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A Segunda Patria – Miguel Sanches Neto

Naquele domingo à tarde, uma tropa se organizava para um novo desfile no Centro de Blumenau. Tais demonstrações se intensificavam, eram cada vez maiores e mais acaloradas. Os partidários chegavam uniformizados, vindos de várias procedências, e se reuniam no começo da rua XV de Novembro, logo ordenados em formações impecáveis. A rapidez com que faziam isso revelava um poder de ação. Mesmo quem participava pela primeira vez já sabia em que posição ficar no grupo e as músicas e palavras que deveria repetir. Prevaleciam os hinos medievais, cantados como se estivessem em marcha, incentivando a luta contra os inimigos terríveis e odientos. Não há guerra semessa mística. Moradores da região, mulheres e crianças entre eles, sabiam as canções do exército alemão, aprendidas em O novo livro de cantos de soldados, distribuído pelo Partido Nazista do Brasil. Esses hinos, executados em escolas e igrejas, vinham substituindo as músicas ancestrais e podiam ser ouvidos na cidade e nas imediações, enquanto uma mãe cuidava de sua criança ou da casa ou quando um agricultor cultivava a terra. Todos se viam como soldados, até nas tarefas cotidianas. Vagava pela cidade uma tropa de cerca de mil homens armados, como se seus revólveres fossem parte de uma vestimenta de gala. Estavam ali, no entanto, para fazer a limpeza. Eram para isso os desfiles. Marchando rumo à Prefeitura e depois por várias ruas, meio desertas, a tropa de assalto exibia a bandeira nazista e fazia grande barulho. Era regra uma embriaguez de cerveja entre os adultos, que avivava o entusiasmo dos discursos. Em mastros erguidos no jardim da frente das casas, tremulavam flâmulas com a suástica. Nas lojas, alguns comerciantes mandaram fazer bustos de madeira de Hitler, deixando-os na entrada. Havia sempre a foto do presidente Getúlio Vargas nas repartições públicas, mas a do Führer aparecia com maior frequência. Naquele domingo, a tropa saiu pelo Centro, cumprimentando os raros cidadãos com um Heil Hitler gritado em uníssono que ecoava nas quadras vizinhas. O bebê na casa do engenheiro Adolpho Ventura acordou com essas saudações estrondosas. Ele pegou o filho no berço, interrompendo os estudos em seus livros em alemão. Negro, filho de trabalhadores que haviam chegado à cidade para a construção da estrada de ferro, tinha aprendido alemão na casa dos patrões de seu pai, frequentado a Neue Deutsche Schule, que recebia dinheiro da Alemanha, e se mudado para o Rio de Janeiro, onde cursara a Faculdade de Engenharia. Voltara para a colônia pela nostalgia da infância, um tempo em que só tinha amigos loiros falando a língua de Goethe, que ele julgava a única com valor literário. Precisava ouvir nas ruas, usar no dia a dia e na hora de fazer amor o idioma que herdara. Nada lhe agradava mais do que ser um igual nos momentos em que se dirigiam a ele.


