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A Senhora de Avalon – Marion Zimmer Bradley

Aproximava-se o pôr do Sol e as calmas águas do vale de Avalon estavam cobertas de ouro. Aqui e ali tufos em tons de verde e castanho erguiam-se acima das águas tranquilas, toldadas Pela neblina bruxuleante que envolvia os pântanos no final do Outono, mesmo quando o céu estava límpido. No centro do Vale um rochedo pontiagudo sobrelevava-se aos outros, coroado com pedras erectas. Caillean olhou atentamente na água o manto azul, que a distinguia como uma sacerdotisa mais velha, caindo à sua volta em dobras inertes, e sentiu a calma desvanecer a fadiga de cinco dias de viagem. Parecia ter passado mais tempo. Certamente que a viagem desde as cinzas da pira emVernemeton até ao coração do País do Verão havia demorado uma eternidade. “A minha vida … “, pensou Caillean. “Não voltarei a abandonar a Casa das Sacerdotisas.” Seis meses antes tinha trazido o seu pequeno grupo de mulheres da Casa da Floresta para fundarem nesta ilha uma comunidade de sacerdotisas. Regressara sozinha há seis semanas, mas era tarde de mais para salvar a Casa da Floresta da destruição. Porém, ao menos, havia salvo o garoto. – Aquela é a ilha de Avalon? A voz de Gawen trouxe-a novamente de volta para o presente. Ele pestanejou, como se tivesse ficado ofuscado pela luz, e Caillean sorriu. – Com efeito – respondeu _, e dentro em pouco vou chamar a barca que nos levará até lá. – Ainda não, por favor – implorou, voltando-se para ela. O garoto tinha crescido. Era alto para um rapaz de dez anos, mas continuava a parecer que tinha sido colado em pedaços, como se o resto do seu corpo ainda não tivesse alcançado os pés e mãos. A luz solar incidiu por detrás das madeixas do seu cabelo castanho, aclaradas pelo sol do Verão. – Prometestes-me que antes de chegar ao Tor teria a resposta para algumas das minhas perguntas. Que hei-de dizer quando me perguntarem o que estou a fazer aqui? Nem sequer sei ao certo o meu próprio nome! Nesse momento, os seus magníficos olhos cinzentos assemelharam-se tanto aos de sua mãe que Caillean sentiu um aperto no coração. “É verdade “, pensou ela. Prometera falar com ele, mas durante a viagem quase não falou com ninguém, tal era o desgaste causado pelo esforço e pelo desgosto. – Tu és Gawen – respondeu suavemente. – Foi por esse nome que a tua mãe conheceu o teu pai e, por isso, chamou-te assim. – Mas o meu pai era um romano! A sua voz vacilou, como se não soubesse se havia de ficar orgulhoso disso ou envergonhado.


– É uma verdade e, uma vez que o teu pai não teve mais nenhum filho, suponho que, de acordo como costume dos Romanos, o teu nome seria Gaius Macellius Severus, tal como o dele e o do seu pai. Esse é um nome respeitado entre os Romanos. Nunca soube nada do teu avô, mas ele era um homembom e honrado. Mas a tua avó era uma princesa dos Sílures e Gawen foi o nome que ela deu ao seu filho. Por isso, não tens de envergonhar-te dele! Gawen olhou fixamente para Caillean. – Muito bem. Mas não é o nome do meu pai que vão murmurar nesta ilha de druidas. É verdade… – Engoliu em seco e tentou novamente. – Antes de eu abandonar a Casa da Floresta dizia-se… É verdade que ela… a Senhora de Vernemeton… era a minha mãe? Caillean olhou Para ele imperturbável, recordando-se de como havia sido doloroso para Eilan guardar esse segredo. – É verdade. Gawen abanou a cabeça e libertou-se de alguma da tensão com um longo suspiro. – Já desconfiava. Eu costumava sonhar acordado. Todas as crianças que eram criadas em Vernemeton costumavam gabar-se sobre o facto de as suas mães serem rainhas, ou os seus pais príncipes, e que um dia iriam buscá-las. Eu também contava histórias, mas a Senhora era sempre bondosa comigo e, quando eu sonhava durante a noite, a mãe que vinha buscar-me era sempre ela… – Ela amava-te – disse Caillean ainda mais docemente. – Então, por que razão nunca foi buscar-me? Porque não casou o meu pai com ela, se era umhomem tão conhecido e honrado? Caillean suspirou. – Ele era um romano e as sacerdotisas da Casa da Floresta estavam proibidas de casar ou de ter filhos, até mesmo com os homens das tribos. Talvez possamos mudar isso aqui, mas em Vernemeton… teria sido a morte dela se se soubesse da tua existência. – E foi – suspirou Gawen, parecendo subitamente mais velho. Eles descobriram e mataram-na, não foi? Ela morreu por minha causa! – Oh, Gawen… – Dilacerada pela pena, Caillean estendeu-lhe os braços, mas ele afastou-se. – Houve muitas razões. A política… e outras coisas… Vais compreendê-las melhor quando cresceres. Caillean mordeu o lábio com medo de dizer mais alguma coisa, já que a revelação da existência desta criança tinha, na verdade, sido a centelha que acendera a chama e, por esse ponto de vista, o que ele dissera era verdade. – Eillan amava-te, Gawen. Depois de teres nascido, podia muito bem ter-te enviado para longe para seres adoptado, mas não conseguiu suportar a ideia de separar-se de ti.

Desafiou o teu avô, o arquidruida, para ficar contigo, ele concordou com a condição de que se não soubesse que eras filho dela. – Isso não foi justo! – Justo! – A sua voz tornou-se ríspida. – A vida raramente é justa! Tiveste sorte, Gawen. Agradece aos deuses e não te lamentes. O rosto dele tingiu-se de vermelho e depois empalideceu, mas não lhe respondeu. Caillean sentiu a sua raiva desvanecer com a mesma rapidez com que havia surgido. – Isso agora já não tem importância. já aconteceu e tu estás aqui. – Mas vós não me quereis – sussurrou Gawen. – Ninguém quer. Por um momento, Caillean respeitou-o. – Julgo que tens o direito de saber que Macellius, o teu avô romano, quis que ficasses em Deva para te educar à sua maneira. – Então, porque não me deixastes com ele? Caillean fitou-o sem sorrir. – Queres ser um romano? – Claro que não! Quem quereria? – exclamou Gawen, corando violentamente, e Caillean abanou a cabeça. Os druidas que educavam os rapazes na Casa da Floresta tê-lo-iam ensinado a odiar Roma. Mas deveríeis ter-me contado! Deveríeis ter-me deixado escolher! – E foi o que eu fiz! – respondeu Caillean rispidamente. – Tu escolheste vir para aqui! O tom de provocação parecia tê-lo abandonado quando Gawen se voltou para contemplar a água mais uma vez. – É verdade. Só não entendo porque me quisestes… – Ah, Gawen – exclamou Caillean, e a sua raiva desapareceu subitamente. – Até mesmo uma sacerdotisa nem sempre compreende quais são as forças que a movem. Em parte, foi porque tu eras tudo o que me restou de Eilan, a quem eu amava como uma verdadeira filha. A sua garganta secou e calou-se com a dor. Passaram-se alguns momentos até que Caillean conseguisse voltar a falar calmamente. Depois, prosseguiu num tom de voz frio como pedra: – E em parte foi porque achei que o teu destino está entre nós… Os olhos de Gawen continuavam fixos nas águas douradas. Durante alguns momentos o único somque se ouviu foi o bater suave das pequenas ondas de encontro aos canaviais.

Por fim, Gawen ergueu os olhos para ela. – Muito bem. – A voz falhou-lhe com o esforço que estava a fazer para manter o controlo. – Sereis a minha mãe, para que assim eu possa ter uma família? Caillean olhou para ele e, por um momento, foi incapaz de falar. “Tenho de dizer que não, se não um dia ele vai despedaçar o meu coração. “ – Eu sou uma sacerdotisa – respondeu finalmente. – Tal como o era a tua mãe. Os votos que jurámos perante os nossos deuses por vezes são contra os nossos desejos… – “Senão eu teria permanecido na Casa da Floresta e estaria lá para proteger Eilan, prosseguiu o seu pensamento. – Compreendes isso, Gawen? Compreendes que, embora eu te ame, por vezes sou obrigada a fazer coisas que te magoam? Ele abanou vigorosamente a cabeça, mas foi o coração dela que sentiu uma dor aguda e repentina. – Mãe adotiva, que vai acontecer comigo na ilha de Avalon? Caillean pensou por uns instantes. – Já não tens idade para ficares com as mulheres. Vais ficar alojado junto dos aprendizes de sacerdotes e bardos. O teu avô foi um cantor notável e poderás ter herdado alguns dos seus talentos. Gostarias de estudar o ofício dos bardos? Gawen pestanejou, como se essa ideia o amedrontasse. – Para já não… por favor… Não sei… – Deixa, não penses mais nisso. Seja como for, os sacerdotes precisam de um tempo para te conhecerem. Ainda és muito novo e todo o teu futuro não precisa de ser decidido agora… “E, quando chegar a altura, não será Cuno maglos e os seus druidas que vão decidir o que vai acontecer” pensou Caillean inflexivelmente. “Não consegui salvar Eilan, mas ao menos posso proteger o seu filho até ele ser capaz de escolher por si … “ – Bem – disse Caillean vivamente -, tenho muitos deveres à minha espera. Deixa-me invocar a barca e levar-te para a ilha. Prometo que por hoje não haverá mais nada à tua espera a não ser o jantar e uma cama. Agrada-te? – Que remédio… – murmurou, parecendo que duvidava tanto dela como de si próprio. O Sol tinha-se posto. A oeste o céu tinha uma tonalidade esbatida de um rosa-luminoso, mas as brumas que envolviam a água arrefeceram num tom de prata. O Tor estava quase invisível, como se, pensou ela de repente, uma qualquer magia o tivesse separado do mundo. Lembrou-se do seu outro nome, Inis Witrin, Ilha de Vidro.

