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A sabia de Waterloo – Leona Francombe

A antiga fazenda de Hougoumont fica num vale arborizado, diante da serra próxima a Waterloo, onde, em 17 de junho de 1815, o duque de Wellington reuniu suas tropas. Naquela noite, ele guarneceu a fazenda e, decidido a conservar a posição, virou a madrugada chuvosa reunindo suprimentos e organizando a defesa do local. No dia seguinte, sob o comando de Jerônimo Bonaparte, irmão de Napoleão, os soldados franceses promoveram não menos que sete ataques aos portões e muros de Hougoumont. O que era para ter sido uma simples escaramuça se estendeu pelo dia inteiro, privando Napoleão de tropas essenciais em outros lugares. O combate foi brutal, frequentemente corpo a corpo. A artilharia francesa incendiou o château e diversos prédios anexos; o Portão Norte foi arrombado por alguns instantes e retomado em seguida; até hoje, as pesadas portas de madeira estão crivadas de tiros de mosquete. O exército britânico e seus aliados alemães posicionados na floresta acabaram triunfando. Mas o custo em sangue foi espantoso: em oito horas, seis mil homens de ambos os lados estavam mortos ou feridos. A remota fazenda belga se tornaria fundamental para o desfecho da batalha de Waterloo, pois, se os franceses a tivessem tomado, a história talvez tivesse seguido um curso completamente diferente. Antes desse dia tumultuoso, poucas pessoas haviam ouvido falar de Hougoumont. A propriedade pertencia a um recatado aristocrata belga e era próspera, com um pequeno château, umjardim formal murado em estilo francês, uma capela, uma casa para o jardineiro e vários anexos para animais e grãos. Refeições sofisticadas foram um ritual diário ali. E como os pratos de coelho e pombo eram — e ainda são — abundantes na culinária belga, é de se imaginar que ambas as espécies fossem criadas na propriedade, além de um bom canteiro de cebolas, para abastecer a mesa do jantar. Portanto, é quase certo que houvesse coelhos em Hougoumont na época da batalha de Waterloo. Mas o que aconteceu com eles? Trata-se, com certeza, de uma questão delicada, neste mundo antropocêntrico. Alguns diriam que, tirando a cavalaria, os animais seriam de pouca importância num conflito que resultou na queda de Napoleão e na redefinição das fronteiras europeias. Poucos historiadores comentam sobre o enorme número de cavalos que morreu no confronto, bem como vacas, ovelhas e outros animais; menos ainda (talvez nenhum, na verdade) se importaram com o que aconteceu com os coelhos do chevalier. Será que sucumbiram à fumaça, ao barulho ou ao puro terror de tudo aquilo? Ou quemsabe alguns conseguiram escapar das gaiolas e dispararam pelos jardins formais, esquivando-se da artilharia e dos homens enlouquecidos para, mais tarde, quando a morte tivesse se estabelecido para sempre nos tijolos e na argamassa do lugar, se espalharem pelos arredores com seus descendentes? Às vezes, a história favorece os mais fracos. — L. Francombe Bruxelas, Bélgica 1 Memórias de infância são sempre imagens em close, não são? Uma folha de relva, um montinho de terra, a parte de baixo da cauda de alguém. Para mim, era o flanco da vovó. Meu nariz ainda procura o seu cheiro: aquela infusão agridoce e inebriante de feno, esterco e umidade, todos alquimiados no cadinho da velhice. Seu odor tinha também um toque floral decadente, daí o nome: Dona Lavanda. Era muito grande e não tinha uma cor específica — uma mistura de marrons e cinza enfadonhos, acho, embora nunca tenha prestado muita atenção nisso. A gente nunca repara nessas coisas quando se trata de membros próximos da família.


De alguma forma, todas as características que criticamos nos outros — gordura, falta de viço, feiura, odor — não importam tanto em nossos parentes. Dona Lavanda era senhora de um conjunto peculiar de atributos, alguns dos quais tão desagradáveis quanto os que acabei de listar. Mas seu temperamento era tal que, diante da força de seu coice, ninguém ousava criticá-la em nada. Passava os dias encolhida numa pequena cavidade no solo, encostada na cerca, os olhos semicerrados contemplando o infinito. Uma orelha colada ao pescoço, a outra apontando o céu. Ficava sempre assim. Suspeitávamos que era seu jeito de coletar informações: uma orelha esquadrinhando os céus por sinais, a outra servindo de aterramento. As coisas mais interessantes da vida não podem ser vistas, William, vovó me dizia frequentemente, o que tornava aquele escrutínio do horizonte ainda mais intrigante. Ninguém sabia ao certo há quanto tempo Dona Lavanda vivia na colônia. Era avó de pelo menos dez gerações e, embora outros parentes desaparecessem ao longo dos anos de acordo com os caprichos do fazendeiro, ou da Lua, árbitro invisível de nossa espécie, ela sempre ficava. Ninguémse atrevia a contrariá-la. Em primeiro lugar, era grande demais. E depois, tinha aquele cheiro… Mas talvez eu devesse começar do início. Não por uma questão de lógica, mas porque, por algum motivo, o início tem se tornado cada vez mais claro, como se eu estivesse me aproximando do fim da trilha que nós, coelhos, chamamos de Caminho Escavado: uma alameda agradavelmente protegida pela copa das árvores, com cheiro de terra molhada e matéria apodrecida. Acontece que, nesse trecho, a estrada é mais larga. Árvores altas proporcionam um equilíbrio perfeito entre luz e sombra. E daqui é possível enxergar bem longe em ambas as direções (embora seguir em frente ainda seja preferível, claro). Esse pedaço do Caminho tem muitas elevações e depressões leves em que se pode descansar e olhar para o que ficou para trás, e sugiro que você faça exatamente isso, porque a vista para trás é tão bonita quanto a da frente, além de oferecer lições valiosas. O nosso trajeto, portanto, se apresenta como uma espécie curiosa de mapa: uma rota a se seguir decifrando aquela pela qual passamos. Imagino que os pontos de referência ao longo do Caminho sejam familiares a você também — seguem mais ou menos um padrão ao longo da jornada típica da sua vida, acho: parentes estranhos, amores duvidosos, Providência, alegria e tragédia. Mas o Caminho Escavado da minha história é único não apenas por causa do cheiro marcante da minha avó, mas também porque inclui a batalha de Waterloo. Se você acha que um conto desses é grandioso demais para um simples roedor, está redondamente enganado. Pois, para começo de conversa, sou um lagomorfo e tenho muito orgulho disso. Assim, aqui estou, numa colina verdejante e agradável, e, se me permitem, vou olhar para trás e contar o que vejo. N ós, coelhos, começamos e terminamos nossas vidas na terra, o que pode parecer uma progressão um tanto circular, mas devo logo acrescentar que não nos prendemos a uma roda contínua da existência da mesma forma que certas crenças humanas.

Já ouvi dizer que algumas pessoas ficamdando voltas e voltas até o fim dos tempos, reencarnando como uma mosca, um réptil, o tio de alguém ou, se você for muito azarado e calhar de estar em Waterloo, como Napoleão. A Lua pode ser bem caprichosa às vezes, mas jamais presidiria uma concepção de mundo tão sombria. Nossa filosofia é menos tumultuada. Seguimos o Caminho na velocidade em que ele se apresenta — nem mais rápido, nem mais devagar. Isso é muito importante. Fomos ensinados desde pequenos que qualquer esforço para alterar essa velocidade, além de inútil, pode ser fatal. Por isso, saltamos, pastamos, descansamos e meditamos de acordo com um ritmo pulsante profundo dentro de nós, como um órgão essencial. Quando as coisas começam a ficar ligeiramente familiares e, de repente, nos sentimos à vontade, damos um último passo. E que passo! Vá em frente, é o que dizem, e você vai adentrar o prado mais verde, macio e sublime de todos. Nós sempre sabemos, sem qualquer sombra de dúvida, quando estamos na direção certa para esse lugar. Nasci em Waterloo e lá passei os primeiros três anos de vida. Bem, não exatamente em Waterloo, mas na fazenda brabantesa de Hougoumont, um dos emblemáticos locais de batalha situado nos campos a poucos quilômetros da Chaussée de Waterloo. Em 1815, essa avenida comprida e arborizada conduziu torrentes exaustas de homens do campo de batalha à cidade e vice-versa —entre o destino e a salvação. O trajeto era perigoso; a via, por vezes, intransponível. Os trechos emque a cidade de Bruxelas hoje se expande em subúrbios afluentes já foram ocupados por um bosque denso, com vilas isoladas e o calçamento tão castigado pelas chuvas pesadas que, vez ou outra, as carroças ficavam atoladas por dias a fio ou simplesmente eram abandonadas na beira da estrada. O mato grosso estreitava a rua de ambos os lados, e, na floresta mais adiante, os desertores encontravam um vasto abrigo… bem como os saqueadores. Ao longo de toda a chaussée, estalagens e chalés jaziam abandonados diante do boato do avanço dos franceses. Hoje, os saqueadores se foram, graças aos céus. Mas, se você passar as enormes lanchonetes de fast-food e os hipermercados, e atravessar o anel viário de Bruxelas, de repente, logo depois das lojas de eletrônicos, o burburinho do tráfego e do comércio dá lugar a uma zona de silêncio, como se 1815 não tivesse sido há tanto tempo assim. Não há como não notá-la, essa fronteira invisível. As lojas desaparecem bem aos seus pés. Siga em frente mais um pouco; assim que avistar a curiosa colina cônica com uma estátua no topo — o Monte do Leão —, já sabe que entrou no grande campo de batalha: um imenso vácuo varrido pelo vento, a morne plaine de Victor Hugo. E, de fato, sob a cevada de inverno, o trevo e os pés de aipo-rábano retorcidos e encolhidos feito múmias, esse prado lúgubre é, em essência, uma tumba. Atravesse o campo à sua direita e logo ali, num vale arborizado, vai achar a fazenda que já chamei de lar. Junto a uma faixa irregular de terra cultivável, jazem adormecidas algumas construções anexas e uma casa para o jardineiro.

Se você chegar a Hougoumont por acaso, vai ver que o lugar não tem nada de extraordinário: paredes dilapidadas sem qualquer enfeite, uma profusão de ervas daninhas, os restos enferrujados de uma vida agrícola. Até ver as três castanheiras. A primeira coisa que vai se perguntar é por que não derrubaram as árvores. Duas estão mortas, e a terceira não está muito longe disso. São como aberrações — carcaças alienígenas sem pele. Então, você vai se dar conta de que elas têm mais de trezentos anos de idade e são as únicas testemunhas que restam da batalha, e vai entender. Coloque a mão numa delas, mesmo numa das mortas: tenho certeza de que vai sentir uma pulsação. Hougoumont é… minha nossa, as palavras me faltam! É um lugar mudo, entende, mas de uma eloquência surpreendente. Talvez o fato de que poucos visitantes ao campo de batalha não saibam da existência da fazenda lhe conceda o ar de mistério. Fisicamente falando, Hougoumont é uma ruína: uma casa de tijolo e arenito em total harmonia com o terreno. Outras coisas menos tangíveis são muito mais difíceis de descrever. Vá até lá sentir por si mesmo: o vento sábio, as árvores marcadas como leviatãs, uma paz estranha que não é nem um pouco pacífica, mas viva com a memória e outros fenômenos menos palatáveis. Às vezes, quando bate o vento dos campos ao leste, é como se uma cortina velha estivesse balançando, e, através de um rasgo no tecido, pudéssemos ver algo inimaginável para um fim de mundo tão moroso. Fui feliz em Hougoumont. O último fazendeiro a morar lá não era como os aristocratas que umdia foram proprietários do château (já não havia mais château — os franceses o bombardearam). Ele criava gado e parecia muito menos interessado em jantar coelhos e pombos do que seus predecessores. Era, por sorte, o tipo de sujeito que gostava de comida congelada, e, portanto, nossa existência foi alegremente irrelevante. O responsável pelos coelhos era um menino que morava nas redondezas, Emmanuel, um garoto grandalhão e aparvalhado que não cuidava bem de nós porque era incapaz de lembrar se já nos havia alimentado ou não. Recusava-se terminantemente a permanecer na fazenda depois que escurecia. Se ficava ocupado com tarefas em outro canto e o crepúsculo começava a espessar, simplesmente jogava um punhado de grãos por cima da nossa cerca e desatava a pedalar em sua bicicleta — a uma velocidade impressionante para um garoto tão corpulento. Talvez, como acontece a muita gente simplória, seus sentidos compensassem a falta de intelecto; talvez intuísse o mal-estar emHougoumont até melhor do que nós e o sentisse começando a despertar ao cair da noite. Emmanuel era bom demais para causar qualquer mal intencional. Nós até suspeitávamos que o fazendeiro nos mantinha só para dar a ele o que fazer. E como o rapaz parecia tão pouco querido, acabamos desenvolvendo nós mesmos um carinho por ele, embora, para ser sincero, não creio que jamais tenha notado. No entanto, como aprendi anos mais tarde, isso nunca deveria fazer diferença na hora de se oferecer amor.

