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A SENDA DOS ELEFANTES – Robert Standish

Um homem de forte compleição, de uns quarenta anos, deteve-se breves minutos a observar com satisfação o amplo vale em forma de pires, o luxuriante campo abaixo de si e o sobranceiro cume de Ratnagalla. A beleza do que abrangia provocou-lhe um profundo suspiro. Em ambos os lados estendiam-se quilômetros de terreno cultivado. Na parte superior do vale, as folhas verdeescuras dos cafezeiros brilhavam ao sol da manhã, enquanto o intenso vermelho dos grãos produzia o curioso efeito dum mar de chamas. Tom Carey contemplou o espetáculo com justificado orgulho, pois apenas quinze anos antes aquela região não passava duma floresta virgem, onde nunca se ouvira o som seco dum machado. A sua coragem, aliada a poderosa força de vontade, tornara possível a transformação. O café produzido,nas suas extensas propriedades obtinha fácil aceitação em todos os recantos do mundo onde essa aromática bebida era apreciada, a troco de infindáveis correntes de proventos, superiores aos que ele a princípio teria ousado imaginar e maiores, de longe, do que as suas possibilidades de despendê-los. Era um homem alto, de movimentos lentos e calculados, possuidor dum queixo firme, quase agressivo, e de olhos azuis cândidos e destemidos; o rosto de uma pessoa segura de si mesma, do que desejava e da sua faculdade de consegui-lo pela força, se necessário fosse. Encontrava-se naquela radiosa manhã do ano de 1863 num pequeno planalto, de uns dez hetares de superfície, formado pela junção de duas elevações da planície. Dali avistavam-se perfeitamente o vale e os terrenos seguintes. Cerca de trinta metros acima, brotava uma nascente de água cristalina que, deslizando pela encosta, transformava o planalto num terreno pantanoso. — Construirei aqui a minha residência, Appuhamy — decidiu Tom Carey, voltando-se para o singalês alto, de meia-idade e bigodes espessos, que aguardava, pacientemente, de pé a seu lado, com um filho de dez anos. — Não existe melhor local em todo o Ceilão. — No entanto, senhor — lembrou o outro — os elefantes costumam parar aqui quando vêmda planície. Não é prudente contrariar o Povo Elefante. — Deverão, de futuro, escolher outro caminho — retorquiu Carey, observando desdenhosamente o espanto do servo. — Ouviste? A minha casa será construída aqui. — Se assim o deseja, senhor, a sua vontade prevalecerá — replicou Appuhamy, gravemente. — Todavia, é um lugar de mau agoiro. Nada de bom resultará disso. — Guarda essas histórias para as velhas tontas, Appuhamy. Não quero ouvi-las. Quando destruí parte da floresta, preveniram-me de que os elefantes devastariam o meu café. Como vês, isso não sucedeu. — O café não foi plantado no caminho dos elefantes — objetou Appuhamy pausadamente.


