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A Situacao – Jeff VanderMeer

Minha Gerente era extremamente magra, feita de plástico, com papel recobrindo o plástico. Acho que sempre esperaram que um dia o coração dela começaria a bater, mas ele continuava tal qual uma folha seca dentro de sua caixa torácica, animada a subir e descer apenas por sua respiração. Às vezes, quando estava irritada, ficava tão quente que o papel que a cobria entrava emcombustão e o plástico por debaixo começava a derreter. Eu não sabia o que dizer nessas situações. Parecia melhor apenas me calar e desviar o olhar. Por muitas vezes o plástico derretido dos braços dela se transformava em um quadro de imagens insanas: leviatãs e enormes barcos saindo de espirais e coisas ainda mais estranhas. Eu ficava olhando para os seus braços para não ter que olhar para o rosto. Nunca nos foi permitido saber o nome de nossa Gerente. (Embora alguns a chamassem de “Lastimadora”.) Os problemas no trabalho começaram depois que voltei de duas semanas de férias, que passei em meu apartamento na cidade, quando a minha Gerente mudou nossos procedimentos. Desde quando consigo me lembrar, os pedidos de besouros vinham de Leer, minha supervisora. Eu tinha feito besouros por quase nove anos dessa maneira, meu tapete do escritório repleto com suas carapaças iridescentes, a mesa ao canto sempre viva com novos projetos e gestações. No entanto, quando Scarskirt foi contratada para substituir Mord, transferido para o Recursos Humanos, nós não pudemos mais seguir com esse processo. Preocupado, eu disse isso a Scarskirt durante um breve interlúdio, quando ensinava a ela como fazer seus próprios besouros. Ela apenas riu e disse: “Talvez uma mudança seja boa. Todos nós fazemos um trabalho tão bom, isso não deveria importar, certo?” Gostaria de observar que “Leer”, “Scarskirt” e “Mord” não são seus verdadeiros nomes. E que todos os três eram carne-e-osso, assim como eu quando os conheci. Leer parecia um pouco com uma garça, e eu a considerava uma amiga, assim como Mord tinha sido um amigo antes de sua transferência. Scarskirt, entretanto, passava o dia se fitando nas superfícies reflexivas e bajulava tanto as pessoas que eu já estava com receio dela. Depois que voltei das minhas férias, descobri que Leer e Scarskirt estavam dividindo o escritório e passamos a fazer tudo juntos. Agora, quando um pedido chegava, nós três éramos notificados e podíamos começar a trabalhar no mesmo projeto. Lembro de entrar em uma reunião com a Gerente, segurando um besouro que eu tinha acabado de criar no meu escritório. Ele era esmeralda, comprido, mas estreito, flexível. Tinha antenas delgadas que se enrolavam em sensores azul-celeste nas pontas, a sua carapaça brilhante era subdividida em exatos doze lugares. O besouro teria se encaixado perfeitamente na orelha de uma jovem criança, estalando e cantarolando seu conhecimento para ela.


Mas Scarskirt e Leer tinham criado um besouro muito parecido. Minha Gerente imediatamente achou que era minha culpa e irrompeu em chamas. Leer olhou para Scarskirt, que olhava para o tampo da mesa metálica. “Eu pensei que havíamos falado com você sobre isso”, Leer me disse, ainda olhando para Scarskirt. “Não, vocês não falaram”, eu respondi, porém o momento já pertencia a elas. Minha Gerente me obrigou a colocar o meu besouro na minha própria orelha, um claro desperdício e um ato que me causou pesadelos: com uma cidade em chamas na qual lagartos carnívoros gigantes espreitavam, comendo os sobreviventes que estavam nas sacadas. Em ummomento particularmente vívido, eu estava no peitoril de uma janela quando uma mandíbula chegou bem perto, bafejando um cheiro de carne podre. Besouros destinados para as fortes e pequenas mentes das crianças não devem ser usados em adultos. Ainda nos lembramos de um mundo mais gentil e civilizado. Após esse problema de comunicação inicial, a situação ficou ainda pior. Os problemas existenciais da minha gerente Duas vezes por ano, minha Gerente me chamava ao seu escritório no quinquagésimo andar. Um funcionário do Recursos Humanos vinha até meu escritório e prendia uma grande lesma na minha coluna, por uma fenda especialmente projetada na parte de trás de nossos uniformes. Ela permitia que eu andasse nos elevadores e subisse até o escritório da minha Gerente sem nenhuma lembrança da experiência. Quando era hora de voltar, um representante do RH recolocava a lesma. Eu sempre achava aquilo pegajoso e suave ao mesmo tempo. E úmido, como uma ostra. O que a Gerência tentava esconder entre o terceiro e o quinquagésimo andar? Eu não sei, mas, assim como com os besouros feitos para crianças, eu tinha pesadelos depois dessas reuniões. Nesses pesadelos, eu estava caindo em um poço sem fim forrado com milhares de corpos em decomposição. Corpos de plástico. Corpos humanos. Corpos de leopardos e de ratos, de babuínos e de lagartos. Eu podia sentir o cheiro da sua podridão, sentir sua maciez esponjosa. E meu horror se misturava comuma sensação de prazer: tantos animais em um só lugar. Um pardal, às vezes, pousava na minúscula área de grama ressequida fora do meu apartamento, mas nunca vi mais do que isso na vida real. Todas as reuniões com a minha Gerente eram iguais.

Em seu escritório, as paredes eram decoradas com agradáveis, se não banais, cenas de bosques e riachos e campos verdes saídos de algum conto de fadas. Ela permaneceria sentada atrás de sua mesa, sorrindo. Seu cabelo estaria recém-cortado, despencando em ondas loiras. O papel suave de sua pele seria trocado pelo papel crepom colorido, bastante usado em festivais de eras passadas. Eu sempre sentiria o cheiro indescritível de feromônios meramente decorativos. Por algum motivo, esse cheiro me assustava. “Olá, Savante”, ela diria, mesmo esse não sendo meu nome. “Olá, Gerente”, eu responderia. Olhando de perto, seus olhos pareciam os grãos brilhantes que encontramos na sarjeta. No silêncio, eu podia ouvir as folhas em seu peito – apenas o mais leve sussurro da matéria vegetal morta ao encontrar o plástico nas laterais de sua caixa torácica. Eu ficava imaginando se essa folha se desintegrava a cada suspiro no fundo de seu peito. “Você me ama?”, ela sempre perguntava. Eu poderia me lembrar de uma época e de um mundo onde uma questão como essa nunca poderia ser feita. Eu a amava? Entre as reuniões essa pergunta se tornou a questão que preenchia minha vida. Desde que ela se tornara minha gerente, meus aumentos tornaram-se menores e menores. Meu último aumento tinha sido uma sanguessuga em formato de capacete. Tinha sido concebida para sugar todos os pensamentos ruins da minha cabeça. Ela cheirava a bacon, o que parecia promissor. Convidei Mord e Leer ao meu apartamento para fritarmos a sanguessuga. Fiz sanduíches durante uma semana comela. E assim, enquanto estava sentado em seu escritório, eu pensava: Será que estou aqui por causa da forma como respondo a essa pergunta? E: Será que ela pensa que está me dando bons aumentos? E, finalmente: Se eu disser que a amo, vai ser melhor ou pior pra mim? “Você me ama?” Eu sempre respondia: “Não, eu não te amo.” Suas respostas variavam. Às vezes, minha resposta a agradava. Ela sussurrava e cantava e até borbulhava de forma satisfeita. Outras vezes, minha réplica a esgotava.

Ela se sentava, olhando fixamente para o nada até eu ir embora. Algumas vezes, chamas apareciam em seus pulsos e chegavam a queimar as laterais do meu rosto. Eu nunca conseguia prever sua reação, então a princípio sempre corria para recolocar a lesma na minha coluna logo após minha resposta, querendo ter a certeza de que não me lembraria de nada. Esta parecia ser a melhor maneira de evitar a punição. Mas, depois de algum tempo, o processo se tornou tão comum que eu realmente nem me importava mais com sua reação. Digo isso porque, seis meses antes de Scarskirt ter sido contratada, minha Gerente aumentou a quantidade de nossas reuniões. Ela me chamava ao escritório dela uma vez por mês. “Você me ama? “ “Não, eu não te amo.” “Você me ama?” “Não. Eu não te amo.” “Você me ama?” “Não – eu não te amo.” “Você me ama?” “Não. Eu. Não. Te. Amo.” “Você me ama?” “Nãoeunãoteamo.” “Você me ama?” “Não.” Sempre me perguntei o que aconteceria se eu respondesse: “Sim, eu te amo com todo o meu coração.” Poderia ser pior? Sim, obviamente eu pensava que podia. Memórias de Mord Apesar de angustiante de vez em quando, as duas semanas de férias em meu apartamento agora parecem ter sido uma calma pausa em todas as minhas preocupações – embora meia dúzia de vezes alguns saqueadores tentarem passar pelas minhas defesas e a eletricidade chicoteasse ligando e desligando, desligando e ligando. Pensava em minhas férias como um ponto de virada na minha vida. E talvez tenham sido, pois durante o tempo em que estive fora Scarskirt e Leer ficaram cada vez mais próximas. Mas, quanto mais revejo os eventos dos últimos meses em minha cabeça, mais eu acho que o começo do fimaconteceu bem antes disso – quando Mord saiu da nossa equipe. Pesado e forte, Mord era espirituoso e engajado antes de ir para o Recursos Humanos.

Fora da empresa, muitas vezes parecia nervoso, mas, enquanto estava dentro das paredes do escritório, sua assertividade nos unia. Lembro que, uma semana antes dele nos deixar, Mord e eu ficamos de pé na velha escadaria do prédio da empresa, com suas claraboias embutidas nas paredes, sem nos importar que estivessemencardidas da poeira e poluição. Lá fora, na cidade, era quase impossível achar um pássaro, mas o prédio era tão grande e tão cheio de recursos que um pássaro poderia sobreviver por muitos anos. Isso se ele encontrasse o andar certo. Mord gostava de animais de verdade, visto que havia trabalhado com eles em seu emprego anterior. Num ano ele conseguiu uma contagem de setenta e cinco pardais, mais do que qualquer um na empresa. Ele me disse que amava a “funcionalidade simples” dos pardais, sua durabilidade, seu instinto de sobrevivência. Eu? Eu apenas gostava de sair com Mord enquanto ele observava os pássaros. Ou convidar a ele e Leer para o meu apartamento para olharmos minha grama amarelada, na esperança de um pássaro aparecer por lá. Então foi um choque para mim naquele dia, quando ele disse: “Estou mudando para o Recursos Humanos”, enquanto a terra abaixo de nós ondulava como uma língua. “O quê?”, eu perguntei. “Você não pode fazer isso.” “Não se preocupe. Não importa.” Ele olhou através de seus binóculos para o topo da escada retorcida em busca de um bater de asas, de um voo. “Tudo vai ser igual.” “Vai mesmo?”, perguntei a ele num momento de franqueza. “Será que vamos continuar sendo amigos?” Mord sorriu, os binóculos ainda grudados sobre seus olhos em um aperto possessivo. “Claro. Seremos amigos como somos agora.” “E Leer também?” Mord riu. “Não se preocupe. Isso nunca vai mudar.” De uma maneira estranha, acho que Mord falava sério. E isso, ao menos, é verdade: em minha mente nunca mudou, o que era parte do problema.

