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A Saga Otori 03 – O Brilho da Lua – Lian Hearn

Estes acontecimentos ocorreram nos meses seguintes ao casamento de Otori Takeo com Shirakawa Kaede, no templo de Terayama. Esse casamento reforçou a decisão de Kaede de herdar o domínio de Maruyama e propiciou a Takeo os recursos necessários para vingar seu pai adotivo, Shigeru, e tomar seu lugar como chefe do clã Otori. No entanto, essa união também enfureceu o senhor Arai Daiichi, que então controlava a maior parte dos Três Países, e insultou o nobre senhor Fujiwara, que considerava Kaede sua noiva. No inverno anterior, Takeo, sobre quem pesava a sentença de morte da Tribo, fugira para Terayama. Lá teve acesso às informações detalhadas que Shigeru registrara sobre a Tribo e recebeu Jato, a espada de Otori. No caminho, sua vida foi salva pelo pária Jo-An, membro da seita proibida, os Ocultos, que o levou a um santuário na montanha para ouvir as palavras proféticas de uma mulher sagrada. Três sangues se misturam em você. Nasceu entre os Ocultos, porém sua vida foi trazida a céu aberto e já não lhe pertence. A Terra realizará o que o Céu deseja. Suas terras se estenderão de um mar a outro — ela disse, finalmente. — A paz, no entanto, virá ao preço de sangue derramado. Cinco batalhas lhe custará a paz, quatro para vencer e uma para perder… 1. A pena estava na palma da minha mão. Segurei-a com cuidado, ciente de sua idade e de sua fragilidade. Sua brancura ainda era translúcida, a cor vermelha de suas pontas ainda brilhava. — É de um pássaro sagrado, o houou — disse-me Matsuda Shingen, abade do templo de Terayama. — Ele apareceu para seu pai adotivo, Shigeru, quando ele tinha apenas quinze anos, portanto menos do que você tem agora. Ele nunca lhe falou sobre isso, Takeo? Balancei a cabeça. Matsuda e eu estávamos em seu quarto, numa das extremidades do claustro que rodeava o pátio principal do templo. De fora, abafando os sons habituais do templo, o dos cantos e o dos sinos, chegava o ruído agitado dos preparativos, de muita gente indo e vindo. Eu ouvia Kaede, minha esposa, do outro lado do portão, falando com Amano Tenzo sobre os problemas da alimentação de nosso exército durante a jornada. Estávamos nos preparando para a viagem a Maruyama, o grande domínio a oeste, de que Kaede era herdeira por direito. Íamos reivindicá-lo emnome dela e lutar por ele, se necessário. Desde o final do inverno, guerreiros chegavam a Terayama para se juntar a mim. Agora eu já tinha quase mil homens, alojados no templo e nos povoados dos arredores, sem contar os lavradores do distrito, que também me apoiavam intensamente.


Amano era de Shirakawa, lar ancestral de minha esposa, e o mais confiável de seus serviçais, grande cavaleiro e bom com todos os animais. Nos dias que se seguiram a nosso casamento, Kaede e sua acompanhante, Manami, tinham se mostrado muito hábeis em lidar com a preparação e distribuição de equipamentos. Discutiam tudo com Amano, que comunicava suas decisões aos homens. Aquela manhã ele estava enumerando os carros de boi e cavalos de carga que tínhamos à nossa disposição. Tentei não ouvir, concentrar-me no que Matsuda me dizia, mas estava inquieto e ansioso para partir. — Tenha paciência — disse Matsuda, com brandura. -Só mais um minuto. O que você sabe sobre o houou? Relutante, voltei a prestar atenção na pena que tinha na mão e tentei me lembrar do que Ichiro, meu antigo professor, me ensinara quando eu morava na casa do Senhor Shigeru, em Hagi. — É o pássaro sagrado lendário que aparece em tempos de justiça e paz. E se escreve da mesma maneira que o nome de meu clã, Otori. — Certo — disse Matsuda, sorrindo. — Não aparece com freqüência, pois justiça e paz são coisas raras hoje em dia. Mas Shigeru o viu, e acredito que essa visão o tenha inspirado a buscar essas virtudes. Eu lhe disse então que as penas do pássaro eram tingidas de sangue, e, de fato, nós dois, você e eu, ainda somos guiados pelo sangue, pela morte de Shigeru. Examinei a pena mais detidamente. Ela estava pousada na palma da minha mão direita, sobre a cicatriz de uma queimadura que eu sofrera havia muito tempo, em Mino, minha terra natal, no dia emque Shigeru salvara minha vida. Eu também trazia na mão a marca dos Kikuta, família da Tribo a que eu pertencia, da qual eu fugira no inverno anterior. Minha herança, meu passado e meu futuro pareciam estar ali, na palma da minha mão. — Por que está me mostrando a pena agora? — Logo você vai partir. Esteve conosco o inverno todo, estudando, treinando e se preparando para cumprir as últimas instruções que Shigeru lhe deu. Queria que você compartilhasse a visão que ele teve e se lembrasse de que o objetivo de Shigeru era a justiça, tal como deve ser o seu. — Nunca me esquecerei disso — prometi. Inclinei-me reverente para a pena, segurando-a de leve com as duas mãos, e a devolvi ao abade. Ele a pegou, também se inclinou e voltou a colocá-la na caixinha laqueada da qual a tirara. Fiquei em silêncio, relembrando tudo o que Shigeru fizera por mim e o quanto ainda me restava fazer por ele.

— Ichiro me falou sobre o houou quando estava me ensinando a escrever meu nome — eu disse, finalmente. — Quando o vi em Hagi, o ano passado, ele me aconselhou a esperá-lo aqui, mas não posso esperar mais. Preocupava-me com meu velho professor desde que a neve começara a derreter, mas sabia que os senhores Otori, tios de Shigeru, tentavam tomar posse de minha casa e de minhas terras em Hagi e que Ichiro continuava resistindo a eles obstinadamente. O que eu não sabia era que Ichiro já estava morto. Recebi a notícia no dia seguinte. Estava conversando com Amano no pátio quando ouvi sons ao longe, vindos de baixo: gritos furiosos, pés correndo, pisadas de cascos. O ruído de cavalos subindo a encosta a galope era inesperado e assustador. Quase ninguém subia a cavalo até o templo de Terayama. As pessoas em geral subiam a montanha a pé, e os idosos e inválidos vinham carregados. Alguns segundos depois Amano também ouviu. Eu já estava correndo até os portões do templo, chamando pelos guardas. Rapidamente eles fecharam e trancaram os portões. Matsuda veio correndo pelo pátio. Não estava de armadura, mas trazia a espada na cinta. Antes que pudéssemos falar um com o outro, ouviu-se um desafio na casa da guarda: — Quem ousa chegar a cavalo aos portões do templo? Desça e aproxime-se com respeito deste lugar de paz. Era a voz de Kubo Makoto. Jovem monge guerreiro de Terayama, nos últimos meses ele se tornara meu melhor amigo. Corri até a paliçada e subi pela escada até a guarita. Makoto gesticulava pela vigia. Pelas frestas entre as tábuas eu via quatro cavaleiros. Tinham subido a montanha a galope e, agora, puxavam as rédeas para deter os cavalos. Estavam de armadura e o emblema dos Otori era nitidamente visível em seus elmos. Por um momento, pensei que fossem mensageiros de Ichiro. Então meus olhos deram com o cesto amarrado a uma das selas. Meu coração virou pedra.

Foi fácil adivinhar o que havia naquele cesto. Os cavalos se empinavam e corcoveavam, não só excitados pelo galope, mas também alarmados. Dois deles já estavam com a garupa sangrando. Uma multidão de homens enfurecidos surgiu do caminho estreito, todos armados de estacas e foices. Reconheci alguns deles: eram lavradores do povoado vizinho. O último guerreiro da fila os espantou, dando golpes de espada no ar. Os homens recuaram um pouco mas não se dispersaram, mantendo sua postura ameaçadora, formando umsemicírculo cerrado. O chefe dos cavaleiros lançou-lhes um olhar de desprezo e depois gritou alto, na direção do portão: — Sou Fuwa Dosan, do clã Otori, de Hagi. Trago uma mensagem dos Senhores Shoichi e Masahiro para o impostor que chama a si mesmo de Otori Takeo. Makoto respondeu: — Se forem mensageiros de paz, desçam de seus cavalos e larguem as espadas. Os portões serão abertos. Eu já sabia qual seria a mensagem deles. Sentia a cegueira da fúria invadir meus olhos. — Não há necessidade disso — Fuwa replicou, desdenhoso. — Nosso recado é curto. Digam ao assim chamado Takeo que os Otori não reconhecem suas reivindicações e desse modo lidarão com ele e com quem quer que o siga. O homem a seu lado largou as rédeas sobre o pescoço de seu cavalo e abriu o cesto, tirando dele o que eu temia ver. Segurando a cabeça de Ichiro pelos cabelos, ele balançou o braço e a jogou por cima da cerca, para dentro dos limites do templo. A cabeça caiu com um baque surdo sobre o gramado do jardim. Tirei Jato, minha espada, da cintura. — Abram os portões! — gritei. — Vou sair atrás deles. Desci a escada voando, Makoto desceu atrás de mim. Quando os portões se abriram, os guerreiros Otori, brandindo as espadas, viraram seus cavalos e os fizeram avançar contra a muralha de homens que os rodeava. Decerto imaginaram que os lavradores não fossem ousar atacá-los.

Até eu me surpreendi com o que aconteceu em seguida. Em vez de se afastarem para deixá-los passar, os homens que estavam a pé se arremessaram sobre os cavalos. Dois lavradores morreram imediatamente, cortados ao meio pelas espadas dos guerreiros, mas então o primeiro cavalo foi derrubado e seu cavaleiro caiu entre os homens à sua volta. Os outros tiveram a mesma sorte. Não tiveram oportunidade de usar sua habilidade de espadachins, pois foram arrancados de suas montarias e espancados até morrer, como cães. Makoto e eu tentamos coagir os lavradores e, finalmente, conseguimos tirá-los de cima dos corpos. Só conseguimos acalmá-los depois que decapitamos os guerreiros e expusemos suas cabeças nos portões do templo. O exército espontâneo ainda lançou insultos contra elas por algum tempo e depois se retirou. Os homens desciam a montanha prometendo aos gritos que, se qualquer estranho ousasse se aproximar do templo para insultar o Senhor Otori Takeo, o Anjo de Yamagata, receberia o mesmo tratamento. Makoto tremia de ódio, e outras emoções sobre as quais queria falar comigo, mas naquele instante eu não tinha tempo. Voltei para dentro dos muros. Kaede trouxera panos brancos e água numa tina de madeira. Ajoelhada no chão, embaixo das cerejeiras, ela lavava tranqüilamente a cabeça de Ichiro, que estava com a pele azul-acinzentada e os olhos semicerrados. O pescoço não tinha sido cortado de uma só vez e trazia marcas de muitos golpes. Kaede lidava com ela carinhosamente, como se fosse um objeto precioso e bonito. Ajoelhei-me a seu lado, estendi a mão e toquei o cabelo do morto. Era listrado de cinza, mas o rosto, na morte, parecia mais jovem do que a última vez que eu vira Ichiro, na casa de Hagi, melancólico e assediado por fantasmas, embora ainda desejando me mostrar afeição e me orientar. — Quem é? — Kaede perguntou, em voz baixa. — Ichiro. Foi meu professor em Hagi. E de Shigeru também. Estava com o coração muito apertado para falar mais. Enxuguei as lágrimas. A lembrança de nosso último encontro me veio à mente. Desejaria ter conversado mais com ele, ter falado de minha gratidão e de meu respeito.

Perguntava-me como ele teria morrido, se fora humilhado e se agonizara. Desejava que seus olhos se abrissem, que seus lábios exangues falassem. Como são irrecuperáveis os mortos, como se separam completamente de nós! Até quando seus espíritos retornam, não falam de sua própria morte. Nasci e fui criado entre os Ocultos, que acreditam que só aqueles que seguem os mandamentos do Deus Secreto voltarão a se encontrar além da vida. Todos os outros serão consumidos no fogo do inferno. Eu não sabia se Shigeru, meu pai adotivo, fora crente, mas ele conhecia todos os ensinamentos dos Ocultos e disse suas preces na hora da morte, junto com o nome do Iluminado. Ichiro, seu conselheiro e mordomo, nunca dera sinal disso. Na verdade, pelo contrário, desde o início ele suspeitara que Shigeru me salvara da perseguição de Iida Sadamu aos Ocultos e me vigiava como um cormorão para evitar que eu fosse levado embora. Mas eu já não seguia os ensinamentos de minha infância e não acreditava que um homem com a integridade e a lealdade de Ichiro estivesse no inferno. Muito mais fortes eram minha indignação contra a injustiça daquele assassínio e a consciência de que agora havia mais uma morte a ser vingada. — Eles pagaram com suas vidas — disse Kaede. — Por que matar um velho e se dar ao trabalho de trazer a cabeça dele até você? Ela lavou os últimos vestígios de sangue e envolveu a cabeça em um pano branco limpo. — Imagino que os Senhores Otori queiram me eliminar — repliquei. — Preferem não atacar Terayama. Se o fizerem, darão com os soldados de Arai. Esperam me atrair para fora da fronteira e me encontrar lá. Eu ansiava por esse encontro para puni-los de uma vez por todas. As mortes dos guerreiros tinham atenuado minha fúria temporariamente, mas eu a sentia ferver em meu coração. No entanto, era preciso ter paciência. Minha estratégia era antes me retirar para Maruyama e lá constituir minhas forças. Não desistiria disso. Encostei a testa na grama, despedindo-me de meu professor. Manami veio do quarto de hóspedes e se ajoelhou um pouco atrás de nós. — Trouxe uma caixa, senhora — ela sussurrou. Era uma espécie de pequeno estojo tecido de ramos de salgueiro e tiras de couro tingido de vermelho.

Kaede o abriu e de dentro dele desprendeu-se um cheiro de aloé. Ela colocou a pequena trouxa branca dentro da caixa e em torno dela ajeitou as aloés. Então pousou a caixa no chão, à sua frente, e nós três mais uma vez nos inclinamos diante dela. Num arbusto, um passarinho entoou seu canto de primavera e um cuco, o primeiro que eu ouvia aquele ano, respondeu do meio da floresta. No dia seguinte procedemos aos rituais fúnebres e enterramos a cabeça perto do túmulo de Shigeru. Ordenei que uma outra lápide fosse erigida para Ichiro. Eu ansiava por saber o que acontecera com a velha Chiyo e com os outros criados da casa de Hagi. Atormentava-me a idéia de que a casa talvez já não existisse, de que tivesse sido incendiada: a casa de chá, a sala do andar superior onde tantas vezes nos sentávamos olhando para o jardim, o piso-rouxinol, tudo destruído, suas canções silenciadas para sempre. Minha vontade era ir correndo até Hagi para reivindicar minha herança, antes que me fosse tomada. No entanto, eu sabia que era exatamente isso que os Otori esperavam que fizesse. Cinco lavradores tinham morrido na hora, outros dois morreram um pouco depois, emconseqüência de seus ferimentos. Dois cavalos foram gravemente feridos e Amano os sacrificou, mas os outros dois estavam ilesos. De um deles eu gostava especialmente: era um belo garanhão preto que me lembrava o cavalo de Shigeru, Kyu, e talvez até fosse seu meio-irmão. Por insistência de Makoto, enterramos os guerreiros Otori com todos os rituais, orando para que seus espíritos, ofendidos por suas mortes ignóbeis, não passassem a nos assombrar. Ao entardecer, o abade foi até o quarto de hóspedes, e ficamos conversando até tarde da noite. Makoto e Miyoshi Kahei, meu aliado e amigo de Hagi, também estavam conosco. Gemba, irmão mais novo de Kahei, fora enviado a Maruyama para avisar o chefe dos criados, Sugita Haruki, de nossa partida iminente. No inverno anterior, Sugita garantira a Kaede que apoiaria sua reivindicação. Kaede não ficou conosco. Por várias razões, ela e Makoto não se sentiam à vontade um na presença do outro e ela o evitava ao máximo. No entanto, eu lhe sugerira antes que se sentasse atrás da porta para ouvir o que dizíamos. Eu desejava ouvir sua opinião depois. Desde que nos tínhamos casado, eu conversava com ela como nunca antes conversara com ninguém. Por tanto tempo eu me calara que agora eu não me cansava de compartilhar meus pensamentos com ela. Confiava em seu julgamento e em sua sabedoria.

