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A Senhora do Trilio – Marion Zimmer Bradley

A Torre de Noth, feita de pedra, erguia-se desolada, no meio do mato murcho de sede. O restinho de água no fosso estava coberto de espuma e o cheiro da morte pairava no ar. A menina atravessou correndo a ponte levadiça, passou pelo pátio e pelo jardim, e entrou no quarto da arquimaga a tempo de ver a velha senhora morrer e seu corpo desfazer-se em pó. Enquanto estava ali parada, chocada com os acontecimentos tão repentinos, a Torre Inteira virou pó à sua volta e foi soprada pelo vento, e tudo que restou foi a capa branca da arquimaga… Haramis, a Senhora de Branco, arquimaga de Ruwenda, despertou subitamente, sentindo-se muito velha, mais ainda se comparada à menina que tinha sido em seu sonho. Não era exatamente uma surpresa, estava velha mesmo, tendo passado por várias vidas comuns até então, ela pensou comtristeza. Como arquimaga, ligada espiritualmente à terra, seu tempo de existência tinha sido ampliado muito além da vida de suas duas irmãs. Apesar de nascidas juntas, seus destinos tinham se separado há um longo tempo e ela, a mais velha das princesas trigêmeas, era a única sobrevivente. Kadiya, a do meio, foi a primeira a partir. Depois da grande batalha contra os invasores de Labornok e o feiticeiro maligno Orogastus, ela desapareceu em seus amados pântanos com o companheiro Oddling e seu talismã, o Olho Ardente Trilobado, que fazia parte do grande cetro mágico que as trigêmeas usaram para derrotar Orogastus. Durante um tempo, Haramis e ela se comunicavamocasionalmente por meio da visão, mas Kadiya desaparecera havia décadas. A essa altura – pensou Haramis – ela já deve estar morta. Anigel, a mais nova, tinha casado com o príncipe Antar de Labornok, unindo os dois reinos, e morreu em paz, de velhice, cercada pelos filhos e netos. O trono duplo passou para seus descendentes. Quemreinava agora, um neto ou bisneto Haramis não conseguia lembrar, os anos passavam depressa demais. Talvez fosse até um tataraneto. Haramis, a mais velha, foi escolhida para substituir a arquimaga Binah como guardiã da terra. Ruwenda prosperou naqueles anos e Haramis amava a terra como se fosse uma filha. E de certa forma era mesmo. Agora, contudo, estava tendo sonhos estranhos. Era a terceira noite seguida que revivia a morte de Binah em sonhos e acordava de manhã cansada demais para sair da cama. Será que era um aviso de que morreria em breve Talvez estivesse chegando a hora de uma nova guardiã assumir a função. Se sua sucessora fosse escolhida logo, talvez até tivesse tempo de treiná-la. Haramis gostaria de ter tido algumas aulas quando foi escolhida, mas não teve. Queria fazer mais por sua sucessora. Mas quem poderia ser? Binah tinha simplesmente dado a capa para Haramis antes de morrer, e a Torre em que viveu e trabalhou desfez-se em pó junto com seu corpo.


