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A semana dos bruxos – Diana Wynne Jones

O bilhete dizia: ALGUÉM NESTA TURMA É BRUXO. Isto estava escrito em letras maiúsculas, com uma caneta esferográfica comum de tinta azul, e havia surgido entre dois dos cadernos de geografia que o sr. Crossley estava corrigindo. Qualquer pessoa poderia ter escrito aquilo. O sr. Crossley esfregou com tristeza o seu bigode ruivo e ficou a contemplar as cabeças curvadas da turma 2Y enquanto se perguntava o que deveria fazer. Resolveu não levar o bilhete à diretora; era bem possível que se tratasse de uma simples brincadeira, e a srta. Cadwallader não tinha senso de humor, pelo menos que alguém pudesse perceber. A pessoa a quem o bilhete deveria ser apresentado era o vice-diretor, o sr. Wentworth. Mas a dificuldade disso era que o filho do sr. Wentworth estudava na 2Y, era o menininho, quase no fundo da sala, que parecia mais jovem do que os outros: Brian Wentworth. Não. O sr. Crossley resolveu que iria pedir ao autor do bilhete que se identificasse; explicaria que aquela era uma acusação muito séria e deixaria que a consciência do culpado se manifestasse. O sr. Crossley pigarreou antes de começar a falar, e alguns alunos da 2Y ergueram os olhos, esperançosos, mas o sr. Crossley a essa altura já havia mudado de idéia, pois era hora do diário, e a hora do diário só podia ser interrompida numa emergência grave. O Internato de Larwood era muito exigente quanto a essa regra. O Internato de Larwood era muito exigente quanto a uma porção de coisas, pois tratava-se de um colégio interno mantido pelo governo para órfãos de bruxos e para crianças com outros problemas. Os diários serviam para ajudar as crianças com os seus problemas. Deveriam ser estritamente particulares. Todos os dias, durante meia hora, cada aluno tinha que confiar seus pensamentos secretos ao diário, e nada mais se fazia até que todos houvessem terminado. O sr. Crossley era um entusiástico admirador daquela idéia.


Mas a verdadeira razão por que o sr. Crossley mudou de intenção foi o pensamento apavorante de que o bilhete poderia ser verdadeiro: alguém na 2Y poderia facilmente ser um bruxo. Apenas a srta. Cadwallader sabia exatamente quem eram os órfãos de bruxos na 2Y, mas o sr. Crossley tinha as suas suspeitas de que fossem em grande número. Outras turmas haviam dado ao sr. Crossley sentimentos de orgulho e prazer em ser professor, porém a 2Y jamais tivera esse efeito. Apenas dois alunos lhe davam algum orgulho: Theresa Mullett e Simon Silverson. Ambos eram alunos modelos. As outras meninas ficavam muito para trás, sendo que as piores eram as tagarelas fúteis como Estelle Green, ou Nan Pilgrim, aquela menina corpulenta que definitivamente era muito estranha. Os meninos dividiam-se em grupos. Alguns tinham o bom senso de seguir o exemplo de Simon Silverson, mas o mesmo número de alunos rodeavam e bajulavam Dan Smith, o valentão da escola, e ainda outros admiravam Nirupam Singh, um menino indiano de estatura elevada. Ou eram solitários, como Brian Wentworth e aquele antipático do Charles Morgan. Nessa altura o sr. Crossley olhou para Charles Morgan, e o menino retribuiu-lhe com um daqueles olhares vazios e hostis pelos quais ele era famoso. Charles usava óculos, o que ampliava o seu olhar agressivo, que ele fixou no sr. Crossley como um duplo raio laser. O sr. Crossley desviou os olhos o mais rápido possível e voltou à sua preocupação com o bilhete. Todos na 2Y desistiram de ter esperanças de que alguma coisa interessante fosse acontecer e voltaram a ocupar-se com seus diários. Numa caligrafia arredondada e angelical, Theresa Mullett escrevia: 28 de outubro de 1981. O sr. Crossley encontrou um bilhete em nossos cadernos de geografia. No princípio pensei que devia ser da srta. Hodge, porque todos nós sabemos que Teddy morre de amores por ela, mas ele parece tão preocupado que acho que deve ser de alguma menina boba como Estelle Green.

Nan Pilgrim não conseguiu saltar por cima do cavalo-de-pau hoje de novo. Ela pulou e ficou presa, entalada no meio. Todos nós achamos graça. 28.10.81. Eu gostaria de saber quem foi que colocou aquele bilhete nos cadernos de geografia, Simon Silverson escreveu, Ele caiu quando eu estava recolhendo os cadernos, então coloquei de volta. Se ele fosse encontrado caído no chão, todos nós poderíamos levar a culpa. Isto é estritamente não-oficial, é claro. Nirupam Singh escreveu filosoficamente: Não sei como alguém consegue escrever muita coisa no diário, já que todo o mundo sabe que a srta. Cadwallader lê todos eles durante as férias. Eu não escrevo os meus pensamentos secretos. Agora vou descrever o truque indiano com a corda que vi na Índia antes de papai vir morar na Inglaterra… A duas carteiras de distância de Nirupam, Dan Smith passou bastante tempo mastigando a caneta, e finalmente escreveu: Bom sei lá não é muito legal a gente ter que escrever nossos sentimentos secretos quer dizer tira toda a graça e a gente não sabe o que vai escrever. Quer dizer eles não são secretos dá pra entender? Acho que hoje não tenho sentimentos secretos, Estelle Green escrevia, mas gostaria de saber o que está escrito no bilhete da srta. Hodge que o Teddy acabou de encontrar. Eu pensava que ela desprezava ele completamente. No fundo da sala, Brian Wentworth escrevia, suspirando: O meu problema é que eu adoro meios de transporte e as suas tabelas de horários. Durante a aula de geografia planejei uma viagem de ônibus inteirinha, de Londres até Bagdá, via Paris. Na próxima aula vou planejar a mesma viagem via Berlim. Enquanto isso, Nan Pilgrim rabiscava: Esta é uma mensagem para a pessoa que lê os nossos diários: você é a srta. Cadwallader, ou a srta. Cadwallader obriga o sr. Wentworth a ler? Ela fixou os olhos naquilo que havia escrito, um pouco atônita com a sua própria ousadia. Esse tipo de coisa às vezes lhe acontecia. Ela pensou: de qualquer maneira, são centenas de diários e centenas de anotações cotidianas.

As chances da srta. Cadwallader ler justamente a anotação de hoje são bem pequenas, principalmente se eu continuar e tornar a minha anotação bem monótona. Pôs-se a escrever: Agora vou ser bem monótona. O verdadeiro nome de Teddy Crossley é Harold, mas ele passou a ser chamado de Teddy porque quando lança o seu olhar de apaixonado fica igualzinho ao Ursinho Teddy. Ele acha que todo o mundo deve ser correto, honrado e interessado em geografia. Sinto pena dele. Mas quem conseguia fazer melhor um diário monótono era Charles Morgan. Sua anotação dizia: Eu me levantei. Senti calor na hora do café da manhã. Não gosto de mingau. A segunda aula foi de carpintaria mas não demorou. Acho que agora teremos jogos. Lendo isto, pode-se pensar que Charles é muito burro ou muito confuso, ou as duas coisas, já que qualquer pessoa na turma 2Y poderia confirmar que havia sido uma manhã gelada e eles comeram cereal no café da manhã. A segunda aula havia sido de educação física, durante a qual Nan Pilgrim havia divertido tanto Theresa Mullett quando não conseguiu saltar o cavalo-de-pau, e a aula seguinte seria de música, não de jogos. Mas Charles não estava escrevendo sobre aquele dia; na verdade, ele descrevia seus sentimentos secretos, mas fazia isso num código particular, para que ninguém mais soubesse. Ele começava todas as anotações com Eu me levantei. Isto significava: odeio esta escola. Quando ele escreveu Eu não gosto de mingau, aquilo era mesmo verdade, mas mingau era o seu nome em código para Simon Silverson. Simon era “mingau” no café da manhã, “batata” no almoço e “pão” no lanche. Todas as outras pessoas que ele detestava tinham codinomes também. Dan Smith era “cereal”, “repolho” e “manteiga”. Theresa Mullett era “leite”. Mas quando Charles escreveu senti calor, não estava falando a respeito da escola; ele queria dizer que se lembrara do bruxo sendo queimado na fogueira. Era uma coisa que, por mais que ele tentasse esquecer, voltava aos seus pensamentos todas as ocasiões em que ele não estava pensando em outra coisa qualquer. Na época ele era tão novinho que ainda era transportado em um carrinho.

