| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Sociedade do Sangue – Susan Hubbard

Em uma noite fresca de primavera em Savannah, minha mãe está caminhando. Seus tamancos soam como cascos de cavalo quando tocam o chão de pedras da rua. Ela passa por entre jardins de azaléias no auge de sua floração e vivos carvalhos cobertos de musgo espanhol, e entra em uma praça muito verde onde há um café à margem. Meu pai está sentado em um toco de árvore perto de uma mesa de ferro moldado. Dois tabuleiros de xadrez espalhados em cima da mesa, e meu pai havia acastelado um deles quando olhou para cima, viu minha mãe e derrubou um peão, que caiu sobre o tampo da mesa e rolou para a calçada. Minha mãe se abaixa para pegar a peça do xadrez e a entrega de volta para ele. Ela desvia seu olhar dele para os dois outros homens sentados à mesa. Seus rostos não têm expressão. São altos e magros, todos os três, mas meu pai tem olhos verdes -escuros que, de alguma maneira, parecem-lhe familiares. Meu pai estica uma mão e segura seu queixo. Vê dentro de seus olhos azuis-claros: – Eu conheço você – diz ele. Com sua outra mão, ele traça o formato de seu rosto, passando duas vezes sobre sua testa, no limite onde começam seus cabelos. Cabelos longos e grossos, castanho avermelhados, com pequenos cachos que ele tenta afastar de sua testa. Os outros homens da mesa cruzam os braços, esperando. Meu pai esteve jogando com os dois, simultaneamente. Minha mãe olha para o rosto de meu pai – cabelos escuros caindo sobre a testa, sobrancelhas negras e retas sobre aqueles olhos verdes, lábios finos e desenhados como o arco do cupido. Seu sorriso é tímido, assustado. Ele solta suas mãos e desliza para fora do tronco. Eles se afastam, caminhando juntos. Os homens na mesa suspiram e limpam os tabuleiros. Agora, terão que jogar um com o outro. ********* – Vou ver o professor Morton – diz minha mãe. – Onde é o escritório dele? Minha mãe aponta na direção da faculdade de artes. Ele coloca as mãos em seus ombros, levemente, deixando que ela o guie. – O que é isso? Um bicho no seu cabelo? – diz ele, de repente, puxando o que parece ser um inseto.


– Um prendedor – ela tira a libélula de cobre do cabelo e a entrega para ele – É uma libélula. Não é um bicho. Ele balança a cabeça, e então sorri. Diz: – Não se mexa – e cuidadosamente passa um cacho de seu cabelo pela libélula e a prende atrás de sua orelha esquerda. Eles dão as costas para a faculdade. Estão de mãos dadas agora, descendo por uma íngreme rua de pedras. Está escurecendo e esfriando, mesmo assim, param e sentam em uma mureta de cimento. Minha mãe diz: – Esta tarde eu me sentei à janela, observando o escurecer das árvores enquanto o sol se punha. Pensei: estou ficando velha. Restam-me apenas alguns muitos dias para ver o escurecer das árvores. Alguém poderia contá-los. Ele a beija. É um beijo breve, um rápido toque de lábios. O segundo beijo demora mais. Ela treme. Ele se inclina para cobrir seu rosto – testa, bochechas, nariz, queixo – com as pequenas e rápidas pinceladas de seus cílios. – Beijos de borboleta – diz ele – para te manter aquecida. Minha mãe olha para longe, maravilhada consigo mesma. Em questão de minutos, ela deixa muita coisa acontecer, sem hesitação nem protesto. E ela não vai interromper agora. Pergunta-se qual idade ele pensa que ela tem. Tem certeza que é velha o suficiente – ele parece ter cerca de vinte e cinco, ela recentemente completou trinta. Imagina quando irá contar para ele que é casada com o professor Morton. Eles se levantam e continuam caminhando, descem por degraus de concreto que os levam direto ao rio. No início dos degraus, há um portão de ferro fundido fechado.

– Eu odeio momentos como este – minha mãe diz. Seus sapatos não são para escalar portões. Meu pai pula o portão e o abre. – Não estava trancado – diz ele. Quando ela o atravessa, tem um sentimento de inevitabilidade. Ela está seguindo na direção de algo inteiramente novo, mesmo que predeterminado. Sem qualquer tipo de esforço, ela sente anos de infelicidade sendo apagados. Eles caminham ao longo da margem do rio. À frente, vêem a luz das lojas de lembranças para turistas e, quando chegam até elas, ele diz: – Espere. Ela observa enquanto ele entra em uma loja que vende produtos irlandeses importados, e o perde de vista dentro da porta de vidro ondulado. Ele sai carregando um macio xale de lã. Ele o enrola nela e, pela primeira vez em anos, ela se sente linda. Será que iremos nos casar?, ela se pergunta. Mas não precisa se perguntar isso. Eles continuam andando; já são um casal. ********** Meu pai me conta essa história duas vezes. Eu tenho perguntas. Mas as guardo até que ele termine de contar pela segunda vez. – Como você sabia o que ela estava pensando? – é a minha primeira pergunta. – Depois ela me contou seus pensamentos – diz ele. – O que aconteceu com o professor Morton? – pergunto em seguida – Ele não tentou impedir que ela o deixasse? Tenho treze, mas meu pai diz que estou indo para os trinta. Tenho cabelos compridos e negros e olhos azuis. Com exceção dos olhos, puxei ao meu pai. – O professor Morton tentou segurar a sua mãe – meu pai diz. – Tentou ameaçá-la.

Tentou forçála. Já o tinha feito antes, quando ela havia faldo em deixá-lo. Mas agora ela estava apaixonada, e não tinha mais medo. Arrumou suas coisas e foi embora. – Ela não foi morar com você? – No começo não. Não, ela conseguiu um apartamento no centro, perto do cemitério Colonial. Um apartamento que algumas pessoas ainda dizem que é assombrado. Eu olho firme para ele, mas não vou ser distraída pelo apartamento assombrado. – Quem ganhou a partida de xadrez? – pergunto. Seus olhos se arregalam: – Essa é uma boa pergunta, Ariella. – diz ele – Eu gostaria de saber a resposta. Meu pai normalmente sabe a resposta para tudo. – Você percebeu que ela era mais velha que você? – perguntei. Ele hesita: – Eu não penso sobre isso. A idade nunca teve importância para mim – ele se levanta, anda até a janela da sala de estar e fecha as pesadas cortinas de veludo. – Está na hora de você ir dormir – diz. Tenho outras centenas de perguntas. Mas eu balanço a cabeça, concordando, não faço objeção. Nesta noite ele me contou mais do que jamais contou antes sobre minha mãe, que eu nunca conheci, e mais ainda sobre si mesmo. Com exceção de uma coisa – a verdade que ele não quer contar, aquela que passei anos tentando entender. A verdade sobre o que nós realmente somos. PARTE 1 NA CASA DE MEU PAI Capítulo 1 Eu estava parada do lado de fora de nossa casa sob um crepúsculo azul profundo. Devia ter quatro ou cinco anos e, normalmente, não ficava sozinha fora de casa. O conjunto de janelas do andar superior era como retângulos dourados emoldurados pelas videiras verdes, as janelas do andar de baixo eram cobertas por olhos amarelos. Eu olhava fixo para a casa quando subitamente caí de costas na grama macia.

No mesmo instante, chamas irromperam do porão. Eu não me lembro de ter ouvido nenhuma explosão. Em segundos, a noite se encheu de uma luz azul e amarela; em seguida, um fogo vermelho surgiu no céu. Alguém me arrebatou e me carregou para longe de casa. Essa é minha memória mais antiga. Eu me lembro do cheiro que havia no ar aquela noite – fumaça misturada com essência de lilases -, a aspereza de uma capa de lã contra o meu rosto e uma sensação de flutuar enquanto nos afastávamos. Mas eu não sei quem me carregou, ou para onde fomos. Mais tarde, quando eu perguntei sobre o fogo, Dennis, o assistente de pesquisas de meu pai, falou-me que eu devia estar sonhando. Meu pai simplesmente se virou para o outro lado, mas não antes de eu ver em seu rosto os olhos distantes e cautos, e os lábios exprimindo um tipo de resignação que eu viria a conhecer muito bem. ********** Um dia, quando me senti entediada, como sempre me sentia quando era criança, meu pai disse que eu deveria escrever um diário. Até mesmo uma vida monótona vale a pena quando lida, ele disse, contanto que o escritor preste atenção suficiente aos detalhes. Ele encontrou em sua mesa um caderno de notas azul bem grosso, e puxou uma cópia de Walden, de Thoreau, de uma prateleira. E me entregou. E então eu comecei a escrever. Mas nem todos os detalhes do mundo fariam com que meus primeiros doze anos valessem a pena de serem lidos. Eu escrevi que crianças vivem uma rotina muito monótona, mas a minha vida era mais monótona do que todas as outras. Tenho que contar essas coisas, pois são necessárias para que você entenda o que virá a seguir. Eu vivia com meu pai, Raphael Montero, onde eu havia nascido, uma casa vitoriana em Saratoga Springs, Nova York. Se você algum dia desejar se esconder do mundo, viva em uma cidade pequena, onde todo mundo parece anônimo. A casa de meu pai tinha muitos cômodos, mas nós usávamos poucos. Ninguém usava a cúpula no topo da casa (apesar de muitos anos depois eu passar muitas horas olhando pela sua janela redonda, tentando imaginar o mundo além da cidade). Na base da torre, um longo corredor passava por seis quartos vagos. Uma larga escadaria frontal nos guiava para o andar de baixo, interrompida por um recesso sob um vitral; no chão, um carpete cobria todo o lu gar e, sobre ele, diversas almofadas marroquinas ficavam espalhadas, onde eu sempre me deitava para ler e ficar observando os cortes geométricos de vidro vermelho, azul e amarelo brilhantes. O vitral era muito mais interessante que o céu, que, em Saratoga Springs, parecia cinzento a maior parte do ano, tornando-se um azul berrante no verão. As manhãs começavam quando a sra.

