| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A sereia – Kiera Cass

É ENGRAÇADO PENSAR NAS COISAS A QUE NOS APEGAMOS, nas coisas de que lembramos quando tudo acaba. Ainda consigo ver os painéis nas paredes da nossa cabine e recordar com precisão como o carpete era macio. Lembro do cheiro da água salgada permeando o ar e grudando na minha pele, e o som das risadas dos meus irmãos no outro quarto, como se a tempestade fosse uma aventura emocionante em vez de umpesadelo. Mais do que qualquer sentimento de medo ou preocupação, pairava no ambiente um ar de irritação. A tempestade acabara com nossos planos; não haveria dança no convés principal naquela noite. Essas eram as desgraças que assolavam minha vida, tão insignificantes que dava quase vergonha de admiti-las. Mas isso foi há muito tempo, quando a minha realidade parecia ficção de tão boa que era. — Se esse chacoalhar não parar logo, não vou ter tempo de ajeitar o cabelo antes do jantar —minha mãe reclamou. Levantei os olhos para ela do lugar em que estava, deitada no chão numa tentativa desesperada de não vomitar. O reflexo dela no espelho lembrava um cartaz de cinema, e para mim as ondas de seu cabelo pareciam perfeitas. Mas ela nunca ficava satisfeita. — Você tem que levantar do chão — ela continuou, baixando os olhos para mim. — E se algum empregado entrar? Caminhei com esforço até um dos divãs, como sempre fazendo o que me mandavam, embora não considerasse aquela posição necessariamente mais digna de uma dama. Fechei os olhos, rezando para a água se acalmar. Eu não queria ficar enjoada. A nossa jornada até aquele último dia tinha sido bem comum, apenas uma viagem de família do ponto A ao B. Não consigo lembrar para onde íamos. Mas lembro que viajávamos em grande estilo, como de costume. Éramos uma das poucas famílias sortudas que sobreviveram à Grande Depressão com a fortuna intacta — e minha mãe gostava de deixar isso bem claro para as pessoas. Assim, estávamos alojados numa suíte bonita com janelas de tamanho considerável e mordomos particulares ao nosso dispor. Eu cogitava chamar um deles pela campainha e pedir um balde. Foi então, no meio daquele torpor do enjoo, que ouvi uma coisa. Soava quase como uma cantiga de ninar distante, que me deixou curiosa e, por algum motivo, com sede. Levantei a cabeça e vi minha mãe fazer o mesmo, procurando o som. Nossos olhares se encontraram por um instante; ambas precisávamos garantir que o que ouvíamos era real.


Quando percebemos que não estávamos imaginando coisas, voltamos a nos concentrar na janela para escutar. A música era de uma beleza intoxicante, como o efeito de um cântico sobre devotos religiosos. Meu pai enfiou a cabeça pela porta do quarto. Seu pescoço trazia um curativo recente onde ele havia se cortado quando tentara se barbear durante a tempestade. — É a banda? — ele perguntou. O tom de sua voz era calmo, mas o desespero em seu olhar era assustador. — Talvez. Soa como se viesse de fora, não é? — minha mãe respondeu, de repente sem fôlego e ansiosa. Ela levou uma mão ao pescoço e engoliu em seco. — Vamos lá ver. Ela levantou com um salto e pegou um casaco. Fiquei chocada. Ela odiava sair na chuva. — Mas mãe, e a sua maquiagem? Você acabou de dizer… — Ah, isso… — ela disse, desconsiderando o comentário e balançando os ombros para acertar o caimento do cardigã cor de marfim. — Só vamos lá por um instante. Vou ter tempo de ajeitar a maquiagem quando voltar. — Acho que vou ficar — falei. Me sentia tão atraída pela música quanto eles, mas a umidade grudenta no rosto me lembrou de como eu estava quase a ponto de vomitar. Sair do quarto no meu estado não podia ser uma boa ideia, então me aninhei ainda mais no divã, resistindo ao ímpeto avassalador de levantar e seguir meus pais. Minha mãe virou para trás e nossos olhares se cruzaram. — Me sentiria melhor se você viesse comigo — ela disse com um sorriso. Essas foram as últimas palavras da minha mãe para mim. No exato momento em que abri a boca para argumentar, me encontrei de pé e já atravessando a cabine para segui-la. Não era apenas uma questão de obediência. Eu precisava subir ao convés.

Precisava chegar mais perto da música. Se tivesse permanecido no quarto, provavelmente teria ficado presa e afundado com o navio. Então poderia ter me juntado à minha família. No céu ou no inferno, ou em lugar nenhum, se tudo isso fosse mentira. Mas não. Subimos as escadas, acompanhados ao longo do caminho por vários outros passageiros. Foi então que percebi que havia algo errado. Alguns corriam, abrindo caminho entre a multidão aos empurrões, enquanto outros pareciam sonâmbulos. Pisei no convés sob uma chuva torrencial e fiz uma pausa ao cruzar a porta para contemplar a cena. Tapei os ouvidos bem forte com as mãos para silenciar os trovões que ressoavam e a música que hipnotizava, tentando me situar. Dois homens passaram correndo por mim e se jogaram ao mar sem hesitar. Mas a tempestade não estava tão ruim a ponto de precisarmos abandonar o navio, estava? Olhei para o meu irmão mais novo e o vi saltitar sob a chuva como um gato selvagem que põe as garras em carne crua. Quando alguém perto dele tentou fazer o mesmo, eles começaram a se empurrar, como se lutassem pelas gotas. Dei meia-volta para procurar meu irmão do meio. Jamais o encontrei. Estava perdido na multidão que se acumulava contra o parapeito. Partiu antes mesmo que eu pudesse compreender o que estava acontecendo. Então vi meus pais, de mãos dadas, com as costas contra o parapeito, se inclinando para trás como se não fosse nada de mais. Eles sorriam. Eu gritava. O que estava acontecendo? O mundo tinha ficado louco? Uma nota invadiu meu ouvido e baixei as mãos. De repente, a canção era a única coisa que importava. Minhas preocupações se desfizeram. Parecia mesmo que o melhor seria estar na água, envolta nas ondas em vez de bombardeada pela chuva. A sensação devia ser deliciosa.

Eu precisava bebê-la. Precisava encher meu estômago, meu coração, meus pulmões com ela. Com esse único desejo pulsando no corpo, caminhei até a balaustrada. Seria um prazer beber aquilo até ficar cheia, até cada pedaço meu estar satisfeito. Eu mal tinha consciência de que estava me dependurando para fora, mal tinha consciência de qualquer coisa, até que o impacto duro da água no meu rosto me fez recobrar os sentidos. Eu ia morrer. Não!, pensei enquanto lutava para voltar à superfície. Não estou pronta! Quero viver! Dezenove anos não eram o bastante. Ainda havia muitas comidas para provar e muitos lugares para visitar. Um marido, assim eu esperava, e uma família. Tudo isso, absolutamente tudo, desapareceria num instante. — De verdade? Não tive tempo para duvidar da existência da voz que ouvia e logo respondi: — Sim! — O que você daria para continuar viva? — Qualquer coisa! Imediatamente, fui arrastada para longe do naufrágio. Foi como se um braço envolvesse minha cintura e me puxasse com destreza, me fazendo avançar rapidamente por entre os corpos até me desvencilhar de todos eles. Logo me vi deitada numa superfície dura, diante de três garotas de uma beleza inumana. Por um momento, todo o horror e a confusão por que eu tinha acabado de passar se dissolveram. Não havia tempestade, família, medo. Só havia aqueles rostos belos e perfeitos. Apertei os olhos e as examinei, fazendo a única suposição possível. — Vocês são anjos? — perguntei. — Eu morri? A garota mais perto de mim — que tinha os olhos mais verdes que eu já tinha visto na vida e o cabelo vermelho brilhante esvoaçando em volta do rosto — se abaixou. — Não. Você está bem viva — ela garantiu com um agradável sotaque britânico. Fiquei boquiaberta, sem palavras. Se eu ainda estivesse viva, não sentiria os arranhões do sal garganta abaixo? Meus olhos não estariam queimando por causa da água? Ainda não estaria sentindo o rosto arder da queda? No entanto, me sentia perfeita, completa. Ou estava sonhando ou estava morta.

Tinha que estar. Ainda dava para ouvir os gritos ao longe. Ergui a cabeça, e logo depois das ondas avistei a popa do nosso navio, que balançava de modo surreal acima das águas. Tomei vários fôlegos descompassados, confusa demais para compreender como estava respirando ao mesmo tempo que ouvia os outros se afogarem ao meu redor. — Do que você se lembra? — ela perguntou. Balancei a cabeça. — Do carpete. Vasculhei as lembranças. Já sentia que elas estavam ficando distantes e turvas. — E do cabelo da minha mãe — acrescentei, com a voz fraca. — E depois eu estava na água. — Você pediu para viver? — Sim — disparei, me perguntando se ela podia ler minha mente ou se todo mundo tinha pensado o mesmo. — Quem são vocês? — Meu nome é Marilyn — ela respondeu com ternura. — Esta é Aisling — ela continuou, apontando para uma garota loira que me abriu um sorriso discreto e caloroso. — E aquela é Nombeko. Nombeko era negra como o céu noturno e parecia não ter um fio de cabelo sequer. — Somos cantoras — Marilyn explicou. — Sereias. Servas da Água. Nós a ajudamos. Nós… a alimentamos. Franzi a testa. — Do que a água se alimenta? Marilyn lançou um olhar na direção do navio que naufragava. Quase todas as vozes já tinham se calado agora. Ah.

— É nosso dever, e logo poderá ser o seu também. Se você der a Ela seu tempo, Ela vai te dar vida. Deste dia em diante, pelos próximos cem anos, você não vai adoecer nem se machucar, e não vai envelhecer um dia sequer. Quando o tempo terminar, você receberá de volta a sua voz e a sua liberdade. E poderá viver. — S-sinto muito — gaguejei. — Não entendo. As outras atrás dela sorriram, mas seus olhos aparentavam tristeza. — Seria impossível entender agora — Marilyn disse. Ela passou a mão pelo meu cabelo, me tratando como se eu já fosse uma delas. — Garanto a você que nenhuma de nós entendia. Mas esse dia chegará. Levantei com cuidado, chocada ao ver que estava de pé sobre a água. Algumas pessoas ainda boiavam ao longe, batendo os braços contra a correnteza como se fossem capazes de se salvar. — Minha mãe está lá — supliquei. Nombeko suspirou com olhos saudosos. Marilyn passou o braço pelos meus ombros, olhando na direção do naufrágio. Então, sussurrou no meu ouvido: — Você tem duas escolhas. Pode ficar conosco ou se juntar à sua mãe. Se juntar a ela. Não salvála. Permaneci calada, pensando. Será que as palavras dela eram verdadeiras? Será que eu poderia escolher a morte? — Você disse que daria qualquer coisa para viver — ela me lembrou. — Por favor, leve a promessa a sério. Vi a esperança nos olhos dela.

Ela não queria que eu fosse. Talvez tivesse visto mortes demais num dia só. Fiz que sim com a cabeça. Eu ia ficar. Ela me puxou para si e cochichou no meu ouvido: — Bem-vinda à irmandade das sereias. Fui tragada pela água e alguma coisa fria penetrou minhas veias. E embora isso me assustasse, não chegou a doer. OITENTA ANOS DEPOIS 2 — POR QUÊ? — ela perguntou com o rosto inchado do afogamento. Estendi as mãos num alerta para que ela não se aproximasse mais, numa tentativa de dizer sempalavras que eu era fatal. Mas estava claro que ela não tinha medo de mim. Ela buscava vingança. E ia conseguir de qualquer maneira. — Por quê? — ela quis saber de novo. As algas-marinhas enroscadas na perna dela faziam um som monótono e molhado ao serem arrastadas pelo chão. As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse segurar: — Precisei. Ela nem se abalou com a minha voz, apenas continuou avançando. Era isso. Eu finalmente pagaria pelo que fizera. — Eu tinha três filhos. Me afastei, à procura de uma escapatória. — Eu não sabia! Juro que não sabia de nada! Por fim, ela parou, a apenas alguns centímetros de mim. Fiquei à espera de que me batesse ou enforcasse, que encontrasse um jeito de vingar a vida que lhe tinha sido tirada tão cedo. Mas ela só ficou ali, com a cabeça inclinada para o lado enquanto me contemplava, os olhos esbugalhados e a pele azulada. Então ela atacou. Acordei sem fôlego, agitando o braço contra o vazio diante de mim até entender.

Um sonho. Não passava de um sonho. Levei a mão ao peito, na esperança de acalmar meu coração. Em vez de pele, meus dedos tocaram a capa da minha caderneta. Peguei-a e examinei as páginas montadas com cuidado, repletas de recortes de notícias. Ninguém mandou trabalhar nela antes de dormir. Eu tinha acabado de terminar a página sobre Kerry Straus quando caí no sono. Ela era uma das últimas pessoas do nosso naufrágio mais recente que eu havia encontrado. Faltavam mais duas, e então eu teria informações sobre cada uma daquelas almas perdidas. O Arcatia talvez fosse meu primeiro navio completo. Ao observar a página de Kerry, reparei bem nos olhos brilhantes da foto que estava no site em sua memória. O site era feio, sem dúvida criado pelo viúvo entre a rotina sem fim do trabalho e as tentativas de servir algo mais criativo do que macarrão aos seus três filhos órfãos de mãe. Kerry tinha um olhar promissor, um ar de expectativa brilhando ao redor dela. Eu tirei isso dela. Roubei e dei para a Água se alimentar. — Pelo menos você teve alguém — eu disse à foto dela. — Pelo menos havia alguém para chorar por você quando você se foi. Eu queria ser capaz de explicar como a interrupção de uma vida plena era melhor do que o prolongamento de uma vida vazia. Fechei a caderneta e a botei no baú junto com as outras, uma para cada naufrágio. Havia apenas algumas pessoas capazes de entender o que eu sentia, e mesmo assimeu não tinha certeza se entendiam. Com um suspiro pesado, me dirigi para a sala de estar, onde as vozes de Elizabeth e Miaka soavam mais altas do que me deixava confortável. — Kahlen! — Elizabeth cumprimentou. Tentei manter a discrição enquanto conferia se todas as janelas estavam fechadas. Elas sabiam como era importante que ninguém nos ouvisse, mas nunca eram tão cautelosas quanto eu desejava. — Miaka acabou de ter outra ideia para o futuro dela.

Mudei o foco para Miaka. Pequena, de pele escura e sempre de bom humor, ela me ganhou nos primeiros minutos em que a conheci. — Conte, por favor — pedi ao sentar na cadeira do canto. Miaka me abriu um sorriso largo. — Eu estava pensando em comprar uma galeria. — Sério? — perguntei, com as sobrancelhas arqueadas de surpresa. — Então você vai passar da criação para os negócios? — Acho que você jamais vai conseguir parar de pintar — Elizabeth disse, pensativa. — É talentosa demais — concordei, assentindo com a cabeça. Havia anos que Miaka vendia sua arte pela internet. Agora mesmo, no meio da conversa, estava mexendo no celular, e tive certeza de que outra grande venda estava por vir. O fato de uma de nós ter um celular era quase ridículo — como se tivéssemos para quem ligar —, mas ela gostava de estar conectada ao mundo. — Ser responsável por alguma coisa parece divertido, sabe? — Eu sei — falei. — Ser proprietária de um negócio deve ser fascinante. — Exatamente! — Miaka digitava e falava ao mesmo tempo. — Responsabilidade, individualidade. Não tenho nada disso agora, então talvez possa compensar mais tarde. Eu estava prestes a dizer que tínhamos bastante responsabilidade, mas Elizabeth falou primeiro. — Eu também tive uma ideia nova — ela cantarolou. — Conta pra gente — Miaka pediu, para em seguida botar o celular de lado e sentar no colo de Elizabeth como se fosse uma cachorrinha. — Cheguei à conclusão de que gosto mesmo de cantar. Acho que gostaria de continuar cantando, mas de um jeito diferente. — Você seria uma vocalista fantástica numa banda! Elizabeth se endireitou no assento, o que quase fez Miaka cair no chão. — Era exatamente isso que eu tinha pensado! Eu as observava, maravilhada ao perceber que três pessoas tão diferentes — nascidas em tempos e lugares e culturas distintas — fossem capazes de combinar tão bem. Até mesmo Aisling se encaixou como uma peça de quebra-cabeça quando decidiu deixar sua solidão autoimposta para ficar com a gente por um tempo. — E você, Kahlen? — Hein? Miaka se endireitou.

— Algum sonho novo? Já havíamos jogado esse jogo centenas de vezes para nos manter animadas. Eu tive dezenas de ideias ao longo dos anos. Já tinha pensado em ser médica, para compensar todas as vidas que tirei. Dançarina, para poder controlar meu corpo de todas as maneiras. Escritora, para descobrir uma maneira de usar minha voz quer eu falasse ou não. Astronauta, caso precisasse botar mais espaço entre a Água e mim. Já tinha praticamente esgotado todas as possibilidades. Mas lá no fundo sabia que só havia uma coisa que eu queria de verdade, dolorosa demais para pensar agora. Olhei para o grande livro de história que estava sobre minha cadeira favorita — o livro que eu tinha intenção de levar comigo para o quarto na noite anterior —, tomando cuidado para que a revista de noivas ainda estivesse escondida dos olhos das outras. Sorri e dei de ombros. — Os mesmos de sempre, os mesmos de sempre. Engoli em seco ao botar os pés no campus. Por mais que eu quisesse uma vida comum e agradável como a de todo mundo, nunca me permitia ficar confortável. Humanos — e a constante necessidade de ficar em silêncio para protegê-los — me deixavam nervosa. Mas mesmo agora eu ouvia a voz de Elizabeth na cabeça: “Não precisa ficar dentro de casa o tempo todo. Não vou viver assim”, ela tinha prometido talvez duas semanas depois de começar sua nova vida conosco. E ela foi fiel à palavra. Não só saía, mas fazia questão de que o resto de nós também tivesse uma vida normal sempre que possível. Me aventurar fora de casa era metade um agrado a ela, metade a mim mesma. Nossa casa atual era bem perto de uma universidade, o que era perfeito para mim. Isso significava um monte de gente andando de um lado para o outro no gramado e se reunindo em mesas de piquenique. Eu não sentia necessidade de ir a shows ou baladas ou festas, como Elizabeth e Miaka. Me contentava simplesmente em estar entre humanos, observá-los. Se me sentasse debaixo de uma árvore com um livro, era capaz de fingir ser um deles por horas. Fiquei observando as pessoas passarem, encantada por estar num lugar tão amistoso que algumas pessoas acenavam para mim sem qualquer motivo.

Se eu pudesse dizer oi para elas — apenas uma palavrinha minúscula e inofensiva —, a ilusão teria sido perfeita. — … se ela não quiser. Tipo, por que ela não diz alguma coisa pelo menos? — uma garota perguntou ao grupo de amigos ao seu redor. Imaginei-a como uma abelha-rainha, enquanto os demais eram as pobres operárias. — Você tem toda a razão. Ela devia ter falado pra você que não queria ir, não pra todo mundo. A rainha jogou o cabelo de lado. — Bom, pra mim já chega. Não vou ficar com esses joguinhos. Olhei bem para ela, certa de que a garota jogava um jogo completamente diferente, que sem dúvida ganharia. — Estou te dizendo, cara, podemos projetar isso — um rapaz de cabelo curto afirmava, acenando para o amigo. — Não sei — respondeu o outro, um garoto um pouco acima do peso que coçava o pescoço enquanto caminhava rápido. Talvez tentasse deixar o amigo para trás, mas seu interlocutor tinha pés tão ligeiros e tanta motivação que poderia acompanhar um foguete. — Só um pequeno investimento, cara. Podemos estourar. Em dez anos, as pessoas vão estar falando dos dois nerds da Flórida que mudaram o mundo! Segurei um sorriso. Quando a multidão se dispersou à tarde, fui para a biblioteca. Desde que nos mudamos para Miami, eu passava lá uma ou duas vezes por semana. Não gostava de fazer minhas pesquisas para a caderneta em casa. Já tinha cometido esse erro antes, e Elizabeth me criticara sem piedade pela atitude mórbida. — Por que você não vai logo procurar os cadáveres? — ela tinha dito. — Ou pede para a Água te contar quais foram seus últimos pensamentos. Você quer saber isso também? Eu compreendia a repulsa dela. Ela via minhas cadernetas como uma obsessão insana pelas pessoas que tínhamos assassinado. O que eu queria era que ela compreendesse como aquelas pessoas me assombravam, como seus gritos permaneciam comigo muito tempo depois de os navios afundarem.

Saber que Melinda Bernard tinha uma vasta coleção de bonecas ou que Jordan Cammers estava no primeiro ano de medicina aliviava minha dor. Era como se saber mais sobre a vida do que sobre a morte deles tornasse as coisas melhores de alguma forma. Minha meta hoje era Warner Thomas, o penúltimo da lista de passageiros do Arcatia. Warner se revelou uma pesquisa relativamente fácil. Havia milhares de pessoas com o mesmo nome, mas assimque descobri todos os perfis de redes sociais que pararam de postar de repente seis meses antes, tive certeza de que era ele. Warner era um sujeito alto e magro como um poste, e parecia tímido demais para falar com os outros pessoalmente. Aparecia como solteiro em toda parte, e me senti mal por pensar que isso fazia todo o sentido. A última postagem no blog dele era de partir o coração: Desculpem pelo texto curto, mas estou atualizando do celular. Vejam esse pôr do sol! Logo abaixo, o sol se desfazia sobre as costas da Água. Há tanta beleza no mundo! Não consigo deixar de pensar que coisas boas estão por vir! Quase ri. A expressão dele em todas as fotos que encontrei me fazia pensar que ele nunca tinha exclamado nada na vida. Mas não pude afastar o pensamento de que alguma coisa tinha acontecido logo antes daquela viagem fatídica. Será que ele tinha motivos para achar que o rumo de sua vida estava mudando? Ou seria apenas mais uma das mentiras que contamos na segurança do quarto quando ninguém pode enxergar a falsidade das palavras? Imprimi a melhor foto dele, uma piada que ele tinha postado, e algumas informações sobre seus irmãos. Não gostava de andar com as cadernetas por aí, então guardei a papelada com cuidado na bolsa para levar para casa. Desculpe, Warner. Juro que não foi por mim que você morreu. Com isso resolvido, consegui focar em algo mais divertido. Eu tinha aprendido ao longo dos anos a compensar cada página devastadora da minha caderneta com alguma coisa feliz. Na noite anterior, tinha olhado uns vestidos antes de colar as últimas fotos de Kerry. Naquele dia, seriam bolos. Descobri a seção de culinária e carreguei uma pilha de livros até um espaço vazio no terceiro andar. Me debrucei sobre receitas, coberturas, arranjos de bolo. Preparei bolos imaginários, um de cada vez, desfrutando do mais consistente dos meus devaneios. O primeiro, um clássico com recheio de baunilha com cobertura azul-clara e enfeites de flores brancas. Três andares.

Muito lindo. O seguinte tinha cinco andares; era quadrado, com uma fita preta e broches alinhados verticalmente na frente. Mais apropriado para um casamento à noite. Talvez esse fosse meu próximo grande sonho. Talvez eu pudesse virar confeiteira e tornar o dia dos outros especial caso nunca tivesse meu dia. — Você vai dar uma festa? Levantei os olhos e deparei com um garoto meio desleixado, loiro, que empurrava um carrinho cheio de livros. Ele usava um crachá meio gasto que eu não conseguia ler e vestia o uniforme de todo aluno de faculdade: calça cáqui e uma camisa com as mangas arregaçadas até os cotovelos. Ninguémmais inovava. Contive o suspiro. Essa parte da sentença era inevitável. Atraíamos as pessoas naturalmente, e os homens eram particularmente vulneráveis. Baixei a cabeça de novo sem responder, na esperança de que ele entendesse o recado. Eu não tinha sentado nos fundos do último andar para socializar. — Você parece estressada. Uma festa cairia bem. Não consegui segurar um sorrisinho. Ele não fazia ideia. Infelizmente, ele tomou o sorriso como um convite para prosseguir. Ele passou a mão no cabelo, o equivalente moderno para o “Bom dia, senhorita” e apontou para os livros. — Minha mãe diz que o segredo para preparar bolos é usar uma travessa aquecida. Não que eu saiba. Mal consigo preparar uma tigela de cereal. O sorriso sem graça dele sugeria que aquilo era bem provável, e fiquei levemente encantada quando ele enfiou a mão no bolso, envergonhado. Era uma pena, de verdade. Eu sabia que ele não era uma ameaça, e não queria magoá-lo.

Mas eu estava prestes a recorrer à minha atitude mais grosseira e simplesmente sair andando quando ele tirou a mão do bolso e a estendeu para mim.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |