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A Segunda Guerra Mundial – Antony Beevor

Em junho de 1944, um jovem soldado se rendeu aos paraquedistas americanos na invasão da Normandia pelos Aliados. A princípio, os seus captores pensaram que fosse japonês, mas na verdade era coreano. O seu nome era Yang Kyoungjong. Em 1938, aos 18 anos de idade, Yang fora alistado compulsoriamente pelos japoneses para o seu Exército Kwantung, na Manchúria. Um ano depois, foi capturado pelo Exército Vermelho após a Batalha de Khalkhin Gol e enviado a um campo de trabalhos forçados. Em um momento de crise em1942, as autoridades militares soviéticas alistaram-no, junto com milhares de outros prisioneiros, nas suas forças. Então, no início de 1943, ele foi feito prisioneiro pelo exército alemão na Batalha de Kharkov, na Ucrânia. Em 1944, desta vez com um uniforme alemão, ele foi enviado à França para servir em um Ostbataillon, que supostamente reforçaria a Muralha do Atlântico na base da península Cotentin, terra adentro a partir da praia Utah. Após um tempo de prisão em campo da Inglaterra, ele foi para os Estados Unidos, onde não contou nada sobre o seu passado. Estabeleceu-se por lá e morreu em Illinois, em 1992. Em uma guerra que matou mais de 60 milhões de pessoas e que se estendeu pelo globo, este relutante veterano dos exércitos japonês, soviético e alemão foi relativamente sortudo. Contudo, Yang talvez seja a ilustração mais surpreendente do desamparo da maior parte dos mortais comuns diante do que pareciam ser forças históricas esmagadoras. A Europa não entrou em guerra no dia 1º de setembro de 1939. Alguns historiadores falam de uma “guerra de trinta anos”, de 1914 a 1945, em que a Primeira Guerra Mundial seria “a catástrofe original”. 1 Outros afirmam que a “longa guerra”, que começou com o golpe de Estado bolchevique de 1917, continuou como uma “guerra civil europeia” 2 até 1945, e inclusive durou até a queda do comunismo, em 1989. A história, porém, nunca é bem arrumada. Sir Michael Howard 3 argumenta persuasivamente que o ataque de Hitler no oeste em 1940 contra a França e a Grã-Bretanha foi, de vários modos, uma extensão da Primeira Guerra Mundial. Gerhard Weinberg também insiste em que a guerra que começou com a invasão da Polônia em 1939 foi o início da iniciativa de Hitler por Lebensraum (espaço vital) no leste, o seu principal objetivo. Isto é verdade, mas no entanto as revoluções e guerras civis entre 1917 e 1939 com certeza complicam o padrão. Por exemplo, a esquerda sempre acreditou apaixonadamente que a Guerra Civil Espanhola marcou o início da Segunda Guerra Mundial, ao passo que a direita afirma que ela representou a primeira rodada de uma terceira guerra mundial entre o comunismo e a “civilização ocidental”. Ao mesmo tempo, os historiadores ocidentais têm sido indiferentes à Guerra Sino-Japonesa de 1937 a 1945, e o modo como ela se fundiu à guerra mundial. Alguns historiadores asiáticos, por sua vez, argumentam que a Segunda Guerra Mundial começou em 1931, com a invasão japonesa da Manchúria. As discussões sobre o tema podem se estender indefinidamente, mas a Segunda Guerra Mundial foi claramente um amálgama de conflitos. A maior parte deles consistiu em nação contra nação, mas a guerra civil internacional entre esquerda e direita permeou e inclusive dominou muitos deles. Portanto, é importante relembrar algumas das circunstâncias que levaram ao conflito mais cruel e destrutivo que o mundo já conheceu.


