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A Sabedoria Nossa de Cada Dia – Augusto Cury

O homem Jesus era instigante, um especialista em romper o conformismo. Ele não ensinava passivamente: provocava a sede psíquica, a busca pelos segredos da existência, o esfacelamento do autoritarismo religioso. Cada parábola aguçava a curiosidade, colocava combustível na sede de desvendar de homens e mulheres, intelectuais e iletrados, puritanos e transgressores. Cada frase curta provocava o apetite intelectual. Seus discípulos eram rudes, toscos, incultos, impulsivos, desprovidos de generosidade e de afetividade. Mas diariamente Jesus os abalava. Pedro, André, Tiago e João sabiam navegar no mar da Galiléia, mas o homem Jesus queria que aprendessem a navegar no oceano das crises existenciais, das fobias, das ansiedades, das frustrações. E quem sabe navegar nos tempos atuais? Uns afundam no sentimento de culpa; outros, no endeusamento de si mesmos. Uns sucumbem na timidez; outros, na ousadia inconsequente. Diariamente os discípulos se perguntavam: Quem sou eu? O que sou? Quais são minhas escolhas e minhas intenções ocultas? Quem é esse homem que sigo? Que mistérios o cercam? Por que nos fala por parábolas? Por que nos escandaliza estreitando laços com pessoas socialmente rejeitadas, leprosos, prostitutas? Por que questiona os religiosos? Por que procura sempre se ocultar e não aceita elogios superficiais? O melhor educador é o que gera uma fonte de perguntas em seus alunos, e não o que é uma fonte de respostas prontas. As respostas prontas produzem servos; o questionamento, pensadores. Jesus deu poucas respostas, mas provocou inúmeras perguntas. No Sermão da Montanha, no qual está inserida a famosíssima oração do Pai-Nosso, o Mestre dos Mestres queria dar um choque intelectual, e não apenas espiritual, na humanidade. Queria desengessar a mente humana para que homens e mulheres, religiosos e céticos enxergassem Deus, a existência e as relações sociais por múltiplos ângulos. Todo ser humano cria um deus no seu imaginário, mesmo os céticos. Um deus que frequentemente é distante e alienado, ou tirânico e controlador. Em seu vibrante discurso no alto da montanha, Jesus queria que o intelecto humano alçasse vôo para descobrir que o enigmático Autor da existência é um Deus generoso, afetivo, sensível, altruísta e solidário. Todos os que o ouviram ficaram perplexos com sua apresentação. O Deus de Jesus não cabia no imaginário de religiosos e de ateus. A bombástica oração do Pai-Nosso esfacelou preconceitos religiosos e filosóficos. Considerando a complexidade dos segredos dessa curtíssima e misteriosa oração, dividi os textos de minha análise em dois livros: Os segredos do Pai-Nosso – A solidão de Deus e A sabedoria nossa de cada dia – Os segredos do Pai-Nosso: Aprendendo a superar os conflitos humanos. Eles podem ser lidos de forma independente porque tratam de assuntos distintos – a psique de Deus e a psique humana. Vamos entrar no segundo livro, o que trata da personalidade humana e seus transtornos. Mas antes gostaria de falar brevemente sobre o primeiro livro. Jesus deixou sem fôlego a multidão que o ouvia ao afirmar categoricamente que o Deus que se esconde nos bastidores do tempo e do espaço não é fruto de uma alucinação, mas o mais vivo dos espectadores.


