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A Salamandra – Morris West

Entre a meia-noite e o romper do dia, enquanto seus companheiros romanos estavamfestejando o fim do Carnaval, Massimo Conde Pantaleone, General do Estado-Maior, morreu em sua cama. Solteirão de pouco mais de sessenta anos e soldado de hábitos espartanos, morreu só. O seu criado, um sargento de cavalaria reformado, levou o café do General às sete da manhã como de costume e encontrou-o deitado de costas, inteiramente vestido, de boca aberta e olhos voltados para o teto decorado. O criado depositou cuidadosamente a bandeja do café, fez o sinal da Cruz, fechou os olhos do morto com duas moedas de cinquenta liras e depois telefonou para o ajudante de ordens do General, o Capitão Girolamo Carpi. Carpi telefonou para o Diretor. O Diretor telefonou para mim. Podem encontrar meu nome no dossiê da Salamandra; Dante Alighieri Matucci, Coronel de Carabinieri, destacado para trabalho especial no Serviço de Informação da Defesa. O Serviço é habitualmente chamado pela sua sigla em italiano, SID (Servizio Informazione Difesa). Como qualquer outro serviço secreto, o SID gasta polpuda soma do dinheiro dos contribuintes no esforço de perpetuar-se e um pouco menos na obtenção de informações capazes de proteger a República de invasores, traidores, espiões, sabotadores e terroristas políticos. Como podem ver, não creio muito na sua utilidade. É natural, pois trabalho lá e todos os que trabalham lá acabam desiludidos de uma maneira ou de outra. O Serviço estimula a perda da inocência e procura fazer de todos instrumentos dóceis da política. Mas estamos fugindo do assunto… Massimo, Conde Pantaleone, General do Estado-Maior, estava morto. Fui designado para tomar providências sobre a retirada do corpo sem alarde. Precisava de ajuda. O Exército forneceu-a na pessoa de um coronel-médico e de um advogado militar com a patente de um major. Fomos juntos de carro até o apartamento do General. Quem nos recebeu foi o Capitão Carpi. O criado do General estava chorando na cozinha com um copo de grappa na mão. Até aí, tudo certo. Nenhuma confusão. Não havia vizinhos curiosos no corredor. Os parentes não tinham sido avisados. Nunca tivera grande respeito pelo Capitão Carpi, mas não podia deixar de admirar-lhe a discrição. O coronel-médico fez um exame apressado e chegou à conclusão de que o General tinha morrido depois de tomar uma dose exagerada de barbitúricos.


Redigiu um atestado, rubricado pelo advogado militar como testemunha, no qual se estabelecia que a causa mortis tinha sido um colapso cardíaco. Não era um documento falso; era apenas um documento conveniente. O coração do General havia parado. Era uma pena que não tivesse parado alguns anos antes. Um escândalo não daria resultado para ninguém e poderia prejudicar muita gente inocente. Às oito e meia, uma ambulância militar chegou e removeu o corpo. Fiquei no apartamento com Carpi e o criado. Este nos fez café e, enquanto o tomávamos, interroguei-o. As respostas que me deu estabeleceram uma série de fatos simples. O General jantara fora. Tinha voltado para casa quando faltavam vinte minutos para a meianoite e fora imediatamente para o quarto. O criado verificara se as portas e as janelas estavam bemfechadas, ligara o alarme contra ladrões e fora para a cama. Acordara às seis e meia, preparando então o café da manhã… Visitas? Nenhuma… Estranhos? Nenhum. Os alarmes não tinham sido tocados… Telefonemas de fora ou para fora? Não havia jeito de saber. O General poderia ter falado pelo telefone direto do quarto. O telefone interno não tocara, sem dúvida alguma… A atitude do General? Normal. Era um homem muito calado e havia dificuldade em saber o que ele estava pensando fosse a que hora fosse. Só isso… Dei-lhe uma palmadinha no ombro e mandei-o para a cozinha. Carpi fechou a porta depois que ele saiu, serviu dois copos do uísque do General, entregoume um deles e fez uma pergunta. — Que é que vamos dizer aos amigos dele e à imprensa? Era uma pergunta própria dele, trivial e insignificante. — Não viu o atestado de óbito assinado e testemunhado? Morte natural, colapso cardíaco. — E o laudo da autópsia? — Capitão, o senhor parece-me ingênuo demais para ser ambicioso. Não vai haver autópsia. O corpo do General já foi levado para uma funerária, onde será preparado para ficar em câmara ardente durante bem pouco tempo. Queremos que ele seja visto.