Haramis, que até aquele momento era herdeira do trono, tinha sido treinada desde criança para ser rainha, não arquimaga. Achou a repentina mudança de função desconcertante, para dizer o mínimo. Aquele não era o legado que desejava deixar para sua sucessora. A arquimaga arrastou-se para fora da cama, ignorando as articulações doloridas e uma sensação generalizada de mal-estar. Se ainda estivesse morando na Cidadela de Ruwenda, onde fora criada, sem dúvida estaria se sentindo muito pior – a Cidadela era um típico castelo de pedra, impossível de aquecer. Mas a Torre onde Haramis vivia desde o momento em que se tornou arquimaga era quente por dentro, apesar de estar localizada perto da fronteira entre Labornok e Ruwenda, no cume do Monte Brom, e de ser inverno. Orogastus vivera na Torre antes dela, e equipou-a com todos os luxos que conseguiu descobrir, roubar ou comprar. Tinha se especializado nos aparelhos dos Desaparecidos. Muitos eram armas perigosas, outros, porém, eram bem práticos e tornavam o dia-a-dia muito mais confortável. Infelizmente para ele, Orogastus jamais compreendeu muito bem a diferença que havia entre a tecnologia deixada para trás pelos Desaparecidos e a verdadeira mágica. Dependia tanto da tecnologia, que Haramis e suas irmãs foram capazes de destruí-lo com a magia. Para Haramis a diferença entre a mágica e a tecnologia antiga era tão óbvia, embora difícil de explicar, que ainda não entendia como Orogastus podia ter sido tão tacanho, especialmente considerando que ele já possuía habilidades mágicas próprias. Haramis ainda estremecia ao lembrar da breve atração provocada por ele. Durante algumas semanas chegou a achar que estava apaixonada. Mas aparentemente isso funcionou contra ele, lembrou. Ele perdeu várias oportunidades de me prejudicar, mesmo depois de eu ter deixado claro que não o amava. Era como se estivesse convencido de que me amava e não podia causar-me mal, e que eu o amaria também, necessariamente, e que iria ajudálo em seus planos. Ela aproximou-se de um armário de madeira todo trabalhado e pegou uma bacia de prata de uma das gavetas. Pôs a bacia sobre uma mesa no centro do quarto, despejou água pura de um jarro que estava ao lado da cama até cobrir a metade do recipiente e inclinou-se sobre ele. A visão na água era praticada por várias raças de oddlings que viviam nos pântanos em volta da Cidadela. Os oddlings não eram seres humanos. Eram aborígines, descendentes dos primeiros habitantes da terra. Algumas raças de oddlings eram bem parecidas com os humanos, enquanto outras eram como seres saídos de pesadelos, mas geralmente viviam em paz com os humanos. Os nyssomus estavam entre os oddlings que mais se assemelhavam aos humanos, e muitos tinhamservido à corte de Ruwenda quando Haramis era criança. Seu melhor amigo, Uzun, nyssomu e músico da corte, possuía bastante habilidade para mágica, além do talento musical, e foi ele que ensinou a visão da água para Haramis.

Era um método sabidamente incerto de adivinhação, apenas um pouco melhor como método de comunicação, mas Haramis descobriu que quando combinado com seus poderes de arquimaga, ficava bem preciso. Era mais fácil e mais confiável, no entanto, se feito com o estômago vazio. Ela clareou a mente o máximo que pôde, apesar da impossibilidade de banir por completo o sonho recente, e olhou através da água. Quase no mesmo instante pareceu que voava pelo ar, como se montasse um dos grandes abutres que costumavam transportá-la, e aproximou-se de uma torre. Reconheceu a construção. Era a torre principal da Cidadela, uma adição relativamente recente construída por humanos (nos últimos quinhentos anos), enquanto o prédio principal era um sobrevivente do tempo dos Desaparecidos. Aterrissou suavemente no telhado da torre e deixou seu corpo espiritual descer pela clarabóia até o cômodo mais alto. Naquele momento, em sua visão, o quarto estava vazio. A última vez que esteve ali em carne e osso o lugar estava cheio de soldados labornoki tentando capturar os dois, Uzun e ela, e só a chegada oportuna de dois abutres gigantes para levá-los embora do telhado da torre possibilitou a saída de lá com vida. Lembranças daquele dia tão distante voltaram, enquanto Haramis continuava a traçar sua rota de fuga. O pavimento logo abaixo tinha sido dormitório para alguns soldados da Cidadela. Até onde conseguia lembrar, a idéia maluca de pôr os soldados dormindo 17 andares acima de tudo tinha sido do seu avô. Seu pai fora muito mais um estudioso do que um guerreiro e não se preocupou emmodificar esse arranjo. Obviamente alguém tinha sido sensato o bastante para acabar com esse costume, antes de ser sacramentado pela tradição. Embora o quarto ainda tivesse meia dúzia de catres e seus respectivos baús de roupas, havia apenas duas pessoas no antigo dormitório, duas crianças, um menino e uma menina, ambos aparentando ter doze anos de idade. Estavam sentados no chão, um de frente para o outro, no centro de um raio de sol que entrava por uma janela aberta. – Acho que funciona com a luz – dizia o menino. Ele era magro, tinha o cabelo cheio e negro, precisando de um corte. Caía por cima do rosto quando se debruçava sobre o objeto que estavam estudando, e ele o afastava com a mão, distraído. Assim que tirava a mão o cabelo caía de novo, mas ele ignorava. – Não pode ser só isso – objetou a menina. O cabelo dela era ruivo e brilhante, penteado em traçcas soltas que caíam até a cintura. Haramis não vira ninguém com cabelo assim a não ser sua irmã Kadiya e, pelo jeito, aquela menina cuidava tanto da aparência quanto Kadiya. As duas crianças usavam roupas que obviamente tinham sido herdadas de crianças maiores, e nenhum dos dois parecia se importar em mantê-las limpas. O chão de madeira não era varrido há meses, senão anos, mas a poeira mostrava marcas que sugeriam que as crianças, ou outras pessoas, costumavam se esparramar pelo chão, indiferentes à sujeira e às farpas.