McGarritt chegava. Ela era uma mulher pequena e frágil, com cabelos vermelhos e curtos; seu rosto fino havia se causticado em marcas de preocupação e de sorriso em igual medida. Quase sempre ela tinha um sorriso para mim, durante aqueles dias. Depois de deixar seu próprio rebanho na escola, a sra. McGarritt vinha para nossa casa e ficava até três e quinze da tarde, quando seus diversos filhos voltavam para casa. Ela cozinhava, limpava e lavava a roupa. Primeiramente, fazia meu café da manhã: geralmente cereal, servido com creme ou manteiga e açúcar mascavo. A sra. McGarritt não era muito de cozinhar – conseguia deixar a comida meio crua e meio queimada ao mesmo tempo, e nunca colocava sal. Mas, tinha um bom coração. E, em algum lugar, eu sentia que tinha uma mãe que entendia de comida. Isso era algo muito importante sobre minha mãe e que ninguém jamais havia me contado. Você pode até pensar que eu inventei isso, para compensar o fato de nunca tê-la conhecido. Mas eu tinha certeza de que minhas intuições eram verdadeiras, baseada no fato de que e u simplesmente não era responsável por elas. A sra. McGarritt disse que ouviu isso da boca da minha mãe antes que ela ficasse doente, que foi logo depois do meu nascimento, e ir para o hospital. Dennis, o assistente do meu pai, dizia que ela havia “sido levada de nós por razões que ninguém pode entender”. Meu pai não dizia nada. Todos concordavam apenas em uma coisa: minha mãe desapareceu depois do meu nascimento e não foi mais vista desde então. ********** Em uma manhã, depois do café, sentei na biblioteca para estudar e senti o cheiro de algo doce misturado com o cheiro habitual de goma. A sra. McGarritt tinha a mania de usar muita goma quando passava minhas roupas (e passava tudo o que eu usava, exceto roupas de baixo). Gostava do jeito antigo de cozinhar as roupas no fogão. Fiz uma pausa e fui para a cozinha, um cômodo no formato hexagonal pintado de verde-maçã. A mesa de carvalho estava coberta de farinha, tigelas e colheres, e a sra.

McGarritt estava parada ao lado dela, espiando dentro do forno. Parecia que havia encolhido perto do fogão – um Garland, gigantesco, com seis bocas (o caldeirão de goma sempre presente, fervendo em uma delas), dois fornos, uma grelha e uma forma redonda para bolos. Um livro de receitas com as páginas amareladas repousava na mesa perto de mim, aberto na receita de um bolo de mel. Alguém havia desenhado três estrelas em tinta azul perto da receita e havia escrito as palavras: “Fica melhor quando feito com nosso mel de lavanda em julho”. – O que significam as estrelas? – perguntei. A sra. McGarritt soltou a porta do forno, deixou-a bater e virou-se para mim: – Ari, você sempre me faz pular de susto – disse. – Eu não ouvi você entrar – passou suas mãos cheias de farinha no avental. – As estrelas? Acho que era o jeito de sua mãe dar nota a uma receita. Quatro estrelas é a maior nota, acho. – Esta é a letra da minha mãe? – era inclinada para a direita, com alguns círculos e arabescos. – Esse é o velho livro de receitas dela – a sra. McGarritt começou a juntar as colheres e a colocar as xícaras dentro das tigelas. Colocou tudo na pia. – E ele vai ser seu. Eu devo dá-lo a você, suponho. Ele sempre esteve naquela prateleira… – apontou para uma parede perto do fogão – … sempre, desde que eu vim trabalhar aqui. A receita pedia meia xícara de farinha e meia de mel, três ovos e alguns condimentos. – Nosso mel de lavanda – li novamente. – O que isso significa, sra. McG? A sra. McGarritt se virou rapidamente e, quando voltou, eu repeti a pergunta. – Ah, é o mel produzido pelas abelhas que bebem nas folhas de lavanda – disse ela sem se virar da pia. – Você sabe aquela grande porção de lavanda que temos no jardim perto da cerca lá fora? Eu sabia. As mesmas flores que estavam no papel de parede do quarto lá em cima, o quarto que meus pais um dia dividiram.

– Como o mel é feito? – perguntei. A sra. McGarritt começou a fazer muito barulho com a água e as louças e eu soube que ela não tinha a resposta. – Você podia perguntar para o seu pai, Ari – disse, finalmente. Quando voltei para a biblioteca, peguei o pequeno caderno de notas espiralado que sempre carregava comigo e escrevi a palavra mel na lista de perguntas, que eu já havia feito, para as aulas da tarde. ********** Todos os dias, à uma da tarde, meu pai subia as escadas do porão. Ele passava as manhãs trabalhando em seu laboratório; sua companhia de pesquisa médica se chamava Seradrone. Ele me dava aulas na biblioteca de uma até cinco da tarde, com duas pausas: uma para ioga e meditação e uma para o lanche. Às vezes, se o tempo permitisse, eu ia andar no jardim e encontrava Marmelada, o gatão laranja dos vizinhos, que gostava de tomar sol perto das lavandas. E então eu voltava para dentro e ficava com meu pai na sala de estar, onde ele lia seus jornais (alguns científicos, alguns literários; ele tinha uma certa afeição pela escola literária do século XIX, em particular os trabalhos de Nathaniel Hawthorne e Edgar Allan Poe). Eu podia ler qualquer coisa que eu quisesse da biblioteca, mas na maioria das vezes escolhia os contos de fadas. Às cinco, nós passávamos para a sala de estar. Ele se sentava em sua poltrona verde-escura de couro e eu me sentava em uma poltrona de veludo vermelho -escuro na qual eu cabia perfeitamente. Às vezes, ele me pedia para abrir um envelope; tinha dificuldade em abrir coisas, ele dizia. Atrás de nós ficava uma lareira que nunca havia sido usada, pelo que eu sabia. E uma tela de vidro com borboletas desenhadas ficava em frente à lareira. Eu bebericava leite de arroz, e ele bebia um coquetel vermelho que chamava de “Picardo”. Ele nunca me deixou experimen tar, dizendo “você é muito nova” . Parecia que eu sempre era muito nova, naqueles dias. Agora, eu quero descrever meu pai: um homem alto, de uns dois metros, com ombros largos e uma cintura fina, braços musculosos, pés bonitos (só me dei conta de como eram bonitos quando eu vi como os pés das pessoas eram feios). Sobrancelhas pretas e retas e olhos verdes profundos, pele branca, um nariz comprido e reto, uma boca fina cujo lábio superior se curva para cima e o lábio inferior se vira para baixo nos cantos. Seus cabelos são negros como cetim e caídos por cima da testa. Mesmo quando eu era menor, sabia instintivamente que meu pai era um homem extraordinariamente bonito. Ele se movia como um dançarino, com graça e leveza. Você nunca o ouvia chegando e saindo, mas sentia sua presença no momento em que ele entrava na sala.

Eu achava que se meus olhos fossem vendados e meus ouvidos fossem tapados, saberia se ele estivesse ali; o ar ao seu redor se tornava de uma luminosidade quase palpável. – E como o mel é feito? – perguntei para ele naquela tarde. Seus olhos se estreitaram. Ele disse: – Tudo começa com as abelhas. E então traçou todo o processo, do néctar ao favo e à coleta: – As operárias são fêmeas estéreis – disse ele. – Os machos são bastante inúteis. Sua única função é cruzar com a rainha. Eles vivem por poucos meses, e então morrem – sua boca endureceu quando pronunciou a palavra “morrem”, como se ela viesse de um idioma não familiar. Depois, descreveu o jeito como as abelhas dançam quando elas retornam à colméia. Usava as mãos para demonstrar os movimentos e sua voz emitia um som bonito demais para ser real. Quando ele chegou na parte sobre os apicultores, foi até uma prateleira e voltou com um dos volumes da enciclopédia. Mostrou-me a ilustração de um homem usando um chapéu com uma longa aba e um véu escondendo seu rosto, segurando um aparelho com um bico para defumar as colméias. Agora eu tinha uma imagem de minha mãe: uma mulher usando luvas grossas, vestida com um longo véu. Mas eu não mencionei isso para meu pai, ou perguntei a ele sob re “nosso mel de lavanda”. Ele nunca respondia questões sobre minha mãe. Geralmente, mudava de assunto. Uma vez, disse que tais questões o deixavam triste. Eu imaginava qual era o gosto do mel de lavanda. O único mel que eu havia provado vinha de trevos, de acordo com o rótulo no pote, e ele evocava o sabor dos verdes prados no verão. Lavanda, creio eu, devia ter um sabor forte, cortante, floral, com um toque de fumaç a. Deveria ter o sabor azul-violeta, a cor do céu no crepúsculo. No mundo de meu pai, o tempo não tinha significado. Eu acho que nunca olhou para o relógio de meu avô na biblioteca. Mesmo assim nós mantínhamos uma agenda regular – basicamente, eu suspeitava, para meu próprio bem. Todas as tardes, às seis, ele se sentava comigo enquanto eu jantava o que a sra.

McG (cansei de escrever seu nome inteiro, então é assim que a chamo) sempre deixava no forno morno: macarrão com queijo, ou ensopado de tofu , ou chili vegetariano. E tudo tinha o gosto meio cru no fundo e meio queimado em cima, insípido e salubre. Depois que eu terminava, meu pai cuidava do meu banho. Quando fiz sete anos, ele passou a me deixar tomar banho sozinha. Perguntou-me se, sendo uma garota crescida, eu ainda queria que ele lesse para mim antes de dormir, e é claro que eu respondi que sim. Sua voz soava como se fosse de veludo. Quando eu tinha seis anos ele leu Plutarco e Platão para mim, mas Dennis deve ter dito algo para ele, porque depois ele começou a ler Beleza negra, Heidi e A princesa e o duende . Perguntei ao meu pai por que ele não jantava comigo e ele disse que preferia comer bem mais tarde lá embaixo. Havia uma segunda cozinha (eu a chamava de cozinha noturna) no porão, junto com duas fornalhas, um laboratório onde meu pai trabalhava com Dennis, e três quartos pensados originalmente para os empregados. Eu raramente visitava o porão; nunca fui explicitamente proibida, mas às vezes a porta para o porão, que ficava na cozinha, ficava trancada e, mesmo se não ficasse, sabia que não me queriam lá. De qualquer modo, eu não gostava do cheiro: produtos químicos de laboratório e comida estragada da cozinha noturna misturados ao odor do metal quente das fornalhas. Sim, eu preferia o cheiro da goma. A cozinheira e assistente para todos os assuntos de meu pai, a repugnante Mary Ellis Ro ot, chefiava os domínios do porão, e sempre olhava para mim com olhos que irradiavam hostilidade. – E então, você gostou? – a sra. McG olhava indecisa por cima da mesa do café da manhã, torcendo uma toalha entre as mãos. Seu rosto estava brilhante e seus óculos precisavam de uma limpeza, mas seu impecável vestido caseiro xadrez vermelho e verde, amarrado na cintura, havia sido passado e sua saia continuava em dobras onduladas. Ela estava me perguntando sobre o bolo de mel. – Muito bom – eu disse, quase sinceramente. O bolo, uma fatia do qual eu já havia comido de sobremesa na noite anterior, tinha uma maravilhosa riqueza concentrada; se ele tivesse sido assado um pouquinho menos, e se a assadeira tivesse sido bem mais untada, ele realmente estaria delicioso. – Se eu tivesse feito na minha casa, teria usado banha de porco, – disse ela – mas seu pai é um vegetariano tão rigoroso. Um segundo depois, Mary Ellis Root bateu a porta que levava ao porão e entrou como uma tempestade. – O que você disse para o serviço de entrega? – disse ela para a sra. McG. Sua voz soava áspera e baixa.

.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |