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A Sombra do ditador – Heraldo Munoz

O general Augusto Pinochet é um dos políticos latino-americanos mais conhecidos no mundo. Gostemos chilenos ou não, o nome do ex-ditador é lembrado na Ásia, África, Américas e Europa por motoristas de táxi, embaixadores, ambulantes e presidentes. Pinochet está na mesma categoria que Francisco Franco, Joseph Stálin, Ferdinand Marcos e o xá do Irã. O nome do ditador chileno não deslizou para a obscuridade com sua morte, em dezembro de 2006. Em outubro de 2007, cerca de 100 estudantes que realizavam uma manifestação na Universidade de Teerã contra o presidente Mahmoud Ahmadinejad, exigindo a libertação de colegas presos, cantavam: “Ahmadinejad é Pinochet. O Irã não será o Chile!” Ao concorrer às eleições presidenciais de 2008, o ex-campeão de xadrez Gary Kasparov acusou Vladimir Putin de ser o Pinochet da Rússia, e foi se aconselhar com ex-dissidentes chilenos. O ex-ditador do Chade, Hissene Hebré, era amplamente conhecido como “o Pinochet africano”. Diversos líderes mundiais encontraram inspiração para entrar na política precisamente quando se uniram à causa da democracia chilena. A luta do Chile contra Pinochet tornou-se um célebre pleito internacional. O atual movimento global em prol dos direitos humanos emergiu dos protestos e denúncias em todo o globo contra a ditadura de Pinochet, liderados pela Anistia Internacional e numerosas ONGs de direitos humanos. A derrubada do presidente socialista Salvador Allende por Pinochet, em 1973, levou o premier soviético Leonid Brejnev a reverter sua política habitual e a endossar o princípio da luta armada empaíses do Terceiro Mundo. A lição dada pelo golpe violento de Pinochet e pela posterior perda de influência do Partido Comunista no Chile foi tão importante para Moscou que o medo soviético de “um novo Chile” desencadeou a invasão do Afeganistão pela URSS, em 1979, para apoiar o regime comunista de Cabul. A prisão do ex-ditador em Londres, em 1998, como decorrência do mandado expedido por um juiz espanhol, anunciou uma grande mudança na administração do direito internacional no tocante a exchefes de governo. A partir daquele momento, nenhum ex-tirano podia estar certo de escapar do sistema global de Justiça. Mas há controvérsias quando se trata de Pinochet e seu legado. Margaret Thatcher via-o como umbaluarte contra o comunismo e um líder em matéria de privatização de empresas estatais – e reivindicou ativamente a libertação do ex-ditador. O Chile serviu como um laboratório bemsucedido para Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, e suas teorias monetaristas, adotadas por economistas chilenos formados na Universidade de Chicago. O Chile de Pinochet se tornaria depois o bom aluno do Fundo Monetário Internacional (FMI), a inspiração do Consenso de Washington, o conjunto de diretrizes ditadas pelo FMI que apontavam o rumo a ser seguido pelos países a fim de “pôr a casa em ordem do ponto de vista econômico” e crescer. A planejada reforma da Previdência Social do presidente George W. Bush foi inspirada na mudança do sistema de pensões imposto por Pinochet em 1980 – e mais tarde implantado em muitos países. Nos anos 1970, o Chile de Pinochet foi foco de um debate sem precedentes no Congresso americano sobre as ações clandestinas dos Estados Unidos e a política de direitos humanos. As audiências marcaram o início do questionamento do Executivo pelo Legislativo a respeito da condução da política externa. Richard Helms foi o primeiro diretor da CIA a ser processado, por deixar de responder, no Senado, a perguntas sobre a investigação que se fazia do caso chileno. Os nomes de Richard Nixon e Henry Kissinger tornaram-se inextricavelmente vinculados a Pinochet e ao Chile. Ambos dedicaram tempo e recursos extraordinários à erradicação do que percebiam como uma “ameaça vermelha” nas Américas, e apoiaram Pinochet com entusiasmo.