— Herr Ventura. Era assim que se referia a si próprio quando se imaginava dialogando com alguém. No Rio de Janeiro, era apenas um inadaptado, tentando manter o rigor, a correção na vestimenta e a dedicação extrema a tudo que fizesse, o que o colocava em conflito com a cidade relaxada e os seus colegas de estudo e, posteriormente, de trabalho. Herr Ventura se sentira sempre isolado no Rio, e essa solidão só não era maior porque conseguia encontrar um ou outro descendente de alemão em viagem ou morando na capital federal. Após conversar de coração aberto com um dos que considerava seu irmão de alma, voltava eufórico para a pensão na Lapa. A alegria era tanta que ele abstraía a bagunça do local, os sons de músicas populares e o odor terrível de urina que empesteava aquela parte da cidade. Os demais negros com quem convivia o tratavam desdenhosamente como mulato, embora fosse tão puro quanto eles. Talvez por seus hábitos estrangeiros. Nunca amou o Rio e permanecia ali porque precisava concluir a faculdade. Nos momentos de maior otimismo, imaginava-se morando na Alemanha, mesmo sabendo que só poderia conseguir, em termos de trabalho, emprego nas áreas de colonização alemã no Sul do Brasil. De preferência em sua cidade. Como precisavam de engenheiro para a conclusão de um imponente teatro, o Verein Frohsinn, e tendo amigos de infância na Prefeitura, acabou voltando ao lugar de onde partira, não para um destino similar ao de seus pais, que ainda moravam numa casa de madeira na favela Farroupilha, às margens do rio Itajaí-Açu, mas para fazer parte da elite dirigente. Com o seu salário antecipado, alugou uma casa na rua da Ginástica, passando a morar sozinho. Sua mãe o visitava duas vezes por semana, lavava e passava sua roupa; o resto do serviço Ventura fazia, hábito adquirido nos muitos anos morando no Rio. Dona Erendina entrava na casa do filho como empregada, as roupas humildes e gastas, e se dirigia a ele como a alguém superior. Ventura resmungava em alemão, recusando-se a demonstrações de intimidade. Se seu plano tinha sido morar sozinho, juntar um capital e tentar abrir um negócio qualquer, passados dois anos de sua chegada estava cuidando de uma criança recém-nascida. Fazia o papel de pai e de mãe, não aceitando a ideia de que ela ficasse na casinha distante dos avós. O menino tinha a pele escura, cabelos enrolados e os olhos claros, numa tonalidade indefinida entre o azul e o castanho, mudando de cor conforme a luz. Quando o filho acordou com a saudação da tropa, Ventura tentou niná-lo. Ele não só não queria dormir, como não parava de chorar. A única coisa que o acalmava, nesses momentos, era um passeio no colo do pai. Saíram então para o jardim e para a calçada, indo até a esquina da alameda Rio Branco, a antiga Kaiserstrasse. Ao virar, encontraram os soldados. O engenheiro tinha sido enganado.

Achara que a tropa seguia para o outro lado, mas era apenas o eco dos movimentos dela que estava às suas costas. Evitava esses encontros por saber que a multidão anula as decisões pessoais, criando um monstro impiedoso. Uma pessoa que não tinha coragem de xingar outra, integrada a uma legião qualquer, se tornava um agressor em potencial. Vinha conseguindo se proteger ao conversar individualmente com algum nazista, porém já fora constrangido diante de grupos. Ainda não havia se deparado com uma tropa de assalto, embora conhecesse muitos de seus integrantes. Olhando o desfile, extasiado com o movimento sincrônico dos partidários, o bebê deixou de chorar. Ventura ficou estático na esquina. Se retornasse, seria perseguido ou levaria um tiro. Só se afasta quem está fazendo algo errado. Restava esperar que o pelotão passasse. Contemplou comatenção, uma atenção exagerada, os soldados. E viu que vários deles o olhavam com ódio. Nunca antes sentira que sua figura despertasse tamanha repulsa, embora sempre incomodasse as pessoas por seu porte atlético, pelas roupas de qualidade e pela fluência de ideias expressas no melhor alemão. Como um negro pode ter essa postura? Agora o ódio era mais profundo, ia além do despeito pessoal. Era um ódio contra seu filho mestiço. Ao intuir isso, resolveu fazer uma saudação amistosa. Ergueu o braço direito, deixando o filho no braço esquerdo, e disse Heil Hitler. E o efeito foi o inverso do que imaginara. Não conseguiu desarmar os olhares severos nem obteve o menor sinal de cumprimento. A tropa passou em silêncio, como se ele não existisse. Ventura fixou os olhos nos soldados, recebendo com altivez aquele desprezo silencioso. Quase no final do desfile, ele ainda imóvel na esquina, um jovem saiu subitamente da formação, aproximandose de Ventura, e lhe cuspiu na cara, para logo em seguida gritar: — Suma daqui, negro nojento. Tal como se aproximara, o soldado se distanciou. Ventura não esboçou qualquer reação. O cuspe encatarrado, com forte cheiro de cerveja, tinha atingido o rosto do bebê, que continuava quieto, hipnotizado.