Queremos que seja homenageado. Queremos que seja pranteado como um nobre servidor da República, o que, aliás, ele não deixou de ser. — E depois? — Depois, queremos que seja esquecido. E nesse ponto o senhor poderá ajudar-nos. — Como? — Seu chefe morreu. O senhor trabalhou bem para nós e merece um posto melhor. Sugiro alguma coisa bem longe de Roma — o Alto Adige, talvez Tarcento ou mesmo a Sardenha. Terá muito mais chances de promoção em lugares assim. — Gostaria de pensar no assunto. — Não há tempo pra isso, Capitão! Receberá os seus papéis de transferência esta manhã. Deverá entregá-los, preenchidos e assinados, hoje às cinco horas da tarde. Asseguro-lhe que será designado para um novo posto logo depois do enterro… E, Capitão…? — Sim? — Não se esqueça de que a sua posição é muito delicada. Concordou em espionar um oficial superior. Nós, do SID, lhe somos muito gratos, mas os seus colegas poderão levar a mal. A menor indiscrição poderá prejudicar a sua carreira e expô-lo a um grande perigo pessoal. Está compreendendo? — Compreendo, sim. — Muito bem. Pode retirar-se… Ah, sim. — Que é? — Tem uma chave deste apartamento. Quer fazer o favor de deixá-la aqui? — Que vai acontecer agora? — A mesma coisa de sempre. Vou examinar papéis e documentos. Depois, apresentarei um relatório. Procure mostrar-se triste na hora do enterro… Ciao! Carpi saiu, tentando cobrir-se com os farrapos de sua dignidade. Era um desses camaradas fracos e simpáticos que precisam sempre de um protetor’ e em geral o conseguem, embora estejamsempre dispostos a traí-lo em benefício de um protetor mais poderoso. Eu me servira dele para espionar os movimentos, os contatos e as atividades políticas de Pantaleone.

Passara a ser umredundante estorvo. Preparei outro copo de uísque e tentei pôr os pensamentos em ordem. O caso Pantaleone tinha todas as características de uma bomba-relógio política. O paradoxal no caso era que se poderia gritar o nome para cima e para baixo em pleno Corso e um em mil cidadãos da República não seria capaz de reconhecê-lo. Os poucos que reconhecessem seriamincapazes numa proporção de noventa por cento de compreender a sua importância ou a extensão da conspiração que se armara em tomo dele. Eu tinha dossiês de todos os principais participantes. Durante muito tempo, eu me impacientara com a minha impotência diante deles. Não eram criminosos ou, pelo menos, ainda não eram. Todos eles homens de posição — ministros, deputados, industriais, militares da ativa, burocratas — que esperavam um dia em que a confusão reinante na Itália, em vista de um governo instável, da inquietação industrial, da economia vacilante, da burocracia inepta e de um povo muito frustrado, levasse o país à beira da revolução. Nesse dia, que estava mais próximo do que muita gente imaginava, os conspiradores esperavam tomar o poder e apresentar-se à população atônita como os salvadores da República e os mantenedores da ordem e dos direitos humanos. As suas esperanças eram toleravelmente fundamentadas. Se uma junta de coronéis gregos conseguira isso, não havia motivo lógico para que um grupo muito maior e mais forte de italianos não pudesse fazer o mesmo e ainda melhor… especialmente contando com o apoio do Exército e a cooperação ativa das Forças de Segurança Pública. O nome de frente já estava escolhido havia muito tempo. Era o. nobre soldado, que servira como ajudante de ordens do Marechal Badoglio e era um patriota fervoroso e amigo do povo, o General Massimo Pantaleone; Agora, o General saíra de cena. Por que fizera isso? Que pessoa ou que fato o havia, impulsionado para aquele ato final e por quê? Havia algum novo homem à espera nos bastidores? Quem era ele? Quando e como iria revelar-se? E já estaria marcado o dia? Eu estava encarregado de responder a todas essas perguntas, e a margem de erro era na verdade muito estreita. A simples sugestão de que havia uma investigação em andamento bastaria para dividir o país de meio a meio. Se a imprensa soubesse que um documento duvidoso fora emitido pelo Exército, o fato daria manchetes em todos os jornais do mundo. A conspiração é endêmica na Itália e sempre foi desde o tempo em que Rômulo e Remo começaram a negociar com cavalos numa ilha do Tibre. Mas se as dimensões do plano e as suas possibilidades de êxito fossem conhecidas… Dio! Haveria barricadas nas ruas e os trilhos dos bondes se cobririam de sangue no mesmo dia. Não se podia excluir a hipótese de um choque dentro das forças armadas, cujas lealdades políticas estavam pro- fundamente divididas entre a direita e a esquerda. Eu não fizera uma ameaça vazia ao Capitão Carpi. Se ele tentasse vender as informações que tinha a novos patrões, seria necessário providenciar um acidente especial para ele. Enquanto isso, eu tinha o meu trabalho para fazer. Acabei de tomar o uísque e comecei a vasculhar o apartamento à procura de papéis.