O propósito deste livro é investigar o impacto de Pinochet na história contemporânea, bem como os vários significados e símbolos que sua figura evoca. Não se trata de uma biografia, mas de uma análise de sua época e de seu legado. Num sentido, são minhas memórias políticas acerca de Pinochet e seu tempo. Por causa do ditador, muitas vidas mudaram, e nossos planos anteriores passaram a se subordinar à prioridade do combate à ditadura. Como complemento às minhas experiências, lancei mão aqui de inúmeras entrevistas com pessoas importantes, de documentação confidencial e da vasta cobertura jornalística no período Pinochet, para narrar acontecimentos e detalhes de muitos episódios desconhecidos do público em geral. Pinochet não corresponde exatamente à caricatura de ditadores latino-americanos que vemos emfilmes de Hollywood ou no grande romance de Gabriel García Márquez, O outono do patriarca. Certamente não foi um Bismarck – tampouco apenas mais um Somoza. Foi um intelectual limitado que, situado numa encruzilhada histórica, dirigiu um processo de mudanças no Chile com poderoso impacto internacional. A maioria dos ditadores latino-americanos administrou economias desastrosas. Pinochet foi exceção. De início, pendeu para as políticas econômicas nacionalistas. Foi o almirante José Toribio Merino quem o pressionou para aceitar um novo modelo econômico, exatamente como outrora o pressionara para se juntar ao golpe. Merino foi o verdadeiro líder do movimento militar – e o líder virtual do “golpe econômico”. Mas, tal como em 11 de setembro de 1973, quando não tinha escolha a não ser aderir – embora tenha assumido o controle, uma vez a bordo –, Pinochet aceitou o plano econômico dos Chicago Boys e tornou-se aos poucos um verdadeiro defensor do projeto. Sem esse modelo econômico revolucionário, o general seria um capítulo menor na história dos ditadores militares latino-americanos. Embora para muitos ele encarne o emblema da crueldade no século XX, em consequência dos resultados econômicos que obteve alguns o veem como o líder que, apesar do regime tirânico, levou a nação à recuperação econômica e lançou as bases do crescimento e da modernização. A pergunta angustiante é: Pinochet era necessário? Poderia o Chile ter alcançado a atual prosperidade sem ele? Este livro tratará dessas questões. A ideologia de Pinochet era o interesse próprio. Em tempos de compromissos e causas veementes, sua política era a realpolitik: ser pragmático, parecer neutro e cultivar a confiança daqueles que tinham poder e autoridade. Militar na ativa por mais tempo que qualquer outro soldado no mundo, Pinochet foi acima de tudo um sobrevivente. Não obstante todas as suas fraquezas éticas e intelectuais, ele tinha um notável instinto de poder. O general Pinochet não era um ditador absoluto, embora quisesse sê-lo. Acumulou um poder enorme, mas reconhecia suas limitações. Sabia como exercer autoridade e era esperto o bastante para confiar em seus conselheiros próximos, os quais, em geral, escolhia muito bem. Não era inteligente, mas astuto.

“Ele não chegou aonde chegou lançando mão de um esquema cuidadosamente planejado, mas tirando vantagem de circunstâncias favoráveis”, disse-me o ex-presidente chileno Patricio Aylwin. Em última análise, Pinochet foi o produto acidental de uma polarização pela qual o mundo passou no final da década de 1960 e começo da de 1970, como resultado de vários fatores: a intensificação das políticas anticomunistas nos Estados Unidos em resposta à Revolução Cubana; as doutrinas de segurança nacional adotadas pelos regimes militares sul-americanos; os distúrbios de 1968 em Paris; a sufocada Primavera de Praga; a Guerra do Vietnã; os protestos antiguerra do movimento por direitos civis nos Estados Unidos; o movimento guerrilheiro de Che Guevara na Bolívia; o massacre dos estudantes na Praça Tlatelolco, na Cidade do México; e até a vigorosa mensagem anticapitalista do Vaticano. Essa realidade internacional se refletiu no Chile. As tensões locais se aprofundaram quando a esquerda socialista começou a reivindicar mudanças revolucionárias, a direita defendeu o status quo com ferocidade crescente e o centro, em vez de desempenhar um papel pragmático, ficou imóvel entre as tendências polarizadas do país. Por conseguinte, os partidos se mostraram incapazes de formar coalizões de maioria para governar, e rompeu-se o consenso político. Este livro começa com os acontecimentos de 11 de setembro – não o de 2001, mas um 11 de setembro diferente, o dia do golpe de Estado de 1973, que pôs fim ao governo constitucional do presidente Salvador Allende no Chile. Aderindo ao golpe no último minuto, Pinochet ascendeu rapidamente ao poder supremo, tornando-se o primus inter pares de seus colegas, criando uma ditadura pessoal e transformando a polícia secreta num instrumento de terror. Fez uma parceria com os Chicago Boys a fim de usar a ditadura para reerguer um sistema produtivo arruinado e tentar “recriar” a economia e a política chilenas. A princípio Pinochet foi recebido calorosamente pela Casa Branca, mas a complexa relação entre Chile e Estados Unidos se tornou mais difícil quando a polícia secreta do ditador assassinou Orlando Letelier, antigo ministro de Salvador Allende, nas ruas de Washington; e mais tarde, quando o modelo de desenvolvimento econômico de Chicago começou a vacilar, com consequências políticas inevitáveis. Pinochet personificava o dilema que os Estados Unidos viviam havia décadas na América Latina. Ele encarnava as políticas de livre mercado que Washington advogava para as nações em desenvolvimento, mas derrubara um governo democraticamente eleito e mantinha o poder pela repressão. Era um firme combatente da Guerra Fria, mas não conseguiu entender que, com o enfraquecimento da União Soviética, os Estados Unidos precisavam menos dele – e que ele absolutamente não era mais necessário depois que o conflito Leste-Oeste teve fim. No começo dos anos 1980, a luta pela democracia começou a sair da clandestinidade e a desenvolver atividades abertas, das quais fui participante ativo. Havia muita discordância sobre a melhor estratégia para lutar contra Pinochet. O Partido Comunista optou pela luta armada – o braço armado do partido até tentou matar o ditador –, enquanto os demais mudaram a estratégia inicial de protestos e adotaram a controvertida participação no plebiscito de 1988, em que Pinochet, sob sua própria Constituição de 1980, foi candidato único numa votação decisiva entre “sim” e “não”. A chocante vitória do “não” anunciou o último capítulo do domínio do general. Quando a democracia voltou ao Chile, em 1990, Pinochet não foi embora. Alguns argumentaram que os governos democráticos administravam a economia com eficiência, mas que aquela era uma democracia sob a tutela de Pinochet, já que ele continuava no leme do Exército e depois se estabeleceu no Congresso, como senador vitalício. Em outubro de 1998, para surpresa do mundo, Pinochet foi detido numa clínica em Londres, por violação dos direitos humanos, a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón. Quando as autoridades britânicas permitiram que o general retornasse ao Chile por motivos de saúde, em março de 2000, ele finalmente foi acusado pela lei chilena e posto em prisão domiciliar como criminoso. Ironicamente, não caiu em desgraça por acusações de violação dos direitos humanos, mas por uma investigação relacionada a terrorismo, levada a efeito nos Estados Unidos, a respeito de dinheiro não declarado que vinha escondendo, sob vários nomes fictícios e de membros de sua família, em contas no Riggs Bank e em outras instituições no mundo inteiro. Pinochet morreu em dezembro de 2006. Antes disso ele viu, um a um, seus colaboradores mais próximos irem para a cadeia, alguns responsabilizando-o diretamente. Embora estivesse sob prisão domiciliar quando morreu, jamais foi condenado por qualquer dos crimes de que era acusado. Quase quatro décadas depois do massacre de seus oponentes políticos, ainda não se encontraram os corpos de muitos chilenos desaparecidos.

Pinochet marcou uma geração de chilenos e atingiu um número incontável de pessoas no mundo todo. Para muitos compatriotas, ele produziu a perda esmagadora da inocência. Mais uma vez DomQuixote foi derrotado. Nós acreditávamos que nosso país era diferente do resto da América Latina e não cairia presa dos horrores de uma ditadura. Alguns de nós teríamos seguido vidas totalmente diferentes se Pinochet não tivesse existido. Muitos, como eu, decidiram que a única escolha moral era lutar contra ele e contribuir para a restauração da democracia no Chile. Estou entre os afortunados para quem a luta acabou bem, embora vá carregar para sempre profundas cicatrizes emocionais da era Pinochet. 1. Um 11 de setembro diferente NA MANHÃ EM QUE O GOLPE COMEÇOU quase me tornei o primeiro terrorista suicida do mundo. Nas primeiras horas de 11 de setembro de 1973, a insurreição militar contra o governo constitucional do Chile estava bem adiantada. Minha esposa, Pamela, e eu morávamos com minha mãe viúva em Estación Central, bairro operário não muito distante do centro de Santiago. Eu voltara depois da meia-noite de Valparaíso, na costa do Pacífico, 120 quilômetros a oeste de Santiago, que fora visitar na função de supervisor nacional dos Armazéns do Povo – programa de distribuição de alimentos inovador e altamente eficaz que estava sendo implantado em favelas de todo o país, com o apoio do governo. Eu planejara dormir até tarde, mas fui acordado por volta das 7h30 pelo noticiário no rádio, relatando movimentos incomuns de tropas. Alarmado, pulei da cama, tomei banho e me vesti depressa. Uma explosão ensurdecedora – depois nós compreendemos que fora o estrondo de um caça supersônico – sacudiu as janelas da nossa casa enquanto eu tomava café. O rádio nos informou que a Marinha chilena se rebelara em Valparaíso e que tropas do Exército ocupavam as ruas de Santiago. Embora ainda não fosse evidente, Salvador Allende, o primeiro e único presidente marxista democraticamente eleito, estava sendo deposto. Peguei meu revólver 32 e corri para o quartel-general do Partido Socialista local, uma casa do final do século XIX situada ali perto, na rua Grajales. Nenhum dos membros mais antigos da liderança estava presente, mas cerca de uma dúzia de jovens membros do Partido já trabalhavamarduamente para destruir arquivos que, se descobertos, poriam a vida dos militantes em risco. Emocasiões anteriores, já tínhamos discutido o que fazer no caso de um golpe; minha primeira tarefa era recuperar as quatro bananas de dinamite que eu escondera na casa de meu amigo Marcos, e parti a pé para a rua Toesca, onde ele morava. Uma longa fila de caminhões militares passou roncando, cheia de soldados armados, em farda de combate, todos usando braçadeiras cor de laranja. Estavam conosco ou contra nós? Não dava para dizer. Como se revelou mais tarde, as tropas com braçadeiras laranja se rebelavam contra o governo. E quanto ao comandante em chefe do Exército, o general Augusto Pinochet? Ele se comportara como um soldado leal nos últimos meses – e eu me perguntei se estaria resistindo ao golpe. Marcos só era politicamente ativo em seu local de trabalho; em nosso bairro, mantinha umcomportamento discreto, de modo que sua casa era um local seguro, o esconderijo ideal para nós.

Ele estava pálido e perturbado quando me cumprimentou à porta. Nós nos sentamos à mesa na sala de jantar por uns minutos, ouvindo as últimas notícias. Ninguém ainda pronunciara a palavra “golpe”, mas a rádio Corporación, pró-governo, divulgava boletins urgentes – o que reconheci como agourentas mensagens “codificadas” alertando para um golpe em andamento. Claramente, não se tratava da reprise do golpe tentado por um renegado regimento de tanques em Santiago, três meses antes, que logo foi reprimido. Estávamos num grave apuro. Eu dera instruções precisas a Marcos sobre a dinamite e confiei-a a seus cuidados. As bananas tinham de ser giradas no intervalo de alguns dias, senão a nitroglicerina começaria a “suar”, tornando-se altamente instável. Mas quando fomos à despensa onde os explosivos estavamescondidos, fiquei chocado de ver o tecido azul que envolvia as bananas – encontrava-se totalmente encharcado. Qualquer movimento abrupto seria o bastante para detoná-las. “Por que você não girou a dinamite como eu disse?”, gritei. Marcos estava agitado demais para explicar; apenas resmungou que tinha esquecido. Obviamente escondera a dinamite na despensa e, talvez por medo, jamais a tocara outra vez. Eu não tinha escolha: coloquei com cuidado o pacote mortal sob o casaco e me despedi de Marcos. Eu não voltaria ao quartel-general do Partido, alvo mais que óbvio dos militares. Em vez disso, combinamos nos reagrupar numa fundição próxima, a Maestranza Jemo, cujos trabalhadores eram todos socialistas ou comunistas. Minguados raios de sol atravessavam as nuvens espessas quando eu saí para a rua. Fiz o melhor que pude para parecer indiferente quando passaram outros caminhões militares. Eu carregava quatro bananas de dinamite altamente instáveis e uma arma. Se fosse parado, seria preso – e aí, quempoderia saber? Assim que cheguei à fábrica, guardei a dinamite num grande tambor de metal. Àquela altura, os jovens socialistas do quartel-general do Partido também já haviam conseguido chegar à fábrica, vindos pelos telhados. Sem contar os trabalhadores (tão concentrados nas suas próprias discussões que nos ignoraram sumariamente), havia cerca de dez de nós. Eu me aborreci porque nosso chefe de segurança do Partido, um homem imenso, do tamanho de um jogador de futebol americano, não estava ali (anos mais tarde soube que se refugiara numa embaixada), mas fiquei impressionado com o fato de que mais de uma pessoa estivesse presente e pronta para lutar até a morte. Alguém disse que devíamos destruir nossas carteirinhas do Partido Socialista, então peguei a minha e rasguei – não foi tarefa fácil, pois era espessamente plastificada. Veio então um boletim de rádio anunciando o que todos já sabíamos – um golpe estava de fato em andamento. Algumas poucas estações simpáticas ao governo continuaram a transmitir por um tempo, mas foram silenciadas uma a uma.

Logo, logo somente as estações anti-Allende continuavam no ar, difundindo um fluxo constante de canções e marchas militares. Alguém perguntou o que devíamos fazer. “Nós temos de defender o governo constitucional de Allende”, declarei. Mas com quê?, pensei amargamente. Nosso estoque de armas consistia em quatro bananas de dinamite que representavammais perigo para nós que para qualquer outra pessoa, uma carabina Mauser que datava da Segunda Guerra Mundial, quatro armas leves, inclusive a minha. Mal tínhamos munição, e nossos adversários eram soldados profissionais com armamento pesado. Não que eu fosse um completo amador. Alguns meses antes eu fora selecionado para receber treinamento paramilitar. Ao longo de seis semanas, cerca de uma dúzia de socialistas de diferentes partes do país reuniram-se diariamente numa bela mansão semiabandonada na rua da Catedral, no centro de Santiago. Nunca soubemos os nomes dos nossos colegas de turma, pois no primeiro dia o professor nos instruiu a adotarmos pseudônimos. Pela mesma razão, nunca soube o nome do professor, embora ele tenha nos dito que fora membro da facção Eleno (do ELN, Exército de Libertação Nacional) do Partido Socialista, que tinha ido para a Bolívia em meados dos anos 1960 a fim de lutar ao lado do exército guerrilheiro de Che Guevara. O professor nos ensinou a disparar armas leves e como montá-las e desmontá-las no escuro. Aprendemos a sobreviver clandestinamente, a seguir alguém sem ser observado e a detectar vigilância. Também fomos treinados em manuseio de explosivos. Um dia, o instrutor explicou, talvez apenas de brincadeira, por que é importante armar a banana de dinamite com as mãos para trás do corpo. Assim, disse ele, se a dinamite explodir, “vai levar um pedaço de sua bunda, e não a parte da frente da sua anatomia”. (Eu pensei no comentário dele aquela manhã, enquanto conduzia as quatro bananas de dinamite apertadas contra o peito.) À parte os treinos de tiro ao alvo, eu só tinha usado a arma uma vez, para autodefesa. Durante as eleições legislativas de março de 1973, alguns amigos socialistas e eu tínhamos ido de carro até um bairro violento ao sul do Clube Hípico, um hipódromo de Santiago, para pichar propaganda política em muros e paredes de edifícios. Mal terminamos, e uma gangue de direita começou a nos insultar e ameaçar. Quando já íamos embora, de repente apareceu um Austin Mini atrás de nós, com armas cuspindo fogo pelas janelas. Nós nos jogamos no chão do caminhão, entre as latas de tinta. Eu e outro homem descarregamos nossas armas em direção ao Mini, acertando o para-brisa, o que convenceu o motorista deles a desistir da perseguição. Esse é o resumo da minha experiência de combate. Todos sabíamos o que devíamos fazer.

No caso de um golpe, fomos instruídos a nos dirigir para locais seguros predeterminados, onde seriam distribuídas tarefas oficiais e armas de assalto. Porém, um membro do grupo da fábrica sugeriu que tomássemos a iniciativa ali mesmo, imediatamente. Ignorando o fato de que a dinamite estava instável e que nosso poder de fogo era um tanto limitado, sugeriu que fizéssemos um ataque de surpresa contra a delegacia de polícia local, o 8 o Distrito, para apreender armas mais pesadas, como metralhadoras e rifles automáticos. Eu não tinha objeções ao plano, desde que tivéssemos certeza de que a delegacia apoiava o golpe e que conhecêssemos as medidas de segurança adotadas por eles. Sugeri que um de nós fizesse um reconhecimento. Umvoluntário saiu de imediato e voltou dez minutos depois. “Impossível”, disse ele. “Todo o quarteirão está isolado. Não pude nem chegar perto da delegacia. Além disso, eles colocaram metralhadoras pesadas em posições bem-defendidas.” Nós ainda estávamos discutindo o que fazer quando a voz do presidente Allende ecoou no rádio. Eram 10h15 da manhã. Aquele seria seu último discurso. NAQUELE MOMENTO, O PRESIDENTE ALLENDE estava no palácio presidencial de La Moneda, preparando-se para entrar em combate contra as forças rebeldes, acompanhado pelos guardas da sua segurança pessoal, do Grupo de Amigos del Presidente (GAP). Com ele estavam alguns membros das Investigaciones (a Polícia Civil), seus médicos pessoais e alguns funcionários do governo. Allende escolheu permanecer no palácio e resistir às forças rebeldes porque pensou que era seu dever defender a República; também esperava ganhar algum tempo para que tropas e forças paramilitares leais viessem em seu socorro. Muitas testemunhas e jornalistas registraram o que aconteceu no palácio naquele dia. Na noite anterior, o presidente Allende recebera hóspedes em sua residência, na rua Tomás Moro, 200, na abastada região leste da cidade. Às 21h30, ele jantava com Carlos Briones, ministro do Interior; Orlando Letelier, ministro da Defesa; um jornalista amigo dele, Augusto Olivares; seu conselheiro político, o espanhol Joan Garcés; a primeira-dama, Hortencia “Tencha” Bussi; e a filha Isabel, que acabara de voltar do México. Isabel levara dois paletós de presente para o pai. “Espero poder usá-los”, comentou ele, sombrio. “A situação está ruim?”, perguntou Isabel. Allende não respondeu. O presidente chegara atrasado ao seu próprio jantar, pois tivera uma reunião com o ministro das Relações Exteriores, Clodomiro Almeyda, que acabava de chegar de um encontro com o Movimento Não Alinhado na Argélia. Pela primeira vez em semanas Allende sentia-se moderadamente otimista.

Para resolver seus problemas com a oposição, ele decidira propor um plebiscito nacional sobre o impasse relativo aos setores público e privado da economia. Ele planejava fazer o anúncio no dia seguinte. O programa econômico de Allende não pretendia alcançar uma forma extremada de socialismo. Seu governo tinha definido que conglomerados mineradores, grandes companhias, bancos e latifúndios seriam objeto de expropriação, com a finalidade de estabelecer um setor de “propriedade social” que coexistiria com um setor de propriedade mista e outro de propriedade privada da economia. Mas, com o passar do tempo, fábricas ou fazendas cada vez menores eram tomadas por trabalhadores ou ativistas e colocadas sob controle do Estado. O Partido Socialista, ao qual eu pertencia, e o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR, na sigla em espanhol: Movimiento de Izquierda Revolucionaria) tinham radicalizado o processo político rumo ao socialismo, desconsiderando o fato de que Allende galgara à Presidência da República representando uma pluralidade de interesses e que a coalizão de governo da Unidade Popular ocupava a minoria das cadeiras no Congresso. Por sua vez, a extrema direita e a Casa Branca de Nixon não deram a Allende qualquer chance, lançando uma campanha de desestabilização e terror contra ele e a economia chilena mesmo antes de o presidente tomar posse. O diálogo promovido pelo cardeal Raúl Silva Henríquez, entre o governo e os centristas democratas cristãos, então aliados à direita, tinha fracassado. A única opção para evitar um golpe militar ou a guerra civil era, segundo Allende, um plebiscito no qual os eleitores seriam chamados a confirmar a Presidência da República do Chile. O presidente achava que perderia o referendo e, nesse caso, estava pronto a renunciar para evitar novos confrontos. O jantar foi interrompido pela notícia de que dois caminhões cheios de soldados rumavam às pressas para Santiago, vindos da cidade de Los Andes, cerca de 80 quilômetros a nordeste. Orlando Letelier conseguiu entrar em contato com o general Herman Brady, o chefe do Exército em Santiago, que inicialmente respondeu nada saber sobre a situação. Mais tarde, compreendendo que o comando militar tinha inadvertidamente mobilizado suas forças antes do que fora combinado para o golpe, Brady ordenou que as tropas retornassem, afirmando tratar-se de um deslocamento normal antecipado dos exercícios para a parada militar do Dia da Independência, em 19 de setembro. O jantar acabou às duas da manhã, e Allende retirou-se para dormir. Apenas poucas horas depois ele soube a verdade – seu governo estava sendo atacado. Às 6h30, o presidente foi acordado por um guarda do GAP, Hugo García, que lhe passou um telefonema urgente do general Jorge Urrutia, dos Carabineros, a força nacional da Polícia Militar, transmitindo-lhe uma mensagem do chefe de polícia de Valparaíso: os fuzileiros navais tomavam posição de combate nas ruas, ocupavam setores-chave e interrompiam as comunicações da cidade portuária com o restante do país. Dúzias de líderes políticos e sindicais já haviam sido presos. Se tivesse passado a noite em Valparaíso, em vez de voltar para casa tarde, eu seria encurralado. Allende ordenou que telefonassem imediatamente para o almirante Raúl Montero, comandante emchefe da Marinha, e para o general Augusto Pinochet, comandante em chefe do Exército, mas não foi possível completar as chamadas. As linhas telefônicas de Montero tinham sido cortadas por seu próprio pessoal durante a noite; ele fora exonerado sumariamente de sua função pela relutância emjuntar-se ao golpe. Allende telefonou para a casa de Pinochet. Disseram-lhe que o general estava tomando banho e ligaria de volta em poucos minutos. Nesse ínterim, Alfredo Joignant, diretor das Investigaciones, ligara para o presidente confirmando a insurreição em Valparaíso. Mais uma vez Allende só conseguiu localizar um funcionário militar, o general Herman Brady. Ordenou que ele mandasse tropas do Exército a Valparaíso para reprimir a insurreição.

Brady prometeu fazê-lo, mas não cumpriu a palavra. Já estava recebendo ordens de outros comandos. Poucos minutos depois, os golpistas cortaram todas as linhas telefônicas da residência presidencial, agora totalmente isolada do mundo exterior. Allende decidiu ir para o La Moneda, no centro de Santiago. Abandonando seu traje formal, usava uma blusa de gola olímpica cinza com motivos marrons, calça cinza e sapatos pretos. Sempre elegante, vestiu um paletó de tweed cinzento. Ele se aprontou para o combate pegando seu rifle automático AK-47 Kalashnikov e saiu. Uma inscrição na coronha da arma dizia: “Para Salvador Allende, de um companheiro de armas. Fidel.” O contingente do GAP que acompanhava Allende era formado por 23 homens armados com duas metralhadoras .30 e três RPG-7 (lançadores de foguete de fabricação russa), mais seu arsenal pessoal: rifles AK-47, pistolas P-38 e revólveres Colt Cobra. Allende ordenou que parte da equipe ficasse para trás, a fim de proteger sua esposa. Então, às 7h20, a comitiva de automóveis – quatro Fiats 125 azuis e dois veículos blindados brancos – zuniu para o centro. Além dos guardas de segurança, Allende estava acompanhado pelo dr. Danilo Bartulín, por Joan Garcés e Augusto Olivares. Sete membros do GAP receberam ordens de ficar com os carros para um caso de emergência e, se ocorressem combates, tomar posição na porta ao lado, do Ministério de Obras Públicas. Os demais acompanharam Allende para o interior do palácio. Por volta da mesma hora em que Allende chegou ao La Moneda, o ministro Orlando Letelier estacionava em frente ao Ministério da Defesa, apenas 100 metros adiante, acompanhado pelo motorista e sua escolta militar, o tenente-coronel Sergio González. Ao se aproximarem da entrada, González tirou a pistola da cartucheira e apontou-a contra o peito de Letelier. O ministro foi informado de que estava preso e levado ao gabinete do general do Exército Sergio Arellano. Este e o almirante Patricio Carvajal vinham coordenando o golpe a partir de um posto de comunicações no interior do Ministério da Defesa. Os outros líderes do golpe eram o comandante em chefe da Força Aérea, general Gustavo Leigh, que se encontrava estacionado na Academia da Força Aérea, no bairro de Las Condes, em Santiago; o coronel Nilo Floody, na Escola Militar do Exército; e o general Augusto Pinochet, que estava longe, nos contrafortes dos Andes. Apesar da distância da ação, a posição de Pinochet fora designada como Posto Número 1. Allende gostou de ver que o general José Maria Sepúlveda, o chefe dos Carabineros, estava no palácio presidencial. Imaginou que a força de 40 mil homens comandada por Sepúlveda estivesse do lado do governo constitucional.

Por volta de 7h55, Allende falou brevemente à nação, confirmando que oficiais da Marinha tinham se rebelado em Valparaíso, mas declarou que a situação em Santiago era normal. O presidente estimulou os trabalhadores a “assumirem seus postos, irem para as suas fábricas e permaneceremcalmos e serenos”. Quando Allende terminou de proferir essas palavras, três tanques Sherman eram posicionados no lado norte do La Moneda, enquanto seus comandantes aguardavam a ordem de atacar. Quatro caças a jato Hawker Hunter, carregados com foguetes Sura, tinham sido despachados para a capital, da cidade de Concepción, cerca de 520 quilômetros ao sul; a primeira missão dos seus pilotos era bombardear os transmissores das estações de rádio pró-governamentais. O presidente Allende deu nova ordem para que entrassem em contato com o general Pinochet, mas ele estava incomunicável. “Pobre Pinochet. Deve estar preso”, disse Allende. Uma testemunha desse episódio, o jornalista Carlos “Negro” Jorquera, que anos mais tarde trabalharia para mim no Ministério das Relações Exteriores, acredita que a preocupação de Allende com Pinochet fosse sincera. Naquela altura, o presidente ainda pensava que a insurreição se restringia a um setor da Marinha. “Problemas com a nossa Marinha outra vez, capitão”, disse Allende a seu ajudante de ordens da Marinha, o capitão Jorge Grez. O general Sepúlveda tentou falar com seus comandantes de polícia ao telefone. Conseguiu contatar alguns deles, mas ninguém parecia ter qualquer informação. Outro mau sinal foi que o subsecretário do Exército, coronel Rafael Venezuela, leal ao governo, acabava de ter sua entrada barrada no Ministério da Defesa. Às 8h42, duas estações de rádio ligadas aos rebeldes, Minería e Agricultura, transmitiram música marcial e o hino nacional, seguidos por uma mensagem oficial das Forças Armadas comunicando que se constituíra uma Junta Militar formada pelos comandantes em chefe do Exército e da Força Área, Pinochet e Leigh, pelo almirante José Toribio Merino e o general César Mendoza, que tinham assumido o comando da Marinha e dos Carabineros, respectivamente. Eles exigiam que o presidente Allende renunciasse de imediato. Não havia esperanças. As Forças Armadas não estavam divididas. Não havia tropa leal para socorrer o presidente. Allende reagiu falando à nação uma vez mais. “Eu não renunciarei”, declarou, desafiador. “Vou permanecer e informar a nação sobre a atitude absurda de soldados que se recusam a honrar seu juramento.” Os militares responderam secamente. “Se o La Moneda não for evacuado antes das 11 horas, será atacado por terra e pelo ar.”

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