— Quer dizer que agora vocês estão em guerra — disse o abade — , e seu exército já enfrentou um primeiro conflito. — Não é bem um exército — disse Makoto. — Um bando de lavradores! Como irá puni-los? — O que está querendo dizer? — repliquei. — Lavradores não deveriam matar guerreiros — ele disse. — Qualquer um no seu lugar os puniria duramente. Seriam crucificados, mergulhados em óleo fervente, esfolados vivos. — Serão punidos se os Otori os pegarem — resmungou Kahei. — Estavam lutando para me defender — eu disse. No fundo, eu achava que os guerreiros tinhammerecido seu fim vergonhoso, embora lamentasse não os ter matado pessoalmente. — Não irei punilos. Minha maior preocupação é como protegê-los. — Você soltou um bicho-papão. Espero que consiga controlá-lo. O abade sorriu por trás de seu copo de vinho. Além de seus comentários anteriores sobre justiça, durante todo o inverno ele me dera aulas de estratégia e, por ter ouvido minhas teorias sobre a tomada de Yamagata e outras campanhas, sabia de meus sentimentos para com meus lavradores. — Os Otori querem me eliminar — eu disse, conforme dissera antes a Kaede. — Sim, mas você deve resistir à tentação — ele replicou. — Naturalmente, seu primeiro impulso é de vingança, mas, mesmo que vocês derrotassem seu exército num confronto, eles simplesmente se retirariam para Hagi. Um cerco longo seria um desastre. A cidade é praticamente invulnerável e, cedo ou tarde, vocês teriam as forças de Arai na sua retaguarda. Arai Daiichi era o comandante de Kumamoto que tirara vantagem da derrota dos Tohan para assumir o controle dos Três Países. Eu o enfurecera ao desaparecer com a Tribo no ano anterior. Agora, depois de meu casamento com Kaede, certamente estava mais furioso ainda. Ele tinha umexército imenso, e eu não queria enfrentá-lo antes de fortalecer o meu. — Então devemos primeiro ir até Maruyama, conforme o planejado.

Mas, se eu deixar o templo desprotegido, vocês e os habitantes do distrito serão atacados pelos Otori. — Podemos trazer muita gente para dentro de nossos muros — disse o abade. — Acho que temos armas e suprimentos suficientes para resistir aos Otori se eles de fato atacarem. Pessoalmente, não acredito que o façam. Arai e seus aliados não desistirão de Yamagata sem uma longa luta, e muitos dos Otori relutariam em destruir este lugar, considerado sagrado pelo clã. Seja como for, estarão mais preocupados em perseguir você — ele fez uma pausa e continuou: — Você não pode entrar numa guerra sem estar preparado para o sacrifício. Muitos homens morrerão nas batalhas e, se você perder, muitos deles, inclusive você, poderão ter uma morte sofrida. Os Otori não reconhecem sua adoção, não sabem quem são seus ancestrais. Para eles, você é um impostor, não é de sua classe. Você não pode deixar de agir porque pessoas irão morrer. Até seus lavradores sabem disso. Sete deles morreram hoje, mas os que sobreviveram não estão tristes. Estão comemorando a vitória sobre aqueles que o insultaram. — Eu sei — disse eu, olhando para Makoto. Ele apertava os lábios, e, apesar de seu rosto inexpressivo, eu sentia sua desaprovação. Eu tinha consciência de minha fraqueza como comandante. Temia que Makoto e Kahei, criados dentro da tradição guerreira, passassem a me desdenhar. — Nós nos juntamos a você porque escolhemos, Takeo — prosseguiu o abade — , por causa de nossa lealdade a Shigeru e porque acreditamos que sua causa é justa. Inclinei a cabeça, aceitando a repreensão e fazendo votos de que nunca mais ele tivesse que me falar naquele tom. — Partiremos para Maruyama depois de amanhã. — Makoto irá com você — disse o abade. — Como você sabe, ele adotou sua causa. Os lábios de Makoto se encurvaram levemente quando ele meneou a cabeça, concordando. Mais tarde, aquela noite, por volta da segunda metade da Hora do Rato, quando estava prestes a me deitar ao lado de Kaede, ouvi vozes do lado de fora. Um pouco depois Manami nos chamou baixinho para dizer que um monge viera com um recado da casa da guarda.

— Pegamos um prisioneiro — ele me disse, quando fui lhe falar. — Foi pego escondido entre os arbustos perto do portão. Os guardas o perseguiram e quase o mataram ali mesmo, mas ele gritou seu nome e disse que era um de seus homens. — Vou falar com ele — eu disse, pegando Jato. Suspeitei que o tal prisioneiro fosse o pária JoAn, que me vira em Yamagata quando eu libertara pela morte seu irmão e outros membros dos Ocultos. Ele me dera então o apelido de Anjo de Yamagata e, depois, salvara-me a vida em minha caminhada desesperada até Terayama, no inverno. Eu lhe havia dito que mandaria chamá-lo na primavera e que deveria esperar até receber meu recado. No entanto, Jo-An às vezes tinha atitudes imprevisíveis, geralmente em resposta ao que dizia ser a voz do Deus Secreto. Era uma noite suave e quente, no ar sentia-se a umidade do verão. Uma coruja piava no meio dos pinheiros. Jo-An estava deitado no chão, perto do portão. Fora amarrado rudemente, com as pernas dobradas sob o corpo e as mãos atadas nas costas. Tinha o rosto sujo de poeira e sangue e os cabelos emaranhados. Movia os lábios levemente, fazendo uma prece silenciosa. Dois monges o vigiavam a uma distância prudente, com expressão de desdém. Chamei-o pelo nome e seus olhos se abriram. Vi neles um brilho de alívio. Ao tentar se ajoelhar, caiu para a frente, incapaz de se segurar com as mãos, e bateu o rosto no chão. — Podem desamarrá-lo — eu disse. Um dos monges disse: — Ele é um pária. Não devemos tocar nele. — Quem o amarrou? — Na hora não percebemos — disse o outro. — Depois vocês se lavam. Esse homem salvou-me a vida. Desamarrem-no.

Ainda relutantes, ergueram Jo-An e soltaram as cordas que o amarravam. Ele se aproximou de mim rastejando e se prostrou a meus pés. — Sente-se, Jo-An — eu disse. — O que houve? Eu disse que só viesse quando eu mandasse chamá-lo. Teve sorte de não ser morto, chegando aqui sem avisar e sem autorização. A última vez que o vira eu estava quase tão esfarrapado e desgrenhado quanto ele. Eu era então um fugitivo, exausto e faminto. Agora eu vestia uma túnica, tinha os cabelos presos ao estilo dos guerreiros e trazia a espada na cintura. Sabia que os monges deviam estar profundamente chocados por me ver conversando com um pária. Uma parte de mim estava tentada a expulsá-lo, a negar que houvesse qualquer relação entre nós e a afastá-lo para sempre da minha vida. Se eu desse essa ordemaos guardas, eles o matariam imediatamente. No entanto, eu não podia fazê-lo. Ele salvara minha vida. Além do mais, em nome do vínculo que havia entre nós, os dois nascidos em meio aos Ocultos, eu tinha que tratá-lo não como pária, mas como ser humano. — Ninguém me matará enquanto o Deus Secreto não me chamar — ele murmurou, levantando os olhos para mim. — Até esse dia, minha vida pertence ao senhor. No lugar em que estávamos havia apenas a luz do lampião que o monge trouxera da casa da guarda e colocara no chão, perto de nós. Mesmo assim, eu via os olhos de Jo-An inflamados. Tal como já fizera muitas vezes, perguntei-me se ele estava mesmo vivo ou se era um visitante de outro mundo. — O que você quer? — perguntei. — Tenho uma coisa muito importante para lhe dizer. Vai me agradecer por eu ter vindo. Os monges tinham recuado para não se poluir, mas estavam a uma distância suficiente para nos ouvir. — Preciso falar com este homem — eu disse. — Onde podemos ficar? Entreolharam-se constrangidos, e o mais velho sugeriu: — Talvez no pavilhão do jardim.

— Não precisam vir comigo. — Devemos proteger o Senhor Otori — disse o mais moço. — Com este homem não corro perigo. Deixem-nos sozinhos. Digam a Manami que traga água, comida e chá. Eles fizeram uma reverência e se afastaram. Atravessaram o pátio olhando para nós e cochichando um com o outro. Ouvi tudo o que disseram e suspirei. — Venha comigo — eu disse a Jo-An. Ele foi mancando atrás de mim até o pavilhão, que ficava no jardim, não muito longe do lago. A água cintilava sob a luz das estrelas e de vez em quando um peixe pulava acima da superfície e voltava a cair ruidosamente. Do outro lado do lago as lápides brancas acinzentadas dos túmulos destacavam-se da escuridão. A coruja voltou a piar, desta vez mais perto de nós. — Foi Deus que me mandou vir — ele disse, depois que nos instalamos no piso de madeira do pavilhão. — Não deve falar tão abertamente em Deus — repreendi. — Está num templo. Os monges não têmpelos Ocultos mais apreço do que os guerreiros. — O senhor está aqui — ele murmurou. — É nossa esperança e nossa proteção. — Sou apenas um. Não posso proteger todos vocês dos sentimentos de todo um país. Ele se calou por um momento, depois disse: — O Deus Secreto pensa no senhor o tempo todo, mesmo que o senhor o tenha esquecido. Eu não queria ouvir esse tipo de mensagem. — O que tem a me dizer? — perguntei, impaciente. — Os homens que encontrou o ano passado, os carvoeiros, estavam levando o deus deles de volta para a montanha.

Encontrei-os no caminho. Disseram-me que os homens dos Otori estão vigiando todas as estradas em torno de Terayama e Yamagata. Fui verificar pessoalmente. Há soldados escondidos por toda parte. Eles o pegarão em emboscada assim que o senhor partir. Se quiser sair, terá que lutar para passar por eles. Seus olhos estavam fixos em mim, observando minha reação. Eu me maldizia por ter me demorado tanto no templo. O tempo todo eu sabia que rapidez e surpresa eram minhas armas principais. Deveria ter ido embora antes. Eu adiara minha partida esperando por Ichiro. Antes de me casar, eu saía todas as noites para vigiar as estradas em torno do templo. Mas desde que Kaede viera juntar-se a mim eu não conseguia me afastar dela. Agora eu caíra na armadilha da minha própria vacilação e falta de vigilância. — Quantos homens você calcula que sejam? — Cinco ou seis mil — ele respondeu. Eu não tinha nem mil. — Então vai ter que atravessar pela montanha, como fez no inverno. Há uma trilha que vai para oeste. Ninguém a está vigiando porque ainda há neve no desfiladeiro. Meu pensamento corria veloz. Eu conhecia a trilha de que ele falava. Passava pelo santuário emque Makoto planejara passar o inverno antes de eu irromper do meio da neve na minha fuga para Terayama, no inverno. Eu a explorara algumas semanas antes e acabara voltando quando a neve se tornara profunda demais, impedindo a passagem. Pensei em minha força, nos homens, cavalos e bois. Os bois não conseguiriam passar, mas os homens e os cavalos sim.

Eu os mandaria à noite, se possível, para que os Otori pensassem que ainda estávamos no templo… Tinha que agir rápido, consultar o abade imediatamente. Meus pensamentos foram interrompidos por Manami e um criado. O homem carregava uma vasilha de água. Manami trazia uma bandeja com uma tigela de arroz com legumes e duas xícaras de chá de ervas. Ela colocou a bandeja no chão, olhando para Jo-An com repugnância, como se ele fosse uma cobra. A reação do homem também foi de horror. Perguntei-me se me prejudicaria ser visto na companhia de um pária. Pedi-lhes que se retirassem e eles o fizeram rapidamente. Ainda ouvi os murmúrios de reprovação de Manami no caminho de volta à casa de hóspedes. Jo-An lavou as mãos e o rosto, depois juntou as mãos para dizer a primeira prece dos Ocultos. Embora eu respondesse àquelas palavras que me eram familiares, uma onda de irritação tomou conta de mim. Mais uma vez Jo-An arriscara a vida para me trazer aquelas notícias vitais, mas eu desejava que fosse mais discreto, e meu espírito sucumbiu diante do pensamento do risco que ele poderia representar. Quando ele terminou de comer, eu disse: — É melhor você ir embora. Tem um longo caminho de volta para casa. Jo-An não respondeu, mas se sentou, com a cabeça levemente inclinada, na posição de escuta que para mim, agora, era tão conhecida. — Não — ele disse, finalmente. — Tenho que ir com o senhor. — Impossível. Não o quero comigo. — É o desejo de Deus — ele disse. Não havia como fazê-lo desistir, a não ser matando-o ou mandando prendê-lo, maneiras vergonhosas de agradecer sua ajuda. — Tudo bem — eu disse — , mas você não pode ficar no templo. — Não mesmo — ele concordou, docilmente — , tenho que buscar os outros. — Que outros, Jo-An?

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