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À sombra da lua: o mistério de Vila Socorro – Marcos DeBrito

N o ano de 1249 antes do nascimento de Cristo, no norte da Grécia antiga, Licáon, rei de uma região posteriormente conhecida como Arcádia, desafiou os deuses com a sua crueldade. Os estrangeiros que porventura pusessem os pés em seu reino eram sacrificados a mando do tirano. No entardecer avermelhado, sobre um penhasco onde as rochas perdiam a cor escondidas sob o sangue espirrado das degolas comandadas por Licáon e seu punhal de oferendas, os corpos despencavam com suas cabeças separadas do tronco. Aqueles que não morriam pela lâmina fria nas mãos desse rei de coração negro, que espelhava a linha do horizonte na garganta limpa dos pobres estrangeiros, eram forçados a mergulhar para a morte num mar de rochas pontiagudas. O coro dos desesperados era alto e os berros da agonia fizeram tremer os pilares de mármore no paço divino do Monte Olimpo. O choro daqueles que morriam para satisfazer os desejos sádicos de um tirano incomodou Zeus em sua morada. Diante dos rumores constantes sobre as atrocidades cometidas por Licáon, a divindade suprema da mitologia se disfarçou como um simples mortal e desceu da casa dos deuses em uma noite enluarada, de céu estrelado, para averiguar pessoalmente se os boatos eram verídicos. Zeus trilhou a estrada dos estrangeiros como qualquer outro viajante até chegar à Arcádia, terra comandada com mão de ferro pelo rei. Na noite em que chegou ao palácio real, com o pretexto de pernoitar para continuar viagem na manhã seguinte, Licáon estava oferecendo uma de suas festas dionisíacas regadas a comida, danças e ótimo vinho. O deus, vestido em túnicas desgastadas pela extensa viagem, caminhava despercebido entre os convidados, como um simples mortal. Mas, durante sua peregrinação solitária, tinha revelado sua divindade a alguns camponeses e habitantes do reino em troca de comida e abrigo, sendo obrigado a cumprir funções biológicas que não eram de seu costume divino. Alguns desses camponeses haviam comparecido à festa e o suposto viajante, naquele cenário luxuoso tão avesso à imagem pobre que exibia, foi identificado, logo sendo venerado como o ídolo máximo do Olimpo. A visita de um deus já era aguardada para investigar as crueldades que estavam ocorrendo no reino. O boato de que o próprio Zeus caminhava no festejo à procura dos sinais da brutalidade de Licáon chegara ao ouvido do rei, que, incrédulo quanto à presença do maior dos deuses em seu banquete, zombou do seu povo e resolveu testar a suposta divindade do viajante maltrapilho. Licáon caminhava pela sua festa obcecado em expor a farsa daquele homem com trajes imundos. Alguns dos crédulos de que Zeus realmente estava entre os mortais tentaram persuadir o rei a venerálo, mas sua resposta ecoou no salão para quem quisesse ouvir: – Todos sabem que os deuses são imortais. Basta eu matar esse viajante e todos verão como foram tolos! Durante a noite, o rei planejava apunhalar o estranho até a morte para então exibir o cadáver do impostor. Mas o momento nunca chegava. Impaciente, e talvez influenciado pela maior invenção de Dionísio, Licáon arquitetou o mais perverso dos planos. Caminhou em passos largos pelos corredores do suntuoso palácio enquanto sorvia uma última taça de vinho. Na planície do lado de fora, a lua cheia imperava sobre as montanhas, e o punhal de oferendas em sua mão refletia o luar emseu rosto alterado pela expressão de um homem sádico e descontrolado. Ele queria que seu hóspede poluísse a boca e o estômago com alimentos proibidos para depois também festejar com a mesma comida e mergulhar no mal, encenando o mais aberrante dos atos, desafiando os deuses. Na penumbra do quarto onde seu filho mais novo dormia, uma luz cortou a escuridão pela porta que se abria devagar, clareando o pescoço do infante adormecido. Sem pestanejar, em seu ato mais cruel, o rei levantou a criança do berço e abriu sua garganta com a navalha ainda suja com o sangue seco de tantas outras mortes e retalhou o seu corpo pequeno e frágil em vários pedaços sob a luz da lua cheia. Com as próprias mãos, Licáon cozinhou a carne do filho e preparou um banquete, commembros bem cortados cozidos na caldeira e um guisado suculento feito de outras partes fatiadas.


Após adornar o prato com ervas perfumadas, o rei se apresentou ao viajante e ofereceu a refeição impura junto com pão e vinho, esperando que ele fosse desmascarado assim que saboreasse o prato, pois apenas os verdadeiros deuses saberiam diferenciar a carne de um animal da humana. Zeus aproximou-se da comida. Sabia que algo estava errado, mas custou a acreditar que o tirano fosse capaz de tamanha crueldade. Ao perceber o que Licáon havia feito, ficou furioso. Repeliu de imediato o prato, assustando os convidados, e arremessou seus raios contra as paredes do palácio. Não havia sequer uma única pessoa presente no festejo que não gritasse de desespero e corresse sem rumo enquanto o corpo de Zeus se transformava no divino. O fogo da sua ira consumia a construção por inteiro e seu urro colérico derrubou as fortes estruturas que sustentavam o palácio, fazendo com que as paredes tombassem. A morada do rei foi completamente devorada pelas chamas. Licáon conseguiu escapar do fogo, correndo pelas planícies até atingir um pequeno bosque nas redondezas do palácio. Mas a vingança de Zeus foi impiedosa. Com uma forte dor, os membros do rei se atrofiaram e o obrigaram a se ajoelhar, como um súdito bem comportado que reconhece o cárcere de sua inferioridade. Ele não conseguia mais correr nem andar como um homem, apenas rastejar. Licáon não suportou a agonia e gritou de dor para os céus enquanto pelos negros rompiam seus poros e seu rosto se deformava tal qual o de um canídeo selvagem. Tentou pedir socorro, mas, em vez de gritar palavras humanas, começou a rosnar. Sua forma era a mesma que a de um lobo monstruoso. Com a boca espumando, sedenta por sangue, e os olhos iluminados pelo desejo de matar, aquela era a imagem da fúria. Capítulo 1 Século XIX. 25 de agosto de 1893. Lua crescente. Naquela noite nublada, como tantas outras daquele mês que escondia a Lua e as estrelas sempiedade, o som grave de um apito assinalava a chegada de mais um navio atracando no porto de Santos. A viagem fora exaustiva para todos. Os cadáveres dos que não resistiram aos últimos dias daquela aventura marítima eram retirados da embarcação em macas e transportados a uma sala fétida onde estavam algumas mesas de armação tubular. Avesso ao conforto, porém amigo da praticidade à qual se prontificava a atender, o leito possuía um rebaixo para a retenção de líquidos nas laterais que direcionava o conteúdo indesejado a um recipiente através de um tubo de escoamento. Isso facilitava a limpeza para que outro cadáver pudesse ocupá-lo sem ficar ensopado, não estragava as vassouras e economizava um pequeno valor mensal na compra de rodos. Ali os defuntos estrangeiros não recebiam tanta atenção, apenas descansavam por algumas horas até alguém aparecer para clamar a posse dos restos mortais do amigo ou parente.

Algo que raramente acontecia. Era mais comum um cadáver ficar exposto no tálamo gelado, enchendo o balde com seu fluido corpóreo que escorria pela mesa, exalando um odor extremamente desagradável. Quando a sala atingia sua capacidade máxima e os corpos não eram retirados por nenhum conhecido, o destino dos defuntos era retornar ao mar. Mas não em uma nova embarcação para serem enterrados com todas as honrarias em seu país de origem. Eles eram cobertos pelo manto pesado das águas para nunca mais emergir. Serviriam de sustento para os peixes da costa brasileira, mesmo que a intenção não fosse beneficiar a fauna marítima local. Essa prática era um exercício comum e todos que frequentavam o porto acostumavam-se a ver cadáveres sendo jogados na água como lixo. Mesmo antes de pisarem em terra firme, os viajantes já eram cúmplices do despejo em alto-mar dos corpos sem vida dos mais fracos, que morriam após poucos dias na embarcação devido às mais diversas complicações, principalmente às péssimas condições higiênicas. E isso era feito sem questionamentos morais. No final do século XIX a imigração italiana no Brasil estava em seu auge. O interior paulistano era visto como boa oportunidade para arranjar trabalho, e muitos italianos vieram do Velho Mundo para encontrar seus familiares no novo país a fim de tentar a mesma sorte. Outros vinham com a expectativa de recuperar a dignidade com o trabalho perdido pelo acelerado processo de industrialização e as transformações socioeconômicas que afetaram a propriedade de terra. Sobre a prancha úmida e escorregadia que servia como única saída da embarcação, Bastiano Cesari parou para vislumbrar a paisagem suja do porto. Apesar do cansaço, segurava no colo uma de suas filhas, que dormia. A garota tinha poucos anos de vida e ainda não compreendia aquela grande mudança na rotina familiar. Bastiano era pai orgulhoso de seis filhas e amava sua esposa da mesma maneira desde que se conheceram. Clemenzia Giardini Cesari correspondia ao amor recebido comigual devoção. De fato, fora ela quem insistira para que todos fossem para o novo continente. Bastiano havia sugerido que ela e as meninas viajassem somente após ele conseguir uma situação mais confortável, mas Clemenzia não aceitara a separação, mesmo que fosse breve como ele prometia. A unidade familiar era o principal motivo de suas vidas e o que julgavam mais importante cultivar. Se fosse para lutar por algo, eles o fariam juntos. Saindo da embarcação, Clemenzia não desgrudava do marido e carregava nos braços a filha mais nova. Um manto, que apesar de velho era muito aconchegante, cobria a bebê de poucos meses e a esquentava durante o repouso. As demais crianças do casal ficavam sempre junto aos pais, segurando firmemente em suas roupas, com medo de se perderem entre todos aqueles estranhos. Bastiano não conseguia esconder a expressão de cansaço.

Seus olhos estavam enfastiados e havia nitidamente perdido peso. Ele procurava ver a chegada ao Brasil de forma otimista, com a esperança de uma vida nobre, justificada pelo trabalho. A família misturou-se aos retirantes da embarcação e, após descer com cuidado a rampa escorregadia, deu seu primeiro passo em solo brasileiro. Capítulo 2 Século XX. 30 de abril de 1920. Lua crescente. Vinte e sete anos se passaram. Em 1920, a pequena Vila Socorro, um vilarejo no interior do Estado de São Paulo, sofria com a violência que abatera a cidade nas últimas décadas. Mensalmente os representantes de maior destaque da vila, fosse por suas posses ou pelo cargo ocupado na comunidade, reuniam-se diante do povo num pequeno galpão arcaico, iluminado apenas pelas chamas que ardiam no óleo das candeias, para discutir assuntos de interesse geral da população. A pauta mais recorrente eram as mortes violentas que ocorriam em certas madrugadas e não pareciam ter um fim próximo decretado. Numa dessas assembleias de discussão fervorosa, por detrás da grande mesa rústica de madeira onde os representantes se acomodavam, Ronaldo Magalhães, alcaide do vilarejo, estava no comando. Durante vários anos Ronaldo vinha representando a Vila Socorro, mas sua imagem como dirigente desgastava-se cada vez mais por não conseguir resolver a questão dos assassinatos. Sem condições de lidar com a situação sozinho, ele formara um grupo para ajudar na resolução do drama. Todos tinham papel de destaque naquela pequena comunidade e, por serem personalidades importantes daquele círculo social, suas vozes eram ouvidas com respeito. Mas as circunstâncias haviam chegado ao limite da paciência dos populares e a cada nova assembleia o povo fazia seu brado rancoroso ser ouvido com bastante atenção. Na mesa estavam presentes os senhores Carlos George de Arruda Barros, um ex-proprietário de escravos reacionário e maior latifundiário da região, Dário Bastos de Oliveira, médico local, e o padre Antônio dos Santos. Todos ali tinham uma relação de amizade e respeito mútuo, ainda mais Carlos George e Dário, que eram amigos de longa data e constantemente se encontravam para demoradas conversas e degustação dos preciosos licores, que o doutor guardava na adega invejável de sua mansão. Também diante do povo, porém sentada solitária em uma cadeira mais afastada, estava a jovem Alana, filha única de Dário. A garota era formosa. Seus encantos ultrapassavam a forma perfeita de seu corpo. Seu olhar resplandecia a delicada pureza de uma virgem e seu rosto, de pele perfeita e contornos simétricos, era um convite a qualquer homem que quisesse se perder. Entre os populares estava Álvaro, um rapaz de cabelos negros e corpo magro, com braços fortes comuns aos homens que trabalham com a terra. Uma cicatriz antiga, já clareada pelo tempo, cortava a lateral do seu rosto e suas pálpebras caíam sobre os olhos, dando-lhe um ar melancólico. Seu olhar era impregnado por uma tristeza sincera, quase sombria. Álvaro comparecia às reuniões apenas para prestigiar a beleza de Alana.

A garota sabia que era observada pelo rapaz e se permitia um flerte envergonhado que a deixava ainda mais bela com o suave tom rubro que realçava as maçãs do seu rosto. A grande verdade é que ambos os jovens frequentavam as assembleias para aproveitar uma paixão mútua não declarada. Aquela troca de olhares esquivados não passou despercebida por um senhor de mais idade e longos cabelos brancos, afastado da multidão. Ediseu Valêncio era perspicaz na arte da observação e o fato de estar prestando demasiada atenção ao jovem Álvaro também o ajudou a perceber a paixão que parecia florescer entre um rústico camponês e uma representante da alta sociedade local. Mas aquilo não interessava ao velho, tampouco a discussão da assembleia. Sua presença ali parecia ser apenas por causa de Álvaro, quem nem percebia estar na mira de seus olhos. O óleo das candeias era queimado e a noite avançava ao som de várias vozes enfurecidas que formavam um coro revolto. O povo não escondia seu desapontamento com o alcaide da vila. Algumas palavras vociferadas pelos moradores eram impossíveis de ser compreendidas, mas o brado raivoso de um povoado em desespero era claro. Ronaldo tentava, em vão, conter os ânimos exagerados da população com repisadas explicações. – É lamentável que essa onda de mortes esteja abatendo a nossa vila, mas gostaria de lembrálos que estamos à procura do animal responsável e aproveito a ocasião para pedir um pouco mais de paciência aos senhores. – Paciência?! – questionou Alberto, um dos vários moradores enfurecidos na reunião. – Estamos cansados de esperar! Não bastasse esse monte de corpo aparecendo, quantas vezes vou ter que perder minha criação por causa desse bicho?! O homem estava indignado por ter que reformar o seu galinheiro, atacado durante uma madrugada. Ao lado, sua esposa Lurdes tentava acalmá-lo. – Eu peço paciência, senhor Alberto, porque estamos fazendo o possível para caçar esse animal – retrucou o alcaide. – Chega dessa história de animal! – interrompeu outro habitante. – Isso começou depois que os italianos invadiram a vila. Mande-os embora e os mortos param de aparecer. O comentário irritou os imigrantes presentes. Aos berros, um estrangeiro buscou reparação pela ofensa, mas, não tendo o pedido atendido, avançou sobre o sujeito. A ordem foi perdida e começou uma pancadaria entre os que concordavam com o ponto de vista do nativo da vila e os que ficaram ao lado do compatriota mediterrâneo. A cidade abrigara diversos italianos ao longo dos anos e, de fato, as mortes começaram após a imigração, mas nunca houvera um acontecimento que pudesse ser ligado aos imigrantes. Os apelos do alcaide Ronaldo para que a ordem fosse restabelecida não foram ouvidos. Entre socos, pontapés e palavras obscenas bilíngues, o povo se atracava, esquecendo momentaneamente o real propósito de estarem ali. Como Ronaldo parecia ter desistido de conter a população, permanecendo sentado em sua cadeira com a mão sobre o rosto, Carlos George resolveu intervir à sua maneira.

O homem de pavio curto, que sempre andava armado por um costume antigo que herdara do pai e passara para o filho, retirou uma pistola vistosa do coldre. Observou a multidão descontrolada com uma expressão de reprovação e bateu o cabo da arma com força na grande mesa de madeira, trazendo para si a atenção. Para a sorte dos presentes, o ato de Carlos George fez com que a algazarra terminasse. Ele não era um homem que hesitaria em disparar sua arma para o alto, na melhor das hipóteses. – É por causa desse tipo de comportamento que este vilarejo caiu em desgraça! – afirmou enfaticamente, começando um sermão. – Vocês reclamam da postura do alcaide Magalhães, mas apontam os companheiros como culpados. O problema de fato começou com a vinda dos imigrantes, porém eles vieram para ajudar nas nossas lavouras e alguns já são até proprietários de pequenas terras. O desenvolvimento que eles trouxeram para nossa vila causou um inchamento da cidade e ela foi obrigada a crescer para dentro da floresta. Acreditamos que algum animal selvagem esteja matando nosso gado, galinhas e também membros da comunidade, visto que os ataques foram nas proximidades da mata. O ponto de vista de Carlos George era muito sensato e adequado, mas suas tendências reacionárias o fizeram enveredar para um lado que não representava a opinião da maior parte da vila, nem de seu representante. – Digo a vocês – ele continuou – que, se não for um animal selvagem que traz esse infortúnio sobre nossa vila, vocês estão buscando os culpados errados. Quem pode estar matando nossa boa gente é outro tipo de bandoleiro, que nem é assim tão diferente de um animal. Se for para culpar alguém, que sejam os ex-escravos que ficam rondando por aí! – Carlos George – interrompeu o alcaide –, já pedi ao senhor para não mencionar suas tendências nestas assembleias. Ronaldo estava certo em repreendê-lo. A discussão sobre a libertação dos escravos e suas consequências não era algo que deveria ser colocado em pauta, principalmente por melindres particulares. – Me deixa falar, Ronaldo! Me deixa falar! – esbravejou. – Com o fim da escravatura, não só perdi minha mão de obra, que paguei de acordo com a lei, como perdi a paz durante a noite, tendo que afugentar negrinhos das minhas terras! Terras que pertenceram ao meu pai e que serão passadas ao meu filho! Carlos George geralmente perdia a compostura quando tocava nesse assunto. Com o pouco que dissera, seu rosto já ficara vermelho e uma veia saliente cortava sua testa suada. O povo permaneceu em silêncio, sem saber como reagir ao comportamento do homem. Ele tirou o chapéu de fazendeiro por um breve momento, apenas para secar o suor antes que escorresse até o rosto, e ficou mais calmo para continuar. – Ninguém quer pagar por uma mão de obra que antes era de graça! Por isso os negros que se aglomeram nos arredores da vila saqueiam e matam a nossa gente. E animal, quando fica com fome, meus caros, não tem reza que salve. O padre Antônio dos Santos deu uma pigarreada pelo comentário inapropriado do companheiro de mesa, que de imediato se desculpou pela indevida comparação religiosa. Logo após a manifestação racista de Carlos George, o Dr. Dário pediu a palavra e foi prontamente atendido pelo alcaide para que pudessem voltar ao assunto pelo qual a assembleia havia sido convocada.

– Os corpos que encontramos nas proximidades da floresta têm o mesmo padrão de ferimento – começou o doutor –, uma mordida na região do pescoço e arranhões profundos pelo corpo. Portanto, acreditamos que seja apenas um único animal que esteja causando as mortes. – Não é um animal! – ecoou uma voz rouca e cansada, fazendo o médico se calar. No meio do galpão levantou-se com dificuldade um idoso que aparentava ter mais idade do que os seus setenta anos. Era Seu Sebastião, o coveiro da vila. Devido à natureza mórbida do seu trabalho, o velho era conhecido no vilarejo por suas histórias folclóricas. – Não é imigrante! Não é escravo! – ele continuou. – É uma cria do diabo que vaga pelo breu da floresta, bebendo sangue dos desavisados que cortam caminho de noite pela mata. O jovem Álvaro e o velho Valêncio, que não estavam preocupados em escutar as lamúrias dos descontentes, voltaram sua atenção bruscamente para a reunião devido ao tom sobrenatural que o ancião colocou em pauta. Quem não ficou muito alegre com a intromissão inesperada foi a jovemAlana, que viu todo o interesse somente dedicado a ela por parte de Álvaro ser transferido subitamente àquele senhor de idade avançada. Ronaldo não gostava daquelas interferências, consideradas absurdas pelos homens privados de crença folclórica. – Seu Sebastião – contra-argumentou o alcaide –, por favor, estamos aqui tentando solucionar o problema de forma racional. – Nós sugerimos que seja um lobo pelas marcas observadas nos cadáveres – completou Dr. Dário, apelando para a razão. – Não é lobo! Já enterrei muito corpo nessa vida pra saber a diferença – contestou o coveiro, cansado de ouvir as explicações racionais dos cegos pelo ceticismo. – É uma sombra do inferno! Depois que o sol se esconde, as trevas caem sobre esta vila e as estrelas são testemunhas de que aqui caminha um servo do demo. Alguns dos populares mais religiosos fizeram o sinal da cruz em busca de proteção, como se aquelas falas proferidas no galpão tivessem amaldiçoado os que ouviam as palavras do velho. Apesar de aquela teoria parecer estranha e improvável, Seu Sebastião não era o único a acreditar nela. Vários dos que ali estavam também concordavam com a ideia de que uma fera sobrenatural poderia realmente estar caminhando na floresta ao redor da vila. Não eram tão incomuns os relatos de que um vulto negro fora avistado em certas madrugadas por parte de alguns dos moradores que residiam na beirada da mata. Ronaldo, como se ofendido por ter entrado em seus ouvidos aquela hipótese improvável e ridícula, não se atrasou em contestá-la em voz alta, como se o volume de suas palavras representasse a certeza de suas afirmações. – Meu povo, não dê atenção a mais uma dessas superstições enraizadas pelo folclore! A crença em um animal sobrenatural que anda pela floresta, ou um monstro como o senhor Sebastião nos sugere, só atrapalha nossa tarefa de encontrar o verdadeiro causador de tanta tristeza para os habitantes de Socorro. Peço encarecidamente ao senhor, Seu Sebastião, que, por favor, não venha com essas suas histórias de coveiro. Conhecemos bem os mitos da região. Não vamos aceitar que as fábulas contadas à beira da cama das nossas crianças nos confundam as ideias.

As palavras do alcaide Magalhães pareceram ter controlado a situação. As teorias apresentadas pelos representantes na reunião eram, de fato, mais verossímeis. Não é tarefa fácil discorrer sobre uma crença sem algo concreto para prová-la. Muito menos em um ambiente controlado por pessoas de mente fechada, que só acreditam no que a Igreja lhes diz para crer e no que os olhos conseguemenxergar. Seu Sebastião emudeceu e voltou a sentar-se desgostoso. Incomodado com as declarações nada cristãs do velho, o padre Antônio dos Santos resolveu entrar na discussão. Com a voz calma e regada daquela prepotência mascarada de conhecimento teológico, o pároco dirigiu-se ao seu rebanho com a expressão serena que um religioso tão comumente usa para fortalecer a ideia de que o que está falando é uma verdade inquestionável por serem palavras parafraseadas da Bíblia Sagrada. – Irmãos da nossa querida paróquia, gostaria de esclarecer ao membro da nossa congregação, e aos demais que compactuam com essa crença, que a presença do diabo em nossas vidas é uma realidade. Mas, como um animal também faz parte do rebanho do Senhor, ele pode ser possuído por uma força demoníaca e levado à loucura. As estratégias do demônio para atingir os filhos de Deus são muitas. Nossa salvação está em reconhecer o Senhor e Sua lei, o Senhor e Sua palavra. O pároco continuou o sermão, ornamentado com palavras bonitas de salvação através da graça divina. Enquanto articulava o discurso que não conseguiria segurar até o próximo domingo, por uma porta no fundo do galpão entrou a exuberante Flávia Ribeiro de Freitas, melhor amiga de Alana. Ao pé do ouvido, chamou sua companheira para conversar do lado de fora. A jovemAlana levantou-se e comunicou a saída ao pai, sem atrapalhar o andamento da assembleia. Álvaro, após ter observado Alana beijar a face do médico e abandonar o local pela mesma porta por onde Flávia havia entrado, também foi embora, já que não havia mais nada que prendesse sua atenção ali. Ao contrário das garotas, que por serem da alta sociedade tinham o privilégio de usar uma entrada exclusiva destinada somente aos representantes máximos do vilarejo, o jovemabandonou o galpão pela porta da frente, como qualquer outro morador faria. Já do lado de fora, caminhou em passos lentos alguns metros para longe do galpão e notou que a noite estava fria demais para continuar andando da maneira como estava agasalhado. Vila Socorro era cercada por uma floresta fechada e suas noites eram frias, contrapondo-se com dias extremamente quentes e ensolarados. A caminhada até a pequena residência onde morava, do outro lado da mata, seria longa. Por isso, interrompeu o trajeto em busca de um cachecol surrado que levava em seu bolso caso precisasse cobrir o pescoço. Após colocá-lo confortavelmente, ainda levantou a gola da camisa para impedir que o ar gelado batesse em sua pele pelas brechas daquele tecido velho e desgastado. Enquanto ajeitava melhor as suas roupas, olhando para o céu, Álvaro se perdeu na observação da Lua em sua fase gibosa, que mostrava ao mundo quase toda fração de seu disco. Seus olhos mentiamao parecer observar apenas a forma convexa que o satélite mostrava iluminada.

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