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A Saga Completa de Duna – Frank Herbert

O começar é o momento mais delicado na correção do equilíbrio. Esta irmã Bene Gesserit bem o sabe. Por isso, ao começar a estudar a vida de Muad’Dib, teve o cuidado de situá-la em sua época: nascido no 57° ano do Imperador Padishah Shaddam IV. E com mais cuidado ainda localizou Muad’Dib em sua terra: o planeta Arrakis. Mas que ninguém se iluda com o fato de ter ele nascido em Caladan e lá ter vivido seus primeiros quinze anos: Arrakis, o planeta conhecido como Duna, será para sempre a sua terra. — do Manual do Muad’Dib, escrito pela Princesa Irulan Na semana anterior à sua partida para Arrakis, quando toda aquela agitação final chegara a um frenesi quase insuportável, uma velha encarquilhada veio visitar a mãe de Paul, o rapaz. Era uma noite quente no Castelo Caladan e a antiga pilha de rochas, que servira como lar para a família Atreides por vinte e seis gerações, exibia aquela atmosfera suarenta que costumava adquirir antes de uma mudança no tempo. A velha foi introduzida por uma porta lateral do longo corredor abobadado que levava ao quarto de Paul, e foi-lhe concedido um momento para observá-lo enquanto ele dormia. Na penumbra de uma lâmpada suspensa enfraquecida e pendurada junto do solo, o rapaz acordado podia ver diante da porta uma forma feminina volumosa erguendo-se um passo adiante de sua mãe. A velha parecia uma bruxa com o cabelo como teias de aranha embaraçadas, feições obscurecidas pelo capuz e dois olhos como jóias brilhantes. — Ele não é muito pequeno para sua idade, Jessica? — indagou a velha, sua voz chiando e ressonando como um baliset desafinado. A resposta da mãe de Paul veio em suave contralto: — Sabe-se que os Atreides começam a crescer tardiamente, Sua Reverência. — Assim ouvi, assim ouvi — chiou a voz asmática da velha. — No entanto ele já tem quinze anos. — Sim, Sua Reverência. — Está acordado e nos escutando, esse maroto — riu a velha. — Mas a realeza precisa ser matreira e se ele é realmente o Kwisatz Haderach… bem… Nas sombras de seu leito Paul conservava os olhos semicerrados. Os dois ovais brilhantes formados pelos olhos da bruxa pareciam reluzir, expandindo-se ao fitá-la. — Durma bem, seu molequinho esperto — disse ela. — Amanhã precisará de toda a sua esperteza para enfrentar meu gom jabbar. Então ela se foi, empurrando sua mãe para fora e fechando a porta com uma pancada seca. Paul ficou acordado pensando: o que será um gom jabbar? Em todas as perturbações desse tempo de mudanças, a velha fora a coisa mais estranha que presenciara. “Sua Reverência.” E o modo como ela tratara sua mãe Jessica, como se ela fosse uma criada em vez do que ela realmente era: uma dama Bene Gesserit, uma concubina do duque e mãe de seus herdeiros ducais. Seria um gom jabbar alguma coisa pertencente a Arrakis e que ele precisaria conhecer antes de chegar lá? Repetiu as estranhas palavras da velha: gom jabbar.


Kwisatz Haderach. Havia tanto que aprender… Arrakis devia ser um lugar tão diferente de Caladan, que a mente de Paul rodopiava com seus novos conhecimentos. Arrakis-Duna-Planeta Deserto. Thufir Hawat, o Mestre de Assassinos de seu pai, lhe explicara: os Harkonnen, seus inimigos mortais, haviam ocupado Arrakis durante oitenta anos, mantendo o planeta como um semifeudo, sob um contrato com a Companhia CHOAM para minerar a especiaria geriátrica Melange. Agora os Harkonnen partiriam e seriam substituídos pela Casa dos Atreides, na forma de um feudo completo — uma vitória aparente do Duque de Leto. No entanto, dissera Hawat, esta aparência guardava umperigo mortal, sendo o Duque tão popular entre as Grande Casas de Landsraad. — E um homem popular atrai o ciúme dos poderosos concluíra Hawat. “Arrakis-Duna-Planeta Deserto.” Paul adormeceu para sonhar com uma caverna de Arrakis, com pessoas silenciosas movendose à sua volta na luz mortiça dos brilhoglobos. Era um lugar solene como uma catedral e ele ouvia umruído fraco, como água gotejando. Enquanto sonhava, Paul tinha a certeza de que se lembraria quando acordasse. Ele sempre se lembrava dos sonhos que eram previsões. O sonho se apagou. Paul acordou sentindo o calor de seu leito… pensando… pensando. Esse mundo do Castelo Caladan, sem brinquedos nem companheiros de sua idade, talvez não merecesse tristezas na despedida. Seu professor, o Dr. Yueh, havia insinuado que o sistema de classes faufreluches não era tão rígido em Arrakis. O planeta abrigava gente que vivia nas margens do deserto, sem caides ou bashares para comandá-los. Eram os povos esquivos da areia chamados Fremen, e nem os recenseamentos da Armada Imperial os registravam. “Arrakis-Duna-Planeta Deserto.” Sentindo suas próprias tensões, Paul decidiu praticar uma das lições do corpo-mente ensinadas por sua mãe. Três inspirações rápidas acionaram a resposta: caiu numa consciência flutuante… focalizando sua percepção… dilatação arterial… evitando o mecanismo divagador da mente… ter consciência por escolha… sangue enriquecido regando as áreas sobrecarregadas… “não se obtém comida-abrigo-liberdade somente com o instinto”… a consciência animal é incapaz de se estender além do momento presente e não conhece a idéia de que suas vítimas possam se extinguir… o animal destrói e não produz… os prazeres animais permanecem próximos dos níveis de sensação e evitam o perceptivo… os humanos necessitam de uma tela de fundo através da qual possam perceber seu universo… consciência focalizada por escolha, isso produz a sua tela… a integridade corporal segue o fluxo sanguíneoneural de acordo com a mais profunda consciência das necessidades celulares… todas as coisas/células/seres são inconstantes… lute pela permanência de fluxo interno… Dentro da consciência de Paul a lição se repetia, seguidamente. E quando a aurora tocou a janela do quarto com sua luz amarelada ele a sentiu através das pálpebras fechadas; abrindo-as, ouviu a agitação renovada do castelo, vendo o padrão familiar das vigas do teto. A porta do corredor se abriu e sua mãe apareceu com cabelos de um bronze pálido presos em coque por uma fita negra. O rosto oval desprovido de emoção com os olhos verdes a fitá-la comsolenidade.

— Já está acordado… Dormiu bem? — Sim. Ele observou seu porte esbelto e percebeu o indício de tensão em seus ombros enquanto ela escolhia as roupas nas prateleiras. Outro não teria notado essa tensão, mas ela o treinara bem nos ensinamentos Bene Gesserit, nas observações das minúcias. Voltou-se trazendo-lhe um casaco semiformal. Estava lá a crista vermelha do falcão, o símbolo dos Atreides, sobre o peito. — Vista-se depressa — disse ela. — A Reverenda Madre está esperando. — Sonhei com ela uma vez — respondeu Paul. — Quem é ela? — Ela foi minha professora na escola de Bene Gesserit. Agora é a Reveladora da Verdade para o Imperador. E… Paul… — Jessica hesitou. — Você deve contar a ela sobre seus sonhos. — Contarei. Foi com sua ajuda que ganhamos Arrakis? — Nós não ganhamos Arrakis. — Jessica sacudiu a poeira das calças que escolhera para ele e colocou-as junto com o casaco, no suporte ao lado da cama. — Não deixe a Reverenda Madre esperando. Paul se sentou segurando os joelhos. — O que é um gom jabbar? Novamente o treino que ela lhe dera mostrava a ele sua hesitação quase imperceptível, fazendo-o sentir medo. Jessica caminhou até a janela, abriu as cortinas e olhou através dos pomares junto ao rio, na direção do Monte Syubi. Você aprenderá a respeito do… gom jabbar muito breve. Percebendo o temor em sua voz, ele ouviu-a surpreso, enquanto Jessica falava sem se voltar. — A Reverenda Madre está esperando em minha sala matinal. Por favor, apresse-se. A Reverenda Madre Gaius Helen Mohiam observou, sentada numa cadeira, enquanto mãe e filho se aproximavam. As janelas ao seu lado abriam-se para a curva sul do rio e as terras cultivadas dos Atreides, mas a Reverenda Madre ignorava a visão.