Nós não achamos nenhum pardal ou qualquer outro pássaro naquele dia, então, quando voltamos ao escritório, Leer e Mord fizeram um pássaro. Ele era estranho, etéreo, alongado e com uma cauda que parecia um fio de fumaça. Eles o soltaram nas escadas e por meses nós pudemos ter vislumbres dele. Por alguma razão, eu ficava feliz cada vez que o via. Mas, um dia, eu o encontrei nas escadas. Alguém havia esmagado seu crânio. Confusão decorrente da contínua degradação dos processos Antes da contratação de Scarskirt, quando Leer ainda era minha amiga, nós costumávamos, como mencionei, designar os processos por hierarquia. Quando essa prática terminou, nós nos encontrávamos em intermináveis reuniões na cavernosa sala de reuniões no quadragésimo quinto andar. As salas se pareciam mais com os refeitórios de refugiados que eu lembrava de minha adolescência. As janelas proporcionavam uma excelente vista da cidade moribunda, para aqueles que queriam uma lembrança, mas isso era uma compensação pelo fato de que tínhamos de usar as lesmas em nossas espinhas quase continuamente e o bando de pessoas do RH tinha que estar pronto para nos escoltar no devido momento. Mord andava entre eles, mas apenas para fiscalizar, e até então ele era bastante amigável. O motivo para as reuniões era o novo projeto de um “peixe”. Nosso principal cliente tinha pedido mais produtos com o objetivo de ajudar estudantes. O último projeto tinha sido um peixegaroupa cinco vezes maior do que uma criança de nove anos com estatura mediana. Por nossos muitos e imersivos processos, tínhamos que fazer com que a experiência de ser engolido por esse peixe fosse educacional. O estudante seria engolido e submetido à privação sensorial no fundo das entranhas do peixe. Então o estudante seria apresentado a uma série de estímulos neurais, algo a ver com uma adaptação social adequada, mas mais adiante melhorando suas habilidades matemáticas/científicas. Nós trabalhamos a partir do modelo em escala de carne-e-osso que eu tinha feito em meu escritório, que era ligado ao diagrama pendurado na parede da sala de reuniões onde se via o peixemodelo, quase como um esquema de casco de navio. A equipe tinha resolvido vários problemas técnicos. Por exemplo, o peixe seria terrestre ou aquático? Nós poderíamos criá-lo para se mover na terra usando barbatanas hipermusculares enquanto sugava ar como uma salamandra. Se continuássemos com essa abordagem, o peixe poderia ser levado para a sala de aula e o aluno poderia ser engolido durante as aulas. Caso contrário, cada escola precisaria ter um taque comunal onde os alunos mergulhariam. Eu gostei dessa solução porque as crianças poderiam usar equipamentos de natação e, assim, não arruinariam as roupas da escola. Isso também lhes daria mais privacidade. Além da necessidade de incluir armas de defesa biológica, tivemos que considerar muitas outras questões importantes.

Quais deveriam ser o formato e o tamanho das mandíbulas do peixe para aconchegar a criança e minimizar o trauma? O peixe deveria falar de maneira reconfortante para acalmar o medo da criança de ser comida viva? Ou deveria permanecer em silêncio e deixar o fardo de prover tranquilidade recair sobre o professor? As reuniões para responder a essas perguntas enquanto desenvolvíamos o conceito básico agora envolviam toda a equipe de criação. Todos foram obrigados a contribuir e, para isso, a Gerente ordenava a todos que usássemos baratas de brainstorming. Elas eram a menor variedade de insetos buraqueiros, apropriadas para serem inaladas pelo nariz, com apenas um cheiro sulfuroso de decomposição. Um insignificante, embaralhante desconforto e depois elas liberavam seus feromônios calmantes e você poderia ver mais claramente do que nunca e as idéias sairiam da sua boca mais rapidamente do que você poderia falá-las. Esse método funcionava muito bem com moderação, mas não quando todo mundo era obrigado a usar as baratas de brainstorming. As reuniões se transformaram em um murmúrio de línguas, horas e dias preenchidos com pensamentos circulares e repetições improdutivas. “Euachoquedeveríamosfazêloandaremsuasbarbatanasefalarcomumavozgravedeavôcomoaqueomeuavôtinhaquandonósíamosvisitálonoasilo,” Leer diria, e eu diria, “Meupaieraumhomembruscomasintensogeralmentebrotavaalgoemsuaindignação quemefaziaachálogenerosoentãoessepeixedeveriasermuitoeficienteemtocarascriançasmasmuitomas muitomaisprofundamente” e Scarskirt diria “Euacho queopeixedeveriatermeurostoeminhavozquereleandenaterraousónadeporqueaspessasgostariamdissoeseEsse grande fluxo de balbucios continuou, sem fim e sem solução, enquanto permanecíamos eufóricos nos quartos abarrotados dentro de nossos crânios.

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