Os efeitos terríveis da Primeira Guerra Mundial haviam deixado os principais vitoriosos europeus, a França e a Inglaterra, exaustos e determinados, custasse o que custasse, a não repetir a experiência. Os americanos, após uma contribuição vital para a derrota da Alemanha imperial, queriam lavar as mãos do que consideravam um Velho Mundo corrupto e cruel. A Europa Central, fragmentada pelas novas fronteiras traçadas em Versalhes, enfrentava a humilhação e a penúria da derrota. Com o orgulho combalido, os oficiais do exército austro-húngaro Kaiserlich und Königlich viveram o avesso da história da Cinderela, e seus uniformes de contos de fadas foram substituídos pelas roupas puídas dos desempregados. A amargura da maior parte dos soldados e oficiais alemães com a derrota se intensificou com o fato de que até julho de 1918 os seus exércitos haviam sido imbatíveis, e isto fez o colapso súbito em casa parecer ainda mais inexplicável e sinistro. Em sua opinião, os motins e revoltas na Alemanha no outono de 1918 que precipitaram a abdicação do kaiser haviam sido provocados inteiramente por bolcheviques judeus. Agitadores de esquerda realmente participaram, e os mais proeminentes líderes revolucionários alemães em 1918-19 eram judeus, mas as principais causas por trás da agitação haviam sido o cansaço da guerra e a fome. A perniciosa teoria conspiratória da direita alemã — a lenda do apunhalar pelas costas — era parte da sua compulsão inerente a confundir causa e efeito. A hiperinflação de 1923-24 solapou a certeza e a retidão da burguesia alemã. A amargura da vergonha pessoal e nacional produziu uma raiva incoerente. Os nacionalistas alemães sonhavam como dia em que a humilhação do Diktat de Versalhes seria revertida. A vida melhorou na Alemanha na segunda metade dos anos 1920, principalmente graças aos vultosos empréstimos americanos. Mas a depressão mundial, que teve início após a quebra de Wall Street em 1929, atingiu a Alemanha ainda mais duramente quando a Grã-Bretanha e outros países abandonaram o padrão ouro, em setembro de 1931. O medo de outra rodada de hiperinflação convenceu o governo do chanceler Brüning a manter o marco do Reich vinculado ao preço do ouro, supervalorizando-o. Os empréstimos americanos haviam sido suspensos, e o protecionismo cortou os mercados de exportação alemães. Isto levou ao desemprego massivo, que aumentou dramaticamente as oportunidades para os demagogos que prometiam soluções radicais. A crise do capitalismo acelerou a crise da democracia liberal, que em muitos países europeus tornou-se ineficaz devido aos efeitos fragmentadores do voto proporcional. A maior parte dos sistemas parlamentares surgidos em 1818 após o colapso de três impérios continentais foi varrida do mapa, incapazes de lidar com as contendas civis. As minorias étnicas, que existiam em uma paz relativa nos antigos regimes imperiais, agora eram ameaçadas por doutrinas de pureza nacional. Relatos recentes da Revolução Russa e da violenta destruição de outras guerras civis na Hungria, Finlândia, nos Estados bálticos e na própria Alemanha contribuíram imensamente para o processo de polarização política. O ciclo de medo e ódio ameaçava transformar a retórica inflamada em uma profecia autorrealizável, como os acontecimentos na Espanha logo demonstrariam. As alternativas maniqueístas certamente tendem a romper o centrismo democrático baseado em acordos. Nessa nova era coletivista, as soluções violentas soavam como heroísmo supremo para os intelectuais da esquerda e da direita, assim como para os ex-soldados amargurados da Primeira Guerra Mundial. Diante do desastre financeiro, o Estado autoritário subitamente parecia ser a ordem moderna natural em toda a Europa, e uma resposta ao caos das pugnas entre as facções. Em setembro de 1930, a proporção de votos do Partido Nacional-Socialista saltou de 2,5% para 18,3%.

A direita conservadora alemã, que tinha pouco respeito pela democracia, destruiu completamente a República de Weimar, 4 abrindo assim as portas para Hitler. Ao subestimar seriamente a falta de escrúpulos de Hitler, eles pensaram que podiam usá-lo como uma marionete populista para defender a sua ideia da Alemanha. Mas ele sabia exatamente o que queria, ao passo que os outros não. Em 30 de janeiro de 1933, Hitler tornou-se chanceler e agiu rapidamente para eliminar qualquer oposição em potencial. Para as vítimas subsequentes da Alemanha, a tragédia foi que uma massa crítica da população, desesperada por ordem e respeito, estava ansiosa por seguir o criminoso mais temerário da história. Hitler conseguiu apelar para os seus piores instintos: ressentimento, intolerância, arrogância e, o mais perigoso, um sentimento de superioridade racial. Qualquer resquício da crença em umRechtsstaat, uma nação baseada no respeito à supremacia da lei, caiu por terra com a insistência de Hitler em que o sistema jurídico servisse à nova ordem. As instituições públicas — as cortes, universidades, o funcionalismo público e a imprensa — se renderam ao novo regime. Os oponentes se viram isolados e impotentes e foram insultados de traidores à nova definição da Pátria, não só pelo regime, mas por todos os que o apoiavam. À diferença da polícia secreta de Stalin, o NKVD, a Gestapo era surpreendentemente ociosa. A maior parte das suas detenções era meras respostas e denúncias contra alemães feitas por sua própria gente. O corpo de oficiais, que se orgulhava de uma tradição apolítica, também se permitiu ser cortejado com a promessa de incremento das forças e amplo rearmamento, apesar do seu desprezo por umpretendente tão vulgar e malvestido. O oportunismo caminhava pari passu com a covardia diante da autoridade. Otto von Bismarck, o chanceler do século XIX, comentou certa vez que a coragem moral era uma virtude rara na Alemanha, e que abandonava o alemão completamente no momento em que envergava um uniforme. Não surpreende que os nazistas quisessem vestir quase todos com uniformes, até as crianças. 5 O maior talento de Hitler estava em descobrir e explorar a fraqueza dos seus oponentes. A esquerda alemã, tristemente dividida entre o Partido Comunista Alemão e os social-democratas, não representava uma ameaça real. Hitler facilmente expurgou os conservadores que acreditaram, comuma arrogância ingênua, que podiam controlá-lo. Assim que consolidou o seu poder no âmbito doméstico com decretos arrasadores e prisões em massa, ele voltou as suas atenções para a quebra do Tratado de Versalhes. O alistamento compulsório foi reintroduzido em 1935, os britânicos concordaram com uma expansão da marinha alemã, e a Luftwaffe foi instituída. A Inglaterra e a França não apresentaram protestos de peso diante do acelerado programa de rearmamento. Em março de 1936, as tropas alemãs reocuparam a Renânia, na primeira quebra declarada dos tratados de Versalhes e de Locarno. Este tapa na cara dos franceses, que haviam ocupado a região há mais de uma década, garantiu a ampla adulação do Führer na Alemanha, mesmo entre aqueles que não haviam votado nele. Este apoio e a inércia anglo-francesa deram coragem a Hitler para seguir adiante. Com uma só tacada, ele restaurou o orgulho alemão, ao passo que o rearmamento, muito mais do que o seu alardeado programa de obras públicas, impediu o aumento do desemprego.

Para os alemães, a brutalidade dos nazistas e a perda de liberdade pareciam um preço baixo a pagar. Pouco a pouco, a enérgica sedução do povo alemão por Hitler começou a privar o país de valores humanos. Este efeito foi mais evidente na persecução dos judeus, que avançou espasmodicamente. Contudo, ao contrário do que se crê, ela foi mais impulsionada de dentro do Partido Nazista do que de fora. As arengas bombásticas de Hitler contra os judeus não significavam necessariamente que ele já tivesse decidido por uma “Solução Final” de aniquilação física. Ele se contentava em permitir que as tropas de assalto da SA (Sturmablteilung) atacassem os judeus e seus negócios e roubassem os seus bens para satisfazer uma mescla incoerente de cobiça, inveja e ressentimento imaginário. Àquela época, a política nazista buscava privar os judeus de seus direitos civis e de tudo o que possuíam e, mediante a humilhação e a ameaça, forçá-los a abandonar a Alemanha. “Os judeus devem deixar a Alemanha, sim, e a Europa”, disse Hitler ao seu ministro da Propaganda Joseph Goebbels, em 30 de novembro de 1937. “Isso ainda vai levar algum tempo, mas deve e vai acontecer.” 6 O programa de Hitler para fazer da Alemanha a potência dominante na Europa tinha sido claramente exposto em Mein Kampf, uma combinação de autobiografia e manifesto político publicado pela primeira vez em 1925. Primeiro, ele uniria a Alemanha e a Áustria e depois levaria os alemães para fora das fronteiras do Reich sob o seu controle. “Gente do mesmo sangue deveria estar no mesmo Reich”, declarou. Só quando isso fosse alcançado o povo alemão teria o “direito moral” de “adquirir território estrangeiro. O arado então é a espada; e as lágrimas da guerra produzirão o pão de cada dia para as futuras gerações.” 7 A sua política de agressão foi expressa muito claramente na primeira página. No entanto, embora todo casal alemão tivesse de comprar um exemplar ao se casar, poucos parecem ter levado a sério as suas previsões belicosas. Eles preferiam acreditar nas suas afirmações mais recentes e repetitivas de que não queria a guerra. E os golpes ousados de Hitler diante da debilidade britânica e francesa confirmaram as suas esperanças de que ele poderia alcançar tudo o que esperava sem um conflito de peso. Eles não viam que a economia alemã superaquecida e a determinação de Hitler em fazer uso da vantagem bélica traziam a certeza da invasão dos países vizinhos. Hitler não estava interessado apenas em reocupar o território perdido pela Alemanha com o Tratado de Versalhes. Ele desprezava um passo tão tíbio. Fervia de impaciência, convencido de que não viveria o suficiente para alcançar o seu sonho da supremacia germânica. Queria que toda a Europa central e o sul da Rússia até o Volga formassem o Lebensraum, de modo a garantir a autossuficiência e o status alemão como uma grande potência. O seu sonho de subjugar os territórios ao leste foi muito estimulado pela breve ocupação alemã dos Estados bálticos, em 1918, de parte da Bielorrússia, a Ucrânia e o sul da Rússia, até Rostov, no Don. Isso foi depois do Tratado de BrestLitovsk de 1918, o Diktat alemão ao regime soviético nascente.