Sentia o peso da idade nessa manhã, e isso a punha de mau humor… Culpava por isso as viagens espaciais, com aquela abominável Corporação Espacial e seus costumes secretos. Todavia essa era uma missão que exigia atenção especial de uma Bene Gesserit com a visão. Nem mesmo a Reveladora da Verdade do Imperador Padishah poderia eximir-se de suas responsabilidades. “Maldita Jessica!”, pensou a Reverenda Madre. Se ao menos ela houvesse dado à luz uma menina, como lhe foi ordenado. Jessica parou a três passos da cadeira e fez uma pequena reverência com um suave movimento de sua mão esquerda ao longo da borda da saia. Paulo inclinou-se ligeiramente como seu mestre de dança lhe ensinara, numa reverência usada quando em dúvida quanto à importância da outra pessoa. Essas nuanças na saudação de Paul não escaparam à Reverenda Madre, que comentou: — Ele é bem cauteloso, Jessica. — A mão de Jessica tocou o ombro do rapaz de um modo firme. No tempo de uma batida do coração seu toque transmitiu medo através da palma, depois ela conseguiu se controlar. — Assim lhe foi ensinado, Sua Reverência. “De que é que ela tem medo?”, cismava Paul. A velha estudou Paul num instante apenas: rosto oval como o de Jessica, mas ossos fortes… os cabelos negros do Duque, as sobrancelhas do avô paterno, e aquele nariz fino, desdenhoso, os olhos verdes a fitarem diretamente, como os do velho Duque, avô paterno, agora morto. “Bem, aquele era um homem que apreciava o poder da coragem, mesmo na morte”, pensou a Reverenda Madre. — O ensinamento é uma coisa — disse ela —, o ingrediente básico é outra. Veremos. — Os velhos olhos fitaram Jessica duramente. Deixe-nos a sós. Apreciaria se praticasse a meditação da paz. Jessica tirou a mão do ombro de Paul. — Sua Reverência, eu… — Jessica, você sabe o que deve ser feito. Paul olhou para sua mãe, intrigado. Jessica se empertigou. — Sim… é claro. Paul observou novamente a Reverenda Madre.

A polidez e o próprio temor de Jessica aconselhavam cautela, mas ele sentia-se furioso com o medo que percebera se irradiando de sua mãe. — Paul… — Jessica respirou fundo —, esse teste que está prestes a realizar é importante para mim. — Teste? — Olhou para ela intrigado. — Lembre-se de que você é um filho do Duque — disse Jessica. Depois girou e saiu da sala acompanhada pelo ruído sibilante de sua saia. A porta fechou-se sólida por trás dela. Paul encarou a velha e conteve sua raiva. Pode alguém tratar Lady Jessica como se ela fosse uma criada? Um sorriso tremulou nos cantos da boca enrugada. — Lady Jessica foi minha criada, garoto, durante quatorze anos na escola. E foi uma boa criada. Agora venha cá! A ordem o atingiu como uma chicotada e ele obedeceu antes que pudesse pensar. “Usando a Voz em mim”, pensou. Parou diante de um gesto da velha, ficando ao lado de seus joelhos. — Está vendo isto? — perguntou ela. De uma das obras do vestido retirara um cubo de metal verde, com aproximadamente quinze centímetros de aresta. Ela o girou deixando Paul perceber que um dos lados estava aberto — negro e assustador. Nenhuma luz penetrava aquela escuridão. — Ponha sua mão dentro desta caixa. O medo percorreu o corpo de Paul. Ele começou a recuar mas a velha disse: — É assim que você obedece a sua mãe? Fitou aqueles olhos de pássaro. Então, lentamente, sentindo compulsões e incapaz de inibilas, Paul colocou a mão dentro da caixa. Sentiu a princípio uma sensação de frio, enquanto a escuridão se fechava em torno de sua mão, depois sentiu um metal escorregadio contra seus dedos e um formigamento, como se a mão estivesse adormecida. Uma aparência destruidora tomou as feições da mulher. Ela ergueu a mão direita e colocou-a junto a um dos lados do pescoço de Paul. Ele viu um brilho metálico e começou a se voltar.

— Pare! — gritou ela. “Usando a Voz novamente!”, pensou ele enquanto tornava a fitar o rosto dela. — Eu estou segurando meu gom jabbar junto de seu pescoço. — O gom jabbar, o inimigo destro — disse ela. — É uma agulha com uma gota de veneno na ponta. Ah, ah! Não tente recuar ou você sentirá o veneno. Paul tentou engolir e sentiu a garganta seca. Não conseguia afastar seus olhos da face enrugada, dos olhos brilhantes, das gengivas pálidas em torno dos dentes de metal prateados que apareciam enquanto ela falava. — Um filho do Duque deve entender de venenos. É a moda da época, não é, Musky, ser envenenado na bebida? Algumas vezes, ser envenenado na comida. Os venenos rápidos, os lentos e os mais ou menos. Aqui há um novo para você: o gom jabbar. Ele mata apenas os animais. O orgulho de Paul controlou seu medo: — Atreve-se a sugerir que o filho do Duque é um animal? — Digamos que eu sugiro que você seja humano — respondeu a velha. — Firme! Aviso-lhe que não tente escapar. Sou velha mas minha mão pode espetar esta agulha em seu pescoço antes que possa fugir. — Quem é você? — sussurrou. — Como enganou minha mãe para me deixar sozinho consigo? Trabalha para os Harkonnen? — Os Harkonnen? Deus nos livre, não. Agora fique quieto. Dedos ressequidos tocaram seu pescoço e ele controlou um impulso involuntário de pular longe. — Bom — disse ela. — Você passou no primeiro teste. Agora eis o resto dele. Se retirar sua mão desta caixa você morre. Esta é a única regra.

Mantenha a mão na caixa e você vive; tire-a e morre. Paul respirou fundo para controlar seus tremores. — Se eu gritar, os servos estarão aqui em segundos e você morrerá. — Servos não passarão por sua mãe, que monta guarda diante daquela porta. Confie nisso. Sua mãe sobreviveu a este teste. Agora é a sua vez. Sinta-se honrado. Raramente submetemos a este teste as crianças do sexo masculino. A curiosidade reduziu o medo de Paul até um nível controlável. Ele sentia sinceridade na voz dela, não havia como negá-la. Se sua mãe estava guardando aquela porta… se era realmente um teste… O que quer que fosse ele estava preso, apanhado como numa armadilha por aquela mão em seu pescoço: o gom jabbar. Lembrou-se da resposta na Litania contra o medo, que sua mãe lhe ensinara a partir do rito Bene Gesserit. “Eu não temerei. O medo é o assassino da mente. Medo é a morte pequena que traz a obliteração. Enfrentarei meu medo. Não permitirei que ele passe sobre mim ou através de mim. E, quando ele se for, voltarei minha visão interna para olhar sua trilha. Por onde o medo passou nada restou. Apenas eu permaneço.” Sentiu a calma retornar e disse: — Vamos com isso, velha. — Velha! — retrucou ela. — Você tem coragem, isso é inegável. Bem, veremos.

— Ela se inclinou, sussurrando : — Você vai sentir dor na mão que está dentro da caixa. Dor. Mas… Retire a mão e eu espetarei seu pescoço com meu gom jabbar — a morte é tão rápida como um golpe de machado. Tire sua mão e o gom jabbar acaba com você. Entendeu? — O que há na caixa? — Dor. Sentia um torpor crescente na mão e comprimiu os lábios. “Como é que isso pode ser um teste?”, pensou. O formigamento tornou-se uma coceira. A velha disse: — Já ouviu falar de animais que mastigam uma perna até arrancá-la para escaparem de uma armadilha? Este é um truque animal. Um humano permaneceria na armadilha, suportaria a dor, fingiria estar morto para matar o caçador e eliminar a ameaça aos seus semelhantes. A coceira tornou-se uma fraca sensação de queimadura. — Por que está fazendo isso? — perguntou ele. — Para determinar se você é humano. Fique calado. Paul fechou a mão esquerda enquanto a sensação de queimadura aumentava na outra mão. Ela crescia lentamente: calor sobrepondo-se a calor… sobre calor. Sentia as unhas da mão que estava livre penetrando na palma. Tentou flexionar os dedos em fogo mas não conseguiu movê-los. — Isso queima — sussurrou. — Silêncio! A dor pulsava em seu braço enquanto o suor aparecia na testa. Cada fibra de seu ser implorava pela retirada da mão daquela abertura flamejante… mas… o gom jabbar. Sem mover a cabeça ele tentou mexer com os olhos, para ver aquela agulha terrível junto ao seu pescoço. Sentiu que estava respirando de um modo ofegante, tentou se controlar mas não pôde. Dor! Seu mundo esvaziou-se de tudo, exceto a mão imersa em agonia e aquela cara ancestral a observá-lo, a alguns centímetros dele. E seus lábios pareciam tão secos que tinha dificuldade para separá-los.

A queimadura! A queimadura! Pensou que podia sentir a pele negra se contraindo e soltando de sua mão agonizante, a carne frigindo e caindo até que somente restassem ossos carbonizados. E então a dor parou. Parou como se um interruptor houvesse sido desligado. Paul sentia o braço direito tremendo, o suor cobrindo seu corpo. — É o bastante — resmungou a velha. — Kull wahad! Nenhuma menina jamais aguentou tanto tempo. Eu devia estar querendo que você falhasse. — Ela se inclinou para trás, retirando o gomjabbar do lado do pescoço. — Tire sua mão da caixa, jovem humano, e olhe para ela. Ele lutou contra o tremor e o vazio escuro, onde sua mão parecia continuar por vontade própria. A memória da dor inibia qualquer movimento e a razão lhe dizia que apenas um toco enegrecido sairia daquela caixa. — Faça o que mandei! — exigiu ela. Ele tirou a mão da caixa num movimento súbito e olhou perplexo. Nem uma marca. Nenhumsinal da agonia na carne. Levanta a mão e mexe com os dedos. — Dor induzida nos nervos — explicou a velha. — Não se pode andar por aí mutilando humanos em potencial. Existem aqueles que dariam muito para conhecer o segredo desta caixa. —Escondeu-a de novo nas dobras do vestido. — Mas a dor… — insistiu ele. — Dor! Um humano pode controlar cada nervo de seu corpo. Paul sentiu uma fisgada na mão esquerda, abriu os dedos e viu quatro marcas sangrentas onde as unhas haviam penetrado na palma. Abaixou a mão olhando para a bruxa. — Você fez isso com minha mãe uma vez? — Já peneirou areia através de uma tela? O tom da pergunta abalou sua mente fazendo-a atingir um nível mais elevado de consciência : “Areia através de uma tela.

” Ele acenou afirmativamente. — Nós, Bene Gesserit, peneiramos pessoas para encontrar humanos. Ele levantou a mão direita, desejando a recordação da dor. — E isso é tudo que é preciso? Dor? — Eu o observei sofrer, rapaz. A dor é apenas o eixo do teste. Sua mãe já lhe contou sobre nossos métodos de observação. Vejo os sinais de seu ensinamento em você. Nosso teste é crise e observação. Ele confirmou com a cabeça. — É verdade! Ela o observava. “Ele sente a verdade! Pode ser ele? Pode realmente ser ele?” Controlou a excitação lembrando a si mesma: “A esperança embaça a observação.” — Você sabe quando as pessoas acreditam no que dizem. — Sei. As harmonias da habilidade, confirmadas por testes repetitivos, estavam na voz dele. Ela as ouviu e disse : — Talvez seja você o Kwisatz Haderach. — Sente-se aqui aos meus pés, irmãozinho. — Prefiro ficar de pé. — Sua mãe sentou-se aos meus pés uma vez. — Eu não sou minha mãe. — Você nos odeia um pouco, não? — Ela olhou para a porta e chamou: — Jessica! — A porta abriu-se violentamente e Jessica surgiu olhando de modo severo para dentro da sala. A severidade desapareceu de suas feições quando ela viu Paul. Sorriu ligeiramente. — Jessica, alguma vez já parou de me odiar? — indagou a velha. — Eu a amo e odeio — respondeu Jessica. — O ódio vem da dor que eu nunca esquecerei.

O amor, este… — Somente os fatos básicos — exigiu a velha, no entanto sua voz era gentil agora. — Você pode entrar agora, mas fique calada. Feche aquela porta e cuide para que ninguém nos interrompa. Jessica obedeceu, ficando de costas contra a porta fechada. “Meu filho vive”, pensou. “Meu filho vive e é humano. Eu sabia que ele era… mas… ele vive. Agora posso continuar minha vida.” A porta parecia dura contra suas costas, tudo na sala pressionava sua percepção. “Meu filho vive.” Paul observava sua mãe. “Ela contou a verdade.” Ele queria ficar só e pensar na experiência por que passara, mas sabia que não poderia sair até receber permissão. A velha adquirira poder sobre ele. “Elas falam a verdade”, pensou. Sua mãe suportara o teste. Deve haver um propósito terrível nele… o medo e a dor haviam sido terríveis. E ele entendia propósitos terríveis. Eles impulsionavam contra todas as probabilidades. Eram sua necessidade. E Paul se sentia contaminado por uma resolução terrível. Embora ainda não soubesse qual era ela. — Algum dia, rapaz — dizia a velha —, você talvez tenha que ficar do lado de fora de uma porta como aquela. Isto exige controle. Paul fitou a mão que conhecera a dor e a Reverenda Madre.

O som de sua voz era diferente de qualquer outra voz que conhecera. As palavras tinham um brilho que as delineava. Havia uma nitidez nelas. Sentia que qualquer pergunta que lhe fizesse traria uma resposta que o elevaria deste mundo carnal para alguma coisa maior. — Por que vocês testam em busca de humanos? — indagou ele. — Para libertá-los. — Libertar? — Houve um tempo em que os homens abdicaram do pensamento em favor das máquinas, na esperança de que as máquinas os fariam livres. Mas isso permitiu apenas que outros homens, commáquinas, os escravizassem. — Tu não farás a máquina à semelhança do homem — observou Paul. — Exatamente como no Jihad Butleriano e na Bíblia Católica Laranja — disse ela. — Mas o que a Bíblia C. L. deveria dizer é “Tu não farás uma máquina para imitar a mente humana.” — Já estudou os Mentat a seu serviço? — Eu estudei com Thufir Hawat. — A Grande Revolta tirou a muleta. Ela forçou a mente humana a se desenvolver. Escolas foram criadas para treinar talentos humanos. — Escolas Bene Gesserit? Ela acenou afirmativamente. — Temos duas principais remanescentes daquelas antigas escolas: a Bene Gesserit e a Corporação Espacial. A Corporação, achamos nós, enfatiza quase que apenas a matemática. A Bene Gesserit realiza outra função. — Política — disse o rapaz. — Kull wahad! — exclamou a velha enquanto enviava um olhar duro para Jessica. — Eu não contei a ele, Sua Reverência — explicou Jessica. A Reverenda Madre voltou a atenção para Paul.

— Você conseguiu deduzir com um número extraordinariamente pequeno de indícios. Política de fato. A escola Bene Gesserit original foi dirigida por aqueles que viam a necessidade de um fio de continuação nos assuntos humanos. Achavam que não haveria tal continuidade sem a separação da estirpe humana da estirpe animal, para propósitos de procriação. As palavras da velha subitamente perderam sua veemência especial para Paul. Ele sentia uma ofensa contra o que sua mãe chamava de seu instinto de retidão. Não era que a Reverenda Madre estivesse mentindo para ele. Ela obviamente acreditava no que dizia. Era algo mais profundo, algo preso à sua terrível resolução. Ele disse: — Mas minha mãe me diz que muitas Bene Gesserit das escolas não conhecemseus ancestrais. — As linhas genéticas se encontram sempre em nossos registros — respondeu ela. — Sua mãe sabe que, ou ela é de ascendência Bene Gesserit, ou sua estirpe foi considerada aceitável em si mesma. — Então por que ela não pode saber quem são seus pais? — Algumas podem… muitas não. Podemos, por exemplo, querer uni-la a um parente próximo para produzir um fator dominante em alguma tendência genética. Nós temos muitas razões. Novamente Paul sentiu uma ofensa contra sua retidão. Comentou: — Vocês exigem muito de si mesmas. A Reverenda Madre olhou para ele imaginando: “Terei percebido uma crítica em sua voz?” — Nós carregamos um fardo pesado — disse ela. Paul se sentia emergindo cada vez mais do choque produzido pelo teste. Ele lançou um olhar de avaliação sobre ela e disse: — Você diz que eu talvez seja o… Kwisatz Haderach. O que é isto? Um gom jabbar humano? — Paul — pediu Jessica — você não deve usar esse tom… — Eu cuidarei disso, Jessica — interrompeu a velha. — Agora, rapaz, você tem conhecimento da droga Reveladora da Verdade? — Vocês a tomam para aumentar sua habilidade em detectar falsidade. Minha mãe me contou. — Já teve oportunidade de vê-la em transe verdadeiro? Ele sacudiu a cabeça: — Não. — A droga é perigosa mas produz percepção.

Quando uma Reveladora da Verdade recebe o dom pela droga, ela pode observar muitos lugares em suas memórias — nas memórias de seu corpo. Nós olhamos ao longo de muitas avenidas para o passado… mas somente através de caminhos femininos. — A voz dela adquiriu um tom de tristeza. — Pois existe um lugar que nenhuma Reveladora da Verdade pode ver. Nós somos repelidas por ele, aterrorizadas. Diz-se que um homem virá um dia e encontrará no dom da droga a sua visão interior. Ele verá onde nós não podemos ver, em ambos, o passado feminino e o passado masculino. — Este é o Kwisatz Haderach? — Sim, aquele que pode estar em muitos lugares ao mesmo tempo: O Kwisatz Haderach. Muitos homens já tentaram a droga… tantos… mas nenhum teve sucesso. — Eles tentaram e falharam? Todos eles? — Oh, não! — ela sacudiu a cabeça. — Eles tentaram e morreram. 2 Tentar compreender o Muad’Dib sem entender seus inimigos mortais, os Harkonnen, é como tentar ver a Verdade sem conhecer a Falsidade. É uma tentativa de ver a Luz sem conhecer a Escuridão. Não pode ser bem-sucedida. — do Manual do Muad’Dib, escrito pela Princesa Irulan Era um globo, em relevo, de um mundo parcialmente nas sombras, girando sob o ímpeto de uma mão gorda que brilhava cheia de anéis. O globo estava colocado num suporte, na parede de uma sala sem janelas, cujas demais paredes apresentavam uma miscelânea de rolos multicoloridos de pergaminhos, livros filmados, carretéis e teipes. Na sala brilhava uma luz que partia de bolas douradas suspensas por planos elevados móveis. Uma mesa elipsóide, com um tampo de laca petrificada de cor rosa-jade, ocupava o centro da sala. Cadeiras suspensoras Veriformes colocavam-se à volta, duas delas estando ocupadas no momento. Em uma delas estava um jovem de cabelos negros, com aproximadamente dezesseis anos, de rosto redondo e olhos sombrios. Na outra um homem baixinho e magro, com um rosto efeminado. Ambos, o homem e o jovem, olhavam para o globo e para o homem que, meio oculto pelas sombras, o fazia girar. Um riso soou ao lado do globo. Uma voz grave trovejou no meio do riso. — Lá está ele, Piter.

A maior armadilha para homens em toda a história. E o Duque dirige-se para suas mandíbulas. Não é uma coisa magnífica que eu, o Barão Vladimir Harkonnen, a tenha feito? — Seguramente, Barão — respondeu o homem. Sua voz saía como a de um tenor, com uma suave musicalidade. A mão gorda desceu sobre o globo interrompendo sua rotação. Agora todos os olhos podiam focalizar-se na superfície imóvel, percebendo que este era o tipo de globo feito para colecionadores ricos ou governadores planetários do Império. Tinha um selo de manufatura imperial sobre ele. As linhas de latitude e longitude eram traçadas com fios de platina da grossura de um cabelo. As calotas polares constituíam-se de incrustações dos melhores diamantes nuvem-leitosos. A mão movia-se traçando detalhes na superfície. — Eu o convido a observar — trovejou a voz. — Observe de perto, Piter. E você também, Feyd-Rautha, meu querido. De sessenta graus norte a setenta graus sul, estas delicadas ondulações. Suas cores não lhes lembram caramelos? E em parte alguma você vê o azul dos lagos, rios ou mares. E aquelas adoráveis calotas polares, tão pequenas! Pode alguém confundir este lugar? Arrakis! Verdadeiramente único. Um palco soberbo para uma vitória singular. O sorriso tocou os lábios de Piter. — E pensar, Barão, que o Imperador Padishah acredita estar entregando ao Duque seu planeta de especiaria. Que comovente! — Esta é uma declaração insensata — rugiu o Barão. — Você diz isso para confundir o jovem Feyd-Rautha, mas não é necessário confundir meu sobrinho. O jovem de cara amarrada remexeu-se na cadeira e alisou uma dobra na roupa negra que usava. Sentou ereto ao ouvir uma batida discreta na porta logo atrás. Piter levantou-se, cruzou a sala e abriu a porta apenas o suficiente para receber um cilindro com mensagem. Fechou a porta e desenrolou o cilindro, lendo-o.

Deu um risinho e depois outro. — Então? — perguntou o Barão. — O tolo nos responde, Barão. — Quando é que umAtreides recusa a oportunidade para se expressar? — observou o Barão. — O que é que ele diz? — Ele é muito rude, Barão. Trata-o por “Harkonnen”, não por “Sir e Querido Primo”, não há título nem nada. — É um bom nome — resmungou o Barão, a voz denunciando sua impaciência. — Que diz o querido Leto? — Ele diz: “Sua oferta para uma reunião é recusada. Eu já encontrei muitas vezes a sua traição e isto é algo que todos os homens conhecem.” — E…? — indagou o Barão. — Ele diz: “A arte do kanly ainda tem seus admiradores no Império.” E assina: “Duque Leto de Arrakis.” — Piter começou a rir. — De Arrakis! Oh, meu! É demais! — Cale-se, Piter! — exigiu o Barão e a risada foi interrompida como se um botão fosse acionado. — Kanly, é? Uma vendetta, hein? E ele usa esta ótima palavra antiga, tão rica em tradições, para estar certo de que eu saberei seu significado. — Fizeste o gesto de paz — disse Piter. — As convenções foram obedecidas. — Para um Mentat você fala demais, Piter — respondeu o Barão, enquanto pensava: “Devo me livrar dele logo. Ele quase já viveu além da sua utilidade.” Olhou o assassino Mentat do outro lado da sala, observando o detalhe em suas feições que a maioria das pessoas reparava primeiro: os olhos, as fendas obscurecidas de azul dentro de azul, olhos sem nenhum branco. O sorriso abria-se na face de Piter. Como uma careta sob aqueles olhos que pareciam fendas. — Mas, Barão! Nunca uma vingança foi mais bela. É observar um plano da mais requintada traição: fazer Leto trocar Caladan por Duna, e sem ter alternativa devido às ordens do Imperador… Como o senhor é divertido! Numa voz fria o Barão disse: — Você tem a língua solta, Piter. — Mas sou feliz, meu Barão.

Enquanto o senhor… o senhor é tocado pelo ciúme. — Piter! — Ah, ah, Barão! Não é lamentável que o senhor fosse incapaz de conceber este delicioso plano por si mesmo? — Algum dia eu o farei estrangular, Piter. — Certamente, Barão. Enfim! Mas um ato de bondade nunca se perde, não é mesmo? — Andou mastigando verita ou semuta, Piter? — A verdade sem medo surpreende o Barão? — indagou Piter, seu rosto numa caricatura da expressão grave. — Ah, ah! Mas como vê, Barão, eu sei, como Mentat, quando irá mandar o executor. Vai esperar pelo tempo que eu for útil. Fazê-lo cedo demais seria desperdício e eu ainda sou muito útil. Eu conheço o que aprendeu daquele adorável planeta Duna. “Não desperdiçar.” Não é verdade, Barão? O Barão continuava fitando Piter. Feyd-Rautha se remexeu na cadeira. “Estes tolos polêmicos!”, pensava. “Meu tio não consegue falar com seus Mentat sem discutir. Será que eles pensam que não temos mais o que fazer além de ouvir os seus argumentos?” — Feyd — disse o Barão. — Eu lhe recomendei que ouvisse e aprendesse, quando foi convidado a vir aqui. Está ouvindo? — Sim, tio. — A voz era cuidadosamente subserviente. — Algumas vezes eu me pergunto quanto a Piter — continuou o Barão. — Eu provoco o sofrimento quando é necessário, mas ele… Eu juraria que ele tira um prazer do sofrimento. Por mimeu posso sentir pena do pobre Duque Leto. O Dr. Yueh agirá contra ele logo e isto será o fim dos Atreides. Mas certamente Leto saberá qual a mão que dirigiu o dócil doutor… e saber será uma coisa terrível. — Então, por que não dirigiu o doutor no sentido de mergulhar uma kindjal entre as costelas dele de um modo silencioso e eficiente? — indagou Piter. — Fala em piedade, mas… — O Duque deve saber quando eu encerrar o seu destino interrompeu o Barão.

