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A Senhora dos Mortos (As Crônicas dos Mortos Livro 4) – Rodrigo de Oliveira

JEZEBEL ESTAVA PARADA no ponto exato onde a rodovia BR-116 passa sobre a avenida Presidente Castelo Branco, na cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande Sul. De lá, era possível avistar a cruz sobre a igreja Nossa Senhora dos Navegantes, local onde antes do Apocalipse Zumbi ocorriam procissões de devotos vindos de diversas cidades do sul do país. Era uma manhã de sol bonita, quase sem nuvens no céu. Uma brisa suave fazia os seus cabelos balançarem preguiçosamente. Estava muito frio, cerca de cinco graus, mas a sensação térmica era de dois graus, por causa do vento. Era inverno numa das capitais mais geladas do Brasil. Jezebel caminhou tranquila entre os inúmeros carros abandonados na via. Diversos veículos abandonados ali juntando poeira e ferrugem, desintegrando-se aos poucos pela ação do tempo. Mais à frente, um ônibus intermunicipal tombado na pista. Sua carroceria enegrecida denunciava que fora incendiado ou pegara fogo depois do acidente. Ela se aproximou da mureta de proteção da pista e ficou observando aquela parte da cidade. De lá, avistou uma estreita coluna de fumaça que subia ao céu, partindo de algum ponto atrás da igreja. Ficou curiosa. Nas diversas cidades pelas quais passara antes, ela notou o mesmo padrão, sinais da presença de seres humanos sobreviventes sempre ao redor de igrejas, transformadas em abrigo preferencial. Em outra situação, esconder-se numa igreja nunca seria a escolha dela, mas agora, pouco importava. Jezebel e a raça humana estavam em lados opostos. Havia um mês Jezebel se tornara zumbi. Porto Alegre… Quanto tempo fazia que ela não visitava aquela cidade? Desde que ela e a irmã gêmea, Isabel, fizeram o tratamento de neurofeedback para enfrentar os problemas de paralisia e hiperatividade cerebral. No tempo em que ela, a irmã e o pai delas, Alex, formavam uma família. Entretanto, aquelas lembranças agora pertenciam a outra vida. Fantasmas do passado que tentavaminutilmente assombrá-la. Jezebel não entendia por que fora a escolhida. Enquanto todos os demais zumbis eram irracionais e desprovidos de quaisquer lembranças, ela conservara o intelecto e a memória. Sobretudo, ganhara o dom de destruir o que desejasse, sem nenhum esforço, apenas com o poder da mente. Quando humana, Jezebel e a irmã gêmea conseguiam fazer coisas incríveis, como ler pensamentos ou até mesmo mover pequenos objetos sem tocá-los.


Agora, seus dons fantásticos atingiram um patamar inimaginável. Mas Jezebel não era mais humana, disso não havia dúvidas. O que ela e todos os zumbis tinhamem comum era a fome insaciável por carne humana. Esse ímpeto era tão forte e selvagem nela como em qualquer outro morto-vivo. Diante de uma vítima, Jezebel enlouquecia, num impulso incontrolável e irracional. Na fome constante, ela e os demais zumbis eram iguais. E sua consciência acrescentava-lhe outro aspecto: Jezebel transpirava ódio o tempo todo. Era uma fúria sem trégua, apenas esperando o melhor momento para se tornar ainda mais cruel. Se os seus poderes permitissem, erradicaria, em segundos, a humanidade da face da Terra. Tratava-se de um sentimento explosivo, inexplicável, marcado a fogo em seu coração morto. Tão grande quanto o ódio, era a inebriante sensação de poder ilimitado e que tornou-se, a cada dia, sua verdadeira obsessão. Sobretudo após um episódio: Enquanto caminhava com sua horda de zumbis, ainda pequena, na direção de Porto Alegre, Jezebel se deparou com um obstáculo intransponível. Um avião, que voava para a capital gaúcha no dia do apocalipse zumbi, caíra no meio da rodovia. Arrancara árvores, esmagara veículos e deixara um rastro de destruição por uma extensão de centenas de metros. Jezebel não podia acreditar. Ela precisava chegar até Porto Alegre e agora se via impossibilitada de seguir em frente. Seriam necessários tratores, caminhões e umas cem pessoas para desobstruir aquela pista para que ela passasse com sua tropa. E ela só dispunha de um exército de zumbis estúpidos. — Não, não, não… isso não é possível! — Jezebel falou para si mesma, furiosa. Ela já havia feito coisas impressionantes com seus poderes, mas nada que se comparasse com o desafio que seria atravessar aquela confusão. Ela parou diante daquele cenário de desolação composto por troncos de árvores, gigantescos pedaços de asfalto e centenas de toneladas de aço retorcido. Respirou fundo, olhou fixamente para aquela montanha de escombros e fez o impossível: — Deixe-me passar! AGORA! Uma onda de choque digna de uma explosão nuclear partiu de onde ela estava e foi desintegrando o que encontrava pelo caminho. Parecia que um aríete gigantesco e invisível se deslocava para a frente, pulverizando ou arremessando longe tudo aquilo que antes impedia o avanço da horda. Jezebel piscou os olhos diante da devastação que causara. Até o que sobrara do asfalto foi arrancado fora.