— Seja como for, posso contar contigo para levar a cabo o meu empreendimento? — Sem dúvida, senhor, embora o faça com o coração oprimido. — Em primeiro lugar o terreno deve ser drenado. Amanhã de manhã mandarei aqui alguns coolies (1). (1) Trabalhador chinês ou índio. Pronunciando estas palavras, Tom Carey aproximou-se do local onde deixara amarrado o seu cavalo, montou-o e afastou-se. — O nosso amo — confidenciou Appuhamy ao filho — é um homem obstinado. — Mas não tem medo dos elefantes — contestou o pequeno a meia voz, com os olhos brilhantes de admiração. Uma semana mais tarde, o pequeno planalto encontrava-se drenado, tendo sido aberta uma passagem para escoamento das águas da nascente. Decorrido um mês, estava cavada uma série de profundos fossos para o assentamento de uma gigantesca construção, enquanto centenas de homens se ocupavam em abrir uma nova estrada de acesso ao local. Seis meses depois, ficavam terminados os alicerces, feitos de pedra arrancada duma pedreira situada a algumas centenas de metros dali. Atraídos pelos rumores que circulavam acerca do seu impressionante aspeto, apareceram muitos curiosos a certificarem-se, retirando-se maravilhados. — De que será construído o restante? — perguntavam a Appuhamy. — De madeira de teca, a melhor de Burma, selecionada e tratada em especial para esse fim. Meu amo prefere sempre o que há de melhor. — Mas, teca, Por quê? — inquiriam. — Com tanta madeira de primeira qualidade ao seu alcance na floresta, a dois passos… — A intenção de meu amo é que a casa perdure para seus filhos e netos. A teca é quase tão resistente à ação do tempo como a própria pedra. A umidade e o Sol não conseguirão destruí-la; as formigas não a devorarão; o tempo seco e quente não a encarquilhará. Quando estiver concluída, será um autêntico palácio. — Por que ele se preocupa em garantir um lar para os netos — comentou em voz de cético —quando ainda nem tem filhos ou mesmo esposa? Parece loucura… — É possível que seja uma loucura para si — retorquiu Appuhamy secamente — habituado a viver numa insignificante cabana com paredes de barro e um teto de folhas de palmeira. Porém, é fora de dúvida que, quando estiver concluída, esta casa será a mais bela de todo o Ceilão. — Acho preferível dizer: se for concluída — continuou o outro — pois estou firmemente convencido de que, na sua próxima passagem por este local, o Povo Elefante será de opinião diferente. Como todos sabemos, só um louco, ou ignorante, ousaria desafiar a sua fúria. — Meu amo não receia o Povo Elefante — interveio o filho de Appuhamy, que presenciava este diálogo. — Não tem medo de nada.

Ouvi-o dizer que, se os elefantes tentarem impedi-lo de levar avante o seu projeto, os obrigará a ajudá-lo. Prometeu arranjar-me ali uma colocação. — Caluda, filho! — ordenou o singalês. — Estou certo de que se, quando cresceres, vieres a servir o meu amo, ele não aprovará que repitas as suas palavras a um mandrião que nada de melhor tem para fazer do que pronunciar tolices. —Mas o pai crê que o Povo Elefante pode opor-se a que o amo construa aqui a sua casa? —perguntou o pequeno quando se encontrou a sós com o seu progenitor. — Isso não sei — foi a cautelosa resposta — mas oxalá ele tivesse escolhido outro lugar. É estranho que não tenha encontrado mais nenhum que lhe agradasse. Todavia, como verificarás se vieres a servi-lo, não é facilmente demovível quando toma uma resolução. Poucos dias mais tarde, principiaram a chegar, numa interminável procissão, pela nova estrada, enormes carros, cada um puxado por seis bois brancos, com pesadas cargas de teca. Nalguns viam-se grossos troncos para serem utilizados como vigas, noutros grandes quantidades de pranchas, já aparelhadas, para o sobrado, almofadas de portas e diversas finalidades. Logo que umdos carros acabava de descarregar, outro ocupava imediatamente o seu lugar, vendo-se em breve erguer-se uma verdadeira montanha de madeira. Alguns dias após a chegada do último carregamento de teca, ocorreu no fundo do vale um fato sem aparente relação com a nossa história. Registava-se, havia algumas semanas, um período de seca. Os cursos de água tinham secado, a relva apresentava-se amarelecida pela poeira e na própria selva se observava escassez de folhas frescas. Uma manada de elefantes, olhando para a desolação à sua volta, lembrou-se subitamente de que nas colinas ao longe existiam frescas nascentes, apetitoso pasto e deliciosa folhagem como havia muito não provavam. Com um profundo som da sua tromba, o Elefante Guia deu o sinal para avançar. Três fêmeas, cada uma com um filho a seu lado, seguiram-no obedientemente. O caminho conduzia às colinas, através da planície, no fundo da qual emergia da bruma matinal o brilhante Pico de Ratnagalla banhado pelo sol. Ratna, no dialeto singalês, significa joia, e galla, montanha; daí o pitoresco nome da elevação. Do seu cume brotava uma nascente correndo pela rocha polida que, nos dias claros, atuava como um espelho refletor dos raios solares. Se o Guia tomou deliberadamente a direção do brilho proveniente do Pico, é duvidoso, mas não é menos certo que o caminho dos elefantes através da planície para as colinas, apontava, desde tempos imemoriais, diretamente para Ratnagalla. Cerca do meio-dia, um dos paquidermes mais novos, brilhante e roliço como uma bola de borracha, que, até então, caminhara sem protestar ao lado da mãe, foi repentinamente invadido por uma fome e sede insuportáveis. Apercebendo-se disso, o Guia concedeu uma paragem de alguns momentos na margem de um rio seco onde restava ainda uma pequena quantidade de lama mal cheirosa. Por fim, a caminhada prosseguiu apressadamente, cônscios do perigo que representava a presença do homem nas imediações. Para poderem avançar no declive, os mais jovens necessitaramde ajuda.

Embora naquela manhã tivesse despertado sem que estivessem bem presentes na sua memória a frescura e bom pasto existentes nas colinas, o Guia, uma vez tomada a decisão de emigrar, recordava agora claramente palmo a palmo o caminho a vencer. Às três horas da tarde, ocorreu-lhe que, alguns quilômetros mais acima, havia um pequeno planalto formado pela junção de duas elevações. Ali corria água fresca para uma bela zona pantanosa onde, dentro de poucos minutos, os seus músculos cansados e doridos esqueceriam os rigores da jornada. A uns duzentos metros do seu destino, deteve-se bruscamente, indicando, com um abafado sinal da tromba, que os outros deveriampermanecer ocultos enquanto ele procedia a um reconhecimento do terreno. Aquele local fora sempre evitado pelo Homem e, no entanto, não existia qualquer possibilidade de equívoco quanto à natureza daquele cheiro acre e ativo. Míope como todos os da sua espécie, o Guia via-se forçado a confiar no seu olfato. Acercando-se um pouco mais, os seus olhos enevoados puderam distinguir dezenas de homens ocupados numa estranha tarefa no local que, por tradição, pertencia ao Povo Elefante. Onde outrora existira uma vasta extensão de lama fresca viam-se agora, erguendo-se ameaçadoras do solo, espessas paredes de pedra, junto às quais homens trabalhavam servindo-se de madeira retirada de uma enorme pilha. O Guia soltou um penetrante urro de raiva. Não bastava a devastação produzida, alguns anos antes, na floresta, substituída por cafezeiros, embora a zona cultivada não tivesse invadido o caminho dos elefantes… Desde tempos remotos, claramente entendida por ambos como se fosse um tratado, fizera-se uma trégua entre o Homem e o Elefante. Cada um, por tácito acordo, evitava os domínios do outro, pois nada de comum possuíam além de inimizade. O Homem cultivava as suas plantações de arroz nas clareiras da floresta e, para evitá-las, o Elefante efetuava longos desvios. De igual modo, as zonas de alimentação deste último, assimcomo os caminhos que conduziam às colinas, não eram frequentados pelo seu inimigo. O que sucedera agora era uma flagrante violação daquele tratado. Urrando a chamar os outros para segui-lo, o Guia, espumando de ódio, iniciou uma louca carga em direção aos homens que trabalhavam junto à madeira empilhada. Um dos elefantes mais novos, sem compreender o que se passava, conseguiu reunir as forças necessárias para acompanhar o passo de sua mãe, que seguia obedientemente as pisadas de seu amo e senhor. Ao darem-se conta da cega investida dos paquidermes, os trabalhadores alcançaramapressadamente locais de segurança. Somente um permaneceu imóvel como uma rocha. Esperou até que o Guia não distava dele mais de vinte metros. Repentinamente, produziu-se um relâmpago seguido duma tremenda detonação. Soprando de dor, o elefante ajoelhou. Quase no mesmo instante, a terra pareceu abrir-se sob as patas dos dois animais que o seguiam, tombando ambos num profundo fosso habilmente oculto sob uma densa camada de ramos e folhas entrelaçados. Na sua desordenada correria o Guia devia tê-los afastado. A escavação era estreita, de largura apenas suficiente para um elefante. Assim, o pequeno ficou sobre o corpo de sua mãe.

Acorreram homens de todas as direções. O seu cheiro era insuportável. Entalado entre a parede do fosso e o costado da mãe, o paquiderme lutava freneticamente para libertar-se. De alguma forma, nunca soube como, conseguiu subir para terra firme uns segundos antes da chegada dos homens. Com o medo a duplicar-lhe a velocidade, atravessou o pequeno planalto, investindo contra uma enorme pilha de pesadas pranchas, uma das quais, bastante aguçada numa das extremidades, lhe produziu uma profunda ferida no flanco. Ouviuse novamente o terrível estampido da arma que abatera o Guia. O fugitivo sentiu uma dor aguda produzida por uma bala que, passando de raspão pelo seu crânio, lhe atravessou a cartilagem de uma orelha. Somente meia hora depois alcançou o resto da manada, prosseguindo todos a louca correria, até que uma das fêmeas, que assumira o comando, considerou o perigo afastado, abrandando então a marcha. Nesse momento, encontravam-se a muitos quilômetros no interior da floresta que cobria a larga encosta do Pico de Ratnagalla. As duas fêmeas sobreviventes tentaram baldadamente confortar o elefante da perda da mãe. A bala que lhe atravessara a orelha foi rapidamente esquecida, mas, do sulco produzido no seu costado, o sangue brotara em abundância e várias semanas decorreram antes que cicatrizassem na lama fresca das montanhas onde havia também abundante pasto. No entanto, embora a ferida sarasse, o terror daquele dia estava destinado a acompanhá-lo toda a vida. Dois anos antes de terminado o Grande Bangalô, como inevitavelmente passou a ser conhecido, Tom Carey considerou o momento oportuno para efetuar uma viagem a Inglaterra. Em fins de 1868, ansiando por um filho a quem pudesse passar as rédeas do comando da sua plantação, casou. Três meses antes da data prevista para o nascimento do seu herdeiro, regressou a Ceilão, só. Seu filho seria inglês e, nessa conformidade, deveria vir ao mundo na pátria de seus pais. O Grande Bangalô, embora Tom Carey nunca lá tivesse vivido, estava já pronto até o menor detalhe. Só ali entraria, assim o decidira, quando sua mulher viesse juntar-se-lhe com o filho. Para Tom Carey, o ano de 1869 foi, sem a menor dúvida, o mais memorável da sua longa vida. Em abril, nasceu seu filho George. Quando chegou a Ratnagalla o telegrama a anunciar o fato, verificaram-se grandes manifestações de regozijo. No ponto mais elevado das propriedades de Carey ergueu-se uma imensa fogueira, visível na costa a noventa quilômetros. Todo o pessoal sob as suas ordens recebeu uma semana extraordinária de salário. Oito dias mais tarde, outro telegrama comunicava o falecimento da jovem mãe. Acabrunhado pelo desgosto, Tom Carey foi viver para a ampla e esplêndida casa que preparara para sua mulher, consolando-o parcialmente o pensamento de que ela, antes de morrer, lhe dera o filho que ele sempre desejara.