E a menina era ainda mais magra que o menino. Será que ninguém alimenta essas crianças? – pensou Haramis. – Não funciona no escuro – o menino ainda defendia seu ponto de vista. – Ah, eu concordo que precisa de luz para funcionar, mas se fosse só a luz a ativá-lo, todas as melodias, menos as de baixo, tocariam de uma só vez. O ser da visão de Haramis atravessou o quarto para ver o que a menina segurava. Reconheceu de imediato. Era um de seus brinquedos favoritos quando criança. Era uma caixa de música, sobrevivente do tempo dos Desaparecidos, um cubo que tocava uma melodia diferente, dependendo do lado sobre o qual ficava apoiado. – Olha, Fiolon – a menina apontou, segurando o cubo de forma que uma aresta tocasse o chão no meio dos dois. – Se fosse apenas a luz, deveria estar tocando pelo menos uma música agora, está recebendo luz direta do sol – ela virou a caixa, deixando-a apoiada sobre um lado, e começou a tocar uma melodia. – Viu? Tem de estar com um lado inteiro no chão ou… – ela levantou o cubo todo – …paralelo ao chão. – Horizontal, você quer dizer – disse o menino. – É a mesma coisa, se o chão for plano. Agora olha aqui – ela virou a caixa para um lado, movendo-a lenta e cuidadosamente. – A música pára quando a gente inclina mais que dois dedos, e, quando um outro lado fica horizontal, há uma pausa antes de a música começar de novo. E durante essa pausa – ela concluiu triunfante – sinto alguma coisa mudando no cubo. A música não começa outra vez até que essa coisa, seja lá o que for, chegue ao fundo. – Ela pôs o cubo perto da orelha. – Há uma espécie de líquido aqui dentro. Gostaria de poder abrir isso e ver o que tem dentro, e como funciona. Fiolon estendeu o braço e tirou o cubo da mão dela. – Não se atreva, Mikayla! Esse é o único que nós temos, e eu gosto dele. Se quebrá-lo, não caso mais com você quando a gente crescer. – Eu conserto depois – protestou Mikayla. – Você não sabe se vai conseguir montá-lo de novo.

– Fiolon observou com calma e objetividade. – Você não sabe o que é esse líquido, é pesado demais para ser água, e vai derramar se abrir isso. E não temos mais nada para saber como era a música dos Desaparecidos. Mikayla riu. – Você só não quer se arriscar a destruir qualquer fonte de música. Acho que seu pai deve ter sido ummúsico. Fiolon deu de ombros. – Jamais saberemos. Mikayla pegou o cubo de volta e equilibrou-o numa das mãos. – Acho que tem razão quanto ao líquido. Realmente parece pesado demais para ser água, e a coisa que tem aí dentro se mexe devagar demais para estar flutuando em água – ela deu um suspiro. – Queria encontrar mais desses. – Eu também – concordou Fiolon. – Aí talvez pudéssemos ter mais melodias. – E se encontrássemos uma igual, eu poderia desmontá-la para descobrir o que tem dentro. – Por que você quer sempre saber como as coisas funcionam? Mikayla mexeu os ombros. – Por querer. Por que você quer sempre compor uma canção sobre tudo? Fiolon mexeu os ombros do mesmo jeito. – Por querer. Eles se entreolharam e caíram na risada. Haramis deu uma risadinha e se viu de volta na sua torre, olhando para a bacia. Sua respiração tinha perturbado a superfície da água, interrompendo a visão. Bem, ela pensou, eles certamente parecem bem inteligentes, mas tenho dificuldade de vê-la como arquimaga. Terei de descobrir mais sobre ela – e sobre ele. Quanto à observação que fez sobre o casamento, parece que os dois estão comprometidos, mas é muito estranho ele não saber quem foi seu pai.

