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A sobrinha do poeta – Stella Maris Rezende

Sabe-se que as folhas de cada livro elas mesmas se arrepiam de medo das próprias coisas de livro escritas no susto delas. Afinal, tudo ali registrado foi por meio de uma ordem numa desordem de um revestrés. O ideal seria vender pão de queijo. Mas como viver sem enredar? Embondo de aventurança, tudo no encalço dos originais do Emílio Moura, poeta que foi amigo do Drummond. É de ver que a vida carecia da casa, do sol na cortina, do tempo, da memória, mais o vento do mistério. A vida não continuava, se ele não encontrasse os originais do Emílio Moura, mais do que provado que existiam. Se houve os quatro cavaleiros do apocalipse — Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Fernando Sabino —, também houve os dois senhores da elipse, Emílio e Drummond, que em Belo Horizonte viviam de algum proseio e dezenas de xicrinhas de café na Confeitaria Estrela, Rua da Bahia, e no Café Serra da Saudade, Rua Dores do Indaiá. Depois, Drummond foi morar no Rio de Janeiro e Emílio voltou pra Dores do Indaiá, a cidade, oeste de Minas. Famoso ficou o de Itabira. Mas o de Dores? Sentia-se na obrigação de dá-lo a conhecer. Ele sabia que havia os originais. Com eles, descortinaria o poeta nascido junto à Serra da Saudade. O próprio Drummond afiançara sobre o talento do amigo que tinha um ar de cegonha tímida, tantas vezes, por falado e por escrito. Por isso, ele precisava encontrar os originais. O problema é que — e disso só ele sabia — a pista que o levaria aos originais de A Casa fora escondida, em páginas esparsas, dentro de livros da biblioteca da Escola Umbelina Gomes, especificamente naqueles que ficavam numa certa sexta estante. Então, obstinadamente, ele procurava. E enquanto procurava, escrevia coisa ou outra, pra dar um alento ao escritor que ele era e que jamais teria coragem de escrever e publicar livros, embora também tivesse nascido em Dores. Espia: num poema da Cecília Meireles apareceu mais um verso, finalizando de novo o que já estava por ela terminado, num atrevimento de continuar o que se findara tão bem. Outro exemplo: num conto do Machado surgiu uma personagem sem mais nem menos. Estava ali na página 71, fincada na frase Chegou de súbito a Coisinha com um xale preto, no canto direito, com canetinha iriscor. E a Coisinha fazia uma pergunta estúrdia, que não condizia com o enredo dos fatos dos passos dos acontecimentos. Alguém se atrevia a cutucar narrativas. Alguém se esmerava em aluir poemas. Tudo isso naquela estante, a sexta, na sexta prateleira de baixo pra cima, diante da janela de vidro bisotê. A moça da biblioteca, professora alegrinha, nem enrugava a testa.


Achava era muito açulador interessante engraçado alguém ter a catilogência de escrever coisa ou outra nos livros. Ela dizia bemassim: muito engraçado. E ia preparar os cartazes pra avisar sobre um curso de corte e costura. Gente ou outra perguntava: curso de corte e costura na biblioteca? Onde já se viu? Leodegária Moura, com os olhos verde-cré: podia ser corte e costura de roupa, como você está pensando, mas é curso de escrita mesmo, sabe? Quem quiser escrever pode se inscrever. Corte e costura é o que se precisa fazer, no molde com as palavras. Vai daí que. Danou a suceder muita coisa. Fico até esmaecida de pensar no tanto de coisa que aconteceu em Dores. Coisa boa e coisa triste e coisa estranha. Coisa e mais coisa. Eu posso deixar de contar. Mas eu não posso deixar de contar. Não demorou muito pra maioria das pessoas encafifar com aquela biblioteca. Por modo de todo mundo assuntar que tinha coelho naquele mato biblioteca. Que tinha caroço naquele angu biblioteca. Bota reparo: as mulheres donas de casa pararam de conversar sobre empregadas, pontos de bordado e receitas de bolo. Também pararam de conversar sobre novelas de rádio e televisão. Sobre doença de marido, viagem de genro, desaforo de vizinha. Sobretudo, pararam de conversar sobre morte. — Muito engraçado elas pararem de conversar sobre morte. Dizia Leodegária, espalhando sobre um tapete maciinho os livros novos que havia comprado com dinheiro de rifa. E acrescentava: — Morte foi sempre o assunto preferido delas, eu até encabulava com isso, me dava um arrepio, Jesus valei-me. Coincidia de completar: — Muito engraçado esse vezo que as mulheres têm de conversar sobre morte. Elas sempre arrumam um túmulo no meio de uma prosa. Por que será? De qualquer modo, é muito engraçado.

