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A Sabedoria dos Antigos – Francis Bacon

A interpretação alegórica dos mitos clássicos que Francis Bacon faz em A sabedoria dos antigos teve por muito tempo fortuna crítica semelhante à própria posição do autor no lugar que ocupa nas histórias do pensa-mento ocidental traçadas com mais ligeireza: foi tomada pelo que não é. Pois assim como Bacon foi tradicional-mente situado como um dos fundadores da ciência moderna por motivos que não são exatamente os que lhe garantem tal posição, sua coletânea de interpretações alegóricas foi, durante muito tempo, vista exclusiva-mente como parte de sua obra “literária”. Somente após pesquisas mais recentes (P. Rossi, C.W. Lemni, B.C. Garner, L. Jardine, e outros) é que este equívoco — constante mesmo na edição padrão das obras de Bacon de Ellis, Spedding e Heath, de 1860 (de cuja tradução do latim para o inglês foi extraída a presente edição) — passa a ser dissipado. A partir daí, A sabedoria dos antigos, sem que seja descartada sua “literaridade”, é reposicionada como parte da “obra filosófica” de Bacon, pois conteria, inclusive, de maneira oblíqua, mas clara, colocações relativas ao naturalismo materialista democriteano que seriam de grande importância para a compreensão da perspectiva de sua obra como um todo, bem como traços de sua interpretação de Maquiavel, esclarecedores no que tocam à sua filosofia política, implícita nesta e em outras obras (como os Ensaios e A Nova Atlântida). Esta maneira oblíqua empregada por Bacon é consubstanciada na interpretação alegórica — umcompromisso que os gregos antigos encontraram para não renunciar nem a Homero nem à ciência —por ele utilizada, paradoxalmente, como um artificio retórico. Isto é paradoxal porque o procedimento alegórico, embora vise à comunicação — para um público restrito —, é voltado ao ocultamento, ao contrário do retórico, que constitui um esforço de comunicação para um público mais amplo. Assim, para Bacon, essas colocações seriam já expressão da “sabedoria dos antigos”, que a teriam ocultado do olhar profano por trás do véu da alegoria, na forma do que chegou a nós como alguns dos mitos clássicos. Ao interpretar esses mitos, Bacon estaria comunicando certos pontos, por ele tidos como verdades, de uma forma mais adequada de ser aceita pelo público, ao mesmo tempo que os reforçava com o prestígio e o peso dessa antiquíssima e mítica sabedoria. A alegoria pode ser um modo de expressão e uma variedade de interpretação, e uma expressão alegórica pode nunca vir a ser interpretada alegoricamente, da mesma forma que pode ocorrer interpretação alegórica de um autor que não empregou alegoria. Para ambos os sentidos, no que se refere ao mito, seu verdadeiro valor está na verdade que ele exprime e não na imagem exprimida. Pouco importa a fabulação, pois não é ela que é verdadeira. A letra do mito da união de Zeus e Hera sobre o monte Ida pode ser chocante, mas o que importa é apenas a realidade física ou metafísica do mito: a união do ar e do éter, a união da mônada e da díada, ou, ainda, a união sagrada de duas potências, paternal e maternal, no escalão divino. A salvaguarda do sentido literal não preocupa os exegetas de Homero como preocupará os das Santas Escrituras, pois eles não têm nenhumcompromisso com a letra dos mitos. O nascimento da interpretação alegórica pode ser situado no início do século VI a.C., quando se desenvolve vigorosa oposição à teologia homérica, acusada de dar aos deuses uma representação imoral. Vista com reserva por Platão, a exegese alegórica é não só aprovada por Aristóteles, como também por ele aplicada em relação ao episódio homérico do gado do sol (Odisséia XII), to-mandoo como os dias do ano, e sua morte pelos companheiros de Ulisses como uma figura do tempo perdido. Mas foram os estóicos que deram à interpretação alegórica de Homero um impulso definitivo, marcando-a de uma forma que, malgrado muitas resistências, se ampliou e chegou quase ao início da Idade Média. A concepção estóica será preponderante também nos mitógrafos renascentistas.


Sua finalidade, encontrar os princípios da doutrina estóica por trás de versões míticas, cuja antigüidade e caráter hermético a dignifica e autentica, será uma das preocupações de Bacon em sua própria prática. A alegoria, como produção (na poesia de Spenser, sobretudo) e interpretação (nas traduções de Homero elaboradas por Chapman, principalmente), ocupa um lugar importante na literatura da Inglaterra elizabetana. Ao lado do enfraquecimento da alegoria mais propriamente medieval (que, na verdade, é mais prosopopéia ou personificação: personagens como um velho eremita chamado Destino, uma bela dama chamada Virtude etc.) em prol de um maior vigor mimético e narrativo, é introduzido um material mais especificamente renascentista e elizabetano, de fundo clássico. Multiplicam-se edições renascentistas importantes dos clássicos e manuais de mitógrafos como Natalis Comes, um dos mais populares, de cuja obra tanto Chapman como Bacon farão uso. No decorrer de sua obra, Bacon adota diversas atitudes em relação aos mitos clássicos. No Temporis Partus Masculus, anterior a 1603, Bacon ataca violentamente a cultura tradicional. A possibilidade de os antigos possuí-rem sabedoria oculta é de pouco interesse para aqueles “que preparam coisas úteis para o futuro da raça humana”. Em Cogitationes de Natura Rerum, de 1604, há uma apresentação direta do naturalismo materialista democriteano. Em Cogitationes de Scientia Humana, de 1605, Bacon desenvolve duas teorias expostas na obra anterior em suas interpretações das fábulas de Proteu e Saturno, que constituem a 70a e a 80a Cogitationes. Na 40a, na 60a e na 100a Cogitationes Bacon interpreta os mitos de métis, da Irmã dos Gigantes e de Midas em termos políticos de inspiração maquiavélica. Nas interpretações de Proteu e Saturno, em termos de filosofia natural, Bacon adota uma atitude decisivamente materialista, ao lado da noção a ser desenvolvida no curso de suas obras, da importância para a humanidade da vontade de dominar a natureza, da qual devem derivar a arte de dominá-la e a de resolver seus mais profundos mistérios. É no Cogitationes de Scientia Humana que a distinção de Bacon entre tópicos científicos e religiosos, que vai ser umtema básico no De Sapientia Veterum, se delineia claramente. Já no “Advancement of learning”, publicado em 1605, ele sugere — mas não afirma — que a fábula precedeu a interpretação e critica Crisipo por atribuir, em suas interpretações, concepções estóicas aos poetas antigos. No Cogitada et Visa, de 1607, e no Redargutio Philosophiarum, de 1608, Bacon volta a atacar, como no Temporis Partus Masculus, a tese da sabedoria oculta nas fábulas antigas e aqueles que reportam suas teorias à Antigüidade para lhes conferir certa solenidade; no Redargutio Bacon considera a hipótese de as fábulas antigas serem remanescentes sagrados de tempos melhores, mas nega a importância de tal hipótese. No Sapientia Veterum, publica-do em1609 — embora mantenha críticas como a dirigida a Crisipo no “Advancement” —, Bacon está firmemente convencido de que o véu das fábulas é um elo entre a sabedoria antiga e os séculos seguintes. Esta obra — que o leitor tem em mãos — se dedica exclusivamente à interpretação de 31 mitos, na qual estão presentes as teorias filosóficas naturalistas materialistas democriteanas já expostas no Cogitationes de Natura Rerum e no Cogitationes de Scientia Humana. Assim, se nas obras iniciais a função dos mitos era primordialmente pedagógica, e a possibilidade de um significado alegórico era problemática e subordinada, já no De Sapientia a função pedagógica representa apenas um argumento adicional a favor do significado alegórico. No Prefácio dessa obra, Bacon diz que as falhas que possam existir na interpretação desse significado só podem ser atribuídas à ignorância dos intérpretes. Quanto às teorias que formam a base filosófica das interpretações de Bacon no De Sapientia, ele já as tinha exposto nas obras citadas. Entretanto, essas interpretações dependem estreitamente da tradição exegética dos mitos clássicos tal como se dá nos inúmeros manuais da época, como os de Boccaccio, Comes e Aliaciati, inspirados por Plutarco, Luciano, Cornutus, Macróbio e outros, bem como pelos neoplatônicos e pelos escritos alquímicos. Bacon utiliza essas fontes não só para o relato dos mi-tos, mas muitas vezes também para sua interpretação. Na Sabedoria dos antigos são desenvolvidos principal-mente quatro temas filosóficos (além de inúmeras reflexões psicológicas e morais retomadas na segunda e na terceira edições do Essays): a importância da distinção entre teologia e filosofia, entre fé e ciência; as vantagens do naturalismo materialista; a função da pesquisa filosófica e a necessidade do método; a defesa de um realismo político, inspirado por Maquiavel. No primeiro caso estão, por exemplo, as exegeses dos mitos de Penteu e Prometeu; no segundo, as de Pan e Eros (ou Cupido); no terceiro, as de Atalanta, a Esfinge, Orfeu, Prometeu, Dedado e Ícaro; no quarto, as de Métis, os Ciclopes, Endimião, Narciso, Perseu, Diomedes e o rio Estige. Este último, por exemplo, e, principalmente, as palavras de Ifícrates sintetizam os requisitos de interdependência e equilíbrio de poder essenciais às relações entre Estados.