E apesar das roupas terem sido herdadas de alguém, quando novas eram de boa qualidade, e as crianças não falam como servos. Haramis vestiu-se apressada e foi tomar o café da manhã. Tinha de escrever cartas e enviar mensagens. Informações sobre a terra eram acessíveis para Haramis como as batidas do seu coração. Era muito mais difícil obter informações sobre as pessoas. Passaram várias semanas antes de Ayah, serva nyssomu do palácio, receber a mensagem da arquimaga, conseguir uma licença para visitar a irmã, e afastar-se bastante da Cidadela de forma que um abutre gigante pudesse pegá-la sem ser visto. Ninguém da família real sabia que a irmã de Ayah trabalhava para a arquimaga, e Haramis queria manter as coisas desse jeito. Um abutre finalmente chegou à torre com uma nyssomu bem embrulhada nas costas. Haramis saiu para receber o pássaro e carregou a pequena mulher no colo para dentro. O principal problema de morar onde morava era que seus servos nyssomus não podiam sair em segurança. Mesmo depois de quase duzentos anos, Haramis ainda lembrava vivamente do dia em que seu amigo e companheiro Uzun quase morreu congelado quando procuravam seu talismã. Ela perdeu um dia inteiro de viagemretornando para um ponto de menor altitude para reaquecer Uzun, antes de enviá-lo de volta para as terras baixas e continuar a jornada sozinha. Os vispis eram os únicos oddlings que podiamsobreviver nas montanhas, e até eles preferiam viver em pequenos vales isolados, aquecidos por fontes de água quente. Então Haramis carregou o embrulho bem enrolado para dentro da torre e entregou a hóspede para Enya, irmã da visitante, para levá-la para seu quarto e dar-lhe de comer depois da viagem. O que Haramis queria saber tinha demorado esse tempo todo para chegar. Podia aguardar mais algumas horas. Quando as três se reuniram no estúdio de Haramis, bebendo suco de ladu quente em canecas, Haramis perguntou a Ayah sobre as crianças da visão. – A princesa Mikayla e lorde Fiolon – perguntou a oddling surpresa. Ela obviamente ficou imaginando que interesse Haramis podia ter nas duas crianças, mas Haramis achou melhor não explicar, pelo menos não naquele momento. Simplesmente esperou até a mulher continuar. – Mika, a princesa Mikayla, é a sexta dos sete filhos do rei. O rei se concentra na educação do seu herdeiro. A rainha se preocupa com o ”bebê”, que hoje tem dez anos, e os outros quatro têm idades muito próximas, e costumam andar juntos – a mulher oddling balançou a cabeça. – Por isso ninguém liga para o que Mika faz, e os pais de Fiolon estão mortos, ou pelo menos a mãe dele está. Se não tivessem um ao outro, ela poderia ser uma criança muito solitária, e acho que ele também.

Haramis pensou no que ela dizia. – Sempre tive Uzun como meu melhor amigo – ela disse, sorrindo e olhando com carinho para uma harpa de madeira polida com uma incrustação de osso no topo da coluna, que estava ao lado da sua cadeira. Passou a mão no instrumento como se acariciasse um animal de estimação. – Mesmo assim, não consigo imaginar como seria a minha infância sem as minhas irmãs. Elas estavam sempre lá, querendo ou não – ela trouxe o pensamento de volta para o presente. – Então como é que Fiolon se encaixa? Quem é ele, exatamente? Ayah continuou seu relatório. – Lorde Fiolon de Var. A mãe dele era a irmã mais nova do Rei de Var; nossa rainha é a do meio. A mãe de Fiolon morreu quando ele nasceu, mas passaram-se seis anos antes da nossa rainha persuadir o rei a permitir que ela criasse o filho da irmã falecida. – E o pai de Fiolon? – Haramis estava curiosa para saber isso desde o momento que ouviu a conversa das crianças. Ayah balançou os ombros. – Ninguém sabe. A mãe dele não era casada. Haramis fez cara de espanto. – A irmã do Rei de Var teve um filho, e ninguém tem a menor idéia de quem é o pai? Dada a falta de privacidade em qualquer palácio que conheço, isso parece incrível. Alguém deve ao menos suspeitar de quem era seu amante. – Segundo os boatos ela morreu afirmando que um dos Senhores do Ar era o pai do seu filho. Haramis ergueu as sobrancelhas, surpresa. – Jamais soube que os Senhores do Ar assumissem forma física, menos ainda que gerassem filhos. Ayah suspirou. – Ela estava morrendo, Senhora, e provavelmente delirava. Mas eu concordo, é estranho que ninguémsaiba quem é o pai dele. Muito estranho. Haramis deu de ombros. – Duvido que isso tenha importância.

Toda família numerosa tem crianças extras. Mikayla e ele estão comprometidos Ayah balançou a cabeça. – Existem boatos – Mikayla se encaixa na sua categoria de ”extra” também, até onde é permitido a qualquer princesa, mas não existe um contrato formal. Creio que pode até ser bom. Eles gostam muito um do outro. – É uma pena – disse Haramis. – Já que Mikayla será a próxima arquimaga, ela terá de desistir dele. O queixo de Ayah caiu. – Mika A arquimaga – Ela hesitou um longo momento antes de continuar a falar. – Senhora de Branco, eu realmente acho que ela não vai gostar disso. – Não importa se ela gosta ou não – disse Haramis calmamente. – Ninguém é voluntário para esta vida. É o destino dela, como foi o meu. CAPÍTULO 2 Haramis achava que não podia demorar mais. Não queria imaginar sua sucessora na mesma situação em que ela esteve – mergulhada de repente no papel da arquimaga de Ruwenda, sem a menor idéia do que aquilo representava. Por isso, por mais cruel e prematuro que pudesse parecer, para ela e obviamente para Ayah, precisava começar a educar Mikayla para a função que ia desempenhar no futuro. Ayah ficou vários dias na torre, na companhia de Enya, enquanto Haramis fazia os preparativos para a viagem à procura da sucessora. É claro que podia, simplesmente, chamar alguns abutres gigantes para levá-la para a Cidadela e trazer Mikayla de volta para a torre. Mas queria que Mikayla visse os detalhes da terra com a qual ia se unir, e assim, no dia em que despachou Ayah num abutre, montou num fronial já equipado com mantimentos e material de acampamento, e partiu para a Cidadela ao sul, onde sua irmã Anigel vivera e morrera Os primeiros dias da viagem foram nas montanhas. Fazia muito frio, embora o tempo estivesse ameno para o inverno, e nenhuma neve caiu. (Haramis achava que sofria bastante viajando pela neve que já estava no solo, para permitir que nevasse mais. Apesar do saco de dormir bem forrado, sentia dores em todas as juntas quando acordava de manhã. Mas no fim do quinto dia a neve tinha acabado e ela observou o sol se pondo, inchado e vermelho, sobre o pântano no oeste. A partir daí a maior parte da viagem era feita por caminhos secretos que ninguém usava há muito, através dos pântanos de Ruwenda. Houve um tempo em que conhecia cada passo dessas trilhas, tão bem quanto as estantes da sua biblioteca.

