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A Servidao Humana – William Somerset Maugham

No capítulo 75 de Summing up, como o próprio nome diz, uma súmula autobiográfica, publicada pela primeira vez em 1938, Somerset Maugham anota que, para compensar a impossibilidade de aceitar a falta de sentido da vida, a sabedoria dos tempos selecionou três valores de duração mais permanente, procurando dar assim algum significado à existência. Esses valores são a Verdade, a Beleza e a Bondade. “Mesmo que não se possa duvidar de que tenham uma utilidade biológica”, escreve o autor, “eles se apresentam com tal aparência de desinteresse que o homem tem a ilusão de que através deles pode escapar da servidão humana.” O romance Servidão humana, que começou a ser escrito em 1911 quando Somerset Maugham tinha 37 anos e foi publicado em 1915, é, de certa forma, a narrativa da demonstração desses valores através das fases de opressão e de libertação por que passa e evolui a trajetória de vida do jovemPhilip Carey. Essa trajetória do herói aprendiz da vida e da liberdade tem muito a ver com a biografia do autor, embora não seja ela inteiramente calcada nos acontecimentos que cercaram sua existência. Por isso, no Prefácio, a advertência ao leitor de que não se trata de uma autobiografia, mas de umromance autobiográfico, em que se misturam fatos e ficção de modo inextricável. Assim, muitos dos acontecimentos que marcam a vida do herói do romance reproduzem, na ficção, a realidade da vida do autor, como, por exemplo, a experiência da morte dos pais muito cedo, na infância, a vida na casa dos tios profissionalmente religiosos, órfãos de filhos, como ele órfão de pais, a força desses acontecimentos, em particular o da perda da mãe, que os marcaria, autor e personagem, para sempre. Como lembra Robert Calder em sua “Introdução” à edição do romance da Penguin Books, emseu 90.º aniversário, Maugham conta a um repórter: “Talvez a lembrança que tenho mais presente é a que tem me atormentado por mais de oitenta anos — a morte de minha mãe. Tinha oito anos quando ela morreu e até hoje a dor de sua perda é tão aguda como quando ela se foi”. Quando o escritor morreu em 16 de dezembro de 1965, havia, segundo Calder, três fotografias de Edith Maugham, sua mãe, sobre o criado-mudo de seu quarto. Vários outros episódios do livro reproduzem situações vividas pelo autor, como é o caso da estada de Philip Carey na Alemanha e em Paris, onde, aliás, o autor nasceu, em 1874, filho de um procurador inglês junto à embaixada britânica na França, país que, já escritor de sucesso, ele escolheria para viver boa parte de sua vida, na Côte d’Azur. O episódio de Paris põe em causa a ideologia da vida boêmia na cidade, muito marcada em sua idealização pelo romance de Henry Mürger, Scenes de la vie de bohème, transformado na ópera de Pucini, La Bohème, que lhe dá notoriedade permanente entre as grandes criações da arte de todos os tempos. O que Maugham põe em xeque é a ideologia da privação em nome da arte, situação levada ao seu paroxismo, no romance, pela morte da jovem Fanny Price, sem talento, sem dinheiro, mas impregnada da atmosfera da arte a qualquer custo. Custa-lhe a vida, como, aliás, acontece com a infeliz Mimi na bela ópera de Pucini. Quando Philip Carey se dá conta de sua falta de talento para a pintura, percebe também que insistir na vida de carências e privações é arrastar um fardo de escravidão de que é preciso se libertar. Trata-se de uma servidão material que compõe, com as outras formas de sua experienciação pelo herói, o roteiro de seu processo de amadurecimento e de libertação. Maugham viajou muito, escreveu bastante, conheceu países próximos e distantes, neles viveu, e nos romances, nos muitos contos, nas peças de teatro, nos livros de viagem e no livro de “acerto de contas” Summing up, feito de confissões refletidas e críticas sobre a sua própria obra, seu tempo, suas motivações, suas crenças, preferências, eleições e desafetos, enfim, em toda sua vasta obra, pode-se sentir a profunda inquietação do homem que buscou incessantemente, pela diversidade da experiência de vida, num cenário de grandes transformações da Europa e do mundo, a resposta para a pergunta que gerações arrastaram pelos desertos de abandono produzidos na entressafra de horrores das duas Grandes Guerras: “Qual o sentido da vida, se é que ela tem algum sentido?”