— E todas as outras Grandes Casas devem saber também. O conhecimento lhes dará uma pausa. E eu ganharei mais espaço para manobras. A necessidade é óbvia, mas eu não tenho que gostar dela. — Espaço para manobras — zombou Piter. — Já tem os olhos do Imperador a observá-la, Barão. Está se movendo de um modo muito ousado. Um dia o Imperador mandará uma legião ou duas do seu Sardaukar descer aqui, em Giedi Prime, e isto será o fim do Barão Vladimir Harkonnen. — Você gostaria de ver isto, não gostaria, Piter? — indagou o Barão. — Você apreciaria a visão do Corpo de Sardaukar pilhando minhas cidades e saqueando este castelo. Verdadeiramente adoraria isto. — O Barão precisa perguntar? — sussurrou Piter. — Você deveria ser um Bashar. É muito interessado em sangue e dor. Talvez eu tenha me precipitado prometendo o espólio de Arrakis. Piter deu cinco passos miúdos na sala e parou exatamente atrás de Feyd-Rautha. Havia uma tensão no ar dentro da sala e o jovem olhou para Piter com uma expressão preocupada. — Não brinque com Piter, Barão. Você me prometeu Lady Jessica. Você prometeu-a para mim. — Para quê, Piter? — indagou o Barão. — Para causar dor? Piter olhou-o, prolongando o silêncio. Feyd-Rautha moveu sua cadeira suspensora para o lado e perguntou: — Tio, eu tenho que ficar? Você disse… — Meu querido Feyd-Rautha está impaciente — disse o Barão, movendo-se nas sombras ao lado do globo. — Paciência, Feyd — e então voltou a atenção para o Mentat. — E quanto ao filho do Duque, o garoto Paul, meu caro Piter? — A armadilha vai trazê-lo para o senhor, Barão — murmurou Piter.

— Não foi essa a minha pergunta. Você se lembra de que previu que a feiticeira Bene Gesserit daria uma filha ao Duque. E estava errado, Mentat. — Eu não erro frequentemente, Barão — disse Piter, demonstrando pela primeira vez medo na voz. — Reconheça isso: eu não erro frequentemente. E deve saber que estas Bene Gesserit geramprincipalmente filhas. Mesmo a consorte do Imperador produziu apenas meninas. — Tio — disse Feyd-Rautha —, você afirmou que haveria alguma coisa de importante para mim aqui… — Escute só o meu sobrinho. Ele aspira a governar o meu baronato, e no entanto não consegue governar a si próprio. O Barão se mexeu ao lado do globo, uma sombra entre sombras. —Está bem, Feyd-Rautha Harkonnen. Convoquei-o aqui esperando lhe ensinar um pouco de sabedoria. Você já observou o nosso bom Mentat? Devia ter aprendido alguma coisa desta discussão. — Mas, tio… — Piter é um Mentat bastante eficiente, não diria, Feyd? — Sim, mas… — Ah! De fato, mas! Ele consome muita especiaria, come como se fosse doce. Olhe nos seus olhos. Ele poderia ter vindo diretamente de um grupo de trabalho Arrakeen. O eficiente Piter, mas ainda emocional e dado a explosões acaloradas. O eficiente Piter, mas ainda capaz de errar. Piter falou em voz baixa, num tom mal-humorado. — Chamou-me aqui para prejudicar minha eficiência com críticas, Barão? — Prejudicar sua eficiência? Você me conhece bem, Piter. Eu queria apenas que meu sobrinho entendesse as limitações de um Mentat. — Já começou a treinar o meu substituto? — Substituir você? Por que, Piter? Onde eu encontraria outro Mentat com a sua astúcia e peçonha? — No mesmo lugar onde me encontrou, Barão. — Talvez devesse fazer isso — disse o Barão. — Você me parece um pouco instável ultimamente. E toda a especiaria que come! — Os meus prazeres são muito dispendiosos, Barão? Faz objeção a eles? — Meu querido Piter, são seus prazeres que o prendem a mim.

Como poderia fazer objeção a eles? Eu apenas desejava que meu sobrinho o observasse. — Então estou em exposição. Devo dançar? Devo realizar minhas várias funções para que o eminente Feyd-Rau… — Precisamente — disse o Barão. — Você está em exposição. Agora fique calado. — Olhou para Feyd-Rautha notando os lábios grossos e salientes do sobrinho, marca genética dos Harkonnen, agora se torcendo ligeiramente com o divertimento. — Este é um Mentat, Feyd. Ele foi treinado e condicionado para realizar certas funções. O fato de vir embalado num corpo humano, contudo, não deve ser esquecido. É uma séria desvantagem. As vezes acho que os antigos com suas máquinas pensantes é que estavam certos. — Elas eram brinquedos comparados comigo resmungou Piter. — Até você, Barão, poderia superar aquelas máquinas. — Talvez — disse o Barão. — Ah, bem… — Respirou fundo e arrotou. — Agora, Piter, delineie para o meu sobrinho os pontos principais de nossa campanha contra a Casa de Atreides. Funcione como um Mentat para nós, por favor. — Barão, já lhe adverti para não confiar informações a alguém tão jovem. Minhas observações do… — Eu serei o juiz quanto a isso. E lhe dei uma ordem, Mentat. Realize uma de suas várias funções. — Assim seja — disse Piter. Ele se empertigou, assumindo uma estranha atitude de dignidade, como se fosse outra máscara, só que desta vez cobrindo todo o seu corpo. — Em alguns dias, tempo Standard, todos os membros da casa do Duque Leto embarcarão numa nave de carreira da Corporação Espacial para Arrakis. A Corporação deverá desembarcá-los na cidade de Arrakeen, em vez de na nossa cidade de Carthag.

O Mentat do Duque, Thufir Hawat, terá concluído, com razão, que Arrakeen é mais fácil de ser defendida. — Ouça cuidadosamente, Feyd — recomendou o Barão, Observe os planos dentro dos planos, dentro dos planos. Feyd-Rautha acenou com a cabeça, pensando: “Isto se parece mais com ele. O velho monstro está me deixando penetrar em seus segredos finalmente. Ele deve realmente tencionar fazer de mim o seu herdeiro.”. — Existem muitas possibilidades tangenciais — continuou Piter. — Eu indiquei que a casa de Atreides viajará para Arrakis. Não devemos contudo ignorar a possibilidade de que o Duque tenha contratado a Corporação para removê-la a um lugar seguro fora do Sistema. Em circunstâncias semelhantes outros se tornaram Casas renegadas, levando a família, os escudos e o equipamento atômico para longe do Império. — O Duque é um homem muito orgulhoso para fazer isso observou o Barão. — É uma possibilidade — disse Piter. — O efeito final para nós seria o mesmo. — Não, não seria! — rosnou o Barão. — Eu o quero morto e sua linhagem acabada. — Esta é uma alta probabilidade — continuou Piter. — Existem certos preparativos que indicam quando uma Casa está prestes a se tornar renegada. O Duque não parece estar fazendo nenhuma destas coisas. — Certo — suspirou o Barão. — Prossiga, Piter. — EmArrakeen o Duque e sua família ocuparão a Residência, ultimamente o lar do Conde e de Lady Fenring. — O Embaixador dos Contrabandistas — riu o Barão. — Embaixador do quê? — indagou Feyd-Rautha. — Seu tio estava fazendo troça — observou Piter. — Ele chama o Conde Fenring de Embaixador dos Contrabandistas, indicando o interesse do Imperador nas operações de contrabando em Arrakis.

Feyd-Rautha olhou intrigado para seu tio. — Por quê? — Não seja obtuso, Feyd — retrucou o Barão. — Enquanto a Corporação permanecer efetivamente fora do controle imperial, não poderá ser de outro modo. Senão, como poderiam os espiões e os assassinos se deslocar de um ponto a outro? A boca de Feyd-Rautha fez um “oh” mudo. — Nós arranjamos algumas “distrações” na Residência continuou Piter. — Haverá um atentado contra a vida do herdeiro dos Atreides. Um atentado que pode ser bem-sucedido. — Piter — resmungou o Barão. — Você sugere… — Eu indiquei que acidentes podem acontecer. E o atentado deve parecer real. — Ah, mas o rapaz é um jovem tão encantador — lamentou o Barão. — É claro que ele é potencialmente mais perigoso que o pai… e com aquela mãe-bruxa a treiná-lo. Maldita mulher! Mas por favor, continue, Piter. — Hawat terá previsto que temos um agente plantado entre eles. O suspeito óbvio é o Dr. Yueh, que é de fato o nosso agente. Todavia Hawat investigou e descobriu que o nosso doutor é um graduado da Escola Suk, com Condicionamento Imperial supostamente seguro para servir até mesmo ao Imperador. Tem-se grande confiança no Condicionamento Imperial. Presume-se que o condicionamento final não possa ser quebrado sem .matar o indivíduo a ele submetido. Entretanto, como alguém observou certa vez, dada a alavanca adequada, pode-se mover até um planeta. Nós encontramos a alavanca que moveria o doutor. — Como? — indagou Feyd-Rautha. Achava o assunto fascinante. Todos sabiam ser impossível subverter um Condicionamento Imperial.

— Em outra ocasião — respondeu o Barão. — Continue, Piter. — No lugar de Yueh, nós colocaremos um suspeito muito interessante no caminho de Hawat. A própria audácia da suspeita fará com que Hawat volte sobre ela as suas dúvidas. — Ela? — indagou Feyd-Rautha. — Lady Jessica em pessoa — disse o Barão. — Não é sublime? — indagou Piter. — A mente de Hawat ficará tão atraída por esta perspectiva que perturbará suas funções como Mentat. Ele pode mesmo tentar matá-la — matutou Piter. Mas não creio que ele consiga. — Ou não deseja, não é mesmo? — perguntou o Barão. — Não me distraia. Enquanto Hawat está ocupado com Lady Jessica, nós o distrairemos ainda mais com levantes em algumas das cidades ocupadas por guarnições. Estes deverão ser dominados, afinal o Duque deve acreditar que tem o controle da situação. E então, quando tudo estiver suficientemente amadurecido, nós enviaremos o sinal para o Dr. Yueh e atacaremos com nosso maior trunfo… ah… — Prossiga, conte a ele — recomendou o Barão. — Entraremos em ação reforçados por duas legiões de Sardaukar disfarçadas com uniformes dos Harkonnen. — Sardaukar! — sussurrou Feyd-Rautha, sua mente focalizada nas terríveis tropas imperiais, os matadores sem piedade, os fanáticos soldados do Imperador Padishah. — Está vendo como eu confio em você, Feyd — disse o Barão. — Nenhum indício disto deverá jamais chegar ao conhecimento das outras Grandes Casas, ou o Landsraad se unirá contra a Casa Imperial e será o caos. — O ponto principal — continuo Piter — é este: uma vez que a casa dos Harkonnen está sendo usada para fazer o trabalho sujo imperial, nós obteremos uma verdadeira vantagem. É uma vantagem perigosa, certo, mas se usada com cautela levará a casa Harkonnen a uma riqueza maior do que a de qualquer outra Casa do Império. — Você não faz idéia de quanta riqueza está envolvida, Feyd. — disse o Barão. — Nem em seus sonhos mais extravagantes.

Só para começar, nós possuiremos o controle ditatorial irrevogável da Companhia CHOAM. Feyd-Rautha assentiu. Riqueza era o objetivo. E CHOAM era a chave para a riqueza, comcada uma das nobres Casas nutrindo-se dos cofres da Companhia, sempre que o poder das ditaduras o permitia. Essas ditaduras CHOAM eram a verdadeira evidência do poder político do Império, sucedendo-se com as mudanças no peso dos votos dentro da Landsraad, enquanto esta se equilibrava contra o Imperador e aqueles que o apoiavam. — O Duque de Leto — disse Piter — pode tentar se refugiar entre a escória dos Fremen, junto à orla do deserto. Ou pode tentar enviar sua família para essa segurança imaginária. Mas esse caminho encontra-se bloqueado por um dos agentes de sua majestade: Kynes — o ecologista planetário. Deve se recordar dele. — Feyd se lembra; continue — disse o Barão. — Bancar o tolo não é bonito, Barão — disse Piter. — Continue a explicação, eu o ordeno! — rugiu o Barão. Piter deu de ombros. — Se as coisas correrem como planejado continuou —, a casa de Harkonnen terá um subfeudo emArrakis dentro de um ano Standard. Seu tio será dispensado daquele feudo mas seu próprio agente pessoal governará Arrakis. — Mais lucros — comentou Feyd-Rautha. — De fato — disse o Barão, e pensou: “Será justo; fomos nós que conquistamos Arrakis… com exceção de alguns mestiços Fremen que se esconderam nas orlas do deserto… e alguns contrabandistas subjugados, presos ao planeta quase tão profundamente quanto os trabalhadores nativos.” — E as Grandes Casas saberão que o Barão destruiu os Atreides — terminou Piter. — Elas saberão. — Elas saberão — sussurrou o Barão. — O mais adorável de tudo — observou Piter — é que o Duque saberá também. Ele já sabe mesmo agora. Pode sentir a armadilha. — É verdade que o Duque sabe — recordou o Barão; e sua voz tinha um toque de tristeza. —Ele não pode evitar o conhecimento… maior é a pena.

O Barão moveu-se para longe do globo de Arrakis e à medida que emergia das sombras, sua figura ganhava dimensão. Imensamente gordo, com protuberâncias por baixo das dobras de seu manto negro que indicavam ser toda essa gordura sustentada em parte por suspensores portáteis presos à sua pele. Ele devia pesar duzentos quilos Standard; em realidade, porém, seus pés não poderiamsuportar mais do que cinquenta. — Estou faminto — resmungou o Barão enquanto roçava seus lábios proeminentes com a mão inchada, fitando Feyd-Rautha através dos olhos quase ocultos por dobras de gordura. — Peça comida, meu querido. Nós faremos uma refeição antes de nos retirarmos. 3 Assim falou Santa Alia-da-Faca: A Reverenda Madre deve combinar a malícia sedutora de uma cortesã à intocável majestade de uma deusa virgem, mantendo esses atributos sob tensão pelo tempo que durarem os poderes de sua juventude. Pois quando a beleza e a juventude se forem, ela descobrirá que o ponto médio, antes local de equilíbrio entre tensões, transformou-se numa fonte de astúcia e desenvoltura. “ — de Comentários Familiares do Muad’Dib, escrito pela Princesa Irulan — Bem, Jessica, que tem a dizer em sua defesa? — perguntou a Reverenda Madre. Era quase a hora do poente no Castelo Caladan, no dia do teste de Paul. As duas mulheres estavam sozinhas na sala matinal de Jessica, enquanto Paul aguardava na Câmara de Meditação, adjacente e à prova de som. Jessica se encontrava de pé, voltada para as janelas do lado sul. Ela fitava, e contudo não via, as cores do entardecer através dos prados e do rio. Escutara e todavia não gravara a pergunta da Reverenda Madre. Houvera outra prova uma vez, há muitos anos. Uma menina magricela com o cabelo da cor do bronze e o corpo torturado pelos ventos da puberdade entrara no estúdio da Reverenda Madre Gaius Helen Mohiam, Inspetora Superior da escola Bene Gesserit em Wallach IX. Jessica olhou para sua mão direita, flexionou os dedos lembrando-se da dor, do terror, do ódio. — Pobre Paul! — sussurrou ela. — Eu lhe fiz uma pergunta, Jessica! — A voz da velha era autoritária, exigente. — O quê? Oh… — Jessica afastou sua atenção do passado, encarando a Reverenda Madre, que se sentava com as costas para a parede de pedra entre as duas janelas do oeste. — O que espera que eu diga? — O que espero que você diga? O que espero que você diga? — A voz da velha tinha um tom cruel de imitação. — Ah, sim, eu tive um filho! — desabafou Jessica, sabendo que sua raiva estava sendo deliberadamente estimulada. — Você fora instruída para conceber apenas filhas para os Atreides. — Significava muito para ele — justificou ela. — E você em seu orgulho não pensou que poderia dar à luz o Kwisatz Haderach! Jessica ergueu o queixo.