Essa visão era estranhamente atraente. Ficaria satisfeita por deixar para trás o mundo onde Eilan tinha sido queimada com o seu amante romano na pira dos druidas. Caillean estremeceu ligeiramente e retirou um apito feito de osso da bolsa que pendia da sua cintura. O som que produziu era fino e penetrante. Não parecia ser muito sonoro, mas fazia-se ouvir nitidamente por sobre as águas. Gawen sobressaltou-se, olhando à sua volta, e Caillean apontou. A água que se tornou visível estava ladeada pelo pântano e por um manto de canaviais, dividida por uma centena de canais entrelaçados. Uma embarcação baixa e de proa quadrada emergia de um desses canais, afastando os canaviais. Gawen franziu o sobrolho, porque o homem que a impelia com uma vara não era maior do que ele. Só quando a barca se aproximou mais ele conseguiu ver as rugas no rosto envelhecido do barqueiro e os salpicos prateados no seu cabelo escuro. Quando o barqueiro avistou Caillean, saudou-a e ergueu o remo, para que o barco deslizasse até à margem. – Este é o Barqueiro – disse Caillean baixinho. – O seu povo já aqui estava antes de os Romanos e até mesmo antes de os Bretões terem chegado a estas costas. Nenhum de nós está aqui há tempo suficiente para falar a sua língua, mas ele sabe falar a nossa e disse-me o significado do seu nome. Vivem nestes pântanos, são muito pobres e são-nos gratos por alguma comida extra que possamos dispensar-lhes e pelos remédios que lhes damos quando estão doentes. O rapaz continuava a franzir o sobrolho, ao mesmo tempo que ocupava o seu lugar na popa do barco. Sentou-se, arrastando a mão pela água e observando as ondas a passar a medida que o Barqueiro punha o barco novamente em movimento e começava a remar em direcção ao Tor. Caillean suspirou, mas não tentou demovê-lo do seu mau humor. Desde a última lua ambos tinham sofrido o choque e a perda, e se Gawen estivesse menos ciente do significado do que tinha acontecido na Casa da Floresta, também teria menos capacidade para lidar com isso. Caillean puxou o manto para se cobrir e voltou-se para trás para olhar o Tor. “Não posso ajudá-lo. Ele vai ter de suportar o seu desgosto e a sua confusão… tal como eu “, pensou severamente, “tal como eu … “ A bruma envolveu-os e depois diluiu-se, à medida que o Tor assomava à sua frente. O chamamento abafado de uma trompa ecoou vindo de cima. O Barqueiro ergueu o seu remo pela última vez e a quilha raspou na margem. Ele saltou para fora da barca e puxou-a mais para cima e, assim que parou, Caillean.

apeou-se. Meia dúzia de sacerdotisas vinha a descer o caminho, com os seus cabelos entrançados caindo pelas costas e as vestes de linho branco cingidas com um cinto verde. Depois, alinharam-se em fila perante Caillean. Marged, a mais velha, fez uma vénia em sinal de reverência. – Bem-vinda de volta, Senhora de Avalon. Marged deteve-se e os seus olhos pousaram na figura esguia de Gawen. Por um instante, ficou literalmente sem fala. Caillean quase conseguiu ouvir a pergunta sair dos lábios da rapariga. – Este é Gawen. Vem viver aqui. Não te importas de ir falar com os druidas e arranjar-lhe um sítio para ele passar a noite – Com prazer, Senhora – respondeu num sussurro, sem desviar os olhos de Gawen que corava violentamente. Caillean suspirou; se um simples vislumbre de um garoto – porque mesmo agora ainda não conseguia pensar em Gawen como um jovem rapaz – causava esse efeito nas suas protegidas mais novas, as suas tentativas para contrariar os preconceitos que elas tinham trazido consigo da Casa da Floresta estavam a resultar. A presença dele entre as raparigas podia ser benéfica para elas. Uma outra pessoa estava atrás das donzelas. Por um momento pensou que uma das sacerdotisas mais velhas, talvez Eiluned ou Riannon, tinha vindo dar-lhe as boas-vindas. Mas a recém-chegada era demasiado pequena. De relance, percebeu que o seu cabelo era escuro; então, o vulto passou pelas outras e ficou bem visível. Caillean pestanejou. “Uma estranha “, pensou e voltou a pestanejar, porque de repente a mulher lhe pareceu completamente à vontade, como se estivesse em casa e, ao mesmo tempo, absolutamente familiar, como se Caillean. a tivesse conhecido desde os primórdios do mundo. Contudo, não conseguia lembrar-se exactamente se alguma vez a havia visto ou quem seria ela. A recém-chegada nem sequer estava a olhar para Caillean. Os seus olhos, escuros e límpidos, estavam cravados em Gawen. De repente, Caillean perguntou a si próprio porque tinha achado baixa essa estranha mulher. Ela própria era uma mulher alta e a outra parecia agora ainda mais alta.

O cabelo dela, escuro e comprido, estava preso da mesma forma que o das sacerdotisas, numa única trança caída pelas costas. Contudo, usava umas vestes de camurça e na cabeça, à volta das fontes, tinha uma grinalda estreita de bagas escarlates. Olhou para Gawen e depois curvou-se numa vénia até ao chão. – Filho de Cem Reis – disse ela -, bem-vindo a Avalon… Gawen olhou para ela, atónito. Caillean pigarreou, lutando para encontrar as palavras adequadas. – Quem és tu e o que queres de mim? – perguntou bruscamente. – De ti nada, por enquanto – respondeu a mulher Igualmente agreste -, e não precisas de saber o meu nome. O meu assunto é com Gawen. Mas há muito que me conheces, Pequeno Melro, muito embora não te recordes. Pequeno Melro… Lon-dubh, na língua hibérnica. Ao ouvir o nome que tinha sido o seu em criança e sobre o qual nunca mais pensara durante quase quarenta anos, Caillean ficou repentinamente emsilêncio. Mais uma vez foi capaz de sentir o ardor das feridas e a dor entre as coxas e, pior do que isso, a sensação de imundície e a vergonha. O homem que a violentara ameaçara matá-la se ela contasse o que ele tinha feito. Naquela altura, pareceu-lhe que apenas o mar conseguiria que ficasse limpa de novo. Tinha corrido por entre as silvas à beira do Penhasco, não se importando com os espinhos que lhe dilaceravam a carne, tencionando atirar-se às vagas que espumavam lá em baixo, em redor das rochas recortadas. E, subitamente, a sombra por entre a urze transformou-se numa mulher, pouco mais alta do que ela, mas incomparavelmente mais forte, que a segurou com uma ternura que a sua própria mãe nunca tivera a energia de demonstrar e chamou-a pelo seu nome de infância Por fim devia ter adormecido, embalada ainda nos braços da Senhora. Quando acordou, o seu corpo havia sido limpo, o seu pior sofrimento tornara-se numa dor distante e a recordação de um terror remoto não era mais do que um sonho mau. – Senhora… – murmurou. Anos mais tarde, os seus estudos com os druidas habilitaram-na a atribuir um nome ao ser que a tinha salvo. Contudo, a atenção daquela mulher magica estava centrada em Gawen. – Meu senhor, vou guiar-vos no vosso destino. Espera, por mim na margem do lago e em breve virei buscar-vos. A mulher fez outra vénia, desta vez não tão profunda e, de repente, desapareceu, como se nunca aí tivesse estado. Caillean fechou os olhos. O instinto que a tinha guiado a trazer Gawen para Avalon tinha sido bom.

Se a Senhora do Povo das Fadas o respeitava, então ele deveria ter ali um objectivo. Eilan tinha encontrado uma vez o Merlim numa visão. Que lhe havia ele prometido? Embora fosse romano, o pai daquele garoto morrera como um Rei do Ano para salvar o povo. Que significava isso? Por alguns instantes quase compreendeu o sacrifício de Ellan. Um som abafado por parte de Gawen trouxe-a de volta ao presente. Ele estava branco como a cal. – Quem era ela? Porque falou comigo? Marged olhou primeiro para Caillean e depois para o rapaz, erguendo as sobrancelhas, e a sacerdotisa perguntou a si própria subitamente se as outras teriam visto alguma coisa. – Ela é a Senhora do Povo dos Antepassados, aqueles a quem chamamos fadas. Salvou-me a vida uma vez, há muito tempo. Hoje em dia, o Povo dos Antepassados não aparece com frequência por entre os humanos e ela não teria vindo sem razão aparente. Mas o porquê… não sei – disse Caillean. – Ela fez-me uma vénia. Gawen engoliu em seco e depois perguntou num sussurro que mal se ouvia. – Ides permitir que eu parta, mãe adoptiva. – Permitir? Não me atreveria a impedi-lo. Deves estar preparado para quando ela vier buscar-te. Gawen ergueu os olhos para fitá-la, e um brilho naqueles límpidos olhos cinzentos fê-la subitamente recordar Eilan. – Quer dizer que não tenho escolha. Mas só irei com ela se ela me responder! – Senhora, eu nunca questionaria a vossa decisão – disse Eiluned -, mas o que vos impeliu a trazer um garoto dessa idade para aqui Caillean bebeu um pouco de água do seu copo de madeira em forma de chifre e pousou-o sobre a mesa da sala de refeições com um suspiro. Durante o período de seis luas desde que as sacerdotisas tinham chegado a Avalon, por vezes parecia-lhe que aquela mulher mais jovem não fazia outra coisa a não ser questionar as suas decisões. Perguntava-se se Eiluned se enganava também a si própria com as suas demonstrações de humildade. Só tinha trinta anos, mas aparentava mais. Era magra, de aspecto sombrio e carrancudo e estava sempre ocupada com os assuntos dos outros. Todavia, era conscienciosa e tornara-se um membro muito útil da comunidade. As outras mulheres, reconhecendo o tom de voz, desviaram o olhar e voltaram à sua refeição.

O comprido refeitório aos pés do Tor parecera amplo quando os druidas o construiram para elas no início do Verão. Mas assim que se espalhou que a nova Casa das Donzelas se tinha ampliado, surgiram mais raparigas, e Caillean achava que talvez tivessem de aumentar o refeitório antes do início do novo Verão. – Os druidas tomam a seu cargo rapazes ainda mais novos disse calmamente. O reflexo das chamas da lareira bailava nas faces lisas de Gawen, fazendo-o Parecer momentaneamente mais velho. – Então, eles que o levem! Ele não pertence aqui… Ellimed lançou um olhar penetrante ao rapaz, que por sua vez olhou de relance para Caillean, a fim de restabelecer a confiança, antes de levar à boca outra colherada de milho-miúdo e feijão. Dica e Lysanda, as mais novas das suas donzelas, soltaram risadinhas até que Gawen corou e desviou o olhar. – Por agora combinei com Cunomaglos que o alojasse com o velho Brannos, o bardo. Será que te agrada? – perguntou com aspereza. – Excelente ideia! – anuiu Elhined acenando com a cabeça. – O velho está a começar a cambalear. Vivo com medo que uma noite ele caia na sua fogueira ou se dirija para o lago… O que a outra mulher disse era verdade, muito embora fosse a bondade do velho e não a sua fraqueza que levara Marged a escolhê-lo. – Quem é a criança? – perguntou Riannon do outro lado, fazendo saltar os seus caracóis ruivos. – Não era um dos protegidos de Vernemeton? E o que aconteceu quando regressastes para fazer uma visita? Têm corrido os boatos mais surpreendentes por todo o lado… – concluiu, olhando expectante para a sua grã-sacerdotisa. – É um órfão – suspirou Caillean. – Não sei o que possas ter ouvido, mas é verdade que a Senhora de Vernemeton morreu. Houve uma rebelião. A congregação dos druidas do Norte dispersou-se e várias das sacerdotisas mais velhas morreram também. Uma delas foi Dieda. Na verdade, não sei se a Casa da Floresta vai sobreviver e, se não resistir, nós aqui seremos as unicas a preservar a antiga sabedoria e a transmiti-la. Teria Eilan previsto o seu destino e saberia que apenas a nova comunidade de Avalon sobreviveria? As outras sacerdotisas recostaram-se com os olhos arregalados. Se supunham que haviam sido os Romanos que mataram Eilan e as outras, tanto melhor. Ela não estimava Bendeigid, que era agora o novo arquidruida, mas, apesar de ele poder ser louco, continuava a ser um deles. – Dieda morreu? – A voz doce de Kea enfranqueceu e ela agarrou-se ao braço de Riarmon. – Mas eu devia ir ter com ela neste Inverno, para receber mais instrução. Como vou ensinar às mais novas as canções sagradas? É uma enorme perda! Kea recostou-se e as lágrimas brotavam dos seus olhos sérios e cinzentos.