Sua irmã mais velha, Bernadine, o empurrava, enquanto sua mãe carregava as sacolas de compras, e eles estavamatravessando uma rua de onde se via, lá mais embaixo, a Praça do Mercado. Havia lá uma enorme multidão, e uma espécie de luz tremeluzindo. Bernadine parou o carrinho bem no meio da rua para poder ver melhor. Ela e Charles mal tiveram tempo de ver de relance a fogueira começando a arder, mas viram muito bem que o bruxo era um homem grande e gordo. Então a mãe voltara correndo para ralhar com Bernadine, fazendo com que ela acabasse de atravessar a rua com o carrinho. — Você não deve olhar para bruxos! — Explicou. — Só gente muito ruim faz isto! De modo que Charles havia visto o bruxo por um instante apenas. Nunca falou sobre isso, mas nunca esqueceu. Sempre se espantava ao constatar que Bernadine dava a impressão de ter esquecido completamente o episódio. O que, na verdade, Charles estava dizendo no seu diário era que o bruxo lhe viera à cabeça durante o café da manhã, até Simon Silverson comer todas as torradas, fazendo com que ele tornasse a esquecer. Quando escreveu A segunda aula foi de carpintaria, ele estava querendo dizer que passara a pensar na segunda bruxa — o que era uma coisa sobre a qual ele não pensava com tanta freqüência. Carpintaria era qualquer coisa de que gostasse. Eles só tinham aula de carpintaria uma vez por semana, e Charles escolhera esse nome para o seu código pelo motivo bastante razoável de que não era provável que ele fosse gostar de alguma coisa no Internato de Larwood com mais freqüência do que uma vez por semana. Charles havia gostado da segunda bruxa. Ela era bem jovem e bastante bonitinha, apesar da saia rasgada e dos cabelos desgrenhados. Chegara por cima do muro nos fundos do jardim e viera aos tropeços pelas pedras até o gramado, trazendo os sapatos elegantes em uma das mãos. Charles tinha então nove anos de idade e estava tomando conta do seu irmãozinho no gramado. Para a sorte da bruxa, seus pais não estavam em casa. Charles sabia que ela era bruxa. Ela estava ofegante e obviamente assustada; ele conseguia ouvir os gritos e os apitos dos policiais nas casas atrás da dele. Além disso, que outra pessoa senão uma bruxa fugiria da polícia no meio da tarde usando uma saia justa? Mas ele quis ter certeza, e perguntou: — Por que está fugindo pelo nosso jardim? A bruxa, com expressão desesperada, pulava num pé só. Tinha uma bolha enorme no outro pé, e suas meias mostravam vários fios corridos. — Porque sou bruxa — ela ofegou. — Por favor me ajude, garotinho! — Por que não faz uma mágica para se livrar? — Charles perguntou. — Porque não consigo quando estou tão assustada assim! — Ela arquejou.

— Eu tentei, mas deu errado! Por favor, garotinho, se me deixar atravessar a sua casa para fugir e não contar uma palavra a ninguém, eu lhe darei sorte pelo resto da sua vida. Prometo. Charles encarou-a naquela sua maneira que a maioria das pessoas achava vazia e hostil. E viu que ela estava falando a verdade. Viu, também, que ela compreendia aquele olhar como poucas pessoas pareciam compreender. — Entre pela cozinha — ele concordou. E levou a bruxa — que mancava por causa da bolha sob a meia desfiada — através da cozinha, descendo o corredor que levava à porta da frente. — Obrigada, você é um amor — ela disse. Sorriu para ele enquanto endireitava os cabelos no espelho do corredor e, depois de ter feito alguma coisa na saia, talvez alguma bruxaria para fazer com que parecesse não estar rasgada, ela inclinou-se e deu um beijo em Charles. — Se eu escapar, vou lhe trazer sorte — disse. Então tornou a calçar os sapatos elegantes e saiu pelo jardim da frente, fazendo um grande esforço para não mancar. No portão, ela acenou e sorriu para Charles. Aquele era o final da parte de que Charles gostava. Foi por esse motivo que ele em seguida escreveu mas não demorou: ele jamais tornara a ver a bruxa, e jamais ficara sabendo do que acontecera a ela. Ordenou ao irmãozinho que nunca dissesse uma palavra sobre o episódio — e Graham obedeceu, pois sempre fazia tudo o que Charles mandasse — e então ficou esperando, atento, qualquer sinal da bruxa ou qualquer sinal de sorte. Isso jamais aconteceu. Era quase impossível para Charles descobrir o que poderia ter acontecido à bruxa, porque novas leis haviam sido criadas depois que ele vira de relance o primeiro bruxo queimado na fogueira. Nunca mais houve execuções públicas. Em vez disso, as fogueiras eram acesas dentro das paredes das prisões, e o rádio simplesmente anunciava: “Duas bruxas foram queimadas esta manhã na Prisão Holloway”. Cada vez que Charles escutava esse tipo de anúncio, pensava que era a sua bruxa. Isso lhe provocava um sentimento obtuso e dolorido por dentro. Ele pensava no modo como ela o beijara e tinha quase certeza de que isso — ser beijado por uma bruxa — o faria ser errado também. E desistiu de guardar a esperança de ter sorte. Aliás, a julgar pela quantidade de azar que já tivera, Charles acreditava que a bruxa fora agarrada logo depois. Além disso, a sensação pesada e dolorosa que o dominava quando o rádio anunciava uma execução fazia com que ele se recusasse a fazer qualquer coisa que seus pais lhe ordenassem.