. Servidão humana é também uma resposta a essa pergunta-enigma e o encontro de Philip Carey com a revelação que ela traz é uma forma de libertação da condição de escravidão metafísica do ser humano diante da vida e de seus mistérios. A resposta, leve e simples na forma, é densa e pesada no conteúdo, sobretudo porque afirma a existência de conteúdo nenhum. Mas é a forma suprema da libertação do homem do fardo de sua responsabilidade em encontrar na vida um sentido para a própria vida. Quando Philip, no capítulo 106 do livro, fica sabendo da morte de Hayward, amigo desde os tempos de Heidelberg, na Alemanha, ele se lembra do spinoziano Cronshaw, em Paris, do tapete persa que havia ganho de presente e da certeza agnóstica do amigo de que num objeto se achava a resposta para a grande indagação: Pensando em Cronshaw, Philip lembrou-se do tapete persa que ele lhe dera, dizendo-lhe que ele oferecia uma resposta à questão sobre o sentido da vida; e de repente a resposta ocorreu-lhe: ele riu: agora que ele a possuía, era como um quebra-cabeça que você tenta resolver até que a solução lhe é mostrada e você fica se perguntando como é que você não a viu antes. A resposta era óbvia. A vida não tem nenhum sentido. Na Terra, satélite de uma estrela girando no espaço, seres vivos surgiram sob a influência de condições que eram parte da história do planeta; da mesma forma que houve um começo de vida, houve, sob a influência de outras condições, um fim: o homem, não mais significante do que outras formas de vida, não surgiu como o clímax da criação, mas como uma reação física ao meio ambiente.


Nesse momento, e para enfatizar o quanto, nesse caso, Philip Carey está próximo de Somerset Maugham, ou vice-versa, o autor, através do narrador da ficção, introduz, pela lembrança do personagem do romance, uma das histórias confessadamente marcantes na vida do escritor. Trata-se da história de um rei do Oriente que encomenda aos sábios do reino a compilação de todo o conhecimento do homem. Trazem-lhe quinhentos volumes depois de anos. Não tendo tempo de lê-los por ocupação com as coisas do Estado, ordena-lhes que os condensem. Mais tempo decorre e lhe entregam cinqüenta volumes. Mas o rei envelheceu, o trabalho o assoberba e, assim, é preciso mais concisão. Passa-se o tempo. Rei e sábios envelheceram ainda mais e quando, finalmente, o volume único está pronto para lhe ser entregue, o rei está em seu leito de morte, já não pode ler e o conhecimento dessa forma acumulado é-lhe de todo inútil. Essa história que Philip lembra, sob o impacto da morte do amigo e na atmosfera da analogia com o tapete persa que o pessimismo cético de Cronshaw lhe dera de presente, é, com pequenas variações, a mesma história que Somerset Maugham reproduz em Summing up, no capítulo 66, umdos que compõe o traçado das crenças e descrenças do autor, desenhando a confissão de seu agnosticismo e seu encanto pela pequena história do rei oriental que ele lê, com admiração, em La vie littéraire de Anatole France. Há, portanto, muitos pontos de coincidência entre a vida do autor de Servidão humana e a história de vida de seu personagem, herói da construção de sua própria liberdade e do aprendizado da libertação. Outros episódios, contudo, parecem não ter referência autobiográfica, embora tenhamcorrelações simbólicas fortes e permitam associações metafóricas sugestivas. É o caso da gagueira do autor e da deficiência física do personagem que o faz mancar e dos