Era, na verdade, uma imensa perda, pensou Caillean gravemente. Não só por causa dos conhecimentos e técnicas de Dieda, mas pela sacerdotisa que ela poderia ter sido, se não tivesse preferido o ódio ao amor. Essa era uma lição também para si, lição que deveria recordar quando a amargura ameaçasse dominá-la. – Eu vou ensinar-te… – disse Caillean calmamente. – Nunca estudei os segredos dos bardos de Eriu, mas as canções sagradas e os santos ofícios das sacerdotisas druidas são oriundos de Vernemeton e eu conheço-os todos muito bem. – Oh! Não foi minha intenção… – Kea calou-se, corando violetamente. – Eu sei que cantais e que também sabeis tocar harpa. Tocai para nós agora, Caillean. Parece que já passou tanto tempo desde a última vez que tocastes para nós à volta da fogueira! É uma cromática 1 , não uma harpa… – começou Caillean a explicar automaticamente. Depois suspirou. – Esta noite não, minha filha. Estou demasiado fatigada. És tu quem deve cantar para nós e aliviar o nosso sofrimento. Forçou um sorriso e viu Kea animar-se. A jovem sacerdotisa não tinha herdado o talento de Dieda, mas a sua voz, embora fraca, era doce e verdadeira e ela adorava as antigas canções. Riarmon deu uma palmadinha no ombro da sua amiga. – Esta noite cantaremos todas para a Deusa e Ela vai confortar-nos. Pelo menos, voltastes para nós. Depois, virou-se para Caillean. – Estávamos com receio de que não regressásseis a tempo da lua cheia – disse. – Certamente que aprenderam comigo mais do que isso! – exclamou Caillean. – Vocês não precisamde mim para executar o ritual. – Talvez não. – Riarmon sorriu maliciosamente. – Mas sem vós não seria a mesma coisa.

Quando saíram do refeitório já era noite cerrada e estava frio, maso vento que surgira com o anoitecer havia dissipado o nevoeiro. Pordetrás da massa negra do Tor, as estrelas luziam no céu nocturno. Caillean lançou um olhar para leste e reparou nos céus iluminando-se cada vez mais com a elevação da Lua, embora ela ainda estivesse invisível por detrás da colina. – É melhor apressarmo-nos – disse às outras, aconchegando bem o seu manto quente. – A nossa Senhora já se dirige para os céus. Começou a subir o atalho e as outras seguiram-na de perto. À medida que respiravam, o seu bafo formava pequenas nuvens brancas no ar gelado. Caillean olhou para trás apenas quando chegaram à primeira curva. A porta do refeitório ainda estava aberta e pôde ver a figura de Gawen à luz da candeia. Mesmo só através da silhueta, havia uma solidão pesarosa na sua postura ao observar as mulheres a afastarem-se dele. Por um momento, Caillean quis chamá-lo e convidá-lo a juntar-se a elas. Mas isso teria realmente escandalizado Eiluned. Pelo menos ele estava ali, na ilha sagrada. Então, a porta fechou-se e o rapaz desapareceu. Caillean respirou fundo e dispôs-se a subir o resto da encosta da colina. Estava fora há uma lua e tinha perdido a forma para este tipo de esforços. Quando alcançou o topo estava ofegante e esperou que as outras se lhe juntassem, resistindo à tentação de se apoiar a uma das pedras erectas. A sua cabeça cessou gradualmente de andar à roda e ela ocupou o seu lugar junto à pedra do altar. Uma a uma, as sacerdotisas entraram no círculo, movimentando-se na direcção do Sol em volta do altar. Os pequenos espelhos de prata polida, que pendiam dos seus cintos, cintilavam à medida que elas se dirigiam para os seus lugares. Kea colocou o cálice de prata sobre a pedra e Beryan, que tinha acabado de receber os votos no solstício do Verão, encheu-o com água da nascente sagrada. Não havia aqui necessidade de traçar um círculo. O local já era sagrado e não era para ser contemplado por olhos não iniciados. Contudo, à medida que o círculo de mulheres se completava, o ar no Seu interior parecia tornarse mais pesado e absolutamente parado. Até mesmo o vento, que a tinha feito tiritar de frio, desaparecera.