A passagem estava livre. Ela olhou para as próprias mãos e se deu conta do que fizera. Se até então tinha certeza de que seus poderes haviam se tornado fantásticos, agora, pensava que talvez fossem incalculáveis. Ao fazer essa constatação, Jezebel gargalhou de satisfação. Concluiu que não era realmente um simples zumbi. Jezebel passou a se considerar DEUS! De volta ao presente, ela olhou para a própria mão apoiada sobre a mureta e percebeu que sangrava. Cortara-se em uma farpa de aço enferrujado que saía do concreto corroído. Era outra característica dos zumbis: a total ausência de dor ou medo. Por causa disso, aquelas criaturas andavam em estado tão deplorável, destruindo os próprios corpos sem perceberem ou sequer se importarem. A sua mão tremia de leve e, para conseguir avaliar o ferimento, Jezebel precisou segurar o próprio pulso com firmeza. Sentia-se como uma pessoa doente. Igual aos demais de sua espécie, ela tremia e mancava; a falta de coordenação motora era o desafio diário com o qual não se acostumara. Tentou ignorar aquilo tudo e continuou olhando na direção da igreja Nossa Senhora dos Navegantes. Jezebel tinha certeza de que ali havia um acampamento de sobreviventes. Possivelmente, algumas dezenas de pessoas estariam escondidas, desesperadas, apelando pela proteção divina. Diante do que acontecera, Jezebel estava certa de que Deus e seus santos não existiam, ela era o verdadeiro poder. Não havia proteção divina, redenção ou milagres. A única realidade do mundo eram os zumbis; todo o resto não passava de lixo. — Que morram todos — Jezebel sussurrou. No mesmo momento, o chão começou a tremer. A poeira e a ferrugem sobre os carros começaram a vibrar e a pular como se ganhassem vida. Gritos e gemidos de zumbis se elevaram de todas as direções. Do silêncio absoluto emergiu uma sinfonia infernal de trombetas do Apocalipse. Ao olhar para trás, ela sorriu diante da gigantesca multidão de mortos-vivos que avançava trôpega pela rodovia e ganhava a avenida. Vinham infestando tudo, como uma nuvem de gafanhotos.

Como se a comporta de uma represa de morte e destruição fosse aberta. Eles entraram na avenida, passando pelo Clube de Regatas Vasco da Gama e avançando rápido na direção da praça Navegantes. Jezebel olhou novamente para a cruz no topo da igreja, e seu olhar ganhou uma expressão sádica, cruel. E, de repente, a cruz rachou em sua base, despencando como uma lança sobre o teto do imenso templo. E logo após, Jezebel já podia ver o resultado de sua obra: a queda não apenas acabou com a cobertura do abrigo, mas quebrou uma de suas paredes frontais, deixando aquela humilde fortaleza sem proteção. — Não tenho medo de você, Nazareno! Por mim, você seria pregado na cruz novamente — Jezebel sussurrou, com escárnio. Os primeiros berros de horror dos sobreviventes diante da visão dos zumbis começaram a se elevar entre os urros ensurdecedores. Setenta mil zumbis estavam ali, como um exército, todos obedientes à Jezebel. — Matem todos! — Jezebel gritou. — Cada homem, mulher, velho ou criança. Não quero ninguém vivo. Ao longe, tiros eram disparados em vão por indivíduos que desesperadamente tentavam se salvar. Mas era inútil, não havia uma forma de sobreviver àquela investida. — Quero todos mortos — Jezebel sussurrou uma última vez, fechando os olhos em êxtase. Quando o cheiro de sangue humano chegou até suas narinas, ela deixou todo o aparente controle de lado e começou a avançar com sua gigantesca horda de mortos-vivos. Porto Alegre seria a primeira capital brasileira a cair. Ela apenas começava a sua vingança, a cada avanço seu exército se multiplicava numa progressão incontrolável. A desvantagem dos zumbis, sua falta de organização, fora resolvida com sua liderança. O pequeno equilíbrio, que permitiu a sobrevivência dos humanos, fora derrubado. E daqueles sobreviventes, nenhum foi poupado. CAPÍTULO 1 O SOBREVIVENTE IVAN ESTAVA CAMINHANDO pelas ruas do Condomínio Colinas distraído quando percebeu que estavam completamente desertas. O céu nublado e o vento frio tornavam aquele cenário ainda mais desolador. Era estranho tamanha calmaria e silêncio. A comunidade parecia abandonada. Onde estariam todos? Percebeu também muita sujeira nas ruas, restos de lixo carregados pelo vento e folhas ressecadas caídas das árvores.

Parecia que o lugar não era limpo há muito tempo. Andando por aquelas ruas sem nenhum sinal de vida humana, Ivan começou a sentir aflição. Aquele silêncio total, a ausência de pessoas não era normal; havia algo errado. Instintivamente, ele levou a mão ao coldre — mas sua pistola não estava lá. Não fazia sentido, ele jamais saía desarmado. Fez o movimento de voltar para casa quando, enfim, avistou uma mulher parada no meio da rua, de costas para ele. Seu cabelo e suas roupas balançavam ao sabor do vento. Mesmo de costas, Ivan a reconheceu. Tratava-se da única sobrevivente da comunidade que o odiava de modo visceral pelas decisões que ele tomou e afetaram as pessoas que ela amava. Era Isabel. Ivan se aproximou com cautela, alerta, preparado para alguma eventualidade. Ele não sabia por quê, mas sentia o perigo. — Isabel, onde estão todos? — Ivan perguntou, olhando mais uma vez por sobre o ombro. Isabel, entretanto, não respondeu. Ela nem sequer se moveu. — Isabel? Tem algo errado? — Ivan franziu a testa. Nenhuma resposta. Ela não falava ou se virava. — Isabel…? Ela começou a se virar, sem a menor pressa. Ivan arregalou os olhos e engoliu em seco ao se dar conta de que Isabel tinha os olhos mortos, a marca dos zumbis. — Ivan, eu vou me vingar. Vou fazer você sofrer até que enlouqueça. Você irá pagar pelo que fez comigo! — a mulher vociferou, com ódio. E a voz dela soou estranha, distorcida. — Jezebel! — Ivan ficou perplexo ao perceber que estava diante da irmã gêmea de Isabel.

