| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Servico do Rei – A. M. Hublet

No grande pátio, onde as pombinhas brancas voam ao redor de uma límpida fonte, que repousa sobre colunas delicadamente trabalhadas, um menino, de atitudes desembaraçadas, e ombros largos, passeia impaciente desde o portal da bela igreja românica ao átrio de ingresso da abadia. Seus olhares voltam-se continuamente para a porta abacial de que saem, finalmente, absorvidos em sua palestra, o pai e o abade do mosteiro. — Desta maneira, reverendíssimo padre, entrego-vos o meu Alano. Tenho certeza de que fareis dele um cristão e um cavaleiro. — Cuidaremos dele com toda solicitude, nobre senhor. Mas, como poderia ele deixar de seguir quase que instintivamente, as pegadas do pai? — Lembrai-vos de que é minha única felicidade, — ajuntou o conde Aimery, bruscamente, querendo esconder sua emoção. — Justamente por isto, peço-vos, Nobre senhor, que reflitais ainda. Não posso compreender vossa partida com destino à Terra Santa. — Prometi que envergaria a Cruz; somente a longa enfermidade de minha querida esposa pôde impedir-me o cumprimento de meu voto; agora, o céu chamou-a a si; nada mais me resta, que cumprir minha palavra. — Diante da juventude de Alano, conseguireis certamente a dispensa, se a pedirdes. — UmAimery, não se subtrai jamais ao cumprimento da palavra empenhada. Educai vós a meu filho nessas idéias, no amor de Deus e no respeito à honra. Divisando, então, o jovem que, a certa distância os contemplava, acenou-lhe: — Vem cá, filho! Alano aproximou-se de rosto contrafeito e inclinou-se diante do abade, com um gesto cheio de nobreza, no qual, porém transparecia um pouco de inflexibilidade e hostilidade. — Filho, o reverendíssimo padre, ao meu pedido, concorda em receber-te nesta abadia, onde saberei que estarás sempre em segurança, até que eu cumpra o meu voto. — Estarei mais perto de ti, pai, se me permitires que te acompanhe! O abade interveio com um sorriso de condescendência. — Vamos, Alano! Um menino de treze anos não pode evidentemente correr os riscos de uma Cruzada! — Saberei mostrar a todos que, para guerrear, já não sou mais uma criança! — protestou com firmeza o jovem. — Meu olhar é seguro, meu braço é forte e a cabeça é firme. — Naturalmente, meu filho! Conheço a tua coragem, — continuou o conde. No entanto, jovem como és, não tenho direito de te expor a tão grandes canseiras. — Papai, por favor! — Não insistas, Alano! Já me decidi. Quero que, esperando-me, aceites voluntariamente a autoridade do padre abade; serás dócil com os monges, cordial com os companheiros que te darão os quais, certamente, não terão teus pendores guerreiros. Quando eu voltar, quero encontrar-te adiantado nos estudos e um grande sábio. — Papai! O estudo me interessa muito menos que o combate! —- Vamos, meu filho! Obedece! — aconselhou o abade. Alano olhou-o de viés e já se preparava para responder, quando o conde deu por encerrada a entrevista: — Adeus, filho, e reza todos os dias para mim! — Papai, partes logo? — Talvez precise ainda de oito dias para concluir os preparativos. Coragem! Abraçou ternamente ao jovem; montou no cavalo que lhe fora trazido pelo escudeiro e partiu semolhar para trás.