E como tal possui uma personalidade concreta com necessidades psíquicas vitais. Jesus inicia sua magna oração dizendo que Deus não é um computador universal, uma energia cósmica ou um criador insensível e auto-suficiente. Deus é Pai. Como Pai, Ele foi preso na armadilha da própria emoção, onde se destaca uma dramática solidão. Como Pai, Ele tem a necessidade incontida de construir uma rede de relacionamentos com a humanidade, para trocar experiências, interagir, irrigar sua emoção com prazer. A oração do Pai-Nosso faz com que Deus, que parecia infinitamente distante, se torne extremamente próximo. Transforma a imagem de um Deus que parecia alienado de nossas mazelas em um Deus que se preocupa ao extremo com a humanidade, de um Deus impessoal em um Deus cheio de sentimentos, pensamentos, idéias, sonhos e projetos existenciais. Nós rejeitamos a idéia da solidão porque a vemos de forma negativa. Mas ela é fundamental para a construção das relações sociais. Sem solidão, viveríamos por instinto, não teríamos necessidade de afeto, compreensão, troca, abraços, elogios, apoios, busca de auto-estima. Sem essa experiência, as rejeições e as discriminações não nos machucariam. As perdas não provocariam traumas e as decepções não produziriam as lágrimas. Sem solidão não teríamos necessidade do outro. A solidão traz necessidades psíquicas imperiosas e complicações sociais. A criatividade é inspirada no terreno da solidão Inúmeras pessoas das mais diversas áreas da ciência e das mais variadas religiões, inclusive as nãocristãs, que leram o primeiro livro Os segredos do Pai-Nosso – A solidão de Deus, me disseram que ficaram intensamente envolvidas e prazerosamente perturbadas pelo seu conteúdo. Uma funcionária de um aeroporto, sem me conhecer, disse-me que o estava lendo e que ele havia se tornado uma fonte diária de consulta. Constrangido, confessei-lhe que era o autor. O encanto não foi pela minha competência como escritor, mas pelas idéias debatidas. Entretanto, alguns religiosos ficaram escandalizados, torceram o nariz, disseram que Deus é autosuficiente, que não tem necessidades psíquicas, que jamais experimentou solidão. Se este livro tivesse sido escrito há alguns séculos, talvez eu fosse um dos primeiros a arder numa fogueira. Mas insisto que a análise de determinados textos bíblicos, sob o ângulo da psicologia e da filosofia – e não da teologia -, demonstra que, se o Deus real e auto-existente não experimentasse uma indecifrável solidão no teatro da sua psique, provavelmente continuaria vivendo numa clausura eterna. A eternidade seria para ele uma prisão. Não teria nenhuma necessidade de inspirar, criar, relacionar-se. Todo artista produz primeiro uma obra para si, depois para os outros. Não é nos momentos de aplausos, mas nos de mais profunda solidão, vazio, angústia ou crise existencial que os artistas se tornam mais produtivos.

A inspiração nasce no terreno da inquietação. Ao que parece, a criatividade de Deus foi inspirada no terreno da solidão. Não sou uma pessoa religiosa nem defendo uma religião específica. Tenho procurado ser um homem sem fronteiras. Todos os que professam uma religião deveriam ser, antes de tudo, pessoas sem fronteiras, capazes de abraçar os que pensam diferente. Quem não é capaz de respeitar os diferentes cometerá um desastre em sua história. Jesus respeitava e amava os diferentes. O Deus que ele eloquentemente proclamava sentia uma necessidade inquietante de se relacionar com o ser humano, independentemente de sua religiosidade e ética. Quanto mais uma pessoa tem traços de psicopatia, menos precisa dos outros, menos sente necessidade de se doar. Jamais a loucura foi tão lúcida O amor é a fonte mais excelente de solidão. A solidão é a fonte mais excelente do processo de busca. Quem não ama vive isolado ou produz relações superficiais. Quem ama se entrega, mesmo correndo o risco de ser rejeitado, frustrado, ferido. Inúmeras pessoas têm vergonha de dizer para as outras “Eu te amo, eu preciso de você”, pois estas palavras nos despem do orgulho e produzem cumplicidade. Mas é incrível que o Deus revelado no complexo livro chamado de Bíblia não tenha medo de se comprometer. Muitos pensadores e teólogos não o analisaram sob esse prisma. Deus sente uma necessidade psíquica tão intensa de se relacionar com a humanidade que não tem receio de se envolver em complicações. Ele busca cumplicidade, mesmo correndo risco de sofrer rejeições e indiferença. Como analisar sob o prisma psicológico essa frase imperativa “Amai a Deus sobre todas as coisas”? O Deus TodoPoderoso está dando um grito comprometedor. Que coragem! Em outras palavras, é como se Deus dissesse: “Vocês me acham inacessível e inatingível, mas eu sou um Deus solitário, tenho necessidade vital de afeto. Vocês querem se curvar diante do meu poder, mas eu preciso dos seus corações. Por favor, me amem.” Você tem coragem de fazer uma declaração como essa aos seus filhos ou ao seu cônjuge? Você tem coragem de expressar sem medo seus sentimentos? Muitos morrem sem nunca declarar seu amor pelos mais próximos. Alguns pais jamais disseram aos filhos que precisam ser amados por eles. Pedem que lhes obedeçam, sejam éticos, bons alunos, mas não sabem pedir seu carinho, atenção, diálogo.