– Invocamos os gloriosos céus resplandecentes de luz. Caillean ergueu as mãos e as outras imitaram-na. – Invocamos a terra sagrada da qual nascemos. Caillean inclinou-se e tocou na relva gelada. – Guardiões dos Quatro Quadrantes, nós vos saudamos. Todas juntas voltaram-se em direcções diferentes, com o olhar fixo até Parecer que estavam a ver os Poderes, cujos nomes e formas estão ocultos nos corações dos Sábios que surgiam perante elas. Mais uma vez, Caillean virou-se para oeste. – Veneramos os nossos antepassados que já morreram. Vós, os sagrados, velai pelos nossos filhos. “Eilan minha amada, vela por mim… vela pelo teu filho.” Caillean fechou os olhos e, por ummomento, pareceu-lhe que sentiu algo, como que um toque suave nos seus cabelos. Caillean virou o rosto para leste, onde as estrelas desapareciam aos poucos no brilho da lua. Oar à sua volta ficou mais tenso com a expectativa, enquanto as outras faziam o mesmo à espera que o primeiro canto luminoso se erguesse acima das colinas. Surgiu uma centelha; a sua respiração saiu dela num longo suspiro, à medida que o pinheiro alto no topo mais distante surgiu de repente numa rígida silhueta. E, subitamente, a Lua apareceu, enorme e tingida de ouro. A cada momento que passava, ela subia mais alto e, ao deixar a Terra para trás de si, a Lua ficava cada vez mais pálida e brilhante, até flutuar livremente numa pureza imaculada. Em simultâneo, as sacerdotisas levantaramas mãos em adoração. Caillean acalmou a voz com algum esforço, desejosa de mergulhar no ritmo familiar do ritual. – A nossa Senhora Lua está a erguer-se a leste – entoou. – joia de orientação, joia da noite – responderam as outras em coro. – Que sejam sagradas todas as coisas sobre as quais a Vossa luz incida… A medida que a voz de Caillean aumentava de tom, o mesmo acontecia com o coro que a secundava. A sua energia intensificava-se por intermédio da das outras sacerdotisas e as suas vozes subiam de tom à medida que a inspiração de Caillean aumentava. – joia de orientação, joia da noite… – Que sejam belas todas as proezas reveladas pela Vossa luz… Cada invocação surgia com mais facilidade e o poder estava reflectido na reacção das outras mulheres em relação à sua. Enquanto a energia aumentava, Caillean também deu por si a aquecer. – Que seja bela a Vossa luz sobre o cume das colinas… Agora, à medida que Caillean terminava uma invocação, encontrava a força para manter a nota através da resposta e as outras, mantendo a sua última nota, secundavam a sua numa doce harmonia.

– Que seja bela a Vossa luz sobre os campos e a floresta… A Lua já se encontrava muito acima da copa das árvores. Caillean viu o vale de Avalon estender- se perante si com as suas sete ilhas sagradas e, ao olhar fixamente, a visão pareceu aumentar até que o que ela viu foi todo o território da Britânia. – Que seja bela a Vossa luz sobre todas as estradas e todos os viajantes… Caillean abriu os braços em invocação e ouviu a clara voz de soprano de Kea elevar-se subitamente em descante acima do coro. – Que seja bela a Vossa luz sobre as ondas do mar… A sua visão transportou-se rapidamente através das águas. Estava agora a perder consciência do seu corpo. – Que seja bela a Vossa luz por entre as estrelas do firmamento. O esplendor do luar envolveu-a e a música elevou-a. Caillean flutuava entre a terra e o céu, vendo tudo, com a alma plena no êxtase da invocação. – Mãe da Luz, bela Lua de todas as estações… Caillean sentiu a sua percepção estreitar-se, até que a Lua cintilante era tudo o que conseguia ver. – Vinde até nós, Senhora! Deixai-nos ser o Vosso espelho! – joia de orientação, joia da noite… Caillean susteve a sua nota final juntamente com o coro e sustentou-a depois de o coro terminar, e as outras, sentindo a formação da energia, mantiveram-na por intermédio das suas próprias harmonias. O grande acorde pulsou quando as cantoras retomaram o fôlego, mas manteve-se. As sacerdotisas dominaram o poder, sabendo sem precisarem de um sinal o momento certo para exibir os seus espelhos. Agora, ainda a cantar, as mulheres aproximaram-se uma das outras, viradas para a Lua, até formarem um semicírculo. Caillean, ainda de pé no lado oriental do altar, voltou-se para elas. A música transformara-se num suave sussurro. – Senhora, vinde até nós! Senhora, ficai connosco! Senhora, vinde até nós agora! Caillean baixou as mãos. Doze espelhos de prata reflectiram um fogo branco quando as sacerdotisas os curvaram para apanhar a luz do luar. Pálidos círculos lunares dançaram ao longo da relva ao serem virados na direcção do altar. Uma luz raiou da superfície prateada da bacia, enviando lampejos brilhantes através dos vultos inertes das sacerdotisas e das pedras ere’ctas. Depois, ao focarem os espelhos, os raios de lua reflectidos uniram-se subitamente à superfície da água contida na bacia. Doze pequenos anéis lunares movimentaram-se em conjunto como o mercúrio e tornaram-se um só. – Senhora, Vós que não tendes nome e, contudo, sois chamada por muitos nomes – murmurou Caillean. – Vós que não tendes forma e, contudo, possuís muitos rostos; assim como as luas reflectidas nos nossos espelhos se transformaram numa unica imagem, que o mesmo aconteça com o Vosso reflexo nos nossos corações. Senhora, nós Vos invocamos! Descei até nós e ficai aqui cormosco! Caillean soltou a respiração num longo suspiro. O sussurro desvaneceu-se até se transformar numsilêncio que vibrou de expectativa.

A visão, a atenção, toda a existência estavam centradas na luz intensa no interior da bacia. Ela sentiu a mudança familiar de consciência à medida que o seu transe se aprofundava, como se a sua carne se dissolvesse e nada mais permanecesse, a não ser o sentido da visão. Agora até mesmo isso perturbou e obscureceu o reflexo da Lua na água do Cálice. Ou talvez não fosse a imagem, mas o brilho reflectido por ela que estava a mudar e a iluminar-se, até que a Lua e a sua imagem se uniram por um feixe de luz, Partículas de brilho deslocaram-se no raio de lua, moldaram um vulto suavemente luminoso, que a contemplava com olhos cintilantes. – Senhora – chamou o seu coração -, perdi o meu amado. Como vou sobreviver sozinha? – Não estás sozinha… tens irmãs e filhas – chegou a resposta, mordaz e, talvez, um pouco divertida. – Tens um filho… e tens-me a Mim… Caillean. tinha uma vaga consciência de que as suas pernas haviam cedido e de que se encontrava agora de joelhos. Não tinha importância. A sua alma tinha ido ao encontro da Deusa, que lhe sorria, e no momento seguinte o amor que tinha oferecido transbordou de tal forma que por uns instantes não se apercebeu de mais nada. A Lua já tinha passado do ponto central do céu quando Caillean voltou a si. A Presença que as tinha abençoado desaparecera e o ar estava frio. À sua volta as outras mulheres estavam a começar a mexer-se. Caillean obrigou os músculos rígidos a funcionarem e pôs-se de pé, tremendo de frio. Na sua memória ainda pululavam fragmentos da visão. A Senhora tinha falado com ela, dissera-lhe coisas que ela precisava de saber, mas estavam todas a desvanecer-se a cada momento que passava. – Senhora, nós Vos agradecemos, porque nos abençoastes… murmurou. – Deixai-nos mostrar ao mundo essa graça divina. Em conjunto, as mulheres murmuraram os seus agradecimentos aos Guardiães. Kea deu um passo em frente para recolher a bacia de prata e verteu a sua água por cima da pedra num jorro de brilho. Depois, caminhando em sentido contrário ao do movimento do Sol, andaram em volta do altar e encaminharam-se para o atalho. Apenas Caillean permaneceu junto à pedra do altar. – Caillean, não vindes? Arrefeceu muito aqui! Eiluned ficou a espera, na ponta extrema do alinhamento das mulheres. – Ainda não. Tenho de Pensar numas coisas.

Vou ficar aqui mais um pouco. Não te preocupes, o meu manto vai manter-me quente acrescentou, embora estivesse na realidade a tiritar de frio. – Vão andando. – Muito bem. As outras mulheres pareciam duvidosas, mas o tom de voz de Caillean era o de uma ordem. Passado um momento também Elluned voltou costas e desapareceu na orla da colina. Quando as mulheres foram embora, Caillean ajoelhou-se ao lado do altar, abraçando-o como se assim pudesse agarrar a Deusa que há pouco aí tinha estado. – Senhora, falai! Dizei-me claramente o que quereis que eu faça! Contudo, não obteve resposta. Havia poder na pedra e ela sentiu um formigueiro subtil nos ossos, mas a Senhora havia desaparecido e a rocha estava fria. Pouco depois, Caillean recostou-se com um suspiro. À medida que a Lua se movia, o círculo ficou cercado pelas sombras das pedras erectas. Caillean, cuja atenção ainda estava centrada na alma, olhou para as pedras mas sem as ver realmente. Apercebeu-se de que o seu olhar estava fixo numa das pedras maiores, somente quando se levantou. O círculo sobre o Tor era de tamanho moderado e a maioria das rochas alcançava um ponto algures entre a cintura e o ombro de Caillean. Mas esta tinha crescido e dava-lhe pela cabeça. Quando reparou nisso, a rocha moveu-se e um vulto escuro pareceu emergir da pedra. Quem… – pronunciou a sacerdotisa, mas quando começou a falar já sabia, com a mesma certeza que tivera nessa tarde, de quem se tratava. Ouviu uma gargalhada baixinha quase sussurrada e a fada surgiu na sua plena forma à luz do luar. Estava vestida como antes, com o seu manto de camurça e a grinalda de bagas e não parecia ter frio- – Senhora das Fadas, eu vos saúdo – disse Caillean suavemente. – Saudações, Pequeno Melro – disse a fada, rindo novamente. Mas não, tornaste-te um cisne, flutuando no lado com os teus pequenos cisnes à tua volta. – Que estais a fazer aqui? – Onde mais poderia estar, minha filha? O Outro Mundo encontra-se com o teu em muitos lugares, apesar de jà não existirem tantos como antigamente. Em certas ocasiões, os círculos de pedra são portões de passagem, tal como o são as orlas da Terra: cumes de montanhas, cavernas, a costa onde o mar encontra a terra… Porém, há alguns locais que existem sempre em ambos os mundos e, de entre eles, este Tor é um dos mais poderosos. – Eu senti isso – disse Caillean suavemente. – Por vezes também era assim na colina das Donzelas, perto da Casa da Floresta.

A Fada suspirou. – Essa colina é um local sagrado e agora ainda o é mais, mas o sangue que ali foi derramado fechou o portão. Caillean mordeu o lábio, vendo mais uma vez as cinzas sob um céu de pranto. A sua tristeza por Eilan nunca acabaria? – Fizeste bem em sair de lá – prosseguiu a fada. – E fizeste bem em trazer o rapaz contigo. – Que quereis dele? O medo que sentiu por Gawen tornou mais pronunciado o seu tom de voz. – Prepará-lo para o seu destino… Que queres tu para ele, sacerdotisa, és capaz de dizer-me? Caillean pestanejou, tentando retomar as rédeas da conversa. – Qual é o seu destino? Será conduzir-nos contra os Romanos e trazer de volta os dias Passados? – Esse não é o único tipo de vitória – respondeu-lhe a Senhora. Porque achas que Eilan arriscou tanto para ter essa criança e mantê-la em segurança? – Ela era a mãe dele – começou Caillean por dizer, mas as suas palavras perderam-se na resposta da fada. – Ela era a grã-sacerdotisa e era magnífica. E era uma filha desse sangue que trouxe a mais elevada sabedoria humana a estas costas. Aos olhos dos humanos, ela falhou, e o seu amante romano morreu em desonra. Mas tu sabes que não foi isso que aconteceu. Caillean olhou fixamente para ela, e as cicatrizes dos insultos que achava já ter esquecido trouxeram uma nova dor à sua memória. – Eu não nasci nesta terra, nem sou de ascendência nobre – replicou firmemente. – Estais a dizer-me que não tenho o direito de estar aqui, nem de educar o rapaz? – Pequeno Melro – a outra mulher abanou a cabeça -, escuta o que te digo. O que era de Eilan por herança é teu por ensinamento, trabalho e dádiva da Senhora da Vida. A própria Ellan incumbiu-te dessa tarefa. Mas Gawen é o último herdeiro na linha dos Sábios e o seu pai era um filho do Dragão por parte da mãe, ligado à terra pelo seu sangue. – Então foi isso que quisestes dizer quando lhe chamastes Filho de Cem Reis… – murmurou Caillean. – Mas de que nos serve isso agora? São os Romanos que governam. – Não posso dizer. Só me disseram que ele tem de ser preparado. Tu e os sacerdotes druidas vão mostrar-lhe a mais suprema sabedoria dos humanos. E eu, se pagares o meu preço, vou mostrar-lhe os mistérios desta terra a que chamas Britânia.

– O Vosso preço – repetiu Caillean, engolindo em seco. – É tempo de se construírem pontes – disse a Rainha. – Eu tenho uma filha, Sianna, gerada por umhomem da tua raça. Ela tem a mesma idade do rapaz. É meu desejo que a leves para a Casa das Donzelas como uma das tuas protegidas. Ensina-lhe os vossos costumes e a vossa sabedoria, Senhora de Avalon, e eu ensinarei o mesmo a Gawen… CAPÍTULO DOIS Vieste, então, para te juntares à Ordem? – perguntou o ancião. Gawen olhou para ele surpreso. Quando a sacerdotisa Kea o levara até Brannos na noite anterior, pareceu-lhe que o velho bardo tinha sobrevivido aos seus conhecimentos, bem como à sua música. O seu cabelo era branco e as suas mãos estavam tão tolhidas pela idade que já não conseguia tanger as cordas da harpa, e, quando lhe apresentaram Gawen, apenas se mexeu na cama o suficiente para apontar para uma pilha de peles de carneiro, onde o rapaz poderia deitar-se; depois, voltou a dormir. O bardo não parecera muito promissor como preceptor neste estranho lugar, mas as peles de carneiro eram quentes e não tinham pulgas e o rapaz estava muito cansado. Antes sequer de ter terminado de pensar sobre metade das coisas estranhas que lhe tinham acontecido durante a última lua, o sono apoderou-se dele. No entanto, de manhã, Brannos era um ser muito diferente da criatura confusa da noite anterior. Os seus olhos lacrimejantes eram surpreendentemente vivos, e Gawen sentiu-se enrubescer sob aquele olhar cinzento. – Não tenho bem a certeza – respondeu cautelosamente A minha mãe adoptiva não me contou o que tenho de fazer aqui. Ela perguntou-me se eu gostaria de ser um bardo, mas só aprendi as canções mais simples que as crianças adoptadas pela Casa da Floresta cantavam. Eu gosto de cantar, mas certamente que ser um bardo implica mais do que isso… Isso não era completamente verdade. Gawen adorava cantar, mas o arquidruida Ardanos, que era o bardo mais notável entre os druidas do seu tempo, detestara-o logo de início e nunca o deixara sequer tentar. Agora que sabia que Ardanos era seu bisavô, aquele que quisera matar Ellan quando descobriu que ela estava à espera de um filho, compreendeu as suas razões, mas ainda era bastante cauteloso para deixar transparecer o seu interesse. – Se eu fosse chamado para esse caminho – disse com cuidado não o saberia já? O velho tossiu e cuspiu para a lareira. – Que gostas de fazer?

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