Muito interessante era que, aos poucos, mulheres e mais mulheres começaram a conversar sobre biblioteca. Especificamente sobre uma estante, a sexta, e sua sexta prateleira de baixo pra cima diante da janela de vidro bisotê. As mulheres não saíam dessa estante, só falavam dessa estante, e sua sexta prateleira de baixo pra cima diante da janela de vidro bisotê. Não que todas elas vivessem lendo na biblioteca e de repente descobrissem o atrevimento de uma aliagem. Esquece. As mulheres liam pouco. Não passavam de revistas sobre nada vezes nada noves fora nada. Às vezes, uma página de jornal com notícia em caixa-alta. Ou bulas de remédio. Evidentemente, muitas bulas de remédio. — Elas entendem muito de doença, vão muito à farmácia e gostam de ler bulas de remédio… Muito engraçado. Dizia Leodegária Moura. Dizia pro letreiro de uma loja antiga sempre fechada. Um escrito: armarinhos. Leodegária tinha o vezo de olhar pro letreiro dessa loja antiga sempre fechada e dizer coisas que tinha vontade de dizer, sem nenhuma intenção de obter resposta ou comentário, apenas dizer. Sempre fechada, a loja se resumia em dizer armarinhos. Ninguém entrava, ninguém saía. Sabe-se lá se lá ainda havia alfinete, elástico, retrós de linha, colchete, gorgorão. Armários pequenos contendo miudezas, armarinhos. Mas pra Leodegária era muito açulador o letreiro armarinhos. Assim proclamando tão somente armarinhos. Dava-lhe uma alegria divina passar na frente da loja sempre fechada e dizer pra ela o que tinha vontade de dizer. Principalmente porque Leodegária adorava dizer que adorava dizer o que tinha vontade de dizer. Exemplifico: num dia de palestra na biblioteca, no momento de apresentar o conferencista escritor comunicativo, Leodegária assim falou, com o cabelo solto nos ombros: — Tenho a honra de apresentar o autor do livro O caso da blusinha de listras. Ele veio pra conversar sobre o livro, que vocês leram aqui na nossa biblioteca.

Estamos felizes com a sua presença… Ela disse, fitando o autor do livro. E mais disse: — Senhor Júlio Couto, os leitores dessa biblioteca apreciaram muito O caso da blusinha de listras. Quero dizer que eu também li o livro e me lembrei do poema do Carlos Drummond, aquele do vestido. E ainda disse: — Eu adoro dizer o que tenho vontade de dizer: querido Júlio Couto, o seu livro é um primor. O autor ficou emocionado. Ele visitava muitas escolas, mas aquela biblioteca lhe pareceu singular. Seria por causa da professora que disse que adorava dizer o que tinha vontade de dizer? Os leitores bateram palmas e em seguida o escritor começou a palestra. Não bem uma palestra, mas uma conversa agradável informal apetitosa. Apareceu pergunta de todo tipo, desde: pra fazer a Lindaura, o senhor se inspirou no filme …E o vento levou? Até: o senhor prefere jabuticaba ou araçá? No final, Leodegária serviu café e biscoito de queijo. Oferta da Confeitaria Nossa Senhora das Dores. Mas os dias iam passando, e o caso da sexta estante e sua sexta prateleira de baixo pra cima diante da janela de vidro bisotê ia virando o assunto mais falado conversado comentado do lugar. Porque nos livros dessa estante, a sexta, e sua sexta prateleira de baixo pra cima diante da janela de vidro bisotê, alguém desembestara a escrever mais coisa e coisa e coisa. E mais coisa e coisa e coisa. Tudo no encalço do poeta alto e magro, dos originais dele, da prova de que Emílio Moura, o de cegonha figura, escrevera um livro de versos, um longo poema que merecia ser lido pelo menos uma vez. Cabia a ele a tarefa de achar e mostrar a tal prova. E ele sabia que tudo começava na estante diante do vidro bisotê. Só a ele fora confiado o segredo do esconderijo e, por haver merecido a confidência, não podia desanimar. As mulheres eram as que mais falavam sobre esse caso. Pararam de conversar sobre morte, elas que adoravam túmulos defuntos caixões. — Menina do céu, quem será que entra na biblioteca no intento de espichar um assunto ou outro nos livros? — Isso é coisa de afoito. — A minha Liramar falou que teve um dia a tal pessoa escreveu dez linhas depois do terceiro capítulo do… do… Dom Casmurro, isso, Dom Casmurro… Eta nome estúrdio. — O meu Anselmo me contou que teve um dia o tal afoito colocou uma pergunta doida no meio de um conto de um livro que fala de baile… Deixa eu ver se eu lembro direito do nome do livro… Espera aí, era um tal de baile… Uma coisa que aconteceu antes do baile, sabe? Não lembro direito, que raiva. Mas eu lembro do nome da escritora, uma tal de Lígia. Gravei o nome dela por causa da minha avó Lígia. — Ainda bem que a gente mora neste fim de mundo! Ninguém nunca vai saber que aqui tem um avantesma que mexe nos livros da biblioteca e faz uns acrescentamentos, eta diacho.

Como se viu, até agora, porque mais tarde tudo pode mudar, as mulheres não foram ler os livros da biblioteca. Não viram as frases acrescentadas. Quem contava tudo eram os filhos, meninos e meninas da escola. Que iam pra biblioteca todo dia. E todo dia, viam Leodegária Moura. Que mostrava os livros. Que apontava as frases acrescentadas sempre com canetinha iriscor. Leodegária lia os acréscimos e dava as devidas explicações. As meninas e os meninos ainda não haviam começado a ler a Lygia nem o Machado, ficavam sabendo dos livros deles por intermédio de Leodegária Moura, que adorava dizer o que tinha vontade de dizer. E costumava dizer: — Vai chegar a hora de vocês lerem o Machado de Assis e a Lygia Fagundes Telles. A gente muda. A gente transmuda. A gente lê outras coisas, com o passar do tempo. E ainda dizia: — Mas tem uma pessoa aqui em Dores que já se interessa por esses livros de literatura, e essa pessoa vem aqui e lê os livros e depois acrescenta coisas nos livros. Quem será essa pessoa? Vocês têm alguma ideia de quem possa ser? Os meninos e as meninas ainda não faziam conjeturas, porque não conheciam ninguém adulto que gostasse de ler. Com exceção de Leodegária Moura, a mesma esta que lhes fez a pergunta: vocês têm alguma ideia de quem possa ser? Por causa desse detalhe, uma menina um dia disse: — Leodegária, só pode ser você, ara mas tá! Ela riu. E foi e disse: — Quem dera eu desse conta de escrever aquelas coisas. A menina ainda falou: — Você é sobrinha-neta do Emílio Moura, Leodegária… Você tem sangue de artista. Leodegária: — Sou sobrinha-neta do Emílio Moura, é verdade. Mas isso não me garante a arte no sangue, infelizmente. A menina: — Emílio Moura… O olhar verde-cré: — Meu tio-avô. Quando se pensava nisso, que a moça da biblioteca, Leodegária Moura, era sobrinha-neta do Emílio Moura, vinha rente a ideia de que era ela quem acrescentava coisa ou outra nos livros. Afinal, trabalhava na biblioteca, gostava de ler e podia ter herdado a vocação do tio-avô. Leodegária dizia: — Eu queria ter nascido com o dom da poesia. Mas quem sou eu… O namorado dela, o João Francisco de Almeida, costumava argumentar: — Gária, o dom da poesia serve pra quê? Leodegária respirava fundo.