Abri gavetas e armários e testei em tudo a possibilidade de esconderijos secretos. Revistei os bolsos de todas as roupas penduradas no armário. Sacudi todos os livros da biblioteca e tirei o mata-borrão da pasta em cima da escrivaninha. Não fiz qualquer esforço para examinar o que encontrava. Juntava tudo num lugar. Aquilo representaria muitas horas de trabalho para classificar e analisar e com toda a certeza daria bem pouco resultado. O General tinha sido uma velha raposa e não deixaria documentos perigosos à toa pela casa. Apesar disso, não me podia arriscar. Por isso, tirei do lugar quadros e tapetes à procura de algum cofre escondido. Fiz depois um circuito final, levantando bibelôs, taças e vasos e levantando até o forro dos estojos de joias em que o General guardava as suas ordens e condecorações. Ainda assim, quase o cartão me passa desapercebido. Estava colocado contra o rodapé da parede atrás da mesinha de cabeceira. Era um pequeno retângulo de cartolina rígida que tinha um desenho de Um lado e uma inscrição do outro. Tanto o desenho quanto a inscrição tinham sido feitos à mão com tinta nanquim. O desenho fora executado num traço corrido com uma série de complicados laços e floreios. Representava uma salamandra com uma coroa à cabeça e deitada num leito de chamas. A inscrição era vazada em quatro palavras de perfeita caligrafia: “Un bel domani, fratello”. “Um belo amanhã, irmão.” Era uma frase bem italiana que poderia servir de prefácio a uma porção de sentimentos: uma esperança vã, uma promessa de recompensa, uma ameaça de vingança ou um brado de alerta. A palavra irmão era ambígua também e a salamandra era incompreensível a menos que fosse emblema de algum clube ou sociedade, Entretanto, não havia nos meus fichários qualquer associação com esse nome ou esse emblema. Teria de entregar o caso ao estudo dos especialistas. Voltei para a sala, peguei um envelope em branco, coloquei o cartão dentro dele e guardei-o no bolso do paletó. Achei então que estava na hora de uma conversa particular com o sargento de cavalaria. Fui encontrá-lo na cozinha, dando a impressão de um velho deprimido em face de um futuro incerto. Consolei-o com a ideia de que o General devia ter deixado alguma coisa no testamento para ele e que, de qualquer maneira, ele teria direito a receber do espólio a indenização pela dispensa.

Isso o animou um pouco e ele me ofereceu queijo e vinho. Enquanto bebíamos juntos, ele começou a falar e eu me senti muito feliz em dar-lhe corda. — Ele não precisava ser militar, sabe disso? Os Pantaleones sempre tiveram dinheiro a sair pelo ladrão. Não que fossem mão aberta, lá isso não! Sempre olharam para os dois lados de uma nota e choraram de saudades antes de gastá-la. Com certeza por isso é que sempre foram ricos. Terras na Romagna, edifícios de apartamentos no Lácio, a velha propriedade em Frascati, a vila em Ponza… mas esta deve estar agora com ela. — Ela quem? — A polonesa, sabe? A mulher com quem ele jantou ontem à noite. Como é o nome dela? Anders… É companheira dele há muitos anos, embora eu deva dizer que ele era muito rigoroso quanto a isso. Nunca a trouxe aqui. Engraçado…. Não queria que se pensasse que ele estava gozando de qualquer maneira a vida. Como a gente dizia no Exército, nascera com uma espada enfiada na espinha. É claro que eu a conhecia. Costumava atender o telefone quando ela ligava… Às vezes, ia até a casa dela entregar alguma coisa que o General mandava. É uma mulher bem bonita e que ainda não mostra a idade. Isso me lembra uma coisa… Alguém devia dizer a ela o que aconteceu. — Deixe isso comigo. Onde é que ela mora? A pergunta era um subterfúgio. Eu sabia a resposta e muita coisa mais sobre Lili Anders, — Parioli. O endereço está no caderninho do General. — Vou procurá-lo. — Espere aí! Não vai levar daqui nada do que pertencia ao General, vai? Eu sou o responsável por tudo e não quero encrencas comigo. — Vou levar todos os papéis e preciso de uma valise para guardar tudo. — Mas por quê? — É uma questão de segurança. Não podemos deixar aqui à toa documentos confidenciais.

