| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Sacerdotisa dos Penhascos – Sandra Carvalho

O vento guerreava entre as ondas do mar, na perpétua teimosia de impor a sua força. Empurrava-as e elevava-as. Sustinha-as nos seus braços selvagens para, no fim, as deixar tombar desamparadas no vazio. E rugia… Bramia com o ímpeto de mil demónios, enquanto o cheiro intenso da maresia se misturava com o odor da lenha queimada nas lareiras das aldeias. Nos domínios dos Viquingues, o Outono impiedoso anunciava a sua chegada, ameaçando gelar todas as criaturas sob uma mortalha de nevoeiro glacial. Porém, no topo da Montanha Sagrada era como se o perfume da Primavera ainda deleitasse os sentidos. Uma brisa sadia acariciava as faces de Kelda e enredava-se nos seus longos caracóis negros, fazendo-os esvoaçar em torno do corpo franzino. Sob a aura protectora da Pedra do Tempo, a filha do Rei da Lua e da Rainha do Sol observava o mundo que se estendia aos seus pés, com uma curiosidade serena. Os dedos das mãos sobravam para contar as vezes que os pais lhe tinhampermitido que descesse a Montanha, a fim de visitar os tios e os primos. No entanto, a tranquilidade da sua existência não a aborrecia. A sua casa provia-lhe tudo aquilo de que necessitava. Sentia-se aconchegada e segura. Tinha companhia para brincar e intricados enigmas para desvendar, nos livros escritos pelo seu tetravô Hakon, o feiticeiro conhecido por “O Que Tudo Vê”. Além disso, apesar de os pais não lhe poderem dedicar muito tempo, sabia que era amada… E tamanha bênção chegava para ser feliz. A ascendência feiticeira dos Guardiães das Lágrimas do Sol e da Lua concedia-lhes um elevado poder místico. Ainda assim, viviam assombrados pelo temor de uma ameaça misteriosa. Dia após dia, embrenhavam-se no treino da Arte Luminosa, preparando os seus pupilos para defrontarem um inimigo que asseguravam ser terrível e implacável. No entanto, Kelda nunca vira nem escutara nada que pressagiasse o menor perigo. Encontravam-se rodeados pelos reinos do Norte… E só umlouco ousaria desafiar os Viquingues, os Vândalos e o Povo da Terra! — Kelda… Porque não respondes? A menina fixou a mãe, sobressaltada. Estava tão distraída que nem escutara o seu apelo. Edwina, Guardiã da Lágrima do Sol, era uma mulher alta e robusta, que irrogava respeito com umsimples olhar. Nesse instante, a cintilação azul-celeste denunciava o quanto estava aborrecida e a sua voz, quase sempre afável, exasperava-se ao indagar: — Onde está Halvard? Kelda encolheu os ombros, sentindo o fedor de sarilhos a empestar o ar. — Não o vejo desde manhã. — Ele prometeu-me que não sairia de junto de ti! O desabafo de Edwina carregava a indignação de ter sido novamente enganada. Sabia, há muito, que não podia confiar numa palavra proferida pelo seu varão.


Porém, acabava sempre por lhe dar mais uma oportunidade, expectando que o carinho e a tolerância emendassem a sua personalidade retorcida. Todavia, começava a perder a esperança… — Vai chamá-lo — solicitou com um suspiro. — Thorson e Oriana aguardam-vos para iniciarem o treino. — E porque tenho de ser sempre eu a ir atrás de Halvard? — atreveu-se a filha a protestar. — Era só o que me faltava! — exclamou a mãe, exaltada. — Agora também reclamas do que te peço? Vai imediatamente buscar o teu irmão! Kelda franziu o cenho, mas apressou-se a obedecer. Contudo, mal tomara a direcção do bosque, deteve-se e questionou com ansiedade: — Quando voltar, posso ler os livros de “O Que Tudo Vê”? — Quantas vezes já te disse que não? — objectou asperamente a Guardiã da Lágrima do Sol. — Tens de participar nos exercícios… — Mas eu não sou capaz de fazer o mesmo que os outros! — insurgiu-se a pequena. — Nem nunca serás, se perseverares nessa má vontade. Agora despacha-te, se não queres que me zangue! Kelda rangeu os dentes e desapareceu por entre as árvores. Edwina ergueu os olhos ao céu e soprou o ar. Depois deixou os ombros penderem, desalentada. Às vezes achava que era mais difícil educar os seus filhos do que combater um mestre da Arte Obscura. Halvard não sossegava, constantemente a correr, a explorar, a esmiuçar tudo em que assentava as mãos. Se tentavam corrigilo, rebelava-se, bradava e esperneava. Como se isso não bastasse, ultimamente tornara-se agressivo para com Thorson e Oriana, complicando ainda mais o dilema de seus pais. Quanto a Kelda, à primeira vista parecia um amor de criança: terna e dedicada, serena e aplicada nos estudos… Porém, em determinadas situações, conseguia ser ainda mais tortuosa do que o irmão gémeo. Sempre que se contrariava a vontade de Halvard, devia esperar-se uma birra. No entanto, passado o alvoroço, ele arranjava um novo interesse e esquecia o anterior. Em contrapartida, dizer que não a Kelda era dar-lhe um pretexto para lutar pela sua causa até à exaustão. Fazia-o pela calada, deixando que o sucedido se apagasse da memória dos adultos, para depois voltar a atacar com novos argumentos e uma teimosia que não conhecia rival. As suas tias Thora e Freya, que a adoravam com paixão, costumavam gracejar dizendo que Halvard perdia com um brado e Kelda vencia com umsorriso. Pressentindo movimento nas suas costas, Edwina virou-se para encarar o marido. Ao deparar com a sua expressão agravada, Edwin, Guardião da Lágrima da Lua, resmungou irritado: — Não me digas que Halvard tornou a desobedecer! — Aguardemos um pouco — suplicou a esposa, num esforço para apaziguar-lhe o ânimo. — Kelda foi chamá-lo… Talvez não se tenha afastado.

O Rei da Lua passou a mão pela testa, mastigando a ira antes de volver: — Estou a perder a paciência! Tratamo-los com demasiada brandura e o resultado é essa falta de respeito. Começo a acreditar que só conseguiremos obter resultados recorrendo à mesma frieza e rigor que os nossos mestres nos impuseram. — Não estás a falar a sério! — indignou-se a Rainha do Sol. — Eu amava “O Que Tudo Vê”, mas a sua severidade marcou-me profundamente. E tu quase morreste às mãos de Sigarr! Nenhum de nós soube o que era rir, brincar, ser criança. Não quero que os nossos filhos sofram… — Eles acabarão por sofrer, Edwina! É tão inevitável como o nascer do dia e o cair da noite… Nós nem sempre estaremos ao seu lado, para resguardá-los da iniquidade da magia. Não sei se delongar a revelação da ameaça que paira sobre o seu futuro é uma boa opção. Halvard e Kelda devem entender que os treinos da Arte não são uma frivolidade. Que, no fim, o seu empenho determinará se sobrevivem ou se morrem! Fez uma pausa para recuperar o fôlego. Depois, estreitou a mulher e amimou-a contra o peito, continuando, apreensivo: — Nunca ouviste o Thorson e a Oriana reclamarem das nossas instruções… Porque não exigir igual esmero aos nossos filhos? Eles estão prestes a fazer nove anos. Têm idade para distinguir o que é certo do que é errado! Se teimarmos emfechar os olhos às suas insurreições, Halvard acabará por ser tentado pela Arte Obscura e arrastará Kelda para o abismo. Depois de tudo por que passámos, juro-te que não havemos de perdê-los! Umsoluço sufocado atingiu a percepção de Edwin, interrompendo-lhe o ardoroso discurso. No calor da perturbação, nem reparara que os seus pupilos o tinham seguido. Thorson quedava-se com uma expressão sombria e Oriana tremia tanto que mal se sustinha nas pernas. — Chega aqui, querida — murmurou Edwina, amparando a protegida. — Não te assustes. — Não quero que aconteça nenhum mal à Kelda! — gemeu a jovem, angustiada. Edwin fixou o rosto pálido de Thorson. Não obstante a ansiedade causada pelo que ouvira, o olhar azul-celeste do rapaz continha uma resolução, um espírito de sacrifício que o Rei da Lua não se cansava de elogiar. Foi essa força de carácter que o ajudou a firmar uma decisão. Pousou-lhe uma mão sobre o ombro e declarou: — Hoje não haverá treino. Mal Halvard e Kelda regressem, iremos conversar sobre o propósito dos vossos estudos. Não podemos desafiar a sorte, quando o que está em causa é o destino de todos os povos da Terra. A constituição de Kelda tornava-a extremamente ágil. Corria como o vento, esgueirando-se por entre os arbustos e saltando sobre as pedras e as raízes altas das árvores.