Muitos só conseguem receber afeto num leito de hospital. Quando Jesus morria na cruz, com suas fibras musculares dilaceradas, teve a audácia de “abraçar” seus algozes, dizendo: “Pai, perdoa-os, porque eles não sabem o que fazem.” Por que esse homem, em seus últimos momentos de vida, era capaz de dar tanto afeto? Quem teve as características de sua personalidade? Se não considerarmos que o amor é uma necessidade vital de Deus, a morte de Jesus na cruz é um ato agressivo e desumano, pois pela primeira vez na história um pai viu seu filho morrer agonizando e não fez nada por ele. Se colocarmos o amor como necessidade central desse misterioso Deus, a morte de Jesus representa a ansiedade desesperada de um filho em resgatar a humanidade para seu Pai e fazê-lo assim superar sua indecifrável solidão. Não importa se a humanidade seja constituída de carrascos como os soldados romanos, de negadores como Pedro e de traidores como Judas. Deus a ama incondicional e inexplicavelmente. Nunca o amor chegou a limites tão impensáveis. Jamais a loucura foi tão lúcida. A busca por Deus nos vales profundos do inconsciente Marx quis eliminar a religiosidade do homem, mas, como não conhecia o funcionamento da mente humana e a confecção da solidão existencial, não entendeu que é impossível extingui-la. Produzimos bilhões de informações sobre as mais diversas matérias, mas ainda sabemos pouquíssimo sobre nós mesmos. Tudo o que já construímos pode ser destruído, mas não é possível destruir a ciência nem a religiosidade humana. Por quê? Porque o intelecto humano é uma fonte de inquietação em busca dos mistérios que o norteiam. Se interrompermos essa fonte de inquietação, podemos incorrer em duas situações desastrosas. Primeiro, nos colocarmos como um deus tirânico, auto-suficiente, infectado de orgulho, possuidor de verdades absolutas capazes de controlar os outros. Segundo, mergulharmos num conformismo débil, com a mente estéril, incapaz de produzir novos conhecimentos. A procura por Deus não nasce da fragilidade psíquica do ser humano ou do entorpecimento religioso, mas dos vales mais profundos do inconsciente, das raias mais íntimas da solidão. Mesmo que um ser humano se isole desde a infância do contato social, assim que adquirir uma linguagem rude e uma consciência tosca procurará o divino, se curvará diante do trovão, do sol ou das próprias imagens mentais. Ter solidão não depende de escolha; mas superá-la, sim. Algumas pessoas gravemente feridas e frustradas em seus relacionamentos prometem para si mesmas que jamais voltarão a amar alguém. Mas não conseguem. Passado um tempo, a dor se alivia e a solidão as instiga a uma nova empreitada afetiva. Eu lhe pergunto: as suas frustrações conseguiram impedi-lo de correr novos riscos? Pode ser desgastante conviver socialmente, em especial com pessoas complicadas, mas é melhor viver com pessoas difíceis do que se submeter a um isolamento completo. Quem se isola nas montanhas ou nos mosteiros precisa construir personagens em sua mente para se relacionar. Até os psicóticos precisam, em seus delírios, construir personagens para se relacionar. Não somos seres sociais por escolha nossa, mas porque é inevitável deixar de sê-lo.