— Como chegou aqui? — Não importa como eu cheguei, mas sim o que vou fazer com você! — Jezebel gritou, furiosa, caminhando devagar na direção de Ivan. — Jezebel, se afaste, não me obrigue a machucá-la! — Ivan apontava o dedo para ela. No fundo, porém, sentia-se em desvantagem, pois estava completamente desarmado. — E como você pretende me machucar, Ivan? Com que arma? Com quais soldados? — Jezebel esboçou um sorriso cruel. — Como pretende fazer algo, se não sobrou mais ninguém? — falou indicando uma direção qualquer. Ivan olhou para ela bem no fundo daqueles olhos vazios, tentando entender o que Jezebel queria dizer. Foi quando seus olhos miraram algo impressionante, logo atrás de si. Ele viu uma montanha de cadáveres às suas costas. Uma pilha enorme de seres humanos, comalguns metros de altura. Centenas de pessoas ensanguentadas, dilaceradas, mutiladas. Talvez, mais de mil mortos. Agora, ele reparava que a cena se repetia em todas as direções. Os mortos se achavamamontoados de forma displicente, formando diversos monumentos ao sadismo e deleite dos urubus que sobrevoavam aquele lugar, enquanto algumas aves se encontravam pousadas sobre um ou outro defunto, bicando pedaços de carne. Ele foi tomado de enorme pavor. Começava a reconhecer rostos em meio a tantas lacerações… o pesadelo se tornava pior a cada minuto. — Meu Deus, isso não pode ser verdade… — Ivan balbuciou com os olhos arregalados. E seu desespero ia aumentando acompanhado pelos batimentos do seu coração. Foi quando percebeu o pior. Ao olhar sobre o cume daquela pilha macabra, identificou sua esposa e filhos. Estela e as crianças jaziam jogadas sobre os demais cadáveres, no topo, em posição de destaque. Estela, os olhos abertos, arregalados, demonstrava imenso terror. A boca estava aberta, como se o seu grito tivesse sido eternizado. Seu rosto e seu corpo, lavados em sangue. E a cena se repetia com as crianças. — NÃÃÃÃOOO!!! — Ivan gritou, levando as mãos à cabeça em desespero.

Naquele instante, Jezebel puxou-o pelo braço, obrigando-o a encará-la. — Você pode tentar fugir, Ivan, mas nunca vai conseguir se esconder de mim! — Jezebel falou a um palmo de distância dele, com um hálito quente, podre, oriundo de coisa morta. O cheiro, o pavor, a tensão daquele encontro foram tão fortes que Ivan fez um movimento brusco, como num salto para trás. E despertou. Ele pulou na cama ao acordar do pesadelo. * * * Ivan sentiu um profundo alívio; tudo não passara de um sonho. Respirou fundo. Estava tudo bem, havia sido apenas um pesadelo muito realista. Espreguiçou-se na cama, sentindo os ossos estalarem. Depois de aproveitar mais alguns minutos sob as cobertas, levantou e se dirigiu ao banheiro. Quando voltou, permaneceu alguns instantes observando sua esposa, Estela, dormindo. Ambos eram os líderes da comunidade de sobreviventes do Condomínio Colinas, em São José dos Campos. Eles criaram um grupo fortemente armado e muito bem organizado que já contava com quase três mil sobreviventes. Um batalhão de pessoas que se uniram para sobreviver ao horror que se apossara da Terra: a praga dos zumbis. No ano anterior, o misterioso planeta Absinto se aproximara da Terra, arrastando consigo as almas de boa parte da humanidade. As pessoas atingidas por aquele estranho fenômeno se transformaram em seres sem consciência ou piedade, verdadeiros assassinos canibais. Os poucos que sobraram viraram presas fáceis nas mãos daquelas criaturas, e a raça humana caminhava para a extinção. Nesse cenário, Ivan e Estela, de início tentando salvar sua própria família, acabaram por se transformar em líderes do mundo pós-apocalíptico na região Sudeste do Brasil e foram capazes de construir, mesmo sem planejar, uma frente de resistência para os sobreviventes. Eles reuniram as pessoas que cruzaram o seu caminho, organizaram uma operação suicida para obtenção de armas e traçaram um ousado plano para que o grupo invadisse um condomínio fechado que pudesse resistir às investidas dos mortos. E assim criaram um lugar para morar, com boas condições de segurança, possibilidades de cultivo e criação de pequenos animais. Desde então, lá viviam, cercados de zumbis por todos os lados, mas com certa segurança e de posse de armas pesadas para combater os inimigos. E o grupo só crescia. Enfrentaram diversos desafios naquele período, desde um psicopata oculto dentro da comunidade, que causou enormes estragos, até um bando de ex-presidiários de alta periculosidade que oprimiam alguns dos sobreviventes de Taubaté — e que precisaram ser enfrentados ao longo de mais de dois meses e ao custo de dezenas de vidas de ambos os lados. Agora, enfim, atravessavam uma fase mais tranquila. Sim, encontravam-se cercados por zumbis e num constante estado de alerta, mas ao menos ninguém morrera no último mês, tampouco ocorrera algum tipo de emergência.

