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A Seita do Ferrabraz – Paulo Fodra

“O primeiro anjo tocou a trombeta; formou-se uma chuva de granizo e fogo, de mistura com sangue, que foi atirada sobre a terra, e foi abrasada a terça parte da terra, e foi queimada a terça parte das árvores e toda a erva verde.” Apocalipse 8, 7 QUANDO EU ERA CRIANÇA, minha mãe me obrigava a ficar no templo após o culto para ouvir o pastor explicar aos fiéis algumas passagens bíblicas. Confesso que pouco me recordo daquelas tediosas preleções, pois meu olhar inquieto quase sempre se perdia pelas janelas afora, adejando entre devaneios e preocupações típicas da infância. Certo dia, porém, a voz potente do Reverendo Haesbaert elevou-se mais inflamada do que de costume, derrubando-me do alto dos meus pensamentos para encará-lo, assustado. Vigiai e orai! Porque não sabeis quando chegará o tempo! Suas palavras eloquentes vibravam nas paredes da capela como se tivessem saído das trombetas que derrubaram as muralhas de Jericó. Proclamavamque, no fim dos tempos, o céu se abriria e os anjos desceriam à Terra em busca dos homens. Os justos seriam, então, conduzidos pela mão aos Jardins do Éden, onde a Morte não tinha qualquer poder. Não haveria mais fome nem doenças. Todos viveriam para sempre ao lado do Criador, desfrutando de um pródigo banquete. Os ímpios, por sua vez, seriam lançados na Escuridão Eterna, um abismo infinito repleto de demônios, onde só havia choro, ranger de dentes e o desejo inatingível de findar o sofrimento com a morte. Naquela noite, sonhei que estava sendo julgado diante do Trono de Deus. Eu queria contemplarlhe a face luminosa, porém era como olhar direto para o sol. Minha sentença ecoou pelos salões do céu e eu caí. Meu corpo parecia voar, pois o chão nunca chegava. À minha volta, milhares de vozes sobrepunham-se em uma cacofonia de gritos e lamentos que se intensificava a cada instante. O calor era insuportável. Braços putrefatos agitavam-se nas sombras, entrelaçados, tentando me alcançar. Então o Diabo emergiu das trevas abaixo de mim, encarando-me com o olhar flamejante. Seu rosto, desfigurado pelo ódio, pouco lembrava o de um homem. Ele abriu suas asas arruinadas no vazio e lançou-se sobre mim. Gritei, lutando em vão para libertar-me de suas garras. Meus olhos se abrirame demorei a reconhecer as feições de minha mãe. Sentada na beirada da cama, ela sacudia-me para que eu despertasse. Contei a ela meu pesadelo e o seu rosto vincado abriu-se em um sorriso tranquilo. Afagando-me os cabelos, disse que um rapaz bom como eu não deveria temer o fim do mundo.


Aconselhou-me a pensar em Deus como o pai que eu não tinha mais. Afinal, ele sempre estaria por perto para me guiar, proteger e consolar. Adormeci outra vez, segurando a mão de minha mãe. Porém, no sonho, era o próprio Deus que me acalentava. Um sussurro doce cruzou as fronteiras da consciência e fixou-se emminha mente: Cresça, João Jorge, e prepare-se. Eu tenho um plano para você. Cresci sob os rigorosos preceitos da fé luterana. Aprendi o ofício de carpinteiro com os artesãos da colônia alemã de São Leopoldo e servi à Guarda Nacional em Porto Alegre, no início da Guerra do Paraguai. As noites de campanha foram terríveis. Frio, lama e olhos à espreita na escuridão. Enfrentei a tudo com bravura, pois Deus me queria guerreiro. Foi o que o capelão do quartel me disse quando lhe perguntei se não estávamos todos nos condenando ao inferno por matar outros homens. A partir de então, cada vez que um inimigo tombava sob a minha mira, o orgulho me dominava. Eu era um instrumento divino. De volta à colônia, em 1866, consegui um trabalho temporário na carpintaria de Pedro Mentz. Lá conheci Jacobina, sua irmã. Uma moça loura de profundos olhos azuis que, vez por outra, olhavamsem nada ver. Embora fosse alta e bonita, tinha a aparência frágil de quem vive adoentada. De fato, soube depois que ela sofria de desmaios frequentes seguidos de estranhas crises de histeria, eventos que a acompanhavam desde a infância. Por esse motivo, ainda não arranjara um marido. Jacobina, em seu alheamento, parecia flutuar acima da realidade. Sua presença onírica me atormentava. Trazia-nos o almoço todos os dias e, durante essas breves visitas, eu me surpreendia acompanhando-a com o olhar. Não demorou para que eu fosse flagrado em meu interesse. Para minha surpresa, ao invés de repreender-me, Pedro perguntou se eu não queria desposá-la.

