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A sociedade Santa Zita – Ruth Rendell

Alguém dissera a Dex que a rainha morava em Victoria. Ora, ele também, mas ela tinha um palácio, e ele, um cômodo em uma rua perto da Warwick Way. Ainda assim, Dex apreciava a ideia de a rainha ser sua vizinha. Apreciava diversos aspectos da vida que estava levando nos últimos meses. Tinha um emprego com o Dr. Jefferson, o que significava que poderia trabalhar em um jardim três manhãs por semana, e o médico ainda comentara que falaria com a vizinha ao lado para que Dex trabalhasse uma manhã para ela também. Apesar de lhe terem dito que, enquanto estivesse recebendo a aposentadoria por invalidez, não poderia receber salário algum, o Dr. Jefferson nunca perguntara nada a respeito e, talvez, a senhora Neville-Smith tampouco o faria. Jimmy, que todos os dias levava de carro o Dr. Jefferson para trabalhar no hospital, chamara Dex para ir ao pub naquela noite. O estabelecimento ficava na esquina de Hexam Place com a Sloane Gardens e se chamava Dugongo, um nome engraçado de que Dex nunca tinha ouvido falar. Haveria uma reunião lá com todas as pessoas que trabalhavam em Hexam Place. Dex nunca tinha participado de nenhum tipo de reunião e não sabia se gostaria, mas Jimmy prometera pagar-lhe uma Guinness, sua bebida favorita. Ele beberia uma Guinness toda noite com seu chá se tivesse dinheiro para isso. Estava na metade do caminho na Pimlico Road quando pegou o celular e olhou para ver se havia uma mensagem de voz ou de texto de Peach. Às vezes havia, o que sempre o fazia se sentir feliz. Geralmente a mensagem lhe chamava pelo nome e dizia que ele tinha sido tão bom que Peach lhe daria dez ligações gratuitas ou algo do tipo. Não havia nada dessa vez, mas ele sabia que haveria novamente ou que era possível até mesmo que Peach falasse com ele. Peach era o seu deus. Ele sabia disso porque quando a senhora do andar de cima o viu sorrindo para o celular e fazendo uma mensagem voltar várias e várias vezes, ela disse, Peach é o seu deus, Dex. Ele precisava de um deus para protegê-lo dos espíritos malignos. Já fazia um bom tempo que não via nenhum deles e sabia que era porque Peach o estava protegendo, assim como sabia que, se houvesse algum por perto com que devesse se preocupar, Peach o advertiria. Confiava em Peach como jamais tinha confiado em um ser humano. Ele parou do lado de fora do Dugongo, que conhecia bem, pois era ao lado da casa do Dr. Jefferson.


Não colado a ela, mas ao lado, uma vez que a casa do Dr. Jefferson era grande, isolada e possuía um amplo jardim do qual Dex cuidava. A placa do pub era um tipo de peixe com metade de seu corpo projetando-se para fora de um trecho de água ondulada. Ele sabia que era um peixe porque estava num mar. Abriu a porta com um empurrão e lá estava Jimmy, acenando para ele de maneira amigável. Todas as outras pessoas ao redor da grande mesa olharam para Dex, que imediatamente soube que nenhuma delas era um espírito maligno. — Eu não sou uma criada. — Thea se serviu de um punhado de castanhas. — Você pode ser, mas eu, não. — Então você é o quê? — perguntou Beacon. — Não sei. Só faço uns servicinhos pro Damian e pro Roland. Você não pode esquecer que eu fiz faculdade. — Bem-aventurada aquela que não se assenta na roda dos escarnecedores. — Beacon tirou a tigela de castanhas do alcance de Thea e continuou: — Se vai comer as castanhas dos comuns, não deve enfiar a mão depois que a colocou na sua boca. — Parem de brigar, crianças — disse June. — Vamos ser legais. Se você não é uma criada, Thea, não cumpre os critérios para fazer parte da Sociedade Santa Zita. Era agosto, e o dia tinha sido ensolarado e muito quente. A totalidade daqueles que comporiam a sociedade não pôde estar ali. Rabia, sendo muçulmana e babá, nunca saía à noite, muito menos para um pub; Zinnia, faxineira da Princesa, dos Still e do Dr. Jefferson, não dormia no lugar onde trabalhava; e Richard estava preparando o jantar para os convidados de lady Studley, enquanto Sondra, sua esposa, aguardava à mesa. Montserrat, au pair dos Still, disse que talvez fosse ao pub, mas que tinha uma tarefa misteriosa para executar mais tarde, e o recém-chegado Dex, jardineiro do Dr. Jefferson, nunca abria a boca, a não ser para dizer “saúde”. Henry ainda era esperado, porém, e no momento em que June reclamava que as castanhas do Dugongo não tinham sal, e portanto gosto, ele entrou.

Com a sua excessiva altura e notável semelhança com o Davi de Michelangelo, teria sido umexcelente lacaio em épocas passadas. Aliás, em 1882 seu tatara-tatara-tataravô fora lacaio de um duque. Henry era o mais jovem do grupo depois de Montserrat e, apesar de parecer um astro de Hollywood dos anos 1930, era na verdade motorista, às vezes jardineiro e faz-tudo de lorde Studley, sendo responsável pelas tarefas que Richard não podia ou queria fazer. Com uma jovial gargalhada, o patrão se referia a ele como seu “factótum geral”. Ele nunca era chamado de Harry ou Hal. Beacon disse que a rodada era por conta de Jimmy e perguntou o que Henry iria querer. — O branco da casa, por favor. — Isso não é coisa de homem. Isso é bebida de mulherzinha. — Não sou um homem; sou um menino. E não vou beber cerveja nem destilado até semana que vem, quando tiver 25 anos. Vocês viram que outro garoto foi esfaqueado? Lá na Embankment. Com esse, são três esta semana. — A gente não precisa falar disso, Henry — disse June. Alguém que claramente não queria falar sobre aquilo era Dex, que deu o último gole de sua Guinness, levantou-se e saiu, sem falar nada. June o observou ir embora e disse: — Sem educação, mas o que se pode esperar? Agora a gente tem que conversar sobre a sociedade. Como é que se cria uma sociedade, afinal de contas? Jimmy respondeu com um tom pesado e ponderoso: — A gente escolhe um chairman, só que não vamos poder chamá-lo assim, porque o man indica que tem que ser um homem e é igualmente capaz que tenhamos uma mulher no cargo. A gente chama a pessoa de chair. — Mas chair significa cadeira. Não vou chamar nenhum chegado meu pelo nome de um móvel —disse Thea, estendendo a mão para pegar a tigela de castanhas. — Por que a gente não pode eleger o Jimmy chairperson, “pessoa” mesmo, e aí June fica sendo a secretária e o restante de nós, só membros? Aí fica tudo resolvido. Esta pode ser a reunião inaugural da Sociedade Santa Zita. Henry estava mandando uma mensagem no seu iPhone. — Quem é Santa Zita? Fora June quem achara o nome para a sociedade. — Ela foi a santa padroeira dos empregados domésticos.

E dava a própria comida e roupa para os pobres. Se você der uma olhada numa foto dela, vai vê-la segurando um saco e um molho de chaves. — Esse garoto que foi esfaqueado… — comentou Henry. — A mãe dele estava na TV e falou que ele ia se formar no colégio com notas ótimas e que ele faria qualquer coisa pra qualquer pessoa. Todo mundo o adorava. Jimmy abanou a cabeça e disse: — Engraçado, né? Todos esses meninos são assassinados e tal, e a gente nunca ouve alguém dizer que não valiam nada e que eram uma ameaça para a vizinhança. — Bom, eles não podem ser quando estão mortos, podem? O iPhone de Henry apitou para avisar que uma mensagem havia chegado. Era a que queria; ele abriu um pequeno sorriso devido ao que Huguette escrevera. — Mas pra que essa sociedade serve? — Solidariedade — respondeu Jimmy. — Para darmos apoio uns aos outros. E a gente pode fazer umas excursões pra ir a uns espetáculos. — A gente pode fazer isso de qualquer jeito. Não precisamos ter uma sociedade de criados para ir ver Les Mis. — Eu não sou criada — insistiu Thea. — Então você pode ser um membro honorário — disse June. — Bom, essa é a minha deixa. Já está bem escuro e a Princesa vai começar a ficar preocupada. Montserrat acabou não aparecendo, e ninguém sabia do que se tratava a tal “tarefa misteriosa”. Jimmy e Thea conversaram sobre a sociedade por mais ou menos uma hora, sobre para que ela servia e se ela poderia impedir que os patrões mantivessem seus motoristas acordados até altas horas da madrugada, obrigados a beber Coca-Cola enquanto esperavam pelo chamado deles. Não que incluíssem aí o Dr. Jefferson, que era um exemplo para todo o restante. Henry queria saber quem era aquele cara com cabelo volumoso, Dex ou algo assim; ele nunca o vira antes. — Ele cuida do nosso jardim. — Jimmy tinha adquirido o hábito de se referir à propriedade de Simon Jefferson como se pertencesse tanto a ele quanto ao pediatra. — O Dr.

Jefferson o contratou de pura bondade. Jimmy terminou sua cerveja e acrescentou dramaticamente: — Ele vê espíritos malignos. — Ele o quê? — indagou Henry, boquiaberto, da maneira que Jimmy planejara. — Bem, ele costumava ver. Tentou matar a mãe e eles o trancafiaram, bem, num lugar para os criminalmente insanos. Um psiquiatra que cuidava dele era amigo do Dr. Jefferson e, quando foi curado, o libertaram porque disseram que ele nunca mais faria aquilo de novo. Foi aí que o Dr. Jefferson deu a ele o emprego com a gente. Thea pareceu inquieta. — Cês acham que foi por isso que ele foi embora naquela hora sem dar tchau? Falar sobre esfaqueamento era familiar demais? Cês acham que foi isso? — O Dr. Jefferson falou que ele está curado — comentou Jimmy. — Ele nunca mais vai fazer aquilo de novo. O amigo dele jurou de pés juntos que não faria. Henry foi o último a ir embora, pois decidiu se dar ao luxo de pedir outra bebida de mulherzinha. Todos os outros saíram na mesma direção. As casas de seus patrões eram todas em Hexam Place, uma rua de casas de estuque branco ou tijolo dourado, chamadas pelos corretores imobiliários de georgianas, apesar de nenhuma ter sido construída antes de 1860. O número 6, no lado oposto ao Dugongo, era propriedade de Sua Alteza Sereníssima, a princesa Susan Hapsburg, um título incorreto em todos os aspectos, com exceção de seu nome de batismo. A Princesa, como era conhecida pelos membros da Sociedade Santa Zita e por outros, tinha 82 anos de idade e morava naquela casa havia quase sessenta anos, e June, quatro anos mais nova, estava lá com ela há tanto tempo quanto. Uma escada levava até a área de serviço e à porta de June, mas, quando ela chegava em casa depois de ter saído à noite, entrava pela porta principal, mesmo que isso significasse subir oito degraus em vez de descer doze. Havia noites em que sua polimialgia reumática tornava aquela subida uma provação, mas ela fazia isso para que pedestres e outros residentes de Hexam Place pudessemsaber que ela era mais uma amiga da Princesa do que uma trabalhadora assalariada. Zinnia dera banho em Gussie naquele dia e trouxera um novo tipo de aromatizador de ambiente para que o cheiro de cachorro molhado ficasse menos evidente. Fazia muito calor. Cruel na maioria dos aspectos, a Princesa esbanjava o aquecimento central; mantinha o aquecedor ligado durante todo o verão e abria as janelas quando ficava quente demais. Dava para June ouvir que a Princesa assistia à Holby City, mas entrou mesmo assim.

— O que posso trazer para a madame agora? Uma bela vodca com tônica ou um suco de laranja recém-espremido? — Não quero nada, querida. Já tomei minha vodca — disse ela sem se virar. — Você está bêbada? Era uma pergunta que sempre fazia quando sabia que June estivera no pub. — É claro que não, madame. Era a resposta que June sempre dava. — Bom, não fale mais nada, querida. Quero saber se esse camarada tem psoríase ou um melanoma maligno. É melhor você ir dormir. Era uma ordem e, sendo amiga ou não, mesmo depois de sessenta anos, June sabia que o mais sábio a fazer era obedecer. Os jovens da Santa Zita podiam ser colegas de seus patrões, Montserrat inclusive chamando a Sra. Still de Lucy, mas, quando se tinha 82 e 78 anos, as coisas eram diferentes. As regras não tinham relaxado muito desde os dias em que Susan Borrington estivera fugindo com aquele terrível garoto italiano e ela a acompanhara até a casa dele em Florença. June foi dormir e estava caindo no sono quando o telefone interno tocou. — Colocou o Gussie na cama, querida? — Esqueci — murmurou June, quase inconsciente. — Bom, faça isso agora, está bem? As áreas de serviço dessas casas eram todas diferentes. Algumas tinham armários debaixo da escada, outras, armários na parede que as separavam da casa vizinha, a maioria com plantas em vasos, fetos arbóreos, choisyas, abacateiros que cresciam de pedras, até mesmo uma mimosa, esporadicamente uma peça de estatuária. Todas tinham algum tipo de luminária, geralmente de parede, globular ou cuboide. A número 7, lar dos Still e vizinha a três casas de distância do Dugongo, era uma das que possuía um armário na parede e nenhum vaso de planta. A lâmpada pendurada na porta do porão não estava acesa, mas a luz pálida que vinha de um poste na rua era suficiente para mostrar a Henry uma silhueta de pé dentro do armário da parede. Ele parou e espreitou por cima da balaustrada. A silhueta de um homem refugiava-se o máximo que conseguia dentro do pouco espaço de seu esconderijo improvisado. Possivelmente um ladrão. Vinham ocorrendo muitos crimes por ali recentemente. Na semana anterior mesmo, Montserrat lhe tinha dito, alguém entrara pela janela do número 5, a casa dos Neville-Smith, e levara um televisor, uma mala cheia de dinheiro e as chaves de um BMW para, em seguida, sair pela porta da frente e fugir no carro. O que esperar de um local sem trancas nas janelas, uma das quais ficara aberta cinco centímetros no andar de baixo? Era óbvio que aquele homemestava com más intenções, uma frase que Henry escutara seu patrão dizer e da qual gostava.

Lorde Studley diria para telefonar para a polícia de seu celular, mas não era sempre que Henry fazia o que lorde Studley recomendava e, na verdade, estava prestes a fazer uma coisa que ele sem dúvida desaprovaria. Ele estava se virando quando a porta do porão abriu e Montserrat apareceu. Ela acenou para Henry, disse “oi” e gesticulou a fim de que o homem saísse do armário. Devia ser o namorado dela. Ele achou que se beijariam, mas isso não aconteceu. O homem entrou e a porta se fechou. Quinze minutos depois, tendo se esquecido do ladrão ou namorado, ele estava em Chelsea, no apartamento da honorável Huguette Studley. Atualmente, as visitas de Henry seguiam um mesmo padrão: primeiro cama, depois discussão. Henry preferiria privar-se da discussão e passar o dobro do tempo na cama, mas isso era raramente permitido. Huguette (nome que herdara de sua avó francesa) era uma garota de 19 anos muito bonita, com uma volumosa boca vermelha, grandes olhos azuis e um cabelo cuja avó diria ser crespo, mas outros reconheciam como o volumoso cacheado tornado famoso por Julia Roberts em Jogos do poder. Era sempre Huguette que começava a discussão. — Você não vê, Henry, que se morasse aqui comigo a gente iria poder ficar na cama o tempo todo? Não teria discussão nenhuma, porque a gente não teria por que discutir. — E você não vê que o seu pai ia me demitir? Por duas razões — disse Henry, que tinha pegado um pouco da linguagem parlamentar de seu patrão — para ser absolutamente claro; por não morar no número 11 e por trepar com a filha dele. — Você pode arranjar outro emprego. — Como? Levei um ano pra conseguir este. Ah, seu pai ia me dar uma carta de recomendação, não é? Mas que ótimo, que ideia maravilhosa. — A gente podia casar. Se Henry fosse alguma vez pensar em casamento, seria quando estivesse com seus 50 anos, ao lado de uma mulher com dinheiro e uma casa grande num condomínio no subúrbio. — Ninguém mais casa hoje em dia — argumentou ele —, e, enfim, estou saindo fora. Lembra que tenho que estar em frente ao número 11 às 7h dentro do BMW esperando pelo seu pai quando decidir sair, o que pode não acontecer antes das nove, não é? — Me manda uma mensagem — disse Huguette. Henry voltou caminhando. Uma raposa urbana emergiu da área do número 5, mandou-lhe um olhar desagradável e atravessou a rua para saquear a lata de lixo da Srta. Grieves. No andar de cima do número 11, uma luz ainda estava acesa no quarto de lorde e lady Studley. Henry ficou quieto por um tempo, olhando para cima, com esperança de que as cortinas se partisseme lady Studley olhasse para baixo, preferencialmente em sua camisola rendada preta, lhe entregasse um afetuoso sorriso e franzisse os lábios em um beijo.

Mas nada aconteceu. A luz se apagou e Henry entrou pela porta da área de serviço. Em vez de abrir a porta de seu quartinho com banheiro (chamado de quitinete pelos patrões), Montserrat subiu com o visitante pelas escadas do porão até o andar térreo e em seguida por mais umlance que fazia um semicírculo até o corredor. A casa estava silenciosa, com exceção do suave barulho dos chinelos de Rabia no chão do berçário, no andar de cima. Montserrat deu uma batidinha leve na terceira porta à direita, depois a abriu e disse: — O Rad está aqui, Lucy. E os deixou a sós, como comentou com Rabia cinco minutos mais tarde. — Se estão todos dormindo, por que você não desce um pouquinho? Tenho meia garrafa de vodca. — Você sabe que eu não bebo, Montsy. — Você pode beber suco de laranja; eu vou de vodca. — Não vou escutar o Thomas se ele chorar. Os dentes dele estão nascendo. — Os dentes dele estão nascendo há semanas, se não há meses — disse Montserrat. — Se fosse meu, eu afogaria. Rabia disse que ela não deveria falar daquele jeito, era perverso. Então Montserrat começou a contar à babá sobre Lucy e Rad Sothern. Rabia enfiou os dedos nos ouvidos. Ela voltou para junto das crianças; Hero e Matilda estavam completamente adormecidos no quarto que dividiam, e, no berçário, o bebê Thomas se mostrava indócil em seu berço, embora não fizesse barulho. Montserrat se despediu e foi embora. O tempo passava muito lentamente. Estava ficando tarde, e Rabia pensou seriamente em ir se deitar em seu quarto nos fundos. Mas e se o Sr. Still subisse até o berçário quando chegasse em casa? Ele às vezes fazia isso. Thomas começou a chorar, então a gritar. Rabia o pegou e começou a andar com ele para cima e para baixo, o remédio soberano. Do alto, o cômodo dava vista para a rua, e, da janela, ela viu Montserrat deixando o homem chamado Rad sair pela escada da área de serviço.

Rabia balançou a cabeça; não se sentia nem um pouco entusiasmada e tampouco achava graça naquilo, como esperava Montserrat. Só ficava profundamente chocada. Thomas havia parado com a barulheira novamente, mas voltou a resmungar assim que foi posto de volta em seu berço. Rabia tinha grande paciência e o amava afetuosamente. Era viúva, e ambos os seus filhos haviam morrido muito jovens. Isso, de acordo com um dos médicos, acontecera devido a ela ter se casado com um primo de primeiro grau. Mas o próprio Nazir também não vivera muito, e ela agora estava sozinha. Sentou-se na cadeira ao lado do berço, falando suavemente com Thomas. Quando ele voltou a chorar, ela o pegou e o carregou até a mesa em que estava a chaleira e em seguida à pequena geladeira no canto e começou a preparar leite morno. Ela estava muito longe da janela para ver ou ouvir o carro, e o primeiro indício da chegada de Preston Still de que tomou conhecimento foi o som de seus pesadíssimos pés na escada. Em vez de pararem no andar de baixo onde sua mulher dormia, os passos continuaram a subir. Do jeito que ela imaginara. Como Jemima Puddle-Duck — um livro que às vezes Rabia lia para as crianças, o qual, diziam elas, soava engraçado no sotaque dela —, Preston era um pai ansioso. Bem o oposto de sua mulher, como Rabia quase sempre pensava. Ele entrou com uma aparência cansada, fustigada. Estivera em uma reunião em Brighton — ela sabia, pois Lucy lhe contara. — Ele está bem? Preston pegou Thomas e o apertou forte demais para que fosse agradável para a criança. Brincar e até mesmo conversar com o bebê eram ocorrências raras. Seu cuidado estava concentrado na preocupação com a saúde dele. — Não há nada de errado, há? — prosseguiu. — Se houver uma coisinha qualquer, devemos ligar para o Dr. Jefferson. Ele é um bom amigo e sei que chegaria num segundo. — Ele está muitíssimo bem, Sr. Still.

— O uso de primeiros nomes para Rabia não se estendia ao dono da casa. — Ele não quer dormir, só isso. — Que peculiar — disse Preston com tristeza. A ideia de alguém não querer dormir, especialmente alguém com seu próprio sangue, era estranha para ele. — E as meninas? Achei que a Matilda estava tossindo um pouco quando a vi ontem. Rabia disse que Matilda e Hero estavam dormindo no quarto adjacente. Não havia nada de errado com nenhuma das crianças, e, se o Sr. Preston simplesmente deitasse Thomas gentilmente, ele certamente se acalmaria. Sabendo o que o agradaria, o que faria com que ela se livrasse dele e pudesse ir dormir, acrescentou: — Ele só estava sentindo falta do papai e, agora que está aqui, ele vai ficar bem. Nada de pediatra, portanto, nada de perturbação. Ela poderia ir para a cama. Poderia dormir por, quem sabe, umas cinco horas. O que ela dissera ao Sr. Still sobre o filho estar sentindo falta do pai não era verdade. Era uma mentira dita para agradá-lo. Secretamente, Rabia acreditava que nenhuma das crianças sentiria falta de nenhum dos pais por um momento sequer. Eles raramente os viam. Ela pôs os lábios na bochecha de Thomas e sussurrou: — Meu querido. CAPÍTULO DOIS Na bandeja havia um pequeno pote de iogurte do tipo que supostamente regula a flora intestinal, umfigo, uma fatia de torrada com manteiga, marmelada e um bule de café. A Princesa estava na metade de sua fase de iogurte. June sabia que estava na metade porque as fases dela duravam uns quatro meses, e dois já tinham decorrido. Ela levantou aquela bandeja com pernas — nenhuma delas sabia o nome daquilo — e a apoiou sobre o edredom. Sempre colocava bobes no cabelo na hora de dormir e naquele momento os retirava, deixando cair caspa em cima da torrada. — Dormiu bem, querida? — Nada mal, madame. E a senhora? — Tive um sonho dos mais peculiares.

A Princesa quase sempre tinha sonhos peculiares e começou a relatar aquele. June não escutou; abriu as cortinas e ficou à janela, observando o Hexam Place abaixo. O BMWpreto de lorde Studley estava em frente ao número 11 do lado oposto da rua, o pobre Henry ao volante. June tinha certeza de que estava ali havia duas horas. Ele parecia ter caído no sono, o que não era de se estranhar. Era realmente uma pena a Sociedade Santa Zita não ser um sindicato, mas ela porventura poderia assumir algumas das prerrogativas de um sindicato e dar um basta nesse cruel tratamento dado aos empregados. Perguntou-se se os direitos humanos de Henry estavam sendo infringidos. O elegante ônibus escolar, prateado com uma faixa azul ao longo da lateral, virou a esquina vindo da Lower Sloane Street. Hero e Matilda Still já estavam esperando do lado de fora do número 7, cada uma segurando uma das mãos de Rabia. A moça observou as meninas subirem no ônibus, que as levaria para a sua caríssima escola em Westminster. Mas por que a mãe delas não podia ter feito aquilo? Ainda na cama, pensou June. Isso sim era honrar o sobrenome, já que Still significa “parado”. Que mundo! Damian e Roland emergiram do número 9, cuja porta principal June não conseguia ver. Esses dois sempre iam a todos os lugares juntos. Se fossem de sexos opostos, teriam dado as mãos, e June, como progressista fervorosa, achava uma vergonha que aquilo ainda fosse umponto não atingido na luta contra o preconceito e a intolerância. O Sr. Still acabava de sair do número 7 quando a Princesa chegou ao desfecho da história de seu sonho. June possuía um instinto, nascido de anos de experiência, em relação a quando esse ponto era atingido. — …e não era a minha mãe de jeito nenhum, mas aquela garota ruiva que faz faxina para aquelas bichas, aí eu acordei. — Fascinante, madame, mas não se fala mais “bicha”, não é? Fala-se “casal gay”. — Ah, tudo bem. Se você insiste. Tenho certeza de que a lady Studley não permite que a Sondra fale com ela desse jeito. — Provavelmente, não, madame — disse June. — Há algo mais que a senhora gostaria que eu trouxesse? Não havia.

A Princesa ficaria emburrada por um tempo e então se levantaria. June escutou Zinnia chegar. Desceu a escada feliz por ter vencido aquele round e se preparou, depois de persuadir a faxineira a limpar as paredes da sala de jantar, para dar prosseguimento à agenda da próxima reunião da Santa Zita. June Caldwell tinha 15 anos quando sua mãe, viúva e empregada doméstica de Caspar Borrington, conseguira o trabalho de criada de dama (de criada de tudo, na verdade) de Susan Borrington, a filha dele. Dois meses após seu aniversário de 18 anos, Susan ficou noiva do príncipe Luciano Hapsburg, descendente de uma duvidosa família aristocrática italiana que ela conhecera quando esquiava na Suíça. Talvez não fosse exatamente o herdeiro, já que tinha dois irmãos e era um instrutor de esqui. Não havia dinheiro na família, e o título fazia os italianos rirem, porque o pai de Luciano trocara o nome de Angelotti para Hapsburg alguns anos antes. Ele tinha algumas lojas de lingerie em Milão. Isso, por mais esquisito que parecesse, dava a eles algo em comum. Caspar Borrington, que tinha muito dinheiro e era proprietário de três casas e um apartamento em Mayfair, conseguira tudo isso com algo não tão dissimilar, ainda que um pouco menos nobre: suas fábricas produziam absorventes. O advento do Tampax arruinou o negócio, mas, quando Susan conheceu Luciano, a família era enormemente rica e Susan era filha única. Casaram-se, e June foi morar com eles no apartamento em Florença pelo qual o pai de Susan pagava. A cidade a maravilhou: as pessoas e seu modo de falar engraçado, o clima, sempre magnífico (Susan se casou em maio), os edifícios, o Arno, as pontes, as igrejas. Estava começando a se acostumar, aprendendo a falar Buongiorno e Ciao, quando Susan e Luciano tiveram uma briga mais espetacular que as de costume, chegando às vias de fato, e a moça recém-casada disse a June para fazer as malas, pois iriam para casa. Eles nunca se divorciaram, pois Susan tinha a ideia de que o divórcio era impossível na Itália. Caspar Borrington deu a Luciano uma soma considerável de dinheiro para calá-lo, e ela nunca mais o viu. Alguns anos depois, seu pai conseguiu que o casamento fosse anulado. Ele não era uma Alteza Sereníssima — havia dúvida se realmente era mesmo um príncipe —, mas Susan passou a se autointitular Sua Alteza Sereníssima, a princesa Susan Hapsburg; tinha esse nome impresso em seus cartões e o inseriu no registro de eleitores da Cidade de Westminster. O pai lhe comprou o número 6 em Hexam Place, um endereço não tão elegante quanto se tornaria mais tarde, e ela morava ali desde então, tendo encontrado para si um grupo de amigas entre as viúvas de generais, ex-esposas de esportistas e antiquadas filhas solteiras de diretores de empresas. Houve amantes, mas não muitos e não por muito tempo. Zinnia era outra que possuía um nome adotado por ela própria, pois desgostava de “Karen”, com o qual tinha sido batizada em Antígua. “St Charles” era seu sobrenome verdadeiro, no entanto. Trabalhar para uma princesa no coração de Knightsbridge lhe deu muito renome e permitiu que facilmente conseguisse trabalho fazendo faxina nos números 3, 7 e 9. Depois de tê-la convencido a lavar as paredes da sala de jantar, June perguntou a Zinnia se gostaria de se juntar à Sociedade Santa Zita. — Quanto custa? — Nada.

E você ainda tem chance de conseguir algumas bebidas de graça. — Então tá — respondeu Zinnia. — Não me importaria. Henry Copley é membro? — É — disse June. — Mas não fique muito esperançosa. Ele já anda bem ocupadinho. Ela foi para o escritório, no qual a Princesa nunca entrava, sentou-se à mesa que a patroa nunca usava, começou a escrever o estatuto da sociedade e a aprender sozinha redigir atas.

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