Nasci na mais humilde das tocas de coelho. Nosso cercado ficava ao lado de um pombal — uma extravagância hexagonal da era vitoriana, abandonada anos atrás — e era protegido por uma tela de arame presa à cerca e amarrada no alto, numa espécie de telhado, embora qualquer predador digno do nome provavelmente fosse capaz de arrumar um jeito de entrar. Houve uma época em que crescia grama dentro do cercado, mas já fazia tanto tempo que minha avó era a única que lembrava. Para o restante de nós, o solo duro e intransponível era o nosso mundo. O cercado tinha um abrigo improvisado, que o fazendeiro construíra com as vigas caídas do celeiro. Quando se lembrava, Emmanuel arrebanhava a gente para essa morada fedorenta antes do pôr do sol; nos dias em que ele esquecia ou que a escuridão iminente o espantava da fazenda, a maior parte de nós ia sozinha. As presas e os bicos dos predadores, reais ou imaginários, espreitavam enormes na noite do campo. Atrás do pombal, entrevíamos a velha e maltratada Hougoumont: a antiga casa do jardineiro, os estábulos, o pátio de pedra e as portas desgastadas pela batalha, tudo sucumbindo ao mofo e estalando sob o aperto inexorável e úmido do tempo. Só a pequena capela havia sido reformada, com seu telhado novo em formato de chapéu de freira e uma parte do extinto château ainda visível emuma de suas paredes. Vovó nos mostrou o local do pátio em que ficava o poço mal-assombrado. Reza a lenda que, após a batalha, trezentos corpos foram jogados ali, numa tentativa de prevenir doenças, e, mais tarde, muito depois que alguma pobre alma ainda viva fosse capaz de emiti-los, lamentos de outro mundo podiam ser ouvidos de suas profundezas. Opassado turbulento de Hougoumont era nossa única companhia. Não estou falando de poços malassombrados ou de diversões triviais para aliviar o tédio. Do nosso cercado, dava para ver os antigos jardins do château, testemunhas do massacre de 1815. As lembranças que o lugar guardava eram fortes o suficiente para serem sentidas até por terminações nervosas humanas. Hoje, no entanto, diante do prado exuberante em que os jardins se transformaram e das vacas pastando serenamente, você mal poderia acreditar. Nós mesmos quase não acreditamos. Até aprendermos a verdade… até conseguirmos ler o ar. Mas que tentações aquele paraíso nos inspirava antes de aprendermos a ler! Nossos corações juvenis transbordavam de generosidade. As folhas dos choupos refletiam como moedas na brisa. Pombos-torcazes arrulhavam pelo vale. Nos crepúsculos de primavera, os melros entoavam sua canção aveludada do alto das árvores mágicas. A gente se espremia contra a cerca de arame para ouvir, fitando o prado inteiro até o muro leste, atrás do qual, através de uma brecha, podíamos ver o oceano de espaço que um dia fora o antigo pomar, mas que hoje são terras agrícolas. Para nós, que vivíamos enclausurados, aquele mar verde era como nossos Campos Elísios — o nosso Desconhecido —, e, como em qualquer fantasia, parecia ainda mais encantador diante da consciência de que jamais poderíamos alcançá-lo. Mas toda fantasia tem sua mácula.

