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A Rosa da Meia-Noite – Lucinda Riley

Completo cem anos de idade hoje. Não apenas consegui sobreviver por um século como vi nascer um novo milênio. Enquanto a alvorada irrompe no horizonte, e o sol começa a se erguer sobre o monte Kanchenjunga através de minha janela, me deito sobre os travesseiros e, sozinha, rio de umpensamento ridículo. Se eu fosse uma mobília, uma cadeira elegante, por exemplo, seria rotulada como antiguidade. Seria polida, restaurada e orgulhosamente colocada em exibição como um objeto de beleza. Infelizmente, esse não é o caso de meu corpo, que não envelheceu como uma bela peça de mogno. Em vez disso, meu corpo se deteriorou como um flácido saco de juta comportando umconjunto de ossos. Qualquer “beleza” que possa ser considerada valiosa em mim se esconde profundamente emminha essência. É a sabedoria de cem anos vividos nesse mundo, e um coração que tem batido em umcadenciado acompanhamento para todos os imagináveis comportamentos e emoções humanos. Há cem anos, neste mesmo dia, como de costume entre os indianos, meus pais consultaram umastrólogo para que este lhes dissesse sobre o futuro de sua filha recém-nascida. Acredito que ainda tenha as previsões que o adivinho fez sobre meu futuro entre os poucos pertences de minha mãe que guardei. Eu me lembro deles dizendo que eu teria uma vida longa, mas em 1900, acredito, meus pais imaginaram que isso significava que, com a bênção dos deuses, eu chegaria aos cinquenta anos. Ouço uma batida suave na porta. É Keva, minha fiel criada, trazendo uma bandeja com chá inglês e uma jarra de leite frio. Tomar chá ao modo inglês é um hábito que nunca consegui largar, mesmo tendo vivido na Índia, em Darjeeling, nos últimos setenta e oito anos. Não respondo à batida na porta de Keva, preferindo ficar sozinha com meus pensamentos umpouco mais nesta manhã especial. Certamente, Keva quer conversar sobre os eventos do dia, ansiosa para me ajudar a levantar e a me vestir antes de minha família começar a chegar. Quando o sol começa a queimar as nuvens que escondem o topo coberto de neve das montanhas, busco no céu azul a resposta que suplico todas as manhãs nestes setenta e oito anos. Hoje, por favor, imploro aos deuses, pois eu sempre soube, a cada hora que passa desde que vi meu filho pela última vez, que ele ainda respira em algum lugar deste planeta. Se ele tivesse morrido, eu teria sabido no exato momento em que isso aconteceu, do mesmo modo que soube quando todos aqueles que amei na vida se foram. Lágrimas enchem meus olhos, e eu me viro para o criado-mudo ao lado da cama para estudar a única fotografia que tenho dele, um querubim de dois anos de idade, sorrindo, sentado sobre meus joelhos. Foi minha amiga Indira quem me deu essa foto, junto com sua certidão de óbito, algumas semanas depois de eu ter sido informada da morte de meu filho. Uma vida se passou, acho. A verdade é que meu filho agora é um homem velho também. Ele celebrará seu octogésimo primeiro aniversário em outubro deste ano.