A região produtora de trigo da Ucrânia atraía de modo especial o interesse da Alemanha, depois da quase fome provocada principalmente pelo bloqueio britânico durante a Primeira Guerra Mundial. Hitler estava determinado a evitar a desmoralização sofrida pelos alemães em 1918, que havia levado à revolução e ao colapso. Desta vez, outros seriam levados à fome. Mas um dos principais propósitos do seu plano de Lebensraum era se apossar da produção de petróleo no leste. Aproximadamente 85% do fornecimento de petróleo do Reich, mesmo em tempos de paz, tinha de ser importado, e isto seria o calcanhar de aquiles da Alemanha durante a guerra. As colônias do leste pareciam a melhor maneira de estabelecer a autossuficiência, mas a ambição de Hitler era muito maior do que a de outros nacionalistas. De acordo com a sua crença socialdarwinista de que a vida de uma nação era um esforço pela maestria racial, ele queria reduzir numericamente a população eslava de modo dramático mediante a fome deliberada e escravizar os sobreviventes como uma classe de servos. A sua decisão de intervir na Guerra Civil Espanhola no verão de 1936 não foi oportunista, como tem sido dito. Ele estava convencido de que uma Espanha bolchevique, combinada a um governo de esquerda na França, representava uma ameaça estratégica à Alemanha vinda do oeste, em um momento em que ele enfrentava a União Soviética de Stalin no leste. Mais uma vez ele conseguiu explorar a repulsa das democracias pela guerra. Os britânicos temiam que o conflito espanhol provocasse outro conflito na Europa, e o novo governo da Frente Popular na França tinha medo de agir sozinho. Isto permitiu o apoio militar alemão declarado aos nacionalistas do generalíssimo Francisco Franco para garantir a sua vitória militar final enquanto a Luftwaffe alemã de Hermann Göring testava novos aviões e táticas. A Guerra Civil Espanhola também aproximou Hitler e Benito Mussolini, e o governo fascista italiano enviou um corpo de “voluntários” para lutar com os nacionalistas. Mas Mussolini, apesar da empáfia e das ambições no Mediterrâneo, estava nervoso com a determinação de Hitler de derrubar o status quo. O povo italiano não estava pronto, nemmilitar nem psicologicamente, para uma guerra europeia. Em novembro de 1936, desejoso de obter outro aliado na futura guerra com a União Soviética, Hitler criou o Pacto Anti-Comintern com o Japão. O Japão havia iniciado a sua expansão colonial no Extremo Oriente na última década do século XIX. Aproveitando-se da decadência do governo imperial chinês, firmou a sua presença na Manchúria, tomou Formosa (Taiwan) e ocupou a Coreia. A derrota imposta à Rússia tsarista na guerra de 1904-05 fez do país a maior potência militar da região. O sentimento antiocidental cresceu no Japão com os efeitos da quebra da bolsa de Wall Street e a depressão mundial e uma classe de oficiais cada vez mais nacionalistas via a Manchúria e a China de modo semelhante aos desígnios nazistas para a União Soviética: como uma massa continental e uma população a serem subjugadas para alimentar as ilhas japonesas. O conflito sino-japonês há muito tempo tem sido uma peça perdida do quebra-cabeça da Segunda Guerra Mundial. Iniciado muito antes da irrupção da luta na Europa, o conflito na China muitas vezes tem sido tratado como uma questão completamente à parte, embora tenha presenciado o maior desdobramento de forças terrestres japonesas no Extremo Oriente, além do envolvimento tanto dos Estados Unidos quanto da União Soviética. Em setembro de 1931, os militares japoneses criaram o Incidente de Mukden, em que detonaramuma ferrovia para justificar a tomada de toda a Manchúria. Eles esperavam transformar a região emprodutora de alimentos, pois a sua agricultura doméstica havia minguado desastrosamente. Batizaram-na Manchukuo e criaram um governo fantoche, com o imperador deposto Henry Pu Yi como títere.

O governo civil em Tóquio, apesar de desprezado pelos oficiais, sentiu-se obrigado a apoiar o exército. A Liga das Nações em Genebra rechaçou os apelos chineses por sanções contra o Japão. Os colonos japoneses, camponeses em sua maioria, acorreram para tomar posse da terra como estímulo do governo. Este queria “um milhão de lares” criados como fazendas de colonos nos vinte anos seguintes. As ações japonesas isolaram o país em termos diplomáticos, mas ele se regozijou com o triunfo. Isto marcou o início de uma progressão fatídica, tanto da expansão externa quanto da influência militar no governo de Tóquio. Um governo mais agressivo subiu ao poder, e o exército Kwantung na Manchúria estendeu o seu controle até quase as portas de Pequim. O governo do Kuomintang de Chiang Kai-shek em Nanquimfoi forçado a recuar. Chiang declarou ser o herdeiro de Sun Yat-sen, que quis introduzir uma democracia ao estilo ocidental, mas na verdade era um generalíssimo dos senhores da guerra. As Forças Armadas japonesas começaram a cobiçar o vizinho soviético ao norte e a espreitar o sul do Pacífico. Os seus alvos eram as colônias no Extremo Oriente da Inglaterra, França, e Holanda, com os campos de petróleo das Índias Orientais Holandesas. O incômodo impasse na China foi rompido subitamente em 7 de julho de 1937 com a provocação japonesa na ponte Marco Polo, fora da antiga capital de Pequim. O Exército Imperial japonês em Tóquio garantiu ao imperador Hiroíto que a China seria derrotada em alguns meses. Foram enviados reforços por terra e seguiu-se uma campanha terrível, disparada em parte pelo massacre de civis japoneses pelos chineses. O Exército Imperial foi enviado. Mas a Guerra Sino-Japonesa não terminou com um triunfo rápido como os generais em Tóquio haviam previsto. A terrível violência do atacante fomentou uma resistência amarga. Hitler não aprendeu a lição quando de seu massacre contra a União Soviética, quatro anos mais tarde. Alguns ocidentais começaram a considerar a Guerra Sino-Japonesa como uma contraparte da Guerra Civil Espanhola. Robert Capa, Ernest Hemingway, W. H. Auden e Christopher Isherwood, o cineasta Joris Ivens e muitos jornalistas visitaram e expressaram a sua simpatia e apoio aos chineses em geral. Esquerdistas, alguns dos quais visitaram o quartel-general comunista chinês em Yenan, apoiaram Mao Tsé-Tung, embora Stalin apoiasse Chiang Kai-shek e o seu partido, o Kuomintang. Mas nem o governo britânico nem o americano estavam dispostos a tomar medidas práticas. O governo de Neville Chamberlain, como a maior parte da população britânica, ainda estava preparado para viver com uma Alemanha rearmada e revitalizada.

Muitos conservadores viam os nazistas como um baluarte contra o bolchevismo. Chamberlain, um ex-prefeito de Birmingham de retidão antiquada, fez o grande erro de esperar que outros chefes de Estado compartilhassem valores similares e o horror à guerra. Ele fora um ministro muito hábil e um ministro da Fazenda muito capaz, mas não sabia nada de política externa e de questões de defesa. Com o seu colarinho ereto, umbigode eduardiano e o guarda-chuva a postos, ele demonstrou ser completamente incapaz ao ser confrontado pela cintilante desumanidade do governo nazista. Outros, mesmo aqueles com simpatias esquerdistas, também relutaram em confrontar o governo de Hitler, pois ainda estavam convencidos de que a Alemanha havia sido tratada de forma injusta na conferência de Versalhes. Eles também achavam difícil objetar o desejo expresso de Hitler de trazer minorias alemãs adjacentes, tais como a dos Sudetos da Tchecoslováquia, para o Reich. Sobretudo, os britânicos e franceses estavam horrorizados com a ideia de outra guerra europeia. Permitir que a Alemanha nazista anexasse a Áustria, em março de 1938, parecia um preço pequeno a pagar pela paz mundial, especialmente quando a maioria dos austríacos havia votado em 1918 pela Anschluss, ou anexação, com a Alemanha e, vinte anos depois, deu as boas-vindas à invasão alemã. As declarações austríacas de que o país teria sido a primeira vítima de Hitler foram completamente espúrias. Em outubro, Hitler então decidiu que queria invadir a Tchecoslováquia. 8 Isto foi programado para bem depois que os camponeses alemães fizessem a colheita, porque os ministros nazistas temiam uma crise no fornecimento nacional de alimentos. Mas, para a exasperação de Hitler, Chamberlain e a sua contraparte francesa, Édouard Daladier, ofereceram-lhe os Sudetos nas negociações de Munique de setembro, na esperança de preservar a paz. Isto privou Hitler da sua guerra, mas permitiu-lhe mais tarde tomar o país inteiro sem lutar. Chamberlain cometeu também um erro fundamental ao recusar-se a consultar Stalin. Isto influenciou a decisão do ditador soviético no seguinte mês de agosto a concordar com um pacto com a Alemanha nazista. Chamberlain, de modo muito parecido ao de Franklin D. Roosevelt mais tarde com Stalin, acreditou com uma complacência inadequada que, sozinho, convenceria Hitler de que lhe seriam valiosas as boas relações com os Aliados ocidentais. Alguns historiadores argumentaram que, se a Grã-Bretanha e a França estivessem preparadas para lutar no outono de 1938, as coisas poderiam ter resultado de outra forma. Isto certamente é possível do ponto de vista alemão. O fato é que nem os britânicos nem os franceses estavam psicologicamente preparados para uma guerra, principalmente porque haviam sido mal informados pelos políticos, os diplomatas e a imprensa. Os que tentavam advertir sobre os planos de Hitler, como Winston Churchill, eram considerados simplesmente fomentadores da guerra. Só em novembro os olhos se abriram para a verdadeira natureza do governo de Hitler. Após o assassinato de um funcionário da embaixada alemã em Paris por um jovem judeu polonês, tropas de assalto nazistas lançaram o pogrom alemão conhecido como Kristallnacht por causa das vitrines quebradas de todas as lojas. Com as sombras da guerra sobre a Tchecoslováquia naquele outono, a “energia violenta” 9 fermentou no Partido Nazista. As tropas de assalto da SS incendiaram sinagogas, atacaram e assassinaram judeus e estilhaçaram as vitrines das suas lojas, levando Göring a reclamar sobre o custo em divisas estrangeiras para substituir todos os vidros planos que provinham da Bélgica.

Muitos alemães comuns ficaram chocados, mas a política nazista de isolar os judeus logo conseguiu persuadir a vasta maioria dos cidadãos a permanecerem indiferentes à sua sorte. E muitos foram tentados pela facilidade de se apropriar dos bens saqueados, dos apartamentos expropriados e da “arianização” dos negócios judeus. Os nazistas foram excepcionalmente espertos em atrair cada vez mais cidadãos para o seu círculo criminoso. A tomada do resto da Tchecoslováquia por Hitler, em março de 1939 — em uma violação flagrante do Acordo de Munique — finalmente mostrou que a sua declaração de trazer os alemães étnicos de volta ao Reich era pouco mais que um pretexto para ampliar o seu território. A indignação britânica forçou Chamberlain a oferecer garantias à Polônia como uma advertência a Hitler contra outras invasões. Mais tarde, Hitler se queixou de que fora impedido de iniciar uma guerra em 1938 porque “os britânicos e os franceses aceitaram todas as minhas exigências em Munique”. 10 Na primavera de 1939, ele explicou a sua impaciência ao ministro romeno do Exterior: “Agora tenho 50 anos”, disse. “Preferiria fazer a guerra agora que aos 55 ou aos 60.” 11 Assim, Hitler revelou que pretendia alcançar o seu objetivo de uma dominação europeia em uma só vida, que ele esperava ser curta. Com a sua vaidade maníaca, ele não contava com mais ninguémpara levar adiante a sua missão. Considerava-se literalmente insubstituível e disse aos seus generais que o destino do Reich dependia exclusivamente dele. O Partido Nazista e a sua forma de governo caótica nunca foram planejados para produzir estabilidade e continuidade. E a retórica de Hitler sobre o “Reich de mil anos” se revelou uma contradição psicológica significativa, surgida de umsolteiro obstinado, perversamente orgulhoso de não passar os seus genes adiante e que nutria umfascínio insano pelo suicídio. Em 30 de janeiro de 1939, no sexto aniversario da sua ascensão ao poder, Hitler fez um discurso importante aos parlamentares do Reichstag. 12 Nele, incluiu a sua “profecia” fatal, à qual, na “solução final”, ele e seus seguidores se ativeram compulsivamente. Afirmou que os judeus tinham rido das suas predições de que ele lideraria a Alemanha e também daria “solução aos problemas judaicos”. Então, disse: “Hoje quero ser um profeta novamente: se uma judiaria internacional dentro e fora da Europa tiver êxito em levar mais uma vez as nações a uma guerra mundial, o resultado não será a bolchevização da terra e, portanto, a vitória dos judeus, mas a aniquilação da raça judaica na Europa.” Esta confusão assustadora entre causa e efeito está no cerne da rede obsessiva de Hitler de mentiras e autoenganos. Embora Hitler estivesse pronto para a guerra e a quisesse contra a Tchecoslováquia, ele não conseguia entender por que a atitude britânica mudara tão subitamente da conciliação para a resistência. Mais tarde, ele ainda pretendia atacar a França e a Inglaterra, mas isso seria na hora em que decidisse fazê-lo. O plano nazista, seguindo a amarga lição da Primeira Guerra Mundial, fora projetado para compartimentar conflitos de modo a evitar lutar em mais de uma frente ao mesmo tempo. A surpresa de Hitler com a reação britânica revelou a compreensão muito equivocada da história mundial deste autodidata. O padrão do envolvimento britânico em quase todas as crises europeias desde o século XVIII devia ter explicado a nova política do governo de Chamberlain. A mudança não tinha nada a ver com ideologia ou idealismo. A Grã-Bretanha não estava buscando resistir ao fascismo ou ao antissemitismo, ainda que mais tarde o aspecto moral tenha sido útil para a propaganda nacional.