De início, achei que ele estivesse brincando. Ele me explicou, então, que o Doutor Hillebrand, médico da família, recomendara-lhes o casamento como forma efetiva de controlar os ataques de Jacobina. Confuso, prometi pensar a respeito e fui para minha casa. No meio da noite, uma claridade fulgurante inundou o quarto e eu me vi na presença de Deus. Ele estava sentado no chão com as pernas cruzadas e a face voltada para cima. A luz se projetava em um facho que saía do seu rosto resplendente e subia em direção ao teto. Uma figura escura ascendeu no raio luminoso, como se brotasse da própria essência divina. O vulto foi tomando forma até revelar o contorno de um corpo feminino. Mesmo ofuscado pela luminosidade, reconheci Jacobina Mentz. Casamos naquele mesmo ano. Durante algum tempo, conseguimos levar uma vida normal. Porém, quando nosso primeiro filho nasceu, os ataques de Jacobina retornaram ainda mais intensos. Ela passava horas imóvel e não respondia a nenhum estímulo externo, como se o seu espírito estivesse ausente do corpo. Os sintomas mostraram-se incompreensíveis até mesmo para o Doutor Hillebrand, que esgotou, em vão, seus recursos terapêuticos. As pessoas da cidade nos deram as costas e começaram a tecer comentários em voz baixa pelas ruas. Questionavam minha capacidade para conduzir a família, a vocação materna de Jacobina, e até mesmo a possibilidade do seu mal se estender aos nossos filhos. Logo, a situação ficou insustentável. Imitando a Sagrada Família, deixamos Hamburgerberg e fomos para os confins de São Leopoldo reconstruir as nossas vidas. O lugar escolhido chamava-se Leonerhoff, um vilarejo ermo e de difícil acesso encravado nos contrafortes negros do Morro do Ferrabraz. Ali, a mata cerrada estava quase sempre envolta em uma névoa rala e persistente, o que conferia um aspecto fantasmagórico à região. Por outro lado, concedia-nos também a privacidade necessária à condição de minha amada Jacobina. A adaptação, porém, não foi fácil. Isolado do restante da colônia, o povoado era formado por colonos pobres acostumados a sobreviver do próprio suor. Nesse contexto, poucas pessoas dispunham de dinheiro para encomendar móveis e minhas habilidades de marceneiro mostraram-se inúteis para garantir o nosso sustento. Concluída a construção de nossa casa, vi-me forçado a abandonar a oficina e trabalhar na lavoura para alimentar a família, que crescia.