Dois. Nascido em São Paulo, de pais alemães, oriundos de Nuremberg, Julius Meister estudou primeiro na escola alemã Mooca-Brás, mantida pela Cervejaria Antarctica e pela empresa de talheres e baixelas Wolf-Metal. A família havia emigrado para o Brasil após a Grande Guerra, trazendo quase nada na bagagem. Depois de passar por vários empregos, seu pai enfim arrumou uma boa posição na cervejaria e logo cresceu dentro da empresa, podendo custear o estudo do filho mais novo. Os outros três, todos homens, para desgosto da mãe, que sonhava com uma menina para companhia, já eramprofissionais em meados dos anos 1930, quando o pai abriu uma pequena fábrica de produtos de vidro e louça, aproveitando-os no novo projeto. A família desejava que Julius recebesse o melhor ensino, que cursasse uma boa universidade na Alemanha. Nos momentos de entusiasmo alcoólico, o pai cantava os hinos nazistas e debochava do Brasil, criando no caçula um desejo de conhecer a terra de seus antepassados, que renascera, superada a crise. Ele nunca sentira pertencer a São Paulo, convivendo com outros alemães desterrados que falavam mal o português, e só quando obrigados, nas conversas com os nacionais. Frequentou ainda a Deutsche Schule por um tempo, antes de, em 1939, a uns meses do início da guerra, o pai o mandar à Alemanha para que continuasse os estudos. Não teve tempo de entrar na universidade. Havia ingressado na Hitlerjugend em Nuremberg por recomendação paterna, seguindo os primos alemães. Assim que começou a guerra, acabou convocado para o Notdienstverpflichtung, o serviço de emergência. E isso o deixou triste e alegre. Não poderia estudar, porém, contribuiria com a pátria. No quartel, foi preparado em poucas semanas, revelando-se um exímio atirador. Esse treinamento tinha o lado bom, as competições esportivas, com as disputas de natação, os hinos entoados alegremente, com uma força que o fazia sentir-se herói, e as lições sobre episódios do folclore germânico. Depois, por alguns minutos, todos os dias, vinham as pregações nazistas, que ele talvez não percebesse serem feitas por homens pouco inteligentes, por gente do povo que o partido e a guerra tinham transformado em pequenas lideranças, mas cuja repetição decididamente o desgostava. Quando, no entanto, eles narravam a biografia de alguns nazistas, mortos pela causa, Julius se comovia, sentindo-se culpado, pois seus pais haviam abandonado a Alemanha enquanto a maioria ficara para defendê-la. Integrou-se à Wehrmacht com esse espírito de responsabilidade familiar, seguindo logo para a Polônia. Ao atirar no primeiro inimigo, matando-o, descobriu sua verdadeira vocação. Nenhum remorso, nenhuma comoção. Ele estava ali para exterminar os judeus que dominavam aquele país. Alguma coisa dentro dele floresceu com uma violência própria das tempestades. Avançando sobre os cadáveres que sua tropa deixava sangrando pelo chão, ganhou a mania de cuspir em seus rostos. Era um cuspe de superioridade.

Esse outro disparo servia para que ele matasse simbolicamente aquelas carcaças. Morriam porque eram uma escória. Os alemães deviam limpar o mundo desses lixos. Não entrou em Varsóvia, que estava sendo bombardeada pelos aviões Stuka, da Luftwaffe. Gostaria de ter conhecido essa região antes da guerra para avaliar o poder de destruição da máquina alemã. Os soldados estavam ali para guardar a cidade, para que os poloneses não saíssem de suas casas e se juntassem em outros lugares. A cada ataque de bombas, surgiam grandes levas de fugitivos. Se eram grupos maiores, visíveis do céu, os Stukas largavam bombas sobre eles, e pessoas se movendo às pressas logo se transformavam em trouxas de roupas coloridas pelo sangue e pelo negro das explosões, atiradas de qualquer jeito num solo esburacado. Os que sobreviviam acabavam alvejados pelos soldados. Julius estava na linha de frente para interromper as fugas. A sua tropa era a tampa daquela imensa panela que fervia sob os bombardeios. Matar o maior número de pessoas, crianças, mulheres ou velhos, para a guerra terminar logo. Em uma madrugada, não foram fugitivos que eles tiveram de enfrentar, e sim uma cavalaria. Soldados poloneses com seus rifles, revólveres e metralhadoras tentaram romper o cerco. A Wehrmacht contava com blindados e equipamentos modernos; seus inimigos, no entanto, eram meio medievais, vinham de peito aberto, montados em cavalos, enfrentando de forma suicida um exército maior e mais equipado. O general Erich von Manstein havia ordenado que não deixassem ninguém sair de Varsóvia. Os aviões alemães eram derrubados por atiradores que ficavam com metralhadoras no alto dos prédios, e agora essa tropa tentava romper o cerco. Os tanques se colocaram contra eles. E os soldados também. Julius viu a oportunidade de provar sua bravura. Atirava avançando, sem se intimidar. Os inimigos caíam, mas os cavalos ensanguentados e sem montaria continuavam em frente. Haveria cavaleiros fantasmas? Julius atirava neles, temendo algo sobrenatural. Derrubar as montarias dos poloneses também era uma forma de ganhar a batalha. Só não gostava de matar animais.

