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A Saga do Rei Dragão – Na Casa do Rei Dragão – Stephen Lawhead

A neve recente jazia, profunda e intocada, por debaixo da luz prateada do céu de madrugada. Lá no alto, um corvo vigiava uma paisagem silenciosa, com as negras asas a tatearem o ar frio e fino. O áspero apelo da ave era o único som que se ouvia muitos quilômetros em redor, quebrando a gelada solidão com um staccato irregular. A toda a sua volta, a terra jazia adormecida nas profundezas do inverno. Todos os ursos, todas as raposas. lebres e esquilos permaneciam ainda no calor das suas tocas rústicas. Os cavalos e o gado mantinham-se, satisfeitos, nos seus estábulos, de cabeças pendentes de sono ou ruminando em silêncio a primeira ração da manhã. Nos campos, a fumaça erguia-se das cabanas dos camponeses para um céu sem vento, subindo pelas rudimentares chaminés, libertado por lareiras que tinham sido mantidas acesas toda a noite. A aldeia, amontoada em volta das poderosas muralhas do castelo de Askelon, dormia num esplendor primitivo, como uma princesa que se sentisse segura nos braços do seu protetor. Nada se movia por toda a terra, salvo o corvo que descrevia lentos círculos no céu. Quentin estava deitado na sua cela, tremendo, encolhido numa bola coberta por um fino cobertor de lã que apertava com força em volta das orelhas, num esforço resoluto para manter afastado o frio da noite. Já estava acordado, e cheio de frio, muito antes de o céu começar a mostrar um leve tom cinzento através da única fresta, muito alta, da sua cela. Agora, a escuridão afastara-se o suficiente para lhe permitir distinguir os contornos dos objetos muito simples que mobiliavam o quarto miserável. Ao lado da cama de palha em que dormia encontrava-se um pesado banco em madeira de carvalho, saído das mãos de um qualquer camponês local. Na parede oposta à cama via uma mesa do mesmo estilo. contendo os seus poucos bens pessoais: uma vasilha de barro para a comida. uma vela num castiçal de madeira, uma pequena campainha para as orações e um rolo de pergaminho onde se encontravam escritas todas as regras e observâncias das suas funções de acólito, e que, ao fim de três anos, ainda se esforçava por decorar. Algures, nos recessos mais interiores do templo, ouviu-se o toque de um sino. Quentin gemeu, mas depois saltou da cama, enrolando o cobertor em volta dos ombros. Hoje era o dia, recordou-se. O dia da grande mudança. Perguntava a si mesmo qual ela iria ser, pois apesar de ter acompanhado os portentos com toda a atenção, não era capaz de a adivinhar. Todos os augúrios haviam apontado para uma mudança: o anel em volta da Lua, durante três noites, antes da neve começar a cair, a própria tempestade que surgira no dia do seu nome, a aranha que vira, atarefada, a construir uma teia atravessada na sua porta (o que acontecera havia algum tempo, mas de que não se esquecera). Não havia dúvidas: estava prevista uma mudança. A sua natureza exata permanecia um mistério, mas essa era freqüentemente a vontade dos deuses, que mantinham oculta uma parte da profecia.


Conseguira, finalmente, deduzir a data da mudança, graças a um sonho em que se vira trepando em uma alta montanha, saltando depois do próprio pináculo, mergulhando no espaço, não caindo mas voando. Os sonhos de vôo davam sempre boa sorte. Além disso, o seu dia de sorte era sempre um dia santo e, aquele dia, o da festa de Kamali – que tinha de admitir tratar-se de um santo de pouca importância – era de qualquer modo o primeiro dia santo que surgira depois do sonho. Hoje, sem dúvida nenhuma. seria o dia do acontecimento: os sinais eram indiscutíveis. Quentin reviu-os mentalmente enquanto enfiava à pressa, pela cabeça coberta por um cabelo castanho cortado muito curto, o áspero e pesado traje de acólito. Meteu os pés nas meias largas e apertou-as com força com os cordões das sandálias. A seguir. penado na campainha das orações, correu para fora do cubículo, para o corredor frio e escuro. Quentin ia a meio caminho da galeria de enormes arcos quando ouviu o toque de outro sino. Desta vez era um som profundo e ressoante com três curtos intervalos, seguido por uma pausa breve. O sino repetiu os três toques. Quentin ficou intrigado com o significado do toque. Que se recordasse, nunca antes o tinha escutado. De súbito, compreendeu! Era o alarme! Parou. confuso. Quando se virou para correr em direção ao som do sino, colidiu cegamente com as formas arredondadas e bem acolchoadas de Biorkis, um dos sacerdotes mais velhos. – Cuidado, rapaz! – gritou o sacerdote. bem-humorado. – Não há motivo para o pânico! – O sino acabou agora mesmo de tocar a alarme! – exclamou Quentin, procurando rodear o sacerdote ofegante. – Temos de nos apressar! – Não é preciso. Os servos de Ariel não correm. Além disso – acrescentou, com uma careta -, aquele era o toque de chamada e não o do alarme. De súbito, Quentin sentiu-se muito estúpido. A cor subiu-lhe ao rosto e os olhos procuraram as lajes de pedra que tinha sob os pés.

