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A Senhora dos Rios (A Senhora das Aguas) – Philippa Gregory

Ela está sentada, um estranho troféu de guerra, tão composta como uma criança obediente, numpequeno banco, ao canto da sua cela. Aos seus pés, os restos do jantar, numa bandeja de peltre, pousada em cima da palha. Reparo que o meu tio lhe enviou fatias boas de carne, e até o pão branco da sua mesa; mas ela comeu muito pouco. Apercebo-me de que a olho fixamente, desde as suas botas de montar de rapaz até ao boné de homem que tem enfiado por cima do cabelo castanho cortado curto, como se fosse um qualquer animal exótico capturado para nosso divertimento, como se alguémtivesse enviado uma cria de leão da Etiópia para entreter a grande família do Luxemburgo, para nós guardarmos na nossa coleção. Uma dama atrás de mim benze-se e murmura: — É uma bruxa? Não sei. Como é que se sabe? — Isto é ridículo—diz abertamente a minha tia-avó.—Quem ordenou que esta pobre rapariga fosse acorrentada? Abri imediatamente a porta. Há um murmúrio confuso de homens que tentam passar a responsabilidade de uns para os outros, e depois alguém roda a chave grande da porta da cela e a minha tia-avó entra com passos imponentes. A rapariga—deve ter cerca de dezassete ou dezoito anos, poucos anos mais velha do que eu—levanta os olhos sob a sua franja irregular de cabelo quando a minha tia-avó se coloca diante dela, e depois põe-se lentamente de pé, tira o chapéu e faz uma pequena vénia desajeitada. — Sou Lady Jehanne, a Demoiselle do Luxemburgo—diz a minha tia-avó.—Este é o castelo do Lorde João do Luxemburgo—aponta para a minha tia.—Esta é a mulher dele, a dama do castelo, Jehanne de Bethune, e esta é a minha sobrinha-neta, Jacquetta. A rapariga olha firmemente para todas nós e dirige um aceno de cabeça a cada uma. Quando olha para mim, sinto que algo me prende a atenção, tão palpável como o raspar com a ponta dos dedos na minha nuca, um sussurro de magia. Pergunto-me se por trás dela estarão, de facto, dois anjos, como ela alega, e se será a presença deles que sinto. — Conseguis falar, donzela?—pergunta a minha tia-avó, quando a rapariga não responde. — Oh, sim, minha senhora—responde a rapariga com o seu sotaque carregado da região de Champanhe. Verifico ser verdade o que afirmam a respeito dela: não passa de uma camponesa, embora tenha liderado um exército e coroado um rei. — Dais-me a vossa palavra de que não tentareis fugir, se eu der ordens para que retirem as correntes das vossas pernas? Ela hesita, como se estivesse em posição de escolher. — Não, não posso. A minha tia-avó sorri. — Sabes o que é liberdade condicional? Posso libertar-vos para viverdes connosco aqui, no castelo do meu sobrinho; mas tendes de prometer que não ireis fugir. A rapariga vira a cabeça, franzindo a testa. É quase como se estivesse a ouvir conselhos, depois abana a cabeça. — Eu sei o que é liberdade condicional.


É como quando um cavaleiro faz uma promessa a outro. Têm regras, como se estivessem a combater em justas. Eu não sou assim. As minhas palavras são verdadeiras, não são como o poema de um trovador. E isto não é um jogo para mim. — Donzela: a liberdade condicional não é um jogo!—interrompe-a a minha tia Jehanne. A rapariga olha para ela. — Oh, mas é, minha senhora. Os nobres não são sérios em relação a estas questões. Não são sérios como eu. Jogam à guerra e inventam regras. Saem a cavalo e destroem as quintas de pessoas boas e riem-se enquanto os telhados de colmo ardem. Além disso, eu não posso fazer promessas. Eu já estou prometida. — Àquele que se autodenomina erradamente Rei da França? — Ao Rei do Céu. A minha tia-avó detém-se para uma reflexão momentânea. — Vou dizer-lhes que vos retirem as correntes e vos vigiem, para não fugirdes; e depois podeis vir fazer-nos companhia nos meus aposentos. Creio que o que haveis feito pelo vosso país e pelo vosso príncipe foi grandioso, Joana, apesar de ter sido um erro. E recuso-me a ver-vos aqui, debaixo do meu teto, como uma cativa acorrentada. — Ireis dizer ao vosso sobrinho que me liberte? A minha tia-avó hesita. — Não lhe posso dar ordens; mas farei tudo o que puder para vos enviar de volta para vossa casa. De qualquer modo, não permitirei que ele vos liberte para os Ingleses. Ao ouvir aquela palavra, a rapariga estremece e benze-se, batendo na cabeça e no peito de uma forma bastante ridícula, como um camponês poderia benzer-se ao ouvir a menção ao Diabo. Tenho de reprimir uma gargalhada. Isto faz voltar o olhar sinistro da rapariga para mim.

— Eles são apenas homens mortais—explico-lhe.—Os Ingleses não têm quaisquer poderes para além dos dos mortais. Não tendes de os temer tanto. Não necessitais de vos benzer só de ouvir o nome deles. — Não os temo. Não sou assim tão louca a ponto de recear que eles disponham de poderes. Não é isso. É o facto de eles saberem que eu tenho poderes. É o que faz deles um perigo tão grande. Eles estão loucos de medo de mim. Receiam-me tanto que me destruirão no momento em que eu cair nas mãos deles. Eu sou o terror deles. Sou o medo deles que deambula durante a noite. — Enquanto eu for viva, não ficarão convosco—assegura-lhe a minha tia-avó; e de imediato, inequivocamente, Joana olha-me nos olhos, um olhar duro e sombrio como se para confirmar se eu também ouvi aquelas palavras, naquela afirmação sincera, o som de uma promessa absolutamente vazia. A minha tia-avó está convencida de que, se conseguir trazer Joana para a nossa companhia, falar com ela, arrefecer o seu fervor religioso, talvez educá-la, com o tempo, a rapariga será levada a vestir as roupas de uma mulher nova e a jovem rebelde que foi atirada abaixo do cavalo branco, emCompiègne, será transformada, como uma Missa revertida, de vinho forte em água, e irá tornar-se numa mulher jovem que pode ser colocada no meio das damas de companhia, que responderão a uma ordem e não ao repicar dos sinos da igreja, e então irá, talvez, ser esquecida pelos Ingleses, que estão a exigir que lhes entreguemos a bruxa assassina e hermafrodita. Se não tivermos nada para lhes oferecer senão uma dama de companhia obediente e com remorsos, talvez fiquem satisfeitos e sigamo seu violento percurso. A própria Joana está exausta por causa das derrotas recentes e por causa da sensação incómoda de que o rei que coroou não é digno do óleo sagrado, de que o inimigo que repeliu voltou para a perseguir, e de que a missão que lhe foi confiada pessoalmente por Deus está a afastar-se dela. Tudo o que fez dela a Donzela perante o exército de soldados que a adorava se tornou incerto. Perante a gentileza inabalável da minha tia-avó, está a transformar-se novamente numa desajeitada rapariga do campo: nada de especial. É evidente que todas as damas de companhia da minha tia-avó querem conhecer a aventura que está a terminar nesta queda lenta na derrota, e, enquanto Joana passa os seus dias connosco, a aprender a ser uma rapariga, e não a Donzela, reúnem coragem suficiente para lhe perguntar. — Como haveis sido tão corajosa?—pergunta uma.—Como aprendestes a ser tão corajosa? Embatalha, quero dizer. Joana sorri ao ouvir a pergunta. Somos quatro, sentadas num relvado ao lado do fosso do castelo, tão ociosas como crianças. O sol de julho escalda e os pastos em redor do castelo cintilamcom a bruma provocada pelo calor; até as abelhas têm preguiça, zumbindo e depois emudecendo, como se se tivessem embriagado de flores.

Optámos por nos sentar à sombra profunda da torre mais alta; atrás de nós, na água espelhada do fosso, conseguimos ouvir o borbulhar ocasional de uma carpa que vem à superfície. Joana está estatelada como um rapaz, com uma mão a chapinhar na água, o boné sobre os olhos. No cesto, ao meu lado, estão camisas meio costuradas que deveremos embainhar para as crianças pobres de Cambrai, que fica perto. Mas as damas de companhia evitam qualquer tipo de trabalho, Joana não sabe, e eu tenho o precioso baralho de cartas da minha tia-avó nas mãos e baralho-o, parto-o, e observo indolentemente as imagens. — Eu sabia que tinha recebido um chamamento de Deus—respondeu simplesmente Joana.—E que Ele me protegeria, por isso não sentia receio. Nem sequer na pior das batalhas. Ele avisou-me de que eu iria ficar ferida, mas que não sentiria qualquer dor, e assim eu sabia que podia continuar a lutar. Avisei mesmo os meus homens de que iria ser ferida nesse dia. Sabia-o, antes de termos partido para a batalha. Sabia simplesmente. — Ouvis mesmo vozes?—pergunto. — Vós ouvis? A pergunta é tão chocante que as raparigas voltam-se subitamente para olhar para mim e, sob o seu olhar conjunto, sinto que estou a corar como se tivesse feito algo vergonhoso. — Não! Não! — E então? — O que quereis dizer? — O que ouvis?—pergunta ela, muito, sensatamente como se toda a gente ouvisse alguma coisa. — Bem, não é bem vozes o que ouço. — Então, o que ouvis? Olho para trás de mim, como se os próprios peixes pudessem estar a tentar ouvir a nossa conversa. — Quando alguém da minha família vai morrer, ouço um ruído—digo.—Um ruído especial. — Que tipo de ruído?—pergunta a rapariga, Isabel.—Não tinha conhecimento disso. Será que eu conseguia ouvir? — Vós não sois da minha casa real—digo eu irritada.—É claro que não conseguiríeis ouvir. Teríeis de ser descendente de… e, de qualquer modo, nunca deveis falar deste assunto. Na verdade, não deveríeis estar a ouvir. Eu não vos deveria estar a contar.

— Que tipo de ruído?—repete Joana. — Como um cântico—digo, e vejo-a assentir, como se também ela tivesse ouvido o cântico. — Dizem que é a voz de Melusina, a primeira dama da Casa do Luxemburgo—murmuro.—Dizem que ela era uma deusa da água que saiu do rio para se casar com o primeiro duque, mas não conseguiu ser uma mulher mortal. Volta para chorar pela perda dos filhos. — E quando a haveis ouvido? — Na noite em que a minha irmã bebé morreu. Ouvi algo. E soube logo que era Melusina. — Mas como sabíeis que se tratava dela?—murmura a outra dama de companhia, receando ser excluída da conversa. Encolho os ombros, e Joana sorri, reconhecendo as verdades que não podem ser explicadas. — Sabia, simplesmente—digo.—Era como se reconhecesse a voz dela. Como se sempre a tivesse conhecido. — Isso é verdade. Sabe-se simplesmente—Joana concorda com a cabeça.—Mas como sabeis que é Deus e não o Diabo? Hesito. Todas as questões espirituais deveriam ser levadas ao meu confessor ou, no mínimo, à minha mãe ou à minha tia-avó. Mas o cântico de Melusina e o arrepio na minha espinha, as minhas visões ocasionais do oculto—algo meio perdido, algo que desaparece ao virar da esquina, um cinza mais claro num crepúsculo cinzento, um sonho demasiado nítido para ser esquecido, um vislumbre de uma previsão, mas nunca nada que eu possa descrever—essas coisas são demasiado vagas para serem proferidas. Como posso fazer perguntas sobre elas quando nem sequer consigo traduzi-las por palavras? Como posso suportar que alguém lhes atribua uma designação grosseira ou, o que é ainda pior, tente explicá-las? Mais valia tentar segurar a água esverdeada do fosso nas minhas mãos em concha. — Nunca perguntei—digo.—Porque não é nada de especial. É como quando se entra numa divisão e está tudo em silêncio… mas nós sabemos, conseguimos adivinhar, que está lá alguém. Não conseguimos ouvir nem ver, mas sabemos simplesmente. É pouco mais do que isso. Nunca penso nisso como uma dádiva de Deus nem do Diabo.

Não é nada de extraordinário. — As minhas vozes vêm de Deus—diz Joana com certeza.- Sei-o. Se não fosse verdade, estaria completamente perdida. — Então, conseguis adivinhar o futuro?—pergunta-me Isabel infantilmente. Os meus dedos cerram-se em volta das cartas. — Não—digo.—E estas cartas não são para adivinhar o futuro, são apenas cartas de jogar. Eu não adivinho o futuro. A minha tia-avó não mo permitiria, mesmo que conseguisse fazê-lo. — Oh, lede o meu! — Estas cartas são só para jogar—insisto.—Não sou adivinha. — Oh, deitai uma carta para mim e dizei-me—diz Isabel.—E para Joana. O que lhe vai acontecer? De certeza que quereis saber o que vai acontecer a Joana. — Não significam nada—digo para Joana.—E eu só as trouxe para podermos jogar às cartas. — São bonitas—diz ela.—Ensinaram-me a jogar, na corte, com cartas iguais a essas. São tão brilhantes! Entrego-lhas. — Tende cuidado com elas, são muito preciosas—digo com inveja enquanto ela as abre nas suas mãos cobertas de calos.—A Demoiselle mostrou-mas quando eu era pequena e disseme os nomes das imagens. Empresta-mas porque eu adoro jogar. Mas eu prometi-lhe que tomaria conta delas. Joana devolve-me o baralho de cartas e, embora ela seja cuidadosa e as minhas mãos estejamprontas para as receber, uma das cartas mais espessas cai entre nós com o rosto voltado para baixo, na relva.

— Oh! Perdão—exclama Joana, e apanha-a muito depressa. Consigo sentir um murmúrio, como um bafo frio, pela minha coluna abaixo. O campo diante de mim e as vacas a abanar o rabo à sombra de uma árvore parecem distantes, como se nós as duas estivéssemos encerradas dentro de um vidro, como borboletas numa taça, noutro mundo. — Agora, mais vale que olheis para ela—ouço-me dizer-lhe. Joana olha para a imagem pintada com tinta brilhante, os seus olhos abrem-se ligeiramente, e depois mostra-ma. — O que é que isto significa? É uma pintura de um homem vestido com uma libré azul, dependurado por um pé, com a outra perna descontraidamente dobrada, o seu dedo grande do pé a apontar e pousado na perna esticada como se estivesse a dançar, invertido no ar. Tem as mãos entrelaçadas atrás das costas, como se estivesse a fazer uma vénia; ambas vemos o pender alegre do seu cabelo azul enquanto ele está dependurado, de pernas para o ar, a sorrir. — Le Pendu (1)—lê Isabel.—Que horrível! O que significa? Oh, com certeza não significa que…—interrompe-se. Nota 1: Em francês no original: O Enforcado. (N. da R.) — Não significa que ireis ser enforcada—digo muito depressa a Joana.—Por isso, não penseis assim. É apenas uma carta de jogar, não pode significar nada desse género. — Mas o que significa?—pergunta a outra rapariga, embora Joana mantenha o silêncio, como se a carta não fosse sua, como se não fosse o destino dela que recuso ler. — A forca dele é composta por duas árvores a crescer—digo. Estou a tentar ganhar tempo sob os olhos castanhos graves de Joana. Isto significa a primavera, a renovação e a vida, não a morte. E aparecem duas árvores; o homem está equilibrado entre as duas. Ele é o próprio centro da ressurreição. Joana assente. — Estão vergadas na direção dele, ele está feliz. E vede: não está dependurado pelo pescoço, de forma a ser morto, está amarrado por um pé—digo.—Se ele quisesse, poderia esticar-se e desamarrar-se.

Poderia libertar-se, se assim o desejasse. — Mas não se liberta—comenta a rapariga.—É como um acrobata. O que é que isso quer dizer? — Quer dizer que está ali voluntariamente, que espera de livre vontade, permitindo-se ser dependurado pelo pé, ficando pendurado no ar. — Para ser um sacrifício vivo?—pergunta Joana devagar, usando as palavras da missa. — Ele não está crucificado—saliento depressa. É como se cada palavra que eu disser nos conduzisse a outra forma de vida.—Isto não quer dizer nada. — Não—diz ela.—São apenas cartas de jogar, e estamos só a jogar com elas. O Enforcado é uma carta bonita. Ele tem um ar feliz. Parece contente por estar dependurado de pernas para o ar, na primavera. Quereis que vos ensine um jogo com fichas a que jogamos em Champanhe? — Sim—respondo. Estendo a minha mão para receber a carta dela e ela observa-a por uminstante antes de ma devolver. — Sinceramente, não quer dizer nada—repito-lhe. Ela sorri-me, com o seu sorriso sincero e aberto. — Sei muito bem o que significa—diz. — Vamos jogar?—começo a baralhar as cartas e uma volta-se na minha mão. — Esta é uma boa carta—observa Joana.—La Roue de Fortune (2). Nota 2: Em francês no original: A Roda da Fortuna. (N. da T.) Estendo-a para lha mostrar.

— É a Roda da Fortuna que vos pode lançar bem alto, ou fazer-vos cair muito baixo. A mensagem implícita é que sejais indiferente à vitória e à derrota, visto que ambas surgem com o girar da roda. — No meu país, os camponeses desenham um símbolo para a roda da fortuna—comenta Joana. —Desenham um círculo no ar com o indicador, quando algo muito bom ou muito mau acontece. Quando alguém herda dinheiro, ou perde uma vaca valiosa, fazem-no—estende o dedo no ar e desenha um círculo.—E dize algumas palavras. — Um feitiço? — Não é propriamente um feitiço—ela sorri maliciosamente. — Então, o que é? Ela ri-se. — Dizem «merde” (3). Fico tão chocada que me inclino para trás, às gargalhadas. — O quê? O quê?—pergunta a dama de companhia mais jovem. — Nada, nada—respondo. Joana ainda está a rir-se.—Os compatriotas de Joana dizemacertadamente que tudo se transforma em pó e que tudo o que o homem pode fazer em relação a isso é aprender a ser indiferente. O futuro de Joana está em suspenso; ela oscila como o Enforcado. Toda a minha família, o meu pai, Pedro, o Conde de St. Pol, o meu tio, Luís do Luxemburgo, e o meu tio preferido, João do Luxemburgo, está aliada aos Ingleses. O meu pai escreve da nossa casa, o Castelo de St. Pol, ao irmão João, e ordena-lhe, como chefe da nossa família, que entregue Joana aos Ingleses. Mas a minha tia-avó, a Demoiselle, insiste que a mantenhamos em segurança; e o meu tio João hesita. O inglês exige a sua prisioneira e, uma vez que os Ingleses dominam quase toda a França e o seu aliado, o Duque da Borgonha, domina a maior parte do resto, o que eles dizem, normalmente acontece. Os soldados de ambos ajoelharam-se no campo de batalha para agradecer, e choraram de alegria, quando a Donzela foi capturada. Não havia qualquer dúvida nas mentes deles de que, semela, o exército francês, o seu inimigo, se desmoronaria, voltando a ser a populaça que era antes de ela se juntar a eles. Nota 3: Em francês no original: merda. (N.

da T.) O Duque de Bedford, o regente inglês que governa as terras inglesas na França, quase todo o Norte do país, envia diariamente cartas ao meu tio, apelando à sua lealdade para com o governo inglês, à longa amizade de ambos e prometendo-lhe dinheiro. Gosto de observar os mensageiros ingleses que surgem vestidos com a excelente libré do duque real, montados em belos cavalos. Todos afirmam que o duque é um homem extraordinário e muito estimado, o homem mais importante da França, um homem a quem é complicado contrariar; mas até ao momento, o meu tio tem obedecido à sua tia, a Demoiselle, e não entrega a nossa prisioneira. O meu tio espera que a corte francesa faça uma oferta por ela—afinal devem-lhe a sua própria sobrevivência—mas eles permanecem invulgarmente silenciosos, mesmo depois de ele lhes escrever e de lhes dizer que tem a Donzela em sua posse, que ela está pronta a regressar à corte do seu rei e a prestar de novo serviço no seu exército. Com ela a liderá-los, eles poderiam lutar contra os Ingleses e vencer. Seguramente, enviar-nos-ão uma fortuna para a recuperarem. — Eles não a querem—aconselha-o a minha tia-avó. Estão sentados à sua mesa de jantar privada; o grande jantar, para todos os habitantes da casa, teve lugar no salão e os dois sentaram-se diante dos homens do meu tio, provaram os pratos e ordenaram que fossem servidos pela sala, como um presente para os seus favoritos especiais. Agora, estão confortáveis, sentados a uma pequena mesa, em frente da lareira, nos aposentos privados da minha tia-avó, com os seus criados pessoais a servi-los. Eu devo permanecer de pé, enquanto o jantar é servido, com outra dama de companhia. É minha função observar os criados, pedir-lhes que se aproximem, conforme necessário, entrelaçar as mãos diante de mim, e não ouvir nada. É óbvio que estou sempre a ouvir. — Joana fez do rapaz, o Príncipe Carlos, um homem, ele não era nada até ela chegar junto dele com a sua visão, depois transformou esse homem num rei. Ensinou-lhe a reivindicar a sua herança. Organizou um exército com os civis que o acompanhavam e levou-o à vitória. Se eles tivessemseguido o conselho dela, como ela seguiu as vozes, teriam expulsado os Ingleses destas terras, e têlos-iam feito voltar para as suas ilhas cobertas de nevoeiro e nós estaríamos livres deles para sempre. O meu tio sorri. — Oh, milady, minha tia! Isto é uma guerra que se prolonga há quase um século. Credes verdadeiramente que terminará, porque uma qualquer rapariga, vinda sabe-se lá de onde, ouve vozes? Ela nunca poderia expulsar os Ingleses. Eles nunca se teriam ido embora; nunca irão. Estas terras são deles por direito, por direito legítimo de herança e também de conquista. Tudo o que têm de fazer é de ter a coragem e a força para as conservar, e João, Duque de Bedford, irá providenciar para que assim seja—olha de relance para o seu copo de vinho e eu estalo os dedos na direção do encarregado da copa para que lhe sirva mais vinho tinto. Dou um passo em frente para segurar no copo enquanto o homem serve, e depois pouso-o cuidadosamente na mesa. Estão a utilizar copos delicados; o meu tio é rico e a minha tia-avó nunca teve senão o melhor.

—O rei inglês pode ser pouco mais do que uma criança, mas isso não representa qualquer diferença para a segurança do seu reino, porque o tio dele, Bedford, é-lhe leal aqui, e o tio dele, o Duque de Gloucester, é-lhe leal na Inglaterra. Bedford tem a coragem e os aliados para conservar as terras inglesas aqui e creio que irão afastar o Dauphin (4) cada vez mais para sul. Irão empurrá-lo para o mar. A Donzela teve a sua época, e foi extraordinária; mas, no final, os Ingleses vencerão a guerra e conservarão as terras que são suas por direito, e todos os nossos lordes que prestaram juramento contra eles se ajoelharão e servi-los-ão. 4 Em francês no original: delfim. (N. da T.) — Não me parece—afirma a minha tia-avó resolutamente.—Os Ingleses têm-lhe pavor. Dizem que ela é invencível. — Já não é—comenta o meu tio.—Reparai, ela é uma prisioneira e as portas das celas não se abriram por rebentamento. Eles agora sabem que ela é mortal. Viram-na com uma seta na perna, fora das muralhas de Paris, e o próprio exército dela afastou-se, deixando-a para trás. Os próprios Franceses ensinaram aos Ingleses que ela poderia ser derrubada e abandonada. — Mas não a ireis entregar aos Ingleses—afirma a minha tia-avó. — Seria desonrar-nos para sempre, aos olhos de Deus e do mundo. O meu tio inclina-se para a frente para falar em tom de confidência: — Levais as coisas assim tão a sério? Credes realmente que ela é mais do que uma charlatã? Estais de facto convencida de que ela é algo mais do que uma camponesa a dizer disparates? Sabeis que posso encontrar meia dúzia como ela? — Conseguiríeis encontrar meia dúzia que dizem que são como ela—diz ela.—Mas não uma como ela. Estou convicta de que ela é uma rapariga especial. De verdade que estou, sobrinho. Tenho uma sensação muito forte disso. Ele hesita, como se a sensação que ela tem das coisas, apesar de ser apenas uma mulher, ser algo que devesse levar em consideração. — Haveis tido uma visão do sucesso dela? Um presságio? Por um momento, ela hesita, depois abana muito depressa a cabeça. — Nada assim tão nítido.

Mas, mesmo assim, tenho de insistir para que a protejamos. Ele detém-se, não a querendo contrariar. Ela é a Demoiselle do Luxemburgo, a chefe da nossa família. O meu pai herdará o título, quando ela morrer; mas ela também é proprietária de grandes propriedades que se encontram todas à sua disposição: pode deixá-las a quem desejar. O meu tio João é o sobrinho preferido dela; ele tem esperanças e não a quer ofender. — Os Franceses vão ter de pagar um bom preço por ela—diz. Não tenciono perder dinheiro com ela. Ela vale o resgate de um rei. Eles sabem-no. A minha tia-avó acena com a cabeça, em concordância. — Vou escrever ao Dauphin Carlos e ele pagará o resgate por ela—diz-lhe.—Seja o que for que os conselheiros lhe digam, ele não deixará de me dar ouvidos, embora se deixe levar pelos favoritos, como uma folha pelo vento. Mas eu sou madrinha dele. É uma questão de honra. Ele deve tudo o que é à Donzela. — Muito bem. Mas fazei-o já. Os Ingleses estão a pressionar-me muito e eu não quero ofender o Duque de Bedford. Ele é um homem poderoso e justo. É o melhor governante da França que poderíamos esperar ter. Se fosse francês, seria absolutamente adorado. A minha tia-avó ri-se. — Sim, mas não é! É o regente inglês, e deveria voltar para a sua ilha húmida e o seu pequeno sobrinho, o pobre rei, fazerem o que puderem do seu próprio reino e deixarem-nos governar a França em paz. — A nós?—indaga o meu tio, como se lhe estivesse a perguntar se ela julga que a nossa família, que já governa meia dúzia de condados e que é parente dos Sacro-Imperadores Romanos, tambémdeveria contar com Reis da França. Ela sorri.

— A nós—diz ela com suavidade. No dia seguinte acompanho Joana até à pequena capela do castelo e ajoelho-me ao lado dela nos degraus do coro. Ela reza fervorosamente, de cabeça baixa, durante uma hora, e depois o padre vem, diz a Missa, e Joana toma a hóstia e bebe o vinho consagrado. Espero por ela ao fundo da igreja. Joana é a única pessoa que conheço que comunga e bebe o vinho todos os dias, como se fosse o seu pequeno-almoço. A minha própria mãe, que é mais praticante do que a maioria das pessoas, comunga apenas uma vez por mês. Caminhamos juntas de volta aos aposentos da minha tia-avó, comas ervas espalhadas a chiar em volta dos nossos pés. Joana ri-se de mim, por eu ter de baixar a cabeça para conseguir passar com o meu alto toucado cónico pelas portas estreitas e baixas. — É muito bonito—diz ela.—Mas eu não gostava de usar nada disso. Detenho-me e dou uma volta à frente dela, sob a luz viva do Sol que entra pela seteira. As cores do meu vestido são brilhantes: uma seda azul-escura e uma saia de baixo de um azul-turquesa bastante forte, as saias a alargar a partir do cinto alto apertado sobre as minhas costelas. O alto toucado de alcana repousa como um cone e liberta, a partir da ponta, um véu azul claro que cai pelas minhas costas abaixo, ocultando e fazendo sobressair o meu cabelo louro. Abro os braços para mostrar as enormes mangas triangulares, debruadas com os mais belos bordados a fio de ouro, e levanto a bainha da saia para mostrar os meus chinelos escarlates com a biqueira revirada. — Mas não podeis trabalhar nem montar a cavalo, nem sequer correr, com um vestido desses— diz ela. — Não é para montar a cavalo nem para trabalhar, nem para correr—respondo com sensatez.— É para me mostrar. É para mostrar ao mundo que sou jovem e bonita e que estou pronta para o casamento. É para mostrar que o meu pai é tão rico que eu posso usar fio de ouro nas mangas e seda no meu toucado. Demonstra que sou de origem tão nobre que posso usar veludo e seda; e não lã como uma rapariga pobre. — Eu não suportaria ser exibida com uma coisa dessas. — Não vos seria permitido fazê-lo—saliento, num tom desagradável.—Temos de nos vestir de acordo com a nossa posição na vida; teríeis de cumprir a lei e de vos vestir de castanhos e de cinzentos. Julgastes de verdade que éreis suficientemente importante para usar arminho? Ou quereis o vosso manto de pano de ouro de volta? Diz-se que éreis tão requintada como qualquer cavaleiro numa batalha. Nessa altura, vestíeis-vos como um nobre.

Dizem que adoráveis o vosso belo estandarte, a vossa armadura polida e um elegante manto de pano de ouro sobre tudo o resto. Afirmam que éreis culpada de cometer o pecado da vaidade. Ela cora. — Tinha de ser vista—diz ela na defensiva.—Na frente do meu exército. — Com pano de ouro? — Tinha de honrar Deus. — Bem, de qualquer forma, não teríeis um toucado destes, se vestísseis roupas de mulher—digo.—Usaríeis algo mais modesto, como as damas de companhia, nada tão alto nem tão desajeitado, apenas um toucado simples para cobrir o cabelo. E poderíeis calçar as vossas botas por baixo do vestido, poderíeis continuar a andar de um lado para o outro. Não quereis experimentar um vestido, Joana? Significaria que não vos poderiam acusar de usardes roupas de homem. É um sinal de heresia, uma mulher vestir roupas masculinas. Porque não vestis um vestido, e assim eles não terão nada a apontar-vos? Algo simples? Ela abana a cabeça. — Eu estou prometida—diz simplesmente.—Prometida a Deus. E quando o rei me chamar, tenho de estar pronta para montar a cavalo e para pegar novamente em armas. Sou um soldado à espera, não uma dama de companhia. Vestir-me-ei como um soldado. E o meu rei irá chamar-me, a qualquer momento. Olho para trás de nós. Um pajem que transporta um jarro com água está suficientemente perto para ouvir o que dizemos. Aguardo até ele inclinar a cabeça na nossa direção e ter passado por nós. — Chiu—digo baixinho.—Não lhe devíeis chamar rei. Ela ri-se, como se não temesse nada. — Fui eu que o levei para ser coroado.

Estive sob o meu próprio estandarte, na Catedral de Reims, quando ele foi ungido com o óleo de Clóvis. Vi-o ser apresentado ao povo dele com a coroa na cabeça. É claro que ele é o Rei da França: foi coroado e ungido. — Os Ingleses arrancam a língua a qualquer pessoa que o afirme—recordo-lhe.—E isso é pela primeira vez que alguém o fizer. Da segunda vez que o fizerem, marcam-lhe a testa com um ferro em brasa, de modo que fique com uma cicatriz para a vida inteira. O rei inglês, Henrique VI, é quemdeve ser apelidado de Rei da França. Aquele a quem chamais rei francês deve ser denominado como Dauphin, nunca outra coisa que não seja Dauphin. Ela ri-se, genuinamente divertida. — Nem sequer se deveria dizer que ele é francês—exclama ela. — O vosso grande Duque de Bedford afirma que ele deveria ser apelidado de Armagnac. Mas o grande Duque de Bedford tremia de medo e percorreu Rouen à procura de recrutas, quando eu me aproximei das muralhas de Paris com o exército francês… sim, vou dizê-lo! Com o exército francês para recuperarmos a nossa cidade para o nosso rei, um rei francês; e quase a conseguimos tomar também! Tapo os ouvidos com as mãos. — Recuso-me a ouvir-vos e vós não devíeis falar assim. Eu serei chicoteada se vos der ouvidos. De imediato, ela toma as minhas mãos e mostra-se penitente. — Ah, Jacquetta, não vos quero causar problemas. Vede! Não vou dizer mais nada. Mas vós tendes de perceber que eu fiz bastante mais do que utilizar palavras contra os Ingleses. Utilizei setas, balas de canhões, aríetes e armas contra eles! Os Ingleses dificilmente se preocupariam com as palavras que eu disse e com as calças que visto. Derrotei-os e mostrei a toda a gente que eles não têm direito à França. Liderei um exército contra eles e derrotei-os vezes sem conta. — Espero que eles nunca vos apanhem e que nunca vos interroguem. Não acerca das palavras, nem das setas nem dos canhões. Ela empalidece ligeiramente, só de imaginar. — Que Deus não o permita, eu também espero que não.

Meu Deus misericordioso, eu tambémespero que não. — A minha tia-avó vai escrever ao Dauphin—digo muito baixinho.—Estavam a falar nisso ontem à noite, durante o jantar. Ela vai escrever ao Dauphin e convidá-lo a pagar um resgate por vós. E o meu tio entregar-vos-á aos Fr… aos Armagnacs. Ela baixa a cabeça e os lábios dela movem-se numa oração. — O meu rei irá mandar chamar-me—diz ela confiantemente. — Não tenho dúvidas de que ele me irá chamar para junto dele, e poderemos retomar as nossas batalhas. Em agosto, a temperatura sobe ainda mais e a minha tia-avó descansa num sofá, nos seus aposentos privados, todas as tardes, com as leves cortinas de seda em volta da cama encharcadas emágua de alfazema e as portadas fechadas, projetando barras de sombra no chão de pedra. Ela gosta que eu leia para ela enquanto está ali deitada, de olhos fechados e com as mãos entrelaçadas sobre a elevada linha da cintura do seu vestido, como se fosse uma efígie esculpida de si própria, numqualquer túmulo à sombra. Põe de lado o enorme toucado com duas saliências que usa sempre e deixa o seu longo cabelo, que começa a ficar grisalho, espalhar-se sobre as elegantes almofadas bordadas. Entrega-me livros da sua própria biblioteca que falam de grandes romances, de trovadores e de damas em florestas confusas, e então, uma tarde, pousa-me um livro nas mãos e diz: — Lede este, hoje. É uma cópia manuscrita em francês antigo e eu tropeço nas palavras. É difícil de ler: as ilustrações nas margens são como roseiras bravas e flores entrelaçadas no meio das letras, e o escriba que copiou cada uma das palavras tinha um estilo de escrita ornamentado que tenho dificuldade em decifrar. Mas, devagar, a história vai surgindo. É a história de um cavaleiro que passeia a cavalo por uma floresta escura e que se perde. Ouve o som da água e avança na direção desta. Numa clareira, à luz do luar, vê um tanque branco e uma fonte que esparrinha e, dentro de água, está uma mulher de uma tal beleza que a sua pele é mais alva do que o mármore branco e o seu cabelo mais escuro do que os céus noturnos. Apaixona-se imediatamente por ela e ela por ele, leva-a para o castelo e torna-a sua mulher. Ela impõe apenas uma condição: de que todos os meses ele tem de a deixar banhar-se a sós. — Conheceis esta história?—pergunta-me a minha tia-avó. O vosso pai contou-vos? — Já ouvi algo semelhante—respondo cautelosamente. A minha tia-avó tem fama de ter muito pouca paciência com o meu pai e eu não sei se me atrevo a dizer que julgo que aquela é a lenda da fundação da nossa Casa. — Bom, agora estais a ler a história verdadeira—afirma ela. Fecha de novo os olhos.

—Já era altura de a conhecerdes. Continuai. O jovem casal é mais feliz do que qualquer outro no mundo, e as pessoas vêm de muito longe para os visitar. Têm filhos: belas raparigas e estranhos e travessos rapazes. — Filhos—murmura a minha tia-avó para si mesma.—Se ao menos uma mulher pudesse ter filhos só por o desejar, se eles pudessem ser como ela deseja. A mulher nunca perde a sua beleza, apesar de os anos irem passando, e o marido vai ficando cada vez mais curioso. Um dia, ele não consegue suportar o mistério do seu banho secreto e entra sorrateiramente na casa de banho dela para a espiar. A minha tia-avó ergue a mão: — Sabeis o que ele vê?—pergunta-me. Levanto o rosto do livro, com o dedo por baixo da ilustração do homem a espreitar pelo meio das ripas da casa de banho. Em primeiro plano, vê a mulher dentro da banheira, o seu bonito cabelo serpenteado em volta dos ombros brancos. E, cintilando dentro de água… a grande cauda dela coberta de escamas. — Ela é um peixe?—sussurro. — Ela é um ser que não é deste mundo—responde em voz baixa a minha tia-avó.—Tentou viver como uma mulher comum, mas algumas mulheres não podem viver uma vida comum. Tentou caminhar do modo normal; mas algumas mulheres não conseguem fazer os seus pés percorrerem esse caminho. Este é um mundo de homens, Jacquetta, e algumas mulheres não conseguem marchar ao ritmo da batida do tambor de um homem. Compreendeis? Não compreendo, evidentemente. Sou demasiado jovem para compreender que um homem e uma mulher possam amar-se de uma forma tão profunda que os seus corações batam como se fossem umsó, e contudo, ao mesmo tempo, saber que são absoluta e irremediavelmente diferentes. — De qualquer modo, podeis continuar a ler. Já não falta muito. O marido não suporta a ideia de que a mulher é um ser estranho. Ela não lhe consegue perdoar por ele a espiar. Abandona-o, levando consigo as suas bonitas filhas, deixando-o sozinho com os filhos, com o coração despedaçado. Mas, quando ele está a morrer, tal como acontece quando morre qualquer outro membro da nossa Casa, a mulher, Melusina, a bela mulher que era uma ondina, uma deusa da água, volta para junto dele e ele ouve-a chorar nas ameias, pelos filhos que perdeu, pelo marido que ainda ama e pelo mundo que não tem lugar para ela.

Fecho o livro e instala-se um silêncio tão prolongado que me leva a pensar que a minha tia-avó adormeceu. — Algumas das mulheres da nossa família têm o dom da visão—comenta baixinho a minha tiaavó.—Algumas delas herdaram poderes de Melusina, poderes desse outro mundo onde ela vive. Algumas de nós somos filhas dela, suas herdeiras. Mal me atrevo a respirar, de tão ansiosa que estou para que ela continue a falar comigo. — Jacquetta, credes que podereis ser uma dessas mulheres? — Posso ser—murmuro.—Espero que sim. — Tendes de ouvir—diz ela suavemente.—Ouvir o silêncio, observar o vazio. E de estar atenta. Melusina é alguém que está sempre a mudar de forma, como o mercúrio, pode fluir de uma coisa para outra. Podereis vê-la em qualquer lugar. Ela é como a água. Ou podereis ver apenas o vosso próprio reflexo à superfície de um ribeiro, embora estejais a esforçar os vossos olhos para a vislumbrar nas profundezas verdes. — Irá ela ser a minha guia? — Vós tendes de ser a vossa própria guia, mas podeis prestar atenção, quando ela vos falar—interrompe-se.—Ide buscar a minha caixa de jóias—aponta para a grande arca que se encontra aos pés da sua cama. Abro a tampa, que range, e lá dentro, ao lado dos vestidos embrulhados em seda empoada, encontra-se uma grande caixa de madeira. Retiro-a. No seu interior, há uma série de gavetas, cada uma cheia com as jóias da fortuna da minha tia-avó. — Procurai na gaveta mais pequena—diz ela. Encontro-a. Lá dentro, está uma pequena bolsa de veludo preto. Desaperto os cordões ornamentados com borlas, abro-a, e uma pesada bracelete de ouro cai na minha mão, decorada comcerca de duzentos pequenos pingentes, cada um de formato diferente. Vejo um navio, um cavalo, uma estrela, uma colher, um chicote, um falcão, uma espora. — Quando quiserdes saber algo muito, muito importante, escolheis dois ou três dos pingentes, pingentes que significam o que pode acontecer, as escolhas que tendes diante de vós.

Amarrais cada um deles num fio e mergulhai-os no rio, o rio mais próximo da vossa casa, o rio que ouvis de noite quando tudo está silencioso, à exceção da voz das águas. Deixai-o lá até que chegue a Lua Nova. Depois, cortais todos os fios, exceto um, e puxais esse para verdes o vosso futuro. O rio dar-vos-á a resposta. O rio dir-vos-á o que deveis fazer. Assinto. A bracelete é fria e pesada na minha mão, cada pingente é uma escolha, cada pingente uma oportunidade, cada pingente um erro em potência. — E quando desejardes algo: saí e murmurai para o rio, como uma oração. Quando amaldiçoardes alguém, escrevei-o numa folha de papel e lançai-a ao rio, fazei-a flutuar como umpequeno barco de papel. O rio é vosso aliado, vosso amigo, vossa dama de companhia, compreendeis? Concordo com um aceno de cabeça, ainda que não compreenda. — Quando amaldiçoardes alguém…—faz uma pausa e suspira, como se estivesse muito cansada. —Tende cuidado com as vossas palavras, Jacquetta, sobretudo quando lançardes uma maldição. Dizei apenas aquilo que tencionais que aconteça, certificai-vos de que amaldiçoais o homem certo. Porque não vos esqueçais nunca de que, quando verterdes essas palavras para o mundo, elas podemir mais além do que pretendeis—tal como uma seta, uma maldição pode ir mais longe do que o vosso alvo e ferir outras pessoas. Uma mulher sensata amaldiçoa com muita moderação. Tremo, apesar de estar calor no quarto. — Vou ensinar-vos outras coisas—promete-me ela.—É a vossa herança, uma vez que sois a rapariga mais velha. — Os rapazes não sabem? O meu irmão Luís? Os seus olhos preguiçosos abrem-se ligeiramente e ela sorri para mim. — Os homens dirigem o mundo que conhecem—diz.—Tudo o que os homens conhecem tornamno seu. Tudo o que aprendem reivindicam para si. São como alquimistas que procuram as leis que regem o mundo, e depois querem ser donos delas, mantendo-as em segredo. Guardam tudo o que descobrem para si próprios, moldam o conhecimento à sua própria imagem egoísta. O que nos resta a nós, mulheres, senão os reinos do desconhecido? — Mas as mulheres não podem ocupar um lugar importante no mundo? Vós ocupais, tia-avó, e Yolande de Aragão é denominada a Rainha dos Quatro Reinos.

Não irei governar grandes terras como vós e ela? — É possível. Mas aviso-vos de que uma mulher que procura obter um grande poder e riqueza tem de pagar um preço elevado. Talvez venhais a ser uma grande mulher como Melusina, ou Yolande, ou como eu; mas sentir-vos-eis como todas as mulheres: desconfortável no mundo dos homens. Ireis fazer o vosso melhor; talvez consigais granjear algum poder, se casardes bem ou se receberdes uma boa herança, mas descobrireis sempre que a estrada sob os vossos pés será dura. No outro mundo… bem, quem sabe como será o outro mundo? Talvez vos dêem ouvidos, e talvez vós lhes deis ouvidos a eles. — O que é que vou ouvir?

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