Como resposta, ele simplesmente lhes dava o seu olhar vazio e antipático. E cada vez que ele olhava para eles desse modo, sabia que isto era interpretado como má-criação. Eles não compreendiam o seu olhar da mesma maneira que a bruxa compreendera. E como Graham imitava tudo o que irmão mais velho fazia, os pais logo concluíramque Charles era uma criança-problema que estava estragando Graham. Então providenciaram para que ele fosse enviado para o Internato de Larwood, porque este ficava bem próximo. Quando Charles escreveu jogos, ele queria dizer problemas. Como todos os outros alunos da 2Y, ele havia observado o sr. Crossley encontrar um bilhete. Não sabia o que estava escrito nele, mas quando ergueu os olhos e encontrou o olhar do sr. Crossley, percebeu logo que aquilo significava problemas iminentes. O sr. Crossley ainda não havia conseguido decidir o que fazer a respeito do bilhete. Se o que ele dizia era verdade, aquilo significaria Inquisidores vindo à escola, e esse era um pensamento assustador. O sr. Crossley suspirou e guardou o bilhete no bolso. — Muito bem, todos vocês guardem os seus diários e entrem em fila para a aula de música —ordenou. Assim que a 2Y saiu para o corredor da escola, o sr. Crossley dirigiu-se apressado à sala dos professores, na esperança de encontrar alguém a quem pudesse consultar sobre o bilhete. Teve a grande sorte de encontrar lá a srta. Hodge. Como Theresa Mullett e Estelle Green haviam observado, o sr. Crossley estava apaixonado pela srta. Hodge. Mas, como era natural, ele jamais demonstrara isso. Talvez a única pessoa na escola que dava a impressão de não saber era a própria srta.

Hodge. Ela era uma mulher baixinha e muito arrumada, que usava saias e blusas cinzentas e tinha os cabelos ainda mais penteados e mais lisos do que os de Theresa Mullett. Ela estava ocupada arrumando livros em pilhas regulares sobre a mesa da sala dos professores e continuou fazendo isto durante todo o tempo em que o sr. Crossley lhe contava excitadamente sobre o bilhete. Ela olhou de relance para o pedaço de papel. — Também não sei dizer quem o escreveu — declarou. — Mas o que devo fazer com relação a isto? — O sr. Crossley perguntou em tom de súplica. — Mesmo se for verdade, é uma coisa tão cheia de raiva! E vamos supor que seja mesmo verdade; vamos supor que um deles seja… — Ele estava num estado lastimável. Queria muito atrair a atenção da srta. Hodge, mas sabia que palavras como “bruxo” não deveriam ser usadas diante de uma dama. — Não gosto de dizer essa palavra na sua frente. — Eu fui educada para ter piedade dos bruxos — a srta. Hodge respondeu calmamente. — Ah, eu também! Todos nós — o sr. Crossley apressou-se a responder. — Apenas fiquei me perguntando como deveria cuidar deste… A srta. Hodge interrompeu-o enquanto fazia outra pilha de livros. — Acho que é uma brincadeira boba — afirmou. — Ignore. Você não devia estar dando aula à turma 4X? — É, sim, acho que sim — o sr. Crossley concordou em tom infeliz. E foi forçado a sair sem que a srta. Hodge houvesse olhado para ele uma única vez. A srta.