Mas, mesmo com os poderes da minha imaginação, é impossível para mim enxergá-lo assim. Desvio o olhar com determinação para longe da imagem dele, sabendo que hoje mereço desfrutar da celebração que minha família planejou para mim. Mas, de algum modo, em todas essas ocasiões, ao ver minha filha, netos e bisnetos, a ausência de meu filho apenas alimenta a dor em meu coração, me lembrando sempre de sua falta. Claro que minha família acredita, como sempre acreditou, que meu filho morreu setenta e oito anos atrás. — Maaji[1], veja, você tem até a certidão de óbito dele! Deixe-o descansar — minha filha Muna diria com um suspiro. — Desfrute da família viva que você tem. Depois de todos esses anos, entendo que Muna se frustre comigo. E ela, claro, tem razões para ficar assim. Ela quer ser o suficiente, apenas ela. Mas a perda de um filho é algo que não poderá jamais ser compensado no coração de uma mãe. E, por hoje, minha filha terá seu desejo realizado. Eu me sentarei em minha cadeira e desfrutarei da dinastia que gerei. Não vou aborrecê-los com minhas histórias sobre a Índia. Quando chegarem em seus jipes ocidentais, com seus filhos brincando com seus dispositivos a bateria, não vou lembrá- los de que Indira e eu subimos a cavalo os montes íngremes ao redor de Darjeeling, que eletricidade e água encanada eram raridades no passado, ou da voracidade com que lia qualquer livro esfarrapado que caísse em minhas mãos. Os jovens ficam irritados com histórias do passado; eles preferem viver apenas o presente, assim como eu fazia quando tinha a mesma idade. Posso imaginar que a maior parte de minha família não esteja ansiosa por atravessar a Índia para visitar sua bisavó em seu aniversário de cem anos, mas eu talvez esteja sendo dura com eles. Tenho pensado muito, nos últimos anos, sobre o porquê de os jovens ficarem desconfortáveis na presença de velhos; tantas coisas úteis e necessárias eles poderiam aprender conosco. Cheguei à conclusão de que tal desconforto é proveniente do fato de que, na presença de nosso físico frágil, eles se conscientizam do que o futuro representa para eles. Eles podem enxergar, no brilho de seu pleno vigor e beleza, que também entrarão em declínio um dia. Eles não sabem o que irão adquirir. Como poderiam enxergar o que há dentro de nós? Compreender como nossas almas crescemuma vez que sua impetuosidade é domada e seus pensamentos egoístas são ofuscados pela experiência de tantos anos? Mas aceito que a natureza seja assim, em toda a sua complexidade gloriosa. Deixei de questionar. Quando Keva bate à porta pela segunda vez, eu a deixo entrar. Enquanto ela fala comigo em um hindi apressado, tomo meu chá e relembro os nomes de meus quatro netos e onze bisnetos. Aos cem anos de idade, desejo ao menos provar que minha mente ainda funciona perfeitamente.

Os quatro netos que minha filha me deu cresceram; tornaram-se pais amorosos e bemsucedidos. Eles desabrocharam em um mundo novo trazido à Índia depois da independência do domínio britânico, e seus filhos foram ainda mais além. Ao menos seis deles, pelo que me lembro, abriram seus próprios negócios ou fizeram carreira. De um modo egoísta, eu gostaria de que um de meus descendentes tivesse interesse na medicina, tivesse seguido meus passos, mas sei que não é possível ter tudo. Enquanto Keva me ajuda a ir ao banheiro para me lavar, penso que minha família tem uma mistura de sorte, inteligência e relações familiares a seu lado. Penso também que minha amada Índia provavelmente ainda precise de outro século antes que os milhões que passam fome nas ruas ganhemo mínimo para suas necessidades humanas básicas. Fiz o melhor que pude para ajudar ao longo dos anos, mas percebo que meus esforços foram mera ondulação contra uma maré estrondosa de pobreza e privação. Sentada pacientemente enquanto Keva me veste em um sari novo, presente de aniversário de minha filha Muna, decido que não refletirei sobre esses pensamentos angustiantes hoje. Tentei, como pude, melhorar aquelas vidas que cruzaram a minha, e preciso ficar contente com isso. — A senhora está linda, Madame Chavan. Quando vejo meu reflexo no espelho, sei que ela está mentindo, mas eu a amo por isso. Meus dedos buscam as pérolas que repousam em volta de meu pescoço há quase oitenta anos. Em meu testamento, deixei-as para Muna. — Sua filha chega às onze horas, e o resto da família chega uma hora depois. Onde devo deixar a senhora até eles chegarem? Sorrio para ela, me sentindo como uma cadeira de mogno. — Você pode me deixar na janela. Quero olhar minhas montanhas — digo. Ela me ajuda a levantar, me guia gentilmente até a poltrona e me senta. — Posso lhe trazer mais alguma coisa, madame? — Não. Pode ir para a cozinha e se certifique de que nosso cozinheiro tem o cardápio do almoço sob controle. — Sim, senhora. — Ela remove meu sino do criado mudo e o coloca na mesa a meu lado antes de deixar o quarto, em silêncio. Viro meu rosto para a luz do sol, que começa a entrar pelas grandes janelas de meu bangalô, localizado no alto de uma colina. Enquanto me deleito feito um gato com seu calor, lembro-me de amigos que já partiram e não estarão comigo hoje para a celebração. Indira, minha mais amada amiga, faleceu há quinze anos.

Confesso que aquele foi um dos poucos momentos de minha vida em que perdi a razão e chorei incontrolavelmente. Mesmo minha filha, dedicada como é, não seria capaz de igualar o amor e a amizade que Indira me ofereceu. Egocêntrica e caprichosa até o último momento, Indira esteve a meu lado quando mais precisei. Olho para a escrivaninha, localizada em um nicho do outro lado do quarto, e não consigo evitar pensar no que está escondido na gaveta trancada. É uma carta com mais de trezentas páginas. Foi escrita para meu amado filho e conta a história de minha vida desde o início. Ao longo dos anos, comecei a me preocupar em esquecer os detalhes, para que eles ficassem borrados e granulados emminha mente, como as imagens de um filme mudo em preto e branco. Se, como eu ainda acredito, meu filho estiver vivo e for devolvido a mim, quero ser capaz de presenteá-lo com a história de sua mãe e de seu amor eterno pelo filho perdido. E os motivos que a obrigaram a deixá-lo para trás… Comecei a escrever quando ainda estava na meia-idade, acreditando então que poderia ser levada a qualquer momento. E lá a carta ficou, por quase cinquenta anos, intocada e não lida, porque ele nunca veio a meu encontro e eu ainda não o encontrei. Nem mesmo minha filha conhece a história de minha vida antes de sua chegada a este mundo. Às vezes me sinto culpada por nunca ter revelado a ela a verdade. Mas acredito que seja suficiente o fato de ela ter conhecido meu amor, enquanto este foi negado a seu irmão. Olho para a escrivaninha e imagino a pilha de papéis amarelados dentro dela. Peço aos deuses que me guiem. Ficaria horrorizada se eles caíssem em mãos erradas quando eu morrer, o que certamente deve acontecer logo. Pondero por alguns segundos se devo acender uma fogueira e pedir a Keva que coloque os papéis nela. Mas não, balanço a cabeça instintivamente. Ainda há esperança. Afinal, já vivi cem anos; posso viver cento e dez. Mas a quem devo confiá-los, enquanto isso, em caso de…? Mentalmente examino os membros de minha família, geração por geração. A cada nome, espero ouvir uma orientação. E é no nome de um de meus bisnetos que pauso. Ari Malik, o filho mais velho de meu neto mais velho, Vivek. Solto uma risada leve com o arrepio que sinto na espinha — o sinal que esperava lá de cima, daqueles que compreendem muito mais do eu.

Ari, o único membro de minha família a ter sido abençoado com olhos azuis — além de meu amado filho perdido. Concentro-me em relembrar os detalhes; com onze bisnetos, me conforta saber de que pessoas com a metade da idade que tenho também têm dificuldade para se lembrar. Além disso, meus bisnetos estão espalhados por toda a Índia e eu raramente os vejo. Vivek, pai de Ari, é o mais bem-sucedido financeiramente entre meus netos. Ele sempre foi inteligente, ainda que um pouco enfadonho. Ele é engenheiro e já ganhou o suficiente para dar uma vida bem confortável para sua esposa e os três filhos. Se me lembro corretamente, Ari estudou na Inglaterra. Ele sempre teve um quê de brilhantismo, apesar de muita coisa que fez depois de deixar a escola não me vir à memória. Hoje, decido, vou descobrir. E tenho certeza de que saberei se meu instinto está certo. Com isso decidido, sentindo-me mais calma agora que a solução para meu dilema está ao alcance de minhas mãos, fecho os olhos e permito-me cochilar um pouco. — Onde ele está?! — Samina Malik cochicha com seu marido. — Ele prometeu que não se atrasaria — ela acrescentou, enquanto escrutinava os outros membros presentes da família de Anahita. Eles se aglomeravam ao redor da velha senhora, na elegante sala de estar de seu bangalô, cobrindo-a com presentes e elogios. — Não entre em pânico, Samina — Vivek confortou sua esposa. — Nosso filho logo estará aqui. — Ari disse que nos encontraria na estação para subirmos a colina juntos, como uma família, às dez horas… Eu juro, Vivek, aquele menino não tem respeito por sua família, eu… — Silêncio, pyari[2], ele é um rapaz ocupado e um bom menino, também. — Você acha? Não tenho certeza. Toda vez que telefono para seu apartamento, uma mulher diferente atende. Você sabe como Mumbai é; cheia de mulheres levianas e vigaristas — ela sussurrou, não desejando que qualquer outro membro da família ouvisse sua conversa. — Acho. Nosso filho tem vinte e cinco anos agora e é dono do próprio negócio. Ele pode tomar conta de si mesmo — Vivek respondeu. — Os empregados estão esperando ele chegar para trazerem o champanhe e fazer o brinde. Keva está preocupada com sua avó, que ficará cansada se demorarmos muito — Samina suspirou fundo.

— Se Ari não chegar em dez minutos, pedirei para continuarmos sem ele. — Já disse, não haverá necessidade de fazer isso — Vivek confirmou com um largo sorriso assim que Ari, seu filho favorito, entrou na sala. — Sua mãe estava em pânico, como sempre — ele disse a Ari, abraçando seu filho de modo afetuoso. — Você prometeu que estaria lá na estação. Esperamos por uma hora! Onde você estava? — Samina franziu a testa para seu belo filho, mas, como sempre, sabia que seria mais uma batalha perdida contra seu charme. — Ma[3], me perdoe. — Ari enviou um sorriso vitorioso para sua mãe e pegou a mão dela. — Me atrasei e tentei ligar para seu celular. Mas, como sempre, estava desligado. Ari e seu pai compartilharam um sorriso. A incapacidade de Samina usar o telefone celular era uma piada na família. — Mas estou aqui agora — Ari disse, olhando ao redor para o resto do clã. — Perdi alguma coisa? — Não, e sua bisavó está tão ocupada cumprimentando o resto da família que podemos presumir que não notou seu atraso — Vivek respondeu. Ari se virou e voltou os olhos para a multidão com o mesmo sangue que o seu, para a matriarca cujos genes teceram fios invisíveis através de gerações. Quando a viu, Ari notou seus olhos brilhantes e inquisitivos fixados nele. — Ari! Você finalmente decidiu se juntar a nós — ela sorriu. — Venha beijar sua bisavó. — Sua avó pode ter cem anos, mas não perde nada — Samina cochichou para Vivek. Assim que Anahita abriu os braços frágeis para Ari, a multidão de parentes se afastou e todos os olhos na sala se voltaram para ele. Ari caminhou em sua direção e se ajoelhou diante dela, mostrando seu respeito com uma pranaam[4] e esperando sua bênção. — Nani — ele cumprimentou, usando o apelido carinhoso que todos os netos e bisnetos de Anahita usavam. — Desculpe meu atraso. É uma longa jornada de Mumbai — explicou. Quando ergueu os olhos, Ari pôde ver os olhos dela examinando-o daquele seu modo peculiar, como se ela analisasse sua alma. — Não tem importância — ela disse enquanto seus dedos encolhidos tocavam a face do rapaz como a asa delicada de uma borboleta.

Ela diminuiu o volume da voz e sussurrou de modo que apenas Ari pudesse ouvir. — Mas sempre acho útil checar antes de dormir se coloquei o alarme para despertar na hora certa. — Ela deu uma piscadinha clandestina antes de fazer um sinal para ele se levantar. — Conversaremos mais tarde. Keva está ansiosa para iniciar as comemorações. — Sim, Nani, claro — Ari disse, sentindo o rosto enrubescer ao se levantar. — Feliz aniversário. Caminhando de volta para junto de seus pais, Ari se perguntou como sua bisavó adivinhara o verdadeiro motivo do atraso. O dia seguiu como planejado, com Vivek, na posição de neto mais velho de Anahita, fazendo um discurso emocionante sobre sua vida admirável. À medida que o champanhe era consumido, a conversa passou a fluir e a tensão peculiar de uma família reunida depois de muito tempo começou a desaparecer. A natureza naturalmente competitiva entre irmãos foi ofuscada quando cada um restabeleceu sua posição na hierarquia familiar e os primos mais jovens perderam a timidez e encontraram interesses em comum. — Olhe para o seu filho! — Muna, filha de Anahita, comentou com Vivek. — Suas primas estão todas babando por ele. Logo ele terá que pensar em casamento — ela acrescentou. — Duvido que ele veja as coisas assim — resmungou Samina para a sogra. — Atualmente os jovens parecem querer curtir a vida até depois dos trinta. — Vocês não vão arranjar nada para ele, então? — Muna perguntou. — Vamos, claro, mas duvido que ele concorde — Vivek disse. — Ari pertence à nova geração, mestre de seu próprio universo. Ele tem seu negócio e viaja o mundo. Os tempos mudaram, Ma, e Samina e eu devemos permitir que nossos filhos tenham a opção de escolher seus próprios maridos e esposas. — Sério? — Muna levantou uma sobrancelha. — Isso é bem moderno de sua parte, Vivek. Afinal, vocês dois não se saíram mal juntos. — Sim, Ma — Vivek concordou, pegando a mão de sua esposa.

— Você fez uma ótima escolha para mim — ele sorriu. — Mas nadamos contra uma corrente forte — acrescentou Samina. — Os jovens fazem o que querem hoje em dia, tomam suas próprias decisões — desejando mudar de assunto, ela olhou para Anahita. — Sua mãe parece estar se divertindo hoje. Ela é um milagre, uma maravilha da natureza —Samina disse para Muna. — Sim — Muna suspirou. — Mas me preocupo com ela aqui nas colinas, apenas com Keva para cuidar dela. É tão frio no inverno, e não deve ser bom para seus ossos velhos. Já pedi tantas vezes para ela vir morar conosco em Guhagar, para podermos cuidar dela. Mas, claro, ela recusa. Diz que se sente mais próxima dos espíritos aqui e, claro, de seu passado. — O passado misterioso dela — Vivek levantou uma sobrancelha. — Ma, você acha que irá convencê-la a dizer quem foi o seu pai? Sei que ele morreu antes de você nascer, mas, para mim, os detalhes sempre pareceram superficiais. — Isso era importante enquanto eu crescia, e me lembro de fazer muitas perguntas, mas agora… — Muna deu de ombros. — Se ela quer manter seus segredos, tudo bem. Ela não poderia ter sido uma mãe mais amorosa para mim, e não desejo aborrecê-la — Muna olhou para a sua mãe comcarinho. Anahita encontrou seu olhar e fez um sinal para que a filha fosse até ela. — Sim, Maaji, o que foi? — Muna perguntou ao se aproximar. — Estou um pouco cansada agora. — Anahita tentou evitar um bocejo. — Quero descansar. E em uma hora quero que você traga meu bisneto, Ari, para me ver. — Claro. — Muna ajudou a mãe a ficar de pé e a passar entre seus familiares. Keva, como sempre rondando sua senhora, deu um passo à frente.

— Minha mãe deseja repousar um pouco, Keva. Poderia ir com ela e acomodá-la? — Certamente. Foi um dia longo. Muna observou enquanto ela deixava a sala, depois voltou para junto de Vivek e sua esposa. — Ela vai descansar um pouco, mas me perguntou se Ari pode ir falar com ela daqui a uma hora. — Sério? — Vivek franziu a testa. — Me pergunto por quê. — Quem sabe o que se passa pela cabeça da minha mãe? — Muna disse, suspirando. — Bem, é melhor dar o recado. Sei que ele falou de ir embora logo. Ele tem uma reunião de negócios em Mumbai amanhã de manhã. — Bem, pelo menos desta vez, sua família vem em primeiro lugar — Samina disse, firmemente. — Vou procurar por ele. Quando Ari soube, pela mãe, que sua bisavó queria uma conversa particular em uma hora, não ficou nada contente, como seu pai havia previsto. — Não posso perder aquele voo — explicou. — Você precisa entender, Ma, que eu tenho um negócio para administrar. — Então vou pedir para o seu pai dizer a sua bisavó que o primeiro bisneto dela não temtempo para conversar em seu centésimo aniversário. — Ma… — Ari viu a expressão inflexível no rosto de sua mãe e respirou fundo. — Tudo bem. Eu fico. Com licença, preciso encontrar sinal neste lugar para fazer uma ligação e adiar a reunião. Samina observou seu filho se afastar olhando intensamente para o celular. Ele foi uma criança determinada desde o dia em que nasceu, e, sem dúvida, ela mimou seu primogênito, como toda mãe faz. Ele sempre foi especial, desde o momento em que abriu os olhos e ela fitou, surpresa, sua cor azul. Vivek fez piadas incontáveis sobre eles, questionando a fidelidade de sua esposa.

Até que eles visitaram Anahita e ela declarou que o pai de Muna tinha olhos da mesma cor. O tom de pele de Ari também era mais claro que o do resto de seus irmãos, e sua aparência extraordinária sempre atraía a atenção. Devido à notoriedade ao longo de seus vinte e cinco anos, havia certa arrogância em sua atitude. Mas ele se redimia com a doçura de sua personalidade. Entre todos os seus filhos, Ari sempre foi o mais amoroso com ela, sempre a seu lado em um piscar de olhos se houvesse um problema. Até o dia em que partiu para Mumbai, anunciando que abriria o próprio negócio… Hoje em dia, o Ari que visitava a família parecia mais duro, centrado, e, honestamente, Samina percebeu que gostava menos dele. Caminhando de volta até seu marido, ela fez uma prece para que esse fosse um período passageiro. — Meu bisneto pode entrar agora — Anahita anunciou, depois que Keva a sentou e afofou seus travesseiros. — Sim, madame. Vou chamar seu bisneto. — E não quero que nos incomodem. — Não, madame. — Boa tarde, Nani — Ari disse ao entrar no quarto, alguns segundos depois. — Espero que esteja se sentindo melhor agora. — Sim — Anahita apontou para a cadeira. — Por favor, sente-se, Ari. E peço desculpas por atrapalhar seus planos para amanhã. — Não tem problema — Ari sentiu o sangue esquentar seu rosto pela segunda vez naquele dia. Ele notou como sua bisavó o observava com aqueles olhos penetrantes e pensava como ela parecia capaz de ler seus pensamentos. — Seu pai disse que você está morando em Mumbai e que agora é dono de um negócio bemsucedido. — Bem, eu não diria que é bem-sucedido ainda. Mas estou trabalhando duro para que seja no futuro. — Posso notar que você é um jovem ambicioso. E tenho certeza de que um dia seu negócio dará os frutos que você espera. — Obrigado, Nani.

Ari notou que sua bisavó esboçou um sorriso. — Claro, pode ser que isso não traga a satisfação que você espera. Há muito mais que trabalho e riqueza na vida. Mas isso você precisa descobrir sozinho — ela acrescentou. — Agora, Ari, tenho uma coisa para você. Por favor, abra a escrivaninha com esta chave e pegue uma pilha de papéis que está dentro da gaveta. Ari pegou a chave da mão de sua bisavó, virou a fechadura e removeu o manuscrito envelhecido da gaveta. — O que é isto? — ele perguntou. — É a história da vida de sua bisavó. Ela foi escrita como registro para o filho que perdi. Infelizmente, nunca o encontrei. Ari viu lágrimas brotarem nos olhos de Anahita. Ele ouviu alguns comentários de seu pai, ao longo dos anos, sobre o filho que havia falecido na infância, na Inglaterra, quando sua bisavó esteve lá, durante a Primeira Guerra Mundial. Se sua lembrança estivesse certa, ele pensou, ela precisou deixar o menino para trás quando voltou para a Índia. Ao que parece, Anahita se recusava a acreditar que seu filho estava morto. — Mas pensei… — Sim, tenho certeza que te disseram que tenho a certidão de óbito dele. Que sou uma mãe triste e louca, incapaz de aceitar que seu amado filho se foi. Ari se moveu desconfortavelmente na cadeira. — Já ouvi essa história — admitiu. — Sei o que minha família pensa e o que você provavelmente pensa também — Anahita afirmou. — Mas, acredite, há mais coisas entre o céu e a terra do que pode ser explicado por umdocumento feito pelo homem. Há o coração de uma mãe, e sua alma, que lhe diz coisas que não devem ser ignoradas. E eu lhe digo que meu filho não está morto. — Nani, acredito em você. — Sei que você não acredita e não me importo.

Contudo, é minha culpa o fato de minha família não acreditar em mim. Nunca expliquei o que aconteceu naqueles anos. — Por que não? — Porque… — Anahita contemplou suas queridas montanhas através da janela. Balançou a cabeça levemente. — Não é certo te dizer agora. Está tudo aí — ela apontou o dedo para os papéis nas mãos de Ari. — Quando for a hora certa, e você saberá quando ela chegar, talvez você venha a ler minha história. E, então, vai decidir sozinho se deve investigá-la ou não. — Entendi — Ari disse, mas não entendeu de fato. — Tudo o que peço é que não compartilhe o conteúdo dessas páginas com ninguém até eu morrer. É a minha vida que confio a você, Ari. Como sabe — Anahita pausou —, meu tempo na Terra está acabando. Ari olhou para ela fixamente, confuso quanto ao que sua bisavó queria que ele fizesse. — Você quer que eu leia isso e, então, investigue o paradeiro do seu filho? — ele arriscou. — Sim. — Mas por onde devo começar? — Na Inglaterra, é claro. — Anahita olhou fixamente para ele. — Você reconstituiria meus passos.

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