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A Saga Draconiana – Sophie Dupont e o Drakkar de Prata – A. G. Oliver

O contato do avião com o solo tornava aquele momento concreto, não havia mais volta. Saber que moraria com meus tios naquela cidadezinha esquecida por deus enchia-me de dúvidas. Fora poucas vezes para lá e conhecia no máximo uma meia dúzia de pessoas – e isso era muito, pois não era tão sociável como gostariam que fosse ––. A morte dos meus pais me abalou menos do que deveria também. De fato sentia falta deles, mas era uma sensação complicada. Fui adotada tarde; então meus tios em Siete Pasos eram a única família que me restara. Rapidamente tirei meu smartphone da mochila e olhei as horas – sei que deveria tê-lo desligado, mas quem o faz? – Quase quatro horas… – resmunguei. – Tem algum encontro? – perguntou a mulher que viera sentada ao meu lado. Olhei-a com cautela, nunca fora de confiar e dar conversa para estranhos, porém uma mulher cega e vestida como uma “socialite” aparentemente não oferecia nenhum perigo. – Não. É que estou um pouco ansiosa. – disse com um sorriso amarelo. Não gostava muito de “jogar conversa fora”. – Qual o seu nome mocinha? Não é daqui, certo? – perguntou insistindo em uma conversa. – Sophie. Não… Sou de Nova Iorque… – respondi seco tentando concluir nosso pequeno evento social. Graças a deus o comandante do avião liberou a saída e sem perder tempo levantei-me e enfiei-me por entre os outros passageiros que tentavam formar uma longa e desordenada fila para descer. – Vejo que está com pressa… – ela disse. Pude pensar no mesmo instante em alguma piada entre o “vejo” e o fato dela ser cega, mas preferi me manter calada. – Pois é. Meu tio está esperando. – por que dei corda? – Ah! Que bom. Mande-lhe um abraço por mim. – ela disse tentando se sentir íntima. Vira muito disso na instituição para menores, sempre o mesmo papo furado, mas no final das contas não dão a mínima para o que acontecerá com você depois que eles saem.


– Mandarei sim. Até mais! – encerrei a conversa. Na sala de desembarque, aquela multidão toda acabava com meus nervos. Queria sair o mais rápido daquele lugar. Odiava estar rodeada por pessoas estranhas – talvez algum trauma por estar sempre pulando de um lar adotivo para outro. Nunca andei muito na linha, afinal se andar na linha o trem pega. – Até mais mocinha. E cuide-se. Se um dia for à nossa cidade, vá visitar minha loja. Chamase SUBLIME. – disse a mulher enquanto passava por mim empurrando o carrinho de bagagens. Não entendia como fazia aquilo sendo cega. Talvez não fosse. Olhei para a esteira e lá estavam elas, minhas duas enormes malas, que juntas, pesavam no máximo quinze quilos. Peguei-as e, colocando-as no carrinho de bagagens, dirigi-me à saída. Esperando-me, lá estava meu tio Walter, irmão da minha finada mãe que por sete anos criou-me como se me colocara no mundo ela mesma. E, por isso, só tinha a agradecê-la. – Fee! – gritou ele. Meu apelido particular. Em suas mãos vi algo que não conseguia acreditar. Algo perturbador. Ele segurava uma placa escrita com grandes letras tortas “FEE DUPONT” – morri de vergonha. – O que pensa que está fazendo tio Walter? – disse por entre os dentes repreendendo-o enquanto me aproximava com o carrinho de bagagens. – Achei que não fosse me reconhecer, já faz cinco anos que não vem à Califórnia. – sorria ele de orelha a orelha.

Meu tio, sempre gentil, tomou o controle do carrinho e começou a empurrá-lo. – Vamos. O carro está lá fora. – ele disse. – A tia Anne não veio? Nem a Alexandra e o Jack? – perguntei. Temia não os ter reconhecido ali por perto. – Sua tia está em casa preparando as coisas para o jantar. Alexa saiu com o namorado e Jack tinha jogo hoje em Houston. Senti-me aliviada. Meus primos queridos, Alexandra e Jackson. A primeira era uma aventureira maluca que só me metia em encrencas e o segundo um “pegador barato” que achava ser o centro do mundo. – Então Alexandra está namorando? – fiz-me de curiosa, mas a verdade é que tinha outras coisas mais importantes para me preocupar, como por exemplo, a minha vida. – É. Eu, particularmente, não gosto dele. É um motoqueiro riquinho. Ele é muito esquentado… – o tipo predileto da Alexandra. – Sabe os Rogers? – ele perguntou. – Acho que não. – Os donos do Pinte&Compre… – Não estou lembrada. – Bem… os donos do hipermercado, ele é filho deles. – Ah! O hipermercado. Acho que lembro. Um garoto brigão, não é? – comentei. – Eles não tinham uma filha que brincava conosco? Acho que o nome era Sue Anne… – Esses mesmos. Essa menina é outro problema, Fee.

– Ela sempre foi meio deprê… – e sem falar que ficava violentando as nossas bonecas. – Agora, dizem, está usando drogas… – até agora nada inesperado. – Veio com o “ferrugem”, tio? – perguntei ao chegarmos ao estacionamento. Ferrugem era o carro velho do tio Walter. – Vim. Está ali. – respondeu-me apontando para o velho Chevrolet estacionado, cuja pintura não se podia mais definir de tão enferrujado. – Está na hora de trocar de carro, tio Walter. – disse cheia de cinismo. – Esse é um Chevrolet Malibu Classic 1979… sabe quanto vale um carro desses? – perguntou ele estufado de orgulho feito um pavão. – Não sei… uns quatro mil dólares? – disse rindo. Não devia valer nem isso. – Três mil e quinhentos… – respondeu baixinho andando em direção ao porta malas. Ele guardou minhas malas e, com alguns solavancos, fechou a tampa. – Podemos ir. – ele entrou no carro. Tentei abrir a porta, mas parecia estar soldada. – Não consigo abrir, tio Walter. Parece emperrada. – lamentei. – Não, Fee. Tem que empurrar a porta, puxar um pouco para cima e então puxar… – explicou-me. Só me restou rir da situação. Ao empurrar a porta senti como se fosse despencar a qualquer momento – o velho ferrugem––. A porta fez um som que parecia um container abrindo e, por fim, ao puxar, soltou-se bruscamente pendendo um pouco para baixo.

– Nossa! – exclamei surpresa. O carro parecia estar se desmanchando. – Eu sei que está um pouco velho… – ele disse envergonhado. – Pouco? – ri irônica. – Mas sua tia e eu estamos juntando dinheiro para comprar um carro mais moderno. Esperava que não demorasse muito. Não que eu fosse metida e quisesse andar em um carro do ano, mas qualquer carro que não estivesse se decompondo estava de bom tamanho. Entrei no carro e fechei a porta – com certa dificuldade ––. O estofamento, se é que poderia chamar assim, parecia feito de esponja pura. O assoalho era coberto de papéis e jornais que tampavam os buracos corroídos pela oxidação. – Sua tia não vê a hora de você chegar, Fee. Vamos logo. Coloque o cinto. – disse colocando o seu próprio. Pelo menos havia cinto. Saímos do aeroporto e fomos para Siete Pasos, que ficava mais ou menos à uma hora de Santa Ana, onde desembarquei. O caminho era seco e a poeira levantava-se hostil pela estrada; o calor da Califórnia, terrível como o inferno, fazia-me derreter e claro que o velho ferrugem não tinha ar condicionado. Esquecera de como era horrível a viagem de Santa Ana até Siete Pasos, porém logo estaria terminada e eu estaria deitada na grande banheira da tia Anne, banhando-me. Isso sim era animador. – Como tem sido a vida em Nova Iorque, Fee? – perguntou ele iniciando outro evento social fora de hora. – Nada de mais. Sabe como é. Morávamos próximo ao Central Park, então passava quase todo o tempo livre lá alimentando os passarinhos. – mentira. – Sério, Fee? – perguntou apreensivo como se isso fosse algo assombroso.

– Claro que não tio. É Nova Iorque! Óbvio que sempre tinha coisas incríveis para fazer. – outra mentira. – Entendo. Bem… aqui não é Nova Iorque… – obviamente não era. ––, mas poderá ir à Los Angeles sempre que quiser, é pertinho. – concluiu ele. O pertinho dele era algo em torno de duas horas de viagem. Tio Walter tinha um “ótimo” senso de tempo e distância. – Alexa ficou tão ansiosa ao saber que viria morar conosco que pediu para que a colocássemos no seu quarto. Claro que se não gostar pode ficar no quarto de hóspedes. – disse. Alexa era uma aventureira maluca, mas confesso que não deve existir no mundo uma garota tão companheira como ela. Sempre me meteu em encrencas, mas ficava comigo até o fim. Mal se podia dizer que éramos primas e, não só por ela ser morena com olhos escuros e eu loira de olhos azuis, um verdadeiro contraste, mas por não ser tão desinibida e não ter metade de sua coragem, extravagância e beleza que, diga-se de passagem, deixava todos os garotos babando. – Vou adorar ficar no quarto da Alexa, tio Walter. – disse para animá-lo. Ele estava contende demais para lhe estragar o momento com minha “privacidade”. – Que bom, Fee! Fiquei com medo de você querer ficar em um quarto separado, por causa da privacidade. Então teríamos que mudar todo o quarto de novo. – disse. Parecia que já haviamdecidido tudo. Após uns quarenta minutos de viagem um barulho peculiar começou a chamar minha atenção. Parecia que havia soltado um pedaço do motor e esse se jogava contra a lataria incessantemente sendo acompanhando por uma fumaça espessa e aparentemente, devido minha crise de tosse, tóxica. – Tio Walter, o que é isso? – perguntei assustada.

– Não acredito que me esqueci de por água no radiador! ––disse decepcionado com tudo aquilo. – Água onde? – indaguei atônita. Sabia tanto de mecânica quanto de engenharia naval. A única coisa que me preocupava é que o barulho e a fumaça aumentavam ao passo que o carro parava. – Espero não ter fundido o motor… – resmungou enquanto rapidamente descia do carro e corria em direção ao capô. – Não acredito que ficamos no meio do nada, tio Walter! – exclamei desanimada. – Calma, Fee. Vou telefonar para Anne. Vou pedir para ela mandar o Pablo vir nos buscar e mandar um reboque também… Tio Walter telefonou para tia Anne e depois de esperar mais meia hora naquele deserto quente e empoeirado, o Sr. Pablo, o amigo mexicano do tio Walter chegou em sua camionete tão feia e velha quanto o pobre finado ferrugem. – Tio Walter. Não seria mais seguro irmos à pé? – perguntei com algum sarcasmo. A camionete do Sr. Pablo parecia irmã mais velha do ferrugem. – Está tudo bem, Fee. – ele tentou me acalmar. – Lembra do Sr. Valejo? – Acho que não. Deveria? – perguntei no seco. Aquele sol estava me matando e já ficara estressada com toda aquela situação. – Não se lembra da Rosa? – ele quis pescar alguma remota lembrança dos verões que passara na sua casa. – Rosa? – indaguei. – A Rosalyn. – explicou. Agora sim lembrara.

Rosalyn. Como poderia tê-la esquecido? A pequena mexicana de nome estranho que batia nos garotos da rua. Era praticamente uma boxeadora criada à bomba. Nunca soube de uma garota como ela, tão mais forte e violenta que qualquer garoto de sua idade. – Sim. Lembrei. A pequena Rosa… – dei um meio sorriso como se isso fizesse parte da minha “infância feliz”. O Sr. Pablo aproximou-se de nós rindo e trazendo consigo uma corrente comprida. Como estacionara com a traseira da camionete para nós imaginei que também se prontificaria a rebocar o velho ferrugem – afinal os carros eram da mesma família. – Como estas Walter? – perguntou o Sr. Pablo com sotaque mexicano. – Parece que consegui fundir o motor do Malibu… – disse o tio Walter acariciando o teto do carro. – Acontece, amigo. Vamos, deixe-me prendê-lo para rebocá-lo. O Sr. Pablo olhou-me de cima a baixo como se eu viera de outro planeta – como se aquela barba mal feita e o boné de caminhoneiro o fizessem mais terráqueo que todos. – Essa é a pequena Fee? – perguntou ele. Parece que ainda havia algumas dúvidas como, por exemplo: será que ele é cego? Tinha um metro e setenta e um. Como podia me chamar de pequena? – barrigudo. O tio Walter sorriu e contou – com detalhes, não que o sol estivesse quente, mas tudo bem – a minha vinda para Siete Pasos. O Sr. Pablo, então, resolveu relembrar os momentos “agradáveis” da minha “infância feliz” brincando com Alexa, Sue Anne e Rosalyn. – Tio Walter. – chamei a atenção.

– Estou derretendo… – Ah sim! Vamos, Fee. – respondeu ele assustado. Finalmente caíra a ficha que estávamos no meio do nada com um sol escaldante sobre nossas – minha – cabeça. Entramos na camionete a qual o interior parecia ter saído de uma fossa cheia de óleo onde pelos cantos havia tantos pedaços de estopa que se podiam construir uns duzentos ninhos de rato. – Tio Walter, essa é a avó do ferrugem? – perguntei ao pé do ouvido. O tio Walter gargalhou e logo fez sinal de silêncio, repreendendo-me por fazer graça com a camionete do Sr. Pablo, que, por sinal, estava xingando-a em espanhol por não conseguir ligá-la. – O que aconteceu, Pablo? – perguntou o tio Walter. – Nada. Ela teima em ceder, mas ela pega. – respondeu tentando ligá-la freneticamente. O Sr. Pablo tentou pelo menos umas dezoito vezes até que conseguiu ligar a camionete. Naquele momento eu estava cantando louvores por aquele milagre. Já era quase cinco horas da tarde e ainda estávamos na estrada. Nunca desejara tanto estar logo em Siete Pasos. – Agora sim, vamos! – gritou o Sr. Pablo contente por ter feito a camionete funcionar. Arrancamos – finalmente – e fomos o mais depressa que a velharia conseguia correr – emtorno de uns quarenta quilômetros por hora – e logo – não tão logo – estaria na minha nova casa descansando meus ossos. Tio Walter estava sendo o mesmo de sempre, ainda assim sabia que fazia isso por mim e, com certeza, era grata, mas por quanto tempo ele aguentaria sem tocar no nome de minha mãe? Sua irmã morrera não fazia dois meses e ele nem aparecera ao funeral. Eu mesma não teria ido se não por força maior – os conselheiros legais da instituição. – Fee… – ele disse em um tom triste. Sabia que não demoraria muito. – Sim, tio Walter. – estava pronta.

– Sei que passamos por um bocado nesses últimos dois meses. Não consegui sequer ir para Nova Iorque, mas quero que saiba que não falaremos disso até que você queira. Eu prometo que não a atormentaremos com isso. – Obrigada, tio Walter. – disse aliviada. Isso era muito legal de sua parte. – Conheço você. Por mais que aparente estar lidando numa boa com isso tudo, sei que por dentro está sofrendo tanto quanto eu, então respeitaremos essa dor e tentaremos, sua tia e eu, fazê-la levar uma vida maravilhosa conosco. – encerrou o tema. Aparentemente não me conhecia tão bem assim. De fato estava triste com a morte de Amanda e Nicholas, meus pais, mas algo em mim tranquilizava-me, algo em mim dizia-me que estavam em umlugar melhor. Sempre olhei para essa vida com olhos estranhos aos demais, sempre me senti em um estado entre o sonho e a realidade, como se eu estivesse acordada, mas permanecendo adormecida. Claro que nunca falei com ninguém sobre isso, não entenderiam. No máximo eles me mandariam a umpsicólogo. – Estou feliz por estar aqui comigo, tio Walter. – disse abraçando-o. Imaginei que fosse a coisa certa a se fazer naquele momento. Tio Walter sorriu e abraçou-me em resposta. Quase me sentia em casa, pois era minha família, porém ainda me sentia incompleta – não que isso fosse novidade. Fora assim a vida toda. Após uma meia hora chegamos à cidadezinha de Siete Pasos. Sabem aquelas cidades onde todas as casas tem cercas brancas e gramados verdes? Siete Pasos sequer as lembrava. A cidade era quente e a terra vermelha dava aquele ar de “velho oeste”. As pessoas andavam na rua como se ainda fossem os anos noventa – não que eu tenha vivido esse tempo, mas alguns filmes confirmariam a minha história. – Chegamos, Fee! – disse o tio Walter aparentemente excitado com toda aquela mudança em sua vida.

Afinal quem em sã consciência levaria uma adolescente de dezessete anos para morar em sua casa quando já cria dois? – Chegamos. – disse em contraponto. – Bem. Eu fico por aqui. – disse o Sr. Pablo estacionando em frente à casa dos meus tios. – Preciso voltar ou minha señorita me mata. Eu deveria estar ajudando-a a preparar os alimentos para abrirmos mais tarde. – Obrigado pela carona Pablo. Vou ajudá-lo a soltar o carro, vamos. – disse o tio Walter. Ao descermos da irmã do ferrugem um estouro rompeu da porta da casa. Minha tia Anne, junto comAlexa e Rosalyn, – a qual levei alguns segundos para reconhecer – veio para cima de mim como se eu fosse o único pedaço de carne nas redondezas e elas estivessem sem comer há anos. – Fee! – gritou tia Anne abraçando-me. – Que saudade! – completou. Seu abraço parecia de um urso perfeitamente saudável. – Prima! – disse Alexa abraçando-me logo que fui solta. Meus braços já estavam esmagados. Alexa estava diferente. Pude reconhecer isso no momento em que tocou em mim. Entretanto sua beleza apenas aumentara. Imagino quantos homens matariam por ela sem pensar em suas almas. – Como vai Sophie? – disse Rosalyn socando-me o braço ao invés de me abraçar. Parecia não ter mudado nada, além de estar mais bonita, ou mais feminina. – Estou bem, Rosa.

Estou feliz que tenha vindo. – respondi. – Rosa! Vamos. Tu madre ya debe estar loca! – disse o Sr. Pablo. – Eu a vejo amanhã, Sophie! – disse Rosalyn indo em direção à camionete. – Até mais, Rosa. – disse. Tio Walter despediu-se do Sr. Pablo e logo entramos na casa. Tia Anne olhava-me como se ainda não pudesse crer que eu fosse morar com eles. Seus olhos brilhavam e seu sorriso era como se aliviara o coração. Sua casa não mudara nada desde minha última viagem. O andar de baixo, onde estava a sala de estar, continuava com o mesmo aspecto perturbador de um celeiro feito na época da colonização. A escada que subia para os quartos ganhara uma cor nova, mas nada muito gritante; e a porta da cozinha estava despencando – era como me lembrava. – Você vai dormir no meu quarto, prima. Temos tanto para por em dia! – disse Alexa entusiasmada. – Temos mesmo. – disse. – Fee. Fiz sua comida predileta. – disse a tia Anne. Quando eu tinha dez anos, no meu primeiro verão na casa dos meus tios em Siete Pasos, minha tia Anne fez um andouillette para mim. Não foi uma experiência muito agradável. Logo após ter comido, Alexa me disse que era feito de tripas e miúdos de porco.

Corri para fora e vomitei. Naquele mesmo dia tia Anne perguntou-me se gostara do andouillette. Menti. Disse ter adorado – não deveria ter mentido. – Fez tia Anne? – perguntei receosa. Alexa, segurando-se para não rir, olhou-me e disse: – Ela fez quase dez quilos de andouillette. Espero que não tenha comido nada no avião. Aquilo foi uma dica. Deveria mentir que estava cheia. – Na verdade tia Anne… – hesitava por medo de magoá-la, mas não conseguia sequer imaginar comer aquilo novamente. – Acho que comi demais, posso deixar para amanhã? Meu próprio coração partiu. Ela fizera especialmente para mim. – Tudo bem, Fee. Vou dar para o vizinho. O andouillette não fica bom no dia seguinte. – ela disse com certa tristeza. – Desculpe-me tia… – estava pronta para desistir e me entregar ao andouillette. – Eu acho que… – Está tudo bem, Fee. Os nossos vizinhos gostam, não sei como conseguem comer isso. Só faço para você, sabia? Nunca imaginei que iria gostar, havia feito só para testar. – ela disse indo para a cozinha. Maldita mentira. O tio Walter estava descendo as escadas de volta quando me dei conta que ele subira com minhas malas. Estava tão atordoada com o andouillette que me esqueci de ajudar. – Está tudo lá no quarto de vocês, Fee.

Alexandra, depois ajude sua prima a arrumar as coisas dela, tudo bem? – Sim pai. – disse Alexa que, puxando-me pelo braço, levou-me até o quarto. – Obrigada pela dica, Alexa. – Está tudo bem. Afinal fui eu quem a pôs nessa enrascada em primeiro lugar. Desculpe-me por isso, esta bem? – Sem problemas. O tio Walter disse que está namorando… – Aquele fofoqueiro. – ela riu. – Estou sim. Lembra do Ralph Rogers? – Aquele que quase matou o garoto da bicicleta aquela vez perto da praça? – Sim. O garoto se chama William, foi meu primeiro namorado. Durou dois meses. Na verdade o Ralph só bateu nele porque descobriu que ele tinha uma quedinha por mim. – Mas isso foi antes de você sequer ter um namorado. – disse confusa. Ralph sempre fora umvalentão e por isso ninguém gostava dele. – Sim. Parece que os dois já tinham uma quedinha por mim naquela época. – ela disse orgulhosa. – Você então viu algo de bom no Ralph, imagino… – Ninguém nunca deu chance a ele. Eu dei. – Imagino… – disse sarcástica. – Estou falando sério, prima. O Ralph, lá no fundo… bem, bem, bem lá no fundo, é sensível. Hoje mesmo ele ficou de passar aqui para irmos jantar.

Você vem conosco, não vem? – O tio Walter deixou você sair assim à noite? – O pai não gosta do Ralph, mas me conhece. Ele sabe que sou correta em tudo o que faço…e o Ralph nunca tentaria nada comigo, ele sabe como posso ficar estressada. – Só imagino… – disse. – Você imagina muito, sabia? – ela disse rindo. Estava chamando-me a atenção por não me importar muito com o assunto. Alexa colocou minhas malas sobre uma das camas do quarto e as abriu. – Só trouxe isso? – perguntou ela ao ver o pouco de roupa que havia dentro. – Só tenho isso. – respondi. – Como assim? Os tios eram bem de vida… – O dinheiro era deles, não meu Alexa. Não quis ficar com nada. – Não acredito nisso, prima. Como você foi burra! – Não Alexa. Não achei certo. – Tudo bem é uma escolha sua mesmo. Se vier comigo temos que escolher uma roupa perfeita. – Como assim? – Depois de comermos provavelmente iremos até El Matadero. – El Matadero? O que é isso? – não sabia nada de espanhol. – Significa O Matadouro. É um lugar deserto mais ao sul. Tem um desfiladeiro enorme. Os meninos fazem racha lá. – Racha? Tipo uma corrida? Isso é seguro? – perguntei atônita. Sabia que muitos acidentes aconteciam nesse tipo de “evento”. – Rachas não são para serem seguros, prima.

São para serem emocionantes e excitantes. – Não sei Alexa. Acho melhor não ir… e mesmo assim seu namorado é motoqueiro não é? O tio Walter me disse. Então não terá lugar para me levar. – disse tentando escapar da enrascada. – Aí que você se engana prima. Um amigo dele irá junto, ele dará carona. Entendera tudo. Alexa arrumara um encontro de “casais”. Estava tentando me fazer um favor? Se fosse, como de costume, estava indo pelo caminho errado e com certeza eu me daria mal – sempre me dava mal quando ela decidia as coisas. – Essa aqui está perfeita. – ela disse pegando uma blusa clara e minha saia jeans. – Pode usar minha bota se quiser, lá tem muita poeira. – completou. Entreguei-me. Chacoalhei a cabeça com um meio sorriso estampado no rosto e fui me vestir. Mal terminara de por as botas e ouvimos a buzina insistente que clamava pela nossa presença emfrente à casa do tio Walter. – Eles chegaram, prima. – disse Alexa ansiosa. – Bem. Vamos então, mas temos que voltar cedo, Alexa. A viagem foi realmente cansativa. – Pode deixar, prima. Voltaremos bem cedo. – ela disse com um sorriso malicioso.

Descemos as escada e, lá embaixo, o tio Walter e a tia Anne assistiam televisão. – Onde as mocinhas pensam que vão? – perguntou tia Anne. Parece que Alexa não havia dito nada sobre aquilo. – Vou levar a prima para jantar fora, mãe. O Ralph e um amigo vão nos dar carona. – Que amigo? – perguntou o tio Walter em um tom seco. – Não sei. Um amigo. – disse Alexa. – Como assim “não sei”? Vocês não vão sair por aí sem eu saber com quem. – Pai. É o Pedro. Está bem? É um amigo do Ralph. O tio Walter e a tia Anne se olharam por alguns instantes. Em seus olhos podia ver que estavam decidindo nosso destino, porém um singelo e rápido sorriso nos lábios da tia Anne confirmou-me a nossa permissão. – Não voltem tarde. – disse o tio Walter voltando a olhar para a televisão. – E mantenham os celulares ligados, caso eu precise achar vocês duas. – concluiu ele. – Obrigada, tio Walter. – disse para amenizar a situação um tanto desconfortante. Do lado de fora da casa estavam os dois, sentados em suas motos, esperando-nos. Ralph estava diferente do que me lembrava. Estava mais bonito. Em seus cabelos loiros, a franja dera lugar para um cabelo mais espetadinho – imaginava quanto gel estava ali ––.

Os olhos azuis continuavamos mesmo, exceto pela pequena cicatriz que cortava a sobrancelha esquerda. O amigo do Ralph, o tal Pedro, era de origem hispânica, com certeza. Vestia-se bem e os olhos negros eram um charme à parte. As motos eram grandes, sem dúvida as mesmas motos que se usa em corridas – era o máximo de descrição que poderia prover das motos, visto que era uma analfabeta no assunto. – Oi gata. – disse o Ralph agarrando Alexa e puxando-a para si dando-lhe um beijo. Alexa sorriu, puxou-me para perto deles e apresentou-me. – Essa é minha prima, Sophie. Ela acabou de vir de Nova Iorque. – Seja bem vinda, Sophie. Eu lembro vagamente de você. – disse Ralph. Parecia realmente ter amadurecido. – Bien Venida! – disse Pedro. Sua voz era encantadoramente macia e hipnótica. – Obrigada. – respondi aos dois. – Então vamos. ––Alexa subiu na moto do Ralph. – Vem, Sophie. – disse Pedro. Hesitei por alguns segundos. Era esquisito subir na garupa de um completo estranho, mesmo que fosse amigo de Alexa. Sabia que aquela noite não acabaria bem. – Vai prima! – Alexa chamou minha atenção.

Subi. Não sabia – na verdade não conseguia – dizer não para ela. Durante o caminho os dois ficavam se ultrapassando como se estivessem em uma disputa. Com Ralph na frente pude ver em suas costas, na camiseta, um desenho de uma pomba em chamas e, abaixo dela os dizeres ANGELES DE FUEGO. Após alguns minutos outro grupo de motoqueiros uniu-se a nós. – Segure-se! – gritou Pedro. O motoqueiro que estava à frente do grupo fez sinal para seguirem com ele, então vi que Ralph falou algo para Alexa, porém não ouvi. – Mudança de planos, Sophie. Vamos para El Matadero. – gritou Pedro. – O que houve? – berrei. Era difícil de conversar com os capacetes e correndo. – Disputa. Seguimos por uma estrada empoeirada e escura até um local aberto. O lugar era deserto, longe de tudo. Dele podia-se ver o desfiladeiro que seguia iluminado agora pelo luar e pelas tochas acessas. Ali estavam muitos motoqueiros, algumas pessoas com carros e alguns de bicicleta. – Nossa! – exclamei logo que paramos. – Legal, não é? – disse Pedro entusiasmado. – O que vai acontecer? – Já disse, Sophie. Disputa. Los Justicieros querem tomar a frente do nosso território. Precisamos manter o domínio. – E vocês são esses Angeles de Fuego? – Sim. Significa Anjos de Fogo.

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