Os seus motivos estavam em uma estratégia tradicional. A ocupação hostil da Tchecoslováquia pela Alemanha revelava claramente a determinação de Hitler de dominar a Europa. Aquilo era uma ameaça ao status quo, que mesmo uma Grã-Bretanha enfraquecida e não belicosa nunca toleraria. Hitler também subestimou a raiva de Chamberlain por ter sido tão completamente enganado em Munique. Duff Cooper, que havia se demitido como primeiro lorde do Almirantado com a traição dos tchecos, escreveu que Chamberlain “nunca conheceu ninguém em Birmingham nemum pouco parecido com Adolf Hitler […] Em Birmingham nunca alguém quebrou uma promessa ao prefeito”. 13 As intenções de Hitler agora estavam assustadoramente claras. E o choque do seu pacto comStalin, em agosto de 1939, confirmava que a Polônia seria a próxima vítima. “As fronteiras dos Estados”, escrevera ele em Mein Kampf, “são feitas pelo homem e mudadas pelo homem.” Emretrospecto, pode parecer que o ciclo de ressentimento desde o Tratado de Versalhes tornou o surgimento de outra guerra mundial inevitável, mas nada na história é predestinado. As consequências da Primeira Guerra Mundial certamente haviam criado fronteiras instáveis e tensões em grande parte da Europa. Mas não há dúvida de que Adolf Hitler foi o principal arquiteto desta conflagração nova e ainda mais terrível, que se espalhou pelo mundo e dizimou milhões, inclusive ele próprio. E, no entanto, em um paradoxo curioso, o primeiro enfrentamento da Segunda Guerra Mundial — aquele em que Yang Kyoungjong foi capturado pela primeira vez — começou no Extremo Oriente. 1 A Eclosão da Guerra JUNHO–AGOSTO DE 1939 E m 1º de junho de 1939, Georgii Jukov, um comandante de cavalaria baixo e robusto, recebeu um chamado urgente de Moscou. 1 O expurgo do Exército Vermelho por Stalin, iniciado em 1937, ainda prosseguia, então Jukov, que já havia sido acusado uma vez, supôs que havia sido denunciado como “inimigo do povo”. O passo seguinte seria alimentar o “moedor de carne” de Lavrenti Beria, como era conhecido o sistema de interrogatórios do NKVD. Na paranoia do “Grande Terror”, oficiais de altas patentes eram os primeiros a serem fuzilados como espiões trotskistas-fascistas. Cerca de 30 mil foram detidos. Muitos dos mais antigos foramexecutados e a maioria foi torturada para fazer confissões ridículas. Jukov, que fora próximo de algumas das vítimas, tinha uma maleta pronta para a prisão desde o início do expurgo, dois anos antes. À espera deste momento há muito tempo, ele escreveu uma carta de despedida para a esposa. “Tenho um pedido a lhe fazer”, começava a carta. “Não se renda aos lamentos, mantenha-se firme, e tente suportar digna e honestamente a separação desagradável.” 2 Mas quando chegou de trem a Moscou no dia seguinte, Jukov não foi detido nem levado à prisão de Lubyanka. Foi informado de que deveria se apresentar no Kremlin para se encontrar com o antigo camarada de Stalin do I Exército de Cavalaria na guerra civil, o marechal Kliment Voroshilov, agora comissário do povo para a Defesa. Durante o expurgo, este soldado “medíocre, sem personalidade, intelectualmente obtuso” 3 havia fortalecido a sua posição ao eliminar ciosamente os comandantes talentosos.