Sob aquele gramado exuberante jazia algo mais que encantamento; algo de gelar a pontinha das nossas orelhas. Nossos sentidos refinadamente apurados eram capazes de captar sinais sobrenaturais com tanta facilidade quanto teias de aranha capturam o que voa ao vento; então não era preciso muito esforço para ouvir os prados de Hougoumont suspirando em seu sono. No entanto, por mais que tentássemos, nós, os membros mais jovens da colônia, não conseguíamos entender direito esses sinais — não tão bem quanto Dona Lavanda —, muito embora os sussurros por vezes não nos deixassem dormir… eles e o bater insistente e ritmado do galho de uma faia contra o muro sul. — Não se esqueçam — advertia vovó. — Há duzentos anos, o prado era tudo menos intocado. — (Vovó era considerada por todos uma perita em Waterloo.) — Aquele lugar era um pântano encharcado de sangue, um verdadeiro pesadelo. Na época, não era nem um prado, sabe? Era umjardim francês: laranjeiras, rosas, gerânios… Estava tudo em flor durante a batalha. Os mortos eramjogados ali junto do muro, numa pilha de seis corpos de altura. Por educação, tentávamos não olhar para o ponto que ela apontava, mas é claro que lançávamos espiadas ávidas para lá. Como é de se imaginar, os comentários de Dona Lavanda encobriam de sombras os nossos Campos Elísios. Mas há uma coisa engraçada nas sombras: você não se lembra delas quando pensa num lugar querido… quando pensa na sua casa. Você recorda o cheiro adocicado de decomposição no bosque, o vento na terra arada, a cantata dos melros no vale. Você não pensa nos defeitos, no mínimo os empurra para um canto escuro e quase nunca os revisita. Era óbvio que Hougoumont estava se arrastando para um triste fim. A fazenda já havia chegado a uma espécie de encruzilhada antes mesmo de eu ir embora, seu futuro tão incerto quanto o nosso. Nem sei por quanto tempo os outros ficaram depois que saí. Por mais um inverno gelado e silencioso, quem sabe? Uma última e aromática primavera? O fazendeiro já deve até ter morrido a essa altura, e o lugar, ruído por completo. Não consigo nem pensar em qual teria sido o destino da minha família, com os portões principais trancados e Emmanuel, mesmo que tivesse se lembrado de nós, incapaz de entrar. (Os franceses penaram bastante, lembra?) Só posso torcer para que os melros tenham organizado algum tipo de réquiem. Já não sou jovem. Em alguns meses, vou completar 11 anos de coelho, o que não só exige conhecimento matemático muito além das minhas habilidades para calcular a idade no tempo dos homens, como me compele a avançar com a narrativa. Aqueles entre vocês que já estão experimentando a aventura que é envelhecer talvez tenham notado que esse trecho do caminho não envolve apenas fissuras e buracos inesperados na estrada, dores nos membros, dificuldade emalcançar aqueles cantinhos chatos de limpar (Dona Lavanda desistiu de tentar logo no início) e por aí vai. Não, é muito mais do que isso, na verdade. Uma grande vantagem é a afinação sutil que acontece, como se a Lua — ou qualquer que seja o nome com que você chama o afinador —estivesse lentamente apertando uma corda que até então balançava alegremente frouxa e cujo efeito perceptível e bastante inebriante é um tom mais puro e um eco mais doce.

(Imagino que outros efeitos interessantes estejam por vir.) Ao mesmo tempo, sente-se uma certa elevação do espírito e da amplitude de visão, como se — pelo menos no meu caso — estivéssemos olhando para a fazenda e a família do alto do Monte do Leão. Não é surpresa nenhuma, portanto, que eu ainda consiga visualizar razoavelmente bem as personagens da minha juventude. Jonas, um primo distante, era um macho impulsivo e boa-pinta, famoso pelo orgulho, pelas maquinações e pelo vergonhoso hábito de caçar um rabo de saia. Quando ficava nervosa com ele, Dona Lavanda o chamava de marechal Ney, numa referência ao genioso comandante de Napoleão. Era para ser um insulto. Mas vovó não percebeu que, na verdade, Jonas tinha prestado atenção na palestra dela sobre Ney e acabara retendo os momentos de heroísmo. O respeito que minha avó tinha pela precisão histórica era maior do que sua aversão a Ney, então fora justa com o marechal. Por exemplo, vovó não pôde omitir que ele fora apelidado de “o bravo dos bravos” por suas cargas de cavalaria, por mais imprudentes que tenham sido, ou que cinco cavalos foram baleados embaixo dele, e nem isso o impediu de continuar. Assim, Jonas ficava bem satisfeito com o insulto de vovó. Bumerangue, um tio meio amalucado, tinha o estranho hábito de se jogar de lado contra a cerca, quicando nos ângulos mais inusitados. A leve confusão mental que isso gerava era parte do seu charme. Caillou era o tampinha (um nome muito adequado, aliás, pois significa “seixo”). Estava sempre atravancando o caminho, um fracote típico, principalmente porque não havia nada de extraordinário para falar a seu respeito. E tinha Berthe… a pobre e singela Berthe, uma fêmea pacata e devota convicta da sua jura de rejeitar todos os pretendentes até encontrar uma alma gêmea de verdade. Para meu grande desgosto, Berthe às vezes voltava o olhar na minha direção. Não digo isso por mal. Ela era gentil e sinceramente ansiosa para agradar, mas não tinha o menor interesse em história. Nem se importava em conferir os fatos: insistia que a batalha de Waterloo se dera em 15 de junho de 1818, e não em 18 de junho de 1815, por exemplo. (Talvez fosse disléxica.) Berthe não tinha a menor ideia do que acontecera em Hougoumont. Então sobre o que conversaríamos nas longas noites de inverno? Spode era o estadista mais antigo da colônia. Era um arquivista por excelência e coletava fragmentos de informação de animais ou turistas que estivessem passando por perto, para então registrar suas descobertas uma a uma, com pequenas fungadas presunçosas. Havia poucos assuntos sobre os quais não pudesse — ou não quisesse — discorrer, o que era um dos motivos pelos quais buscava conversar com vovó. Spode havia escapado uma vez, um feito que compensava em certa medida toda aquela formalidade.

Sumiu por três dias e voltou numa sopeira de porcelana (vivo, ainda bem), pois esse era o único recipiente que a mulher do fazendeiro tinha à mão para capturá-lo em meio aos repolhos. Talvez por causa do impressionante episódio, Dona Lavanda o designou vigia da colônia. E assim, sempre que não estava ocupado com suas pesquisas, Spode patrulhava o perímetro do cercado como um fuzileiro que está envelhecendo, e batia a pata traseira no chão a qualquer sinal de perigo. Quando estava ocupado com suas pesquisas — o que era a maior parte do tempo —, ficávamos por nossa conta. Spode era gordo e meticuloso, com pintinhas marrons nas bochechas e um ar de superioridade que era tão difícil de engolir quanto palha de milho seco. Às vezes, embarcava em discussões filosóficas com Dona Lavanda, mas ela não tolerava sua arrogância e lhe dava as costas toda vez que se cansava. Mas Spode sempre a respeitara. Vovó era mais velha que ele, e seu conhecimento sobre Waterloo era mais vasto; então Spode, em geral, se afastava com uma fungada em vez de se engajar numa discussão acalorada com uma criatura que poderia derrubá-lo com uma única patada. Ela costumava chamá-lo de Bonaparte pelas costas, o que era um tanto triste, considerando o carinho que ele nutria por ela. Não era um mau sujeito. Mas também ninguém gritaria “Vive l’empereur!” toda vez que passasse. A maioria de nós seguia as regras gerais definidas pelo Caminho Escavado. Dê a preferência. Atenção, quebra-molas. Proibido virar à esquerda. Esse tipo de coisa. Era uma vida previsível, vigorosamente certificada pela colônia: perambular, comer, cutucar, mordiscar, cochilar… perambular, comer, cutucar, mordiscar… Você entendeu. Dito isso, éramos um bando democrático: nunca concedíamos privilégios baseados em linhagem; sempre permitimos liberdade de credo, inclusive a total negação da Lua, fosse essa a inclinação de algum membro; e favorecíamos oportunidades baseadas no mérito (Jonas, por exemplo, com seu zelo nato e os ombros musculosos, era encarregado de cavar o buraco debaixo do abrigo). Eu me arriscaria a dizer que fomos talvez os primeiros defensores anônimos do Código Napoleônico.

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