— Eu senti a possibilidade. — E pensou apenas no desejo do seu Duque por um filho retrucou a velha. — E seus desejos não entraram nisso. Uma filha dos Atreides poderia se casar com o herdeiro dos Harkonnen e selar este ramo. Você complicou tudo inapelavelmente. Podemos perder ambas as linhas de sangue agora. — Você não é infalível — disse Jessica enfrentando o olhar firme da outra. A velha apenas murmurou: — O que está feito está feito. — Eu jurei que nunca me arrependeria de minha decisão. — Quão nobre! Sem arrependimentos! Vamos ver isso quando você for uma fugitiva, com um preço sobre sua cabeça e a mão de cada homem voltada para buscar sua vida e a vida de seu filho. Jessica empalideceu: — Não existe alternativa? — Alternativa? Uma Bene Gesserit deve perguntar isso? — Pergunto apenas o que vê no futuro, com suas habilidades. — Vejo no futuro o que já vi no passado. Nós bem sabemos o padrão de nossas vidas, Jessica. A raça conhece a sua própria mortalidade e teme a estagnação de sua hereditariedade. Está no sangue o impulso para misturar linhas genéticas sem qualquer plano. O Império, a Companhia CHOAM, todas as Grandes Casas, não passam de fragmentos na trilha da inundação. — CHOAM — murmurou Jessica. — Suponho que já está decidido como eles dividirão os espólios de Arrakis. — O que é a CHOAM senão o indicador dos ventos que sopram em nossos tempos? —continuou a velha. — O Imperador e seus amigos agora controlam cinquenta e nove vírgula sessenta e cinco por cento dos votos na ditadura CHOAM. Certamente eles farejam lucros e é provável que outros, farejando esses mesmos lucros, aumentem seu poder de voto. Este é o padrão da história, garota. — Isso é certamente o que preciso agora — comentou Jessica. — Uma revisão histórica. — Não seja espirituosa, menina! Você conhece, assim como eu conheço, as forças que nos cercam.

Nós temos uma civilização equilibrada em três pontos: a Casa Imperial mantida emequilíbrio com a Federação das Grandes Casas de Landsraad, e entre as duas a Corporação, com seu maldito monopólio no transporte interestelar. Na política, o tripé é a mais instável das estruturas. Já seria bastante ruim sem as complicações de uma cultura de comércio feudal que volta suas costas para a maior parte do conhecimento científico. Jessica comentou amargamente: — Fragmentos na trilha da enchente, e este fragmento aqui é o Duque de Leto, e aquele outro é o seu filho, e este aqui… — Cale a boca, garota! Você entrou nisso sabendo que caminhava numa corda bamba. — Eu sou uma Bene Gesserit, existo apenas para servir — citou Jessica. — Verdade. E tudo que nos resta esperar é tentar evitar que isso resulte numa conflagração generalizada, salvando o que pudermos das linhas-chave de sangue. Jessica fechou seus olhos sentindo as lágrimas pressionarem por baixo das pálpebras. Lutou para acalmar os tremores interiores e exteriores, a respiração descompassada, o pulso rápido, o suor nas palmas. Em seguida ela disse: — Eu pagarei pelo meu próprio erro. — E seu filho pagará também. — Eu o protegerei no que for capaz. — Proteger! — vociferou a velha. — Você sabe a fraqueza que existe nisso! Proteja seu filho em demasia, Jessica, e ele não crescerá forte para cumprir qualquer destino. Jessica deu as costas olhando pela janela para a escuridão crescente. — É realmente tão terrível esse planeta Arrakis? — Suficientemente ruim, mas não inteiramente. A Missionária Protetora tem estado lá e suavizado um pouco o lugar. — A Reverenda Madre levantou-se, endireitando uma dobra em sua veste. Chame o rapaz aqui. Eu devo partir logo. — Deve, realmente? A velha abrandou sua voz: — Jessica, minha menina, eu desejaria poder ficar em seu lugar e suportar seus sofrimentos. Mas cada uma de nós deve seguir seu próprio caminho. — Eu sei. — Você me é tão cara quanto qualquer uma de minhas próprias filhas, mas não posso permitir que isso interfira com o dever. — Entendo… a necessidade.

— O que você fez, Jessica, e por que o fez, ambas sabemos. Mas a bondade me força a dizerlhe que há pouca chance de que o seu garoto seja a Totalidade Bene Gesserit. Não deve se permitir esperar demais. Jessica sacudiu as lágrimas dos cantos dos olhos num gesto de raiva. — Você faz com que eu me sinta uma menina novamente, a recitar minha primeira lição. — Ela forçou as palavras para fora da boca: — “Humanos jamais se submetem aos animais”. — Umsoluço sacudiu seu corpo e em voz baixa Jessica acrescentou: — Tenho sido tão solitária. — Este é um dos testes — observou a velha. — Humanos são quase sempre solitários. Agora chame o rapaz. Ele teve um dia longo e assustador. Mas teve tempo para pensar e se lembrar, e eu devo fazer as outras perguntas sobre esses seus sonhos. Jessica acenou afirmativamente, foi até a porta da Câmara de Meditação e abriu-a. — Paul, venha aqui agora, por favor. Paul caminhou com uma lentidão obstinada e olhou para sua mãe como se ela fosse uma estranha. Havia cautela em seus olhos quando ele observou a Reverenda Madre, mas desta vez ele deu-lhe a reverência destinada a um igual. Ouviu sua mãe fechar a porta nas suas costas. — Jovem — disse a velha —, voltemos a essa questão dos sonhos. — O que deseja? — Você sonha toda noite? — Nem sempre sonhos que valham a pena recordar. Posso lembrar cada sonho, mas alguns valem a pena ser lembrados e outros não. — Como sabe a diferença? — Apenas sei. A velha olhou para Jessica, e tornou a olhar para Paul. — E o que sonhou na noite passada? Valia a pena lembrar? — Sim. — Paul fechou os olhos. — Sonhei com uma caverna… e água… e uma garota muito magra com olhos grandes.

Os olhos dela eram totalmente azuis, não tinham branco. Falo com ela e conto a seu respeito, sobre ver a Reverenda Madre em Caladan. — Abriu os olhos. — E o que contou a essa garota estranha a meu respeito? Foi o que aconteceu hoje? Paul pensou antes de falar. — Sim, eu digo a essa garota que você veio e colocou uma marca de estranheza em mim. — “Marca de estranheza”. — A velha respirou e olhou rápido para Jessica novamente. — Diga-me sinceramente agora, Paul, você sempre sonha com coisas que depois acontecem exatamente como você sonhou? — Sim, e eu já sonhei com essa garota antes. — Oh! Você a conhece? — Não, mas vou conhecê-la. — Fale-me a respeito dela. Mais uma vez Paul fechou os olhos. — Encontramos num pequeno lugar um abrigo entre as rochas. É quase noite, mas está quente e posso ver trechos arenosos, por uma abertura nas rochas. Estamos… esperando por alguma coisa… para que eu vá encontrar algumas pessoas… e ela está assustada mas tenta ocultar isso de mim e eu estou excitado. E ela diz: “Conte-me sobre as águas de seu mundo, Usul.” — Paul abre os olhos. —Não é estranho? Meu mundo é Caladan. Nunca ouvi falar num planeta chamado Usul. — Há mais alguma coisa nesse sonho? — indagou Jessica. — Sim, mas talvez ela esteja me chamando de Usul. Já pensei nisso. Novamente ele fechou os olhos. — Ela me pede para falar sobre as águas. Seguro suas mãos e lhe recito um poema, mas tenho que explicar a ela o significado de palavras como praia, arrebentação, algas e gaivotas. — Qual é o poema? — perguntou a Reverenda Madre.