Mais tarde, com uma franqueza grosseira, Nikita Kruchev qualificou-o como “o maior saco de merda do exército”. 4 Jukov ouviu que deveria voar para o estado-satélite soviético da Mongólia Exterior. Lá, assumiria o comando do 57º Corpo Especial, que incluía o Exército Vermelho e forças mongóis, para infligir uma derrota decisiva ao Exército Imperial japonês. Stalin estava irado porque o comandante local não parecia ter conseguido muita coisa. Com a ameaça de guerra de Hitler no oeste, ele queria pôr fim às provocações japonesas do estado-marionete de Manchukuo. A rivalidade entre a Rússia e o Japão datava da época tsarista e a humilhante derrota russa em 1905 certamente não fora esquecida pelo regime soviético. Com Stalin, as forças no Extremo Oriente haviam sido consideravelmente ampliadas. Os militares japoneses estavam obcecados com a ameaça do bolchevismo. Desde a assinatura do Pacto Anti-Comintern entre a Alemanha e o Japão, em novembro de 1936, as tensões na fronteira mongol entre os unidades de fronteira do Exército Vermelho e o Exército Kwantung japonês haviam aumentado. A temperatura subira consideravelmente com uma série de enfrentamentos na fronteira em1937, e um de maior dimensão em 1938, o Incidente Changkufeng no lago Khasan, 110 quilômetros a sudoeste de Vladivostok. Os japoneses também estavam aborrecidos porque a União Soviética apoiava o seu inimigo chinês não só economicamente como também com tanques T-26 e um grande contingente de conselheiros militares e esquadrões aéreos “voluntários”. Os líderes do Exército Kwantung ficaram cada vez mais frustrados com a relutância do imperador Hiroíto em agosto de 1938 em permitir-lhes responder pesadamente aos soviéticos. A sua arrogância se baseava na suposição errônea de que a União Soviética não reagiria. Eles exigiram carta branca para agir como considerassem necessário emquaisquer incidentes fronteiriços futuros. Eram motivados por interesses próprios. Um conflito de baixa intensidade com a União Soviética forçaria Tóquio a incrementar o Exército Kwantung, em vez de reduzi-lo. Eles temiam que algumas das suas formações fossem dirigidas ao sul, para a guerra contra os exércitos nacionalistas chineses de Chiang Kai-shek. 5 No Estado-Maior imperial em Tóquio havia certo apoio à visão agressiva da liderança Kwantung. Mas a marinha e os políticos civis estavam profundamente preocupados. A pressão da Alemanha nazista sobre o Japão para que considerasse a União Soviética como o inimigo principal os deixava muito inquietos. Eles não queriam se envolver em uma guerra ao norte, ao longo das fronteiras mongol e siberiana. Esse racha derrubou o governo do príncipe Konoe Fumimaro. Mas a discussão no alto escalão do governo e nos círculos militares não amainou quando a aproximação da guerra na Europa tornou-se evidente. O exército e grupos de extrema direita propagandearam e muitas vezes exageraram o crescente número de enfrentamentos nas fronteiras do norte. E o Exército Kwantung, sem informar Tóquio, emitiu uma ordem permitindo ao comandante local agir como achasse melhor para punir os ofensores.

Isso ocorreu em sigilo, sob a chamada prerrogativa da “iniciativa emcampanha”, 6 que permitia aos exércitos movimentar tropas por razões de segurança em suas próprias áreas, sem consultar o Estado-Maior imperial. O Incidente Nomonhan, ao qual mais tarde a União Soviética se referiu como a Batalha de Khalkhin Gol em referência ao nome do rio, começou em 12 de maio de 1939. Um regimento de cavalaria mongol cruzou o Khalkhin Gol para que suas pequenas montadas peludas pastassem na ampla estepe ondulada. Então, avançaram uns vinte quilômetros a partir do rio, que os japoneses consideravam a fronteira, até a aldeia de Nomonhan, que a República Popular da Mongólia dizia estar na linha de fronteira. Forças manchus do Exército Kwantung os fizeram recuar de volta ao Khalkhin Gol, e então os mongóis contra-atacaram. As forças em pugna avançaram e recuaram durante duas semanas. O Exército Vermelho trouxe reforços. No dia 28 de maio, as forças soviéticas e mongóis destruíram uma força japonesa de 200 homens com alguns carros blindados antiquados. Em meados de junho, aviões de bombardeio do Exército Vermelho atacaram alguns alvos, enquanto as forças terrestres avançavam em direção a Nomonhan. Seguiu-se uma rápida escalada das hostilidades. Unidades do Exército Vermelho na área foram reforçadas por tropas do distrito militar de Trans-Baikal por ordem de Jukov, que chegara em 5 de junho. O principal problema enfrentado pelas forças soviéticas era que estavam operando a 650 quilômetros da ferrovia mais próxima, o que implicava em um gigantesco esforço logístico comcaminhões trafegando em estradas de terra tão ruins que a viagem de ida e volta levava cinco dias. Esta dificuldade formidável levou os japoneses a subestimar o poder bélico das forças que Jukov estava arregimentando. Eles enviaram a Nomonhan a 23ª Divisão do tenente-general Komatsubara Michitaro e parte da 7ª Divisão. O Exército Kwantung exigia um aumento considerável de presença aérea para apoiar as suas tropas. Isto causou preocupação em Tóquio. O Estado-Maior imperial enviou uma ordemproibindo ataques de retaliação e anunciou que um oficial estava a caminho para informá-lo sobre a situação. A notícia levou os comandantes do Kwantung a terminar a operação antes de serem impedidos de fazê-lo. Na manha de 27 de junho, enviaram um esquadrão aéreo em um ataque contra as bases soviéticas na Mongólia Exterior. O Estado-Maior em Tóquio se enfureceu e despachou uma série de ordens proibindo quaisquer outras atividades aéreas.

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