Todavia, assim que o bosque a encobriu do olhar atento da mãe, retardou o passo e começou a andar, com os punhos fechados e a testa franzida, esmurrando os ramos que surgiam à sua frente. A sucessiva desobediência do irmão à disciplina imposta pelos pais começava a enfadá-la. Será que ninguém via que Halvard só se comportava mal para chamar a atenção? Se bem o conhecia, haveria de encontrá-lo sentado na margem do ribeiro, a mascar caules de flores e a importunar as criaturas da floresta. Ultimamente, o maior divertimento do rapaz era pegar fogo às asas das borboletas, para extremo horror de Oriana. Na opinião de Kelda, o mínimo que a mãe podia fazer para recompensá-la pelo esforço de convencer o seu gémeo a acompanhá-la até casa, era não forçála a desperdiçar a tarde numa espera que se adivinhava inútil. Há mais de três anos que Halvard experimentara aquilo que descrevia como um calor no sangue. Se igual sorte estivesse reservada a Kelda, a magia também teria despertado na sua essência. Porém, nada acontecera. Ainda assim, os pais obrigavam-na a assistir aos treinos da Arte, ignorando os seus bocejos e suspiros de impaciência. No fundo, acalentavam a esperança de que a aura que os envolvia fizesse desabrochar o poder da filha. Todavia, a pequena estava convicta de que não herdara a habilidade mística dos seus antepassados. Essa certeza dimanava de uma das muitas conversas que Kelda costumava escutar em segredo, na qual descobrira que, durante a gravidez, a Guardiã da Lágrima do Sol assimilara a energia pura de uma feiticeira. Quando a magia se manifestara em Halvard e ignorara a irmã, a família alvitrara que o rapaz teria absorvido a totalidade do poder guardado no ventre de sua mãe. Tal justificaria a inaptidão de Kelda… E essa possibilidade consolidava-se à medida que a destreza de Halvard se desenvolvia com impressionante rapidez, já se equiparando à do seu primo Thorson, não obstante a diferença de idades. Embora tivesse desistido de tentar controlar as forças da Terra, do Fogo, do Ar e da Água, Kelda depressa achara novos motivos de interesse. A sua mente sagaz não tardara a concluir que os desenhos pintados pelo punho do seu tetravô Hakon, nas paredes da gruta onde morava, relatavam a história da Terra desde os primórdios, nomeadamente a ascensão dos Feiticeiros sobre as restantes raças de sangue mágico, assim como a sua posterior retirada para a Ilha Sagrada, no momento em que o Homem reclamara a independência da vontade. Por outro lado, os livros forrados a pele que os seus pais guardavamtambém lhe estimulavam a curiosidade. E um deles revelara-se especial! A sua capa era negra e as folhas grossas, amarelecidas pelo tempo, estavam preenchidas com uma letra tão miúda que se tornava quase impossível decifrá-la. Contudo, com um pouco de empenho, Kelda depreendera que estas albergavam as fórmulas de intricados e impressionantes feitiços — o legado de “O Que Tudo Vê” aos seus descendentes de sangue misto, para que jamais se vissem em desvantagem perante os Seres Superiores. A declaração desse prodígio extasiara Kelda. E a sua perplexidade aumentara ao verificar que nenhum dos aprendizes de magia, nem mesmo Thorson, conseguia interpretá-lo. Em conclusão, a pequena era incapaz de executar o mais simples dos sortilégios, mas distinguia palavras onde os habilidosos companheiros só enxergavam riscos. Outro, no seu lugar, ter-se-ia vangloriado… Porém, no instante em que se apercebera do cuidado, até receio, que o dito livro inspirava aos pais, Kelda cerrara os lábios, adivinhando que o esconderiam se confessasse a verdade. Assim, de vez em quando, podia espreitá-lo sem despertar atenções. E, sempre que o fazia, era como se escutasse a voz do seu tetravô, recitando os encantamentos como um skald declamaria um poema.

As frases flutuavam-lhe na mente, qual melodia de uma canção… e persistiam. Bastava que as lesse uma única vez para jamais esquecê-las. O som inconfundível do ribeiro fez com que Kelda acelerasse o passo. Aquele lugar fascinava-a… Afinal, fora ali que nascera! Não resistiu a correr, até que as copas das árvores se abriram e a luz mística da Montanha incidiu sobre a água cristalina, originando um brilho tão intenso que a obrigou a proteger os olhos. Mal se habituou à claridade, maravilhou-se com a beleza que a rodeava. O ribeiro fluía comvigor; deslizava sobre um leito de pedra tão polida quanto um escudo e revolvia os seixos que enfeitavam as margens. A brisa amena afagava as folhas das árvores, alimentando o ar com um odor perfumado. Pássaros voaram ao seu encontro, piando alegremente como se a cumprimentassem, antes de desaparecerem no bosque… Kelda sorriu, ao recordar o dom de Oriana para atraí-los com o canto. Se a amiga ali estivesse, bastar-lhe-ia estender os braços e as pequenas criaturas viriampousar-lhe nas mãos. Onde se teria Halvard enfiado? A irmã ponderou chamá-lo, mas deteve-se. Há dias que ele se comportava de um modo estranho. Se o apanhasse desprevenido, descobriria o que andava a tramar! Ainda assim hesitou. Não lhe agradava subir o ribeiro… Os Guardiães sempre os avisavam para terem cuidado com a fera que habitava aquelas paragens. Contavam que, certa manhã, enquanto passeavam junto à margem, o estrondoso rugido do animal ecoara através da Montanha e gelara-lhes o sangue. A senhora Doralia jurava que essa era a razão por que nunca se afastava da gruta. Contudo, parecia que ninguém, efectivamente, avistara a terrível criatura. Na altura, Halvard e Kelda eram bebés, logo não se recordavam do incidente. E, embora Thorson e Oriana garantissem a veracidade do relato, Halvard suspeitava de uma combinação para o assustar e mantê-lo perto de casa. Afirmava a pés juntos que a fera não existia! Por isso, a irmã surpreendera-se quando, na outra noite, o ouvira indagar acerca dessa história. Os pais tinham-na repetido, julgando estar a desencorajar as arrojadas explorações do seu varão… Agora, Kelda interrogava-se se o alerta não surtira o efeito contrário. Apesar da tenra idade, a menina sentia-se responsável pelo irmão. Era certo que Halvard conseguia ser insuportável e irritante, mas, para ela, guardava sempre um sorriso e um gesto de afecto. Até os pais concordavam que Kelda era a única pessoa capaz de tocar o coração do seu gémeo. Por isso entregavam-lhe a complicada incumbência de chamá-lo à razão. A pequena respirou fundo, ciente de que teria de vencer o medo se queria buscá-lo.

Porém, a caminhada deixara-a sedenta… Nenhum mal adviria de se delongar um pouco para beber água. Ansiosa por sentir a frescura a deslizar pela garganta, Kelda ajoelhou-se na margemescorregadia do ribeiro. Depois uniu as mãos até formarem um vaso e sorveu o líquido com avidez. Já restabelecida, preparava-se para continuar quando um raio de luz incidiu sobre os seixos… E umdestacou-se dos demais, cintilando como uma estrela. A menina ofegou, deslumbrada com a miríade de cores que se fundiam diante dos seus olhos. Quase receosa, agarrou a estranha pedra e verificou tratar-se de um búzio, igual a tantos outros que o mar arrastava até à praia. Entre os seus dedos, a fulgurante pulsação extinguira-se… Decerto não passara de um efeito da luz sobre a água! Ainda assim, intrigava-a o facto de uma criatura do mar ter ido parar ao topo da Montanha Sagrada. Talvez por isso, enfiou-a dentro do bolso do vestido, antes de se dispor a prosseguir. Iniciou a subida do ribeiro com o fôlego preso, rumo à cascata onde Halvard gostava de se banhar. Os pais ficariam com os cabelos em pé se sonhassem o quanto o seu varão costumava afastar-se de casa… E nada satisfeitos quando soubessem que ela enveredara sozinha por aquele trilho! Será que devia voltar para trás? Estacou, subitamente arrepiada, desejando que Thorson e Oriana estivessem consigo para ajudá-la a decidir. O primo abraçá-la-ia e afugentaria os seus temores, ao passo que a amiga a mimaria e faria sorrir, cantando e dançando rodeada de pássaros e de borboletas. Kelda adorava-os! Oriana era como sua irmã… E Thorson, o eleito do seu coração, carinhoso e protector, forte e inteligente, sempre disposto a ensinar-lhe coisas novas. Um dia, quando crescessem, haveriam de se casar! Kelda não possuía a menor dúvida de que Thorson lhe estava destinado… E por isso entristecia-se ao vê-lo desentender-se com Halvard. Mais parecia que o seu gémeo regozijava, sempre que arranjava um conflito com Thorson ou Oriana. Ser forçado a partilhar a atenção dos pais consumia-o de ciúme. O seu temperamento aguerrido piorara ainda mais após o despertar da magia. Durante os treinos, competia contra o primo com tamanha agressividade que, por vezes, os Guardiães eram obrigados a interferir. Pensar que Halvard acabaria por ser castigado, convenceu Kelda a avançar. Todavia, as suas pernas pesavam e recusavam-se a obedecer. Engoliu em seco, tomada por uma angustiosa ansiedade. Estaria a imaginação a pregar-lhe uma partida? Subitamente, a claridade esmorecia e um estranho rumor perturbava a harmonia da floresta. A pequena quase sufocou de susto… Ia jurar que ouvira vozes a ciciarem! Devagar, recuou um passo; depois outro… — Kelda… O apelo rasgou o ar, claro e urgente. Kelda balbuciou uma interjeição aflita… Então, o som repetiu-se, vindo inequivocamente da margem oposta do ribeiro, onde uma árvore majestosa se impunha sobre as companheiras. O tronco escurecido pela idade era tão robusto que seriamnecessários muitos homens para abraçá-lo. E, na sua base, pouco acima da linha de água, existia umburaco que parecia mergulhar nas profundezas da terra.

