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A rival de Arsene Lupin – Maurice Leblanc

Merece este romance figurar na coleção das AVENTURAS EXTRAORDINÁRIAS, porque Doroteia, tipo inesquecível de energia, sagacidade, espírito e graça, é a digna rival de Arsène Lupin. Dançarina de corda, diretora de circo, amazona, leitora de cartas, “cow-girl”, cigana, saltimbanca, enfermeira, investigadora princesa… Doroteia é isso tudo, e é também a mais simples e a mais engenhosa das heroínas. Sempre alegre, contente da vida, valente, intrépida, sem outra arma além da sua inteligência clara, sem outro auxílio que os dos quatro orfãozinhos de guerra que ela acolheu, é amada por todos os homens, deslinda as mais complicadas intrigas, escapa às ciladas mais habilmente preparadas e alcança os mais difíceis alvos, tanto por processos que lembram a mestria de Arsène Lupin quanto por um modo de ver, compreender, decidir e vencer que lhe é pessoal. Rimos com suas respostas, comovemo-nos com as suas tribulações, trememos pelos perigos que ela corre. E gostamos dela, Doroteia, a dançarina de corda, a Rival de Arsène Lupin, como da mais encantadora das amigas. Mas não esperem neste livro embates entre Lupin e esta suposta rival. Não há. Como disse o editor Francis Lacassin (1931-2008), especialista em Maurice Leblanc, Dorothée é um desses personagens que permitem o prolongamento da carreira de Arsène Lupin: “Um romance sobre o qual a sombra de Lupin não para de voejar; o ladrão de casaca observa, dos bastidores, Dorothée resolver o primeiro dos quatro enigmas de Cagliostro (…)”. Desta vez, é um avatar de saias, que reúne a alegria, a intuição, a perspicácia, a generosidade e o espírito de independência do célebre aventureiro. (Cominfo da Wiki francesa) I O Castelo de Roborey Sob um céu pejado de estrelas, ao qual se agarrava o quarto minguante, dormia sobre a relva da estrada a carroça dos saltimbancos, de postigos fechados, com os varais estendidos como braços. Na sombra do barranco vizinho, um cavalo roncava e suspirava. Muito ao longo, por cima da crista negra das colinas, uma faixa mais clara anunciava a aproximação da aurora. Um relógio de igreja bateu quatro horas. De distância a distância despertaram alguns pássaros e começaram a cantar. A temperatura estava suave e tépida. De súbito, do interior do carro, uma voz feminina gritou: —Saint-Quentin! Saint-Quentin! E uma cabeça passou pelo óculo que dava para a boleia, sob a aba: —É isso mesmo! Eu já desconfiava! O patife deu o fora esta noite. Que animal! Que animal! Que correção! Outras vozes lhe responderam. Transcorreram dois ou três minutos. A seguir abriram a porta e um vulto desceu os cinco degraus da escada, enquanto apareciam à janela do lado duas cabeças desgrenhadas. —Aonde vais, Doroteia? —Procurar Saint-Quentin!—replicou a jovem a quem chamavam de Doroteia. —Mas ele voltou do passeio contigo ontem à noite e eu o vi deitar-se na sua cadeira. —Bem vês que não está mais ali, Castor. —Onde está? —Paciência! Vou trazê-lo de volta pelas orelhas. Mas dois garotos saltaram da carroça, em camisa, e suplicaram: —Não, Mamãe Doroteia… não vás sozinha no escuro, é perigoso… —Que estás a dizer, Pólux? Perigoso! Tens alguma coisa com isto? Ela o mimoseou com bofetadas e pontapés e rapidamente reconduziu os dois até o carro, onde se enfurnaram. Lá, trepada num tamborete, segurou as duas cabeças, que encostou à sua com força, e beijou-as ternamente.