Ivan observava Estela com zelo. Sua esposa era a criatura que ele mais amava no mundo, talvez, até mais que seus dois filhos biológicos, além de seus oito filhos adotivos. E agora ela estava grávida de seis meses. Uma gestação problemática, sobretudo em função dos desafios enfrentados nos meses anteriores, em Taubaté. Estela quase morrera e agora vivia numa rotina de descanso forçado, sob a supervisão constante de Ivan e dos amigos. — Você me assusta quando fica me olhando desse jeito… — Estela falou baixinho, esboçando um sorriso suave. — Bom dia, meu amor. Faz tempo que está acordada? — Ivan sorriu ao se aproximar da cama. — Só alguns instantes. Eu estava me perguntando o que se passa na sua cabeça quando fica aí parado me vendo dormir. — Estela se espreguiçou. — Eu estava pensando em como será a nossa filhinha. — Ivan se sentou na beira da cama. Conversando com Estela, ele praticamente esquecera o pesadelo. — Se for parecida comigo: ela será linda, inteligente, irresistível e destruirá corações — Estela brincou. — Tinha esquecido o quanto você é modesta! — Ivan deu risada. — E se ela for parecida comigo, como será? — Teimosa como uma mula, irritante, e precisará lutar todos os dias para não engordar — respondeu, maldosa. Ivan protestou: — Ei, calma aí! Isto aqui não é gordura, é cerveja! Eu merecia um pouco de descanso depois do que aconteceu em Taubaté! Mas nem se eu beber uma caixa inteira de cerveja por dia ficarei do seu tamanho. — Abrindo a risada, Ivan apontou para sua barriga pouco proeminente. — Viu como tenho razão? Você é irritante! — E Estela deu um tapa no braço do marido, que se desviou, sem parar de rir. Conversaram mais um pouco e Ivan acabou deitando de lado na cama, voltando a olhar para Estela com carinho. — Pronto, lá vem o olhar de novo… — ela comentou sorrindo, enquanto deitava de lado também, de frente para o marido, sempre tomando cuidado com a barriga imensa. — Eu só estava pensando em você, Estela. — E em quê, exatamente? — Ela exibiu o sorriso perfeito. Seus olhos castanhos pareciam brilhar na penumbra, e os cabelos negros longuíssimos se espalhavam sobre o ombro e o tronco.

— No quanto eu amo você e no medo que senti quando achei que morreria —respondeu comsinceridade. — Isso são águas passadas, meu amor, não pense mais nisso, não — Estela respondeu, serena. — O pior já passou, está tudo tranquilo agora. — Eu sei disso, você tem razão. Apesar do inferno que enfrentamos, agora está tudo muito calmo — Ivan respondeu. — Só tem uma coisa que continua me incomodando. — Jezebel. — Exatamente. Será que eu fiz a coisa certa? — Ivan apoiou o cotovelo na cama e deitou o rosto sobre a mão esquerda. — Meu amor, você já sabe a minha opinião. Por que insiste em fazer as mesmas perguntas? — Estela franziu a testa. — Talvez eu precise ouvir as mesmas respostas para conseguir me livrar deste peso. — Ivan forçou um sorriso. — Você tomou uma decisão e, como tal, precisou abrir mão de algo. Toda escolha é, no fundo, uma renúncia. — Ela balançou a cabeça. — Eu abandonei Jezebel para morrer em Canela. Isso não foi uma mera escolha, mas um tipo de assassinato — Ivan ponderou. — Eu sei, mas você fez o que achava certo; não se culpe tanto. — A esposa pôs a mão no ombro dele. — Você quer fazer com que eu me sinta melhor, mas eu sei que você teria feito diferente se pudesse — Ivan argumentou. — Eu realmente não sei mais. Provavelmente, teria tentado salvá-la, mas nunca saberemos se essa teria sido a melhor solução. — Naqueles dias, nós sofremos várias derrotas; tentando salvar dezenas de pessoas perdemos outras tantas. Visto por esse prisma, seria injusto colocar uma dezena de vidas numa operação dessas com grandes chances de dar errado e uma perda incrível de recursos limitados.

Porém, eu ainda lembro das palavras dela quando conversamos pela última vez; elas ecoam na minha mente todos os dias. — Ivan soltou um suspiro. — E venho tendo pesadelos quase todas as noites. — Meu amor, esqueça isso. Ela estava ferida e, provavelmente, delirando. — Ela disse que havia se transformado em um zumbi e que a culpa era minha. Como vou esquecer disso? — Ivan perguntou. — Eu já perguntei isso antes, mas vou repetir: tem certeza de que ela não falou que estava infectada e estava se transformando em um zumbi? — Estela encarou Ivan. — Não, eu tenho certeza: ela afirmou que já havia se transformado em um zumbi. Disse que a culpa era minha e que agora sua meta era a vingança. — Ivan esfregou os olhos com a mão. — E duas coisas me pareceram perturbadoras: a voz dela metálica, distorcida. Parecia algo gerado numcomputador. — Talvez fosse algum tipo de interferência no rádio — Estela ponderou. — E qual a segunda coisa? — indagou, curiosa, mas acreditando que se arrependeria. — Jezebel jurou que mataria você e nossos filhos. E eu assistiria a tudo. — Ivan olhou muito sério para Estela. Estela engoliu em seco quando ouviu aquilo, até então Ivan havia omitido aquela parte da conversa. Era algo que ele ouviu e nunca revelou a ninguém. — Bem, acho que temos que refletir quanto a isso. Jezebel estava desesperada e morrendo, não era uma situação racional. Deve ter falado o que pôde para tentar convencer você a buscá-la. — Estela se sentia incomodada com aquela conversa. — Ela disse que arrancaria seu coração e o devoraria diante dos meus olhos.

E não parecia que estava morrendo — Ivan afirmou, sombrio. Imediatamente, lembrou-se do sonho que tivera poucos momentos antes. — Meu amor, sejamos racionais. Das duas, uma: ou Jezebel estava mesmo infectada e com certeza se transformou num zumbi; ou ela mentiu e quis perturbar você por tê-la abandonado à própria sorte. De todo modo, não existem zumbis falantes que juram vingança. Não vê que parece uma conversa tão irreal? — Estela tentava convencer Ivan. — Eu sei disso, mas ouvir aquilo mexeu muito comigo. De qualquer forma, ela nunca mais entrou em contato e estava a mais de mil quilômetros de distância. Se Jezebel não morreu, simplesmente, desistiu de nos procurar. — Ivan se esforçava para se conformar. Estela se aproximou do marido e se aconchegou a ele, apoiando a cabeça em seu peito largo. Ivan beijou-lhe a cabeça com ternura, fechando os olhos enquanto sentia o cheiro dos cabelos dela. — Sinto muito, querido, mas você precisa tentar esquecer o que houve. Precisamos seguir emfrente; milhares de pessoas dependem de nós, agora — Estela sussurrou. — Você tem razão. Vou colocar uma pedra sobre esse assunto. — E Ivan decidiu não pensar mais naquilo. * * * O casal tomava o café da manhã com parte do seu pelotão de filhos. Eram dez crianças ao todo, umimenso desafio para qualquer casal, agora acentuado com a gravidez de risco de Estela. Como fazia todos os dias, Ivan administrou as medicações de Estela e mediu sua pressão arterial. — Dezoito por doze. Pressão alta como sempre, meu amor — Ivan comentou soltando um suspiro, a saúde da esposa era motivo de constante preocupação. — O que a sua médica falou na última consulta? — Ela disse para continuar mantendo repouso absoluto — Estela respondeu, olhando preocupada para o aparelho de pressão. — Então, trate de ficar quieta e não se envolver nos problemas do condomínio, está bem? Só mais alguns meses e as coisas se normalizam. Estela assentiu, conformada.

Naquele momento, precisava ter paciência. E Ivan tentava manter o equilíbrio, mas estava ficando louco com tantas coisas para resolver emtão pouco tempo. Quando conseguiu se sentar para comer, ambos ouviram disparos distantes. Três tiros bastante distintos de uma arma de grosso calibre. Os dois se entreolharam. Depois de tanto tempo manuseando armas, sabiam distinguir os sons dos diferentes modelos. E aquele era bastante específico. Ivan suspirou e foi até o quarto, deixando Estela a sós por um instante. Quando voltou, segurava um rádio. — Aposto que sei quem disparou… — Estela comentou, sorvendo uma xícara de café. — Eu também, só preciso confirmar — Ivan falou, sério. Logo em seguida, ligou o rádio. — Soldado Silva? — Eu estava aguardando a sua ligação — o soldado respondeu, sem perder tempo. — Não me diga que o nosso amigo estava praticando tiro ao alvo com os zumbis novamente — Ivan tinha certeza da resposta. — Isso mesmo. Ele estava brincando de explodir cabeças de novo — a entonação do soldado demonstrava sua impaciência. — Mande-o se apresentar imediatamente na minha sala no prédio da administração, estou indo para lá. E tome o rifle dele; se ele protestar, diga que foi ordem minha. — Ivan franziu a testa, irritado. — E se ele se recusar? — Silva quis saber, cismado. — Prenda-o — Respondeu, seco. Ivan desligou o rádio e foi para o quarto acabar de se arrumar. Estela continuou tomando café, em silêncio. Infelizmente, ela não podia nem pensar na possibilidade de acompanhar o marido; apesar do tédio, vivia constantemente cansada, dolorida. Tinha de repousar.

Quando Ivan estava pronto para sair, ela o interpelou: — Fábio Zonatto está causando problemas de novo? — Sim, ele desobedeceu de novo minhas ordens e estava abatendo zumbis com o rifle por pura diversão. — Ivan fechou ainda mais o semblante. — O que você pretende fazer? — Estela ficou preocupada, pois, conhecendo o temperamento de Zonatto, tinha medo de que ele criasse novos problemas. E se isso acontecesse, Ivan partiria para a ignorância. O marido estava tenso e seu pavio ficava ainda mais curto: nesses momentos, Estela sabia que ele se transformava no homem mais cascagrossa que já conhecera na vida. — Eu vou ter uma conversa definitiva com Zonatto. Estou me lixando para a pontaria prodigiosa dele, não vou mais admitir essa indisciplina — Ivan afirmou, irritado. — Pega leve, lembre-se do que aconteceu com ele. Além disso, Zonatto é um excelente francoatirador, nós precisamos do cara. — Estela tentava acalmar o marido. — Todos aqui passaram por dificuldades, isso não é justificativa. E ele não é melhor que você. — Ivan se curvou e deu um beijo suave nos lábios dela. — Pode ser, mas fique calmo. — Estela afagou o rosto do marido. — Deixa comigo, eu serei gentil e paciente com ele. — Sim, eu sei disso, a paciência é a sua maior virtude — Estela respondeu, sorrindo. Ivan deu um passo para trás e dirigiu uma piscadinha irônica para Estela, saindo logo em seguida. — Vou acabar com a raça desse filho da puta! — Ivan disse para si mesmo, furioso, logo depois de sair. — Eu acho que Zonatto está fodido… — Estela murmurou, tomando mais um gole de café. A HISTÓRIA DO FRANCO ATIRADOR NO DIA 14 DE JULHO DE 2018, pouco mais de um ano atrás, Fábio Zonatto voltava para casa com a filha, Joana, em um ônibus da rede de transporte público de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. Ele era um homem de poucas palavras, concentrado, metódico. Uma das coisas que mais o incomodava era quando um acordo entre duas pessoas acabava desfeito por um dos lados semconversa prévia. Fábio seguia no transporte público de cara fechada, queria chegar logo em casa. Naquele dia, mais do que nunca, ele não pretendia estar na rua; seu plano era ficar trancado em casa, mas fora forçado devido a um erro da esposa.

— Papai, por que você está zangado? — Joana, sua filha de apenas cinco anos, perguntou. Ela era uma criança magérrima, muito branca, de cabelos loiros e olhos castanhos. — Por nada, minha filha, está tudo bem — Fábio mentiu, olhando pela centésima vez pela janela do ônibus, conferindo o lugar por onde passavam e o trânsito à sua frente, como se isso pudesse apressar a chegada ao lar. — Por que foi me buscar na casa da vovó? Eu gosto tanto de dormir lá! — A filha indagou, inocente. — Porque este é o dia em que o planeta vermelho está mais próximo da Terra. A gente não sabe o que pode acontecer, por isso, quero você segura em casa, ao meu lado. — Fábio aliviou um pouco o semblante. Joana era a única pessoa do mundo capaz de diminuir a constante irritação dele. — E você brigou com a mamãe por minha causa? — A menina expressou sua preocupação. — Não brigamos, não, filha, apenas conversamos. É que eu não queria que ela tivesse deixado a vovó levar você para a casa dela. Quero a nossa família reunida sob o mesmo teto, está bem? — Fábio sorriu. — Promete que não vai brigar com a mamãe? — Joana pediu. — Eu prometo! — Fábio ergueu a mão direita, solene. Mesmo sabendo que aquilo era mentira. Na prática, ele e a esposa, Laura, já haviam brigado muito. Fábio a considerava relapsa como mãe. Para ele, ela era muito irresponsável. Era sábado, Fábio estava dormindo quando sua sogra levou Joana para passar o fim de semana com ela, contra o acordo de que naquele dia ninguém sairia. Fábio tentava disfarçar, mas continuava apreensivo. Tinha uma espécie de fobia que o fazia se sentir seguro apenas dentro de casa, e naquele dia, seu nível de estresse estava altíssimo. — Papai, por que você fica tão aflito quando saímos de casa? — Joana reparara na tensão dele. — Não é verdade, amor. Isso só acontece às vezes. — Fábio sorriu da carinha de desaprovação da filha.

— É feio contar mentiras! Foi você quem me ensinou isso. — O papai só não gosta muito de se arriscar, Joana, é só isso. — Fábio sentia o suor brotar da sua testa. De repente, deu-se conta de que estava muito quente. — Aqui no ônibus não tem perigo, papai, fica tranquilo. Eu e a mamãe vamos de ônibus para a escola todos os dias e nunca aconteceu nada. — Joana acariciou o braço de Fábio com delicadeza, sorrindo para o pai. Fábio tornou a sorrir. Como sua filha era especial… Fábio se sentia o homem mais sortudo do mundo. Joana era generosa, comunicativa e muito inteligente, um verdadeiro tesouro. Apesar de se sentir melhor com as palavras da filha, Fábio instintivamente levou a mão à cintura, sentindo o aço da arma que carregava sob o casaco. Era uma pistola calibre .380 PT938 da Taurus. Tratava-se de uma de suas armas favoritas, tinha capacidade para quinze balas no pente e mais uma na agulha. Joana começou a se remexer desconfortavelmente no banco do ônibus por causa do calor e decidiu tirar a jaqueta vermelha que vestia. Aquele início de tarde de inverno estava quentíssimo, nem parecia o mês de julho. — Papai, por que você não tira o casaco? Está muito quente! — Joana sugeriu ao observar o pai transpirando tanto. — Não precisa não, filha, o papai está bem, fica tranquila. — Fábio fechou o casaco ainda mais. Passaram-se mais alguns instantes enquanto avançavam pela avenida Sete de Setembro, indo na direção do bairro em que moravam. Fábio não aguentava mais, estava muito quente e ele não podia nem sonhar em tirar o casaco. Corria o risco de causar um tumulto ou ser preso. O calor aumentava cada vez mais e ele começava a passar mal. Sua pressão caía a ponto de ele começar a desfalecer… e só conseguia pensar em chegar em casa e tomar um banho gelado. De repente, o ônibus oscilou bruscamente para a direita, como se o motorista desviasse de algo, o que fez com que várias pessoas se desequilibrassem dentro do veículo.

Diversos passageiros reclamaram e um deles chegou a gritar para o motorista tomar mais cuidado. Mas uma senhora idosa que estava em um dos primeiros assentos do ônibus começou a gritar algo que só podia ser uma piada ou um pesadelo, não havia outra explicação. — Socorro, ele desmaiou! — a mulher gritava apavorada, no mesmo instante em que o ônibus começava a virar para a direita outra vez, invadindo a última faixa antes de chegar à calçada. — Quem desmaiou? — o cobrador perguntou em voz alta, estranhando as bruscas mudanças de direção do veículo. — O motorista! O ônibus está desgovernado! — A senhora se agarrou firme numa das barras de apoio, preparando-se para o inevitável acidente. Na hora, várias pessoas começaram a gritar dentro do veículo. — Alguém faça alguma coisa! — um homem exigiu. — Nós vamos morrer! — uma adolescente berrou, agarrando-se numa das barras de apoio verticais.

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