de um tenebroso fracasso econômico associado a um regime ditatorial extremamente cruel. Por trás do tenebroso fracasso econômico, uma concepção da economia completamente errada. O líder do Khmer Vermelho, Pol Pot, foi estudar em Paris com 24 anos de idade. Não era um aluno bom e não conseguiu sair com o diploma. Mas foi lá que começou a participar de uma organização marxista, leu sobre a ideologia de Mao Tsé-Tung e se juntou ao Partido Comunista Francês. Estava iniciado o caminho que o levaria para a liderança do partido comunista do Camboja. O regime do Khmer Vermelho no Camboja foi inspirado em outra tragédia, o “grande salto adiante” do Partido Comunista Chinês, que devastou o país entre 1958 e 1962.[2] O número estimado de 45 milhões de mortos entre 1958-1962 faz do líder comunista chinês Mao Tsé-Tung o comandante da maior tragédia da história da humanidade em número absoluto de mortos.[3] Como aconteceria no Camboja anos depois, a fome foi responsável por um grande número de mortes, e um enorme fracasso econômico é parte fundamental da explicação para o tamanho da desgraça. O fracasso do Khmer Vermelho se baseava em uma grande ilusão: um projeto de uma sociedade comunista, livre de todos os males associados ao capitalismo ocidental, sem propriedade, semtrocas, sem profissionais urbanos, que seria muito melhor que a realidade de subdesenvolvimento e corrupção do Camboja da época.

A ideia básica era que o esforço de toda a sociedade na produção em fazendas comunitárias, coordenado por um governo central, acabaria com a miséria. O resultado foi, sem qualquer dúvida, o oposto disso tudo, uma queda fenomenal no bem-estar da população. Em geral, achamos mais fácil atribuir tragédias como a que abateu o Camboja nos anos 70 à maldade de alguns indivíduos ou de um grupo, não à ignorância, a uma crença em uma grande ilusão. Não pretendo inocentar a maldade, mas a visão equivocada de mundo carrega uma boa parte da culpa. De fato, muita gente na época acreditava que uma revolução que implantasse um regime comunista agrário inspirado no exemplo de Mao Tsé-Tung seria benéfica para a grande maioria das pessoas – o próprio Partido Comunista do Brasil se definia como maoísta até os anos 70. Muitos intelectuais franceses devem ter filosofado nos cafés de Paris sobre as mazelas do capitalismo e as perspectivas de uma revolução que traria dignidade e felicidade ao povo. Um pupilo de alguns desses intelectuais de fato chegaria ao poder em um longínquo país do sudeste asiático no ano de 1975 para fazer história da pior maneira possível. 2. O mundo animal Frans de Waal é um primatologista com décadas de experiência no estudo dos macacos que escreveu um livro sobre a política no mundo dos chimpanzés. Os embates entre os macacos são focados basicamente no direito de acasalar com as fêmeas do bando e na distribuição de comida. Cada macaco tem seu status no grupo, bem definido a um dado momento, mas sempre sujeito a disputas. Há em geral um macho com mais direitos sobre as fêmeas e a comida, o macho alfa. O último na hierarquia é o macho ômega. Frans de Waal explica que “os chimpanzés se sentiriam muito em casa na arena política. Passagens inteiras do livro de Machiavel parecem ser diretamente aplicáveis ao comportamento dos chimpanzés”.[4] Na disputa pelo poder, a força bruta é apenas uma das armas. Os chimpanzés utilizam estratégias elaboradas, por vezes cruéis, fazem alianças, que rompem depois se assim for conveniente, mas entendem que também precisam da confiança e do apoio do bando. Chimpanzés são animais políticos relativamente sofisticados. Todavia, se a política do mundo dos chimpanzés é bastante elaborada, a economia é muito rudimentar. Fundamentalmente, não há trocas voluntárias entre os macacos, ou entre animais de qualquer outra espécie. Como disse Adam Smith, nunca vemos “um cachorro trocar de maneira justa e deliberada um osso por outro com outro cachorro”.[5] Consequentemente, as relações econômicas entre os bichos são muito simples. Sem a possibilidade de trocar, a especialização na produção é inviável, não há progresso tecnológico, nem desenvolvimento econômico.[6] A autoridade do macho alfa de um grupo de animais lhe é útil para a alimentação e o acasalamento, mas não há nada em seu mundo que se assemelhe à política econômica. Quando muda a liderança do grupo, nada muda além da hierarquia.

Os embates do mundo animal são utilizados em fábulas políticas. Com frequência, o bicho homem desempenha um papel importante. Na peça Os Saltimbancos, adaptada para o português por Chico Buarque, há humanos e animais, mas o mundo continua sendo muito simples. Os homens exploram os animais. Os animais se unem, derrotam os homens e tomam o poder. A partir daí, passam a deter os meios de produção e a viver muito melhor. No livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, os homens também exploram os animais. Os animais se unem para derrotar os homens, saem vitoriosos do embate, mas a partir daí, a história toma outro rumo. Como é impossível ter todos os animais no comando, os porcos tomam o poder e, em pouco tempo, passam a agir como os homens. A vida dos demais animais fica como antes, ou pior. Ainda assim, as irritantes ovelhas continuam com seu histérico apoio aos líderes porcos. No mundo dos chimpanzés, dos saltimbancos e dos bichos revolucionários, há disputas políticas, mas não existem questões difíceis sobre a economia. Existem poderosos e oprimidos e, potencialmente, uma luta para quem se apropria dos recursos. O mundo dos humanos é muito mais complicado. Há no mundo nações muito ricas e outras muito pobres. A renda média das pessoas de um país não é um dado da natureza e pode mudar muito com o tempo. Alguns países ficaram muito mais ricos e prósperos nas últimas décadas, enquanto outros estão estagnados há muito tempo. Entender o que gera riqueza para uma nação é muito importante porque o desenvolvimento econômico se traduz em melhorias no nível de vida das pessoas. Nas últimas décadas, centenas de milhões de pessoas têm deixado a pobreza.[7] Essa grande conquista se deve basicamente ao rápido crescimento econômico em vários países do mundo, especialmente na Ásia. Os dados não deixamdúvidas: a forte redução na fração de pobres e miseráveis no planeta é observada justamente nos países que mais crescem, ainda que em muitos deles, a desigualdade tenha aumentado.[8] No Brasil de hoje, as discordâncias a respeito da política econômica são fundamentalmente sobre quais políticas levam à prosperidade do país como um todo. Os diferentes lados argumentamque suas políticas gerariam mais desenvolvimento e, também, melhorias mais substanciais nas condições de vida dos mais pobres. Não há, portanto, um embate entre políticas com ênfase emdiferentes grupos. O que está em jogo é a riqueza da nação no século XXI.

As escolhas correntes de política econômica são fundamentais para determinar o bem-estar das pessoas nos próximos anos e décadas. Salta aos olhos que as políticas econômicas adotadas pelos governos estão por vezes muito longe das ideais. A divisão da Coreia em dois países é um dramático experimento que ilustra quão importantes podem ser as decisões sobre os rumos da política e da economia e quão boas ou ruins essas decisões podem ser. Até a segunda guerra mundial, havia apenas uma Coreia, um país relativamente pobre e uniforme. Por conta de uma circunstância histórica que dividiu o país ao meio, há hoje duas Coreias: a Coreia do Norte, um país de miseráveis, e a Coreia do Sul, um próspero país com nível de vida semelhante aos países europeus. A Coreia do Sul é cerca de 20 vezes mais rica que a Coreia do Norte. Em pouco mais de duas gerações, onde havia um país anteriormente uniforme, há uma metade com nível de vida da Itália e outra muito mais pobre que Gana ou Nigéria. Um habitante pobre da Coreia do Sul tem hoje uma vida mais próspera que a enorme maioria dos norte-coreanos. A grande diferença nos resultados reflete escolhas de políticas completamente distintas em cada uma das Coreias. Pressões de grupos com interesses específicos podem contribuir para escolhas ruins para umpaís como um todo. Contudo, essa é apenas uma parte da explicação. Com frequência, o grande problema é a falta de entendimento sobre os efeitos de diferentes políticas econômicas sobre a economia e a vida das pessoas. É muito difícil aprender sobre os efeitos de políticas econômicas pela simples observação das medidas adotadas e de seus impactos na economia porque, em geral, os efeitos das políticas adotadas no presente são sentidos em momentos diferentes do futuro. Assim, hoje, estamos observando o resultado de um conjunto de políticas adotadas anteriormente – ontem, no ano passado, na última década e há muitos anos. Por exemplo, pode levar mais de uma década para que os efeitos de uma política educacional bem sucedida sejam traduzidos em maior renda, e demora um ano ou mais para que investimentos mal direcionados afetem a produtividade da economia. Além disso, várias medidas econômicas têm efeitos negativos no curto prazo, mas são boas para economia como um todo no médio e no longo prazo. Há outras que trazem benefícios imediatos, mas geram grandes custos no futuro. Isso complica ainda mais o problema de aprender sobre o efeito de políticas econômicas pela simples observação de seus efeitos. Por fim, a economia passa por momentos propícios e por momentos difíceis, seja por circunstâncias históricas ou por acontecimentos externos. A produção e o emprego em um país são afetados por eventos como crises externas, variações no preço internacional dos bens que importa ou exporta, a inflação nos anos anteriores, etc. Uma implicação disso é que políticas econômicas podemser adequadas em algumas situações, mas prejudiciais em outras. Por conta de tudo isso, o senso comum e a observação dos fatos não são suficientes para compreendermos o efeito de políticas econômicas. É preciso um entendimento teórico sobre o funcionamento da economia. Assim como ocorre com as ciências naturais, a ciência econômica com frequência chega a conclusões que contrariam o senso comum. Ao estudar Física, aprendemos que o mundo é muito diferente do que sugere a nossa percepção da realidade.

Nas palavras do físico dinamarquês Niels Bohr, “aqueles que não se chocam quando estudam a teoria quântica pela primeira vez não podem tê-la entendido”.[9] Aprendemos também uma série de princípios que, combinados, nos ajudam a entender fenômenos que parecemsurpreendentes. Quanto mais se estuda e pesquisa, mais se entende sobre os assuntos pesquisados e mais questões são levantadas. Até hoje, há muitas perguntas sobre o universo para as quais não temos resposta – e outras perguntas que ainda nem conseguimos formular. O mesmo se aplica ao conhecimento humano nas mais diversas áreas. O aprendizado da ciência econômica é cheio de conclusões que contrariam a nossa intuição, mas algumas ideias importantes combinadas nos ajudam a compreender fenômenos que pareceriam estranhos. Há muito ainda que não sabemos, mas o conhecimento que temos hoje é muito útil para informar nossas escolhas. Uma fonte de dificuldades para entender os efeitos de medidas econômicas é que, de modo geral, leis que afetam a economia têm impactos não apenas sobre o objeto da lei, mas sobre a economia como um todo. Por exemplo, uma medida para incentivar a produção em um setor específico afeta salários, preços de bens, preços de insumos, retorno ao investimento nesse setor e a quantidade de impostos necessária para fechar as contas do governo. Todas essas mudanças disparam outros efeitos que precisam ser levados em conta. Essas inúmeras ligações tornam difícil entender os efeitos de políticas econômicas. Não é possível acompanhar e tentar mensurar o efeito em cadeia de todas essas mudanças. Consequentemente, é preciso encontrar maneiras de simplificar a análise sem descartar aspectos importantes da realidade. É assim que ciências naturais como a física fizeram tanto progresso. Umpequeno número de leis físicas explica uma enorme quantidade de fenômenos e serve como fundamento para a construção dos mais sofisticados equipamentos. Da mesma maneira, a ciência econômica encontrou maneiras de entender o funcionamento da economia e avaliar diferentes políticas sem se perder nos caminhos que ligam as mudanças em umsetor aos efeitos sobre outras pessoas e empresas. Essas ferramentas desenvolvidas pela ciência econômica servem de base para as explicações deste livro.[10] Isso não quer dizer que a ciência econômica tenha progredido tanto quanto as ciências naturais. Enquanto os físicos conseguem calcular a velocidade de uma estrela que viaja pelo espaço a bilhões de anos-luz do nosso planeta desde o século XIX, nós economistas ainda não conseguimos determinar com precisão o impacto de um aumento nos gastos do governo na economia no próximo ano. Ainda assim, o conhecimento que temos hoje é muito útil para guiar nossa avaliação sobre medidas econômicas. Contudo, em alguns pontos, a Economia é diferente das ciências naturais. Por volta de 1920, Albert Einstein escreveu em carta a Marcel Grossmann que o mundo parecia um “curioso manicômio” onde “todo motorista e todo garçom discute se a teoria da relatividade está ou não correta”.[11] De fato, a discussão sobre a teoria da relatividade pode ficar restrita aos pesquisadores sem que isso mude outros aspectos da nossa vida. Inovações tecnológicas dependemdo avanço da ciência, mas nós não precisamos entender como o nosso telefone é fabricado para utilizá-lo. Podemos deixar essas questões para os especialistas.

Economia é diferente: a gente precisa tentar entender. A falta de compreensão sobre a economia tem implicações concretas para as nossas vidas porque a legislação e as ações do governo dependemdos nossos votos e do nosso apoio, e questões econômicas estão na raiz das discussões sobre uma vasta gama de políticas públicas. Decisões governamentais que tentassem contrariar os princípios da física também teriam consequências desastrosas para o país, mas há menos dúvidas a respeito das leis da física relevantes para a legislação. Hoje em dia, boa parte do debate sobre política econômica parece enxergar o mundo com as lentes de um chimpanzé: a política é sofisticada, mas a economia é rudimentar e nada mais há alémde uma disputa pelos recursos. Como consequência, eleitores e formuladores de políticas públicas deixam de considerar o efeito das diferentes alternativas sobre a prosperidade da nação e o bemestar da população como um todo.

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