Este é um dos gritos da oração do Pai-Nosso. Cicatrizes inesquecíveis em ateus e religiosos Com a oração do Pai-Nosso, Jesus queria mostrar que um dos maiores mistérios do universo é que Deus pode ser incompreensível e todo-poderoso, mas sua psique é mais próxima da humana do que supomos. Por que Deus insiste em se ocultar? Quem é esse Deus? Não sabemos, mas podemos ter uma idéia se olharmos as complexas e indecifráveis reações de uma criança ou de um idoso. Um paciente idoso que estava saindo de uma crise psicótica, abatido pelas rejeições sociais, queria ansiosamente ver Deus. Saindo pelas ruas, parou numa praça e viu uma criança que corria livremente, parecendo a mais feliz do mundo. De repente, a criança parou diante dele, fitou-o e abriu um sorriso radiante, singelo e meigo. Os olhares se cruzaram gerando um momento mágico. Extasiado, o paciente voltou para casa e disse aos seus familiares que vira Deus e que ele estava na pele de uma criança. Pensaram em interná-lo novamente. A criança, por sua vez, chegou em casa com o rosto iluminado. Correu até seu pai, abraçou-o alegremente e disse-lhe também que tinha visto Deus. Perturbado, o pai indagou: “Quem você viu? Quem era ele?” Com entusiasmo, ela descreveu um homem de cabelos soltos e brancos. Seu olhar era penetrante, muito distante e ao mesmo tempo muito próximo. Parecia muito estranho e tão dócil, e tinha uma ternura indescritível. O “psicótico” e a criança viram Deus nos gestos e olhares um do outro. O homem mais complexo que transitou nessa terra, Jesus, queria na fascinante oração do Pai-Nosso aproximar ao máximo Deus do ser humano. Queria que um olhasse nos olhos do outro, que se admirassem, tivessem momentos únicos. Muitos amam defender sua religião, seus dogmas, suas verdades. Usam documentos, textos e argumentos para estar acima dos outros. Mas o Pai apresentado por Jesus não representa dogmas, barreiras de separação, normas de uma nova religião, mas uma fonte inexaurível de amor, sensibilidade, inteligência e solidariedade. Cada ser humano – mesmo os mais miseráveis – ganhou um status inimaginável, converteu-se num ator exclusivo, num tesouro extraordinário, apesar dos seus defeitos. A proposta de Jesus abala a ciência. O Mestre dos Mestres enfatiza que, quando esses tesouros silenciarem sua voz no teatro do tempo, eles continuarão encenando a peça da existência num teatro interminável. É um projeto espantoso. A morte expande os horizontes da solidão dos que ficam.

A angústia dos íntimos diante da morte de seus entes mais queridos é extremamente dolorosa. A finitude da existência deixa cicatrizes indeléveis tanto em ateus como em religiosos. O que não daríamos em troca de fagulhas da existência daqueles que perdemos? Todos os pensadores infectados de orgulho esfacelaram sua arrogância diante do fenômeno avassalador da morte. Há um lugar onde somos todos simplesmente humanos e nada mais: nos velórios. Neles não há gigantes nem heróis, não há celebridades nem anônimos, psicólogos ou pacientes, mas seres sufocados pelos tentáculos penetrantes da solidão, sentindo a plenitude da perda. Crer no projeto anunciado por Jesus entra na esfera da fé e não é objeto deste livro. Mas desejo aqui apontar que a análise psicológica e filosófica desse projeto demonstra que o Deus todo-poderoso usa a transcendência da morte para estancar o drama da perda. É um sonho extraordinário. Jesus discorria sobre a vida eterna com uma frequência e profundidade maiores do que as dos religiosos da atualidade. Para ele o que estava em jogo não eram os fundamentos de uma nova religião, católica, protestante ou qualquer outra, mas a superação do fim da existência, a superação do fenômeno psíquico da solidão. Quem poderia sondar o que se passava na cabeça desse homem? Procurando entender o tecido psíquico A partir de agora entraremos com mais intensidade no tema tratado neste livro, A sabedoria nossa de cada dia – Os segredos do Pai-Nosso 2. A segunda parte do Pai-Nosso