Com o coração a galope, Kelda tentou vislumbrar para além do negrume daquela cova. Poderia ser o covil de um animal? Porém, os animais não falavam e ela escutara o seu nome! Quase gritou ao sentir um calor morno a envolver-lhe os pés. Respirando aos borbotões, baixou o olhar e deparou com um nevoeiro colorido e húmido, que se libertava do solo como se fosse vapor, formando uma nuvem que já lhe engolira as botas e roçava a barra do vestido. Nesse instante, o chamamento tornou a ecoar: — Kelda… Com a lentidão do pavor, a menina ergueu o rosto para fixar a colossal árvore. Do buraco há pouco preenchido por cerração, sobressaíam agora duas chamas amarelas, tão fulgurantes como tochas. Incapaz de se conter, Kelda levou as mãos ao peito, bradando com todas as forças. E, enquanto o seu clamor sobressaltava a floresta, um rugido fenomenal troava-lhe dentro da mente, incendiando cada gota do seu sangue. — Kelda! Acorda, Kelda! A expressão irada do seu gémeo foi a primeira coisa com que a pequena se deparou, ao recuperar os sentidos. Halvard prendia-a contra o solo e arrostava-a, furioso: — O que fazes aqui? Andas a espiar-me? — A fera… — O quê? — A fera é real! — titubeou Kelda num fio de voz. — Ali… No covil… — Qual covil? — replicou Halvard com maus modos, ajudando-a a suster-se. — Aquele buraco na árvore? Já lá estive… A entrada está coberta por teias de aranha. Há anos que nem um rato ali entra! — Estou a falar a sério! — protestou ela, num arquejo assustado. — Juro que a vi! A sua vontade era fugir a sete pés… Porém, o irmão prendia-a com firmeza. E, se assim não fosse, provavelmente acabaria por se estatelar no chão, pois o seu corpo dorido parecia feito de geleia. Halvard obrigou-a a encará-lo, retrucando num tom que misturava ansiedade e ira: — Ai sim? E como é? Grande e forte como um urso? Feroz como um tigre? — Não sei… Estava escuro… — Estás a troçar de mim? — Vamos embora — suplicou Kelda à beira das lágrimas. — Que importância tem…? — Importância? — repetiu ele, afogueado. — És mesmo parva! Não vês que essa fera é uma criatura sagrada, como aquelas que habitam as essências dos grandes guerreiros? Eu já a vi nos meus sonhos… Corre à minha frente. Desdenha de mim. Tenho de matá-la! Se arrebatar o seu espírito, tornar-me-ei o maior guerreiro-feiticeiro que o mundo já conheceu. A pequena mal acreditava no que ouvia e só a custo conseguiu ripostar: — Não podes estar a falar a sério! — Vem — ordenou o rapaz, ignorando o seu pasmo. — Mostra-me exactamente onde a viste. — Não! — retrucou Kelda e tentou resistir ao aperto das mãos de ferro, que a empurravampara o ribeiro. — Estás louco, Halvard? — Vem, cobarde! — praguejou ele. E como a irmã resistia, debatendo-se e fincando os pés na terra, susteve-a e arremessou-a sobre um ombro, ignorando os seus gritos de terror. Um estranho jamais diria que Halvard e Kelda eram irmãos, quanto mais gémeos.

A única semelhança que partilhavam era o verde intenso do olhar. Não obstante possuírem cabelos encaracolados, os de Kelda eram negros como a mais profunda das noites, ao passo que os de Halvard detinham a cor do ouro e estavam repletos de fios rubros. Porém, a maior diferença salientava-se na compleição. Enquanto ela era pequena e esguia, ele orgulhava-se de ser extraordinariamente alto e vigoroso para a idade, aparentando ter doze ou treze anos. Podia carregála sem dificuldade… E foi o que fez, atravessando o leito de rocha polida sem se importar com o ímpeto da água. Só na outra margem deixou a irmã escorregar para o chão. Entretanto, o rosto de Kelda perdera a palidez do medo e ganhara o rubor da fúria. Tentou acertar em Halvard com os punhos cerrados e ele teve de voltar a imobilizá-la, a fim de evitar os seus pontapés. — Estúpido — bradava a menina exasperada. — Larga-me, sua besta! O seu gémeo fincoulhe os dedos nos cabelos e empurrou-a até à árvore. A bruma tombara sobre os dois e pouco ou nada se enxergava. Todavia, implacável na determinação, Halvard impôs-lhe que olhasse para a cova, urrando exaltado: — Foi aqui que a viste? Diz-me! — Não! — guinchou Kelda, estrebuchando comveemência. A raiva deixava-a cega e surda ao medo, mas não lhe toldava o raciocínio. O irmão nunca a tratara assim! Estava a magoá-la por causa de uma fera sagrada? Pois, à sua conta, jamais a encontraria! Empinou o nariz e exclamou: — Eu menti! — O… O quê? — entaramelou Halvard, atordoado. E a sua gémea prosseguiu, resoluta: — Ouvi-te interrogar o pai e inventei essa história para deslindar o teu propósito. — Não pode ser… Kelda enfrentou o olhar confuso e retrucou com arrogância: — O que foi? Há pouco não acreditavas que eu tivesse visto alguma coisa e agora já duvidas do contrário? Não existe fera nenhuma! E, mesmo que existisse, jamais se revelaria a alguém tão mau como tu! São as criaturas sagradas que escolhem aqueles que hão-de receber os seus espíritos… E tu não és digno nem do espírito de uma carraça! — Como te atreves? Dou cabo de ti se não dizes a verdade! Furibundo, o rapaz derrubou a irmã, prendendo-lhe as mãos e os pés. Kelda gemeu de dor e contorceu-se, mas Halvard era demasiado forte. — Confessa! — bramia ele, sacudindo-a. — Queres enganar-me porque descobriste o valor da fera. Achas que ela te escolheu… — Deixa-me! Estás a magoar-me! — Pois não roubarás o meu poder. Arrancar-te-ei os olhos, antes que tornes a vê-la… — Larga-a imediatamente! De súbito, o peso de Halvard cessou de esmagar Kelda. A pequena arquejou, sôfrega por ar, piscando os olhos para clarear a visão. No meio do tumulto reconhecera a voz zangada de Thorson… No entanto, era Oriana quem a estreitava e embalava comternura. Aflita, procurou o irmão e o primo e divisou-os a poucos passos, envolvidos numa discussão ardente: — Enlouqueceste? — inquiria Thorson, agastado, posicionando-se de modo a proteger as raparigas. — O que te passou pela cabeça para agredires a Kelda? — Não tens nada a ver com isso! — respingava o mais novo, cuspindo desprezo.