Ao arar a terra, enrijeci os músculos e calejei a alma. Descobri que os dias são mais longos sob o Sol. Várias vezes pensei ter me afastado por inteiro do plano que Deus designara. No entanto, trabalhando em um dia de calor insuportável, tive uma epifania. Em um lampejo, vislumbrei a minha vida por uma perspectiva inédita e, pela primeira vez, ela fazia sentido: os ensinamentos bíblicos da infância; o planejamento e a paciência aperfeiçoados através da prática da carpintaria; a tática, a disciplina e a bravura despertadas pelo serviço militar; a mudança súbita de ares; o corpo embrutecido pelo trabalho no campo. Eu estava sendo treinado, embora não soubesse o que Deus reservava para mim, tampouco qual seria o meu próximo passo. Com a mente atribulada, abandonei o arado e corri para casa. Precisava falar com Jacobina, pois a visão que tive em Hamburgerberg sugeria que ela também tinha um papel nessa história. Na primeira curva do caminho, choquei-me com um velhote apressado que vinha no sentido oposto, derrubando-o. Seu embornal abriu-se, espalhando o conteúdo pelo chão. Eram pequenos maços de ervas diversas, atados com barbante. Tratei de pedir desculpas e estendi a mão para ajudálo a se levantar. Ele abriu um sorriso franco e apresentou-se como Ludwig Buchhorn, curandeiro, de passagem pelas cercanias. Recebi esse encontro fortuito como um sinal celeste e, como já era tarde, convenci-o a pernoitar em minha casa. Buchhorn era um homem justo e agradável, que tencionava fazer o bem. Persuadi-lo a me ensinar o que sabia sobre a cura através das plantas foi bem simples. Passamos semanas percorrendo juntos as picadas do Ferrabraz em busca de plantas medicinais para elaborar emplastros e infusões terapêuticas. Depois, explicou-me em detalhes quando e como ministrá-las. Minha sede de conhecimento parecia não ter fim. Naquela parte carente da colônia, médicos eram raros e caros. Por isso, minhas novas habilidades foram muito bem recebidas. Além dos doentes de Leonerhoff, moradores dos povoados vizinhos vinham tratar-se comigo. Chamavam-me Der Wunderdoktor, o Doutor Maravilhoso. Minha casa logo se encheu de enfermos, convertendo-se em uma espécie de hospital. Jacobina, de início, assistia-me nas curas.

Porém, não tardou a apiedar-se dos que esperavam, às vezes por horas, a sua vez. Para entretê-los, passou a ler a Bíblia e orar com eles. Confortava os aflitos proclamando as maravilhas do Reino de Deus. Pode-se dizer que eu curava o corpo, e ela, a alma. Nosso destino, no entanto, era ir além. Os ataques de Jacobina aumentaram de frequência e adquiriram uma nova característica. Durante seus transes letárgicos, nos quais entrava após uma série de convulsões pavorosas, ela agora interpretava os textos bíblicos, aconselhava e fazia até profecias. O impressionante é que, apesar da voz baixa e distante, ela o fazia de modo claro e coerente, e não no balbucio hermético dos sonâmbulos. Ao despertar, não se recordava de nada do que tinha dito ou feito. Proclamaram-na santa, e a situação fugiu do controle. Pessoas acorriam de vários lugares para testemunhar os milagres de Jacobina e acompanhar as suas pregações, e eu mal tinha condições de abrigá-los e curá-los. Graças a Deus, surgiramvoluntários que nos ajudavam no que fosse possível e recebíamos víveres e cobertores em doação. Em um gesto nobre, chegaram a construir uma casa maior ao lado da nossa para que recebêssemos mais gente. Ao mesmo tempo, começávamos a incomodar os moralistas da colônia, que nos enxergavam como uma espécie de seita. Então algo inesperado aconteceu. Era tarde da noite, meus filhos dormiam e nós conversávamos com cinco peregrinos que haviamacabado de chegar de Porto Alegre. Estávamos na casa velha, o que nos dava um pouco de privacidade, pois havíamos transferido os doentes para o novo galpão. Jacobina, entrando em transe profundo, disse que Deus queria que fôssemos ao Ferrabraz testemunhar a sua glória. Estranhei o teor da mensagem, mas deixei que ela nos conduzisse para o meio da mata, entrando por uma trilha precária. Nos arrastamos no escuro até chegarmos a uma clareira bastante afastada da casa. Eu estava exausto e com a pele coberta de arranhões. Jacobina, ao contrário, estava ilesa e respirava com suavidade, apesar de ter voltado a si. No céu, uma tempestade se formava. Ventava muito e eu podia ver os relâmpagos que fulguravam por trás da densa camada de nuvens. Súbito, um raio rasgou as nuvens e atingiu a extremidade oposta do descampado.

A energia não se dissipou. Ao invés, acumulou-se em uma esfera luminosa que zumbia e pulsava. Em seu centro, divisei o Rosto Resplendente. Sua voz profunda irrompeu nítida em meio aos trovões: É chegado o tempo da glória, meus filhos! O Sétimo Selo foi quebrado e os anjos preparam-se para o Armageddon. Não tenham medo, pois só há uma porta de entrada para o Éden. Quero que vocês sejam as minhas testemunhas e conduzam o meu rebanho para o Sacrifício Final. Dizendo isso, a esfera desfez-se em um clarão que nos ofuscou, e uma série de raios desceu sobre nós.

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