Não sobrou nenhum soldado polonês nesse ataque. Os cavalos sobreviventes, mesmo semferimentos, foram sacrificados. É uma desonra ter que colocar nossos tanques contra animais, ele pensou. Quando Varsóvia foi enfim devastada, Julius e seus companheiros receberam uma medalha pelo destemor, por terem enfrentado inimigos tão sanguinários em seu próprio solo. Chegara à Alemanha como um menino tímido e poucos meses depois era um soldado. Para providenciar a condecoração, um oficial pegou seus documentos. — Sou brasilianer — Julius disse antes que terminassem de ler os seus papéis. Olhando-o com severidade, o outro perguntou: — Se você tivesse nascido na África, isso faria de você um negro? — Não, senhor. — Então o que você é? — Alemão, senhor. — Enquanto não se misturar. — Não vou me misturar. — Isso é mais fácil aqui do que no seu país. E foi essa conversa, a firmeza com que dera as respostas, e também o seu comportamento destemido na frente de batalha que definiriam o destino de Meister. Logo ele acabou mandado de volta. Não para São Paulo e sim para as colônias. Precisavam fortalecer as tropas no exterior. Antes de partir, ainda em Varsóvia, saiu para uma visita às ruínas. Aquilo que um dia fora uma cidade agora era um amontoado de detritos. Em meio ao lixo próximo de onde antes havia uma loja, viu pedaços de sacos de estopa com o nome do Brasil e grãos velhos de café. Lembrou-se de que não usara, naqueles meses, nenhuma palavra em português. Ele não precisava dessa língua. Não tinha também a menor saudade de São Paulo. Somente ao chegar ao Sul mandou uma carta aos pais, dizendo que vinha servir a pátria onde mais precisavam dele, e que tão breve quanto possível faria uma visita. Em Blumenau, havia bastante trabalho para organizar os alemães que queriam pertencer à força armada de Hitler. A guerra aqui não havia começado, ainda estavam na fase de arregimentar soldados e treinar um exército.

Desde o primeiro dia, sempre que podia, Julius Meister cultivava o hábito de cuspir não emcadáveres, mas em pessoas abusadas que não entendiam ser aquele um pedaço da Alemanha. Não encontrava muitos judeus contra quem disparar seu catarro. O perigo aqui estava entre os negros, mulatos e índios. E cuspia com força, como se atirasse neles. Ficou conhecido entre os amigos como Julius, o Cuspidor. E não perdera a oportunidade de alvejar aquele negro metido com seu filho impuro no colo. Três. O engenheiro agora só saía de casa para o trabalho na Prefeitura, procurando sempre os horários menos movimentados, fechando-se em sua sala nos fundos do prédio. Ele havia percebido uma mudança de comportamento nos demais funcionários, principalmente nos que estavam abaixo dele na hierarquia, embora não tivesse dado valor a isso por nunca o terem tratado muito bem. A diferença era que haviam se tornado mais duros e insolentes. Se precisava encaminhar um projeto a outro setor da repartição e pedia isso ao contínuo, este demorava a fazer a tarefa, deixando sobre a sua mesa, de maneira a que todos vissem, a papelada urgente. Ventura acabava ele mesmo tomando as providências. À tarde, os demais colegas graduados recebiam uma fatia de bolo e uma xícara de café com leite. Ele notara o desconforto que provocava na senhora, já velha e de lindos olhos azuis, que servia o lanche. Cada vez ela demorava mais para levar-lhe o café, até que se esqueceu completamente de passar em sua sala. Na primeira vez, foi à cozinha para pegar a sua parte, criando constrangimento maior, pois os empregados mais simples, que comiam ali, ficaram incomodados com sua presença. Um jovem chegou a colocar a xícara com força na mesa e sair mastigando agressivamente o pedaço de bolo que, como forma de protesto, enfiara inteiro na boca. Restou ao engenheiro trabalhar emsilêncio e sozinho, porque seu desenhista, um rapaz a quem ensinava o ofício, preferiu ocupar outra sala, deixando de se dirigir a Ventura depois desse episódio. Todo mundo falava a mesma língua, alguns eram conhecidos desde a infância, mas cada vez ele usava menos o alemão para se comunicar. O idioma se tornara um recurso para a leitura e tudo que ele desejava, ao identificar esse isolamento, era voltar para casa, abrir um livro e perder-se emobras que ignoravam a sua cor — uma cor que, antes apenas malvista, acabara uma ofensa. Ler como uma forma de encontrar-se com sua alma era algo que fizera em todo o tempo de estudante, só que por outros motivos. No Rio, ele lia em alemão para voltar ao local em que se criara. Agora, para fugir dele. Assim que chegava em casa, encontrava a sopa preparada pela empregada branca que contratara depois do nascimento da criança. Jantava rapidamente e recebia o filho limpo e trocado para que ela pudesse ir embora.