Só pela dor que sentia nos músculos era evidente que tinha de fato passado tempo demais em retiro atrás das paredes da sua confortável torre. Era verdade que quando tudo ia bem na terra, não havia necessidade de deixar a torre, mas mesmo assim sentia que devia sair mais. Quantos anos se passaram desde que vira a terra, fora dos transes de visão Mesmo com as dores no corpo, era bom estar fora de casa, passeando. Quanto à aparência física, Haramis se disfarçou como uma mulher comum, não uma jovem, mas ainda em perfeitas condições de saúde, apesar do cabelo branco como a neve. Essa era a aparência que sempre usava quando viajava pela terra, mesmo quando era muito jovem. Isso garantia que seria tratada com um certo respeito, mas sem o medo supersticioso que a presença da arquimaga provocaria. Porém, no fim de cada dia ficava imaginando se aquela impressão de saúde não era uma mentira igual a qualquer coisa que indicasse seus poderes mais misteriosos, ou a sua verdadeira idade. Lembrou mais uma vez que podia ter chamado um dos abutres que a serviam, e ficava tentada a fazer isso muitas vezes, especialmente nos fins de tarde, quando pensava na urgência de sua missão. Haramis achava que provocar um rebuliço em toda Ruwenda aterrissando daquela forma no pátio da casa da sua sobrinha-neta, por mais distante que fosse o parentesco, daria à menina – e possivelmente até aos pais dela, embora cansados de saber – uma idéia inteiramente errada dos deveres e dificuldades da função de arquimaga, além da idéia equivocada da utilização do poder mágico. Não havia nada de mágico nos froniais. Orogastus mantinha um estábulo deles (já que não podia invocar os abutres gigantes, os froniais eram seu único meio de transporte para sair e voltar para a torre), e Haramis tinha simplesmente dado continuidade ao programa de criação. Orogastus, sempre bombástico, certamente chegaria dessa viagem de abutre gigante, se pudesse. Mas não era esse o estilo de Haramis. Assim ela foi em frente, sem mudar nada, muitas vezes puxando os froniais quando a vegetação tornava impossível montá-los, sem nenhum sinal externo da magia, a não ser sua capa e seu cajado. O talismã, o Círculo com Três Asas, que levava preso a uma corrente em volta do pescoço, estava escondido embaixo da roupa. Usava as botas mais resistentes que tinha: encantadas contra a chuva e o nevoeiro da estação, e para não se perder na confusão dos caminhos – não que a arquimaga precisasse desse último encantamento, mas lidava com isso desde menina e gostava de manter a forma. Essa viagem era uma boa oportunidade para refrescar suas lembranças das estradas e caminhos de Ruwenda, pois não os trilhava a pé há muitos anos. Por isso, embora pudesse ter optado por qualquer tipo de comitiva que quisesse, ou qualquer veículo, real ou mágico, ela se absteve da magia na viagem, indo a pé ou levada pelos froniais. Esperava que mesmo assim, sua sobrinha-neta emsegundo grau percebesse o sentido mágico daquela viagem. Seria um bom começo para o aprendizado dela, se a menina tivesse alguma habilidade mágica natural. Pelo que Haramis tinha visto, Mikayla parecia mais dada a tentar analisar exatamente o que fazia um encantamento funcionar do que a se esforçar para aprender qual a sua sensação. Essa era a menina que aparecia na visão de Haramis como sua sucessora, portanto isso estava resolvido. Não achava possível que Fiolon, sendo macho e um de Var, pudesse ser o sucessor designado. Sua viagem lenta através dos pântanos levou outros quatro dias e noites, e durante esse tempo Haramis renovou sua familiaridade com a terra de Ruwenda, principalmente com sua parte formada por lama. Aliás, mais do que desejava.

Tinha vivido tanto tempo nas montanhas nevadas que já esquecera como era a lama. Podia livrar-se da neve passando a mão, e qualquer pontinho que restasse logo evaporaria assim que entrasse em casa. Mas a lama grudava nela, secava em sua pele e coçava. Foi um alívio quando o caminho que percorria cruzou com a Grande Estrada e ela pôde trocar as trilhas lamacentas pela estrada pavimentada. A estrada facilitava tudo e ela não precisava mais tomar cuidado a cada passo que dava, de modo que podia olhar em volta. Embora o inverno fosse sempre chuvoso nas proximidades da Cidadela, aquele dia era um dos raros de sol e temperaturas amenas, valioso como uma pausa na tristeza da estação. Os pássaros chilreavam nas árvores que margeavam a estrada. Ao atingir a campina que cobria o Outeiro da Cidadela, ela viu que mesmo em pleno inverno as flores negras do trílio floresciam por toda parte. Ela riu alto. Quando criança, o Trílio Negro era uma coisa rara e mágica, algo tão raro que existia apenas uma planta, aos cuidados da arquimaga. Mas depois que Haramis e suas irmãs derrotaram Orogastus, as flores surgiram magicamente sobre todo o outeiro. Agora eram comuns como ervas daninhas e, provavelmente, pensou Haramis com um humor meio deturpado, vistas dessa forma. Era quase meio-dia quando ela chegou à Cidadela, e foi recebida pelo rei com uma surpresa tão grande que beirava a estupefação. – Senhora arquimaga, é uma honra enorme recebê-la – disse o rei, parecendo um pouco nervoso. – Como podemos servi-la? A rainha, por outro lado, deu a impressão de considerar a chegada de Haramis sem aviso e sem comitiva nada além da excentricidade de uma mulher idosa, e levou isso em conta. – Deve estar exausta, Senhora! – a criada chegou apressada, atendendo ao olhar da rainha. – Deixe os servos levarem suas coisas para o quarto de hóspedes e cuidarem de seus animais, enquanto descansa da viagem. Dez dias enfrentando o frio do inverno e os caprichos de dois froniais meio excêntricos (não se importavam muito com a montanha, mas detestavam o pântano) deixaram Haramis sem fôlego e malhumorada também. – Vocês podem deixar de lado toda essa cerimônia – disse ela bruscamente. – O assunto que vim tratar não diz respeito a vocês dois, e sim a Mikayla. – Mikayla – o rei perguntou, sem entender. – Sua filha Mikayla – disse Haramis com os dentes cerrados. Nunca teve muita paciência com gente idiota e tinha passado tantos anos sozinha que perdera a prática dos modos da corte. Além do mais, como arquimaga, não precisava se preocupar com o que os outros pensavam dela. – A sexta de seus sete filhos.