Por isso, vamos levar tudo, separar os que pertencem ao Exército e entregar os papéis particulares ao advogado dele. Você não terá qualquer problema porque eu lhe passarei um recibo antes de sair. Certo? — Acho que sim… Espere um pouco! Quem é o senhor? Não sei nem seu nome. — Matucci, dos Carabinieri. — Carabinieri! Não há nada de anormal, há? — Claro que não… É esse o procedimento normal quando se trata de um homem importante como o General. — Quem é que vai tomar as providências, avisar os amigos dele e tudo mais? — O Exército. — E eu? Que é que eu vou fazer? Ficar aqui de braços cruzados? — Vou lhe dizer uma coisa que você poderá fazer. Pode haver pessoas que telefonem para cá. Tome nota dos nomes e dos telefones e nós conseguiremos alguém para telefonar para essas pessoas. — Tem certeza de que me pagarão? — Não se preocupe. Você tem de ser pago. É da lei… Ah! Tenho mais uma pergunta para lhe fazer. Onde foi que o General jantou ontem à noite? — No Clube de Xadrez. — Tem certeza? — É claro que tenho certeza. Eu tinha de saber sempre onde ele estava. As vezes, tocavam o telefone para ele do Estado-Maior ou do Ministério… Mais um pouco de vinho? — Não, muito obrigado. Já vou chegando. — Tem certeza do meu dinheiro? — Certeza absoluta. Não se vai esquecer de tomar nota dos telefonemas? — Fique descansado e confie em mim. O General confiava. E eu nunca lhe falhei. Sabe de uma coisa? Ele era frio como um pedaço de gelo, mas eu vou ter saudades do velho. De verdade. O homem estava ficando sentimental e eu tinha de livrar-me dele. Rabisquei um recibo, peguei a mala de documentos e saí para o magro sol de primavera.

Passavam dez minutos de uma hora da tarde. As lojas estavam fechando as portas e as ruas estavam cheias de gente que ia para casa almoçar e fazer a sesta. 2 Falando com sinceridade, não gosto dos romanos. Sou da Toscana e essa gente aqui tem parentesco muito próximo com os hotentotes. A cidade é um monturo e o campo em volta um vasto depósito de lixo. Têm a pior cozinha e os gastrônomos mais dispépticos de toda a Itália. São rudes, sujos, cínicos e despidos das qualidades mais elementares. Têm o rosto fechado à compaixão e o espírito mesquinho e rancoroso. Já viram tudo e nada aprenderam, à exceção das artes mais baixas da sobrevivência. Conheceram a grandeza imperial, a pompa do papado, a guerra, a fome, a peste e a pilhagem. Apesar disso, dobrarão o joelho diante de qualquer tirano que lhes dê um pão a mais e entrada grátis para o circo. Ontem, foi Benito Mussolini, embebedado de retórica, a falar para eles do balcão da Piazza Venezia. Amanhã, talvez seja outro. E onde estará esse outro agora neste momento da Quarta-Feira de Cinzas deste ano de graça duvidosa? Uma coisa era certa. Não poderia estar como Dante Alighieri Matucci parado no meio do Campo Marzo. Sacudi a cabeça para interromper meus devaneios e caminhei meia quadra até meu carro, joguei os documentos no banco de trás e tomei o caminho do escritório. Podia ter-me poupado esse trabalho. Dois dos meus funcionários tinham saído para almoçar. O terceiro estava namorando com a datilografa e o arquivo estava sem luz porque a energia tinha sido interrompida em consequência de uma greve de duas horas. Havia um recado telefônico do Ministério do Interior que solicitava “contato imediato sobre um assunto urgentíssimo”. Quando telefonei, soube que a pessoa que queria falar comigo estava atendendo a alguns visitantes estrangeiros e quase certamente não estaria de volta antes das quatro horas. Corpo de Baco! Que gente mais preguiçosa! O Juízo Final poderia chegar e acabar, os maoístas poderiam estar naquele momento atacando a Porta Angélica da Cidade do Vaticano, mas os romanos tinham de acabar a sua sesta antes de tomarem qualquer providência. Deixei a mala com os documentos em cima da mesa e chamei o terceiro funcionário para selecionar e conferir os papéis. Depois, desde que a greve tinha feito o elevador parar, subi três lances de escadas até o laboratório, onde não podia deixar de haver alguém vivo, mesmo à hora do almoço. Como de costume, encontrei o velho Stefanelli que, de acordo com a opinião corrente no escritório, dormia todas as noites dentro de um vidro de formol e saía de lá todas as manhãs ao romper do sol, vivo como um sagui.

Era um camarada magro e encarquilhado, de cabelos cor de palha, dentes amarelos e uma pele que parecia de couro velho. Já completara, dez anos antes, a idade compulsória para a aposentadoria, mas conseguia continuar no serviço ativo graças a uma mistura de proteção e absoluta competência. O que os outros técnicos queimavam os miolos para aprender, Stefanelli sabia. Se a gente jogava na palma da mão dele uma pitada de poeira, ele dizia a província, a região e era capaz de dizer até a aldeia de onde tinha vindo aquela poeira. Bastava entregar-lhe um retalho de pano e ele o esfregava um momento entre os dedos, dizendo então qual era a percentagem de algodão e qual a de poliéster e dando uma lista das fábricas que o poderiam ter feito. Com uma gota de sangue, duas lixas de unhas e uma mecha de cabelos ele reconstituía a mulher que tinha usado tudo isso. Era um gênio na sua especialidade, embora rabugento e criador de problemas, sem paciência com aqueles que o contrariavam e capaz de trabalhar vinte e quatro horas por dia para servir a quem confiava nele. Lia tremendamente e gostava de apostar dinheiro nos seus conhecimentos técnicos. Só uma pessoa muito nova no serviço ou muito vaidosa seria capaz de apostar contra ele. Quando eu entrei, ofegante e de cara fechada, ele me recebeu com exuberância. — Olá, Coronel! Que é que tem hoje para o velho Steffi? Eu tenho um pequeno problema para o senhor… Morte por asfixia… alcaloides verdes no sangue… Não havia lesões, nem contusões nem qualquer meio aparente de entrada na corrente sanguínea. Cinco mil liras se me disser o que foi. — É claro que você falando assim, Steffi, eu vou perder meu dinheiro. O que foi? — Um molusco do Pacífico Sul. É chamado de Pano de Ouro. Ao contato, injeta agulhas microscópicas cheias de alcaloides que paralisam o sistema nervoso central. A vítima foi um biólogo especializado na fauna marinha que trabalhava com os americanos no Pacífico Sul… Se estiver interessado, eu lhe mandarei notas sobre o caso. — Obrigado, Steffi, mas hoje não, que eu já estou cheio de problemas. — Tirei do bolso o cartão da salamandra e passei-o às mãos dele. — Quero que me diga tudo o que puder sobre isto. Papel, o trabalho de pena, o sentido do símbolo e quaisquer impressões que encontrar. E estou com pressa. Stefanelli examinou atentamente o cartão durante alguns momentos e começou a falar: — A cartolina é de fabricação japonesa. Muito boa qualidade feita à base de papel de arroz. Posso dizer quem é o importador em menos de vinte e quatro horas.