O jovial sacerdote colocou-lhe um pesado braço sobre os seus ombros jovens. – Anda, vamos ver qual o motivo para nos arrancarem tão cedo ao calor do sono, nesta fria madrugada. Seguiram os dois juntos ao longo do corredor e, pouco depois, chegavam à vasta entrada do templo. Um vento frio e penetrante precipitava-se pelas enormes portas abertas. Um sacerdote com sotainas escarlates, um dos da Ordem dos Guardas do Templo, estava empurrando as gigantescas portas de madeira, para fechá-las. Três outros rodeavam um grande fardo informe que jazia a seus pés, no chão. Fosse o que fosse, aquele volume escuro, tão incerto sob a fraca luz da manhã, acabara de ser arrastado do exterior. Havia um rasto de neve a atestar esse fato, para além da neve que cobria o próprio fardo. Ao aproximar-se. Quentin percebeu que o fardo era uma forma humana muito embrulhada para se proteger do frio. Os sacerdotes debruçavam-se agora sobre o volume inerte, que, de acordo com todas as aparências deveria estar morto. Biorkis pousou a mão no braço de Quentin, num aviso e avançou devagar. – Que vem sendo isto meus bons irmãos? Um peregrino obstinado que chega mais cedo ao santuário? – Pelo aspecto, não se trata de um peregrino – disse o guarda, esfregando as mãos para lhes restaurar o calor. – Parece-se mais com um mendigo em busca do nosso banquete de festa. – Pois então, o terá – replicou Biorkis. – A comida de nada lhe servirá agora… – comentou Izash, o mais velho sacerdote do templo, cujo símbolo das funções era a longa barba entrançada – ou receio bem que de nada lhe venha a servir muito em breve. – Bateu com o sagrado bastão branco e agitou o ar na sua frente, num gesto que indicava que o homem deveria ser virado para que lhe pudessem ver melhor o rosto. Dois sacerdotes jovens ajoelharam sobre aquela forma sem vida e começaram puxando pela parte mais larga do fardo, formada pelos ombros do homem. Os sacerdotes, demonstrando demasiada preocupação em não se contaminarem, não estivessem lidando com um cadáver, puxavam, de uma maneira muito pouco eficiente, pelas pontas das grosseiras peles que o homem usava para se manter quente. Biorkis observou com impaciência aqueles temidos esforços, para acabar por explodir: – Saiam da frente! Não receio Azrael, as minhas mãos já tocaram em coisas piores! – Dobrou-se para o corpo e fê-lo rolar para os seus braços. Quentin, que andava em volta do grupo em busca de uma posição em que pudesse ver melhor, ofegou ante a visão. O rosto do homem tinha um tom de cinzas brancas, e os lábios, comprimidos numa linha muito fina, estavam azuis. Parecia completamente gelado. Porém, no preciso momento em que Quentin o observava, avistou um estremecimento nas pestanas cinzentas do homem. Biorkis, que também notara aqueles vestígios de vida, deu ordem a um dos sacerdotes mais jovens: – Traga-me o vinho, irmão! Despacha-te! E traga também um frasco de ungüento! – A seguir ordenou para os restantes: – Vamos, ajudem-me a abrir estas peles.

Talvez ainda o possamos arrancar a Heoth! Os sacerdotes baixaram-se sobre a figura imóvel, abrindo com cuidado as várias camadas de roupas. Quando terminaram. tinham o espanto bem visível nos rostos, tal como na cara do sacerdote que regressara com o vinho e o ungüento. Ali, no chão, na frente deles, jazia um cavaleiro envolvido num rude traje de batalha. Tinha a cabeça protegida por um elmo de couro coberto por tiras de ferro cruzadas entre si. No dorso exibia um peitoral do mesmo tipo e material, mas equipado com curtos bicos metálicos, e tinha os braços e antebraços protegidos por couro coberto de pregos. Biorkis, ainda segurando a cabeça do homem, puxou a tira que mantinha o elmo no seu lugar. Caiu e rolou, tilintando sobre as pedras do chão, e ouviu-se um murmúrio dos homens que o rodeavam. Quentin virou a cara para outro lado. A cabeça do cavaleiro era uma massa de sangue. Tinha uma grande ferida aberta por cima da têmpora, onde a pele e os ossos haviam sido esmagados por um violento golpe. O amável sacerdote ajoelhou-se, com a cabeça do cavaleiro pousada sobre os joelhos, e afastou-lhe da testa os cabelos manchados. Com cuidado, abriu as correias que seguravam o peitoral, que dois sacerdotes colocaram a um lado. Surgiu um gemido na garganta do homem, ao princípio muito fraco, mas que foi ganhando força. – O frasco – pediu Biorkis. Agarrando e mergulhando dois dedos na pomada, o sacerdote espalhou o ungüento curativo sobre o rosto do homem. Os vapores aromáticos produziram um resultado imediato, pois os olhos do soldado voltaram a estremecer e a seguir abriram-se de repente, como os de um homem que lutasse contra um sonho. – Ah, vai estar conosco mais algum tempo – disse Izash. – Dêem-lhe um pouco de vinho, talvez nos diga qual era a sua missão. – O velho sacerdote apoiou-se mais e inclinou-se sobre o bordão para melhor ouvir o que o homem pudesse vir a dizer. Biorkis deu-lhe o vinho a beber enquanto o cavaleiro, sem forças para inclinar a cabeça, deixava que o álcool lhe escorresse pela garganta. Nas mãos de Biorkis, o vinho pareceu ter um efeito mágico. A cor regressou lentamente ao rosto do homem e a respiração, que anteriormente nem sequer era visível, aprofundou-se um pouco. – Bem-vindo, bom soldado. – Izash dirigiu-se ao cavaleiro com todo o respeito.

– Se acha que pode falar, talvez nos possa dizer de onde vem. O cavaleiro de cabelos claros rolou os olhos e tentou virar a cabeça na direção de quem falara. O esforço provocou-lhe uma onda de dor que foi bem visível nas suas feições. Voltou a deixar cair a cabeça no colo de Biorkis. Naquele momento já se encontravam rodeados por muitos outros sacerdotes, que tinham respondido ao apelo do sino. Falavam uns com os outros em voz baixa, especulando a respeito do estranho visitante que jazia na frente deles. O cavaleiro voltou a abrir os olhos, que emitiram um clarão brilhante e duro, como se estivesse recuperando as forças ou a vontade. Abriu a boca para falar. O queixo agitou-se no ar mas não se ouviu um som. – Mais vinho – ordenou Biorkis. Quando lhe entregaram o copo, o sacerdote puxou uma bolsa de entre as dobras das roupas. Meteu dois dedos dentro do pequeno saco de couro e despejou uma pitada do seu conteúdo dentro da bebida. A seguir voltou a colocar o copo junto dos lábios do cavaleiro. O homem prostrado bebeu com mais facilidade e. quando terminou, fez uma pausa antes de voltar a tentar falar. – Agora. senhor, esclareça um velho bisbilhoteiro… se não tiver bons motivos para ocultar a sua missão. – Izash inclinou a cabeça com a barba branca quase tocando no chão. Um ligeiro sorriso encarquilhou-lhe a face enrugada, como se quisesse apoiar as suas palavras com uma expressão de simpatia. – Sou Ronsard – disse o cavaleiro, numa voz rouca. o esforço foi seguido por mais um gole de vinho. Os seus olhos, de um cinzento de aço sob a luz prateada, olharam em volta para o apertado círculo de rostos dobrados para ele. – Onde estou? – perguntou baixinho. – Está entre amigos, senhor – respondeu Biorkis. – Este é o sagrado templo de Ariel e nós somos os seus humildes servos.