Lembra dela, não é? O rei conseguiu dar uma risadinha nervosa. – Sim, é claro que lembro. Mas ela é apenas uma menininha. O que você quer com ela? Felizmente para o pouco que sobrava da paciência de Haramis, a rainha era uma pessoa mais prática. Num breve instante Haramis lembrou de seus pais, o rei Krain, culto e extremamente distraído, e a rainha- Kalanthe, capaz e gentil. A rainha ordenou que a criada fosse ver imediatamente se o quarto de hóspedes estava arrumado, com o fogo aceso, mandou os servos cuidarem da bagagem de Haramis e dos dois froniais. Despachou Ayah, que estava atrás da criada, o que não surpreendeu Haramis nem um pouco, com ordens de encontrar a princesa Mikayla e de levá-la imediatamente para a pequena sala de estar. Então conduziu Haramis para a sala, fez com que sentasse na cadeira mais confortável e pediu comida e bebida. – O jantar será servido em breve – ela explicou – mas a senhora talvez queira um pouco de frutas secas e queijo… Haramis sentou com as costas bem retas, cuidando para não demonstrar cansaço. Lá fora, sob o sol forte, sentia-se bem, mas o castelo por dentro era escuro e úmido, apesar do fogo. Ela olhou para o rei, que tinha ido atrás delas, e que estava parado perto da porta, sem saber o que fazer. Haramis percebeu que ele gostaria de ter tido tempo para preparar Mikayla para o encontro com a parenta idosa. Pelo pouco que tinha visto Mikayla, ela suspeitava que a rainha pensava a mesma coisa, mas disfarçava melhor que o marido. Ou talvez, Haramis pensou, o rei estivesse mesmo tentando lembrar de Mikayla. Se achava que era uma menininha, era óbvio que não prestava muita atenção nela ultimamente. Haramis teve a impressão de que aquele dia seria um grande choque para ele. A comida chegou e Haramis comeu educadamente, contendo sua impaciência. Ayah ia encontrar Mikayla tão depressa quanto possível, e seria insensato demonstrar impaciência demais. Mas quando Ayah voltou, estava sozinha. – Onde está a minha filha? – perguntou a rainha. Ayah parecia triste. – Não está na Cidadela, majestade. Temo que tenha partido com lorde Fiolon em mais uma de suas expedições. A rainha afundou na cadeira e apoiou o polegar e o indicador juntos entre os olhos, como se acometida de uma súbita dor de cabeça. A notícia sem dúvida não foi bem-vinda para Haramis, mas ela teve a impressão clara de que não era uma surpresa completa.