Eis, portanto, o Bacon “literário”, no cerne de sua filosofia. Raul Fiker Professor Livre-Docente FCL — UNESP — Araraquara Dedicatórias Ao Ilustríssimo Varão CONDE DE SALISBURY, Tesoureiro-mor da Inglaterra e Chanceler da Universidade de Cambridge. Aquilo que é dedicado à Universidade de Cambridge, a vós é acrescido por direito, em vossa qualidade de Chanceler; e tudo o que de mim proceda vos é devido a título próprio. Resta saber não se tais coisas são vossas, mas se são dignas de vós. Tudo quanto nelas for despiciendo (o engenho do autor), vossa simpatia por mim o ignorará; o resto não vos será desonroso. Pois, se considerarmos a época, a antigüidade remota merece suma veneração; se considerarmos a forma de exposição, a parábola tem sido uma espécie de arca onde se guardam as mais preciosas jóias da ciência; se considerar-mos o assunto, trata-se da filosofia, naturalmente o segundo ornato da vida e da alma humana. Convém dizer que, embora a filosofia tenha em nosso século regredido, por assim dizer, a uma segunda infância, sendo deixada a rapazes e quase-meninos, eu a considero, entre todas as coisas e logo em seguida à religião, a mais grave e a mais digna da natureza humana. Mesmo a política, em que tão proficiente vos mostrastes por mérito próprio e talento, segundo o juízo de umrei sapientíssimo, jorra da mesma fonte e é dela parte maior. E se alguém considerar vulgares as coisas que digo, certamente não me caberá julgar minhas ações; o que tive em mira foi ignorar as coisas óbvias e ultrapassadas, os lugares-comuns, e contribuir para a compreensão das dificuldades da vida e os segredos da natureza. Para o entendimento vulgar, serão vulgares; mas o intelecto superior não será decerto abandonado e sim (como espero) conduzido. Entretanto, se procuro dar alguma dignidade à obra, já que vos é dedicada, corro o risco de transgredir os limites da modéstia, pois ela é de minha lavra. Mas vós a recebereis como penhor de meu afeto, respeito e devoção máxima, e lhe dareis o amparo de vosso nome. Vendo que tendes tantos e tão grandes encargos, não vos tomarei o tempo. Aqui termino, desejando-vos toda a felicidade. O para sempre A vós mui ligado por seu zelo e vossa beneficência, FRA. BACON À Mãe-nutriz, Egrégia Universidade de Cambridge Uma vez que, sem a filosofia, certamente não quero viver, cabe-me ter-vos em grande honra, pois de vós me vêm a proteção e o consolo da vida. Confesso dever-vos o que sou e o que possuo, sendo, pois, menos de admirar se vos pago com o que vos pertence. Volte tudo então, por um movimento natural, ao lugar de onde proveio. No entanto, não sei como, há umas raras pegadas que retornam a vós, entre o número infinito das que de vós par-tiram. Nem, penso eu, devo atribuir-me muita coisa se, pela familiaridade medíocre com os assuntos que meu gênero de vida e meus projetos me impuseram, acalentar a esperança de que as invenções dos doutos possam acrescer-se com os meus trabalhos. Decerto é minha opinião que as especulações, uma vez transplantadas para a vida ativa, adquirem novo vigor e graça; e, tendo mais com que se alimentar, mergulham ainda mais fundo as suas raízes ou, pelo menos, ficam mais altas e frondosas. Vós nem sequer vos dais conta (cuido eu) da amplitude de vossos estudos e das múltiplas esferas a que são pertinentes. Porém, é justo que tudo vos seja atribuído e à vossa honra se credite, pois os acréscimos se devem em grande parte ao princípio. Mas, em verdade, não espereis de um homem ocupado nada de primoroso, nenhum dos prodígios ou privilégios do ócio. Atribuireis, no entanto, ao meu amor por vós e por vossas grandes realizações, isto: que em meio aos espinhos da vida pública essas coisas não tenham perecido, mas se preservaram para vós por vossa causa.