Pode falar à vontade. Aqui nenhum mal o atingirá, Como se sentisse tranqüilizado por aquelas palavras suaves, o cavaleiro umedeceu os lábios e declarou com as forças que foi capaz de reunir: – Venho da parte do rei. As palavras eram simples, mas atingiram as orelhas dos que o ouviam como se de um trovão se tratasse. O rei! Vem da parte do rei! O murmúrio elevou-se e ecoou nos elevados arcos do templo. Apenas Izash. ainda apoiado ao bordão não pareceu impressionado. – O nosso rei? Ou outro rei qualquer? – Eskevar… o rei – retorquiu o cavaleiro caído, num tom mais vivo. O nome provocou uma nova agitação entre os sacerdotes ali reunidos. O rei estava ausente havia tanto tempo, e o seu nome era tão pouco ouvido entre os seus próprios compatriotas… Ouvi-lo dava novas esperanças a todos os que ali se encontravam. – Que notícias nos traz do rei? – prosseguiu o velho sacerdote. Havia um certo método nas perguntas. Estava mantendo ocupada a mente do cavaleiro, fazendo-o esquecer-se dos ferimentos e da dor que lhe contorcia as faces rudes. – Não o posso revelar… Só à rainha. Tomei o compromisso de entregar a minha mensagem apenas a ela. – O guerreiro engoliu o ar e voltou a umedecer os lábios. – Fui atacado a noite passada, emboscado por alguns fora-da-lei que dormem agora no meio da neve. O cavaleiro mirou os rostos dos sacerdotes debruçados sobre ele. Escorrialhe sangue fresco da ferida, de novo aberta pelo esforço exercido. – Não tenha preocupações – declarou Biorkis num tom tranqüilizador. – Permanecerá conosco até poder reatar a vossa missão. – Fez um gesto para os sacerdotes mais jovens, para que o ajudassem a colocar o cavaleiro sobre a cama que alguém fora buscar. – Ninguém o incomodará com perguntas sobre a vossa missão. O segredo está a salvo dentro destas paredes. Agora, descanse, não gosto do aspecto desse ferimento. – Não! – gritou o cavaleiro, enrouquecido, com o rosto a contorcer-se numa agonia.

Depois acrescentou num estranho murmúrio áspero: – Estou morrendo. Têm de entregar a minha mensagem à rainha. Não pode esperar. Biorkis dobrou-se, apoiando gentilmente a cabeça do cavaleiro enquanto este era cuidadosamente transportado para a cama. O homem agarrou-se às madeiras dos lados da cama e soergueu-se. apoiando-se sobre os cotovelos. O sangue corria-lhe livremente ao longo da cabeça e do pescoço. provocando manchas de um cinzento avermelhado em cima da túnica verde. – Têm de me ajudar! – exigiu. – Um de vocês tem de ir até a rainha, no meu cavalo. – Oscilou e caiu sobre a cama. A cor fugira-lhe do rosto. Parecia morto aos olhos de todos os que o olhavam, receosos e espantados. Impotentes, os sacerdotes olharam uns para os outros. Biorkis levantou-se, com as mãos pingando o sangue fresco do cavaleiro. Observou o rosto dos seus irmãos e viu-lhes as expressões de preocupação. A seguir aproximou-se de Izash que lhe fez sinal para se chegar para o lado. – Temos um problema indesejável – comentou o velho sacerdote. – Não vejo que ajuda poderemos lhe dar, salvo fazer tudo para lhe sarar as feridas e devolvê-lo ao seu caminho o mais depressa possível. – Mas o atraso… – Quanto a isso, receio que nada possamos fazer. – Todavia, poderemos fazer tudo o que está ao nosso alcance para o restaurar… e mesmo assim pode vir a morrer – objetou Biorkis. –Istoé, se não for já muito tarde… Na voz, e no aspecto do cavaleiro, houvera qualquer coisa que impressionara Biorkis. Sem dúvida que o homem enfrentara grandes dificuldades, e mesmo agora recusava o leito de morte, sustentado apenas pela força da mensagem que tinha de entregar. As notícias sobre o rei eram da mais alta importância, fossem elas quais fossem. Era mais importante do que a própria vida.

Naquele momento, o cavaleiro recuperou a consciência, mas estava muito fraco para se conseguir erguer. Soltou um gemido baixo dos lábios cerrados. – Ainda não nos abandonou – disse Izash. – Que persistente que é este correio. Biorkis e o velho sacerdote colocaram as suas cabeças junto da do cavaleiro. – Bom Ronsard – murmurou Biorkis -, não se esforce mais se quer salvar a vida. Dispomos de grandes poderes sobre as doenças e os ferimentos. Já arrancamos muitas almas às mãos de Manes. Descanse um pouco. Faremos tudo para curar as suas feridas e para lhe devolver forças para a sua missão. – Não! – opôs-se o cavaleiro, com uma força surpreendente. – Não há tempo. Um de vocês tem de galopar até a rainha. – Os olhos imploravam ao sacerdote. – Senhor, sabe o que está nos pedindo? – retorquiu Izash, agitando um braço para designar toda a assembléia de sacerdotes. – Estamos sob votos sagrados e não podemos abandonar o templo, exceto em peregrinação ou para assuntos da mais alta importância sagrada. O destino das nações, dos reis e das potências não nos diz respeito. Servimos apenas o deus Ariel. Somos seus súditos e de mais ninguém. Biorkis olhou com tristeza para o homem moribundo. – Essa é a fria voz do juramento que prestamos. O meu próprio coração me diz: “Vai”, mas não posso ir. Abandonar o templo para essa missão seria quebrar os meus votos sagrados. Qualquer sacerdote que o fizesse desperdiçaria todo o trabalho da sua vida, e a sua alma perderia a felicidade eterna. Não há aqui ninguém que se arriscasse a fazê-lo, nem eu o pediria.

Os sacerdotes acenaram com solenidade a sua concordância. Alguns encolheramse e afastaram-se, para não virem sendo arrastados para aquela tarefa, outros levantaram as mãos, numa súplica de impotência. – Não há um único que troque a sua vida pela minha? Não há um único que se arrisque ao desagrado do deus para salvar o rei? – O desafio do cavaleiro soou com violência aos ouvidos dos que o rodeavam, apesar de o ter proferido em pouco mais do que um sussurro. – Irei eu – disse uma voz insegura e fraca. Biorkis, Izash e os outros sacerdotes viraram-se para a voz. Ali, nas sombras de uma arcada, estava a frágil figura do dono da voz. Avançou devagar, para se colocar ao lado do cavaleiro moribundo. – Você, Quentin? – perguntou Biorkis, espantado. Os outros sussurraram por detrás das mãos erguidas. – Você irá? CAPÍTULO II O poderoso cavalo transportava o seu insignificante cavaleiro com uma facilidade incansável. Treinado na dura escola das batalhas, Balder estava habituado a suportar no seu largo dorso o peso de homens adultos equipados com armaduras completas. Quentin, agarrado, como uma folha gelada, ao magnífico pescoço do animal, quase não constituía um fardo. O dia era ainda uma criança e, apesar de nublado, tal como o anterior, a camada de nuvens baixas dava sinais de se desfazer dentro de pouco tempo. O vento refrescara, provocando a cada nova rajada turbilhões de nuvens brancas por cima dos montes de neve. Cada uma dessas rajadas provocava um estremecimento nas costelas de Quentin. Perguntava a si mesmo se alguma vez voltaria a sentir-se quente. De qualquer modo. não se importava muito com o desconforto, pois a mudança há tanto tempo profetizada estava agora em andamento. Onde o levaria e qual o seu significado eram algo que desconhecia. No momento estava envolvido na aventura da mudança, mas mantinha os olhos atentos a qualquer augúrio que se pudesse apresentar. Nada surgia ante os seus olhos, exceto a vasta expansão branca, quebrada apenas por saliências escuras e irregulares que irrompiam da neve como cogumelos. Eram as cabanas dos camponeses, e por vezes via um rosto a espreitálo da esquina de uma ombreira, ou um tímido aceno que reconhecia a sua presença, vindo de uma forma dobrada, no meio da neve, sob o fardo de uma carga de lenha para queimar. Durante os seus sete anos dentro do templo, a terra, ou pelo menos Quentin assim o julgava, não se modificara muito. No entanto. algo se modificara.

Havia qualquer coisa de inconfundível nos olhos dos camponeses com que se deparava, algo que chocava sempre que a voltava a ver. Seria medo? A idéia provocou-lhe uma sensação de inquietação. Haveria alguma coisa à solta naquela terra que levasse a que as pessoas simples sentissem medo? O grande cavalo castanho avançava com firmeza, com os cascos silenciados pelo colchão de neve, jatos de vapor emergiam-lhe das narinas quando o ar quente tocava no ar gelado. Quentin fez regressar os seus pensamentos à breve sucessão de acontecimentos que o tinham colocado na sela de Ronsard, o cavaleiro do rei. Após a sua oferta espontânea de ajudar o cavaleiro a cumprir a sua missão, tivera lugar uma longa e agitada discussão. Todos os interessados – Bíorkis, Izash, os outros sacerdotes, e até o próprio cavaleiro – tinham se mostrado contra. – Mesmo assim, depois de analisados todos os fatos, continuava a não existir um plano melhor. Quentin partiria imediatamente, após um único dia de descanso e de alimento para o cavalo, o animal fora encontrado pacientemente à espera no pátio exterior do templo onde o seu amo o deixara antes de subir e desmaiar sobre os degraus. Tinham sido os relinchos do cavalo, chamando o dono, que haviam alertado os guardas do templo, que a seguir haviam descoberto o cavaleiro ferido e meio gelado. Relutante, Biorkis dera a sua aprovação ao empreendimento, porque, apesar da sua pouca idade estar contra ele, Quentin era a única escolha lógica. Era apenas um acólito, não um sacerdote, uma vez que não prestara votos nem terminara a iniciação, um processo que em geral durava vinte ou mais anos. Quentin completara apenas sete anos de instrução. Aos quinze, tinha ainda anos de estudo pela sua frente. Outros, com a mesma idade, eram já noviços. A estrada para o sacerdócio era muito comprida, e a maior parte iniciava-a quando ainda eram crianças pequenas. Quentin, apesar de dedicado à vocação que sentira aos oito anos, começara muito tarde. Agora, a sua carreira terminara. Nunca mais lhe permitiriam regressar ao templo, exceto como fiel adorador para suplicar uma bênção do deus. Ariel era um deus ciumento, quando lhe virava as costas nunca mais se era reconhecido. Só distinguindo-se num grande ato de heroísmo poderia Quentin ter de novo a esperança de recuperar os favores do deus. Jurou fazê-lo… logo que lhe surgisse a oportunidade. A viagem de Narramoor, a cidade santa, para Askelon, a fortaleza do rei, era uma questão de dois dias a cavalo. O templo, de acordo com as mais velhas tradições do reino de Mensandor, fora construído nas altas vertentes que dominavam as terras que protegia com as suas orações. Na Primavera e no princípio do Verão, os peregrinos surgiam, vindos de todas as partes do país, para pedirem em oração boas colheitas e gado saudável. Cada cidade ou aldeia tinha também o seu pequeno templo, ou casa de orações, presididos, conforme as necessidades.

por um ou mais sacerdotes, mas a maioria dos fiéis preferia fazer a peregrinação ao Alto Templo, pelo menos uma vez por ano, ou até com mais freqüência se isso lhes fosse possível. A estrada, serpenteando nas íngremes colinas por debaixo das denteadas e velhas montanhas de Fiskill, não era muito larga mas era bem conservada… ou pelo menos fora-o, até aos tempos em que o rei partira. Quentin não se recordava da partida do rei, pois na altura não era mais do que uma criança de colo. Todavia, nos anos seguintes, ouvira, e mais do que uma vez, os vívidos relatos do esplendor dessa partida. O rei, vestido com trajes de batalha completos, ostentando o brasão real – um terrível dragão vermelho todo contorcido -, conduzira os seus leais guerreiros através das gigantescas portas do castelo. No meio de um milhar de estandartes flutuando ao vento e do grito de milhares de trompas que tocavam nas altas muralhas, o exército do rei marchara pelas ruas repletas por uma multidão que o aplaudia e dirigia-se para as planícies de Askelon. Dizia-se que o desfile durara meio dia, tantos eram os homens que nele seguiam. O exército marchara para Hinsen-by-the-sea, ou Hinsen-by, como era em geral conhecida, e embarcara em resistentes navios de guerra que os aguardavam na baía de Hinsen. de onde tinham levantado ferro. Os navios haviam sido fornecidos pelo rei Selric, do pequeno reino insular de Drin, cujo povo era bem conhecido por produzir os melhores marinheiros do mundo. Tinham-se reunido outros reis de outras terras, aumentando as suas forças para além de tudo o que jamais fora visto, ou até imaginado. Iam enfrentar os bárbaros Urd, uma raça de criaturas – a quem ninguém tinha a ousadia de chamar humanos – tão brutal e tão selvagem que a sua própria existência punha em perigo todos os outros homens. Os Urd, unidos sob o mando do seu rei Gorr, haviam-se levantado num desafio a toda a ordem civilizada, jurando extinguir ou escravizar as outras nações. Queriam governar o mundo. Os doze reis das nações civilizadas tinham-se reunido e declarado a guerra a Gorr, navegando ao seu encontro e batalhando com ele, nas suas próprias terras. antes que o diabólico senhor tivesse tempo para lançar o seu exército contra eles. nas suas terras. A luta começara no princípio da Primavera, e no Verão já se pensava que a campanha chegaria ao fim antes do aparecimento do inverno, tal fora o sucesso inicial dos reis unidos. O astuto Gorr, vendo os seus guerreiros perderem a coragem ante aquela terrível matança, retirara para a maciça fortaleza amuralhada de Golgor. Instalara-se aí, defendendo-se com uma força e um fervor que ninguém poderia ter previsto. A partir de Golgor, o furioso gigante desafiava as valorosas forças dos reis. Os seus grupos de assalto, apesar de serem quase sempre repelidos com pesadas perdas, iam-lhes desgastando as forças de um modo contínuo. O Inverno surgiu e deparou com os inimigos num beco sem saída. A guerra, tão facilmente ganha na Primavera, arrastou-se interminavelmente. Os anos passavam e a guerra prosseguia.

Milhares de homens morriam naquele horrível país, onde nunca mais veriam os seus amigos e os seres que amavam. Vários reis tinham-se retirado no sétimo ano de guerra, regressando para casa com os esfarrapados restos do que haviam sido os seus outrora orgulhosos exércitos. Porém, Eskear, Selric, Brandon, Calwitha e Troen haviam continuado a lutar. Tanto quanto Quentin soubesse, ainda combatiam. Quentin levantou os olhos para o horizonte. A sua visão alcançava, ao que lhe parecia, até ao infinito. A terra descia para todos os lados, sem qualquer obstáculo, exceto quanto às grandes formas ocasionais de um pedregulho gigantesco ou de uma saliência escarpada que de vez em quando surgiam, de um modo abrupto, nas vertentes das colinas. Todavia, o delgado cavaleiro estava saindo das colinas e a linha escura da floresta aproximava-se como por magia. Askelon, o seu destino, ficava do outro lado da floresta. Ale, dela, para ocidente, jaziam as terras planas e as aldeias agrícolas, bem como as cidades das planícies, entre as quais Bellavee era a mais importante. Para o extremo norte ficava Woodsend, uma substancial povoação de agricultores e artesãos, firmemente implantada nas margens do rio Wlist, um longo e preguiçoso braço de água que saía de Arvin, cujas águas. tal como acontecia com todos os rios que atravessavam o reino, tinham a sua origem nas montanhas de Fiskill, por cima de Narramoor. Para trás dele ficavam essas mesmas montanhas imponentes, e para lá delas as regiões de SuthIand. para o sul, e Obrev, para o norte. Eram as denominadas Terras Selvagens, regiões remotas e praticamente inexploradas, habitadas apenas por animais ferozes e por homens ainda mais ferozes, os Dher, ou Jher, como por vezes lhes chamavam. Os Ther eram os descendentes, sobreviventes, dos mais primitivos habitantes da Terra. Continuavam agarrados. como o musgo às pedras carcomidas pelo tempo, às suas maneiras obscuras e não existia ninguém que se recordasse de alguma vez se terem modificado. Dizia-se que possuíam muitos poderes estranhos, dons que os dispunham melhor para com as criaturas selvagens, com quem partilhavam as suas terras bravias, do que para com os seres humanos civilizados, para quem não eram companheiros aceitáveis. Durante a maior parte do tempo os Jher mantinham-se nos seus domínios. e eram deixados em paz por todos. Quentin, tal como a maior parte dos jovens, nunca tinha visto nenhum. Existiam, para ele, como se fossem personagens de histórias para crianças, histórias contadas para assustar e levar os mais jovens à obediência sempre que mostravam alguma relutância em comportarem-se como era apropriado. Quentin despertou das suas meditações sobre todas aquelas coisas e reparou que o meio-dia estava se aproximando. Começou em busca de um lugar abrigado para parar, onde pudesse comer e deixar o cavalo descansar, apesar de este não parecer nada fatigado com os esforços desenvolvidos.

O fraco Sol de Inverno, que se debatera toda a manhã para queimar uma passagem através da neblina, brilhou subitamente no alto, como um ferro em brasa a abrir caminho num pano de estopa. Instantaneamente, a paisagem transformou-se, perdeu o tom fantasmagórico e ganhou um brilho encandecente. Com o Sol, apesar de este parecer pequeno e distante, chegou o calor, ou pelo menos Quentin imaginou que sentia o calor a espalhar-se pelas suas costas e ombros, e a penetrar no espesso barrete forrado a peles. Na sua frente avistou um pequeno bosque de bétulas. rodeado por uma confusão de arbustos miseráveis e por algumas outras plantas de folha perene. O local oferecia um ligeiro abrigo contra o vento mordente que, agora que o Sol aparecera, se tornara mais cortante. Quentin achou que o Sol era um bom companheiro enquanto puxava as rédeas do cavalo e o amarrava a um ramo próximo. Descendo da montaria, o rapaz remexeu no saco pouco fundo que Biorkis lhe fizera e que enchera de provisões para a viagem. Retirou do seu interior um pequeno bolo de sementes, abriu a capa no chão e sentou-se para comer a sua refeição. O Sol brincava-lhe no rosto. aquecendo-lhe as geladas pontas do nariz e das orelhas. Quentin tirou o barrete e virou o rosto para aquele agradável calor. A sua mente regressou mais uma vez à confusão e agitação da partida, e recordou de novo, como já fizera centenas de vezes, as instruções que lhe tinham dado. Ir ter com o eremita da floresta de Pelgrin. Nunca parar, exceto para comer e descansar o cavalo. Não falar com ninguém. Entregar a carta apenas à rainha. A última ordem iria ser a mais difícil, mas Ronsard, no seu último ato antes de perder a consciência, entregara-lhe a sua adaga como meio para conseguir uma audiência. A adaga dourada do cavaleiro seria reconhecida e revelaria a gravidade da ocasião. Quentin não estava tão preocupado pela sua próxima presença na corte como seria de esperar. Estava cheio de curiosidade e assustado – mas na realidade a curiosidade sobrepunha-se ao medo – a respeito da misteriosa mensagem agora cosida no interior da sua simples jaqueta verde. Distraído, deu umas pancadinhas no local onde a carta se encontrava, em cima das suas costelas… O que haveria lá dentro? O que é que poderia ser tão importante? Todavia, apesar de se sentir intrigado com o enigma que transportava consigo, uma parte da sua mente remoia um outro problema, como um cão a roer um osso. Era algo em que não queria sequer pensar: o seu futuro. Evitava aquela idéia como quem evita uma dor, no entanto a mesma pairava-lhe sempre nas franjas da consciência, nunca inteiramente esquecida. Quentin punha a questão de parte, com toda a delicadeza, sempre que a sentia a introduzir-se nos seus pensamentos… -Que vai fazer depois de entregar a carta?” O rapaz não tinha resposta para aquela pergunta, ou para a centena de outras, sobre temas semelhantes, que o assaltavam constantemente.

Começava a recear, a cada quilômetro que percorria, o fim da sua missão. Desejava – e não se tratava de um desejo novo – nunca ter se oferecido. No entanto fizera-o e lamentara-o imediatamente. Todavia, era como se não possuísse vontade própria. Sentira-se obrigado, por uma qualquer força exterior, a responder ao apelo do cavaleiro moribundo. Talvez o deus Ariel o tivesse empurrado para a frente ou talvez tivesse sido apanhado pela terrível urgência do momento. Por outro lado, os augúrios haviam profetizado Ah. Mas desde quando é que os augúrios diziam a verdade? De olhos fechados, virados para o Sol. Quentin mastigava o bolo de sementes meditando no seu destino. De súbito sentiu um toque de frio no rosto, como se o Sol tivesse pestanejado. Lá no alto muito acima dele, ouviu o apelo de uma ave. Quentin abriu um dos olhos e encolheu-se ante o brilho do Sol. Semicerrando os olhos com força e protegendo-os com um braço estendido, Quentin acabou por conseguir determinar a fonte do apelo… e nesse mesmo instante o seu coração contraiu-se dentro do peito, como um punho fechado. Ali, voando baixo sobre a sua cabeça, estava o pior augúrio que era capaz de imaginar: um corvo descrevia círculos por cima dele, e as suas asas projetavam sombras sobre a sua cabeça. CAPÍTULO III O céu azul salpicado de nuvens dissolvera-se numa cúpula violeta riscada por fios de laranja e de vermelho, e sobre a brancura da neve as sombras haviam ganho um escuro tom azul, ainda antes de Quentin encontrar o seu abrigo para a noite: a rudimentar cabana de troncos de Durwin. o santo eremita da floresta de Pelgrin. Entre as classes baixas, o eremita era conhecido como sendo alguém que ajudava os viajantes e cuidava dos camponeses e dos habitantes da floresta, que tinham com freqüência necessidade das suas artes curativas. Fora outrora um sacerdote, mas abandonara o templo para ser-vir um deus diferente, ou pelo menos era o que constava nas redondezas. Para além disso pouco mais se sabia a respeito do eremita, exceto que nunca se encontrava longe quando a sua ajuda era necessária. Havia também quem dissesse que possuía muitos e estranhos poderes, e que entre os seus talentos se encontrava a capacidade de chamar os dragões para o exterior das suas grutas, apesar de nunca ninguém o ter visto fazê-lo. A Quentin parecia-lhe estranho que Biorkis conhecesse, ou recomendasse tal pessoa para o ajudar, mesmo que essa ajuda fosse apenas uma cama para passar a noite. Biorkis entregara-lhe uma moeda de prata para dar ao eremita. dizendo: “Saúda esse nosso irmão em nome do deus e dá-lhe este penhor.” Fora então que lhe colocara a moeda na mão. Isto irá dizer-lhe muita coisa.

Diz-lhe que Biorkis lhe manda saudações…” Fizera uma pausa e depois acrescentara: ” … e que procura uma luz mais brilhante.” O sacerdote virara-lhe as costas e afastara-se rapidamente, acrescentando, mas quase só para si mesmo: “Isso ainda lhe irá dizer mais.” Assim, Quentin descobria-se agora sobre a fraca luz crepuscular do que fora um brilhante dia de Inverno. A cabana ficava a curta distância da estrada mas completamente oculta da visão, por se encontrar rodeada por enormes carvalhos, por folhagem verde e por espessos maciços de tojo e silvas. Quentin precisou de algum tempo para a localizar, mesmo apesar das indicações, muito precisas, que recebera.

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