De fato, o único comentário audível que a rainha fez foi reclamar baixinho. – Por que hoje? Mas o rei não conseguia compreender a situação que até para Haramis não era difícil adivinhar. Claro, a irmã de Haramis, Kadiya, tinha o hábito de desaparecer nos pântanos durante semanas a fio, acompanhada apenas pelo caçador nyssomu Jagun, seu companheiro favorito, de modo que Haramis estava familiarizada com esse tipo de comportamento. A princesa Kadiya passou tempo suficiente no meio dos nyssomus para merecer o nome do pântano ”Visão ao Longe” e para ser nomeada membro honorário da tribo nyssomu. – Expedições – ele vociferou. – Explique-se, mulher! Está dizendo que a minha filha está percorrendo os pântanos sozinha? – Não, majestade – Ayah respondeu depressa. – Tenho certeza de que ela não está sozinha. Lorde Fiolon e ela têm muitos amigos na aldeia nyssomu a oeste do outeiro, por isso sei que foram, no mínimo, com um guia. O rei parecia que ia explodir. Os homens, pensou Haramis, sempre perguntavam coisas sem importância. Haramis escolheu aquele momento para se manifestar. – Para onde teriam ido – perguntou calmamente. – Ouvi os dois conversando no mês passado sobre umas ruínas antigas subindo o Rio Golobar – disse Ayah – mas achavam que o nível do rio não estava suficientemente alto para o barco chegar até lá. É claro – ela acrescentou timidamente – tem chovido bastante desde então. Haramis conhecia as ruínas, apesar de jamais ter estado lá pessoalmente. Ficavam onde o Pântano Negro encontrava o Pântano Verde, subindo o Rio Golobar até quase a metade do caminho entre a nascente e o ponto em que fluía para o Rio Mutar Meridional, cerca de um dia de viagem a oeste da Cidadela. Mais um dia para chegar ao Golobar, e provavelmente uma semana, no mínimo, sob condições ideais, para chegar às ruínas, supondo, é claro… – Os skriteks! – Haramis exclamou de repente. – Ela sabe que há uma grande concentração de skriteks naquela área, não sabe? – O quê – o rei rugiu, quase abafando a exclamação de horror da rainha. – Você não conhece nada do seu reino – Haramis disse asperamente. – Está claro que não sabe quase nada também sobre sua família. – Não se preocupe, mamãe. Os skriteks não vão machucar Mika – uma voz de criança soou comsegurança da porta. – Ela conversa com eles e eles a deixam em paz. Haramis duvidou da veracidade dessa afirmação. Ela certamente podia afastar skriteks vorazes comuma ordem, mas ela era a arquimaga.

Os skriteks, normalmente chamados de afogados, eram conhecidos pelo hábito de se esconder embaixo da água à espera das presas, que podiam ser todos os outros oddlings (como os nyssomus) e animais grandes, arrastando-os para baixo para morrerem afogados antes de serem devorados. Seus hábitos de caça fora da água eram ainda piores. Em terra, eles caçavam em bandos. Haramis tinha até visto ataques a seres humanos. Na verdade, um bando de skriteks destruíra parte do exército do rei Voltrik. Já que o rei Voltrik de Labornok tinha invadido Ruwenda, matado os pais dela e estava tentando matá-la e as irmãs, na época Haramis foi capaz de conter as lágrimas. E esses eram os adultos. De certa forma, os mais novos eram ainda piores. Os skriteks punham ovos e os abandonavam. Eles eram os únicos oddlings que tinham um verdadeiro estágio de larva, e que se defendia da melhor forma possível, muito bem por sinal, até tecer um casulo, mudar e surgir como umpequeno e voraz adulto. Haramis teve a sensação desagradável de que um dos bosques de árvores mortas que os skriteks usavam para processar essa metamorfose ficava na rota escolhida pelas crianças. Ela resolveu verificar isso logo que tivesse uma chance. Naquele momento a rainha orgulhosamente apresentava seu ”bebê” – o príncipe Egon, com dez anos de idade. Ele curvou-se corretamente segurando a mão de Haramis, e ela disfarçou o riso muito bem. Aquele pequeno era um conquistadorzinho mesmo. Tinha uma cabeleira dourada e cacheada e olhos azuis, enormes e inocentes – na verdade ele parecia muito com Anigel. Deve ser um temporão, pensou Haramis. Espero que tenha cérebro, mas com essa aparência talvez consiga sobreviver semele. – Então sua irmã conversa com os skriteks, não é – perguntou Haramis. – O que ela diz para eles? – Ela diz que eles estão proibidos de declarar guerra contra os humanos. Haramis ficou surpresa. Isso era verdade, e fazer cumprir essa proibição era um dos deveres da arquimaga. Mas como Mikayla podia saber – e sob quais circunstâncias discutia isso com os skriteks? Achava que os skriteks não levavam a proibição muito a sério. Mas se Mikayla não pensava assim… Era de suma importância para Haramis conhecer Mikayla o mais depressa possível.

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