— Nem penses que escaparás impune… — E o que vais fazer? — defrontou-o Halvard. — Queres bater-me? Pois desafio-te a tentar… — És mesmo imbecil! — Vem, Thorson! Ou tens medo de mim? — Eu devia dar-te uma lição! Ao escutar esse rugido exaltado, Kelda livrou-se de Oriana e cambaleou até aos rapazes, apelando: — Basta! Eu estou bem… — Não te aproximes, Kelda! A exclamação de Thorson soou como uma ordem. Ele e o primo estavam frente a frente, com os punhos cerrados e o olhar em chamas. A briga adivinhava-se inevitável. Halvard espumava pela boca, tal a sanha que o envenenava. Os seus olhos trespassavamThorson, quais lanças candentes; todo o rancor acumulado a efervescer, ameaçador, letal. Oriana alcançou Kelda e tentou puxá-la para trás. Todavia, a pequena resistiu, acreditando ainda ser capaz de apaziguar o ânimo do seu gémeo. — Halvard, para… — começou. Porém, a sua voz foi a gota de lava que o fez explodir. Halvard acometeu contra Thorson, urrando tresloucado. Contudo, em vez de corresponder à agressão, o primo desviou-se no último instante, impondo-lhe um cambaleio aparatoso. Depois, semperder tempo, aproveitou o desequilíbrio do mais novo para agarrá-lo por um braço e prendê-lo junto ao corpo. Perplexo ante o seu falhanço, Halvard resistiu, estrebuchando violentamente; os traços bonitos e delicados do rosto deformados pelo mais puro dos ódios. — Larga-me ou hás-de arrepender-te! — berrou num tom irreconhecível. — Vamos para casa — decidiu Thorson, aumentando a firmeza do aperto. — Tens muito que explicar aos teus pais. — Não vou… — Vais, nem que eu tenha de te arrastar! Dito isso, começou a empuxar o primo em direcção à floresta. Por um momento, a sua determinação subjugou a revolta de Halvard. No entanto, o outro não demorou a recompor-se, torcendo o corpo para encará-lo e desdenhando entredentes: — És tão fraco que metes dó! Perante o olhar horrorizado das raparigas, Halvard soltou um bramido selvageme lançou o braço livre contra Thorson. Surpreendido, o primo recebeu a explosão de magia em pleno peito e foi arremessado pelo ar como se não tivesse peso. Tombou desamparado no leito pedregoso do ribeiro… E já não se levantou. Kelda clamou assustada e precipitou-se para Thorson. Todavia, as pernas fraquejaram-lhe e acabou por escorregar, caindo sobre os seixos. Oriana passou por ela, gritando de aflição… E foi na jovem nativa do Povo dos Penhascos que o olhar incandescente de Halvard se fixou.