—Nada de mau humor, meus guris. Perigo? Daqui a meia hora, encontro de novo Saint-Quentin. —Essa é boa!… Saint-Quentin… um tipo que não tem nem dezesseis anos… —Ao passo que Pólux e Castor têm vinte… em conjunto!—exclamou Doroteia. —E de mais a mais, por que é que ele desaparece assim durante a noite? E não é a primeira vez… Onde irá fazer expedições? — Furtar coelhos com o laço, — disse a moça — Veem, não é muito grave… Vamos, chega de conversa. Os meninos vão “mimir”. E, principalmente, não briguem, hem? Castor e Pólux. Não quero barulho! O capitão está dormindo e ele não gosta que o acordem! Doroteiase afastou, saltou por cima do fosso, atravessou uma campina, onde seus pés patinhavamem poças de água, e tomou um atalho que serpenteava entre duas moitas novas que lhe ficavam à altura do pescoço. Já por duas vezes, na véspera, passeando com seu amigo Saint-Quentin, seguira aquela pista mal traçada, de modo que avançava afoitamente, sem a menor hesitação. Atravessou duas estradas, chegou perto de um rio cujo leito, formado de peixinhos brancos, brilhava sob a água serena, meteuse por ele, subindo contra a corrente, como se quisesse que suas pegadas se perdessem, e, quando os primeiros clarões do dia principiavam a dar às coisas formas distintas, lançou-se de novo através do bosque, leve, graciosa, mais pequena que alta, com as pernas nuas a sair de uma saia muito curta, que deixava flutuarem atrás dela fitas multicores. Corria sem esforço, evitando esmagar com os pés, entre as folhas mortas, as flores da primavera em início—o junquilho, as anêmonas roxas ou os brancos narcisos. Seus cabelos negros, quase nada compridos, apartavam-se em duas massas que batiam como asas. O rosto sorridente, a boca entreaberta, as narinas palpitantes, os olhos semicerrados, tudo exprimia a sua satisfação em correr e respirar o ar fresco da manhã. O pescoço, longo e flexível, surgia de uma blusa de fazenda cinza, fechada por um lenço de seda cor de laranja. Parecia ter quinze ou dezesseis anos de idade. Acabou-se a mata. Entre dois paredões de rochas abriu-se um vale que repentinamente descrevia uma curva. Doroteiaestacou. Atingia a meta. À sua frente, sobre um pedestal de granito regularmente talhado, e da altura de trinta metros no máximo, projetava-se o corpo principal de um castelo, que em si, não tinha grande estilo, mas ao qual a sua posição e o desenvolvimento de sua construção davam um caráter de mansão senhorial. À direita e à esquerda, o vale, apertado num barranco, parecia circundá-lo como um fosso antigo. Diante de Doroteia, porém, o espaço era amplo e formava um talude ligeiramente ondulado, esparso de pesadas pedras, cortado por sebes de espinhos, e cujo limite era o alcantil quase a prumo do pedestal. “Está dando cinco horas e três quartos”, disse a jovem de si para si. “Saint-Quentin não tardará.” Agachou-se por trás de enorme tronco de árvore desenraizada e olhou fixamente a linha de demarcação entre o castelo, propriamente, e o rochedo que lhe servia de base. Um pequeno rebordo se estendia ao longo dessa linha, sob as janelas do rés-do-chão, e havia um ponto daquela exígua cornija aonde ia ter um corte transversal da penedia, muito fino, qualquer coisa como uma fenda na superfície de um muro.

Na véspera, durante o passeio, Saint-Quentin, com o dedo apontado para o corte, dissera-lhe: “Há pessoas que se julgam seguras, e no entanto nada é mais fácil do que alguém se içar até uma das janelas… Olha, ali justamente está uma entreaberta… a janela de uma copa…” Não tinha dúvidas Doroteiade que essa ideiada escalada se tivesse imposto a Saint-Quentin e que, na mesma noite, tentasse ele alguma expedição furtiva. Depois, que lhe teria acontecido? Não estaria ninguém no aposento em que ele entrara daquela maneira? Sem conhecer o local que ia explorar, nem os hábitos do pessoal do castelo, não se teria deixado apanhar? Ou então, mais provável, aguardaria simplesmente o nascer do Sol? A rapariga se atormentava. Precipitavam-se os minutos. Embora o barranco não apresentasse traços de caminho, talvez algum camponês passasse por aquelas paragens no momento em que SaintQuentin se arriscasse a descer, operação muito mais difícil do que a escalada. De inopino ela estremeceu. Dir-se-ia que, imaginando tal perigo, e tivesse, por essa mesma razão, provocado. Faziam-se ouvir passos surdos que seguiam a ribanceira e só podiam vir da entrada principal. Meteu-se Doroteia sob as raízes da árvore que a dissimulava. Surgiu um homem, vestido com uma comprida blusa, o rosto envolto num grande cachenê cinzento, e que usava velhas luvas de pele e trazia uma espingarda debaixo do braço. Ela pensou que deveria ser um caçador, ou melhor, um caçador clandestino, pois caminhava com ar inquieto, vigiando os arredores como alguém que sente medo de ser visto e que, pelas dúvidas, muda o andar habitual. Mas deteve-se perto da muralha, a cinquenta ou sessenta metros do ponto emque Saint-Quentin havia trepado, e observou o solo, contornando certas pedras chatas e inclinando-se sobre as mesmas. Afinal se decidiu e, segurando uma das lajes pela sua extremidade mais delgada, a ergueu e colocou de tal forma que se manteve em equilíbrio, à maneira de um dólmen. Destarte, pôs a descoberto um buraco aberto ao centro da escavação deixada pela dita laje. Ao lado, existia uma picareta, que ele apanhou, e da qual se serviu para aumentar o buraco, removendo a terra com muita precaução a fim de não fazer nenhum ruído. Passaram-se mais alguns minutos e produziu-se o inevitável acontecimento que Doroteia desejava e temia a um só tempo: foram empurrados os dois batentes da janela que Saint-Quentin galgara na véspera, e surgiu um corpo comprido, vestido com uma sobrecasaca preta e que trazia à cabeça uma cartola, os quais, mesmo à distância, pareciam brilhantes, sujos e remendados. Com o ventre rente à muralha, achatado, deixava-se Saint-Quentin escorregar da janela e conseguiu pousar os dois pés sobre a cornija. Nesse instante, Doroteia, que se encontrava por trás do homem de blusa, esteve a pique de se levantar e fazer sinais a seu camarada. Gesto inútil. O sujeito avistara aquela espécie de diabo negro agarrado ao alcantil e, largando a picareta, enfiara-se pela escavação a dentro. Saint-Quentin, aliás, todo entregue à sua tarefa, absolutamente não se ocupava com o que se passava a seus pés, e que só poderia ver caso se voltasse para trás, o que lhe era quase impossível. Desembrulhando uma corda, sem dúvida apanhada no castelo, enrolou-a à sacada de uma janela como à volta de uma polia, de maneira que as duas pontas ficassem penduradas à mesma altura, ao longo da penedia. Com o auxílio dessa dupla corda, a descida não oferecia nenhuma dificuldade. Sem perder um segundo, Doroteia, inquieta por não ver mais o homem da blusa, arrastou-se até a beira da escavação. Ao se aproximar, abafou um grito: ao fundo da cavidade, como ao fundo de uma trincheira, o homem apanhara sua espingarda e, lentamente, apoiava seu cano diante de si, sobre a terra amontoada, e na direção de Saint-Quentin. Chamar? Prevenir Saint-Quentin? Seria precipitar os acontecimentos, denunciar sua própria presença, e travar uma luta desigual com um adversário armado.

Todavia, era preciso agir. Lá ao longe, Saint-Quentin se intrometia na fresta da escarpa, tal como faria no interior do tubo de uma chaminé. Via-se totalmente o seu vulto negro, magro, e a sua cartola em forma de sanfona, que enterrara até as orelhas. O homem levou a arma ao ombro e mirou demoradamente. Doroteia deu um pulo em direção à pedra erguida por trás dele e, com todo o impulso que levava, empurrou-a com ambas as mãos estendidas. O equilíbrio era pouco estável. Ao primeiro esforço, a pedra tombou, fechando a escavação como se fora uma tampa, esmagando a espingarda e aprisionando o homem da blusa, do qual a moça mal teve tempo de ver a cabeça que se curvava e os ombros que se enterravam no buraco. Acertadamente, calculou que o ataque estava apenas transferido e o inimigo não tardaria a evadirse do seu sepulcro, e portanto correu a toda velocidade até o pé da greta, aonde chegou ao mesmo tempo que Saint-Quentin. —Depressa… depressa…—disse ela—. Precisamos escapulir… Atônito, o rapazelho puxou a corda por uma das suas pontas, enquanto murmurava: —Hem? Que queres? Como soubeste que eu estava aqui? Doroteiao agarrou com força: —A galope, imbecil!… Viram-te… Queriam atirar sobre ti… Depressa, vão perseguir-nos… —Que estás a dizer ? Perseguir-nos ? Quem ?… — Um tipo disfarçado de camponês, e que está ali embaixo, num buraco. Tinha o cano da espingarda apontado para ti, como se fosses uma perdiz, quando eu deixei cair a pedra sobre ele. —Mas… —Obedece-me, idiota de uma figa, e leva a corda. Não devemos deixar indícios. Antes que a laje fosse erguida, fugiram os dois pelo vale e, rapidamente, atingiram o bosque, semtrocar uma palavra. Vinte minutos depois, penetraram no rio, do qual só saíram para, muito mais longe, tomarem uma pedregosa margem que sua passagem não poderia marcar com nenhum sinal. Saint-Quentin logo tornou a partir como uma flecha, mas Doroteia ali permaneceu, sacudida de repente por um frouxo de riso que a curvou em dois. —Que tens?—indagou o meninote—. Que é? Que bicho te mordeu? Ela não podia responder. Com as mãos apertadas ao peito, o rosto vermelho, todos os dentes à mostra, dentes miúdos e regulares, brilhantes de brancura, agitava-se violentamente. Por fimconseguiu gaguejar, com o dedo estendido para seu interlocutor: —Tua cartola… tua sobrecasaca… teus pés descalços… é ridículo demais!… Onde surripiaste esse disfarce?… Deus meu! como estás cômico! Seu riso ressoava fresco e jovem, no meio do silêncio em que palpitavam as folhas. Defronte, Saint-Quentin, meninão desengonçado, que crescera excessivamente rápido, de rosto demasiado pálido, cabelos exageradamente louros, boca rasgada demais, orelhas muitíssimo despregadas, mas com admiráveis olhos negros, cheios de ternura, fitava a jovem a sorrir, feliz por aquela diversão que parecia desviar dele uma cólera que receava. De fato, sabiamente ela se lançou sobre o companheiro e atacou-o a socos e censuras, mas semconvicção, com tremores de riso que tiravam todo valor ao castigo. — Miserável! Pirata! Roubaste outra vez, hem? O cavalheiro mais se contenta com os seus honorários de saltimbanco! Necessita ainda roubar dinheiro ou joias para pagar as suas cartolas? Que foi que tiraste, ratoneiro? Hem? Conta! À força de espancar e rir, esgotara sua indignação. Pôs-se de novo a caminhar, e Saint-Quentin, coberto de vergonha, balbuciava: —Contar-te? Para quê? Já adivinhaste tudo, como é costume… Pois bem, sim, entrei pela janela, ontem à noite… Era um banheiro, na extremidade de um corredor que conduz às salas do rés-dochão… Ninguém…Os patrões jantavam… Uma escada de serviço me levou a outro corredor, todo curvo, com as portas de todos os quartos que davam para ali. Visitei aquilo tudo.

Nada. Ou então quadros, coisas grandes demais. Então, escondi-me num cafundó, de onde se podia ver uma saleta, junto a um quarto, o mais bonito. Dançaram até tarde, depois subiram… Pessoas muito elegantes… que eu via por um postigo… as damas decotadas, os senhores de casaca… Por fim, uma das damas entrou na antecâmara, colocou suas joias numa caixinha, e a caixinha num pequeno cofre-forte que ela abriu pronunciando em voz alta as três letras da fechadura: R.O.B… De maneira que, quando deixou a saleta a fim de ir para o quarto, bastou servir-me dessas três letras… Em seguida… esperei pelo dia… não ousava descer… —Mostra—ordenou ela. Na concha da mão, Saint-Quentin exibiu dois brincos, ornados de safiras. Ela os segurou e pôs a contemplar. Seu rosto se contraiu um pouco. Os olhos brilharam, e, com a voz alterada, murmurou: —Como são belas as safiras!… O céu é sempre assim, de noite… com este azul-negro, cheio de luz… Nesse momento, atravessavam um terreno dominado por uma espécie de espantalho grosseiro, vestido com uma simples calça, e uma de cujas vassouras, que figuravam os braços, suportava umcasaco. Era o casaco de Saint-Quentin. Na véspera, pendurara-o ali e, para se tornar irreconhecível, tomara emprestadas a sobrecasaca e a cartola do manequim. Agora, descoseu a sobrecasaca, vestiu com ela o busto de palha, colocou de novo o chapéu no lugar. Depois, enfiou seu casaco e foi ter com Doroteia. Esta continuava a contemplar as safiras com ar de admiração. O rapazelho se inclinou para ela e disse-lhe: — Fica com eles, Doroteia. Bem sabes que não sou um ladrão, e que foi por ti que fiz isso… para que sintas prazer em olhá-los… tocá-los… Frequentemente, tenho tanta pena de ver-te azafamar-te como uma desgraçada! Tu, dançares sobre a corda esticada! Tu, Doroteia, tu que deverias viver no luxo!… Ah! Doroteia, quanta coisa faria por ti, se quisesses! A jovem ergueu a cabeça na sua direção e perguntou: —Dizes que farias tudo por mim? —Tudo, Doroteia. —Pois bem, sê honesto, Saint-Quentin. Tornaram a partir, e a rapariga prosseguiu: — Sê honesto, Saint-Quentin, é tudo que te peço. A ti, e a todos os da carroça de saltimbanco, recolhi porque éreis, como eu, órfãos de guerra, e, há dois anos, percorremos juntos as estradas, mais felizes do que infelizes, divertindo-nos e, afinal de contas, comendo para satisfazer a nossa fome. Entretanto, nada de mal-entendidos entre nós. Só gosto do que é limpo, claro, brilhante como um raio de sol. És igual a mim? Esta já é a terceira vez que roubas para ser-me agradável. Acabou-se? No caso afirmativo, perdoo-te. No caso negativo, adeus.

