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A sangue frio – Truman Capote

Está no lendário das colunas sociais: Truman Capote, Gore Vidal e Norman Mailer, em sarau literário, discutiam livros. Cada qual, evidentemente, falando de seus próprios livros. Capote, o mais baixinho e fisicamente frágil dos três, assim como de longe o mais venenoso, virou-se e disse (Capote era uma das poucas pessoas no mundo capazes de “virar-se” e dizer uma coisa): “Tudo isso que vocês estão dizendo pode ser muito interessante, mas a verdade é que eu escrevi uma obraprima, e vocês não”. Não é que o baixinho estava com toda a razão? O danado escreveu mesmo uma obra-prima. Sim, claro, estamos falando, como Capote, de A sangue frio. Nascido em Nova Orleans em 1924, falecido na Califórnia em 1984, Truman Streckfus Persons adotou por conta própria, aos onze anos, em 1935, o sobrenome do padrasto, Joseph Garcia Capote, descendente de portugueses, para quem essas coisas são importantes. De 1941 a 1944, trabalhou como of ice-boy na editoria de arte da The New Yorker, berço esplêndido de tantos astros e estrelas do futebol literário norte-americano. Acabou irritando o irritadiço poeta Robert Frost, o que lhe valeu a demissão. Em 1945, Capote publicou dois contos: um na revista Mademoiselle, outro na Harper’s Bazaar. Conto em revista, na época, era o equivalente a vender direito de filmagem para Hollywood. Além do dinheiro, dava cartaz. Em 1948, Capote publica Other voices, other rooms, romance gótico ambientado no sul dos Estados Unidos em que o texto perdia de longe, em matéria de escândalo, para a contracapa do livro: lá estava ele, lânguido como Claudette Colbert em Cleópatra (1934), estendido sobre o que só podia ser uma liteira. Com 24 anos, baixinho, voz escorrida como melado, decadente de estirpe, Truman Capote estava pronto para enfrentar e domesticar o mundo. Publicou a coletânea de seus contos, também góticos, A tree of night, em 1949, e um romance mais ligeiro, A harpa de erva, em 1951, que acabou virando primeiro peça e, já no século xxi, uminfelizmente telefilme. 1958 é o ano que mais deve irritar Vidal e Mailer. Capote publica uma noveleta, Breakfast at Tif any’s, que, três anos mais tarde, viraria filme-veículo para Audrey Hepburn e que, no Brasil, passou com o estonteante título de Bonequinha de luxo, como se fosse gravação dos Anjos do Inferno ou filme de Gilda de Abreu. O livrinho vendeu mais que os lendários e inexplicáveis “pãezinhos quentes”. Capote é festejado. Festejadíssimo. E gosta, gosta muito das festas, festinhas e festivais em sua homenagem. Vira astro de coluna social, figura indispensável em reuniões de aquilo que já foi chamado, por nós, de “café-society”: alta sociedade e até mesmo grã-finos, para se ter uma idéia de como o mundo é engraçado. Capote não percebeu, escondido nas mãos que o afagavam, cobertas por longas luvas de veludo, o punhal escondido, nem pressentiu o gesto à procura do chicote. 1959. Possivelmente meio de ressaca, depois da festa na noite anterior, Capote folheia o — claro — The New York Times. Sabe-se lá que musas (mais sobre elas daqui a pouco) fizeram com que seus olhos se detivessem sobre uma pequena nota de dois parágrafos sobre como o sr.


e a sra. Herbert W. Clutter, mais filho e filha, todos da cidade de Holcomb, no estado de Kansas, o mesmo de Dorothy, Toto e do Mágico de Oz, haviam sido brutalmente assassinados. Capote, segundo seu próprio relato, bolou que isso poderia dar num bom livro sobre crime e sobre um estado que desconhecia, o Kansas. Fez as malas e partiu para Holcomb na companhia de sua amiga, a também escritora (e boa) Harper Lee, aquela daquele filme com o Gregory Peck, To kill a mockingbird (1962), e o romance de título idêntico, ganhador do prêmio Pulitzer, nenhum dos quais, insista-se, recebeu o título de O sol é para todos — isso é desses massacres que só acontecem no Brasil. Frise-se: quando Capote e Harper Lee partiram para o Kansas, os assassinos ainda eram desconhecidos e não haviam sido capturados. Ah, sim. As musas. The muses are heard. 1958. Reportagem, por assim dizer. Capote acompanhou a excursão à União Soviética de uma montagem de Porgy and Bess (a produção passou pelo Municipal do Rio), sob o patrocínio do Departamento de Estado, como parte de intercâmbio cultural entre Estados Unidos e o então Reino do Mal. Foi publicado na The New Yorker, para variar, talvez a única revista no mundo, mesmo até os dias de hoje, que banque e encoraje a prática de alguma forma, mesmo e inclusive, nova ou inovadora de expressão artística. Nela, Capote afiara seus pequenos dentes de piranha de jornalista, conforme atestam seus inúmeros perfis para a revista. As maldades dele com Marlon Brando, durante as filmagens de Sayonara (1957), são, como tanta coisa do homenzinho, antológicas. Em Holcomb, no Kansas, a figura dramaticamente urbana de Truman é quase tanto motivo de choque quanto o brutal crime múltiplo. Harper Lee lhe foi utilíssima para angariar a confiança e abrir as comportas do papo entre as pessoas entrevistadas. Capote sabia ouvir. Isso lhe foi útil na pequena cidade e em meio à sociedade, que tanto admirava e cultivava, de Manhattan. Capote, umconquistador nato, acabou hipnotizando (é o único verbo possível) os habitantes-chave de Holcomb. Presos os dois assassinos, conseguiu ter acesso a eles e — seria identificação? — aos trejeitos psicológicos que aproximam dois homossexuais, se um quê homossexual tivesse Perry Smith. Há teses a respeito — acabou íntimo de Perry, ele também pouco mais que um anão, como Capote. Capote passou ao todo um ano e meio no Kansas examinando aspectos da “história” e conversando com quem podia, principalmente os “dois meninos”, como os chamava. Depois foram quase cinco anos de quebrar pedreira, ou geleira, em Verbier, nos Alpes suíços, onde possuía um pequeno chalé. O tom jet-set, tão ao gosto do pobre Capote, foi dado pelo resto do trabalho, efetuado em Brooklyn Heights, onde era dono de um apartamento.

Consta que Capote passou um desses seis anos apenas trabalhando nas notas, burilando-as, antes de escrever uma única linha do livro (que ainda não fora batizado como “non-fiction novel” ou “romance sem ficção”). Sempre segundo Capote, ele já delineara o livro inteiro em sua mente, exceto pela última parte, aquela que ele chamava de “a dispensação” do caso. Ainda no departamento do “consta” (Capote, infelizmente, mentia furiosamente. Dele também a invenção, pode-se dizer, da “vida-com-ficção”.): ele garantia, em todos os seus depoimentos e entrevistas, ser capaz de memorizar horas de conversa, tendo treinado para isso com um amigo, que lia trechos de um livro e ele, Capote, depois, acertava lá por volta dos 95% do texto. Era sua maneira de dispensar o uso do odioso gravador, talvez o maior inimigo do bom jornalismo. Consta (sempre e novamente) que Capote não lançou mão de 80% de suas pesquisas. Consta que se tivesse publicado 20% do material acumulado naqueles anos de entrevista acabaria com um livro de mais de 2 mil páginas. Há uma infinidade de “consta” na vida de Capote. Na obra, para felicidade geral, nada consta, a não ser talvez o melhor texto da literatura e da reportagem americana do século xx. Truman Capote batizou seu livro de “romance sem ficção”. Para ele, jornalismo era apenas fotografia literária. Ele ambicionava algo mais. Um gênero só para ele. Não achava que Hiroshima, de John Hersey, pudesse ser comparado com A sangue frio. Para ele, o livro de Hersey era, claro, criativo, no sentido de que não coletara gente falando para um gravador, sofrendo depois um processo editorial. Hiroshima era jornalismo clássico, assim como Children of Sanchez, de Oscar Lewis, era um documentário extraído de fitas gravadas e, por mais engenhosas e comoventes, não constituía um livro criativo. Seu modelo, beirando o ideal, era Lillian Ross e o que ela fizera comPicture, extraordinária reportagem literária em que ela acompanhara John Huston e a filmagem de uma adaptação do romance The red badge of courage, de Stephen Crane. Claro que fora primeiro publicada em — é evidente — The New Yorker. Outros que chamaram a atenção estética de Capote: Joseph Mitchell, o texto escarrado (“emblemático” é a mãe) da New Yorker e, isso é curioso, a inglesa Rebecca West. (Curioso Capote não morder nenhum dos citados. É definitivo e antológico seu julgamento sobre as sandices perpetuadas pelo pobre do Jack Kerouac. Quando confrontado com o terrível On the road, Capote foi ao âmago da questão: “Isso não é escrever. Isso é bater à máquina”.) A sangue frio foi lançado em início de 1966, virou estrondoso sucesso de crítica e vendas, desfrutou das vantagens de ser o livro do mês e para comemorar o sucesso e a recém-adquirida fortuna, o bom e leviano Truman Streckfus Persons deu o que até hoje é considerado o baile do século passado: o Black and White Ball, no Hotel Plaza de Nova York.

Baile e autor foram considerados clássicos instantâneos. Assim como nas últimas páginas de A sangue frio, encerremos em ritmo de fuga, citando o não muito digno de confiança Capote (ele não disse nada sobre a tradução ou o uso de citações): “Um dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara por toda vida a um senhor nobre porém implacável. Quando Deus lhe dá um dom, ele também lhe dá um chicote; e o chicote se destina apenas à auto-flagelação… Estou aqui sozinho na escuridão de minha loucura, sozinho com meu baralho — e, é claro, o chicote que Deus me deu”. Hum. Capaz. a sangue frio Para Jack Dunphy e Harper Lee, com amor e gratidão Agradecimentos Todo o material contido neste livro que não provém de minha própria observação ou foi retirado dos registros oficiais ou resulta de conversas com as pessoas diretamente envolvidas, entrevistas emgeral realizadas ao longo de um extenso período. Uma vez que esses “colaboradores” aparecemidentificados no texto, seria redundante relacioná-los; ainda assim, quero manifestar aqui minha gratidão formal, pois sem sua paciente cooperação meu trabalho não teria sido possível. Também não vou fazer uma lista de todos os cidadãos do condado de Finney que, embora seus nomes não apareçam nestas páginas, trataram o autor com uma hospitalidade e uma amizade que ele poderá até retribuir, mas jamais pagar. No entanto, quero agradecer a algumas pessoas cujas contribuições ao meu trabalho foram muito específicas: o dr. James McCain, presidente da Universidade do Estado do Kansas; o sr. Logan Sanford e os membros do Kansas Bureau of Investigation; o sr. Charles McAtee, diretor das Instituições Penais do Estado do Kansas; o sr. Clifford R. Hope, Jr., cuja ajuda em questões de ordem legal foi valiosa; e finalmente, mas na verdade em primeiro lugar, o sr. William Shawn da revista The New Yorker, que me estimulou a empreender este projeto e cujos critérios me mantiveram no bom caminho do começo ao fim. T. C. Frères humains qui aprés nous vivez, N’ayez les cuers contre nous endurcis, Car, se pitié de nous povres avez, Dieu en aura plus tost de vous mercis. François Villon, “Ballade des pendus” [Irmãos humanos que ainda viveis, Não sejais corações endurecidos; Tendo pena de nós, pobres, talvez De Deus sereis mais cedo merecidos. François Villon, “Balada dos enforcados”] 1. Os últimos a vê-los com vida A cidade de Holcomb fica nas planícies do oeste do Kansas, lá onde cresce o trigo, uma área isolada que mesmo os demais habitantes do Kansas consideram distante. A uns 110 quilômetros da divisa entre o Kansas e o Colorado, a paisagem, com seu céu muito azul e o límpido ar do deserto, tem uma aparência que está mais para a do Velho Oeste do que para a do Meio-Oeste. O sotaque local traz as farpas da pronúncia cortante da pradaria, a nasalidade dos caubóis, e os homens, muitos deles, usam calças apertadas, chapéus Stetson e botas de salto alto com bicos pontudos. A terra é plana, e os panoramas são incrivelmente extensos; cavalos, rebanhos de gado e um aglomerado branco de silos de cereais que se elevam com a graça de templos gregos são visíveis muito tempo antes que o viajante os alcance.

Holcomb também pode ser vista de muito longe. Não que haja muito para ver — apenas uma congregação desordenada de construções dividida ao meio pelos trilhos da linha principal da Santa Fe Railroad, um vilarejo fortuito delimitado ao sul por um trecho barrento do rio Arkansas, ao norte por uma auto-estrada, a Route 50, e a leste e oeste pelas pradarias e os campos de trigo. Depois que chove, ou quando a neve descongela, a poeira das ruas — sem nome, sem sombra, sem calçamento — transforma-se numa lama espessa e pegajosa. Numa das extremidades da cidade fica uma estrutura austera revestida de estuque, em cujo teto se ergue um letreiro elétrico em que se lê a palavra dance — mas ninguém dança mais, e faz muitos anos que o anúncio está apagado. Ao lado fica outro prédio com um letreiro irrelevante, dessa vez pintado em letras douradas que aos poucos vêm descascando numa vitrine suja — banco de holcomb. O banco fechou as portas em 1933, e suas antigas dependências foram transformadas em apartamentos residenciais. É um dos dois “prédios de apartamentos” da cidade: o segundo é um casarão desconjuntado que, por abrigar boa parte do corpo docente da escola local, é conhecido como Casa dos Professores. Mas as residências de Holcomb são em geral casas térreas de madeira, com varandas na frente. Ao lado da estação do trem, uma mulher magra de calças jeans, botas de caubói e jaqueta de couro cru comanda uma agência dos Correios caindo aos pedaços. A estação ferroviária propriamente dita, com sua pintura descascada cor de enxofre, é igualmente deprimente; o Chief, o Super-Chief e o El Capitan passam por lá todos os dias, mas esses famosos trens expressos jamais param em Holcomb. Nenhum trem de passageiros pára na cidade — só um ou outro trem de carga. Na estrada há dois postos de gasolina: um também funciona como empório de poucos suprimentos, enquanto o outro faz hora extra como café — o Hartman’s Café, onde a proprietária, a sra. Hartman, serve sanduíches, café, refrigerantes e cerveja de baixo teor alcoólico. (Holcomb, como todo o resto do Kansas, vive sob a lei seca.) E isso é tudo, literalmente. A menos que ainda contemos, como é justo contar, a escola de Holcomb, estabelecimento cuja beleza revela uma circunstância que a aparência da comunidade de resto camufla: os pais que mandam seus filhos para essa escola moderna, “consolidada” e dotada de bons professores — com turmas que vão do jardim-de-infância ao final do secundário e com uma frota de ônibus para o transporte dos alunos, que no total são cerca de 360 e acorrem para as aulas de distâncias que chegam a quase cem quilômetros — são, em geral, pessoas prósperas. Em sua maioria proprietários rurais, têm origens muito diversas — alemã, irlandesa, norueguesa, mexicana, japonesa. Criam bois e carneiros, plantam trigo, sorgo, capim e beterraba. A agricultura é sempre uma atividade de risco, mas no oeste do Kansas os que a praticam consideram-se “apostadores natos”, pois precisam enfrentar chuvas extremamente escassas (a média anual é de 450 milímetros) e angustiantes problemas de irrigação. No entanto, por sorte, nos últimos sete anos não houve estiagem, e os fazendeiros do condado de Finney, de que Holcomb faz parte, tiveram bons resultados: ganharam dinheiro não só com a agricultura, mas também com a exploração dos abundantes recursos de gás natural, e esses ganhos se refletiram na escola nova, nos interiores confortáveis das sedes das propriedades, nos elevados e repletos silos de cereais. Até uma certa manhã de meados de novembro de 1959, poucos americanos — e bem poucos habitantes do Kansas, na verdade — jamais tinham ouvido falar de Holcomb. Assim como as águas do rio, assim como os motoristas que trafegam pela rodovia, assim como os trens amarelos que correm pelos trilhos da Santa Fe, o drama, na forma de acontecimentos excepcionais, jamais tinha feito escala naquele lugar. E os habitantes da cidade, num total de 270, sentiam-se perfeitamente satisfeitos com isso, contentando-se com uma existência bem comum — trabalhar, caçar, ver televisão, participar das atividades sociais da escola, comparecer aos ensaios do coro ou às reuniões do Clube 4-s. Nas primeiras horas daquela madrugada de novembro, porém, sons nada costumeiros sobrepuseram-se aos ruídos noturnos normais de Holcomb — a histeria aguda dos coiotes, o arrastar seco das folhas sopradas pelo vento, o lamento distante dos apitos de locomotiva. Na ocasião, não foram ouvidos por ninguém na Holcomb adormecida — quatro disparos de espingarda que, no fimdas contas, deram cabo de um total de seis vidas humanas.

Depois deles, porém, os moradores do local, até aquele momento tão pouco desconfiados uns dos outros que quase nunca se davam ao trabalho de trancar suas portas, passaram a revivê-los vezes sem conta em suas fantasias — aqueles disparos sombrios que produziram clarões de suspeita à luz dos quais muitos velhos vizinhos começaram a olhar-se de um modo estranho e a se comportar como estranhos. O proprietário da fazenda River Valley, Herbert William Clutter, tinha 48 anos de idade e, graças aos resultados de exames médicos que fizera recentemente para um seguro de vida, sabia estar emperfeitas condições de saúde. Embora usasse óculos sem aro e tivesse apenas uma estatura mediana, pouco menos de 1,75 metro de altura, o sr. Clutter fazia uma bela estampa masculina. Seus ombros eram largos, seus cabelos continuavam escuros, seu rosto confiante, retangular, conservava a aparência jovem e um colorido saudável, e seus dentes, sem manchas e fortes o bastante para partir nozes, ainda estavam intactos. Pesava em torno de setenta quilos — o mesmo peso de quando se formara na Universidade do Estado do Kansas, onde se diplomara em agricultura. Não era tão rico quanto o homem mais rico de Holcomb — o sr. Taylor Jones, um fazendeiro de gado das proximidades. No entanto, era o cidadão mais conhecido da comunidade, importante tanto nela quanto na vizinha Garden City, a sede do condado, onde presidira o comitê de construção da recéminaugurada Primeira Igreja Metodista, edifício que custara 800 mil dólares. Era presidente da Conferência das Organizações Agrícolas do Kansas, e seu nome era reconhecido com respeito entre todos os agricultores do Meio-Oeste, bem como em certos gabinetes de Washington, onde fora membro do Conselho Federal de Crédito Agrícola durante a presidência de Eisenhower. Sempre seguro do que queria da vida, o sr. Clutter conseguira praticamente tudo o que desejava. Em sua mão esquerda, no que lhe restava de um dedo esmagado por um equipamento agrícola, usava uma aliança de ouro, que simbolizava, havia um quarto de século, seu casamento com a mulher que tinha escolhido — a irmã de um colega de faculdade, uma moça tímida, religiosa e delicada chamada Bonnie Fox, três anos mais jovem do que ele. Ela lhe dera quatro filhos — um trio de filhas e emseguida um menino. A filha mais velha, Eveanna, casada e mãe de um filho de dez meses, vivia no norte de Illinois mas visitava Holcomb com freqüência. Na verdade, ela e sua família estavam sendo esperadas para dali a quinze dias, pois seus pais estavam planejando, para o Dia de Ação de Graças, uma vasta reunião de todo o clã Clutter (que tivera suas origens na Alemanha; o primeiro Clutter — ou Klotter, como o nome se escrevia então — a emigrar chegou aos Estados Unidos em 1880); cerca de cinqüenta parentes tinham sido convidados, vários dos quais moravam em lugares tão distantes como Palatka, na Flórida. E Beverly, a segunda das filhas do casal, também não residia mais na fazenda River Valley; morava em Kansas City, no estado de Kansas, onde estudava enfermagem. Beverly estava noiva de um jovem estudante de biologia, que seu pai aprovava com gosto; os convites para o casamento, previsto para a semana do Natal, já tinham sido impressos. Assim, só continuavam a morar na casa dos pais o filho Kenyon, que aos quinze anos já era mais alto que o pai, e uma irmã, um ano mais velha — a queridinha da cidade, Nancy. No que dizia respeito à sua família, o sr. Clutter só tinha um motivo sério de preocupação — a saúde da mulher. Ela tinha “problemas nervosos”, sofria “pequenas crises” — de acordo com as expressões delicadas usadas pelos que lhe eram próximos. Não que a verdade acerca dos “problemas da pobre Bonnie” fosse mantida em segredo; todos sabiam que volta e meia ela vinha consultando psiquiatras nos últimos seis anos. No entanto, mesmo nesse terreno sombrio o sol vinha brilhando ultimamente. Na quarta-feira anterior, ao voltar de duas semanas de tratamento no Centro Médico Wesley, em Wichita, o lugar onde geralmente se internava, a sra.

Clutter tinha trazido notícias em que o marido mal poderia acreditar; com alegria, informou-lhe que a origem de seu sofrimento, finalmente decretara a opinião médica, não estava em sua cabeça mas na espinha dorsal — era uma coisa física, e se devia ao deslocamento de uma vértebra. Ela precisava ser operada, é claro, e depois — bem, voltaria a ser a “Bonnie de antes”. Seria mesmo possível que toda a tensão, o recolhimento, os soluços abafados pelo travesseiro por trás de portas trancadas, que tudo aquilo se devesse a um problema na coluna? Se fosse verdade, bem que o sr. Clutter podia, em sua mesa de Ação de Graças, recitar uma bênção de ilimitada gratidão. Normalmente, as manhãs do sr. Clutter começavam às seis e meia; era geralmente despertado pelo clangor dos baldes de leite e pela conversa sussurrada dos dois rapazes que costumavam trazê-los, filhos de um empregado chamado Vic Irsik. Mas naquele dia ele se deixou ficar na cama, os filhos de Vic Irsik que viessem e fossem embora, porque a noite da véspera, uma sexta-feira 13, fora muito cansativa, embora em parte animadora. A “Bonnie de antes” tinha ressurgido; como que para apresentar uma prévia da normalidade, o vigor recuperado que em breve sentiria, ela passara batom, arrumara os cabelos e, envergando um vestido novo, acompanhara o marido até a escola de Holcomb, onde os dois aplaudiram uma adaptação de Tom Sawyer encenada pelos alunos em que Nancy representou o papel de Becky Thatcher. O sr. Clutter ficara muito satisfeito de ver Bonnie em público, nervosa mas assim mesmo sorridente, conversando com as pessoas, e os dois ficaram muito orgulhosos de Nancy; ela representava tão bem, sem esquecer nenhuma fala, e com uma aparência, como ele lhe dissera durante os cumprimentos nos camarins, “linda, querida — uma verdadeira beldade do Sul”. Ao que Nancy respondera com um comportamento correspondente; fazendo uma reverência com seu figurino de saia-balão, perguntou aos pais se podia ir de carro até Garden City. O State Theatre estava fazendo uma apresentação especial, às onze e meia, de uma “Sessão de Sustos” comemorativa da sexta-feira 13, e todos os amigos dela estavam indo. Em outras circunstâncias o sr. Clutter teria dito não. Suas regras eram claras, e uma delas era: Nancy — e Kenyon também — devia estar em casa às dez nas noites de semana, e à meia-noite aos sábados. No entanto, amaciado pelos acontecimentos promissores da noite, ele concordara. E Nancy só tinha voltado perto das duas da manhã. Ele a ouvira chegar, e a chamara, porque embora fosse um homem que jamais elevava a voz, tinha umas coisinhas a dizer à filha, instruções que tinham menos a ver com o adiantado da hora do que com o rapaz que viera trazê-la em casa — um dos heróis do time de basquete da escola, Bobby Rupp. O sr. Clutter gostava de Bobby, e o considerava, para um rapaz de sua idade, dezessete anos, bastante confiável e cavalheiresco; no entanto, desde que seus pais tinham começado a permitir que “saísse” com rapazes, três anos antes, Nancy, apesar de muito admirada e bonita, jamais saíra com mais ninguém, e embora o sr. Clutter compreendesse que os adolescentes de todo o país tinham adotado o costume de formar casais, “namorar firme” e usar “anéis de compromisso”, não aprovava esse costume, especialmente porque, pouco tempo antes, surpreendera acidentalmente sua filha e o jovem Rupp trocando beijos. Sugerira então que Nancy tentasse “ver Bobby um pouco menos”, dizendo que um afastamento paulatino àquela altura seria bem menos doloroso que uma separação abrupta mais adiante — uma vez que, lembrou ele, aquela separação não tinha como deixar de ocorrer. A família Rupp era católica, e os Clutter eram metodistas — o que já bastaria para pôr fim a quaisquer fantasias que ela e esse rapaz tivessem de um dia se casar. Nancy respondera de maneira razoável — pelo menos não tinha discutido — e agora, antes de dar-lhe boa-noite, o sr. Clutter conseguiu extrair da filha a promessa de dar início a um rompimento gradual com Bobby.

Ainda assim, o incidente tinha retardado de forma deplorável a hora em que ele se recolheu, que habitualmente não passava das onze. E a conseqüência foi que já eram bem mais de sete horas quando finalmente despertou no sábado, 14 de novembro de 1959. Sua mulher sempre dormia o quanto pudesse. Apesar disso, enquanto se barbeava, tomava um banho e vestia as calças de lã grossa, o casaco de couro e as botinas macias, o sr. Clutter não tinha nenhum receio de perturbá-la; os dois não dormiam no mesmo quarto. Já fazia vários anos que o sr. Clutter dormia sozinho no andar térreo, no quarto principal da casa — uma casa de madeira e tijolo de dois andares, com catorze aposentos no total. Embora a sra. Clutter ainda deixasse suas roupas no armário desse quarto, e guardasse seus poucos cosméticos e seus milhares de remédios no banheiro de azulejos azuis e tijolos de vidro adjacente a ele, tinha se apossado do antigo quarto de Eveanna, que, como os de Nancy e Kenyon, ficava no segundo andar.

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