efeitos psicológicos que uma coisa e outra têm sobre os seus respectivos portadores, na vida e na ficção. O problema que Philip Carey tem no pé desde o nascimento e que o atormenta em dimensões que crescem até o clímax da cena em que Mildred Roger, numa discussão de rompimento definitivo, atira-lhe ao rosto, em desafogo de suprema maldade sua condição de aleijado, associado à dependência doentia de Philip a essa mulher sem nenhum encanto, mas de dominação absoluta, foi também interpretado por muitos críticos como uma espécie de alegoria da homossexualidade do autor. Isso, num tempo em que a sua assunção era plena de conseqüências na sociedade inglesa, conseqüências cujo peso e gravidade Somerset Maugham e seus contemporâneos certamente conheciam e dimensionavam inclusive por tudo o que ocorrera com Oscar Wilde na coragem de seus enfrentamentos sociais. No longo episódio da dependência psicoafetiva de Philip em relação à Mildred Roger, dependência cuja superação é uma das provas mais duras por que passa o herói no processo educacional da formação de seu caráter, o binômio escravidão-liberdade mostra-se com uma densidade dramática muito alta, uma narratividade envolvente e uma força argumentativa de forte apelo persuasivo na expressão das grandes misérias e das pequenas grandezas da condição humana. Esse episódio é tão rico de sugestões dramáticas e tão autônomo como unidade narrativa que os três filmes que se fizeram baseados no romance foram centrados sobre ele. Nenhum deles, contudo, reproduziu, pelas atrizes que representavam o papel de Mildred, a androginia de seu tipo físico, uma certa masculinidade de traços e de porte, o que motivou, inclusive, algumas interpretações de que o caso Philip/Mildred seria a expressão disfarçada de uma relação do autor, com um dos amigos, nos anos da juventude. Dos três filmes, o primeiro, de 1934, que teve, no Brasil, o nome Escravos do desejo, comBette Davis no papel de Mildred, é, a meu ver, o melhor. Mas os outros dois, em termos de atrizes, não ficam a perder: em 1946 esse papel coube a Eleanor Parker e em 1964, inesquecível pela maldade luminosa encarnada na beleza da estrela, a Kim Novak. O que mais aproximou a personagem na tela da personagem no romance foi, contudo, o primeiro, até pela maior proximidade da deslumbrante e terrível ausência de graça da atriz e da Mildred Roger do livro. Vê-se, assim, que, de um modo ou de outro, por caminhos diretos ou por curvas contornantes, a afirmação de Somerset Maugham de que seu romance, não sendo uma autobiografia, é, contudo, autobiográfico, faz todo o sentido mesmo nos episódios menos consciente e confessadamente intencionais nessa linha, como é o caso da relação de Mildred e Philip e das forças que os aproximam e repelem até a perda e a queda definitivas da primeira e da libertação física e psicológica do segundo. Isso, é claro, se se atribuir algum acerto a interpretações tais como as acima apresentadas. Entretanto, independentemente das motivações mais ou menos distantes entre a realidade da vida e a vida da ficção, Servidão humana é um romance que vale por si e que permanece como uma obra de mestre e como mestre de uma obra diversificada e rica em gênero, quantidade e qualidade. Servidão humana inscreve-se num gênero de romance de longa tradição, o do romance de formação, de adolescência ou de aprendizagem — Bildungs Roman, que remonta ao Dom Quixote, de Cervantes, ao Wilhelm Meister, de Goethe, e a uma série de títulos de obras bem-sucedidas e de sucesso que incluem desde Gil Blas, Tom Jones, Cândido, A nova Heloísa, as obras do Marquês de Sade, no que concerne à educação sexual e grandes romances do século xix como As ilusões perdidas, e O pai Goriot, de Balzac, O vermelho e o negro, de Stendhal, e A educação sentimental, de Flaubert, além de obras de Dickens, Victor Hugo e, mais proximamente da época da publicação do romance de Maugham, Filhos e amantes, de D. H.

Lawrence, e Retrato do artista quando jovem, de James Joyce. A galeria é enorme e as obras-primas ou de referência no gênero são muitas, ao longo do tempo. Servidão humana é também, no próprio sentido da educação e da aprendizagem do herói adolescente, um romance realista-naturalista, no qual as forças de escravização do ser humano —físicas, psicológicas, religiosas e morais — vão sendo superadas e as provações por que ele passa vão dando medida do processo progressivo de seu amadurecimento e de suas conquistas sobre si mesmo e sobre o mundo. Aqui a admiração de Maugham por Flaubert e, em especial, por Maupassant se mostra de corpo inteiro e se concretiza na expressão de um estilo narrativo de primeira linha, envolvente e cativante, mas é também um romance moderno, se não tanto pela forma, ao menos pela ousadia dos conteúdos e pela formulação narrativa da aventura da busca inútil e da venturosa inutilidade da descoberta do vazio da metafísica: a vida não tem sentido e a morte, nenhuma conseqüência. Contudo, o romance termina numa visão otimista com o herói encontrando na simplicidade do amor-afeição, loving-kindness, como o chama o autor no capítulo 77 de Summing up, que o casamento com a jovem Sally Athelny representa, a paz e a tranqüilidade que a paixão, o amor sexual, como Maugham o chama no mesmo capítulo, não pode dar. Otto Maria Carpeaux, a propósito de Servidão humana, escreveu em sua História da literatura ocidental que Somerset Maugham “é o pessimista mais sistemático da literatura do século xx”. Talvez o crítico tenha razão, mas é preciso contrabalançar essa opinião com o fato de que, na ficção, ao menos nesse romance, a saída é redentora e — o que é mais surpreendente — pelo modo convencional, o do casamento que, no entanto, não se realiza, ele próprio, por mera convenção ou por incandescência sexual, mas por afeição duradoura e construtiva. E aqui voltamos, de maneira nada convencional, aos três pilares da sabedoria dos tempos de que nos fala o autor em Summing up. Dos três — Verdade, Beleza e Bondade — Somerset Maugham elege a última como tendo valor intrínseco e permanência porque associado ao amor-afeição (loving-kindness). É por ele e com ele que podemos nos libertar do fardo da servidão, se pudermos, humana. Desse modo, o conceito mais adequado para caracterizar a atitude e a postura intelectual e existencial de Somerset Maugham seja mesmo o que ele próprio escolheu para se definir, o de agnosticismo e não de pessimismo, ou talvez ainda o de ceticismo crítico que funda modernamente toda uma visão do mundo que desconfia e desacredita, para construir. Mas Carpeaux é infalível quando comenta a fortuna crítica e o destino venturoso de Servidão humana e de outras obras do escritor: Maugham deve a imensa popularidade ao seu grande talento de narrador, ao humor tipicamente inglês e, antes de tudo, à capacidade de fazer o leitor acreditar no que conta. Quase sempre fala na primeira pessoa do singular: é franco como um amigo fidedigno e dá ao leitor a ilusão de conhecer, com ele, a vida e o mundo, o vasto mundo. Aquele grande romance e muitos contos de Maugham são literatura “popular” que resistirá ao tempo. Assim, realista por saber criar, como poucos, a ilusão desencantada da realidade e moderno por tratar com argúcia e encantamento a realidade da ilusão, Servidão humana permanece como obra maior no gosto do leitor de todos os tempos desde o ano de sua publicação, há quase um século, em1915. Carlos Vogt 1 O dia rompeu cinzento e triste. As nuvens pairavam pesadamente, e havia no ar certa aspereza que era uma promessa de neve. Penetrando no quarto em que dormia uma criança, a criada cerrou as cortinas, após lançar um olhar maquinal à casa em frente, um prédio revestido de estuque comcolunas no portal, e caminhou em direção ao leito. — Acorde, Philip — disse ela. Puxando as cobertas, tomou-o nos braços e desceu as escadas. Philip ia ainda meio adormecido. — Sua mamãe deseja vê-lo — acrescentou a criada. Abriu a porta de um quarto no andar térreo e conduziu a criança até a cama em que jazia uma mulher. Era a mãe do pequeno. Estendeu os braços para o filho, que se aninhou ao seu lado sem perguntar por que razão o tinham acordado.

A mulher beijou-lhe os olhos e, com as mãos delicadas e magras, procurou sentir o calor do pequeno corpo através da alva camisola de flanela. Aconchegando-o ainda mais a si, perguntou. — Está com sono, querido? A voz era tão débil que parecia vir de muito longe. O garoto não respondeu, mas sorriu satisfeito. Sentia-se feliz no leito grande e quente, enlaçado por aqueles braços macios. Procurou fazer-se ainda mais pequenino, encolhendo-se de encontro ao corpo da mãe, e beijou-a sonolentamente no rosto. Fechou os olhos, logo após, e adormeceu profundamente. O médico aproximou-se então da cama. — Por favor, não o levem ainda! — gemeu ela. Sem responder, o médico olhou para ela com ar grave. Sabendo que não lhe permitiriam ficar com a criança por muito tempo, a mulher tornou a beijá-la, correndo a mão ao longo do corpo até alcançar-lhe os pés. Segurou o pé direito, apalpou, um a um, os cinco dedinhos, e em seguida passou lentamente a mão pelo pé esquerdo. Deixou escapar um soluço. — O que houve? — disse o doutor. — A senhora está cansada. Ela balançou a cabeça, impossibilitada de falar, enquanto as lágrimas lhe rolavam pelas faces. O médico inclinou-se sobre o leito. — Deixe-me levá-lo. Estava tão fraca que não pôde opor qualquer resistência. O menino foi entregue à criada. — É melhor levá-lo para a cama dele. — Pois não, doutor. Ainda adormecido, o garoto foi conduzido para cima. A mãe agora soluçava, com desespero. — Que será feito do pobrezinho? A enfermeira tentou acalmá-la, até que o pranto cessou pelo cansaço.

O médico dirigiu-se a uma mesa, no outro lado do quarto, sobre a qual, coberto por uma toalha, jazia o corpo inanimado de umrecém-nascido. Levantando a toalha, o doutor olhou. Um biombo o separava da cama, mas a mulher parece que adivinhou de que se tratava. — Era menina ou menino? — cochichou para a enfermeira. — Outro menino. A doente não disse mais nada. Pouco tempo depois, a ama de Philip regressava, aproximando- se do leito. — O menino não chegou a acordar — disse ela. Seguiu-se uma pausa. O doutor examinou então, mais uma vez, o pulso da enferma. — Nada me resta fazer no momento — observou ele. — Voltarei depois de comer. — Vou levá-lo até a porta, doutor — disse a ama. Desceram as escadas em silêncio. No hall o médico parou por um instante. — Já mandou chamar o cunhado de mrs. Carey? — Mandei, doutor. — Sabe a que horas deverá chegar? — Não, senhor. Estou esperando um telegrama. — E o menino? Achava melhor afastá-lo daqui. — Miss Watkin disse que o levaria. — Quem é ela? — É a madrinha do menino, doutor. Acha que mrs. Carey resistirá? O médico sacudiu a cabeça negativamente. 2 Passara-se uma semana.

Philip estava sentado no soalho da sala de visitas de miss Watkin, na sua casa de Onslow Gardens. Era a única criança da casa e estava habituado a brincar sozinho. A sala era dotada de sólido mobiliário e em cada um dos sofás viam-se três grandes almofadas. As poltronas tinham também as suas almofadas. Servindo-se delas e dos banquinhos dourados, leves e fáceis de transportar, conseguira improvisar uma espécie de caverna onde se escondia dos pelesvermelhas emboscados atrás das cortinas. Encostou o ouvido ao soalho e fingiu ouvir o tropel dos búfalos que se precipitavam através da planície. Sentindo que a porta se abria, prendeu por ummomento a respiração com medo de ser descoberto; um puxão violento afastou, entretanto, uma das cadeiras e as almofadas caíram ao chão. — Menino levado! Miss Watkin vai ficar zangada com você. — Olá, Ema! — disse ele. A ama-seca inclinou-se e beijou-o, ocupando-se depois em sacudir as almofadas e colocá-las nos respectivos lugares. — Vou voltar para casa? — perguntou ele. — Vai, sim. Vou levá-lo comigo. — Você está com um vestido novo, Ema. Era 1885, e ela usava anquinhas. Seu vestido era de veludo negro, com mangas justas, ombros inclinados e saia de armação, com três grandes babados. Usava também uma touca preta com cordões de veludo. Ema hesitou. Como esperava outra pergunta, não pôde dar a resposta que preparara. — Você não se interessa em saber como está a sua mamãe? — indagou por fim. — Oh, me esqueci! Como está a mamãe? Chegara a ocasião. — Sua mamãe está bem e é muito feliz. — Oh, que bom! — Sua mamãe foi embora. Você não a verá mais. Philip não compreendia o que a ama queria dizer.

— Por quê? — Sua mamãe está no céu. Começou a chorar, e Philip chorou também, embora não compreendesse bem aquilo. Ema era uma mulher alta e ossuda, de cabelos louros e rosto largo. Viera de Devonshire e, apesar da longa residência em Londres, não perdera ainda o sotaque de sua região. As lágrimas aumentaram-lhe a emoção. Apertou o menino de encontro ao peito. Sentia pena daquela criança privada do único amor desinteressado no mundo. Afigurava-se-lhe horroroso ter de entregá-la a estranhos. Em poucos minutos, entretanto, recuperou o controle dos nervos. — O tio William está esperando por você — falou ela. — Vá dizer adeus a miss Watkin. — Não quero dizer adeus! — retrucou o pequeno, procurando instintivamente esconder as lágrimas. — Está bem. Então vá correndo buscar o seu chapéu. O menino obedeceu, e ao descer encontrou Ema à sua espera na saleta. Ouviu o som de vozes no gabinete que ficava por trás da sala de jantar. Parou de repente. Sabia que miss Watkin e a irmã estavam conversando com algumas amigas e parecia-lhe que sua presença lá — Philip já completara nove anos de idade — faria com que elas se pusessem a lamentar a sua sorte. — Acho que vou mesmo me despedir de miss Watkin. — É melhor. — Vá na frente para avisar — pediu ele. Desejava tirar o maior proveito daquela oportunidade. Ema bateu à porta e entrou. Philip ouviua falar. — Philip quer despedir-se da senhora.

A conversa foi subitamente interrompida e o menino entrou coxeando. Henrietta Watkin era uma mulher forte, de rosto vermelho e cabelos tingidos. Naquele tempo tingir os cabelos suscitava comentários. Philip ouvira muitos em casa, quando sua madrinha fez isso. Vivia ela com uma irmã mais velha que se conformara com a velhice. Duas senhoras, que Philip não conhecia, estavamvisitando miss Watkin. As desconhecidas olharam-no com curiosidade. — Meu pobre menino! — exclamou miss Watkin, abrindo os braços. Começou a chorar. Philip compreendeu então a razão de sua ausência ao almoço e por que ela trajava um vestido negro. Miss Watkin via-se impossibilitada de falar. — Tenho que ir para casa — disse Philip, por fim. Desvencilhou-se dos braços de miss Watkin, que o beijou novamente, e foi dizer adeus à irmã de sua madrinha. Uma das senhoras estranhas perguntou se podia beijá-lo, permissão que o garoto concedeu com gravidade. Embora chorasse, apreciava enormemente a sensação que estava provocando. Gostaria de ficar um pouco mais para continuar sendo alvo das atenções, mas como sentisse que aguardavam a sua retirada, alegou que Ema estava esperando por ele. Saiu do quarto e andou à procura de Ema, que havia descido para falar com uma amiga. Nesse meio-tempo ouviu a voz de Henrietta Watkin. — A mãe dele era a minha melhor amiga. Custa-me acreditar que ela tenha morrido. — Não devia ter ido ao enterro, Henrietta — advertiu a irmã. — Eu sabia que isso ia lhe pôr nervosa. Uma das visitantes disse: — Pobre menino! E horrível pensar que o coitadinho está agora só no mundo. Notei que ele mancava. — Um dos pezinhos é torto.

Esse defeito entristecia tanto a mãe dele! Ema regressou. Chamaram um carro e ela disse ao cocheiro para onde devia ir. 3 Ao chegarem à casa em que morrera mrs. Carey, situada numa respeitável mas desolada rua de Kensington, entre Notting Hill Gate e High Street, Ema conduziu Philip à sala de visitas. Seu tio estava escrevendo cartas de agradecimento pelas coroas que os amigos haviam enviado. Uma delas se achava ainda sobre a mesa da saleta, numa caixa de papelão, pois chegara tarde demais para o enterro. — Aqui está o menino Philip — disse Ema. Mr. Carey levantou-se devagar e apertou a mão do pequeno. Depois, refletindo, inclinou-se e beijou-o na testa. Era um homem de estatura um pouco inferior à normal e com tendência para a obesidade; usava cabelos compridos arranjados sobre a cabeça de modo a ocultar a calvície. Trazia a barba sempre raspada e era de supor que em sua mocidade tivesse sido um bonito rapaz. Da corrente do seu relógio pendia uma cruz de ouro. — De hoje em diante você vai viver comigo, Philip — falou mr. Carey. — Está alegre com a notícia? Dois anos atrás Philip fora passar uns tempos no vicariato após um ataque de varicela. Durante esse período, a lembrança de um sótão e de um grande jardim gravou-se-lhe mais na mente que a de seus tios. — Fico — respondeu ele. — Deve considerar-nos, a mim e à sua tia Louisa, como seus verdadeiros pais. Os lábios da criança tornaram-se trêmulos, as faces enrubesceram, mas não se lhe ouviu observação alguma. — Sua querida mãe deixou-o aos nossos cuidados. Mr. Carey não tinha muita facilidade de expressão. Quando chegou a notícia de que sua cunhada se achava à morte, partiu imediatamente para Londres, mas no caminho não pensou senão no transtorno que sua vida iria sofrer caso fosse obrigado a tomar conta do garoto. Contava já mais de cinqüenta anos e sua mulher, com quem vivia há trinta, não lhe dera filhos; não sentia prazer nenhum na idéia de ter em casa um pequeno que podia ser barulhento e malcriado.

Além disso, nunca apreciara muito a cunhada. — Vou levá-lo para Blackstable, amanhã — disse ele. — Com Ema? A criança colocou a mãozinha na da ama, que a apertou. — Acho que Ema terá de ir embora — disse mr. Carey. — Mas eu quero que Ema venha comigo! Philip começou a chorar e a ama, por sua vez, não conseguiu conter as lágrimas. Mr. Carey olhava para os dois, sem saber o que fazer. — Peço-lhe que me deixe só com Philip, por um momento. — Pois não, senhor. Embora o menino se agarrasse a ela, conseguiu desvencilhar-se com brandura e sair. Mr. Carey sentou Philip sobre os joelhos e cingiu-o com o braço. — Não precisa chorar. Já está crescido demais para ter uma ama. Temos que pensar em mandá- lo para a escola. — Quero que Ema me acompanhe — repetiu a criança. — Isso nos custará muito dinheiro, Philip. Seu pai não deixou lá grande coisa, e além disso não sei o que foi feito do pouco que deixou. Convém não desperdiçar um único vintém. Na véspera, mr. Carey visitara o advogado da família. O pai de Philip era um cirurgião com boa clientela e os cargos que exercia em diversos hospitais faziam pensar numa situação sólida. Causou surpresa, portanto, após a sua morte súbita por envenenamento do sangue, verificar-se que o pobre homem deixara à viúva pouco mais do que o seguro de vida e o pouco que seria possível obter com o aluguel de sua casa em Bruton Street. Isso tudo ocorrera seis meses antes.

Mrs. Carey, com a saúde já abalada e à espera de um bebê, perdeu a cabeça e aceitou a primeira oferta que lhe fizeram. Mandou guardar a mobília num depósito e, pagando aluguéis que o pároco considerava exorbitantes, instalou-se numa nova casa com contrato de um ano a fim de não passar por novos aborrecimentos até que a criança nascesse. Não estava, porém, acostumada a lidar com dinheiro, e não soube adaptar as despesas às novas circunstâncias. O pouco de que dispunha escorregou-se-lhe por entre os dedos de uma maneira ou de outra, e agora, com todas as despesas pagas, restavam apenas umas duas mil libras com que garantir o sustento do garoto enquanto não atingisse idade suficiente para trabalhar. Seria impossível explicar tudo isto a Philip, que continuava soluçando. — É melhor ir falar com Ema — disse mr. Carey, compreendendo que ela saberia consolar a criança melhor do que ninguém. Philip saltou dos joelhos do tio sem pronunciar uma só palavra, mas mr. Carey o deteve. — Temos de ir amanhã porque no sábado preciso preparar o meu sermão. Diga a Ema para arrumar ainda hoje as suas coisas. Pode levar todos os brinquedos. Se quiser guardar alguma lembrança de seu pai e de sua mãe, pode ficar com um objeto de cada um deles. O resto vai ser vendido. O menino deixou a sala. Mr. Carey, que não estava habituado ao trabalho, voltou às suas cartas com certo mau humor. À beira da secretária havia um maço de contas que o irritava demasiadamente. Uma delas, especialmente, parecia-lhe absurda. Logo após a morte de mrs. Carey, Ema encomendara ao florista vários ramalhetes de rosas brancas para enfeitar o aposento em que estava a morta. Era jogar dinheiro fora. Ema ultrapassara as suas atribuições. Iria despedi-la, mesmo que não o obrigasse a tanto a falta de recursos.

Philip procurou a ama, escondeu o rosto no seu seio e chorou amarguradamente. Ela, por sua vez, sentindo que o pequeno era quase seu filho (criara-o desde a idade de um mês), fazia o possível por consolá-lo com palavras meigas. Prometeu visitá-lo de vez em quando, jurando não esquecê-lo jamais. Falou sobre o lugar para onde Philip ia e descreveu a sua casa em Devonshire. Seu pai era guarda-cancela na estrada de Exeter; havia porcos no chiqueiro e uma vaca que acabara de ter umbezerrinho. Philip esqueceu-se das lágrimas e entusiasmou-se ante a expectativa da próxima viagem. A ama colocou-o no chão. Havia muito que fazer e Philip ajudou-a a arrumar as suas roupas sobre a cama. Ema lhe disse que fosse buscar os brinquedos, e dentro de poucos minutos ele se divertia alegremente. Por fim cansou-se de estar sozinho e voltou ao quarto de dormir; Ema estava colocando as suas coisas dentro de um grande baú de lata. Recordando-se de que lhe fora permitido levar uma lembrança de seu pai e outra de sua mãe, perguntou a Ema que objetos deveria escolher. — Vá até a sala de visitas e veja o que mais lhe agrada. — Titio William está lá. — Não tem importância. Os objetos são seus agora.

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