Hodge ficou pensativa enquanto fazia outra pilha de livros, só interrompendo o trabalho depois de ter certeza de que o sr. Crossley já havia ido embora. Então alisou os cabelos já lisos e correu para o andar de cima, para procurar o sr. Wentworth. Como vice-diretor, o sr. Wentworth tinha um escritório onde ele lutava com as tabelas de horários das aulas e vários outros problemas que a srta. Cadwallader lhe passava. Quando a srta. Hodge bateu na porta, ele estava enfrentando um problema particularmente feroz. Havia setenta pessoas na orquestra da escola; cinqüenta delas faziam parte também do coro, e dessas, vinte estavam na peça teatral da escola. Outros trinta meninos da orquestra participavam de variados times de futebol, e vinte das meninas jogavam no time de hóquei da escola. Pelo menos um terço jogava também basquete. O time de vôlei inteiro estava na peça teatral. Problema: como organizar ensaios e treinos sem pedir à maioria dos alunos que estivessem em três lugares ao mesmo tempo? Emdesespero, o sr. Wentworth esfregou a calvície no alto da cabeça. — Entre — disse. Viu o rosto alegre, sorridente e ansioso da srta. Hodge. Mas seus pensamentos estavam bem longe dela. — Tão maldoso por parte de alguém, e tão terrível, se for verdade! — Ele escutou a srta. Hodge dizer e, em seguida, continuar, em tom animado: — Mas acho que tenho um plano para descobrir quem escreveu o bilhete. Deve ter sido alguém da 2Y. Podemos juntar nossas cabeças e tentar resolver isto, senhor Wentworth? Ela, convidativa, moveu a cabeça de lado. O sr. Wentworth não tinha a mínima idéia do que ela estava falando.

Coçou o lugar onde o cabelo estava caindo e encarou-a. Fosse o que fosse, aquilo mostrava todas as características de umplano que precisava ser aniquilado. — As pessoas só mandam cartas anônimas para se sentirem importantes — ele declarou experimentalmente. — Não se pode levá-las a sério. — Mas é um plano perfeito! — Protestou a srta. Hodge. — Se eu puder explicar… O sr. Wentworth pensou: fosse qual fosse o plano dela, ainda não havia sido aniquilado. — Não. Apenas diga-me as palavras exatas do tal bilhete — interrompeu-a. A srta. Hodge instantaneamente ficou aniquilada e chocada. — Mas é terrível! — A voz dela baixou para um sussurro teatral. — Ele afirma que alguém na 2Y é bruxo! O sr. Wentworth deu-se conta de que o seu instinto estivera correto. — Que foi que lhe disse? É o tipo de coisa que só se pode ignorar, senhorita Hodge — disse com veemência. — Mas alguém no 2Y tem a mente muito doentia! — A srta. Hodge sussurrou. O sr. Wentworth ficou pensando na 2Y, inclusive no seu próprio filho Brian. — Todos eles têm — retrucou. — Ou vão mudar quando crescerem, ou vamos vê-los todos voando em vassouras na sexta série. A srta. Hodge recuou; estava bastante chocada diante daquela linguagem grosseira. Mas no mesmo instante obrigou-se a rir, pois ocorrera-lhe que se tratava de uma piada.

— Não dê atenção — disse o sr. Wentworth. — Ignore-o, senhorita Hodge. E voltou para o seu problema com um certo alívio. A srta. Hodge retornou às suas pilhas de livros, não tão aniquilada quanto o sr. Wentworth imaginava que ela estivesse. O sr. Wentworth havia feito uma piada com ela! Aquilo nunca havia acontecido antes, de modo que ela estava fazendo progressos. Pois, um fato que não era conhecido por Theresa Mullett ou Estelle Green, a srta. Hodge pretendia casar-se com o sr. Wentworth. Ele era viúvo; a srta. Hodge tinha certeza de que, quando a srta. Cadwallader se aposentasse, o sr. Wentworth passaria a ser o diretor do Internato de Larwood. Aquilo se ajustava aos planos da srta. Hodge, que tinha o pai idoso com quem se preocupar. Para isso ela estava mais do que disposta a aturar a calvície e o olhar tenso e angustiado dele. A única desvantagem era que aturar o sr. Wentworth significava aturar Brian também. Uma ruguinha surgiu na testa lisa da srta. Hodge quando ela pensou em Brian Wentworth. Ora, ali estava um menino que merecia o modo como o resto da 2Y o tratava. Não tinha importância, ele poderia ser mandado para alguma outra escola bem distante.

Enquanto isso, na aula de música, o sr. Brubeck estava pedindo a Brian para cantar um solo. A 2Y havia vencido aos trancos a canção “Aqui estamos, como passarinhos na floresta”, que na voz deles soava como um lamento. — Eu preferia estar na floresta — Estelle Green cochichou à sua amiga Karen Grigg. Depois cantaram “O cucaburra está empoleirado na velha seringueira”, que soava como umcanto fúnebre. — O que é cucaburra? — Karen sussurrou a Estelle. — Outro tipo de pássaro — Estelle cochichou de volta. — É australiano — acrescentou. — Não, não, não! — Gritou o sr. Brubeck. — Brian é o único de vocês que quando canta não parece um frango com dor de garganta! — O sr. Brubeck deve ter aves no cérebro — Estelle comentou com uma risadinha. E Simon Silverson, que acreditava, com vigor e sinceridade, que ninguém, exceto ele próprio, era merecedor de elogios, lançou a Brian um penetrante olhar de zombaria. Mas o sr. Brubeck era demasiado viciado em música para prestar atenção naquilo que o resto da 2Y pensava. — “O cuco é um passarinho bonitinho” — anunciou. — Quero que Brian cante sozinho esta canção para vocês. Estelle deu uma risadinha, por se tratar de mais um passarinho. Theresa também riu, porque achava engraçadíssima qualquer pessoa que se destacasse por qualquer motivo. Brian ficou de pé, com o livro de canções nas mãos. Nunca se sentia envergonhado. Em vez de cantar, porém, ele pôsse a ler a letra da canção em tom de incredulidade. — “O cuco é um passarinho, ele canta quando voa. Ele nos traz boas-novas, ele não nos mente à toa”. Professor, por que todas estas canções são sobre pássaros? — Ele perguntou inocentemente.

Charles achou aquilo uma iniciativa esperta por parte de Brian, depois do modo como Simon Silverson havia olhado para ele. Mas isso de nada adiantou para Brian. Ele era impopular demais. A maioria das meninas disse o nome dele em tom chocado. Simon fez o mesmo em tom de zombaria. — Silêncio! — Gritou o sr. Brubeck. — Brian, comece logo a cantar! E tocou algumas notas no piano. Brian ficou parado com o livro nas mãos, evidentemente perguntando-se o que fazer. Era óbvio que ele teria problemas com o sr. Brubeck se não cantasse, e que levaria uma surra depois, se cantasse. E enquanto Brian hesitava, o bruxo que havia na 2Y encarregou-se da situação: uma das compridas janelas do Salão Nobre abriu-se ruidosamente e deixou entrar um bando de pássaros. A maioria deles era de pássaros comuns — pardais, estorninhos, pombos, melros e tordos — volteando pelo Salão Nobre em grande número e deixando cair penas e excremento em pleno vôo. Mas entre as asas que batiam havia as de duas curiosas criaturas peludas, exibindo grandes papadas, que faziamsem cessar um som de gargalhadas; e a coisa vermelha e amarela que voava no meio de uma nuvemde pardais e gritava “cuco!” era, obviamente, uma arara. Por sorte, o sr. Brubeck imaginou que havia sido simplesmente o vento que havia deixado os pássaros entrarem. Durante o resto da aula a ocupação foi expulsar os pássaros da sala. A essa altura, os que tinham papadas e soltavam gargalhadas haviam desaparecido; decerto o bruxo concluíra que tinha cometido um engano. Mas todos na 2Y tinham visto muito bem aquelas aves. Simon declarou em tom de importância: — Se isto acontecer outra vez, nós todos devemos nos reunir e… Diante disso, Nirupam Singh virou-se, sua altura a destacar-se entre as asas que batiam. — Você tem alguma prova de que isto não é natural? — Perguntou. Simon não tinha prova alguma, de modo que ficou quieto. No final da aula, todos os pássaros já haviam sido colocados para fora da janela, exceto um: a arara, que procurou refugio no alto, sobre um trilho de cortina, onde ninguém conseguia alcançá-la, e ali ficou empoleirada, gritando “cuco!” O sr. Brubeck dispensou a 2Y e chamou o zelador para livrar-se dela. Charles retirou-se com o resto da turma, pensando que aquele devia ser o final dos jogos que ele havia predito no seu diário.

Mas estava enganado: era apenas o princípio. E quando o zelador — acompanhado de perto pelo seu cachorrinho branco — chegou, reclamando, para cuidar da arara, esta havia desaparecido.

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