inicia com a frase O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Com ela, o Mestre dos Mestres desce das necessidades psíquicas do complexo Deus Altíssimo para as necessidades psíquicas do complexo ser humano. Sai da esfera do poderoso Autor da existência para o infinito mundo dos conflitos humanos. Os discípulos de Jesus disputavam entre si para saber quem era o maior, mas para o Mestre maiores são aqueles desprovidos de disfarces sociais, os que têm consciência das próprias loucuras e imaturidades, os desapegados da necessidade neurótica de poder, os que aprendem a se doar para os outros. Há um livro que se tornou um best-seller da auto-ajuda: O segredo, de Rhonda Byrne. Partindo de idéias antigas, a autora produz um texto interessante e com soluções quase mágicas para os conflitos humanos, como a lei da atração – o que se pensa pode se materializar. A questão é que belos textos como esses não levam em consideração o funcionamento da mente, a construção de pensamentos, a formação do eu e o seu papel como gestor da psique, a reedição do filme do inconsciente e a proteção do território da emoção. Trataremos dessas questões mais à frente. Veremos que viver é uma arte belíssima e extremamente complicada. Existir é uma experiência complexa que possui variáveis nem sempre controláveis. A pessoa mais calma vive momentos de ansiedade; a mais coerente, momentos ilógicos. Este não é um livro religioso, mas de socialização do conhecimento sobre a psique. Faremos uma jornada filosófica, psicológica, sociológica e psicopedagógica pelos caminhos da oração do PaiNosso. Analisaremos alguns segredos ligados à nutrição psicológica, às nossas maquiagens e disfarces sociais, às insanidades, à necessidade de promover a saúde mental e expandir os horizontes da inteligência.

O texto do Pai-Nosso, embora singelo nas palavras, continua a ser incendiado. Um texto aparentemente tão brando, e no entanto tão provocante. Ele nos faz um convite para penetrarmos no mais sutil e complexo dos terrenos, aquele que nos constitui. Desejo que os leitores tenham talento para percorrer essa trajetória que os levará a se conhecerem mais profundamente. Capítulo 2 Uma platéia de famintos psíquicos: o pão nosso da sabedoria Dissecando a psique humana com generosidade Demóstenes nasceu em Atenas em 384 a.C. Segundo relatos, no processo de aprimoramento de sua oratória ele usou práticas inusitadas. Para superar sua deficiência de fôlego, subia ladeiras declamando poemas. Para corrigir sua dicção, falava com seixos na boca. Para se acostumar com o burburinho das massas e não se distrair, discursava nas praias. Passou meses num porão copiando livros para incorporar palavras e idéias. O resultado foi que Demóstenes se tornou um dos maiores oradores de todos os tempos e provavelmente o maior da Grécia clássica. Houve na história da humanidade um orador que não praticou os exercícios de Demóstenes. Não veio de uma casta privilegiada, teve de trabalhar cedo e duro, lapidou toras debaixo de um sol escaldante, mas refinou sua eloquência como ninguém. Era um especialista na arte de observar. Absorvia tudo ao seu redor e extraía belíssimas lições de fatos aparentemente sem importância, como o movimento de um idoso, a reação de uma criança, uma brisa suave. Um grande mestre transforma o pouco em muito. Sua oratória era tão eloquente que levava as massas ao êxtase. Até os soldados incumbidos de amordaçá-lo diziam: “Nunca ninguém falou como esse homem.” Discursava para multidões muito maiores do que as que ouviam Demóstenes e gerava as paixões mais excelentes. De todos os seus discursos, o Sermão da Montanha (Mateus 5:1), falado de improviso, foi o mais eloquente. Seu conteúdo é transbordante. Nenhuma religião o aplica em sua plenitude. Se a humanidade o vivesse, ela nunca mais seria a mesma. Gandhi comentou que, se todos os livros espirituais fossem extintos e ficasse apenas o Sermão da Montanha, nada seria perdido, pois um tesouro estaria preservado.

No meio desse Sermão, Jesus proclama a oração do Pai-Nosso (Mateus 6:9). Ele inicia a segunda parte bradando: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje.” Embora o pensamento inserido nessa frase pareça tão simples ao olhar desatento, ele é intrigante e saturado de segredos. O primeiro desses segredos é que, ao dissecar a nossa psique, Jesus não inicia apontando erros, percalços, imoralidades, mas fala sobre o prazer e a nutrição da psique humana. O homem que veio revelar Deus para a humanidade estava menos interessado nas falhas humanas e mais no próprio ser humano. Milhões de religiosos valorizaram sempre mais os erros e falhas do que a pessoa que erra. Jesus, ao contrário, deu sempre um valor vital ao ser humano. Os erros são secundários. Você valoriza mais seus filhos ou os erros que eles cometem? Se prioriza os erros, será um promotor de justiça sem qualquer tolerância. Valoriza mais as pessoas que o frustram ou as frustrações que elas lhe causam? Alguns rompem relacionamentos afetivos para sempre devido às decepções que sofreram. Outros perdem grandes amigos por não suportar suas falhas. É fácil dizer que valorizamos mais a pessoa do que as suas falhas, mas nossas reações ante os erros dos outros frequentemente denunciam o contrário. Jesus estabelece a sequência de valores. Em primeiro lugar, alimente, cuide, proteja e irrigue de prazer o ser humano. Em segundo, ensine-o a lidar com seus erros. Não exija muito de quem está desnutrido, não cobre de quem está ferido, não puna quem não tem forcas para a jornada. Devemos guardar essa idéia: uma pessoa que cobra muito dos outros está apta a trabalhar em umbanco, mas não a conviver com pessoas. Um pai que cobra excessivamente dos filhos não está apto a educar. Um executivo excessivamente crítico e implacável não está apto a liderar. Paciência e tolerância são elementos insubstituíveis para quem quer estimular os outros a crescer. Rigidez e intolerância são elementos fundamentais para bloquear a criatividade das pessoas. Jesus falou de pão, de nutriente, de suprimento das necessidades humanas. Milhões de cristãos têmem seu inconsciente a imagem de um Deus austero, severo, que não corresponde ao Deus revelado por Jesus. Esse Deus não é especialista em punir, mas em abraçar. Não se concentra em apontar falhas, mas em saciar a fome psíquica.

Infelizmente o Deus estudado pela teologia não corresponde ao Deus interpretado pela psicologia e filosofia. Jesus apresentou um Deus que não condena, não faz guerras para impor sua vontade, não agride, não discrimina, mas um Deus generoso, afetivo, sereno. Você discrimina prostitutas? Ele as abraça. Você rejeita drogados? Ele os ama. Você dá as costas a muçulmanos ou budistas por não serem cristãos? Ele é deslumbrado por eles. Não importa a opção sexual, a religião, a cultura, a nacionalidade. Jesus nos apresentou um pai preocupadíssimo com cada ser humano. Foi um grande erro a psicologia não ter estudado o Deus do Pai-Nosso nos tempos passados. Inumeráveis conflitos teriam sido evitados. A Inquisição jamais teria existido. Embora de forma sutil, disfarçada pelo manto da democracia, a Inquisição continua viva nas mais diversas sociedades e religiões. O significado do pão A que pão Jesus se referia na oração do Pai-Nosso? Penso que há três classes de pães: o espiritual, o físico e o psicológico. Sobre o pão espiritual não tenho o que falar. Quem quiser conhecer esse assunto deve procurar líderes espirituais e teólogos das mais diversas religiões, pois eles são os especialistas. O pão que nutre o corpo não é objeto deste livro, embora tenha uma relevância vital. Há mais de umbilhão de pessoas famintas no mundo, cada uma delas com trilhões de células que clamam por proteínas, carboidratos, vitaminas. É uma vergonha, uma injustiça e um crime social indecifrável que a abundância de alimentos nas sociedades modernas conviva com tantos famintos. Vou discorrer neste livro sobre o pão psíquico. O pensamento de Jesus sobre o pão que nutre a psique serve para sociedades abastadas como as dos Estados Unidos, do Japão, da Alemanha, da Inglaterra, da França, da Itália, da Espanha. Há um bilhão de pessoas fisicamente famintas e seis bilhões de pessoas psiquicamente famintas.

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