O trabalho de pena é fantástico! Tão belo que chega a emocionar! Nunca vi nada de parecido desde que Aldo, o Calígrafo, morreu em 1935. Lembra-se dele? Não, não pode lembrar-se. Era muito moço. Aldo tinha um escritório perto da Cancelleria. Ganhou muito dinheiro falsificando certificados de ações e fazendo patentes de nobreza para camaradas que se queriam casar com americanas ricas… Muito bem, Aldo morreu e não pode ajudá-lo. Temos de recorrer aos arquivos para saber quem é o especialista agora… O desenho? Bem…. trata-se evidentemente de uma salamandra, o animal que vive no fogo. O que significa, não sei. Pode ser a marca registrada de alguma coisa. Pode ser uma tessera, um cartão de sócio de algumclube. Pode ser adaptado de algum brasão. Vou falar com Solimbene… Não o conhece, mas é um velho amigo meu. Trabalha na Consulta Araldica. Conhece todos os brasões da Europa. Pode lê-los como um de nós leria um jornal. — Boa ideia. Por que não tira algumas cópias antes que os outros voltem do almoço? Vou precisar de uma para as minhas investigações. — Onde foi que achou isto, Coronel? — O General Pantaleone morreu esta noite- Encontrei isso no quarto dele. — Pantaleone? Aquele velho fascista! Que foi que houve com ele? — Morte natural, Steffi… temos um atestado de óbito devidamente legalizado como prova. — Muito conveniente! — Muito necessário. — Suicídio ou assassinato? — Suicídio. — Hum! Tudo é muito suspeito! — Por enquanto, Steffi, isso fica entre mim, você e o Diretor. Conserve o cartão em seu poder. Nada de arquivo, nem de discussões no laboratório. Completo silêncio até nova ordem minha.

Stefanelli sorriu e levou ao nariz o dedo ossudo, um gesto que indicava a compreensão e a aceitação do segredo. — Gosto tanto de fascistas quanto você, Coronel. E olhe que tivemos um punhado deles aqui no departamento. Duvido às vezes de que haja ou tenha havido democratas na Itália, além de nós dois. Se não tivermos um governo estável quanto antes, sofreremos um colpo di stato sob o comando de um fascista. Uma semana depois, haverá guerra civil ou coisa muito parecida — Esquerda contra Direita, Norte contra Sul. Estou velho, mas posso sentir o cheiro do vento… E tenho medo, Coronel. Afinal de contas, tenho filhos e netos e não quero que eles venham a sofrer como nós sofremos… — Nem eu, Steffi. Por isso é que temos de saber quem vai ficar no lugar do General. Saiba tudo o que puder sobre esse cartão. Quando chegar a alguma conclusão, telefone-me a qualquer hora do dia ou da noite. — Boa sorte. Coronel. — Vou precisar mesmo disso… Ciao, Steffi. Estava no momento numa zona morta. Não podia fazer qualquer ideia dos documentos de Pantaleone enquanto eles não fossem selecionados e classificados, sendo então cotejados com o nosso dossiê do General. O Diretor era o único homem com quem eu podia comentar abertamente o caso e ele não estava no escritório. Podia, sem dúvida, telefonar para Francesca, a pequena modelo que estava sempre livre depois do meio-dia. Mas isso me deixaria como que dopado e sonolento pelo resto da tarde. Optei por uma xícara de café num bar e, depois, tomei o carro para ir até Parioli e ver Lili Anders. O apartamento dela ficava no terceiro andar de um edifício novo, todo de alumínio e vidro, com porteiro fardado e um elevador todo revestido de lambris de nogueira. O apartamento havia custado, de acordo com o dossiê da moça, sessenta milhões de liras. As despesas de condomínio eram, de acordo com o contrato, de 120 mil liras por mês. Os registros fiscais da Comune di Roma mostravam que Lili Anders era taxada na base de um padrão de vida visível de um milhão de liras por mês. Desde que ela pagava os impostos sem reclamar, era evidente que devia estar vivendo num padrão que era o dobro da quantia lançada pela Prefeitura.

Eu mantinha um apartamento, umempregado, um Fiat de três anos e uma companheira ocasional com 600 mil liras por mês fora os impostos, e julgava Lili Anders uma mulher de muita sorte. Por isso, quando toquei a campainha do apartamento, sentia-me mal-humorado e revoltado. Uma empregada de alguma idade, de vestido preto e avental branco engomado, me recebeu com o laconismo e a hostilidade de uma verdadeira romana. — Sim? — Matucci. Carabinieri. Quero falar com a Signora Anders. — Marcou hora? — Não. — Terá então de vir mais tarde. A Signora está dormindo. — Tenho então de pedir-lhe que vá acordá-la. Meu assunto é urgente. — Alguma identificação? Apresentei-lhe minha carteira e ela a leu lentamente, linha por linha. Depois, varreu-me para o corredor como se eu fosse um punhado de lixo e me deixou. Esperei, sombrio e dispéptico, mas tocado de uma admiração ácida por aquela velha matrona, cujos antepassados tinham jogado as telhas das casas em papas, cardeais e pequenos príncipes. Por fim, Lili Anders fez a sua entrada. Era extremamente bem conservada para uma mulher de trinta e tantos anos. Talvez fosse um pouquinho gorda para o meu gosto, mas ainda estava na ladeira de subida do tempo. Se estava mesmo dormindo, havia-se preparado com perfeição. Todos os cabelos louros estavam no lugar certo, a maquilagem não parecia empastada e não se via uma só ruga na saia, na blusa ou nas meias. Cumprimentou-me com polidez mas frieza. — Queria falar comigo? — Particularmente, se possível. Ela me fez passar para o salão e fechou a porta. Convidou-me a tomar uma cadeira e ficou de pé junto à lareira sob um retrato equestre de Pantaleone. — É, segundo creio, dos Carabinieri. — Sou o Coronel Matucci.

— Posso saber o motivo de sua visita? — Infelizmente, o motivo é desagradável. — Oh? — Sinto ter de informar-lhe que o General Pantaleone morreu nesta madrugada. Ela não chorou. Não teve uma exclamação. Encarou-me com os olhos arregalados e trêmula, procurando apoiar-se na lareira. Aproximei-me para ampará-la, mas ela me dispensou a ajuda com um gesto. Fui até o bufê, servi um cálice de conhaque e levei-o para ela. Bebeu o conhaque de umgole, mas se engasgou e tossiu. Dei-lhe o lenço limpo que levava no bolso do peito do paletó e ela enxugou os lábios e a frente da blusa. Disse-lhe então calmamente: — É sempre um choque, até para nós que já estamos habituados. Se quiser chorar, não faça cerimônias. — Não vou chorar. Ele foi bom comigo e gentil, mas não tenho lágrimas para ele. — Há mais uma coisa que deve saber. — Que é? — Morreu pela própria mão. Não fez o menor sinal de surpresa. Encolheu os ombros e abriu as mãos num gesto de derrota. — Com ele isso era sempre possível. — Por que diz isso? — Havia muitos cantos escuros na vida dele, Coronel. Muitos segredos, muita gente escondida a esperá-lo. — Ele lhe disse isso? — Não. Eu sabia. — Então talvez saiba por que ele escolheu esta noite para se matar. Por que não na semana passada ou no próximo mês? — Não sei. Há muito tempo que ele me parecia deprimido, há um mês ou mais.

Perguntei-lhe mais de uma vez o que o estava afligindo e ele sempre desconversou. — E ontem à noite? — Houve apenas uma coisa. Durante o jantar, um garçom lhe levou um recado. Não me pergunte o que foi. Sabe como é o Clube de Xadrez: apenas sussurros e incenso, como numa igreja. Deixou-me sentada à mesa e saiu. Demorou cerca de cinco minutos. Quando voltou, disse-me que tinha falado pelo telefone com um colega. Nada mais. Depois, quando ele me trouxe até aqui em casa, convidei-o a entrar. Às vezes, passava a noite aqui, às vezes não. Dessa vez, disse que tinha muito trabalho para fazer em casa. Era normal ele me dizer isso e eu não discuti, até porque me sentia cansada. Tirei do bolso a fotocópia do cartão da salamandra e entreguei-a a ela. — Já viu alguma vez isso ou coisa parecida? Ela olhou atentamente o cartão durante alguns momentos e então sacudiu a cabeça. — Nunca. — Reconhece o animal? — Alguma espécie de lagarto… um dragão talvez. — E a coroa? — Nada. — E as palavras? — Dizem apenas: “Um belo amanhã, irmão”… Nada mais. — Já as ouviu antes em algum lugar? — Que eu me lembre, não. Sinto muito. — Por favor, minha senhora! Não tem nada de que se censurar. Sofreu um choque terrível, com a perda de um amigo a quem prezava. E agora venho afligi-la ainda mais. Mas é de meu dever avisá-la de que a partir deste momento a senhora está correndo um grave perigo pessoal.

— Não compreendo. — Permita-me então explicar-lhe. Vem sendo há muito tempo a companheira de um homem importante, que foi considerado explosivo por alguns elementos. Presume-se sempre que uma companheira é uma confidente, um repositório de segredos. Ainda que o General nada lhe tenha dito, outros podem acreditar que ele lhe dissesse tudo. É inevitável, portanto, que fique sob vigilância, sofra pressões e até ameaças. — De quem?

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