Contudo, dez longos e fatigantes anos deveriam passar antes que pai e filho se encontrassem. O ano de 1869 não terminou sem deixar outra desagradável lembrança a Tom Carey e a todos os outros colonos a quem, durante décadas, a fortuna favorecera sem cessar. A terrível praga do café, conhecida por Hemileia Vastratix, principiou o seu trabalho de destruição, que não se deteve enquanto a maioria das culturas não ficou totalmente perdida. Tom Carey, contemplando do solitário esplendor do seu lar o fumegante campo que fora obrigado a incendiar, dirigiu a sua atenção para alguns hetares de chá que plantara uns anos antes e estavam destinados a restaurar a sua abalada fortuna. Aqueles arbustos nunca lhe produziriam a riqueza que obtivera do café, porém, consolou-o a ideia de que algo existia ainda de valioso para legar a seu filho, que nunca vira. Um entardecer, cansado de um prolongado dia na plantação, divisou ao longe um elefante solitário descendo pelo caminho que conduzia das montanhas às florestas das regiões baixas. Era umbelo espécime na Primavera da vida, com uma das orelhas inclinada num ângulo estranho, como que deformada, e uma profunda cicatriz no costado, a atestar um antigo ferimento. O impressionante animal avançava cautelosamente através dos seixos soltos no seu caminho, até atingir um ponto emque se tornava necessário efetuar um desvio para evitar o planalto onde se erguia agora o Grande Bangalô — uma construção tão vasta e portentosa que parecia desafiar as próprias montanhas. O elefante se deteve. O local estava, para ele, carregado de amargas e dolorosas recordações. Afigurou-se-lhe ouvir, uma vez mais, o relâmpago seguido de uma explosão que lhe provocara a perfuração de uma orelha e sentir a aguçada prancha retalhar-lhe o flanco. Recordava igualmente a visão de sua mãe quando, meses mais tarde, de ali se aproximara, forçada a trabalhar em vergonhosa escravidão, depois de capturada na armadilha em que caíra. Vira-a transportar, por meio de cadeias, como um vulgar boi, pesadas vigas de teca para os locais indicados pelos construtores. Aquelas reminiscências levaram-no, involuntariamente, a semierguer-se nas patas dianteiras com um urro em que poderia ler, quem para isso possuísse tal faculdade, ódio, desafio e um estranho e nostálgico desejo frustrado. Quando apenas os separavam uns escassos cinquenta metros, o paquiderme e o homem, este desarmado, encararam-se destemidamente. Finalmente, o primeiro desviou o olhar e afastou-se. À memória de Tom Carey acudiu, enquanto prosseguia o seu caminho, o aviso de Appuhamy, que repetira até o dia da sua morte, referente à insensatez de cruzar o caminho do Povo Elefante. Seu filho, um jovem singalês alto e simpático, trabalhava agora no Grande Bangalô. No seu olhar ardia permanentemente uma chama de orgulho e dedicação por seu amo. Este estava firmemente persuadido de que ele sacrificaria a vida para servi-lo, se se tornasse necessário, embora, como seu pai, partilhasse dos mesmos presságios que Tom Carey nunca tomara a sério. Não era homem facilmente demovível do seu intento; de contrário, ter-se-ia sentido tentado, como muitos outros, a abandonar aquela região que se encontrava, uma vez mais, em vias de enriquecer os Careys. O elefante fez nova pausa um pouco mais adiante, destacando-se de modo impressionante a sua silhueta iluminada pelo Sol poente. Semiergueu, novamente, o seu tronco, atroando os ares com o lúgubre som emitido pela tromba. Involuntariamente, Tom Carey estremeceu e transferiu as suas cogitações para outros assuntos… Quando seu filho completou dez anos, Carey voltou as costas por uns meses à próspera plantação de chá e voltou a Inglaterra. O barco em que efetuou essa viagem transportava duzentos caixotes contendo chá, com a seguinte marca gravada em cada um: SENDA DOS ELEFANTES CHÁ DO CEILÃO Insistira naquela inscrição com a cabeça do elefante erguida raivosamente, de boca entreaberta e patas para a frente em ar de desafio.

Poucas semanas mais tarde, verificou que sua mulher, falecida sem conhecer a magnífica residência que ele construíra em sua intenção, concebera o gênero de filho que ele mais poderia desejar: um forte rapaz, de cabelo ruivo, cândidos olhos azuis como os seus e seguro de si próprio. A imagem do seu herdeiro o fez esquecer a separação dos últimos anos. I Um cavalo fatigado avançava cautelosamente pelo estreito caminho da acidentada encosta do Pico de Ratnagalla. O homem que o montava denotava igualmente cansaço, embora se esforçasse por ignorar a fadiga pensando na satisfação do seu regresso ao lar. Dentro de meia hora amanheceria. Se a sua montada não fraquejasse, calculou George Carey, quando surgissem os primeiros clarões do novo dia, encontrar-se-ia numa das extremidades do terreno em forma de pires, assinalado no mapa por Vale de Ratnagalla. Durante toda a noite ansiara pelo momento de poder contemplar o nascer do Sol do local que era, não apenas o seu lar, mas o centro de todas as suas afeições e interesses. Esmeralda, a égua que o transportara na longa cavalgada, parecia partilhar daquela alegria, embora por diferentes motivos. Alguns quilômetros mais adiante esperava-a um acolhedor estábulo com água fresca e apetitoso feno, para não falar na perspetiva de poder espojar-se livremente. Chegado ao seu destino, George Carey desmontou e sentou-se no solo, permanecendo imóvel, em religiosa admiração do panorama que se lhe oferecia. Muitos que supunham conhecê-lo, sentiam-se inclinados a julgá-lo um materialista incapaz de experimentar sensações idênticas às que naquele instante o invadiam como um confortante bálsamo. Era um indivíduo alto, corpulento, de cabelo louro revolto e brilhantes olhos azuis. Se aqueles que o criam insensível se tivessem dedicado a estudá-lo com maior atenção, concluiriam que ele carecia simplesmente de verbosidade. Inúmeras vezes, ao longo dos seus quarenta e quatro anos, desejara encontrar palavras que lhe permitissem exprimir as emoções provocadas pelas coisas belas da Natureza na sua alma simples. Embora ciente de que era já demasiado tarde para isso, não quis deixar de absorver com um olhar ávido a beleza do espetáculo, até que o Sol, ascendendo rapidamente no horizonte, banhou todo o vale com os seus raios dourados. Sobressaindo daquele cenário, mais parecendo um castelo duma montanha suíça do que uma construção residencial, erguia-se o Grande Bangalô, o seu lar. A alguns provocava exclamações de espanto e admiração, a outros, risos. George Carey professava por ele verdadeira veneração, extensiva à sua plantação de chá que, como uma gigantesca liga, rodeava a elevação onde se erguia a austera edificação. Naqueles vinte e quatro anos, desde que ali chegara pela primeira vez, ausentarase somente o tempo indispensável e contava, de futuro, reduzir as suas viagens ao mínimo. Com umprofundo suspiro de contentamento, que lhe fez estremecer a sua volumosa constituição, conduziu Esmeralda pelo tortuoso caminho em direção aos familiares odores e ruídos que lhe chegavam aos ouvidos com a fresca brisa matinal. Quando George Carey se aproximou da entrada da plantação de chá, um ruidoso e alegre exército de homens, mulheres e crianças, estendidos numa longa fila, apareceu a saudá-lo. Decorria a época de sol e chuva alternados, em que os milhares de arbustos de chá, normalmente verde-escuros, apareciam coroados de tenras folhas dum verde-claro, que milhões de chaleiras de todo o mundo aguardavam avidamente. A legião de trabalhadores, de cestos aos ombros presos por cordas resistentes à cabeça, manipulavam destramente as viçosas folhas. Todos, desde as crianças de seis anos até os seus avós e, por vezes, bisavós, se dedicavam ao seu labor com alegre eficiência. Enquanto transpunha o portão a caminho daquela cena tanto do seu agrado, George Carey não pôde evitar uma olhadela de orgulho ao dístico de letras negras num fundo branco: PROPRIEDADE DO CHÁ “SENDA DOS ELEFANTES”.

Um criado que o avistara à distância acorreu a saudá-lo, levando Esmeralda para o conforto do seu estábulo. Antes de, por sua vez, ir refrescar-se, George Carey quis inteirar-se do que se passara na sua ausência. Momentos depois de desmontar, pôs-se a caminhar por entre os trabalhadores a quem conhecia pelos nomes, dirigindo aqui um sorriso, mais adiante um gracejo ou uma pergunta acerca da doença dum parente idoso. — Ainda não tens bastantes bocas para alimentar? — observou, rindo, a uma garota de rosto agradável, com um olhar significativo ao seu avançado estado de gravidez. —Espero que o teu marido não te tenha batido durante a minha ausência? — perguntou a outra. Enquanto avançava, jovens e velhos, homens e mulheres dirigiam-lhe olhares afetuosos de boas-vindas. Era, na opinião unânime, um bom patrão. Durante anos, suportara com eles o calor dumdia de trabalho, escutara pacientemente as suas reclamações, resolvera com imparcialidade as suas desavenças, presenciara os seus casamentos, acompanhara-os nos seus lutos; concedera-lhes, enfim, tudo quanto julgava ser-lhes devido. George Carey era um indivíduo privilegiado. Sabia-o bem e, com os seus privilégios, assumia todas as obrigações inerentes. Um tamil, alto e barbado, que envelhecera ao serviço dos Careys, surgiu a saudá-lo. — Tudo em ordem, Rengesamy? — Tudo está bem, agora que o senhor regressou — respondeu gravemente o kangany (1). (1) Capataz. — Onde está o senhor Wilding? — Na floresta, senhor. Dirigiu-se para lá logo após a chamada dos trabalhadores. — Manda trazer-me um cavalo — ordenou Carey. — Quero ir falar-lhe. Era sua firme convicção que ninguém saberia ocupar-se da sua propriedade como ele próprio. Dois anos antes, com extrema relutância, admitira como auxiliar um jovem inglês de nome Wilding. Até agora, exceptuando um breve fim de semana em Badulla ou Bandarawella, Carey nunca o deixara só. Desta vez, no entanto, fora forçado a ausentar-se por duas semanas e estava ansioso por saber como o seu auxiliar se desempenhara das responsabilidades da Senda dos Elefantes durante aquele período. A princípio, Carey fora invadido por fortes dúvidas de alguma vez conseguir transformar John Geoffrey Wilding num colono. Mais tarde corrigira essa opinião. Wilding adaptara-se ao trabalho como um pato à água. Possuía uma qualidade sem a qual as outras lhe seriam inúteis: sabia manobrar o trabalhador, usar de firmeza ou de brandura, ver tudo ou fechar os olhos.

Carey admitia imparcialmente que Wilding tinha muito do que lhe faltava a ele. Wilding era um indivíduo de aproximadamente trinta anos, moreno, bem parecido, com uns atrevidos olhos castanhos. Os seus movimentos denotavam ponderação, elegância, segurança em si próprio; as suas mãos bem modeladas, de dedos alongados, lembravam as de um artista. Enquanto os outros colonos se apresentavam invariavelmente com camisa de caqui, calções e grevas, ele aparecia em imaculadas camisas de seda, calções de montar e brilhantes botas altas. A sua esmerada educação criava uma impenetrável barreira entre os dois homens, pois Carey não recebera mais do que os superficiais ensinamentos ministrados numa escola onde os interesses principais se dividiam entre o críquete e o futebol. — Demasiada educação não te servirá de nada — insistira Tom Carey. — Tornar-te-ia simplesmente descontente, meu rapaz. — Não seria uma boa ideia, meu pai, se eu frequentasse um pequeno curso de agricultura tropical? — alvitrara George.— Alguns conhecimentos científicos poderiam vir a ser-me úteis. — Nestas paragens — replicara seu pai — só existe um agricultor científico: Deus TodoPoderoso. Enquanto Ele nos fornecer chuva e sol alternadamente, o chá crescerá, alheio ao que dizemos livros. Os coolies, nascidos e criados aqui, sabem mais do que se relaciona com esse arbusto do que tu, ainda que vivas até os oitenta anos. Para conseguires ser um bom colono, deves compreender e saber dirigir os trabalhadores. Esta caraterística constitui noventa por cento do que é necessário; os restantes dez, referem-se a não perder a cabeça numa situação crítica e não abrir a boca quando se ignora a medida a tomar. Haviam decorrido vinte e quatro anos desde que George Carey escutara estas palavras e, até agora, não lhes encontrara nada digno de reparo. — Muito prazer em vê-lo de volta, Carey — saudou Wilding enquanto o seu patrão avançava na clareira da floresta que estava sendo aberta. — Tem corrido tudo bem? — inquiriu o colono, estreitando firmemente a mão do outro. — Às mil maravilhas — foi a tranquila resposta. — Não houve qualquer novidade enquanto estive ausente? — insistiu Carey, tentando em vão dissimular a sua ansiedade. — Nenhuma que eu não conseguisse resolver. Apenas os habituais contratempos diários. — Claro; de contrário, você ter-me-ia enviado um telegrama a prevenir-me. — Os receios de Carey esfumaram-se. — Em todo o caso, não pude deixar de preocupar-me. — Que lhe disse o médico? — perguntou Wilding.

Uma sombra passou pelo olhar do seu patrão. — Disseram, porque consultei três, que se mostraram invulgarmente de acordo que nada me encontraram que alguns meses num clima mais frio não possam curar. Sabe? Há mais de dez anos que não vou a Inglaterra. O caso é que não me interessa lá voltar. Nada me prende à pátria… Na última vez que lá estive, morria de aborrecimento. A minha pátria agora é aqui. — Tenciona seguir os conselhos dos médicos? — Provavelmente. Depende… — …da forma como as coisas correram enquanto se ausentou, não é isso? — interpôs Wilding com um brilho divertido nos olhos. — Bem… hum… Para ser franco, sim. Acertou. Na opinião de Carey, Wilding era demasiado direto nas suas observações; isso criava, por vezes, situações embaraçosas. Frases como aquela, por evidentes que fossem, não deveriampronunciar-se. Possuía uma língua afiada e desembaraçada e os seus pensamentos estavam comfrequência, durante uma conversação, a tirar conclusões daquilo que ainda não se abordara. Pelo contrário, o corpo e o pensamento de Carey moviam-se com lentidão. Atingia as suas conclusões por caminhos fáceis, após ponderada consideração, e sentia no seu íntimo, embora suspeitasse, por vezes, que não usava de inteira justiça, um velado antagonismo por todos quantos usavam de maior desembaraço do que ele em chegar a uma dedução, ainda que fosse idêntica à sua. — Compreendo perfeitamente, Carey — observou Wilding, sem mostrar o menor embaraço. — É uma propriedade valiosíssima e não quer abandoná-la durante alguns meses sem adquirir a certeza de que o homem que ocupe o seu lugar se encontra apto a desempenhar-se cabalmente da sua missão. Pode partir tranquilo. — Você é um sujeito curioso — disse Carey com um sorriso amigável. — É possível — replicou o outro pausadamente. — Sempre possuí o inoportuno dom de dizer aquilo que os outros apenas pensam. Foi o que pôs termo à minha carreira militar. Em Sandhurst, ninguém me preveniu de que, para subir no exército, é necessário não falar demais e beijar com agrado as botas dos superiores. Fui suficientemente imbecil para supor que me bastava ser um bom soldado. No entanto, o ofício de agricultor adapta-se-me maravilhosamente e espero nunca discordarmos em assuntos importantes, Carey, porque me sinto aqui satisfeito.

Quando George Carey regressou a casa através da sua plantação de chá, o Sol já ia alto sobre o horizonte, projetando os seus abrasadores raios sobre a extensa fila de trabalhadores cujo suor corria abundantemente. Na sua maioria pertenciam ao sexo feminino, apresentando-se algumas vestidas com roupas de cores berrantes, em especial vermelhas; outras preferiam tons acastanhados, listrados de amarelo e púrpura; outras ainda optavam por desenhos em cor de cereja num fundo azul celeste; enfim, uma variegada mistura cujo conjunto produzia um surpreendente efeito. Se, ocasionalmente, alguma de vestido cor de cereja se encontrava junto de outra trajada de vermelho, afastava-se, rindo, para não quebrar a harmonia da combinação de todos aqueles tons. Aguardando Carey no cimo da ampla escadaria que conduzia ao Grande Bangalô, encontravase um singalês alto, de aspeto grave, de largos bigodes e o cabelo preso num rolo junto à nuca por uma travessa de concha de tartaruga. Vestia um comprido roupão branco abotoado na frente com tikals de prata, trazidos do Sião trinta anos antes e oferecidos por Tom Carey. — Que há de novo, Appuhamy? — Nada, senhor —contestou o servo com os olhos brilhantes de devoção e afeto. — Sintome feliz pelo seu regresso, senhor. — Temos algum hóspede?

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