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A Sombra da Sereia – Camilla Lackberg

SABIA QUE, MAIS CEDO OU MAIS TARDE, AQUILO VIRIA NOVAMENTE À LUZ DO DIA. ERA IMPOSSÍVEL ESCONDER ALGO ASSIM. CADA PALAVRA APROXIMARA-O DAQUELE ACONTECIMENTO INOMINÁVEL E REVOLTANTE. DAQUILO QUE ANDAVA A TENTAR REPRIMIR HÁ TANTOS ANOS. AGORA, A FUGA DEIXARA DE SER UMA OPÇÃO. SENTIU O AR DA MANHÃ A ENCHER-LHE OS PULMÕES ENQUANTO CAMINHAVA O MAIS DEPRESSA QUE PODIA. O CORAÇÃO MARTELAVA-LHE O PEITO. NÃO QUERIA IR LÁ, MAS TINHA DE FAZÊ-LO. POR ISSO TINHA OPTADO POR DEIXAR QUE FOSSE O DESTINO A DECIDIR. SE ESTIVESSE LÁ ALGUÉM, TERIA DE FALAR. SENÃO CONTINUARIA O SEU CAMINHO PARA O TRABALHO COMO SE NADA TIVESSE ACONTECIDO. MAS A PORTA ABRIU-SE QUANDO BATEU. ENTROU E SEMICERROU OS OLHOS PERANTE A LUZ MORTIÇA. A PESSOA QUE ESTAVA À SUA FRENTE NÃO ERA QUEM ESPERAVA ENCONTRAR. ERA OUTRA. O LONGO CABELO DA MULHER ABANAVA RITMICAMENTE DE UM LADO PARA O OUTRO QUANDO A SEGUIU ATÉ À SALA CONTÍGUA. COMEÇOU A FALAR, A FAZER PERGUNTAS. OS PENSAMENTOS NÃO PARAVAM DE GIRAR-LHE NA CABEÇA. NADA ERA O QUE PARECIA SER. AQUILO ESTAVA TUDO ERRADO. NO ENTANTO, PARECIA ESTAR CERTO. DE REPENTE CALOU-SE. ALGO O ATINGIRA NO PLEXO SOLAR COM UMA FORÇA QUE LHE INTERROMPERA AS PALAVRAS A MEIO DA FRASE. OLHOU PARA BAIXO E VIU O SANGUE COMEÇAR A ESCORRER À MEDIDA QUE A FACA ERA RETIRADA DA FERIDA. ENTÃO, SENTIU UMA NOVA FACADA, MAIS DOR, E A LÂMINA AFIADA A TORCER-SE DENTRO DO CORPO.


PERCEBEU QUE ERA O FIM. TUDO TERMINARIA ALI, APESAR DE AINDA TER DEIXADO MUITO PARA FAZER, VER E EXPERIMENTAR. AO MESMO TEMPO, HAVIA UMA ESPÉCIE DE JUSTIÇA NO QUE ESTAVA A ACONTECER. NÃO MERECERA A BOA VIDA QUE TIVERA, NEM TODO O AMOR QUE LHE FORA DADO. NÃO DE DO QUE TINHA FEITO. DE DE A DOR LHE TER ENTORPECIDO OS SENTIDOS E DE A FACA TER DEIXADO DE MOVER-SE, VEIO A ÁGUA. O BALANÇO RITMADO DE UM BARCO. E, QUANDO FOI ENVOLVIDO PELO MAR FRIO, TODAS AS OUTRAS SENSAÇÕES CESSARAM. A ÚLTIMA COISA QUE RECORDOU FOI O CABELO DELA. LONGO E NEGRO. — MAS JÁ SE PASSARAM TRÊS MESES! Como é possível não o encontrarem? Patrik Hedström olhou para a mulher à sua frente. Parecia mais exausta de cada vez que a via. Aparecia na delegacia de Tanumshede uma vez por semana. Todas as quartas-feiras. Desde o desaparecimento do marido, no início de novembro. — Sabe que estamos fazendo todo o possível, Cia. A mulher assentiu sem dizer uma palavra. As mãos, que apertava no colo, tremiam-lhe. Então, Cia olhou para Patrik, os olhos marejados de lágrimas. Não era a primeira vez que Patrik via aquilo acontecer. — Ele não vai voltar, pois não? Agora, a voz também tremia, como as mãos, e Patrik teve de resistir ao impulso de contornar a secretária para ir dar à mulher frágil um abraço reconfortante. Porém, contra todos os seus instintos protetores, Patrik permaneceu frio e profissional, refletindo na resposta. Por fim, respirou fundo e disse: — Não, julgo que não. A mulher não fez mais perguntas, mas Patrik percebeu que as suas palavras apenas tinham reforçado o que Cia Kjellner já sabia. O marido nunca ia voltar para casa.

No dia 3 de novembro, Magnus levantou-se às seis e meia da manhã, tomou um duche, vestiu-se, despediu-se primeiro dos dois filhos e depois da mulher, quando estes saíam para começar o dia. Pouco depois das oito da manhã, Magnus foi visto a sair de casa a caminho da Tanum Windows, a empresa onde trabalhava. Depois disso, ninguém sabia onde Magnus tinha ido. Não chegara a aparecer em casa do colega que lhe ia dar boleia para o escritório. Algures entra a sua própria casa, situada no bairro perto do campo desportivo, e a casa do colega, junto do campo de minigolfe de Fjällbacka, Magnus Kjellner tinha desaparecido. A polícia examinara todos os aspetos da sua vida. Tinha lançado um alerta geral e falado commais de cinquenta pessoas, incluindo colegas de trabalho, familiares e amigos. Os agentes procuraram dívidas que o pudessem ter obrigado a fugir, assim como eventuais amantes secretas. Investigaram a possibilidade de Magnus poder ter desviado dinheiro da empresa — qualquer coisa que pudesse explicar por que um homem respeitável de quarenta anos, casado e com dois filhos adolescentes, sai repentinamente de casa e desaparece. Mas a polícia não tinha encontrado um único motivo. Nada indicava que tivesse viajado para o estrangeiro e não tinha sido levantado um cêntimo da conta conjunta do casal. Magnus Kjellner tinha simplesmente desaparecido sem deixar rastro. Depois de ter acompanhado Cia à saída, Patrik bateu cautelosamente à porta de Paula Morales. — Entre! — disse imediatamente Paula. Patrik entrou e fechou a porta atrás de si. — Era outra vez a mulher dele? — Sim — respondeu Patrik com um suspiro, sentando-se na cadeira reservada às visitas. Apoiou os pés na secretária da colega mas, depois de um olhar feroz de Paula, voltou rapidamente a pousá-los no chão. — Achas que está morto? — Receio bem que sim — disse Patrik, manifestando pela primeira vez a suspeita que sentira desde que Magnus tinha desaparecido. — Verificamos tudo e o tipo não tinha nenhum dos motivos habituais para desaparecer. Parece que um dia saiu simplesmente de casa e depois… esfumou-se. — Mas não foi encontrado nenhum cadáver. — Não, não há nenhum cadáver — disse Patrik. — E onde é que havemos de procurar? Não podemos dragar o mar todo, nem revistar todos os bosques em volta de Fjällbacka. Só nos resta ficar para aqui a rodar os polegares e esperar que alguém o encontre. Morto ou vivo.

Porque eu não faço a mais pequena ideia do que mais podemos fazer. E não sei o que dizer a Cia quando ela aparece aqui todas as semanas, à espera que tenhamos feito algum progresso no caso. — Isso é apenas a maneira dela de lidar com a situação. Assim, Cia sente que está a fazer alguma coisa, em vez de ficar simplesmente em casa à espera de notícias. Eu ia dar em doida, se me tivesse acontecido a mim — Paula olhou de relance para a fotografia que tinha ao lado do computador. — Sim, eu compreendo — disse Patrik. — Mas isso não torna as coisas mais fáceis. — Não, claro que não. Durante breves instantes, o silêncio desceu sobre o gabinete exíguo. Por fim, Patrik levantouse. — Vamos ter simplesmente de esperar que ele apareça. De uma forma ou de outra. — Tens razão — disse Paula. Mas parecia tão deprimida como ele. — QUE GORDA! — Olha quem fala! — Anna apontou para a barriga de Erica enquanto fitava a irmã ao espelho. Erica Falck virou-se para ficar de perfil, tal como Anna, e teve de concordar. Caramba, estava enorme. Parecia uma barriga gigante com uma pequena Erica presa a ela, apenas para disfarçar. E era exatamente assim que se sentia. Em comparação, o seu corpo tinha sido um milagre de flexibilidade quando estivera grávida de Maja. Mas, agora, Erica carregava dois bebês. — Sabes que não tenho a mais pequena inveja de ti — disse Anna com a honestidade brutal de uma irmã mais nova. — Muito obrigada — retorquiu Erica, abalroando-a com a barriga. Anna imitou-a e ambas quase perderam o equilíbrio. Por um momento, as irmãs esbracejaram no ar, esforçando-se para permanecer de pé, mas depois desataram a rir de tal maneira que tiveram de sentar-se no chão.

— Que absurdo! — disse Erica, limpando as lágrimas dos olhos. — Ninguém devia ficar assim. Sinto- me um cruzamento entre o Barbapapai1 e aquele homem no filme dos Monty Python2 que explode depois de comer um bombom de hortelã-pimenta. — Bem, fico-te eternamente grata por estares grávida de gémeos. Graças a ti, e emcomparação, sinto-me uma ninfa elegante. — Obrigadinha — respondeu Erica, fazendo um movimento para levantar-se. Mas os seus esforços não surtiram qualquer efeito. — Espera, eu ajudo-te — disse Anna, mas também ela perdeu a batalha com a gravidade e acabou outra vez sentada no chão. Ambas tiveram o mesmo pensamento quando se entreolharam. E então gritaram em uníssono: — Dan! — Que se passa? — perguntou Dan do térreo. — Não conseguimos levantar! — disse Anna. — O quê? Ouviram-no a subir as escadas em direção ao quarto onde estavam sentadas no chão. — Que diabos vocês estão fazendo? — inquiriu divertido Dan ao ver a noiva, Anna, e a irmã sentadas em frente ao espelho de corpo inteiro. — Não conseguimos levantar — disse Erica com toda a dignidade que conseguiu convocar e estendendo-lhe a mão. — Esperem, vou buscar a empilhadeira — disse Dan, fingindo dirigir-se de novo ao térreo. — Para com isso — retorquiu Erica enquanto Anna se ria tanto que teve de se deitar. — Okay, vou tentar — Dan pegou na mão de Erica e começou a puxá-la para cima. — Upaaa! — gemeu. — Podes fazer o favor de excluir os efeitos sonoros — disse Erica enquanto se punha lentamente de pé. — Caramba, estás enorme — exclamou Dan, e Erica deu-lhe um soco no braço. — Já disseste isso pelo menos uma centena de vezes e não és o único. Por que não paras de olhar assim para mim e te concentras antes na tua própria pança? — Pronto, está bem — Dan estava agora a erguer Anna e depois deu-lhe um grande beijo na boca. — Se vão pôr-se com essas coisas, deviam ir para um quarto — disse Erica, espetando Dan de lado com o dedo. — Este é o nosso quarto — retorquiu Dan, voltando a beijar Anna. — Tudo bem.

Então, vamos concentrar-nos no motivo de eu estar aqui — disse Erica, dirigindo-se ao guarda-fatos da irmã. — Não sei porque achas que posso ajudar-te — disse Anna, aproximando-se de Erica a bambolear- se como uma pata. — Não me parece que haja para aí nada que te sirva. — Então o que é que achas que devo fazer? — Erica procurava por entre as roupas dos cabides. — O lançamento do livro de Christian é hoje à noite e a única coisa que me serve é a tenda de Maja. — Okay, vamos tentar encontrar uma solução. As calças que tens vestidas ficam-te bem e acho que tenho uma camisa que talvez te sirva. Além disso, está-me demasiado larga. Anna alcançou uma túnica bordada lilás pendurada no guarda-fatos. Erica despiu a camiseta e enfiou a túnica pela cabeça com ajuda de Anna. Fazê-la assentar na barriga foi como rechear uma linguiça, mas acabou por conseguir. Depois, Erica virou-se para o espelho e olhou-se com expressão crítica. — Estás fantástica — disse Anna, ao que Erica resmungou em resposta. Perante a sua figura, «fantástica» soava excessivamente otimista, mas pelo menos estava decente e parecia ter feito umesforço para se arranjar. — Isto serve — disse. Tentou despir a túnica sozinha, mas teve de desistir e deixar que Anna a ajudasse. — Onde é a festa? — perguntou Anna enquanto alisava a túnica e voltava a pô-la no cabide. — No Stora Hotellet. — A editora foi simpática em fazer uma festa de lançamento para um autor estreante — disse Anna, dirigindo-se para as escadas. — Estão bastante entusiasmados com o livro. E já houve uma quantidade de encomendas, o que é fantástico para um primeiro romance, por isso fazem-no com todo o gosto. E, pelo que me disse a editora, parece que a imprensa também está a dar grande apoio ao lançamento. — Mas o que é que tu achas do livro? Calculo que tenhas gostado, senão não o tinhas recomendado à tua editora. Mas é assim tão bom? — É… — Erica ponderou o que dizer sobre o livro enquanto descia cautelosamente as escadas atrás da irmã. — É mágico.

Obscuro e bonito, inquietante e poderoso e… bem, mágico é a melhor palavra que me ocorre para descrevê-lo. — Christian deve estar nas nuvens. — Sim, acho que está mesmo — a resposta de Erica soou um pouco hesitante. Entrou na cozinha. Como conhecia bem os cantos à casa, dirigiu-se logo à máquina de café. — Ao mesmo tempo, Christian parece… — Erica parou de falar para não perder a conta às colheres de café que ia pondo no filtro. — Estava em êxtase quando o livro foi aceite para publicação, mas tenho a sensação de que o processo de escrita mexeu bastante com ele. Não sei ao certo, porque não o conheço assimtão bem. Não sei bem porque é que me pediu conselhos, mas fiquei muito contente por poder ajudar. E eu tenho realmente muita experiência na edição de manuscritos, apesar de não escrever romances. De início correu tudo bem e Christian parecia aberto a todas as minhas sugestões. Mas, no final, ficava às vezes um pouco retraído quando eu queria discutir determinadas questões. Na verdade, não consigo explicar. Mas ele é um pouco excêntrico. Talvez seja apenas isso. — Então acho que encontrou a profissão certa — disse solenemente Anna. Erica virou-se para encará-la. — Quer dizer que, além de gorda, agora também sou excêntrica? — E distraída, não te esqueças — Anna acenou com a cabeça na direção da máquina de café que Erica tinha acabado de ligar. — Funciona melhor se puseres água. A máquina emitiu um sopro de concordância e Erica desligou-a, lançando um olhar severo à irmã. Tratou de todas as tarefas domésticas habituais movendo-se como um autômato. Pôs a loiça na máquina de lavar, depois de passar os pratos e os talheres por água. Retirou os restos de comida do ralo com a mão e esfregou o lava-loiça com a esponja, na qual deitara detergente. Depois molhou o pano da loiça, torceu-o e limpou a mesa da cozinha para remover todas as migalhas e manchas pegajosas. — Posso ir a casa de Sandra, mãe? — perguntou Elin quando entrou na cozinha.

O olhar desafiador no rosto da rapariga de quinze anos mostrava que já estava preparada para receber uma resposta negativa. — Sabes que não podes fazer isso. Os avós vêm cá hoje à noite. — Mas eles vêm cá tantas vezes. Porque é que tenho sempre de cá estar? — Elin falou mais alto e a voz assumiu aquele tom choroso que Cia não suportava. — Eles vêm cá para estar contigo e com Ludvig. Sabes bem que iam ficar decepcionados se não estivesses em casa. — Mas é uma seca tão grande! A avó desata sempre a chorar e depois o avô diz-lhe para parar… Quero ir a casa de Sandra. Os meus amigos vão estar lá todos. — Agora estás a exagerar — disse Cia, passando o pano da loiça por água e colocando-o sobre a torneira. — Duvido de que estejam «todos» lá. Podes ir a casa de Sandra noutra noite, quando os avós não nos vierem visitar. — Se fosse o pai, deixava-me ir. Foi como se os pulmões de Cia se tivessem contraído. Não conseguia fazer aquilo. Não conseguia lidar com a raiva e a rebeldia naquele momento. Magnus teria sabido como lidar com Elin. Teria conseguido resolver a situação. Mas ela não conseguia. Não sozinha, pelo menos. — O pai já não está aqui. — Então onde é que está? — gritou Elin, e as lágrimas começaram a fluir. — Para onde é que ele foi? O mais certo é ter-se fartado de ti e das tuas lamentações. És uma… uma… cabra! Um silêncio absoluto desceu sobre a mente de Cia. Era como se todos os sons tivessemdesaparecido e tudo em seu redor se tivesse transformado numa névoa cinzenta.

— O teu pai morreu — a voz de Cia parecia vir de outro sítio qualquer, como se fosse um estranho a falar. Elin fitou-a. — Morreu — repetiu Cia. Sentia-se estranhamente calma, como se estivesse a pairar sobre si própria e sobre a filha, observando pacificamente a cena. — Estás a mentir — disse Elin a arfar, como se tivesse corrido vários quilômetros. — Não estou a mentir. É o que a polícia pensa. E eu sei que é verdade — quando Cia se ouviu a dizer aquelas palavras, apercebeu-se de como eram verdadeiras. Recusara-se a acreditar, agarrando-se a uma tênue esperança. Mas a verdade é que Magnus estava morto. — Como é que sabes isso? Como é que a polícia sabe? — O teu pai não nos ia deixar assim sem mais nem menos. Elin abanou a cabeça, como que para evitar que aquela ideia se inculcasse na sua mente. Mas Cia viu que a filha também sabia. Magnus nunca as teria deixado assim. Deu alguns passos na cozinha e pôs os braços em torno da filha. Elin ficou hirta, mas depois relaxou e deixou-se abraçar como se fosse uma criança pequena. Cia acariciou o cabelo de Elin quando a rapariga começou a soluçar convulsivamente. — Pronto — sussurrou Cia, sentindo a própria força a crescer enquanto a filha se rendia ao sofrimento. — Podes ir a casa de Sandra esta noite. Eu explico aos avós o que se passa. Christian Thydell viu-se no espelho. Às vezes não sabia realmente que postura adotar perante a sua aparência. Tinha quarenta anos. De alguma forma, o tempo tinha passado a correr e Christian dava por si a olhar para um homem que, além de adulto, tinha já alguns cabelos grisalhos nas têmporas. — Estás com um ar muito distinto.

Christian deu um pulo quando Sanna apareceu por detrás dele e lhe pôs os braços em torno da cintura. — Assustaste-me. Não devias aparecer assim de repente — Christian livrou-se do abraço de Sanna e, antes de se virar, captou um vislumbre da expressão decepcionada da mulher no espelho. — Desculpa — disse Sanna, sentando-se na cama. — Também estás muito bonita — retorquiu Christian, sentindo-se ainda mais culpado quando viu como o elogio tinha feito com que os olhos de Sanna se iluminassem. Mas também se sentiu irritado. Detestava quando Sanna agia como um cachorrinho que abanava a cauda à mais pequena atenção do dono. A mulher era dez anos mais nova, mas às vezes parecia haver pelo menos vinte anos entre eles. — Podes ajudar-me a pôr a gravata? — aproximou-se de Sanna, que se levantou e fez o nó com perícia. Ficou perfeito à primeira tentativa e a mulher deu um passo atrás para inspecionar o trabalho. — Vais ser um sucesso, hoje à noite. — Hum… — disse Christian, sobretudo porque não sabia o que Sanna esperava que respondesse. — Mamã! Nils bateu-me! — Melker entrou no quarto a correr, como se uma matilha de lobos estivesse no seu encalço. Em busca de refúgio, o rapaz pôs os dedos pegajosos em torno da primeira coisa ao seu alcance: as pernas de Christian. — Que chatice! — exclamou, afastando bruscamente o filho de cinco anos. Mas já era tarde de mais. Ambas as pernas das calças tinham agora manchas brilhantes de ketchup em torno dos joelhos. Christian esforçou-se por manter a calma — algo que parecia cada vez mais difícil nos últimos tempos. — Não consegues manter os miúdos na linha? — disse irritadamente, desabotoando comgestos bruscos as calças do fato e preparando-se para vestir outras. — Julgo que consigo limpá-las — disse Sanna, ao mesmo tempo que estendia a mão para agarrar Melker, que estava a caminho da cama com os seus dedos pegajosos. — E como é que achas que consegues fazer isso se tenho de estar lá daqui a uma hora? Não tenho outro remédio senão mudar de calças. — Mas eu acho que consigo… — Sanna parecia à beira das lágrimas. — Toma mas é conta das crianças. Sanna estremecia a cada palavra, como se Christian lhe tivesse batido. Sem replicar, pegou em Melker pelo braço e conduziu-o para fora do quarto.

Depois de Sanna ter saído, Christian sentou-se pesadamente na cama. Olhou de relance para o espelho. Um homem de lábios contraídos. Envergando o paletó do terno, camisa, gravata e cueca. Curvado, como se todos os problemas do mundo lhe pesassem sobre os ombros. Tentou endireitar-se e pôr o peito para fora. Ficou logo com melhor aspecto. Aquela era a sua noite. E ninguém lhe podia tirar isso. — Alguma novidade? — perguntou Gösta Flygare, erguendo a cafeteira na direção de Patrik, que acabara de entrar na pequena cozinha da delegacia. Patrik assentiu, indicando que queria café e sentou-se numa cadeira junto da mesa. O cão, Ernst, ao aperceber-se de que estavam a fazer uma pausa, entrou pachorrentamente na cozinha e deitou-se debaixo da mesa, na esperança de que caísse algo comestível no chão que pudesse lamber. — Toma — Gösta pôs uma xícara de café à frente de Patrik e, em seguida, sentou-se à sua frente. — Estás um bocado pálido — disse ele, estudando o colega mais novo. Patrik encolheu os ombros. — Só estou um bocado cansado. Maja não anda a dormir bem, por isso fica irritadiça. E Erica está completamente exausta. O que é perfeitamente compreensível. Portanto, as coisas não têmsido lá muito fáceis na frente doméstica. — E ainda vão piorar — disse Gösta. Patrik deu uma gargalhada. — Ena, isso é encorajador. Mas acho que tens razão, se calhar vão mesmo. — Então, não descobriste nada de novo sobre Magnus Kjellner? — Gösta passou discretamente um biscoito a Ernst por debaixo da mesa e o cão bateu a cauda de felicidade contra os pés de Patrik.

— Não, nada de nada — respondeu Patrik, bebendo um gole de café. — Reparei que Cia esteve cá outra vez. — Sim, é uma espécie de ritual obsessivo, mas julgo que não é de admirar. Como é que uma mulher havia de agir depois de o marido ter desaparecido subitamente? — Talvez devêssemos falar com mais algumas pessoas — disse Gösta, dando outro biscoito à socapa a Ernst. — Quem é que tens em mente? — Patrik apercebeu-se do tom irritado da pergunta. —Falamos com a família e com os amigos dele. Batemos às portas todas do bairro, afixamos avisos e pedimos informações à população através do jornal local. Que mais podemos fazer? — Isso nem parece teu, desistir tão facilmente. — Bem, se tiveres sugestões, gostava de ouvi-las — Patrik lamentou imediatamente o tom de voz brusco, apesar de Gösta não parecer ter ficado ofendido. — Parece terrível esperar que o homem apareça morto — acrescentou de modo mais sereno. — Mas estou convencido de que só então descobriremos o que lhe aconteceu. Aposto contigo que ele não desapareceu voluntariamente e, se tivéssemos um cadáver, pelo menos haveria alguma coisa por onde pegar. — Acho que tens razão, é horrível pensar que o cadáver vai dar à costa algures ou que será encontrado na floresta. Mas tenho o mesmo pressentimento que tu. E deve ser pavoroso… — Não saber, queres tu dizer? — perguntou Patrik, mudando os pés de lugar, pois estavam a ficar quentes sob o peso do cão. — Bem, imagina não saberes onde está a pessoa que amas. É a mesma coisa para os pais quando uma criança desaparece. Há um site americano dedicado a crianças que desapareceram. Página atrás de página com fotos de crianças desaparecidas. Enfim, uma desgraça. — Uma coisa dessas ia dar cabo de mim — disse Patrik. Imaginou aquele turbilhão maravilhoso que era a filha. A ideia de lhe ser tirada era insuportável. — De que raio é que estão a falar? Parece que estão num velório — a voz alegre de Annika quebrou o clima sombrio quando a secretária se juntou a Gösta e a Patrik à mesa. O elemento mais jovem da delegacia, Martin Molin, não demorou a aparecer atrás dela, atraído por todas aquelas vozes vindas da cozinha e pelo cheiro do café.

Martin estava agora a trabalhar em part-time, uma vez que estava em licença de paternidade, e aproveitava todas as oportunidades possíveis para conviver com os colegas e participar em conversas de adultos. — Estávamos a falar de Magnus Kjellner — disse Patrik num tom que deixava claro que a conversa tinha terminado. Para certificar-se de que os colegas tinham percebido, mudou de assunto. — Como é que estão a correr as coisas com a menina? — Oh, ontem recebemos fotos novas — disse Annika, tirando algumas fotografias do bolso da túnica. — Vejam como está crescida — a secretária pôs as fotografias sobre a mesa e Patrik e Gösta viram- nas à vez. Martin já tivera direito a uma visualização prévia quando chegara à delegacia nessa manhã. — Ah, é muito bonita — disse Patrik. Annika concordou com um assentimento. — Está com dez meses. — Quando é que vão buscá-la? — perguntou Gösta com interesse genuíno. Estava plenamente consciente de ter contribuído para convencer Annika e Lennart a considerarem seriamente a adoção. Por isso, de certo modo tinha a sensação de que a menina que aparecia nas fotografias também era sua. — Bem, dizem-nos sempre coisas diferentes — disse Annika. Juntou as fotografias e voltou a enfiá- las cuidadosamente no bolso. — Mas julgo que será daqui a uns dois meses. — Deve parecer uma longa espera — Patrik levantou-se e pôs a xícara na máquina de lavar loiça. — Sim, é verdade. Mas, ao mesmo tempo… Pelo menos o processo foi iniciado. E sabemos que ela vai ser nossa. — Sim, de certeza que vai — disse Gösta. Impulsivamente, pôs a mão sobre a mão de Annika, mas retirou-a logo a seguir. — Bem, vou mas é trabalhar. Não tenho tempo para ficar para aqui sentado a conversar — murmurou com constrangimento e levantando-se em seguida. Divertidos, os três colegas observaram Gösta a sair preguiçosamente da cozinha. — Christian! — a diretora editorial, tresandando a perfume, aproximou-se para lhe dar umgrande abraço.

Christian prendeu a respiração para não ter de inalar o cheiro enjoativo. Gaby von Rosen não era conhecida pela subtileza. Tudo nela era sempre excessivo: demasiado cabelo, demasiada maquilhagem, demasiado perfume e, além de tudo isso, uma maneira de vestir que, de forma simpática, poderia descrever-se como surpreendente. Em honra da ocasião, Gaby usava um conjunto rosa-choque com uma rosa verde de pano na lapela e equilibrava-se perigosamente nuns sapatos comsalto de agulha. Mas, apesar da sua aparência algo ridícula, como chefe da nova editora sueca que andava nas bocas de toda a gente, Gaby era uma força a ter em conta. Tinha mais de trinta anos de experiência na área e um intelecto tão agudo como a língua era afiada. Aqueles que a subestimavam como adversária nunca cometiam o mesmo erro duas vezes. — Isto vai ser tão divertido! — exclamou Gaby, que tinha os braços esticados e as mãos nos ombros de Christian, enquanto lhe lançava um largo sorriso. Christian, que continuava a inalar à força a nuvem de perfume, apenas conseguiu assentir. — Lars-Erik e Ulla-Lena, aqui do hotel, têm sido simplesmente fantásticos, prosseguiu Gaby. — São tão atenciosos! E o bufete parece maravilhoso. É mesmo o local ideal para lançar o teu brilhante livro. E então, qual é a sensação? Christian conseguiu finalmente livrar-se das mãos de Gaby e deu um passo atrás. — Bem, tenho de admitir que é um tanto irreal. Ando a trabalhar neste livro há tanto tempo e agora… bem, cá está ele — Christian olhou para as pilhas de livros sobre a mesa junto à saída. Conseguia ler o próprio nome na lombada de cada exemplar, assim como o título: A Sereia. Sentiu o estômago a revolver-se. Aquilo estava mesmo a acontecer. — Ora bem, a nossa ideia é a seguinte — disse Gaby, agarrando-lhe o punho da camisa e puxando-o para junto dela. Sem oferecer resistência, Christian seguiu-a. — Vamos começar com uma reunião com os jornalistas que cá estão, para que possam falar contigo tranquilamente. Estamos muito satisfeitos com a resposta dos média. Estão cá os jornalistas do Göteborgs-Posten, Göteborgs Tidningen, Bohusläningen e do Strömstads Tidning. Não apareceu ninguém dos jornais nacionais, mas não faz mal, tendo em conta a excelente crítica que saiu hoje no Svenska Dagbladet. — Uma crítica? — perguntou Christian enquanto era escoltado para um estrado pequeno ao lado do palco onde ia falar com os jornalistas.

— Conto-te mais logo — disse Gaby, sentando-o à força numa cadeira junto da parede. Christian tentou recuperar o controlo da situação, mas sentia que tinha sido sugado para dentro de uma máquina de secar roupa, sem possibilidade de fuga. Ver Gaby a dirigir-se à saída, deixando-o para trás, apenas reforçou aquela sensação. Na sala, os assistentes apressavam-se de umlado para o outro, preparando as mesas. Ninguém lhe ligava nenhuma. Permitiu-se fechar os olhos por um momento. Pensou no seu livro, A Sereia, e em todas as horas que passara sentado ao computador. Centenas, milhares de horas. Pensou nela, na Sereia. — Christian Thydell? Uma voz despertou-o do seu devaneio e Christian olhou para cima. O homem de pé diante dele estendia-lhe a mão e parecia estar à espera de que Christian reagisse. Então, este levantou-se e apertou-lhe a mão.

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