Seu discípulo amantíssimo, FRA. BACON Prefácio Os tempos mais recuados (exceto os fatos que ler-mos nas escrituras sagradas) estão envoltos emsilêncio e esquecimento. Ao silêncio da Antigüidade seguiram-se as fábulas dos poetas; é às fábulas, os escritos que possuímos. Assim, entre os recessos da Antigüidade e a memória e evidência dos séculos que se seguiram, desceu como que um véu de lendas, o qual se interpôs entre o que pereceu e o que subsistiu. Temo que, na opinião de muitos, esteja me divertindo com um jogo, usando, para usurpar as fábulas, da mesma licença a que os poetas recorreram para inventá-las. E é bem verdade que, se pudesse aliviar a aridez de meus estudos com a prática de semelhantes amenidades, para gáudio próprio ou alheio, eu o faria. Não ignoro quão flexível é a matéria da fábula, quão maleável — e que, com um pouco de engenho e garrulice, se lhe pode atribuir plausivelmente o que nunca pretenderam dizer. Não me esqueço também de que muito se abusou dessas coisas; com efeito, para dar foros de venerável antigüidade a suas próprias invenções e doutrinas, homens houve que distorceram as fábulas dos poetas em seu favor. Essa vaidade não é nova nem rara, mas antiga e freqüente. Crisipo outrora, interpretando os velhos poetas como se interpretasse sonhos, fê-los filósofos estóicos. Mais absurda-mente ainda, os alquimistas transferiram para suas experiências de fornalha os passatempos e brincadeiras dos poetas sobre as transmutações dos corpos. Tudo isso argüí e ponderei, considerando ainda a leviandade e a presteza com que as pessoas embalam sua imaginação nas alegorias. Mas, ainda assim, não posso mudar de idéia. É que, para começar, não convém permitir à licença e à insanidade de uns poucos conspurcarem a honra das parábolas emgeral, já que isso seria coisa profana e petulante. Uma vez que a religião se deleita nesses véus e sombras, removê-los impediria todo comércio entre o humano e o divino. Mas falemos apenas da sabedoria dos homens. Sem dúvida — confesso-o com candura —, partilho da seguinte opinião: por sob número não pequeno de fábulas dos poetas antigos jazem, desde o começo, um mistério e uma alegoria. Bem pode dar-se que meu gosto reverente pelos tempos recuados me haja levado longe demais. A verdade, porém, é que em algumas dessas fábulas, tanto na forma e textura do relato quanto na adequação dos nomes pelos quais se distinguem os seus personagens, encontro uma conformidade e uma conexão com a coisa significada, tão próximas e tão notórias que a ninguémocorreria negar-lhes intencionalidade e reflexão: elas foram, desde o início, concebidas de propósito. Pois quem seria tão incrédulo e cego à obviedade das coisas para, ouvindo que depois da queda dos Gigantes a Fama surgiu como sua filha póstuma, não perceber de pronto que isso se refere à murmuração dos partidos e aos boatos sediciosos que sempre circulam durante algum tempo depois da supressão de um motim? Quem, inteirado de que o gigante Tifão cortou e levou consigo os tendões de Júpiter (os quais Mercúrio lhe roubou para devolvê-los ao pai), não veria logo que o fato se relaciona a rebeliões bem-sucedidas, pelas quais os reis têm cortados, ao mesmo tempo, os “tendões” do dinheiro e da autoridade? Pois não é sabido que, mediante palavras sábias e éditos justos, os ânimos dos súditos podem ser reconciliados, e por assim dizer “roubados e devolvidos”, de sorte a recuperarem os reis sua força? Haverá quem, informado de que na memorável campanha dos deuses contra os gigantes o zurrar do burro de Sileno pôs a estes em fuga, não notará que semelhante episódio foi inventado em alusão às ambiciosas tentativas dos rebeldes, dissipadas como geralmente o são por falsos boatos e vãos terrores? Ora, existem também conformidade e significação nos próprios nomes, evidentes a todos. Métis, consorte de Júpiter, significa claramente prudência; Tifão, arrogância; Pã, o universo; Nêmese, vingança, e por aí além. Mas não encontramos, aqui e ali, inserções de fragmentos de histórias reais, por-menores acrescentados à guisa de ornamento, épocas confundidas, pedaços de uma fábula enxertados em outra e uma nova alegoria introduzida? Tais coisas não pode-riam deixar de produzir-se em histórias inventadas (como estas) por homens que viveram em diferentes épocas e que tinham diferentes objetivos — sendo alguns mais modernos, outros mais antigos, uns propensos à filosofia, outros à política. Assim, que isso não nos perturbe. Há, porém, outro indício, e não dos mais desprezíveis, de que tais fábulas contêm um significado oculto e implícito: é que algumas delas são tão absurdas e tão néscias, se nos ativermos simplesmente ao relato, que é de crer estejam anunciando alguma coisa de longe, proclamando que trazem em si uma parábola. Porquanto uma fábula verossímil talvez tenha sido composta por simples desfastio, A.

imitação da história; mas, ante uma narrativa que homem nenhum poderia ter concebido ou propalado, podemos presumir que dissimula alguma outra intenção. Que dizer desta invencionice: Júpiter toma Métis por esposa; logo que a vê grávida, devora-a; ei-lo grávido, ele próprio — e a partejar, de sua cabeça, Palas inteira-mente armada!? Penso que ninguém teve jamais sonho tão monstruoso e extravagante, inteiramente alheio às formas naturais do pensamento.

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