Falava gravemente, sublinhando cada frase com um aceno de cabeça que fazia bater os dois bandos de seus cabelos. Transtornado, Saint-Quentin lhe implorou: —Não queres mais saber de mim ?… —Quero, sim. Mas jura que não vais recomeçar. —Juro. Então, não falemos mais nisso. Sinto que disseste a verdade. Pega de novo as joias. Vais escondêlas debaixo da carroça, dentro da cesta grande. Na semana que vem, devolve-as pelo correio. É mesmo o castelo de Chagny, não? —É sim, e vi o nome da senhora num dos seus cartões: “Condessa de Chagny”. Puseram-se de novo a caminho, de mãos dadas, e duas vezes se esconderam para evitar o encontro com camponeses; afinal, depois de alguns rodeios, chegaram às proximidades do seu carro. —Escuta—disse Saint-Quentin, apurando o ouvido—. Sim, é isso mesmo, Castor e Pólux estão brigando, como sempre. Que sacripantas! E precipitou-se. — Saint-Quentin, proíbo-te que lhes batas, Saint-Quentin! —Tu não te privas disso! —Sim, mas eu, dou-lhes prazer. À aproximação de Saint-Quentin, os dois garotos, que se batiam em duelo com espadas de pau, fizeram frente ao inimigo comum, berrando: —Doroteia! Mamãe Doroteia! Segura Saint-Quentin. É um bruto. Socorro! Houve uma distribuição de tabefes, gargalhadas, abraços. —Doroteia, agora é a minha vez de ser abraçado! —Doroteia, agora sou eu que devo levar uma bofetada! Mas a moça ralhou: —E o capitão? Tenho certeza de que o acordastes. —O capitão? Dorme como um porco—afirmou Pólux—. Escuta só como está roncando! À margem da estrada, os dois meninos tinham acendido uma fogueira de galhos secos. A panela suspensa de um tripé de ferro, fervia. Os quatro tomaram uma sopa grossa e fumegante, comeram pão, queijo, e beberam uma xícara de café. Doroteia não se arredava do seu tamborete. Os três companheiros não lhe permitiram.

Porfiavamos três para ver quem se levantava para servi-la todos atentos, solícitos, ciumentos uns dos outros, agressivos, até, entre si. As batalhas de Castor e Pólux eram sempre provocadas por algum favor de Doroteia; e os dois guris—dois meninos gordos e bochechudos, vestidos iguais, de calça, camisa e meio suspensório—no instante em que menos se esperava, e embora se amassem como dois irmãos, atiravam-se um sobre o outro com raivosa violência, porque a moçoila dissera a um uma palavra demasiado terna, ou premiara outro com um olhar por demais afetuoso. Quanto a Saint-Quentin, detestava-os cordialmente. Quando Doroteiaos acarinhava, sentia vontade de torcer-lhes o pescoço. A ele, Doroteia nunca beijaria. Tinha de contentar-se com uma boa camaradagem, afetuosa e confiante, que só se manifestava por um amistoso aperto de mão ou por umsorriso feliz, que, aliás, alegrava o adolescente como a única recompensa que merecesse um pobre diabo da sua espécie. Saint-Quentin era desses que amam e se dedicam. —Agora, a lição de aritmética—ordenou Doroteia—. E tu, Saint-Quentin, vai dormir uma hora na tua boleia. Castor trouxe o livro da aula. Pólux mostrou o seu caderno. À lição de cálculo, seguiu-se uma aula dada por Doroteia a respeito dos reis merovíngios, e depois uma aula de astronomia. As duas crianças escutavam apaixonadamente, e, na sua boleia, Saint-Quentin tomava todo o cuidado para não dormir. É que Doroteia tinha uma forma de ensinar cheia de fantasia e que divertia sem nunca fatigar a atenção. Dava a impressão de que ela própria aprendia o que ensinava. E as coisas, ditas com uma voz muito doce, revelavam certa ciência, o discernimento e a maleabilidade de uma inteligência prática. Às dez horas, a jovem dava ordem para que arreassem o cavalo. O trajeto até o povoado vizinho era longo e deveriam chegar a tempo para obter o melhor local em frente à Prefeitura. —E o capitão, que não comeu!—exclamou Castor. — Tanto melhor — respondeu a rapariga — . O capitão come sempre demais. Isto serve para repousá-lo. Aliás, quando o acordam, fica sempre de um mau humor execrável. Deixemo-lo dormir! Partiram. Ao passo tardo de Zarolha, — velha égua malhada, esquelética, mas ainda sólida e corajosa, apesar do olho vazado, conforme seu nome indicava,— a carriola se pôs em movimento.

