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A Siciliana – Sveva Casati Modignani

Mark Fawcett, repórter sensacionalista do New York Times, hesitou entre o assobio da chaleira e o toque do telefone. Prevaleceu o interesse pela chamada, mas tinha de interromper o silvo do vapor se queria manter uma conversa decente com o interlocutor do outro lado da linha. Arriscou–se a uma catástrofe ao escorregar num pano de limpeza abandonado no chão na noite anterior, conseguiu fechar o gás e atender o telefone, esquecendo–se de que tinha a cara coberta de espuma da barba, branca e fofa como a neve que via descer no enquadramento da janela. Sabe–se lá porquê, mas até as operações mais simples como a de fazer a barba, preparar um café e atender o telefone se tinham tornado desgraçadamente complexas depois de Carolyn ter partido. – Estou! – gritou para o telefone, desfiando logo a seguir um rosário de imprecações: a espuma da barba tinha entupido o auricular, impedindo–o de ouvir. Quando restabeleceu a ligação ouviu uma voz metálica, inconfundivelmente emitida por satélite, que concluía um breve discurso com uma exclamação: DINAMITE! – Sejas lá tu quem fores, diz–me o teu nome e recomeça do princípio – gritou. – O que te aconteceu, Mark? – interrogou, perplexo, o interlocutor. – É uma longa história – replicou Mark, reconhecendo finalmente a voz de Gianni Ricci, chefe de redacção do Giornale di Sicília, que lhe estava a ligar de Palermo. Eram da mesma idade, quarenta e quatro anos, e tinham vivido juntos quando Ricci morara em Nova Iorque, num pequeno apartamento em Bleeker Street, e sonhava com horizontes de glória. – Desculpa se te acordei – disse, – mas tenho uma notícia para ti que é dinamite. – Então percebi bem a última palavra. – Confirma–se, Mark. É ela, sem sombra de dúvida. Não é uma bomba? Por um instante, Mark Fawcett teve a nítida sensação de que o seu coração tinha parado; depois o sangue recomeçou a circular tumultuosamente. Acontecia–lhe sempre aquilo quando achava que tinha descoberto uma notícia sensacional. – Apetecia–me beijar–te, Gianni. Apetecia–me dar–te beijos na boca – exultou, abandonando– se a uma gargalhada libertadora. – Eu amo–te, mas não a esse ponto – brincou o colega italiano. – Então conta–me direito a história toda: de A a Z – suplicou, preparando–se para ouvir. Estava dominado por uma excitação irrefreável, quase infantil, enquanto as palavras do amigo distante suscitavam nele imagens precisas e de raro encanto. Assim, Mark viu os muros de um convento, os interiores de abóbadas cobertas de frescos com opulentas figuras barrocas de santos e de mártires, os arcos do claustro relvado suportados por pequenas colunas retorcidas de influência árabe, um poço de pedra esculpida, um céu límpido e cheio de sol. E depois ela, com um hábito negro de freira que, em vez de a martirizar, lhe acentuava a beleza, os cabelos cobertos por uma touca imaculada, o rosto prisioneiro do colarinho engomado. – Vens cá? – perguntou Gianni. – Podes contar comigo. Depois mando–te dizer em que voo chego a Palermo.


Não vale a pena pedir–te silêncio. – De um velho mafioso como eu só podes esperar solidariedade absoluta – brincou Gianni e desligou. Mark dirigiu–se para o jornal de metropolitano. Com o seu próprio carro correria o risco de ficar preso no trânsito caótico de sexta–feira, tornado ainda mais difícil pela neve que continuava a cair. Sentia–se como um perdigueiro que descobriu um rasto de caça. Naquela manhã, pela primeira vez depois de Carolyn o ter deixado, não pensou nela. Nem seqüer nas crianças. A sua entrada no gabinete de Burt Ritman, o chefe de redacção, foi uma verdadeira invasão. – Não vais adivinhar – atirou–lhe. – É muito improvável, se não me fizeres uma pergunta concreta – replicou Burt. Era um homemde sessenta anos, vivo, activo e brilhante, que ostentava com desenvoltura juvenil um físico de lutador. Tinha consumido quarenta anos da sua vida no jornalismo activo. Começara como corrector de provas, quando nas redacções se respirava chumbo, e estava prestes a atingir o topo da profissão. Conhecia todos os segredos do jornal. – É inútil obrigar–te a fazer esforços. Nunca ias adivinhar repetiu Mark, com um entusiasmo infantil. – O Reagan e o Gorbatchov fugiram juntos para a Suíça onde pediram asilo político – replicou o chefe de redacção com uma piada que pretendia esconder o seu desapontamento crescente. Comtodas as complicações que tinha para enfrentar naquele dia, só lhe faltavam as adivinhas. Mark era um bom jornalista, sempre envolvido ao mesmo tempo em pelo menos três ou quatro frentes, umdesorganizado lúcido e racional que conseguia, no entanto, orientar–se nos seus labirintos confusos. Burt estimava–o e respeitava–o, mas aquele não era dia para enigmas. – Encontrei–a – explicou, desvelando um elemento para lhe permitir identificar a pessoa misteriosa. – Uma mulher, portanto – disse lentamente Burt, deixando–se apanhar pela curiosidade. – Uma mulher de quem andamos à procura, uma mulher importante – acrescentou, acelerando o discurso. – ELA? – explodiu, depois de um instante de reflexão. – ELA! – confirmou Mark.

– Onde está? – perguntou, excitado. – Em Villarosa – respondeu Mark que, tendo extraído do bolso um pequeno mapa da Sicília, o abriu em cima da secretária do chefe, indicando um pequeno ponto. Exultavam como jovens emprincípio de carreira. Tinham a profissão no sangue e conseguiam ainda emocionar–se por causa de uma notícia. – Que raio de lugar é esse? – perguntou Burt, lendo, com o auxílio de uma lupa, o nome da localidade escrito com uma letra minúscula. – Uma aldeia microscópica. No interior da ilha. No meio das montanhas – tentou explicar Mark. – E o que é que ela está lá a fazer? – É freira. – Não me digas – exclamou Burt, passando uma mão pelo cabelo ralo e aloirado. Abanou a cabeça, mordendo o lábio inferior. – Dá pelo nome de irmã Anna. – Mark, tens mesmo a certeza? – perguntou, com uma ponta de preocupação. – A fonte é muito fiável. E era só uma confirmação. Recordou uma manhã de Julho, havia seis meses. Ele vinha da Catânia e ia para Palermo, passando por Enna. Carolyn estava lá. E as crianças também. As últimas férias juntos a tentar remendar os farrapos de um casamento irreparavelmente arruinado. Perto de Calascibetta tinhamencontrado um carro avariado. Era um velho Fiat com uma freira ao volante e outras duas freiras desesperadamente debruçadas sobre o motor. Perscrutavam aquele universo desconhecido a rezar intensamente ao Senhor para que as ajudasse. Mark saiu do carro para ajudar as religiosas e, depois de um rápido exame, apercebeu–se de que a boa vontade e o pouco de competência que tinha não eram suficientes para voltar a pôr o carro em condições de andar. O radiador estava irremediavelmente furado.

“Precisamos de um pronto–socorro. Ou de um reboque”, aconselhou Mark, ostentando todo o italiano que conhecia. “Posso dar boleia a uma das senhoras no meu carro, se quiserem. Mais nada.” Ofereceu–se, compensando com gestos as insuficiências lingüísticas. “Não, muito obrigada”, interveio com firme cortesia a freira que estava ao volante. “Nós temos de continuar juntas. O senhor pode ajudar–nos de outro modo. Fazendo um telefonema. Há uma aldeia a seis quilómetros daqui. Ligue para este número e explique a nossa situação”, pediu–lhe, estendendo uma pequena folha onde estava escrito um número de telefone a tinta verde. Espantaram–no o verde brilhante da tinta e o cinzento dourado dos olhos da freira. Olhava perplexo para um e para o outro sob aquele sol implacável. A freira falava italiano mas o seu sotaque era estranho, talvez americano, e lembra–lhe alguma coisa e alguém. Procurou uma resposta para as perguntas que rodopiavam na sua cabeça. Interrogava–se sobre aquele rosto na penumbra dentro do carro, um rosto pálido, quase diáfano, já não muito jovem mas que também não era velho, de uma beleza ascética, iluminado por aqueles esplêndidos olhos cinzentos. “Por favor”, pediu–lhe. “Não é muito agradável esperar debaixo deste sol.” A sua voz era simpática mas segura. Doce e autoritária. “Pode contar comigo, irmã”, tranqüilizou–a. Ele, Carolyn e os miúdos voltaram a entrar no carro e vinte minutos mais tarde conseguia telefonar para o Convento de Santa Caterina e transmitir o pedido de auxílio. Mark continuou durante dias atormentado com aquele encontro, a tentar recordar quem e o quê lhe evocava a expressão tão doce e sofrida da freira. Tentou por fim convencer–se de que se estava a afligir inutilmente por causa de uma impressão que se devera provavelmente ao sol e ao calor. Uma espécie de alucinação ou de miragem.

As férias continuaram durante mais dez dias e terminaram na companhia de Gianni Ricci e da mulher. A seguir regressou a Nova Iorque. Em Setembro, Carolyn descobriu a sua última transgressão matrimonial, uma loira engraçada, desinibida e disponível; e deixou–o. Em Outubro regressou, para levar o resto das coisas. Em Novembro também ele mudou de casa, e no meio das arrumações encontrou, no bolso de umas jeans, um pequeno papel amarrotado com um número de telefone escrito a tinta verde brilhante. Amarrotou–o e deitou–o no cesto dos papéis. Depois meteu as mãos numa gaveta onde estavam amontoados velhos apontamentos que se referiam a investigações passadas: histórias de subornos, ilegalidades, intrigas políticas, conivências entre a Máfia e o poder. O cesto dos papéis estava quase cheio e a gaveta meia vazia quando apareceu um pequeno cartão onde estava escrito um número de telefone. Na sua cabeça, a ligação foi imediata: era a mesma tinta verde do papel de há pouco. Repescou–o febrilmente para submeter a folha e o cartão a um exame mais atento. Não havia dúvidas, os números pareciam escritos pela mesma mão e com a mesma tinta. Depois virou o cartão, que tinha impresso com uma elegante letra em relevo o nome de Nancy Carr. Nancy tinha–lhe dado aquele cartão muitos anos antes. Como é que não pensara nisso? Lembrou–se de tudo. O Verão anterior, a Sicília, a freira; era Nancy Carr, a mulher poderosa e badalada que cinco anos antes tinha desaparecido misteriosa e repentinamente da cena política americana. Lançou então um apelo ao seu amigo Gianni Ricci para uma confirmação, que chegou pontualmente. Burt olhou–o bem nos olhos. – Tens mesmo a certeza? – repetiu. – Aposto a minha vida. A carreira. Os tomates. A minha mãe. A irmã Anna é Nancy Carr. Ou, se preferes, Nancy Pertinace, cinqüenta anos, deputada democrata no Congresso, por Queens. Estava excitado e feliz.

– É a mulher que estava para se tornar mayor desta cidade. – Se tens tanta certeza, o que é que estás aqui a fazer? – vociferou Burt. – Por que é que não estás a voar em direcção àquela ilha de mafiosos? E tem cuidado – espicaçou–o –, quero um trabalho realmente sensacional. Quero saber tudo sobre ela. Como conseguiu desaparecer de um dia para o outro sem deixar rasto. E, sobretudo, como e por que razão é que ela, rica, fascinante, lindíssima e poderosa, passou de Manhattan para o mosteiro de Santa Caterina. Pode ser que tenha sido iluminada a caminho de Palermo, mas é mais verosímil que tudo esteja envolto num mistério que, em qualquer caso, vale a pena investigar. Em Villarosa, Mark Fawcett esperou durante quatro dias. Na manhã do quinto dia, quando estava mais uma vez preparado para uma longuíssima espera, foi autorizado a passar do locutório e a entrar na área rigorosamente protegida da clausura. A sua guia, sorridente e cordial, uma freirinha redonda e fofa como um novelo de lã, foi ao encontro dele por baixo de um pórtico elegante que delimitava um pequeno pátio alegrado por canteiros floridos em volta de um poço antigo de pedra esculpida. O ar de Janeiro era tépido e calmo como um belo dia de Primavera em Nova Iorque. Estava fascinado com a doçura que persistia no rosto da freira e com as pequenas flores vermelhas e amarelas, cujo nome gostaria de saber, que tornavam ainda mais simpático o verde tenro da relva. A religiosa convidou–o a segui–la com um gesto de cabeça quase imperceptível. A sensação que Mark experimentou foi a de recuar no tempo. Entre aqueles muros antigos respirava–se o perfume da fé e, à medida que ia penetrando naquele lugar lindíssimo e sugestivo, apagava–se o último eco do frenesim do mundo. A freirinha redonda e fofa passou à frente dele através de uma porta maciça de nogueira esculpida. Antes de entrar, Mark leu na parede ao lado da porta uma palavra em letra gótica: Hospedaria. Entrou e achou–se numa grande sala quadrangular de paredes caiadas de uma brancura ofuscante e um tecto de traves de madeira enegrecidas pelos séculos. Estremeceu de um frio antigo e solene de catedral, levemente atenuado pelo grosso toro que crepitava na grande lareira de pedra cinzenta comduas poltronas na frente. A sua guia indicou–lhe uma delas e, sempre em silêncio, sorriu–lhe e saiu. Mark ficou sozinho naquele cândido silêncio afagado pelos reflexos rosados do fogo e foi invadido por um sentimento indecifrável, feito de beatitude e de uma ânsia subtil. A incerteza do encontro não se tinha dissipado por completo, apesar de se ter atenuado fortemente pela paz solene daquele lugar maravilhoso. A abadessa severa, com a qual tinha combinado a sua chegada, nunca lhe tinha negado um encontro com a irmã Anna, mas também não lho tinha garantido. Mark ia sentar–se quando julgou ouvir, atrás de si, um vago rumor, tão ligeiro como o bater de asas de uma borboleta. Virou–se e encontrou–a à sua frente.

Entreabriu os lábios para falar mas da sua boca não saiu nenhum som. Uma figura imóvel e lindíssima, em hábito monástico, olhava–o comgrandes olhos cinzentos e penetrantes, salpicados de ouro. – Mrs. Carr – conseguiu finalmente balbuciar. – Irmã Anna – corrigiu ela. A sua voz, doce mas decidida, provocou–lhe um arrepio. A religiosa sentou–se em frente à lareira e, com um gesto, convidou–o a fazer o mesmo. Com desenvoltura, cruzou as pernas, produzindo um rumor de tecido. Por baixo do hábito severo, Mark intuiu a figura esbelta e harmoniosa que tinha admirado havia muitos anos, dez para ser exacto, quando ela era uma estupenda mulher de quarenta anos na crista da onda do sucesso. Nessa altura, muitos homens, importantes ou não, ele incluído, teriam feito qualquer coisa para se enfiar na cama dela, que era vedada a todos, dizia–se, excepto ao afortunado e insignificante marido. Ao fim de tanto tempo, Mark sentia a mesma atracção. O sangue quente afluiu– lhe ao rosto e pulsou–lhe nas têmporas, enquanto o desejo se disseminava, atiçado por aquela presença, por aqueles olhos salpicados de ouro, por aquele vago rumor de tecido do qual emanava um delicado perfume de alfazema e de mulher. Tropeçou algumas vezes nas palavras na tentativa de iniciar um diálogo. A freira teve para ele um sorriso de compreensão. A forma como gesticulava, olhava e sorria, não era a de uma religiosa. Continuava a prevalecer nela, apesar do hábito, do lugar e dos anos, a mulher forte, audaz e fascinante que o mundo tinha conhecido. – O que quer de mim, Mr. Fawcett? – perguntou, tomando a iniciativa. – Não imagina? – perguntou ele, por sua vez. – Esperava algo de mais original e de mais nobre do que a intrusão habitual e grosseira na vida privada de uma pessoa que escolheu a meditação, a oração e o silêncio. O senhor quer a história clamorosa, a notícia sensacionalista – replicou com um súbito rubor, ao mesmo tempo que a raiva cintilou nos seus olhos, tornando–a ainda mais bonita. – É isso mesmo – admitiu Mark. – Qualquer justificação seria inútil – disse, recuperando a frieza necessária. – A senhora sabe perfeitamente quais poderiam ser as minhas objecções. Basta–lhe saber que eu não sou um missionário, sou uma testemunha.

Faço o meu trabalho, Mrs. Carr – acrescentou, mudando de tom e de registo. – O senhor tem obrigações quanto a este lugar e relativamente à religiosa que está na sua frente – reagiu ela prontamente. – Eu apenas tenho a obrigação de servir o meu público, que tem o direito de saber. Ele depois decidirá se as minhas notícias são para recordar ou para esquecer. – Profissão: cinismo. Poderia ser esse o título – comentou, gélida. – Se isso lhe dá prazer, esteja à vontade com os rótulos. Aquela discussão furiosa refreara o desejo do homem e acentuara a elegância da religiosa, que tinha agora a soberba altivez de uma rainha. – Pessoalmente, considero mais correcto que tire a máscara – concluiu Mark. – Está a dizer que o hábito que trago esconde as minhas verdadeiras intenções? – perguntou, fingindo surpresa. – Estou a dizer que não existem hábitos que possam esconder as suas qualidades excepcionais. A senhora é uma boa advogada, Mrs. Carr. Uma política hábil e ambiciosa. – Eu sou apenas uma pobre freira – insistiu, sem no entanto conseguir assumir o aspecto de uma humilde serva de Deus. – Já tenho alguns elementos para uma história – rebateu, provocador. – A senhora cresceu no clã de Frank Latella, um chefe da Cosa Nostra. Um dos homens mais poderosos do crime organizado. – Contra o qual ninguém conseguiu nunca produzir uma única prova. – Isso abona a favor da sua inteligência, mas não tira nada à crueldade dos seus crimes. Até a senhora poderia ter ligações mafiosas… – Palavras. Apenas palavras – concluiu ela, acariciando as contas brilhantes de um rosário que cintilava no meio das vestes. – Com as quais vou construir uma reportagem sensacional continuou, implacável. – Com ou sema sua colaboração.

Ofereço–lhe a oportunidade de contar a sua versão dos factos. E garanto–lhe a mais completa objectividade. – Eu isolei–me voluntariamente do mundo porque tenho uma incomensurável necessidade de paz. Isto não significa que tenha sido acometida por uma crise mística – confessou, baixando o tomde voz para um sussurro cúmplice. – No papel de religiosa sinto–me lindamente, ainda que o hábito que visto não tenha dissipado as dúvidas que me atormentam. Vou dizer–lhe, como confidência, que aquilo que eu queria em absoluto, se pudesse escolher, era mesmo a fé. Até aqui dentro se contam pelos dedos de uma mão as pessoas que acreditam profundamente, sinceramente e incondicionalmente. A fé, Mr. Fawcett, é o dom dos eleitos, o bem supremo que nos liberta de toda a escravidão. Como vê, não é assim tão simples ter fé. No entanto, dentro destas paredes, encontrei a paz. – Mrs. Carr, desculpe–me se insisto em tratá–la assim, eu não acho que esteja a ser completamente sincera. – Fitou–a intensamente. – Nessa mão diáfana com que martiriza as contas do rosário – disse – eu vejo uma arma que talvez tenha disparado. E que talvez pudesse ainda voltar a disparar. – Disse bem: talvez. Porque “de mim, tudo pode ser dito, mas nada pode ser provado” – citou a freira, em voz baixa, suportando o olhar do homem. – Isabel Tudor, rainha de Inglaterra – replicou Mark, completando a citação. – Muito bem – elogiou–o. – Então deve lembrar–se que Isabel I disse também: “sei que tenho o corpo de uma mulher frágil, mas tenho o coração e a índole de um rei” – provocou–a, e prosseguiu: – Mrs. Carr, o que fez do seu coração e da sua índole? – Se estiver à altura da sua fama, deve sabê–lo. Hesitei muito antes de o receber. Agora decidi. Vou falar consigo.

Mark tentou dominar a emoção. Sentia que estava no limiar de um grande segredo. – Vai dizer–me a verdade? – perguntou. – A minha verdade. Pode publicá–la, se quiser. Ainda que ninguém acredite em si. E agora vá– se embora, Mr. Fawcett. Estou cansada. – O jornalista levantou–se, hesitante perante aquela figura solene que já não lhe provocava desejo mas que, pelo contrário, lhe incutia uma espécie de respeito reverencial. Tinha realmente a sensação de se encontrar à frente de uma rainha. Uma grande rainha. – Quando poderei voltar? – Volte amanhã – respondeu ela. – Vou contar–lhe a minha verdade. Mark segurou na mão que ela lhe estendia e depois fez uma coisa que não soube explicar: levou lentamente aos lábios aquela mão diáfana, que exalava um vago perfume de jasmim, e beijou–a. Ela retirou–a bruscamente, como se naquele gesto existisse uma intenção declarada de pecado. Vá–se embora, Mr. Fawcett – repetiu, com uma voz agressiva. Mark deu por si no ar tépido daquele esplêndido Janeiro siciliano. Olhou para o céu e suspirou profundamente. Sentia–se dominado por uma vertigem agradável, como quando em criança descia após uma volta de carrossel no parque de diversões. Mas agora sentia também uma comoção profunda, que lhe fazia lembrar o primeiro beijo, a primeira ternura de amor. Não conseguia deixar de pensar naquela mulher enigmática e fascinante que acabava de deixar. 1988 ONTEM Nancy assinou a última carta, fechou a pasta do correio e entregou–a a Mary, que esperava em frente à secretária de nogueira clara sobre a qual o sol primaveril, irrompendo pela janela, semeava uma alegre poeira dourada. Ergueu os olhos para aquela luz, irresistivelmente atraída pela poética verticalidade dos arranha–céus de Manhattan, que desde sempre tomavam conta dela com o poder tranqüilizador de gigantescas divindades tutelares.

– Há mais alguma coisa? – perguntou, observando de soslaio o pequeno relógio de malaquite pousado a um canto da secretária, entre fotografias em molduras de prata e umas jarrinhas Lalique. Eram quase duas horas da tarde, ainda não tinha almoçado e tinha um encontro no aeroporto Kennedy às quatro. Mas antes precisava de ir a casa confortar–se com um banho quente e comer alguma coisa, para depois chegar a Queens e abraçar de novo José Vicente. A iminência daquele encontro arrastava emoções e pensamentos e suscitava muitas recordações. – Mais nada, Nancy – hesitou Mary com uma voz insegura, apertando a pasta do correio contra o peito, com os dois braços, como se fosse uma criança. Havia uma grande familiaridade entre as duas mulheres. Mary sempre a tratara pelo nome, apesar de Nancy ser a titular de um importante escritório de advogados. Ela tinha–lhe praticamente imposto isso desde o início da sua colaboração, e Mary sentia–se lisonjeada. Trabalhava naquele escritório de advogados havia quatro anos, desde que, aos dezoito, acabara o curso com nota máxima na escola de Secretariado de Lexington, em Middlesex County. Desembarcou em Nova Iorque à procura de sucesso e a primeira dentada na polpa da grande maçã foi dada no ponto certo. Podia ter–lhe calhado a parte estragada, ou o verme; mas em vez disso teve sorte. Assim que saiu do comboio na Grand Central Station, respondeu a um anúncio publicado na secção das ofertas de emprego do New York Times. No dia seguinte foi contratada por Nancy, passando assim a fazer parte dos colaboradores seleccionados e bem remunerados do escritório de advogados Carr & Pertinace. Entre aquela mulher e aquela rapariga houve um amor à primeira vista. Foram precisas poucas palavras para se entenderem. Mary era uma rapariga forte mas elegante, de cintura fina, ancas sinuosas e seios grandes; a inteligência reflectia–se nos luminosos olhos azuis, transparentes e grandes como o seu coração simples que as dolorosas experiências da infância não tinham conseguido endurecer. Os cabelos cor de mel, que a faziam parecer mais nova e ingénua, eram um festival de caracóis deliciosamente descompostos. Nancy Carr levantou–se da cadeira de espaldar alto, forrada de pele preta e macia. Era uma bela mulher de quarenta e cinco anos, cujo fascínio tinha a particularidade de se manifestar em lenta mas irrefreável progressão. Era alta, magra e elegante, tinha um rosto pálido e olhos cinzentos e pensativos que exprimiam determinação até quando sorria. A suspeita da sua maturidade biológica aninhava–se na sombra do cansaço que por vezes lhe marcava o olhar. Uma grande massa de cabelos negros de reflexos acobreados sublinhava a beleza de um rosto sem defeitos. Na opinião de Mary, aliás partilhada por muita gente, Nancy era a mulher mais interessante da cidade. Quando Mary começou a trabalhar no escritório de advogados Carr & Pertinace, Nancy tinha sido eleita deputada democrática por Queens pouco tempo antes. Agora dizia–se que aspirava a uma nova meta e mais ambiciosa: a cadeira de mayor da sua cidade.

– O que é que há mais? – perguntou, desconfiada com a hesitação da secretária. Levantou–se e deu a volta à mesa, enquanto compunha com gestos muito ligeiros um elegante saia–e–casaco Chanel azul–escuro, avivado por uma blusa de um amarelo radioso. – Não queria criar–lhe mais outro problema – justificou–se Mary. – Estás a criá–lo com a tua hesitação – censurou–a, ao mesmo tempo que a sua voz adquiria umtom metálico. – Está bem – cedeu a secretária. – Na sala de espera está uma rapariga que quer falar consigo. – É só isso? Marca–lhe uma entrevista. –Sorriu–lhe, aliviada, e pegou na carteira de pele azul juntamente com um maço de documentos que deveria ler naquela noite, em casa. – Está à espera desde manhã. Diz que não se vai embora sem ter falado consigo primeiro. – Vai ter de esperar – respondeu Nancy impaciente, preparando–se para sair do escritório. – De qualquer maneira, antes de a mandares embora, diz–lhe para te dar o nome, a direcção e o número de telefone. – Chama–se Connie Corallo. O nome diz–lhe alguma coisa? Ela diz que este nome deve dizer–lhe alguma coisa – revelou Mary. Tinha a capacidade de desvendar as coisas aos poucos de cada vez, como um jogador depoker. – Corallo – repetiu Nancy, ao mesmo tempo que os seus olhos cinzentos se enchiam de luz. Havia qualquer coisa de familiar naquele nome, uma nota afectuosa e melancólica, um sabor de umpassado terno e trágico, a recordação de uma outra vida. Olhou outra vez de relance para o relógio em cima da secretária e decidiu que tinha de conceder alguns minutos à rapariga que estava à sua espera. – Manda–a entrar – rendeu–se. Voltou a sentar–se atrás da secretária com um suspiro de resignação. Connie Corallo era uma jovem morena cujo rosto exibia marcas de violência. Aparentava cerca de vinte anos. Tinha uns grandes olhos negros assustados e a expressão inocente de um cachorro perdido. Ao ver Nancy, tranqüilizou–se e deixou de olhar em volta, como se temesse uma agressão a todo o momento. Tinha um olho tumefacto, o nariz inchado e uma vasta equimose na face esquerda.

Trazia um barrete de lã vermelha que, noutras circunstâncias, lhe teria dado um ar traquina. Nancy levantou–se, solícita e maternal, foi ao encontro dela e instou–a a sentar–se numa pequena poltrona de canto, em frente à janela que dava para os arranha–céus de Manhattan. Depois sentou–se na frente dela. – Como é que ele se chama? – perguntou com doçura, olhando–a directamente nos olhos. Já tinha visto muitas como ela. Nancy Carr era o ponto de referência das mulheres maltratadas. Adivinhou o problema de Connie antes ainda de a rapariga ter falado. Connie suspirou profundamente de alívio, como se tivesse chegado a um porto seguro depois de ter lutado contra tubarões. – Chama–se Beam – respondeu. Tinha uma voz débil e as palavras fugiam–lhe dos lábios como um sopro. – Arthur Beam, da Beam & Cooper Inc. – acrescentou. Parecia exausta, mas finalmente confiante de que a justiça iria seguir o seu curso. – Por que vieste ter comigo? – perguntou–lhe num tom decidido. Beam & Cooper Inc. era umnome famoso no campo das vendas por catálogo. Uma espécie de gigante no sector. Um volume de negócios de milhões de dólares. Uma potência capaz de mover montanhas. – O meu avô era António Corallo – murmurou Connie, ao mesmo tempo que uma tremura repentina nos cantos da boca lhe denunciava a comoção. – António Corallo… – disse Nancy, deixando o olhar perder–se no vazio. Aquele nome recordava–lhe a figura desengonçada e um pouco curvada de um homem já não muito novo, que trabalhava no ginásio de José Vicente, em Brooklyn, quando ela era pequena. Era um homem humilde, António Corallo, mas incrivelmente firme e justo. Limpava as casas de banho e os chuveiros, arrumava o ringue e tomava conta dos jovens freqüentadores do ginásio. Quando era preciso sabia reactivar um músculo adormecido e dar a pancada certa no ombro de um perdedor.

De António Corallo, Nancy recordava os rebuçados de anis de que tanto gostava. Tinham passado muitos anos desde aquela altura. Mas, na sua memória, António Corallo continuava a ser uma figura mítica. – Qual é o problema, Connie? – perguntou, com um tom afectuoso. A rapariga começou a explicar as razões que a tinham levado até ali; era como se falasse consigo mesma, com os olhos fixos nas mãos tenazmente apertadas, como que a tentar ganhar força. – O meu avô dizia sempre: “Se te meteres em alguma alhada, não vás ter com a polícia; eles fazem pouco por nós, pobres wops1, somos menos do que uma caganita de mosca num vidro sujo. Se quiseres justiça, vai ter com a Nancy.” Era isto que me dizia o meu avô. Também dizia que a Nancy é uma mulher de honra. E eu, que aprendi na escola o orgulho de ser americana, senti na minha pele umduplo ultraje: a violação do homem e a violência da lei. – Os tempos mudaram – observou Nancy, que não queria tomar decisões antes de conhecer os factos com exactidão. – Tu és realmente uma cidadã americana e a lei vai fazer–te justiça. – Eu sou uma cidadã americana – replicou Connie –, mas realmente valho menos do que uma caganita de mosca num vidro sujo, se pelo meio estiver Mr. Beam. Ele unta as rodas certas, faz o que quer e o que lhe apetece. – Despacha–te e conta–me a história toda – pediu Nancy com um suspiro carregado de pena. Ia renunciar ao banho quente; no fim de contas, o problema da rapariga era bem mais importante. – É um monstro com cara de anjo – prosseguiu Connie. – É um homem poderoso com uma inteligência perversa. Escolhe o elo mais frágil da cadeia e despedaça–o. Deita os olhos às raparigas mais indefesas e, se lhe agradam, estende o laço. Poucas agüentam, porque é um depravado. Mas já caíram na armadilha. E ele bate para magoar. Depois violenta–as.

– Contigo as coisas passaram–se assim? – perguntou Nancy, sombria. – Essas marcas na cara, foi ele que as fez? – Viu Arthur Beam a sorrir numa série de anúncios televisivos que publicitavam a imagem da Beam & Cooper Inc. Um rosto cordial que inspirava confiança, simpatia e estima. Era a imagem do americano de bem a quem se confiaria o dinheiro e os filhos. – Não foram só estas marcas – respondeu Connie, tirando o barrete de lã para mostrar umcurativo aparatoso, quase no topo da cabeça, num sítio em que os cabelos tinham sido cortados. 1 Designação pejorativa com que os norte–americanos se referem aos imigrantes italianos. (N. da T.) O vermelho do desinfectante circundava o curativo. – Coseram–me no posto médico. Oito pontos – esclareceu, voltando a colocar o barrete e a pousar as mãos no colo. – E não o denunciaste? – perguntou Nancy. Connie ergueu para ela um olhar triste e resignado. – Se não quiser ser violentada uma segunda vez, é melhor que tenha alguma prova. A senhora sabe isso melhor do que eu. Por isso falei de duplo ultraje: fizeram má cara assim que pronunciei o nome de Beam. Portanto, reconsiderei. Disse cá para mim que de qualquer maneira alguém havia de me fazer justiça. E estava a pensar na senhora. – Que justificação é que deste? – Uma queda nas escadas – disse a rapariga, encolhendo os ombros. Nancy deixou escapar umsorriso amargo; não por aquilo que tinha acontecido a Connie, mas pela desculpa que a rapariga tinha arranjado. Nos hospitais de Brooklyn e do Bronx, mais freqüentemente do que se imagina, apresentam–se indivíduos com o estômago perfurado por uma bala que declaram ter–se ferido ao cair nas escadas, fiéis a um antigo código mafioso de silêncio. – Queda nas escadas – comentou Nancy. – Mas afinal violentou–te. – De uma maneira obscena e antinatural – confessou, ao mesmo tempo que as faces se lhe tingiam de vermelho e os olhos se lhe enchiam de lágrimas.

– E no dia seguinte, a administração pôs– me na mão uma semana de salário. Fui despedida. – Estavas lá há muito tempo? – Há um mês. – Houve mais casos como o teu? – Ele tenta com todas. As mais ingénuas caem na armadilha. E, sem provas, as razões valem menos que zero. Ninguém quer ouvir. Nancy sentiu horror, ódio e vergonha pela violência sofrida pela rapariga. Sabia bem que quando um ser humano não consegue de alguma forma vingar um ultraje, pode deixar–se dominar pela frustração e arruinar toda a sua existência. Connie Corallo era jovem e honesta. Ela devia ajudá–la a reencontrar a sua dignidade. Era o mínimo que podia fazer pela memória de António Corallo. – Vais voltar a ter o teu lugar. E vai fazer–se justiça – prometeu. E Connie sabia, porque o avô lhe tinha dito, que Nancy cumpria sempre as promessas que fazia. – E Mr. Beam? – perguntou, assustada com a idéia de voltar a vê–lo. – Não vai voltar a incomodar–te – tranqüilizou–a, enquanto se levantava e se despedia dela comum franco aperto de mãos. – Muito obrigada. Vou votar em si quando se candidatar a mayor. – Fez questão de o dizer, não achando outro modo de exprimir o seu reconhecimento. Nancy ficou mais uma vez surpreendida pela rapidez com que certas notícias, desprovidas de qualquer carácter oficial, se espalhavam como manchas de óleo. A sua candidatura a mayor de Nova Iorque era apenas uma hipótese do partido, talvez uma aspiração secreta da sua parte, uma possibilidade desejável, uma idéia dos seus apoiantes. Mais nada. No entanto, já se falava daquilo como de coisa certa.

Quando a rapariga se foi embora, Nancy tomou um apontamento num papel e meteu–o no bolso. Pegou na carteira e na pasta com os documentos e saiu. – Avisa o Guido para estar pronto com o carro – pediu a Mary, enquanto atravessava o gabinete dela e lhe dirigia um aceno de despedida. Percorreu parte do corredor, onde uma alcatifa espessa de lã cor de nata amortecia o som dos seus passos, e entreabriu uma porta que dava para um gabinete grande, com uma decoração austera, iluminado de forma a dar o máximo relevo ao precioso Picasso do período azul que estava pendurado numa parede. – Vou sair e estou com muita pressa. Vens comigo até ao elevador, Sal? – perguntou ao homem que, atrás de uma imponente secretária coberta de documentos, levantou para ela dois grandes olhos escuros. Sal sorriu, levantou–se e foi ao encontro dela. – Não ia perder uma oportunidade destas por razão nenhuma – brincou. Sal tinha quarenta e três anos, menos dois do que Nancy. A sua tez era morena. Uns bigodes grandes e negros contrabalançavam uma calvície considerável, delimitada por uma espessa coroa de cabelos escuros. O nariz robusto e os lábios bem desenhados tornavam mais agressivo o olhar muito vivo. Tinha a elegância e a desenvoltura de um manager, e a ingénua afabilidade de um provinciano. Era ligeiramente mais baixo do que Nancy e a única semelhança entre os dois irmãos revelava–se no sorriso que tornava parecidas duas pessoas tão diferentes. Nancy deu–lhe o braço. Conversar fora do gabinete era a única maneira de neutralizar eventuais escutas indiscretas. Nancy tinha muitos inimigos que fariam qualquer coisa para se apossar dos seus segredos; e não podia excluir que fossem capazes de colocar sistemas de escuta. Para eliminar esta perigosa possibilidade, Nancy mandava verificar periodicamente os aposentos do escritório e de casa. Talvez fosse um excesso de prudência, mas tinha aprendido desde pequena que mais vale prevenir as complicações do que ter de as remediar. O problema que precisava de discutir com Sal requeria cautelas especiais. Saiu do gabinete com Sal e chegou ao vestíbulo do quadragésimo primeiro andar do edifício onde se situava o escritório. Tirou do bolso do casaco o papel com os apontamentos e entregou–o ao irmão. – Lembras–te do António Corallo? – perguntou–lhe em voz baixa, enquanto as pessoas subiam e desciam, servindo–se dos quatro elevadores. – Morreu há alguns anos. Fui ao funeral dele – disse Sal.

Nancy assentiu. – A neta, a Connie, foi vítima do Beam. Estás a ver aquele tipo que aparece em quase todos os anúncios de televisão que estão a ter um grande sucesso? – sublinhou com o indicador o nome e o endereço privado do violador, escritos no papel. Uma coisa grave, muito grave. A Connie é boa rapariga. A família dela é honesta. Tu sabes. – Contou–lhe resumidamente a história toda, enquanto Sal não perdia uma sílaba e fixava todos os pormenores. – Tenho a certeza de que a rapariga não mentiu. De qualquer maneira, temos de verificar – concluiu. – Queres acusar o Beam? – perguntou Sal, franzindo a testa. Já estava a imaginar a agitação que aquele caso ia dar. – Quero fazer justiça a Connie Corallo – sentenciou. – Justiça verdadeira, como o avô dela havia de querer – esclareceu com ardor. – Quero que deixem o Arthur Beam em condições de não voltar a humilhar ninguém. Sal tinha percebido perfeitamente. Carregou no botão do elevador e, quando a campainha indicou que estava a chegar, ergueu o rosto para Nancy e beijou–a em ambas as faces. Era uma maneira muito italiana de transmitir o afecto mútuo, um hábito que tinham conservado desde que erampequenos. – Dá um abraço ao José Vicente, da minha parte – recomendou–lhe, referindo–se ao encontro da irmã. – Um abraço apertado – acrescentou, piscando o olho. Nancy atirou–lhe um beijo com a mão ao entrar no elevador que, do quadragésimo primeiro andar, a ia deixar no rés–do–chão do arranha–céus que se erguia nas proximidades de Liberty Place, na zona comercial. Guido, o motorista, abriu a porta do Mercedes 500 SEL, de vidros escuros. A limusine engoliu Nancy e partiu com um ruído ligeiro ao longo de West Street, em direcção a Chelsea. A história de Connie Corallo, naquilo que lhe dizia respeito, era um problema resolvido. O seu problema, pelo contrário, nunca iria ter uma solução.

Trazia dentro de si aquele tormento desde a infância, como uma maldição. Fechou os olhos e pensou no encontro com José Vicente. Havia pelo menos dez anos que não se encontravam. E também naquela altura, como agora, se tinham encontrado às escondidas. Porque não era conveniente que Mrs. Nancy Carr fosse vista ao lado de José Vicente Dominici. A grande senhora de sempre – exclamou José Vicente, que avançava ao encontro dela com um impermeável esvoaçante como as asas de um morcego. Tinha uma maneira cómica e desajeitada de caminhar, com os pés afastados e o tronco inclinado para a frente. Parecia estar sempre na iminência de cair. Era gigantesco, e a sua presença enchia a sala. Nancy desapareceu entre os seus braços. O homem afastou–a de si para a admirar. – Estás um espanto! – murmurou com admiração. Depois ficou mais sombrio. – E eu? Como é que estou? O que achas? perguntou, apreensivo. – Estás sempre na mesma – mentiu, ignorando as rugas profundas que lhe atravessavam a testa, mesmo verticalmente, os papos debaixo dos olhos e a grande cabeça de cabelos brancos. – És uma mentirosa encantadora – ralhou–lhe a brincar, segurando delicadamente o rosto dela entre as suas mãos grandes. – Se não fosse por causa destas rugas e dessa meia dúzia de cabelos brancos, ninguém te dava mais de trinta anos – replicou, enquanto lhe acariciava a testa e lhe despenteava a cabeleira farta. – Já fiz sessenta e cinco – confessou, melancolicamente. – Já não te lembras, princesa? – Apertava entre as dele as mãos de Nancy e olhava–a com olhos risonhos. A alegria de estar perto dela acelerava–lhe os batimentos do coração. – Lembro–me de tudo – admitiu, maliciosamente. Lembrava–se realmente de tudo o que se referia àquele bom gigante que a tinha protegido como um pai e possuído com uma ternura cheia de incredulidade. – Então deves lembrar–te que da última vez em que nos encontrámos os meus cabelos ainda eram pretos. – Os meus também.

Agora esta espantosa cor castanha acobreada é obra do meu cabeleireiro – confessou Nancy. – E não tinha estas rugas todas – continuou. – Tornam–te irresistível – rebateu ela. – Falas de mais, princesa – censurou–a. Sentaram–se num sofá na salinha que a companhia aérea pusera à sua disposição. O avião de Los Angeles fazia uma escala de duas horas antes de partir para Roma. Raramente tinham tido tanto tempo só para eles.

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