Pensava em terminar o namoro naquele exato momento minuto instante. Mas gostava de namorar. E todos os moços de Dores se pareciam com o João Francisco, todos eles não entendiam nada de romance ou poesia, só pensavam em ganhar dinheiro com o negócio de gado. Ela emprestava os livros. Mas cadê que eles liam. Tinham sempre uma desculpa: — Ô Gária, a gente tem muito serviço, não sobra tempo pra leitura; de mais a mais, leitura de poesia e romance é puro embondo de nove-horas. Ou: — Larga a mão disso, Gária, a gente carece é de ganhar dinheiro. — Empresta pro João Francisco, o seu namorado, ele que trate de fazer esse gosto pra você. Leodegária queria descobrir algum moço diferente, que gostasse das coisas de que ela gostava. Mas cadê que descobria. Eram todos muito parecidos os moços de Dores. De como se em Dores inteira houvesse novecentas e trinta e cinco cópias de João Francisco de Almeida. E os todos João Francisco de Almeida repetissem pra ela: a gente carece é de ganhar dinheiro. Pois bem. Não podia ser nenhum dos moços. Os mais velhos, então, nem pensar, porque, pelo menos até onde se sabia deles, os tais mais velhos só gostavam de dormir na rede, jogar truco na pracinha ou beber pinga no Bar do Clarindo. E acontecia uma coisa dificultosa: as outras professoras, as colegas de Leodegária Moura, as que ficavam nas salas de aula, gostavam de ler, mas moravam em São Gotardo, só iam a Dores pra dar aula e depois voltavam pra São Gotardo: até amanhã, viu, gente? Boa noite pra todos vocês. Quem escrevia os acrescentamentos escrevia de noite, depois que a Leodegária trancava a biblioteca. Portanto, nenhuma professora de São Gotardo poderia ser a autora do feito bem-feito. Nenhumoutro adulto da cidade, como já foi esmiuçado. Sobrava mesmo a moça da biblioteca, a de olhos verde-cré. Que, sendo sobrinha-neta de quem era, tinha tudo pra ser a pessoa indivídua criatura que entrava na biblioteca, durante a noite, e escrevia o que tinha vontade de escrever. Ara mas tá. Ainda mais que ela dizia que adorava dizer o que tinha vontade de dizer. Vai daí então, as mulheres donas de casa achavam que ela escrevia nos livros e ponto-final.

Ela escrevia e fazia de conta que não escrevia. Decerto, pra criar uma história. Ela que adorava uma história. Vai ver foi um modo que a Leodegária Moura inventou pra chamar a atenção do povo. Fazer o povo querer entrar na biblioteca. Entrando na biblioteca, pra bisbilhotar os escritos acrescentados, o povo podia começar a gostar de ler. Olha só como essa moça é ladina. As mulheres na latomia: — Ladina demais da conta! — Ela escreve e depois pergunta quem será que escreve. — Sabidência dela… — Tudo isso só pra atiçar a curiosidade da gente… — Mas ela pode tirar o fogo da trempe! — A gente não vai cair nessa conversa de uns benditos escritos! Ara mas tá. Faltava só essa. Quem não te assunta a indumentária que te convide pra entrar. Na casa de Das Mercês: — Mãe, não pode ser a Gária a autora dos escritos. — Só pode ser ela. — A Gária trabalha demais o dia inteirinho, duvido ela ter disposição pra ficar na biblioteca de noite também. — Só a Leodegária Moura ia querer perder tempo com esse embondo de escrever mais coisa ou outra nos livros que já estão prontos lá na estante. — Eu fico imaginando… Quem será?! — Só pode ser ela, eu já disse, Das Mercês. Afiançou dona Nenzinha, colocando mais alho e pimenta-do-reino na carne pro almoço. — Claro que não é ela… — Só pode ser ela. — Pode ser uma assombração, Virgem Mãe Nossa! — Que mané assombração, menina. Você só pensa em assombração, Divino Pai Eterno. — Já pensou uma assombração que escreve de noite na biblioteca? Fico arrepiadinha de medo… — Quem escreve é a Leodegária Moura. A mim ela não engana. — Pode ser uma assombração… Ai… Das Mercês com o rosto contraído de medo arrepio pavor. Na casa de Mariinha: — Ô Mariinha, por que você não fica escondida na biblioteca, depois do expediente? Perguntou dona Jovelina, fazedeira de quitanda pra vender no armazém. E Mariinha: — Pra quê, hem, mãe? — Pra pegar a Leodegária no pulo.

— Sei… — É ela que escreve nos livros, todo mundo já sabe. — Todo mundo já sabe, é? — Só pode ser ela, Mariinha. Ara mas tá. — Sei. Na casa de Polidora: — Vó, a senhora devia de parar de fazer tanto forrinho de crochê. Por que não faz uma coisa diferente hoje? Ou que tal ficar de perna pro ar, sem fazer nada? Vó Judite: — Forrinho de crochê eu vendo. Com a venda de forrinho de crochê, eu garanto o sustento da casa. — Não carece da senhora ficar assim tão preocupada com a venda de forrinho de crochê. — Eu é que sei. Está tudo muito caro! — Mas a senhora agora tem o seu Carlos… Ele ajuda na despesa. — Não gosto de depender dos cobres dele. — Então a senhora vai ter que trabalhar o resto da vida? — Que eu saiba, a gente não ganhou na loteria. E vó Judite de repente lambia os beiços: — E o caso dos escritos nos livros, hem? Só pode ser a Leodegária Moura… Polidora balançou os brinquinhos de ouro: — Não sei, vó… — Vai comprar mais linha pra mim, vai. Desta cor aqui, ó. Leva um fiapinho de amostra. Polidora ia pro armazém. Comprava linha no armazém. Porque na loja de armarinhos fazia muito tempo ninguém comprava nada. Havia mais de dez anos. No letreiro estava escrito armarinhos. E nada mais se podia ver, além do escrito armarinhos. Na casa de Cândida: — Minha filha, me conta uma coisa, a Leodegária tem o vezo de espichar os olhos pra montanha e ficar com cara de madalena arrependida? — Hem?! Embondo é esse, pai? Cara de madalena arrependida…? — Cara de quem errou e se arrependeu. — Ah… Cara de madalena arrependida… Por causa da Madalena da Bíblia? A que foi defendida por Jesus? — Pois é. A Leodegária… Ela tem o vezo de fincar os olhos na montanha e… Cândida procurou se lembrar e disse: — De fato, a Gária gosta de olhar pra montanha, pra Serra da Saudade, mas não tem cara de madalena arrependida de jeito nenhum. A Gária tem cara de alegria pura concebida sem pecado original.

— Essa moça é muito estúrdia, viu, Cândida? — Pai, eu tenho pra mim que todo mundo é estúrdio aqui em Dores. Seu Cassiano Alvalade, o pai de Cândida, parou de tomar café. Pegou um pedaço de pão e não comeu. Ficou quieto, cismarento. — O que foi que você disse, Cândida?! Cândida continuou comendo bolo e tomando café com leite. — Eu disse que todo mundo é estúrdio aqui em Dores. Melhor dizendo, todo mundo é estúrdio no mundo todo. Seu Cassiano Alvalade não se moveu. Cândida café com leite e bolo: — Todo mundo, quer dizer, qualquer pessoa é estúrdia, viu, pai? Seu Cassiano estátua. Bolo e café com leite: — Gente é bicho muito difícil da gente entender, vive dizendo a Mariinha. E a Mariinha está certa. Portanto, qualquer pessoa pode ser a autora dos escritos na biblioteca. Qualquer pessoa pode ir pra lá de noite e danar a escrever os acrescentamentos. Seu Cassiano se recompôs. Respirou fundo. Bebeu dois goles de café. — Ô Cândida… — Fala, pai. — Você tem razão. Você mesma poderia ser a pessoa que vai pra lá de noite e dana a escrever os acrescentamentos. Cândida riu baixo. Fitou os olhos tristes do pai. — Eu… — Você vive medindo rua. — Meço com uma régua bem rente na tristeza dos seus olhos, viu, pai? — A tristeza dos meus olhos tem quantos quarteirões? — Uma boa alegria pode aparecer numa esquina. Seu Cassiano Alvalade riu alto nervoso contrafeito. Depois, comeu um pão inteiro.

Cândida comeu mais uma fatia de bolo. Bebeu mais café com leite. Era de ver que os dias foram passando. E quanto mais o tempo passava, mais as mulheres de Dores ficavam impressionadas com o que os filhos diziam sobre os acrescentamentos nos livros da biblioteca da Escola Umbelina Gomes, os da sexta estante e sua sexta prateleira de baixo pra cima diante da janela de vidro bisotê.

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