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A Rocha – uma viagem perigosa – Carlos Bohm

Marcos estacionou o carro e relembrou algumas das coisas mais incríveis que já fizera em sua vida. Uma delas foi beijar a jovem e imaculada filha de um embaixador italiano narigudo. Outra foi oferecer cocaína para os dois. Em Brasília, às 02h45min da madrugada de quarta-feira, o DJ tocava uma música de Vive La Fete no Landscape Pub, na cidade Lago Norte. Marcos vestia roupas pretas, justas, e seu cabelo liso estava jogado sobre a testa, formando um misto de estilos punk e emo. Depois de entrar na casa, o jovem cumprimentou um conhecido com um aperto de mão, mal parando de andar: – E aí, Jacob, tudo bem? – Tudo bem, meu caro! Uma hora mais tarde, depois de uma morena alta terminar de beijar outra morena mais baixa, Marcos perguntou à primeira: – Você se chama Bruna? – Sim. – respondeu ela, surpresa. Houve uma pausa. Ele observou suas vestimentas: calça preta de couro, bota rosa de vinil e uma blusa preta justa. A maquiagem era carregada. – Como você sabe meu nome? – perguntou ela sorrindo. – Não sei… Não lembro como descobri seu nome. Você frequenta o Gates Pub? – Sim, às vezes. – Então pode ser de lá. – Eu não me lembro de você. – Você não me é estranha! Você é linda. – Obrigada. – ela sorriu e continuou. – Talvez você tenha me visto em um site de prostituição. – Acho que não. Não costumo entrar nesses sites. – Eu trabalhava com prostituição. – Ãhãm… – Usava o nome Bruna, e o seu nome, qual é? – Marcos. – Qual a sua idade? – Vinte e um, e você? – Dezenove. Marcos fez uma disfarçada expressão de espanto, pensava que ela era mais velha.


As duas garotas se beijaram novamente e Bruna se virou na direção de Marcos, enrolando a mecha de cabelo no dedo indicador direito e mascando chiclete. Ele perguntou: – Você gosta de beijar só mulheres ou homens também? – Eu faço o que der vontade. Na balada, assim, às vezes eu beijo mulher, só de frescura, para me divertir. Na verdade o que eu gosto mesmo, com quem faço todas as coisas, é com homem. E você? – Gosto de mulheres, mas sou bem curioso. Houve outra pausa. Marcos e Bruna começaram a dançar juntos. – Então você gosta de mulher e de homem… – tentou concluir Bruna. – Não sei definir bem, costumo ficar com mulheres. – E se for mulher e homem ao mesmo tempo? – Perguntou ela, insinuando-se. – Parece interessante – disse ele, pegando-a nos braços e beijando-a. Tocava uma música nova de Miss Kittin e Marcos sentia as endorfinas percorrerem suas veias. Mais tarde, quase na hora em que ia embora, Bruna continuou: – Ah, tem uma coisa que não lhe contei. – O quê? – Eu não tenho 19 anos, tenho 26. – Tudo bem. – Tem outra coisa. Meu nome agora é Ingrid. * * * Regina dormia ao lado do esposo e um pesadelo teve início. Pequenos roedores tomavam conta do chão e tentavam subir na cama. De uma forma inexplicável, ela não conseguia se levantar para tomar alguma providência, fosse fugir das centenas de ratos ou afugentá-los. Sua voz não saía da garganta e Valter não atendia aos chamados que ela fazia com as mãos. Três ratos subiram na cama. Ela congelou. Sequer conseguia cutucar o marido e assistia à cena como se passasse numa televisão. Qualquer coisa que pensasse ou conseguisse fazer seria inútil para salvá-la.

Mais ratos subiram na cama, em velocidade explosiva. Seus chiados formavam um coro. Alguns deles entraram na calça do pijama de Valter, que se encontrava desfalecido, e outros se aproximavam das pernas dela. A mulher se deparava com a morte. Essa recorrente sensação agora era trazida pelos ratos hiperativos. Ela despertou ofegante com suor pelo corpo. Sentia a rapidez das respostas fisiológicas, mas, em compensação, um alívio se iniciava. De novo, outro pesadelo. Até quando durariam? A interrupção do sono não lhe trouxe à vigília total. Perdida e sorumbática, tentava se fixar em algo que lhe desse segurança. Quando sentiu o colchão com as palmas das mãos, concluiu que estava acordada na sua cama. Porém, o medo não passou. Os sons da madrugada eram perturbadores. Sentia a presença de algo ameaçador. Pelo menos, a ameaça parecia menor do que aquela dos ratos. Os arrombamentos das casas eram comuns ultimamente. Haveria algum invasor? Olhou para as duas grandes janelas de vidro do quarto. A cortina de uma delas parecia se movimentar. Só uma brisa de vento, tudo bem. Ou não. Por que haveria vento no quarto? Só se a janela estivesse aberta ou semiaberta. As batidas cardíacas rasgavam o seu peito. Olhou para a caixinha de música sobre o criado mudo. Aquele objeto vermelho com detalhes rebuscados era um dos objetos mais remotos da sua infância. Quando tensa, ela costumava usá-lo para se acalmar.

O som terno lhe acariciava com suavidade, como todo lindo bebê merece ser tratado. Relembrou as notas musicais da infância. Então ouviu passos. – Ai, meu Deus! – sussurrou de maneira quase inaudível. Tinha alguém ali ou estava louca? Os passos eram firmes e se aproximavam. Antes aqueles malditos chiados dos ratos, agora esses passos. Estava de costas para Valter, encolhida como uma criança. Teria que chamá-lo, contudo, acordando-o, ouviria as reclamações, que seriam maiores em uma véspera de viagem. Os passos se aproximavam mais ainda. Que se dane o Valter, não o estaria acordando por causa de um pesadelo. Deparava-se com uma ameaça real, que podia aniquilá-los em troca de uma TV de plasma e algumas joias. Procurava a origem daquele som na escuridão do enorme quarto. Movimentou o braço direito em direção a Valter. Não encontrou nada. – Valter? Virou-se na direção do marido e ele não estava sobre a cama. – Valter, cadê você? Era inútil. Os passos do bandido estavam diante de si. – O que foi, Regina? – perguntou o marido que surgia da escuridão com um copo d’água. O pânico dela foi, então, interrompido. Sentiu um alívio imediato. Seus músculos, agora relaxados, mal equilibravam seu tronco sobre a cama. Apoiou-se na cabeceira e desabafou: – Você quase me matou de susto. – Por quê? Só fui ao banheiro e depois peguei água. Ela fitou o copo com concentração. – Quer minha água? – Sim, obrigada.

– e pegou o copo, deixando-o pela metade com apenas dois goles. Depois continuou. – Você não sabe o que aconteceu, tive outro pesadelo, com ratos desta vez, o que nunca aconteceu. Estranho! Agora mesmo achei que tinha um ladrão aqui. Capítulo 2 – Confusão antes de viajar A casa de dois andares com cerca de 500 metros quadrados se localizava na parte posterior de um terreno com o triplo de superfície. As diversas janelas, sacadas e paredes de vidro espelhado se voltavam para o lago Paranoá, 30 metros à frente. Nos fundos, havia um quiosque, uma piscina, umviveiro de mudas, um pequeno jardim com plantas de vários países e um extenso gramado onde corriam dois cães dobermann. A garagem comportava seis carros e uma lancha. Entre os diversos cômodos do primeiro andar, havia um átrio de entrada, duas salas de estar, dois banheiros sociais, uma sala de jantar e uma cozinha; no segundo andar, três suítes, dois quartos para visitas, um banheiro social, dois escritórios e quatro sacadas amplas. A família morava no Lago Sul, uma nobre e grande região de Brasília paralela à Asa Sul, com extensão de cerca de oito quilômetros ao longo do lago Paranoá. Logo depois de se levantarem da cama naquela quarta-feira, Valter e Regina começaram a arrumar as malas. Ele se mostrava ansioso já nas primeiras horas do dia, como sempre acontecia antes de partirem. Só viajava de manhã, achava mais seguro. Tendo arrumado as malas rápido, ele andava para todos os lados para pegar os materiais esportivos, pois objetos estavam espalhados pela casa. Quando guardava algo no porta-malas da espaçosa Mitsubishi Pajero Dakar preta, riscava o nome do objeto na lista de conferência. – Viu os capacetes, Regina? – Não sei. – Você nunca sabe de nada. Alguém os retirou da garagem. O lugar dos capacetes é na garagem. Não vamos viajar sem eles, Regina. – Calma, eles vão aparecer. – Toda vez é assim. – Assim como? – perguntou a esposa com o último fio de paciência. – Essa correria. Nunca conseguimos sair no horário previsto.

– Nas férias não tem essa de horário. Nesse tipo de situação, eles costumavam brigar, ameaçavam cancelar o passeio, ele colocava a culpa toda nela, ela chorava; os filhos, incomodados, tentavam intervir e acabavam se dando mal. Percebendo a irritação dos patrões, uma das funcionárias saiu pela casa como uma barata assustada procurando os capacetes. Valter foi até o quarto de Marcos, que estava dormindo. – Cadê os capacetes, Marcos? O jovem nem respondeu, nem se movimentou. Valter ligou a luz. – Acorda! Marcos então mostrou sua cara amassada, com mau humor. – Deixe eu dormir, coroa. Valter continuava com os olhos cravados nele, impaciente. – Você vai para essas baladas e depois não consegue acordar na hora certa. Que horas chegou em casa? Deve ter sido cinco da manhã, como sempre. Marcos voltou o rosto para o travesseiro. – Você pegou os capacetes para andar de skate? – Peguei, pai. – Por quê? – Eu perdi o meu e estava com preguiça de ir comprar outro. – Onde guardou? – Não me lembro, deixei em algum lugar por aí. – Você deveria ser preso por isso. O pai desistiu e saiu pela casa chamando a filha: – Mônica? Mônica? Do seu quarto, Mônica respondeu: – Não sei de capacete, pai. O Edu chegou, tenho que ir agora. Quando ele entrou no quarto da filha, comentou: – Que saia curta, hein! Marcos, que ouvia a conversa, perguntou naquele seu tom mordaz: – Que importa o tamanho, se logo ela vai tirar a saia mesmo? – Fica quieto, moleque. – repreendeu a irmã. A bela filha de vinte anos beijou o pai. A mãe se aproximava e também foi beijada. Uma desejou boa viagem à outra. Mônica se despediu também do irmão, com agressividade, e foi ao encontro do namorado que a esperava no carro estacionado em frente à casa. Os jovens iriam até o Aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitschek, deixariam o carro no estacionamento e pegariam um avião para São Paulo.

Chegando lá alugariam um carro e iriam até Santos para passar as férias da universidade no apartamento da família dela. Mônica cursava Arquitetura e Urbanismo; Eduardo, Economia; e Marcos, Relações Internacionais. Sem receber qualquer atenção, Regina comentou com o esposo que Eduardo nem desceu do carro para cumprimentá-los. Depois de andar mais meia hora pela casa amaldiçoando tudo o que podia, Valter gritou com os capacetes na mão: – Achei! No seu quarto, Marcos. No seu quarto! O jovem, pronto para sair, disse: – Já estou de partida. – Nós levamos você para o aeroporto, filho. – disse a mãe, querendo passar mais alguns minutos com ele. – Se depender de vocês, vou perder o avião. Duvido que saiam daqui antes da uma hora da tarde. Metade dos itens da lista havia sido marcada e eram dez horas e meia. – Cuide-se, filho. – Com certeza, mãe. – falou Marcos rindo. – Não vai fazer nenhuma besteira. – Só uma, não. Pai, fique calmo. Valter deu um tapa no papel que segurava. – É impossível ficar calmo! Marcos beijou os pais com pressa, por obrigação, e deixou-os. Guardou no seu Porsche uma mala de rodinhas e uma mochila, lotadas de roupas de grifes e parafernálias eletrônicas. – Não sei se ele deveria ir sozinho… – Esse marmanjo já tem vinte e um anos. Você devia se preocupar mais com a nossa viagem. – Por que esse estresse? – Por causa de vocês. Valter estava a ponto de explodir. Às onze horas, informou: – Regina, estamos no horário. Vamos chegar só à noite.

Ela pediria ao marido para se acalmar. No entanto, engoliu e calou-se. Mais tarde ele realizava a última tarefa: amarrar o caiaque de dois lugares no bagageiro do carro. Tinham prática com caiaque e pretendiam se aperfeiçoar com a nova aquisição. O homem de 45 anos apresentava compleição física boa para os esportes: 1,80 m. de altura, 78 quilos, baixa gordura corporal e ombros fortes. Desde mais jovem se fascinava por atividades físicas radicais. Conhecia um pouco de quase tudo, e sua preferência era dirigida ao mar, lagos e rios. Empresário do ramo da construção civil bem-sucedido e, sobretudo, ocupado, mal esperava as raras folgas para deixar Brasília, tirar o terno, vestir shorts, camiseta e tênis e cair na estrada. Porém, nunca conseguia deixar de pensar nos negócios e descansar de fato. Regina sempre o acompanhava nas férias. Até há uns três anos, os filhos ainda iam com eles. A esposa era herdeira de um respeitado escritório de advocacia e dona de um corpo esbelto, sexy e atlético, com cabelos loiros cacheados na altura dos ombros e com 42 anos de idade. Prontos para viajar, dispensaram a funcionária, trancaram a casa e entraram no carro. Vestiam trajes casuais. Colocaram seus óculos de sol e partiram. Uma hora depois, já na rodovia em sentido ao interior do Mato Grosso, ela perguntou: – E o meu celular? Você o viu, Valter? – Não. Ela pegou o telefone dele e fez a chamada para o dela. Não ouviu nada. – Vamos voltar para casa, eu me esqueci. – Não. – Não vou ficar sem falar com os meus filhos. – Usa o meu. Está aí, pega para você. Regina devolveu o celular.

Valter, de imediato, lançou-o no colo dela: – Fica para você, não quero atender essa porcaria nas férias. – Grosso… Valter não conseguiria relaxar enquanto houvesse alguma tarefa urbana a ser desempenhada. Parecia que os preparativos, a cidade e a viagem não faziam parte das férias. Tampouco descansaria quando se livrasse de tudo isso. Às duas da tarde, os ânimos do casal haviam se acalmado. Trocavam carícias enquanto ele dirigia a 140 km/h – não existia mais tempo a perder. Ouviam um CD recém-lançado, a coletânea Hits, da banda Men at Work. A música preferida de Valter, Down Under, trouxe uma gostosa e rara sensação de paz na viagem. Comeram sanduíches naturais e beberam suco, trazidos dentro da caixa térmica. Dispensavam guloseimas, frituras, fast food e restaurantes desconhecidos, somente em caso de extrema necessidade. Não fumavam, não usavam drogas ilícitas e bebiam álcool apenas em ocasiões especiais. Acreditavam que, com isso, eram bons modelos para os filhos.

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