Pesada, encarapitada sobre duas rodas altas, oscilante, fazendo barulho de ferragens, carregada de caixas e utensílios, escadas, barris e cordame, fora pintada fazia pouco, e, nos dois lados, trazia esta inscrição pomposa: “CIRCO DOROTEIA, Carro da Diretoria”, o que fazia crer que a certa distância seguiria uma fila inteira de caminhões e veículos com o pessoal, o material, as bagagens e os animais ferozes. Precedia o comboio Saint-Quentin, de chicote na mão. Doroteia, ladeada pelas duas crianças, colhia flores nas ribanceiras, cantava com os pequenos estribilhos de marchas ou lhes narrava histórias. Mas, depois de cerca de meia hora, no meio de uma encruzilhada, ordenou: —Alto! — O que é que há?—perguntou Saint-Quentin, vendo que ela lia a placa de um poste indicador. —Olha — replicou a jovem. —Não é preciso olhar. Devemos continuar em linha reta. Consultei o nosso mapa. — Olha—repetiu Doroteia—: “Chagny, 2 quilômetros.” — Evidentemente, é a aldeia do nosso castelo de ontem. Apenas, para lá irmos, seguimos o atalho do bosque. —Não leste até o fim. “Chagny, 2 quilômetros, castelo de Roborey.” Parecia muito agitada e, a meia voz, repetia: “Roborey… Roborey…” —Talvez a aldeia se chame Chagny—supôs Saint-Quentin—e o castelo se chame Roborey. Que importa isso? —Nada… nada…—disse ela. —Entretanto, estás com um ar todo esquisito… —Não… uma simples coincidência. —A que propósito? —A propósito do nome de Roborey. —E então? —Então, é uma palavra que está gravada na minha memória… uma palavra que foi pronunciada emcircunstâncias excepcionais. —Que circunstâncias, Doroteia? Lentamente, com ar pensativo, ela explicou: —Recorda-te, Saint-Quentin. Sabes que meu pai morreu de um ferimento, no começo da guerra, num hospital, próximo a Chârtres. Eu fui avisada, mas cheguei tarde demais… Apenas dois feridos, seus vizinhos de quarto, me disseram que ele não cessara de repetir a mesma palavra durante toda a sua agonia: “Roborey…Roborey…” Isso voltava interminavelmente como uma ladainha e como se ele não desse pela história. E, ao morrer, ainda pronunciava: “Roborey… Roborey.” — Sim,—afirmou Saint-Quentin—lembro-me. — Daí em diante, pergunto a mim mesma o que significava isso, e por que obsessão terá sido meu pai atormentado na hora da morte. Parece mesmo que era mais do que uma obsessão… medo, terror… Por quê? Nunca pude explicar a mim própria.

Portanto, compreendes, Saint-Quentin, ao ver esse nome escrito ali, na minha frente… ao saber que existe um castelo assim chamado… Saint-Quentin se assustou: —Hem? Mas apesar de tudo, não tens a intenção de ir lá… —Por que não? —É uma loucura, Doroteia! A moça entregou-se a um devaneio. Saint-Quentin, porém, percebia perfeitamente que ela não renunciava àquele insólito projeto, e procurava argumentos contra, quando Castor e Pólux acorreram: —Mamãe, três carroças estão desembocando na estrada! Com efeito, uma atrás da outra, saíam elas de um caminho marginal que dava para a encruzilhada, e tomavam a estrada de Roborey. Era um “Jogo de Matança”, um “Tiro ao Alvo”, e uma “Corrida de Tartarugas”. Ao passar defronte a Saint-Quentin e Doroteia, um dos homens do tiro os interpelou: —Também vão para lá? —Para lá, onde?—indagou Doroteia. —Para o castelo. Há festa popular no pátio. Querem que lhes reserve um lugar? — Combinado, e obrigada—respondeu a rapariga.

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