Paul abriu os olhos. — É apenas um dos poemas de Gurney Halleck para as ocasiões tristes. Atrás de Paul, Jessica começa a recitar: “Relembro a fumaça salgada de uma fogueira na praia E as sombras sobre os pinheiros — Sólidas, firmes… fixas — Gaivotas empoleiradas na borda da terra, Branco sobre o verde… E um vento chega através dos pinheiros, Fazendo ondular as sombras; As gaivotas abrem suas asas Sobem Enchendo o céu com estridências. E eu ouço o vento Soprando sobre nossa praia, E a arrebentação, E vejo que nosso fogo Queimou as algas.” — É esse — disse Paul. A velha observou-o e disse: — Jovem, como uma Inspetora das Bene Gesserit, busco o Kwisatz Haderach, o homem que pode realmente se tornar um de nós. Sua mãe vê essa possibilidade em você, mas ela olha com olhos de mãe. Possibilidade eu também vejo, mas nada além disso. Ela então ficou em silêncio, e Paul percebeu que esperava que ele dissesse algo. Ficou calado. Daí a pouco ela disse: — Como quiser, então. Há profundezas em seu espírito que eu reconheço. — Posso ir embora agora? — perguntou. — Não quer ouvir o que a Reverenda Madre pode lhe explicar sobre o Kwisatz Haderach? — indagou Jessica. — Ela disse que aqueles que tentaram obter o título morreram. — Mas eu posso lhe dar alguns indícios sobre o motivo por que eles falharam — explicou a Reverenda Madre. “Ela fala de indícios”, pensou Paul. “Ela não sabe de nada realmente.” — Indique então. — E me dane? — A velha sorriu amargamente, formou-se uma teia de vincos em sua face. — Muito bem: “Aquele que se submete governa.” Ficou perplexo. Ela estava falando a respeito de coisas tão elementares quanto tensão dentro de significado. Será que pensava que sua mãe não lhe ensinara nada? — Isso é uma indicação? — indagou. — Não estamos aqui para trocar palavras ou discutir seus significados — respondeu ela.

—O salgueiro submete-se ao vento e prospera, até um dia em que se tornam muitos salgueiros: uma muralha contra o vento. Este é o propósito do salgueiro. Paul olhava para ela. Ela dizia propósito e ele sentia a palavra atingi-la, recontaminando-o com o terrível propósito. Experimentava uma raiva súbita contra a mulher. Essa velha bruxa estúpida com sua boca cheia de chavões. — Você pensa que eu posso ser o Kwisatz Haderach e fala comigo — disse ele. — Mas não disse nada quanto ao modo de ajudarmos o meu pai. Eu a ouvi falando para minha mãe. Falando de meu pai como se ele já estivesse morto. Bem, ele não está! — Se houvesse alguma coisa a ser feita por ele, nós a teríamos feito — resmungou a velha. — Podemos conseguir salvar você. Há dúvida quanto a isso, mas é possível. Quanto a seu pai, não há nada. Quando tiver aprendido a aceitar esse fato, terá aprendido a verdadeira lição Bene Gesserit. Paul observou como as palavras abalavam sua mãe e olhou com raiva para a velha. Como é que ela podia dizer uma coisa dessas em relação a seu pai? O que a fazia tão certa? Sua mente fervia de ressentimento. A Reverenda Madre voltou-se para Jessica. — Você esteve treinando-o no Caminho. Eu vi os indícios. Teria feito o mesmo em seu lugar, e o diabo carregue as Regras. Jessica assentiu. — Agora tenha cuidado de ignorar as ordens regulares de treinamento. A própria segurança dele exige a Voz. Ele já teve um bom começo mas nós sabemos o quanto mais precisa aprender… e isso desesperadamente. Ela caminhou para junto de Paul e abaixou a cabeça para fitá-la. — Adeus, meu jovem. Espero que você consiga. Mas se não conseguir… bem, nós ainda assim poderemos ter êxito. Uma vez mais ela olhou para Jessica. Um sinal de compreensão passou entre elas e então a velha deixou a sala, seus mantos sibilando, sem olhar para trás. A sala e seus ocupantes já estavam cancelados em seus pensamentos. Mas Jessica conseguira vislumbrar o rosto da Reverenda Madre enquanto ela se voltava para sair. Havia lágrimas nas faces enrugadas. Essas lágrimas eram mais assustadoras que qualquer outra palavra ou sinal que houvessem trocado naquele dia. 4 Deve ter lido que Muad’Dib não tinha colegas de .rua idade em Caladan. Os perigos eram muito grandes. Mas Muad’Dib tinha maravilhosos mestres companheiros. Havia Gurney Halleck, o guerreiro-trovador. Você cantará algumas das canções de Gurney enquanto ler este livro. Havia Thufir Hawat, o velho Mentat, Mestre dos Assassinos, que lançava o medo até mesmo no coração do imperador Padishah. Lá estava Duncan Nabo, o mestre espadachim de Ginaz, o Dr. Wellington Yueb, um nome negro de traição mas brilhante de conhecimento; Lady Jessica, que guiou seu filho no Caminho das Bene Gesserit e — é claro — o Duque Leto, cujas qualidades como pai por muito tempo foram subestimadas. — de História da infância do Muad’Dib, escrito pela Princesa Irulan Thufir Hawat deslizou para dentro da sala de treinamento do Castelo Caladan fechando a porta suavemente. Ficou parado um momento, sentindo-se velho, cansado. Sua perna esquerda doía onde fora ferida uma vez, a serviço do Velho Duque. “Três gerações deles agora”, pensou ele. Olhou através da grande sala, brilhante com a luz derramando-se das clarabóias. Viu o garoto sentado com as costas para a porta, atento aos papéis e mapas espalhados sobre a mesa. “Quantas vezes devo dizer a ele que nunca se sente com as costas para a porta?” Hawat limpou a garganta. Paul continuou curvado sobre seus estudos. A sombra de uma nuvem passou sobre as clarabóias. Novamente Hawat pigarreou. Paul endireitou o corpo falando sem se voltar: — Eu sei. estou sentado com as costas para a porta. Hawat suprimindo um sorriso caminhou através da sala. Paul olhou para o homem velho, de cabelos grisalhos, que parou junto à extremidade da mesa. Os olhos de Hawat eram duas poças de vigilância num rosto escuro e profundamente vincado. — Eu o ouvi aproximar-se pelo corredor — disse Paul. E também quando abriu a porta. — Os sons que faço podem ser imitados. — Eu saberia a diferença. “Ele poderia”, pensou Hawat. “Aquela sua mãe-bruxa está fazendo-o passar por um profundo treinamento, com certeza. Gostaria de saber o que a sua preciosa escola pensa disso. Deve ter sido por isso que elas mandaram a Inspetora aqui: para colocar nossa querida Lady Jessica na linha.” Hawat puxou uma cadeira diante de Paul e sentou-se de frente para a porta. Fez isso de propósito, inclinou-se para trás e estudou a sala. Parecia-lhe um lugar subitamente curioso, estranho, com a maior parte de seu mobiliário já despachada para Arrakis. Permanecia uma mesa de treino e um espelho de esgrima, com seus prismas de cristal imóveis, o boneco-alvo por trás deles, remendado e estofado como um antigo soldado de infantaria, mutilado e combalido pelas guerras. “Lá estou eu”, pensou Hawat. — Thufir, em que está pensando? — indagou Paul. Hawat olhou para o rapaz. — Eu estava pensando que logo estaremos longe daqui e talvez nunca mais vejamos este lugar de novo. — Isso o deixa triste? — Triste? Tolice! Abandonar amigos, sim, é tristeza. Um lugar é só um lugar. — Olhou para os mapas sobre a mesa. — E Arrakis é apenas outro lugar. — Meu pai o mandou para me testar? Hawat olhou-o, carrancudo. O rapaz tinha grandes poderes de observação sobre ele. Acenou afirmativamente. — Você deve achar que seria melhor se ele viesse em pessoa, mas sabe como é ocupado. Ele virá depois. — Estive estudando as tempestades em Arrakis. — As tempestades. Eu vejo. — Parecem muito ruins. — Este é um termo muito brando: ruim. Aquelas tempestades se formam através de seis ou sete mil quilômetros de planície, alimentando-se de tudo que possa contribuir para impulsioná-las. A força de coriolis, outras tempestades, qualquer coisa que tenha um grama sequer de energia. Elas podem soprar com ventos de até setecentos quilômetros horários, carregados com tudo que estiver solto em seu caminho: areia, pó, tudo. Elas podem comer a carne dos ossos e lixar os ossos até transformá-los em pequenas lascas. — Por que eles não possuem controle climático? — Arrakis sofre problemas muito especiais, os custos são altos e haveria manutenção e tudo o mais. A Corporação cobra um preço espantoso por satélites de controle e a casa de seu pai não é uma das mais ricas, garoto. Você sabe disso. — Já chegou a ver os Fremen?

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