Ventura o deixava em um berço no seu escritório, balançando-o com o pé enquanto lia distraidamente na poltrona, envolto em paisagens europeias. Tão logo a criança dormia, estava livre para se dedicar a outra atividade. Pensava em como se tornaria um menino criado sem a presença da mãe e com um pai sempre lendo. Contudo, não havia alternativa. Desde a perseguição na Prefeitura, percebeu que Gertrudes, a empregada alta, traços masculinos, mãos imensas, também assumira outro comportamento. Ele não queria aceitar isso, precisava de uma ajudante, e era fundamental que ela falasse corretamente alemão, para que o filho não tivesse dificuldades com a língua. Procurara em toda a cidade, e ao achá-la na casa de um médico prometera salário um pouco maior para que cuidasse das tarefas domésticas e do filho. A ganância tinha tirado Gertrudes do antigo trabalho e, nos primeiros meses, fizera dela uma funcionária cuidadosa. Agora, esquecia a criança suja no final da tarde, num descuido que antes nunca ocorrera, e saía logo que ele entrava em casa, como se fugisse de qualquer contato com o patrão. Mexendo nas fraldas do filho, Ventura notou que havia sujeira velha e que a criança estava assada. Tirou sua camisa branca, revelando o tronco musculoso sob a camiseta de malha, e levou o filho ao banheiro. Soltou as fraldas, o alfinete sujo de fezes, deixando tudo no chão, e aproximou o filho da bacia de alumínio que ficava ali para aquele fim. O piso estava seco, o que confirmava que Gertrudes não lavava mais a criança no final da tarde. Ao colocar o nenê na água, ele se debateu, seguro por uma mão firme. Com a outra, Ventura ensaboou o corpinho frágil, avermelhado. — Você não cabe neste mundo — falou para o filho de pouco menos de um ano. — E só existo nele — concluiu, entristecido. Depois de espalhar maisena nas assaduras do menino, vestiu-o com uma roupa limpa e resolveu deitar-se com ele na cama de casal, agora bem maior do que antes. No momento de alugar a casa, já com mobília, gostara da ideia de ter uma cama grande. Sempre dormira em camas estreitas, apesar de seu corpanzil. Além do conforto de se virar à vontade, poderia receber dignamente a mulher com quem começara um namoro na sua volta. Foram muitas horas passadas ali em combates de pernas, braços, bocas e sexos. Ele ainda sentia o cheiro dela se abria o armário no qual descansava um de seus vestidos. No entanto, tudo que sobrara daquele tempo era o filho. Deitou-se com ele, colocou seu braço sobre o corpinho e cantou a canção de ninar que ouvira as mães entoarem para seus filhos arianos quando ele era criança: Guten Abend, gut’ Nacht! Mit Rosen bedacht, mit Näglein besteckt, schlupf unter die Deck’! Morgen früh, wenn Gott will, wirst du wieder geweckt, morgen früh, so Gott will, wirst du wieder geweckt.

Não havia cobertor tal como na canção, a noite era quente, mas ele desejava mais do que nunca que, no dia seguinte, o filho acordasse para algo novo. Sem tirar as calças, dormiu com o menino. Amanheceu e o filho estava sentado na cama. Como a cortina ficara aberta, o quarto fora tomado pela luz. Ele não parecia o mulato claro que era, e sim um anjo loiro, tocado pelos raios de sol de uma manhã atemporal. Essa visão mudou o seu humor, fazendo com que as preocupações atuais, com o crescimento das perseguições nazistas na cidade, desaparecessem. Tomou um banho e foi para a cozinha, onde Gertrudes já devia estar. Falaria duro — a casa vivia malcuidada e o filho padecia com tal relaxo. Gostava de tudo asseado e não aceitaria desleixo. Contudo, não havia ninguém na cozinha. Com o menino no colo saiu para o quintal. O leiteiro passava ainda de madrugada com sua carroça, deixando sempre o litro de leite no jardim. Foi até lá, pegou a vasilha e, quando ia saindo, ouviu alguém bater palmas no portão. Voltou-se para a rua. — Sou filho da dona Gertrudes — o rapaz disse. Ventura o conhecia. Era um dos que dependiam do trabalho da mãe. — Ela está doente? Isso explicaria as mudanças de comportamento nos últimos dias. — Mandou dizer que não pode mais trabalhar para o senhor. Mal disse isso e já saiu, sem mencionar o pagamento. Ventura devia duas semanas e mesmo irritado gostaria de quitar tudo. Talvez durante a conversa, na hora do pagamento, pudesse tentar convencê-la a permanecer no emprego. Ficaram parados no jardim uns minutos, ele e o filho, sem saber o que fazer. O litro de leite na mão era uma realidade material, embora tudo ganhasse uma consistência de sonho. Movendo-se nessa irrealidade, alcançou a cozinha, preparou a mamadeira e depois bebeu um copo de leite.

Não teria tempo de tomar banho, levaria o filho para os avós cuidarem, medida que sempre evitara. Trocou-se às pressas e foi até a praça pegar um automóvel. Assim que viu dois esperando fregueses, ficou mais tranquilo. Daria para ir à Farroupilha, deixar a criança e chegar a tempo no trabalho. No primeiro, o chofer disse que não poderia fazer a corrida. O outro também recusou. Seria agora sempre assim?, ele pensou. Em casa, arrumou o carrinho de bebê e saiu com ele pela cidade, a caminho da Prefeitura. Trabalharia ali na presença do filho e por lá mesmo tentaria arrumar outra empregada. Um homem não conseguia cuidar sozinho de uma criança. Se não resolvesse esse problema, teria que entregar o menino a alguém, a alguma família que pudesse amá-lo. Na entrada do prédio, as pessoas olharam com desprezo para Ventura. Esse era um sentimento que aumentava a cada dia. Não queriam mais a sua presença no serviço. Nem na cidade. Ele cruzara uma fronteira. Na sua sala, outra pessoa ocupava a mesa que fora dele até o dia anterior. Era um jovem loiro, que nem se dignou olhar para ele, como se fosse o dono daquele local. Empurrando o carrinho pelo prédio, Ventura procurou seu chefe, um homem que costumava ser atencioso, sempre elogiando o seu trabalho no Theater Verein Frohsinn, cujo projeto arquitetônico imita um quepe da SS. Chegara a dizer que era no mínimo uma ironia que um técnico de cor estivesse ajudando a construir a cidade alemã. Ventura ficara, naquela conversa, constrangido, pois não se via como um homem de cor. Ninguém percebia que ele era mais germânico do que os colonos que falavam uma língua materna estropiada. Ele dominava o alemão literário, entretanto isso não era suficiente para branquear a sua pele. Envergonhara-se com o comentário do chefe, embora reconhecesse bondade nele. Esse homemestava agora lhe mostrando um ofício do Partido Nazista do Brasil proibindo a convivência entre alemães e raças inferiores, como judeus, negros e índios.

Seguiam o Código Penal de sua pátria, que pretendia proteger a Raça Alemã contra a desintegração causada pela miscigenação de sangue judeu e mulato. O texto era explícito: “Será considerado crime um ariano casar-se com alguém de origemjudaica ou de cor.” Ele não se casara, mas tinha tido um filho com uma alemã. E o fruto desse crime estava ali, diante dos olhos de todos, e isso era uma afronta maior. A aplicação das leis alemãs nas áreas em que essa etnia fosse maioria estava garantida pelo acordo entre o Terceiro Reich e o Estado Novo. Ventura achara que esse acordo seria uma grande oportunidade para que alçasse outros postos por conta de seu domínio da língua, e agora surgia essa situação. Não apenas o seu chefe; todos deviam ter sido comunicados sobre a proibição de convivência com negros. E obedeciam. Obedecer e mandar era da natureza desse povo. — Alguém levará suas coisas em casa e também a indenização. É uma quantia suficiente para começar a vida em outro lugar.

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