As suas mãos agitaram-se freneticamente, enquanto mastigava: — Arde, borboleta! Arde! Num estalar de dedos, as roupas de Oriana eram devoradas por chamas vivas. — Halvard… — titubeou Kelda, paralisada de pavor. Bradando de dor, Oriana mergulhou no ribeiro, esperando que a água pusesse fim ao seu tormento. Thorson permanecia imóvel. Halvard já encarava a irmã… E o tempo sustinha o fôlego. Então, quando tudo parecia perdido, a voz de trovão do Guardião da Lágrima da Lua fez a terra estremecer: — O que é que estás a fazer, rapaz? Dois vultos irromperam da floresta e Kelda desfaleceu de alívio, ao reconhecer os pais. A Guardiã da Lágrima do Sol apressou-se ao encontro da sua protegida. A água extinguira o fogo que envolvera Oriana mas, tal como Thorson, a pequena não se mexia. Possuído por um desatino sem justificação, Halvard investia agora contra o pai, rosnando qual cão raivoso. O Rei da Lua agarrou-o pelos ombros e mergulhou no seu olhar ígneo, trespassando-lhe a mente e domando-lhe a vontade. Terrificada, Kelda ouviu a mãe suplicar: — Edwin… Não! No instante seguinte, os olhos do seu gémeo fechavam-se e o corpo vigoroso pendia entre as mãos do pai. A filha do jarl Throst e da feiticeira Catelyn da Ilha dos Sonhos engolia a custo o pranto, enquanto os dedos do marido teciam carícias nos seus caracóis dourados, na infrutífera tentativa de a confortar. Um terror abominável pairava sobre os dois… Durante anos, tinham acalentado a esperança de jamais ver nascer o dia em que as malhas funestas da Arte Obscura capturariam a essência do seu varão. Porém, nessa tarde, o pior pesadelo dos Guardiães das Lágrimas do Sol e da Lua não só se tornara realidade, como assumira uma amplidão colossal. O abalo fora tão severo, que ainda nem tinham reunido alento para conversar. Sabiam que urgia decidir o futuro de Halvard, de modo a proteger o mundo da sua influência e, se possível, a resguardá-lo da perversidade que o cruel destino lhe impusera. Todavia, nenhum deles possuía resposta para a acutilante interrogação que os dilacerava: o que fazer? — Não podemos ser demasiado duros — sussurrou a Rainha do Sol, estrangulada de emoção. — O menino não tem culpa. — Bem sei, querida — murmurou o Rei da Lua. — Não te esqueças de que também fiz coisas terríveis, enquanto escravo da Arte Obscura. — Mas nunca te voltaste contra aqueles que amavas com aquela fúria assassina — desabafou a esposa, destroçada. Edwin estreitou-a com mais força e respirou fundo, antes de replicar: — Isso não é verdade… Eu magoei-te muito! E só subsisti porque, apesar de tudo, nunca desististe de me salvar. — A tua essência abraçava a minha — volveu Edwina, angustiada. — Como podemos ajudar o nosso filho, se ele se recusa a abrir-nos o coração? — Kelda é a única que exerce influência sobre Halvard — ponderou o marido com sobriedade. — Temos de contar-lhe o que se passa e confiar no seu poder de persuasão.

Talvez ela consiga reparar o mal que foi feito. — Quer dizer que ainda tens esperança? — questionou a Rainha do Sol, trémula de ansiedade. — Sinceramente, não sei… — Edwin hesitou, antes de continuar: — Só quando Halvard despertar poderemos ajuizar os danos que o seu espírito sofreu. O feitiço que lhe lancei mantê-lo-á desacordado por algum tempo… Talvez seja melhor que os outros garotos não estejam aqui no momento em que ele recobrar. — Tens razão — apoiou a esposa, lastimosa. — Mal a manhã nasça, pedirei à senhora Doralia que os acompanhe até ao castelo viquingue. Thora há-de recebê-los com satisfação e abrigálos em segurança, enquanto nós cuidamos de Halvard. O Rei da Lua tornou a suspirar, concluindo: — Está decidido! Agora descansa, meu amor… Necessitaremos de todas as nossas energias físicas e místicas para atender ao nosso filho. Essas foram as últimas palavras que Kelda ouviu, na obscuridade da gruta. Pouco depois, a respiração dos pais aprofundou-se, sinal de rendição ao sono. Thorson ressonava baixinho… A pequena sentiu-se inundar pelo alívio, ao recordar que a queda aparatosa do primo apenas resultara na perda momentânea dos sentidos. A forte pancada não tivera consequências, além de um corte profundo na cabeça que sangrara bastante. Já Oriana não se podia alegrar da mesma sorte! O ataque de Halvard causara-lhe queimaduras graves. A Guardiã da Lágrima do Sol apressara-se a atender à sua protegida, usando magia para lhe minorar as dores. No entanto, temia-se que as feridas causadas pelas línguas de fogo demorassem bastante a sarar. Kelda assombrava-se com o desatino do irmão… E o que acabara de escutar provava-lhe que os seus pais guardavam um segredo bastante grave! Afinal, o que estava a acontecer a Halvard? E como podia ela ajudá-lo? O seu gémeo jamais lhe perdoaria por ter encontrado a fera… Mas que culpa tinha Kelda de o animal se ter atravessado no seu caminho? Aliás, pensando bem, aquilo era muito esquisito! Porque se manifestara uma criatura sagrada a alguém que não possuía magia no sangue? Enquanto Kelda cogitava, a sua mão deslizou sobre o vestido e deparou com algo estranho. O que estava uma pedra a fazer dentro do bolso? Decerto entrara quando caíra na margem… Então, os seus dedos perscrutaram a forma arredondada e ela lembrou-se do búzio que achara no ribeiro. Esse dia fora repleto de prodígios! Pelo menos, ao contrário da fera, a pequena concha não haveria de lhe causar transtornos. Os adultos contavam que os búzios albergavam as canções do mar e só esperavam que alguém os encostasse ao ouvido para partilhá-las com alegria. Desejosa de um conforto que a distraísse da angústia, Kelda aninhou a concha entre os caracóis e aguardou… Aguardou… Será que essa história não passava de uma invenção? Desapontada, dispunha-se a desistir quando foi surpreendida por um rumor melódico, que aumentou de intensidade até se transformar num retumbar poderoso e ameaçador… para depois voltar a decrescer, a murmurar, a envolver, a transmitir uma serenidade apaziguadora e terna. O búzio dedicava uma bela canção a Kelda! Era arrepiante; tão perfeita, que lhe trouxe lágrimas aos olhos. A pequena deixou-se flutuar nessa harmonia e permitiu-se esquecer as incertezas e os temores. A canção do mar preenchia-lhe a mente e abraçava-lhe o espírito. Seria imaginação? Sonho? Ou algo mais? Deu por si a voar por cima das ondas… Porém, não estava sozinha! Perdeu o fôlego ao constatar que repousava sobre as costas de uma águia gigante, cujas penas negras se confundiriam com a densa noite, não fossem os reflexos de prata que as enfeitavam. No instante emque abraçou a companheira, Kelda sentiu-se invadir por um calor que a enlevou.

Tudo era tranquilidade… Satisfação! Nada voltaria a perturbá-la. Nada tornaria a ameaçá-la. Nada, nunca mais, poderia feri-la. O alerta do instinto chegou, qual desconforto repentino, rasgando o aprazimento do sonho. O mar desapareceu e a águia dissipou-se como névoa. Ainda adormecida, Kelda tomou consciência da suavidade da manta de lã; do búzio mudo, encerrado na palma da sua mão; da luz bruxuleante da fogueira, que aquecia a gruta na noite da Montanha Sagrada… Todavia, os seus olhos só se abriram para a realidade quando o ar que lhe acariciava o rosto sofreu uma oscilação brusca. Alguém se esgueirava para fora da caverna, tão silencioso e arredio quanto um ladrão. Com o coração alvoroçado, percorreu as camas com o olhar… E verificou que as cobertas de Halvard estavam vazias. Levantou-se com um salto. Como podia o seu irmão estar de pé se o pai lhe lançara um feitiço poderoso, que lhe usurpara os sentidos? Supostamente, deveria faltar muito para Halvard acordar! E agora? Se gritasse um alerta, ele ficaria ainda mais zangado. No entanto, não podia deixá-lo embrenhar-se nas trevas, em busca de novos sarilhos, sem nada fazer! Num ímpeto arrebatado precipitou-se atrás do seu gémeo. Se o alcançasse, talvez o convencesse a voltar para a cama, antes que mais alguém desse pela sua falta. O ar gélido da noite cortou-lhe a respiração. Trémula de frio e de medo, Kelda apurou o olhar, a tempo de ver Halvard entrar no bosque. Estaria novamente no encalço da fera? Encheu-se de coragem e seguiu-o, correndo sobre o solo acidentado. Sempre se movera bem na floresta… Contudo, hoje o avanço parecia-lhe ainda mais fácil, como se o seu corpo fosse vento e os pés mal necessitassem de tocar o chão. O modo como distinguia os obstáculos na bruma também era diferente… Seria o pavor que lhe apurava a percepção? Ainda assim, não conseguia alcançar o irmão. — Halvard! — apelou, temendo perder-lhe o rasto. — Halvard, espera! De repente tornou a enxergá-lo não muito longe, fixando-a com a perplexidade declarada no rosto. Era óbvio que se interrogava como é que Kelda o ouvira sair, se não fizera o mais leve ruído. E como fora capaz de acompanhá-lo? O olhar verde rasgou a cerração, temendo ver os pais. Porém, mal concluiu que a irmã viera sozinha, retomou a fuga com redobrado vigor. A essência do primogénito dos Guardiães das Lágrimas do Sol e da Lua encontrava-se rodeada por flamas. A sua carne consumia-se. O espírito ardia… E, ainda assim, ele subsistia.

As mãos e os pés de Halvard estavam acorrentados com elos de magia, que o impediam de se mover. Esse duro castigo fora-lhe infligido pelo próprio pai, na tentativa de domar a sua vontade. Quando Edwin conduzira o filho à plácida serenidade do vazio místico, pretendia que se acalmasse e ponderasse na gravidade dos seus feitos, para que, ao despertar, a sua consciência se pudesse reabilitar. Porém, mal o Rei da Lua regressara à realidade, o fogo esgueirara-se pelas frinchas daquele mundo criado para sarar e devastara-o com veemência. De seguida aflorara a essência do prisioneiro, que o assimilara com satisfação. A cada instante, a dor de Halvard transformava-se em prazer, a mágoa em contentamento, a raiva… A raiva crescia e avigorava-se, alimentava o seu poder e enfraquecia as amarras que o cingiam.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |