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A Sombra das Raparigas em Flor – Marcel Proust

A série Em busca do tempo perdido pode ser lida como uma reflexão sobre o sentido da vida. À medida que nossa leitura avança, vamos nos deparando com estágios muito diferentes da vida das personagens que representam, na verdade, maneiras de se situar diante da arte, do sexo, do amor e do meio social a que pertencem. O começo de À sombra das raparigas em flor mostra justamente novos estágios de duas personagens importantes: Charles Swann, cujo drama amoroso pudemos acompanhar no primeiro volume, e o dr. Cottard, antigo convidado do salão dos Verdurin, onde Swann pôde conhecer a cortesã de luxo Odette de Crécy, com quem se casou. Este segundo volume da série inicia-se, desse modo, com um exercício daquilo que Proust viria a denominar de “psicologia no espaço”, ou seja, as páginas iniciais deste livro representam mais uma volta em torno dos “planetas-personagens” Swann e Cottard: o refinadíssimo Charles Swann, leitor das Memórias do duque de Saint-Simon e colecionador de objetos de arte, aparece agora como o marido bonachão de Odette, rebaixando sua inteligência e seu prestígio social para poder permanecer no mesmo nível acanhado da mulher; já o dr. Cottard, médico idiota da primeira fase do salão dos Verdurin no primeiro volume, surge agora como um clínico de prestígio, um medalhão respeitável, professor da Faculdade de Medicina de Paris. O início do livro coincide também com os preparativos de um jantar para um outro medalhão, o ex-embaixador senhor de Norpois. Dada a importância da visita, os pais do herói tentam se lembrar de pessoas que pudessem agradar a tal conviva de peso: Swann, do ponto de vista do pai, ummundano vulgar, estaria excluído; já “um sábio ilustre como Cottard nunca faria má figura à mesa” (p. 18). A presença do senhor de Norpois está ligada em parte a uma encenação cômica de leituras diferentes da vida e da arte: contrariamente ao que poderia esperar o herói, o ex-embaixador as vê, vida e arte, reunidas pelo objetivo único de alcançar prestígio social, pleiteando, no limite, a entrada na Academia. Embora bastante decepcionado, o herói ainda é tomado de gratidão incontrolável pelo denso senhor quando este lhe promete transmitir a Odette e Gilberte Swann sua admiração incondicional por elas: a exaltação do agradecimento, que chega até a se esboçar no desejo fulminante de beijar as mãos claras do ex-embaixador, acaba por dissuadir o ponderado senhor de transmitir aquela mensagem. Não seria por intermédio do ex-embaixador que ele alcançaria a glória de poder conviver com Gilberte. Anos depois, tendo o herói alcançado um estágio de indiferença quase completa diante dela, ele parte em viagem de férias com a avó, hospedando-se no Grande Hotel, na praia fictícia de Balbec. Em um final de tarde, sentado sozinho na praia, observando o movimento dos banhistas, o herói vê se aproximar um grupo insolente de jovens, as “raparigas em flor”. O desejo de voltar a encontrálas mobilizará todo o seu ser durante essa sua estada na praia. Antes de poder travar contato com elas, um pouco contrariado, ele parte em visita ao ateliê do pintor impressionista Elstir. Ora, cansado de rondar em busca delas, ele as encontra, por puro acaso, na casa do pintor, amigo delas. O encontro com Elstir é mais um daqueles momentos do livro em que à narrativa dos fatos juntase uma extensa reflexão sobre o sentido da arte: refugiado em seu ateliê, o pintor procede a uma verdadeira recriação do mundo, sob a forma de uma troca convulsiva de características entre os meios mais diferentes — o mar recebe características da terra e esta se torna paisagem em que poderiam avançar os barcos dos pescadores —, assim como ao longo de Em busca do tempo perdido, a realidade se dilui sob o efeito de um olhar transformador que a reorganiza. Aos poucos, o garoto que se sentia apenas um turista idiota em quem as meninas do bando jamais prestariam atenção passa a ser convidado especial dos passeios delas pelo litoral de Balbec, e sua preferência recai cada vez mais sobre Albertine. O volume termina brilhantemente com a lembrança dos gritos das amigas que chegavam até o quarto do herói, nos intervalos das ondas do mar e a arenga dos vendedores ambulantes: imagemdiáfana e potencialmente promissora de relações humanas que, pelo contrário, se revelaram com o tempo extremamente dolorosas e enganadoras. ii Este segundo volume de Em busca do tempo perdido também conclui o percurso de uma série de três visitas a lugares que o herói passara bastante tempo desejando conhecer: as primeiras páginas do livro coincidem com o momento de sua primeira ida ao teatro; depois, enquanto ele se recupera de uma infecção, chega enfim a carta de Gilberte que lhe permite adentrar o mundo misterioso da família Swann; na segunda parte do volume, quando seu amor por Gilberte já se desvaneceu quase inteiramente, ele desce com a avó até “o limite extremo da terra europeia”, a praia de Balbec. Por mais diferentes que sejam os lugares visitados, o “tecido sutil” da prosa proustiana os aproxima de maneira surpreendente. O fio condutor dessas aproximações parece ser a personagem Charles Swann. Certa vez, vendo que o herói está lendo um livro do escritor Bergotte, Swann revela-lhe umdetalhe inesperado que só faz aumentar sua admiração pela obra do escritor e intensificar cruelmente seu amor por Gilberte: a garota tem o hábito de sair em companhia de Bergotte para visitar “cidades antigas, catedrais e castelos”. O que o herói não daria para passar por essa experiência de ter como guia de passeios artísticos ninguém menos que seu escritor preferido? Que menina especial é Gilberte! Enquanto ele é obrigado a ouvir a conversa monótona das tias durante as refeições, a filha de Swann debate com Bergotte questões certamente bem mais interessantes.


Tudo isso só faz aumentar seu amor admirativo pela misteriosa e prestigiosa casa dos Swann. Paralelamente a esse amor por sua companheira de jogos nos Campos Elísios e sua admiração pelos escritos de Bergotte, há seu amor platônico pelos atores e atrizes do teatro. Todos os dias, ao final das aulas, o herói se posta diante dos cartazes anunciando as peças e contempla ali os nomes e as fotos dos deuses e deusas a cujas peças seus pais não o permitem ir assistir. Dentre esses artistas estava Berma. Naquele mesmo dia em que Swann toma conhecimento da paixão de Marcel por Bergotte, ele lhe revela que o escritor coloca Berma acima de todos os outros artistas. E que já publicou inclusive uma pequena brochura sobre Racine. O mesmo Charles Swann vem intensificar outro dos desejos do herói: o de partir em visita a Balbec para contemplar de perto a fúria sublime da natureza naquela região. Swann lhe revela a existência de uma catedral romana naquela praia. E aos sonhos de presenciar tempestades de vulto soma-se a curiosidade arrebatadora de visitar esse monumento erguido tão estranhamente próximo da natureza selvagem. iii Se, por um lado, o presente volume conclui com a série de visitas-percursos de busca do herói, por outro ele executa uma silenciosa abertura de compasso, que aparece sob a forma de vários encontros e a menção fortuita de certos detalhes. É a primeira vez que o herói se encontra com membros da família nobre dos Guermantes, na figura da sra. de Villeparisis e de seus sobrinhos, o barão de Charlus e Robert de Saint-Loup; é o primeiro encontro com o grande pintor Elstir e seu escritor preferido, Bergotte; é também o primeiro contato com as “raparigas em flor”. Talvez não seja possível atingir o significado desses encontros e os detalhes das cenas em que eles se dão sem antes ter completado todo o trajeto das relações do herói com tais personagens. Não deve ficar claro num primeiro momento, por exemplo, por que o barão de Charlus lança olhares tão intensos e dissimulados ao herói, por que sua voz oscila tanto, por que ele tem tanta repulsa por jovens efeminados, por que ele se veste de maneira tão rigorosamente sóbria e empurra para dentro com tanta energia a orla colorida do lenço que traz no bolso do casaco, qual o sentido da visita inesperada e silenciosa que faz ao quarto do herói. Qual o sentido de nos falar da existência de uma prostituta judia que trabalha na casa de rendezvous que o herói frequenta em companhia do amigo Bloch? E daquele garoto meio abobalhado de nome Octave, sempre ocupado com os esportes e dedicando tanta atenção a sua indumentária? Por que, afinal de contas, relatar os encontros com personagens tão insignificantes? Podemos nos perguntar também por que a avó do herói se deixa fotografar pelo amigo dele, Robert de Saint-Loup, e depois passa a evitar o neto. Sob a forma de sugestões, abre-se pouco a pouco o compasso que demarca a marcha investigativo-perceptiva do herói, no tempo. E, perto do final, o jovem Octave vai nos surpreender com a revelação de que o garoto meio idiota da praia de Balbec se tornara um dos maiores artistas que o herói já conheceu. O poeta Manuel Bandeira já se deliciava com essas surpresas que Em busca do tempo perdido reserva a seus leitores à medida que o livro avança: Uma das delícias do romance de Proust é que ele é cheio de surpresas. O fato de a surpresa ser às vezes moralmente desagradável não lhe tira o sabor da delícia, porque em toda surpresa há o elemento intelectual de conhecimento que resulta em gozo para a inteligência. […] Para quem conheceu o Legrandin de No caminho de Swann é coisa inteiramente inesperada vir a saber na Prisioneira que ele fosse dado sempre ao mesmo vício, digamos antes aos mesmos gostos que o barão de Charlus.[1] As delícias são tantas que o poeta nos aconselhará a comprarmos nossos próprios exemplares da Recherche: “O sujeito que quer ler bem o Proust, tem que possuir o seu Proust, tem que comprar o seu Proust. Senão, terá que o ler novamente ou será infeliz o resto da vida”.[2] E a leitura de uma série de detalhes aparentemente gratuitos dependerá da percepção de seu encadeamento na grande rede ficcional que os reúne todos e lhes atribui significado. A certa altura do livro, por exemplo, o pintor Elstir menciona ao acaso uma certa “srta. Léa” que “estava com um chapeuziho branco e uma sombrinha branca que eram de encantar”.

Albertine, uma das “raparigas em flor”, cortejada pelo herói, demonstra curiosidade incomum por esses detalhes de indumentária “por outros motivos, motivos de faceirice feminil”. Ora, Léa será das personagens que, em surdina, conduzirá toda a trama lésbica do final do livro e, muito provavelmente, estabeleceu relações com Albertine. E a personagem faz essas aparições fortuitas, desfilando um “chapeuzinho branco e uma sombrinha branca”, como se não participasse da trama principal. Os livros de Proust vão disseminando assim toda uma série de detalhes aparentemente ao acaso. Em maio de 1921, ou seja, antes mesmo da publicação completa do terceiro volume da série, o escritor André Gide já se dirigia a Proust, referindo-se a sua obra, dessa maneira: Até parece que seus livros não são “compostos” e que você vai difundindo sua profusão ao acaso; mas, se fico aguardando seus próximos livros para poder julgar melhor, já suspeito que todos os elementos vão se desenrolando segundo uma ordem secreta, como as hastes de um leque que se juntam pela extremidade e cuja divergência vem ligada por um tecido sutil em que se dá a ver os matizes de seu Majá.[3] O leitor que se dispõe a completar a longa travessia investigativa do livro deverá, como o jovemMarcel no trem a caminho de Balbec, mostrar-se ágil o suficiente para conseguir juntar os numerosos pequenos detalhes, os inumeráveis fragmentos que sustentam a composição, as numerosas linhas invisíveis que constituem o “tecido sutil” desse leque de ilusões intuído por Gide: “[…] de modo que eu passava o tempo a correr de uma janela a outra, para aproximar, para enquadrar os fragmentos intermitentes e opostos de minha bela madrugada escarlate e fugidia e ter dela uma vista total e umquadro contínuo”. Como o herói, deveremos nos mostrar ágeis para conseguir fixar pelo menos alguns do grande número de “fragmentos intermitentes e opostos” dessa fascinante caminhada de busca e atribuição de significado às coisas da vida que é a obra de Proust. em torno da sra. swann Quando pela primeira vez se tratou de convidar o sr. de Norpois para jantar em nossa casa, como lamentasse minha mãe que o professor Cottard estivesse em viagem e que ela própria houvesse deixado completamente de frequentar Swann, pois tanto um como outro certamente interessariam ao ex-embaixador, respondeu-lhe meu pai que um conviva eminente, um sábio ilustre como Cottard nunca faria má figura à mesa, mas que Swann, com a sua ostentação, com aquele jeito de proclamar aos quatro ventos as mínimas relações, não passava de um vulgar parlapatão que o marquês de Norpois sem dúvida acharia, segundo a sua expressão, “nauseabundo”. Essa resposta de meu pai requer algumas palavras de explicação, pois certas pessoas talvez se lembrem de um Cottard bastante medíocre e de um Swann que, em matéria mundana, levava a modéstia e a discrição à mais extrema delicadeza. Mas havia acontecido que ao “filho de Swann”, e também ao Swann do Jockey,[4] o outrora amigo de meus pais acrescentara uma personalidade nova (e que não devia ser a última): a de marido de Odette. Adaptando às humildes ambições dessa mulher o instinto, a vontade, a perícia que sempre tivera, empenhara-se em construir, muito abaixo da antiga, uma posição nova e adequada à companheira que com ele a partilharia. Ora, nisto, Swann se mostrava outro homem. Pois (embora continuando a frequentar sozinho seus amigos pessoais, a quem não queria impor Odette quando não lhe solicitavam espontaneamente que a apresentasse) como era uma segunda vida que ele começava, junto com a mulher, em meio a criaturas novas, ainda se compreenderia que, para avaliar a posição destas últimas, e por conseguinte o prazer de amor-próprio que poderia experimentar emrecebê-las, Swann se servisse, como ponto de comparação, não das pessoas mais brilhantes que formavam a sua sociedade antes do casamento, e sim das anteriores relações de Odette. Mas, ainda que se soubesse que era com deselegantes funcionários, com mulheres depravadas, ornamentos de bailes ministeriais que Swann desejava ligar-se, causava espanto ouvi-lo, a ele que outrora e ainda hoje tão delicadamente dissimulava um convite de Twickenham ou do Buckingham Palace, proclamar alto e bom som que a mulher de um subchefe de gabinete fora visitar a sra. Swann.[5] Talvez se atribua isso a que a simplicidade do Swann elegante não fora senão uma forma refinada de vaidade, conseguindo ele, como certos israelitas, apresentar alternadamente os estados sucessivos por que haviam passado os da sua raça, desde o esnobismo mais ingênuo e a mais grosseira descortesia à mais fina polidez. Mas a principal razão, e aplicável à humanidade em geral, é que as nossas próprias virtudes não são algo de livre, de flutuante, e do qual conservemos a disponibilidade permanente; elas acabam por associar-se tão estreitamente em nosso espírito às ações ante as quais nos impusemos o dever de exercê-las que, se nos surge alguma atividade de outra natureza, pega-nos completamente desprevenidos sem que nos ocorra ao menos a ideia de que ela poderia permitir o emprego dessas mesmas virtudes. Swann, assim tão pressuroso com aquelas novas relações e a citálas com orgulho, era como esses grandes artistas, modestos ou generosos, que, quando se põem no fim da vida a tratar de cozinha ou jardinagem, demonstram uma ingênua satisfação com os louvores concedidos a seus pratos ou a seus canteiros, para os quais não admitem a crítica que facilmente aceitam quando se trata de suas obras-primas; ou que, dando de graça uma de suas telas, não podemem compensação perder sem mau humor quarenta vinténs no dominó. Quanto ao professor Cottard, tornaremos a vê-lo longamente, muito mais tarde, com a patroa, no castelo de Raspelière.[6] Agora, a seu respeito, baste-nos observar primeiro isto: em Swann, por exemplo, a mudança pode, em suma, surpreender, visto já estar realizada, mas insuspeitada por mim, quando via o pai de Gilberte nos Campos Elísios, onde aliás, como não me dirigia a palavra, não podia alardear perante mim as suas relações políticas (na verdade, se o tivesse feito, eu talvez não me apercebesse logo da sua vaidade, pois a ideia que a gente há muito tempo forma de uma pessoa como que nos cobre os olhos e os ouvidos; minha mãe, durante três anos, não descobriu a pintura que uma de suas sobrinhas punha nos lábios, como se estivesse invisivelmente diluída num líquido; até o dia em que uma parcela suplementar, ou então qualquer outra causa, produziu o fenômeno chamado supersaturação; toda a pintura não percebida se cristalizou, e minha mãe, ante aquela orgia súbita de cores, declarou, como se teria feito em Combray, que aquilo era uma vergonha, e quase que suspendeu toda e qualquer relação com a sobrinha). Quanto a Cottard, pelo contrário, era já bastante remota a época em que o vimos assistir à estreia de Swann nos Verdurin; ora, as honrarias, os títulos oficiais vêm com os anos; em segundo lugar, bem se pode ser iletrado, fazer trocadilhos estúpidos, e possuir um dom particular, que nenhuma cultura geral substitui, como o dom de grande estrategista ou de grande clínico. Com efeito, não era apenas como um clínico obscuro, transformado mais tarde emnotoriedade europeia, que seus confrades o consideravam. Os mais inteligentes dentre os jovens médicos declaravam — pelo menos durante alguns anos, pois as modas mudam, visto elas mesmas nasceram da necessidade de mudança — que, se algum dia caíssem doentes, seria Cottard o único mestre a quem entregariam o couro.

Sem dúvida preferiam o convívio de certos mestres mais letrados, mais artistas, com quem pudessem falar de Nietzsche, de Wagner. Quando se fazia música em casa da sra. Cottard, nos serões em que ela recebia os colegas e alunos do marido, na esperança de chegar a vê-lo decano da faculdade, o professor, em vez de ouvir, preferia jogar cartas numa sala próxima. Mas louvava-se a prontidão, a profundeza, a segurança de seu olho clínico, de seu diagnóstico. Em terceiro lugar, no que concerne ao conjunto de aspectos que o professor Cottard exibia a um homem como meu pai, observe-se que a natureza que apresentamos na segunda parte de nossa vida não é sempre, embora o seja muitas vezes, a nossa natureza primeira, desenvolvida ou mirrada, acrescida ou atenuada; é muitas vezes uma natureza inversa, uma verdadeira roupa às avessas. Exceto em casa dos Verdurin, que estavam caídos por ele, o ar hesitante de Cottard e a sua timidez e a sua amabilidade excessivas lhe haviam acarretado, na juventude, perpétuas zombarias. Que caridoso amigo lhe aconselhou o ar glacial? A importância da sua posição lhe tornou mais fácil assumi-lo. Por toda parte, a não ser nos Verdurin, onde se tornava instintivamente ele mesmo, mostrava-se frio, silencioso, peremptório quando era preciso falar, não se esquecendo de dizer coisas desagradáveis. Pôde ensaiar essa nova atitude em face de clientes que, não o tendo ainda visto, não estavam aptos a fazer comparações, e muito admirados ficariam ao saber que não era umhomem de natural rudeza. O que antes de tudo visava era à impassibilidade, e até no serviço do hospital, quando soltava um daqueles trocadilhos que faziam rir a todos, desde o chefe da clínica ao mais recente externo, era sempre sem mover um só músculo da face, aliás irreconhecível depois que raspara a barba e o bigode. Digamos, para terminar, quem era o marquês de Norpois. Fora ministro plenipotenciário antes da guerra e embaixador no Dezesseis de Maio,[7] e, apesar disso, para surpresa de muitos, várias vezes encarregado, posteriormente, de representar a França em missões extraordinárias — e mesmo como fiscal da Dívida, no Egito, onde prestara importantes serviços graças à sua grande capacidade em finanças[8] — por gabinetes radicais que um simples burguês reacionário se recusaria a servir e aos quais o passado do sr. de Norpois, suas ligações e opiniões deveriam torná-lo suspeito. Mas esses ministros progressistas pareciam cônscios de que demonstravam com tal designação que largueza de espírito era a sua quando se tratava dos interesses superiores da França; e assim se punham à margem dos políticos, merecendo que até mesmo o Journal des Débats os qualificasse de estadistas;[9] e aproveitavam-se enfim do prestígio ligado a um nome aristocrático e do interesse que sempre desperta, como um lance teatral, uma nomeação imprevista. E sabiam também que podiamauferir essas vantagens apelando para o sr. de Norpois, sem ter de recear deste alguma deslealdade política, contra a qual o nascimento do marquês devia não pô-los em guarda, mas garanti-los. E nisso o governo da República não se enganava. Antes de tudo porque certa aristocracia, acostumada desde a infância a considerar o seu nome uma vantagem interior que nada lhe pode arrebatar (e cujo valor conhecem exatamente os seus pares, ou aqueles de nascimento ainda mais elevado), sabe que pode evitar, pois nada de mais lhe trariam os esforços que fazem tantos burgueses, sem apreciável resultado ulterior, para só professarem opiniões convenientes e só frequentarem gente bem pensante. Por outro lado, preocupada em engrandecer-se aos olhos das famílias principescas ou ducais abaixo de quem está imediatamente situada, sabe essa aristocracia que só o pode fazer aumentando o seu nome com o que este não continha, com o que, em igualdade de títulos, lhe permite prevalecer: uma influência política, uma reputação literária ou artística, uma grande fortuna. E as atenções de que essa aristocracia prescinde no tocante a um inútil fidalgo provinciano disputado pelos burgueses, e a cuja amizade improfícua um príncipe não ligaria a menor importância, há de prodigá-las aos políticos, ainda que sejam franco-maçons, que podem dar acesso às embaixadas ou servir de patronos nas eleições, bem como aos artistas ou aos sábios cujo apoio a auxilia a “furar” no setor em que se distinguem, a todos aqueles, enfim, que estão em condições de conferir mais uma distinção ou facilitar um casamento rico.

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