O abade apoiou a mão no ombro do rapaz: — Seja razoável, Alano! Obedece! — repetiu. O jovem, com um gesto rápido afastou-se e murmurou entre dentes: — Ainda o alcançarei! O abade, a quem esta reflexão não escapara, decidira manter sob estreita vigilância o taciturno aluno; contrariamente, porém, às suas previsões, no primeiro e segundo dia, não se verificara nenhum sinal de revolta. No terceiro, Alano tomara uma atitude alegre e dera em tudo provas de uma docilidade perfeita: assistira devotamente aos ofícios; ouvira com paciência as lições do padre Jacinto e concordara em tudo com momentos livres, entretanto passara-os caminhando pelos jardins e pelos claustros, tanto que, depois de uma semana, o bom abade começou a simpatizar com ele. Confidenciou ao Magister sua satisfação, pelos resultados obtidos: — Domesticamos rapidamente nosso gavião selvagem, padre Jacinto! — Eh! Reverendíssimo padre… o gavião pode lembrar-se de um momento a outro de que ainda temasas! Preferia muito mais vê-lo estudar com empenho, antes que ficar por aí, a andar continuamente pelos jardins. — Paciência, filho! Este jovem não está destinado a ser monge; sejamos indulgentes para com ele. Não tema! O pobre abade bem cedo deveria pagar pelo seu fugaz sentimento de vangloria. Durante aquele dia, — era um domingo, — Alano, entre um ofício e o outro, passeou pelos jardins cheios de sombra da abadia, estudando minuciosamente as sebes e as alamedas de carmins. — Estás procurando ninhos, Alano? — indagou brincando um dos colegas. — Cuidado, que quem anda em busca de ninhos, desagrada a Frei Egídio. — A mim também! Fica tranquilo. Antes de anoitecer, retirou-se para sua cela, cantarolando uma velha canção de guerra e deitou-se muito satisfeito com o dia que passara. Pouco antes da meia-noite, Alano foi acordado pelo som dos sinos que chamavam os monges para o canto de matinas; levantou imediatamente, vestiu-se em silêncio, embora fosse, como seus companheiros, dispensado do ofício noturno. Aproximando-se da porta ouviu longamente os passos dos monges que se afastavam em direção ao coro, até que se diluíram no silêncio; fechou comcuidado a porta e desceu ao claustro, iluminado pela lua. Tudo estava em paz; o lento salmo das vozes, que lhe vinham da igreja, harmonizava perfeitamente com o silêncio da noite. Na ponta dos pés, Alano chegou a uma pesada porta de carvalho, que dava para os jardins da abadia; afastou lentamente os batentes e escorregou para fora sem ser observado. A noite era de uma limpidez maravilhosa; os edifícios do mosteiro destacavam-se nitidamente contra o céu, com exceção da igreja, cujos largos vitrais estavam iluminados por uma tênue luz multicor. Silenciosamente Alano acompanhou os muros, passou pela fonte, em que a água saltitava numa bacia de mármore negro, em seguida escondeu-se na sombra escura de uma sebe. Chegou sem dificuldade a um lugar que estudara particularmente durante seus passeios, e, agarrando-se ao tronco nodoso de uma velha árvore, apoiou os pés nas saliências da muralha, atingindo-lhe rapidamente o cimo. Cavalgando o muro, deu um último olhar ao mosteiro, para assegurar-se de que não fora seguido; com a mão fez uma irônica saudação de despedida em direção ao bom padre abade e em seguida deixou-se cair no prado vizinho. Livre! Uma vez saído da abadia, rapidamente atingiu a pastagem onde eram recolhidos, à noite, os cavalos, do sítio; entre os fogosos animais não lhe foi difícil distinguir Galará, seu fiel corcel, que lhe obedecia como um cãozinho. Chamou-o com um assobio. O lindo animal imediatamente acorreu, esfregando a cabeça no ombro do dono. Saltar-lhe à garupa; acomodar-se sem sela e sem freio, era uma brincadeira para o jovem filho do conde Aimery, perfeito cavaleiro. Apertando os joelhos, pôs o cavalo a trote, conduzindo perto do pequeno muro que fechava o recinto e, com um rápido esforço, o fez pular. No outro lado do muro, a estrada branca alargava-se sob o olhar cúmplice da lua, estirando-se na direção de um espesso bosque, onde se perdia.

O cavaleiro meteu-se nela e depois, quando julgou que o rumor da disparada já não poderia atingir ao mosteiro, inclinou-se sobre o pescoço de Galará, acariciou-o, falando-lhe em voz baixa, e lançou-o em plena velocidade na direção à aventura, que o aguardava. * * * O romper do novo dia, encontrou Alano galopando ainda, enquanto cantava uma canção guerreira; ao surgir o primeiro raio de sol, explodiu numa gargalhada, pensando na surpresa do padre Jacinto quando, antes da missa, lançasse para o interior da cela deserta o seu “Benedicamus Domino”, agora sem resposta alguma. Divertindo-se com esta lembrança, sofreou o ímpeto do cavalo, para pouparlhe energias. Pôs-se, então, a cantar a plenos pulmões: o cansaço da alegria da liberdade. Mais tarde, parou às bordas de um bosque, e deixou Galará pastando, alimentando-se com algumas provisões que havia trazido. Saciado, dormiu diversas horas; ao acordar, colheu amoras dos arbustos vizinhos, e partiu de novo. Seu plano inicial era o seguinte: alcançar o castelo paterno; esconder-se nos bosques da vizinhança e seguir de longe o exército de seu pai, apenas se houvesse posto em marcha. Chegando, porém às terras de sua propriedade, soube de um pastor, que o identificara, que o Conde Aimery já partira há dois dias, deixando no comando do castelo o mordomo-mor Ugo, com um punhado de homens. Teve de modificar seus planos uma vez que, entre todos os subalternos do castelo, Ugo, vítima habitual de suas traquinices, era o único que não se deixava influenciar pelo jovem amo. — Se me descobre, — pensou Alano — aquela cabeça de porongo 1 , é capaz de mandar-me reconduzir ao mosteiro, no meio de dois homens armados, como um malfeitor. Essa satisfação nunca darei ao reverendíssimo padre abade. Informou-se, então, minuciosamente da direção tomada pelos cruzados; recomendou vivamente ao pastor de guardar segredo e pôs-se em marcha. Pelo anoitecer, bateu à porta de uma cabana isolada, onde o acolheu uma família de velhos lavradores; com uma fome de lobo, devorou o pão negro e o queijo que lhe foram oferecidos; em seguida, depois de haver alimentado Galará, foi deitar-se satisfeito no monte de feno da estrebaria, onde adormeceu como um justo. Na manhã seguinte, aceitou muito contente um pão e uma taça de leite; em seguida, depois de haver pago a hospitalidade, não obstante os protestos daquela boa gente, interrogou-os: — Vistes por acaso passar, há dias, cavaleiros, que ostentavam as minhas cores? — De certo! Vimos um exército que partia para a Cruzada! — Perfeitamente! É esse que eu busco! — Desciam em direção do sul, por aquele lado… tem dois dias de vantagem, senhor! — Não importa! Hei de alcançá-los! — Como? Ides também para a cruzada? Tão jovem? — Saberão qual é a minha idade, pelo vigor dos meus golpes, meu povo! Adeus! Rezai por mim! Mais uma vez, muito obrigado! O homem forneceu-lhe um freio enferrujado e um pano velho, que lhe serviu de pelego e Alano, mais feliz do que um rei, partiu, cantando a plenos pulmões, canções heróicas. Depois de dois dias de caminho e de rápida cavalgada, enquanto ultrapassava a serra, do alto de uma colina, descobriu finalmente uma nuvem de pó, que se levantava no meio dos campos de trigo: Serão eles? Bem cedo, realmente, seu olhar agudo conseguiu distinguir lanças e elmos que brilhavam, refletindo os últimos raios do sol. Então, pela primeira vez depois da fuga do mosteiro, Alano começou a pensar na acolhida que lhe teria dispensado o pai. Decidiu, porém, não preocupar-se, naquele dia, deixando o assunto para a manhã e deitou-se, envolto em seu manto. Ao despontar do sol, pôde distinguir perfeitamente os cavaleiros levantando o acampamento; e desta vez reconheceu: sem sombra de dúvida, as cores do pai; então, recomendando-se inteiramente a Nossa Senhora e a São Jorge, montou novamente em Galará e alcançou-os. Sua chegada imprevista e impetuosa causou impressão nos homens de armas, pois Alano desfrutava, entre os soldados de seu pai, imensa popularidade e afeição. Habituado desde a infância a viver emseu meio, participando dos exercícios militares, aprendera com aqueles homens rudes a manejar a espada e a adaga, com surpreendente destreza. Dotado de grande vigor, não obstante sua pequena estatura, não temia de correr ao assalto junto aos demais e saia-se sempre com grande galhardia. Na equitação ninguém o superava; posto no dorso de um cavalo ainda antes de caminhar, aprendera a subjugar os animais mais fogosos e teimosos e impor-lhes rapidamente sua vontade. Se a acolhida dos soldados foi entusiástica, a do conde foi muito diferente. Dissimulando sua alegria por ver novamente o filho, que tanto amava, o cavaleiro passou a tratá-lo com energia e apostrofou-o com voz irada: — De onde vens? — indagou bruscamente. — Da abadia… pai, não fui feito para ser monge e sim guerreiro! — Ah! É isso! Toma nota, então: a primeira lição que o guerreiro deve aprender é saber obedecer.

— Lá a vida me era insuportável! De outro lado, jurei que não ficaria com aquele abade, que me tomou por uma criança. Um Aimery não deve cumprir a palavra empenhada? O conde, silencioso, pôs-se a caminhar de cá para lá, enquanto em seu espírito alternavam-se o descontentamento por ver que Alano havia desobedecido, a alegria que a presença do filho lhe proporcionava e o temor pelos grandes trabalhos e sacrifícios a que o exporia, se o levasse consigo. No entanto, não podia mandá-lo de volta sozinho nem privar-se de um dos companheiros para escoltá-lo. Finalmente, parando diante do rapaz, que estava confuso, falou-lhe com voz rude: — No meu exército, não há lugar para um filho desobediente! — Papai! Por favor!… — Talvez possa aceitar-te; um soldado a mais! — Um soldado? É justamente o que eu peço! — Quero que compreendas bem: serás apenas mais um de meus homens, sem qualquer exceção, nemfavor, tomando parte em todos os trabalhos e correndo os mesmos riscos. — Estamos de acordo! — Tanto pior! Foste tu que o quiseste: não me culpes amanhã. Eis que pássaras, portanto, a estar sujeito, como todos os teus companheiros, à disciplina militar; à primeira desobediência serás severamente punido! — De acordo, comandante! — Toma teu lugar na última fileira da coluna: estarás sob as ordens de Pierrú. O rapaz despediu-se do pai e correu para o lugar que lhe tinha sido designado, ao lado de Pierrú, velho sargento, tão resmungador quanto valente e que gostava muito do rapaz, sem querer, entretanto, demonstrá-lo. — Eis um equipamento maravilhoso para ir combater na Terra Santa!— disse Pierrú irônico, dando um olhar de desprezo à suja coberta e às rédeas de linho trançadas de seu novo subordinado. — Se os sarracenos te capturassem com esses arreios, diriam que a armada cristã não passa de um bando de mendigos! Alano tomou uma atitude altiva e olhou-o firmemente: — Antes de qualquer coisa, os sarracenos não me aprisionarão. E, depois, se alguém rir de meu equipamento, saberei fazê-lo engolir o riso! Pierrú resmungou satisfeito com a resposta, mas na etapa seguinte descobriu na bagagem uma sela; um cavaleiro ofereceu-lhe os estribos, um outro deu-lhe as rédeas, de modo que Alano retomou o caminho mais altivo e alegre que nunca. — Devolverei tudo isto, tirando-o de minha parte do botim, logo após nossa vitória! — prometeu ele. Nos seis dias seguintes, nem uma vez o conde Aimery dirigiu a palavra ao filho, coisa que muito custou a seu coração e ao coração sensível de Alano. O jovem, porém, teve o máximo cuidado de não queixar-se; e se esse fato lhe arrancou alguma lágrima, somente a noite lhe conheceu o segredo. Durante o dia mostrava-se um cavaleiro modelo, tomando de boamente parte em todas as canseiras, conservando a alegria e o sorriso nos momentos mais agudos. Não suspeitava absolutamente que seu pai estivesse observando em seu jovem rosto, os efeitos do cansaço. Recomendara a Pierrú que dosasse os trabalhos à força do menino. À noite, quando Alano, envolto em seu manto, repousava entre seus rudes companheiros, o conde Aimery, à ronda, parava longamente para contemplá-lo. Em certa tarde que Alano acompanhava aos homens destacados para a busca de forragem, deram com um bando de malandros, que maltratavam um grupo de viajantes. Apenas se inteirou de quanto acontecia, o jovem lançou-se sobre os bandidos, desembainhando sua pequena adaga, a única arma que lhe era permitido carregar — e serviu-se dela com tal vigor, que os facínoras, atordoados com ataque tão fulminante, fugiram sem opor qualquer resistência, antes que o resto da patrulha tivesse tempo para intervir. O Conde Aimery exultou de felicidade, quando soube do comportamento corajoso do filho, mas cuidou seriamente em não deixar transparecer coisa alguma. Pierrú resmungou que “não havia necessidade de tanta coragem para fazer debandar um grupo de ladrões…”, no entanto, concordou que Alano pendurasse ao bálteo 2 uma espada nua, que ele fizera saltar das mãos. dos agressores. O Conde Aimery chegou por primeiro ao ponto de concentração dos cavaleiros com os quais deveria navegar para a Terra Santa e por isso viu-se encarregado de procurar os navios, que deveriam levar toda a expedição; as buscas, muito difíceis, proporcionaram a seus homens de armas, alguns dias de descanso, bem merecido, aliás. Certa manhã, o conde mandou chamar o filho e examinou-o com olhar severo; nada, porém, no comportamento do rapaz podia justificar qualquer reprimenda; era um pequeno homem de armas, bem feito e em forma perfeita; as lições de Pierrú e seu desejo de acertar, haviam transformado o garoto despreocupado e brincalhão, num jovem soldado perfeito. Manteve-se imóvel sob o olhar crítico do pai, erguendo para ele um rosto que queria permanecer impassível: o vento e o sol haviam-no bronzeado e emagrecido, dando-lhe uma expressão viril e infantil ao mesmo tempo.

Os olhos do cavaleiro iluminaram-se de felicidade à vista daquele pequeno guerreiro, altivamente de pé em sua frente, cheio de encanto e beleza e, pela primeira vez, dirigiu-lhe a palavra: — Que é que me contaram a teu respeito? Correste em socorro de viajantes em perigo? — Não era, por acaso, minha obrigação de cavaleiro, senhor? — Não te repreendo, meu filho! Bem ao contrário! No dia em que tiveres aprendido a não agir somente em função de tua cabeça, poderás ser um digno cavaleiro de nossa linhagem. — Deveria ter solicitado permissão ao… — Nada disto! Agiste como um valente. O rapaz abandonou sua posição rígida de sentinela e durante alguns segundos não foi mais do que o pequeno Alano de outros tempos: — Deveras, papai? Desta vez estás contente comigo? Já me perdoaste a fuga e achas que demonstrei ser um bom soldado? — Batalhas mais sérias mostrarão se realmente manténs as tuas promessas. — Jurei servir com toda minha alma e tu, papai, ensinaste-me a cumprir sempre a palavra empenhada. — Não te faltará ocasião. — Isto significa que partiremos em breve? — O margrave Henrique e seus homens estarão aqui hoje à noite e aguardo dia a dia o barão Lievin, que deve vir da Holanda. — Quando embarcaremos? — Se o mar se mantiver tranqüilo e se eu achar os navios necessários, muito cedo partiremos. — Não pudeste ainda conseguir nada? — Bali! Apenas uma barcaça capaz de transportar os soldados do meu exército. É preciso encontrar algo de melhor: esses marinheiros não são tão fáceis e dóceis. — Deixa que eu possa apoiar-te com Pierrú, de espada em punho. —- Pequeno guerreiro! Não é esta a maneira para conseguir o que queremos! Vamos, filho, trata de recuperar tuas energias para enfrentar a travessia e deixemos de lado toda preocupação em relação aos armadores. Vai! Que Deus te guarde! Capítulo 2 A CIDADE SANTA A Providência não tardou em favorecer os esforços do conde Aimery: antes que chegasse o Barão Lievin, descobriu duas naus espaçosas, capazes de transportar o contingente completo dos três comandantes. Os novos, recém-chegados, demonstraram grande simpatia por Alano, a que apelidaram de “o benjamim dos cruzados”, nome muito adequado, pois haveria de tornar-se o predileto da expedição. Dois dias bastaram para realizar o embarque e, numa bela manhã, cheia de sol, com grande entusiasmo, as velas foram desfraldadas. Empurradas por um vento favorável, as duas embarcações atingiram bem depressa o alto mar, navegando a todo pano, em direção do Oriente misterioso, objeto de tantos sonhos de Alano, que ia, de pé, à proa, com os cabelos ondulando ao vento. Cantava, todo feliz, por estar já a um passo de uma terra, que lhe prometia numerosas aventuras. Já se imaginava no assalto aos muros fortificados, coroados de ameias e seteiras; via-se destruindo legiões de infiéis; sonhava com o momento em que pudesse plantar sobre as torres da fortaleza, a bandeira com a cruz encarnada, símbolo dos cruzados… E os sarracenos, batidos e destroçados, deixando para sempre a terra que Jesus pisara em sua santa pregação… A travessia, iniciada tão auspiciosamente, entretanto, alterou-se à altura da ilha de Rodes. O vento tornou-se mais violento, depois desencadeou uma temível tempestade, jogando as embarcações e fazendo-as correr o risco de esbarrar na costa e reduzir-se a pedaços. Os pilotos viram-se forçados a buscar refúgio numa pequena enseada, a fim de tratar de consertar os estragos e aguardar a calma. Os cavaleiros cristãos aproveitaram o momento para descer a terra e ir cumprimentar os cruzados que aí estavam acantonados, na defesa da ilha. Apenas haviam retomado a travessia, quando da gávea soou o grito, avisando que várias velas apontavam no horizonte: um comboio passava ao largo, escoltado por naus de guerra turcas. Instantes após, duas delas afastaram-se do grupo, com a evidente intenção de barrar o caminho as embarcações cristãs. Os dois capitães não dissimulavam seu temor, pois um combate dificilmente poderia ser vantajoso. A armada das galeras turcas era incomparavelmente superior aos dois navios de transporte. Felizmente, porém, o vento forte que soprava, impediu a manobra inimiga e a noite caiu sem que pudessemaproximar-se excessivamente.

Aproveitando a escuridão, as duas barcaças puderam afastar-se e pôrse a salvo. Grande foi a desilusão de Alano, que impaciente, aguardava seu primeiro combate. Uma avaria verificada numa das embarcações veio retardar ainda mais a travessia. As costas da Síria foram, afinal, atingidas quando as provisões de alimento e água, escasseavam assustadoramente. Por fim, numa esplêndida manhã, os cruzados, satisfeitos por haverem concluído a viagem marítima, puderam desembarcar festivamente no porto de Tortosa, ao norte de Trípoli. — Com a bênção de Deus, — observou o barão de Lievin, — nossa pequena tropa, bem depressa há de integrar-se no exército cristão. Por isso, a demora no porto foi reduzida ao mínimo necessário. Certa manhã, em que se dirigia ao porto na companhia do pai, Alano presenciou uma cena de que deveria guardar duradoura lembrança, pelo asco e terror que lhe causara. Três mendigos, apoiados às muralhas da cidade, pediam, de longe, esmolas. Levado por seu bom coração, Alano tratou de aproximar-se para dar-lhes algumas moedas. Não fizera, porém, muitos passos, e eis que eles, comgestos imperiosos, ordenaram que se afastasse, erguendo as mãos carcomidas pelas chagas purulentas. As vozes, que se dirigiam para ele, saiam de bocas sem lábios, e de rostos devorados por pústulas horríveis. Alano sentiu intimamente um movimento de profundo nojo e aconchegou-se instintivamente ao pai. — Quem são esses homens? — murmurou. — São leprosos, filho! Não te aproxime! — respondeu o conde. Agarrou de sua bolsa um punhado de moedas que ofereceu aos enfermos. A impressão dessa asquerosa visão ficou profundamente gravada na mente do menino, mesmo depois que deixou Tortosa. Um pequeno grupo de cavaleiros do Rei Balduino IV, que voltava a Jerusalém, ofereceu-se como guia aos recém-vindos e com eles pusera-se a caminho. Pouco depois, os cruzados estavamtransitando por uma terra acidentada, passando ao largo da fronteira, além da qual se viam as sentinelas sarracenas e nômades, que de quando em quando se lançavam em incursões, roubando e matando em território cristão; o caminho, como bem depressa o demonstraram os fatos, não era nada seguro. A expedição avançava, portanto, cautelosamente e não poucas vezes os cruzados se viram constrangidos a usar a espada, seja para se verem livres de alguma patrulha turca que percorria a região, seja para dispersar bandos de nômades assaltantes. Essas escaramuças, pouco perigosas na verdade, tinham, entretanto o mérito de manter sempre alerta a tropa e de alimentar-se constantemente a combatividade. Agindo com sabedoria, os barões, depois de haver travado batalha, evitavam de perseguir aos fugitivos, receosos de se verem atraídos a alguma emboscada. Essa prudência não era a mais indicada para acalmar os entusiasmos guerreiros de Alano; mais de uma vez foi necessário que a autoridade paterna se fizesse sentir, para mantê-lo dentro das linhas. — Por que deixamos escapar ao inimigo já vencido? Não é este o momento indicado para reduzi-los a pedaços, a fim de tirar-lhes toda vontade de voltar? — Estamos aqui com a finalidade de levar ao rei um reforço, de que tem grande necessidade, —respondeu o conde, — não para lançarmo-nos à toa em combates, cujos resultados não podemos prever, numa terra que quase não conhecemos. * * * Aguardando a chegada, o jovem não poupava nem forças, nem coragem; certa noite, voltou ao acampamento todo feliz, apresentando no arção da sela uma seta sarracena, profundamente cravada.

— Foi um homenzinho pequeno e feio como o diabo que me deu este presente, — dizia brincando. —Enquanto o perseguia, deixou-se cair da sela, a fim de atirar-me esta seta. —. que poderia ter-te ferido gravemente! — resmungou Pierrú. — Desconfia, portanto desses negrinhos, demasiadamente covardes para usar a espada, mas rápidos e competentes como demônios para atirar flechas. Durante o dia os cruzados ficavam alerta, enquanto à noite, enrolados em seus mantos, dormiam ao ar livre, sob o maravilhoso céu do Oriente, estendidos sobre a areia tépida e defendidos por uma tríplice fila de sentinelas. Antes que despontasse o sol já estavam de pé e a caminho, aproveitando as horas em que houvesse menos calor. Quando o sol se tornava causticante dormiam uma sesta indispensável e retomavam novamente o caminho, até que fosse bem escuro. Embora enfrentasse muitas privações, a tropa mantinha-se na devida forma, pois os chefes eramcorajosos, — de modo particular o conde Aimery. Os soldados não se cansavam de elogiá-lo e ao filho: — Acham-se sempre onde é maior o perigo! — Co-dividem nosso mantimento e não tocam a própria ração, se todos os demais não estiveremservidos. — Não fazem montar a tenda, mas dormem em nosso meio, na terra nua. — Quando faltou água, agüentaram tanto quanto nós a sede! — Não obstante tudo isso, jamais perderam a jovialidade e agüentaram a fadiga igual a qualquer umde nós. Transco

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |