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A sorte do agora – Matthew Quick

Prezado Sr. Richard Gere, Na gaveta de calcinhas da minha mãe, enquanto eu separava as peças de uso frequente das “pouco usadas” que poderia doar para o brechó local, encontrei uma carta que você escreveu. Como deve lembrar, a carta era sobre as Olimpíadas de 2008, realizadas em Pequim, na China, e você defendia um boicote por causa dos crimes e das atrocidades do governo chinês contra o Tibete. Não se preocupe. Não sou um desses “caras malucos”. Logo percebi que aquela era uma carta-modelo que você enviara para milhões de pessoas por meio de sua instituição de caridade, mas minha mãe fingia muito bem, a ponto de acreditar que você havia assinado a carta especialmente para ela, e deve ter sido por isso que a guardou — acreditando que você tocara o papel com as mãos, lambera o envelope com a língua —, imaginando que aquele papel representava um elo tangível com você… que talvez algumas de suas células, partes microscópicas do seu DNA, estariam com ela sempre que segurasse a carta e o envelope. Mamãe era a sua maior fã, e uma fingidora nata. “Veja, ele assinou de próprio punho”, lembro-me de ela dizer para mim, cutucando o papel com o indicador. “É do Richard Gere! Do astro de cinema RICHARD GERE!” Mamãe gostava de comemorar as pequenas coisas. Como encontrar uma nota de dólar amassada esquecida no bolso do casaco, ou quando não havia fila nos correios e os vendedores de selos eramsorridentes e educados, ou quando estava fresco o bastante para nos sentarmos do lado de fora de casa em pleno verão, uma época em que a temperatura costuma cair drasticamente à noite, mesmo que a meteorologia tenha previsto umidade e um calor insuportável. Dessa forma, a noite acabava se tornando um presente inesperado. “Venha desfrutar deste ventinho estranho, Bartholomew”, dizia mamãe. Então nos sentávamos do lado de fora e sorríamos um para o outro como se tivéssemos ganhado na loteria. Mamãe conseguia fazer pequenas coisas parecerem milagrosas. Esse era o talento dela. Richard Gere, talvez você já tenha rotulado minha mãe como esquisita e perturbada, como a maioria das pessoas. Antes de ficar doente, ela nunca engordou nem emagreceu, nunca comprou roupas novas e, portanto, ficou perpetuamente presa à moda de meados dos anos 1980. Tinha o cheiro da naftalina que guardava nas gavetas e no armário, e seu cabelo costumava ficar achatado no lado em que se deitava no travesseiro (quase sempre o esquerdo). Mamãe não sabia que impressoras podiam facilmente reproduzir assinaturas, porque ela era velha demais para usar a tecnologia moderna. Perto do fim, costumava dizer que “os computadores foramcondenados pelo livro do Apocalipse”, mas o padre McNamee me disse que isso não é verdade, embora pudéssemos deixar minha mãe acreditar que era. Nunca a vi tão feliz quanto no dia em que sua carta chegou. Como deve ter percebido, minha mãe não esteve muito lúcida durante seus últimos anos de vida, e, quando a demência extrema se estabeleceu, ficou difícil distinguir as fantasias de seus últimos dias do mundo real. Tudo ficou confuso com o tempo. Nos bons momentos — se dá para acreditar que houve —, minha mãe realmente pensava (fingia?) que eu era você, que Richard Gere estava morando com ela, cuidando dela, o que deve ter sido uma ótima alternativa para a verdade: seu filho normal e malsucedido era seu principal cuidador. “O que teremos para o jantar hoje à noite, Richard?”, perguntava ela.


“É um grande prazer finalmente poder passar tanto tempo com você, Richard.” Era como quando eu era criança e fingíamos estar jantando com um convidado famoso — Ronald Reagan, São Francisco, Mickey Mouse, Ed McMahon, Mary Lou Retton —, que ocupava uma das duas cadeiras na cozinha, sempre vazias, exceto quando padre McNamee vinha nos visitar. Como já disse, mamãe era uma grande fã sua — provavelmente você já se sentou à mesa da nossa cozinha, mas, para ser sincero, não me lembro de uma visita específica de Richard Gere durante minha infância. De qualquer modo, eu era condescendente e interpretava meu papel, então você se manifestava através de mim, mesmo eu não sendo tão bonito; portanto, eu era um substituto medíocre. Espero que você não se importe que eu o tenha representado sem sua permissão. Era uma coisa simples, que deixava minha mãe feliz. O rosto dela se iluminava como o show de luzes natalinas da loja Wanamaker’s toda vez que você nos fazia uma visita. Depois que a quimioterapia e uma cirurgia no cérebro falharam, após as ânsias de vômito que se seguiram, era difícil fazê-la sorrir ou ficar feliz com qualquer coisa. Por isso continuei com a brincadeira de você e eu virarmos nós. Tudo começou certa noite, após assistirmos a nossa velha fita de vídeo de Uma linda mulher, umdos filmes favoritos da minha mãe. Quando os créditos começaram a subir, ela deu um tapinha no meu braço e disse: “Agora vou para a cama, Richard.” Olhei para ela, que sorriu, quase maliciosa, como as meninas sensuais faziam com os lábios pintados e brilhantes quando eu estava no ensino médio. Aquele sorriso lascivo me deixou enjoado, porque eu sabia que significava problemas. Aquilo também não tinha a ver com minha mãe. Foi assim que comecei a morar com uma estranha. Perguntei: “Por que você me chamou de Richard?” Ela apoiou suavemente a mão na minha coxa e, com uma voz muito sedutora e cheia de juventude, respondeu, piscando: “Porque esse é o seu nome, bobinho.” Durante nossos trinta e oito anos de convivência, mamãe nunca tinha me chamado de “bobinho”. O homenzinho furioso que vivia no meu estômago golpeou meu fígado. Eu sabia que estávamos em apuros. “Mãe, sou eu… Bartholomew. Seu único filho.” Quando fitei seus olhos, ela parecia não me enxergar. Era como se estivesse tendo uma visão, vendo algo que eu não conseguia enxergar. Isso me fez pensar se minha mãe usara algum tipo de bruxaria feminina e, de algum modo, me transformara em você. De forma que nós — você e eu — tínhamos nos tornado um só na cabeça dela.

Richard Gere. Bartholomew Neil. Nós. Mamãe tirou a mão da minha coxa e disse: “Você é um homem bonito, Richard. É o amor da minha vida, mas não vou cometer o mesmo erro duas vezes. Você fez sua escolha, então vai ter que dormir no sofá. Vejo você de manhã.” Depois subiu a escada com certa leveza, movendo-se mais rápido do que vinha fazendo havia meses. Ela parecia em êxtase. Como os santos com halos retratados nos vitrais de São Gabriel, mamãe passava a impressão de ser guiada por uma divindade. Sua loucura parecia sagrada. Ela estava banhada em luz. Por mais desconfortável que essa mudança tenha sido, gostei de ver minha mãe iluminada. Feliz. E fingir sempre foi algo fácil para mim. Fingi a vida inteira. Além disso, havia a brincadeira da minha infância, então é claro que eu tinha prática. De algum modo — quem pode dizer exatamente como essas coisas acontecem? —, ao longo de vários dias e semanas, mamãe e eu acabamos caindo na rotina. Nós dois começamos a fingir. Ela fingia que eu era você, Richard Gere. Eu fingia que minha mãe não estava enlouquecendo. Fingia que ela não ia morrer. Fingia que não teria que enfrentar a vida sem ela. As coisas progrediram, como dizem. Quando ela acabou confinada ao sofá-cama da sala de estar, com uma bomba de morfina espetada no braço, eu fingia ser você vinte e quatro horas por dia, mesmo nos momentos em que mamãe estava inconsciente.

Isso me ajudava toda vez que eu fielmente apertava o botão da morfina e ela fazia uma careta. Para ela, eu não era mais Bartholomew, e, sim, Richard. Então decidi ser mesmo Richard e dar um merecido descanso a Bartholomew, se é que isso faz algum sentido para você, Sr. Gere. Bartholomew andava fazendo horas extras como filho de sua mãe havia quase quatro décadas. Bartholomew foi esfolado vivo emocionalmente, decapitado e crucificado de cabeça para baixo, assim como o apóstolo Bartolomeu, de acordo com várias lendas, mas apenas de forma metafórica no mundo moderno de hoje e agora. Ser Richard Gere era como apertar minha própria bomba mental de morfina. Eu era um homem melhor quando era você: mais confiante, mais controlado, mais seguro de mimmesmo do que jamais fui. Os funcionários do hospital colaboraram com a brincadeira. Eu os instruí com firmeza a me chamarem de Richard sempre que estivéssemos no quarto com minha mãe. Eles me olharam como se eu fosse louco, mas fizeram o que pedi, porque eram contratados. A equipe do hospital cuidava da minha mãe só porque era paga para isso. Eu não tinha qualquer ilusão de que aquelas pessoas se importavam com a gente. Elas consultavam o relógio do celular cinquenta vezes por hora e sempre pareciam muito aliviadas quando vestiam o casaco no fim do turno, como se nos deixar fosse o mesmo que ir a um lugar maravilhoso ou sair de um necrotério e entrar na festa do Oscar. Enquanto mamãe dormia, às vezes os funcionários do hospital me chamavam de Sr. Neil, mas sempre que ela estava acordada eu era você, Richard, e eles faziam o que eu pedia por causa do dinheiro que recebiam da seguradora. Chegavam até a usar um tom muito formal e reverente quando se dirigiam a nós. “Podemos fazer alguma coisa para que sua mãe fique mais confortável, Richard?”, perguntavam toda vez que ela estava acordada, apesar de nunca terem me chamado de Sr. Gere, o que não era um problema para mim, pois mamãe e você se tratavam pelo primeiro nome desde o início. Quero que saiba que minha mãe realmente gostava de assistir às Olimpíadas. Ela nunca perdia as competições — também costumava ver com a mãe dela — e isso lhe dava muito prazer, talvez porque nunca tenha saído da região da Filadélfia durante os setenta e um anos que passou na Terra. Ela costumava dizer que assistir às Olimpíadas era como tirar férias no exterior a cada quatro anos, mesmo depois de terem mudado os jogos de inverno e verão para anos diferentes, de forma que as Olimpíadas passaram a ocorrer a cada dois anos. Mas tenho certeza de que você já sabe disso. (Desculpe por ser redundante, mas estou escrevendo como Bartholomew Neil — alguém diferente de você de todas as maneiras imagináveis. Espero que tenha paciência comigo e perdoe minha banalidade.

Não estou fingindo ser Richard Gere enquanto escrevo. Sou muito mais eloquente quando sou você. MUITO. Bartholomew Neil não é nenhum astro de cinema. Bartholomew Neil nunca transou com uma top model. Bartholomew Neil nunca saiu da cidade onde você e eu nascemos, Richard Gere, a Cidade do Amor Fraternal. Infelizmente, Bartholomew Neil está ciente desses fatos. E Bartholomew Neil também não é um grande escritor, como você já deve ter percebido.) Mamãe adorava ginástica olímpica e, em particular, os homens de abdome trincado, que “se moviam como anjos guerreiros”. Ela batia palmas até ficar com as mãos rosadas toda vez que alguémfazia o movimento da cruz nas argolas. Era o seu favorito. “Forte como Jesus em seu pior dia”, dizia ela. Também via cada segundo das cerimônias de abertura e de encerramento. Mamãe assistia a qualquer evento olímpico que passasse na televisão. Mas quando recebeu sua carta — aquela que mencionei anteriormente — descrevendo as atrocidades cometidas pelo governo chinês contra o Tibete, minha mãe decidiu não assistir às Olimpíadas sediadas na China, o que foi um grande sacrifício para ela. “Richard Gere tem razão! Devíamos mandar um recado à República Popular da China! É horrível o que estão fazendo com o povo tibetano! Por que ninguém mais se preocupa com os direitos humanos básicos?”, disse ela. Devo admitir que, por ser muito mais pessimista, resignado e apático do que minha mãe, insisti inutilmente para que assistíssemos às Olimpíadas. (Por favor, me perdoe, Sr. Gere. Eu tinha pouca fé naquela época.) Falei que o fato de assistirmos ou não nem sequer seria documentado, muito menos teria qualquer impacto sobre as relações exteriores. “A China nem vai saber que não estamos assistindo! Nosso boicote será em vão!”, protestei, mas mamãe acreditava em você e na sua causa, Sr. Gere. Ela fez o que você pediu, porque o amava e tinha a fé de uma criança. No final das contas, também não assisti aos Jogos Olímpicos, o que inicialmente me deixou perturbado, pois essa era uma atividade mãe-filho tradicional na família Neil, mas faz um tempo que já superei isso.

Agora me pergunto se o boicote da minha mãe, a morte dela e o fato de eu ter encontrado a carta que você escreveu para ela… se talvez essas coisas signifiquem que você e eu devemos estar unidos de algum modo cósmico relevante. Talvez você esteja destinado a me ajudar, Richard Gere, agora que minha mãe se foi. Talvez tudo isso faça parte da visão dela, sua fé se concretizando. Talvez você, Richard Gere, seja o legado da minha mãe para mim! Talvez você e eu realmente devamos nos tornar NÓS. Para demonstrar ainda mais a sincronicidade de tudo isso (você já leu Jung? Eu já. Está surpreso?), mamãe vaiou impiedosamente os chineses em 2010 nos jogos de Vancouver — até mesmo os saltos e piruetas das patinadoras chinesas, que eram tão graciosas —, o que aconteceu pouco antes de eu ter começado a notar a demência dela, se não me falha a memória. Não aconteceu de repente. Teve início com pequenas coisas como esquecer os nomes das pessoas que encontrávamos quando saíamos, deixar o forno ligado durante a noite, não lembrar que dia era, se perder no bairro onde morou a vida inteira e perder os óculos com grande frequência, normalmente na própria cabeça, ou seja, pequenos lapsos cotidianos. (Mas ela nunca se esqueceu de você, Richard Gere. Ela falava com você-eu todos os dias. Outro sinal. Ela nunca esqueceu o nome Richard.) Para ser sincero, realmente não sei direito quando começou o declínio mental dela e também fingi não perceber por bastante tempo. Eu nunca fui particularmente bom com mudanças. E só decidi ceder à loucura da minha mãe e ser você bem depois. Sou lento para a dança, sempre estive atrasado para o baile cósmico, como pessoas mais sábias que nem você sem dúvida devem dizer. Os médicos me falaram que não era culpa nossa, que mesmo se tivéssemos levado minha mãe lá antes provavelmente as coisas teriam acabado da mesma maneira. Eles nos disseram isso quando ficamos agitados no hospital, quando não nos deixaram ver mamãe depois da operação e começamos a gritar. Uma assistente social conversou com a gente em uma sala particular, enquanto esperávamos permissão para ver nossa mãe. E, quando a vimos, as ataduras na cabeça dela a faziam parecer mumificada, e sua pele estava amarelada pela doença, era simplesmente horrível. A julgar pelos olhares de preocupação que os funcionários do hospital nos lançavam, estávamos visivelmente aterrorizados. Em nosso nome, a assistente social perguntou aos médicos se poderíamos ter feito algo mais para evitar que o câncer evoluísse, se havíamos sido negligentes. Foi quando os médicos nos disseramque não era culpa nossa, apesar de termos ignorado os sintomas durante meses, afastando os problemas das nossas vidas. Mesmo assim. Não foi culpa nossa.

Espero que acredite em mim, Richard Gere. Não foi culpa minha, nem sua. Você só mandou uma carta, mas ficou com a minha mãe até o fim: em sua gaveta de calcinhas e ao lado dela, através de mim, seu médium, sua encarnação. Os médicos afirmaram repetidas vezes que não poderíamos ter feito mais nada. O tumor cerebral em forma de lula que estendera profundamente seus tentáculos no cérebro da nossa mãe não era algo que pudéssemos prever nem derrotar. Foi isso que os médicos nos disseram diversas vezes, em linguagem tão simples e direta que até mesmo homens menos inteligentes poderiam compreender com facilidade. Não foi culpa nossa, Richard Gere. Fizemos tudo o que podíamos, inclusive fingir, mas algumas forças são poderosas demais para simples humanos. E a assistente social do hospital confirmou isso com um gesto de cabeça triste e relutante. “Nem mesmo um ator famoso como Richard Gere poderia ter fornecido um atendimento melhor para a sua mãe”, respondeu a assistente social quando mencionei você, compartilhando com ela minha preocupação por ser um fracassado, incapaz até de cuidar da própria mãe. Sendo que esse era meu único trabalho no mundo, o único objetivo que já tive. Fracassado miserável!, gritou o homenzinho no meu estômago. Retardado! Idiota! Faz só algumas semanas, mais ou menos, que o câncer em forma de lula no cérebro acabou com a vida da nossa mãe — um borrão extenso e breve (que se estende e se encolhe na minha memória) —, depois que a cirurgia e a quimioterapia não conseguiram curá-la. Os médicos pararam de tratá-la. Eles nos disseram: “É o fim. Desculpe. Tente mantê-la confortável. Aproveite ao máximo o seu tempo. Se despeça.” “Richard?”, sussurrou minha mãe na noite em que morreu. Só isso. Uma. Única. Palavra. Richard? O ponto de interrogação foi audível.

O ponto de interrogação me assombra. O ponto de interrogação me fez acreditar que toda a vida dela poderia ser resumida pela pontuação. Não fiquei chateado por mamãe ter dito sua última palavra para o Richard Gere você-eu imaginário, o que também incluía a mim, seu filho de carne e osso. Eu era Richard naquele momento. Na cabeça dela, e na minha. Fingir pode ajudar muito. Agora, apesar de ser inverno, ouvimos os pássaros pela manhã, quando nos sentamos sozinhos na cozinha para tomar café. (Devem ser pássaros da cidade, fortes e resistentes, sem medo de baixas temperaturas. Ou então aves preguiçosas demais para migrar.) Minha mãe sempre deixava a televisão aos berros, porque gostava de “ouvir as pessoas falando”, por isso eu nunca tinha percebido o canto dos pássaros. Trinta e nove anos nesta casa, e esta é a primeira vez que ouvimos o canto dos pássaros à luz do sol da manhã, enquanto tomamos nosso café na cozinha. Uma sinfonia de pássaros. Você já ouviu pássaros cantando? Ouviu realmente, de verdade? É tão bonito que chega a doer no peito. Minha conselheira de luto, Wendy, diz que preciso me esforçar para ser mais sociável e ter um “grupo de apoio” formado por amigos. Ela esteve aqui na minha cozinha certa vez, quando os pássaros cantavam pela manhã, e fez uma pausa no meio de uma frase, aproximou o ouvido da janela, estreitou os olhos e franziu o nariz. Então perguntou: “Está ouvindo isso?” Assenti. Ela deu um sorriso arrogante pouco antes de dizer naquela voz otimista de líder de torcida, como só uma pessoa muito jovem seria capaz de ter: “Eles gostam de ficar juntos, em bando. Percebe como estão felizes? Como estão alegres? Agora você precisa encontrar o seu bando. Deixar, finalmente, o ninho, por assim dizer. Até mesmo voar. Voar! Há muito céu lá fora para pássaros corajosos. Você quer voar, Bartholomew? Quer?” Ela disse todas essas palavras rapidamente, então ficou sem fôlego assim que terminou seu brado de estímulo. Seu rosto estava vermelho que nem o peito de um pintarroxo, como sempre fica quando ela está expondo o que considera ser um argumento extremamente notável. Ela me fitou com olhos arregalados — “kaleidoscope eyes”, como cantam os Beatles —, e eu sabia o que responder, sabia o que eu deveria dizer, o que a deixaria muito feliz, o que legitimaria sua presença na minha cozinha e a faria sentir como se seus esforços importassem, mas eu não podia dizer aquilo. Simplesmente não podia.

Eu me esforcei muito para manter a calma, porque parte de mim — o núcleo sombrio e malvado dentro de mim, onde vive o homenzinho furioso — queria agarrar os ombros de passarinho de Wendy e chacoalhar todas as sardas para que saíssem de seu lindo rosto juvenil, enquanto eu berrava comela, gritando com força suficiente para jogar seu cabelo para trás: “Sou mais velho do que você! Me respeite!” “Bartholomew?”, chamou ela, me olhando sob suas finas sobrancelhas alaranjadas, da mesma cor que as folhas secas na calçada. “Não sou um pássaro”, respondi com a voz mais calma que consegui naquele momento, e olhei fixamente para meus cadarços marrons, tentando permanecer imóvel. Não sou um pássaro, Richard Gere. Sei que já sabe disso, porque você é um homem sábio. Não sou um pássaro. Não sou um pássaro. Não. Sou. Um. Pássaro. Seu fã e admirador, Bartholomew Neil 2 AQUELE HOMEM ANDAVA COM PROSTITUTAS Prezado Sr. Richard Gere, A fim de sanar as lacunas no conhecimento coletivo que temos um do outro, fui à biblioteca e pesquisei sobre você na internet. Os frequentadores têm autorização para procurar qualquer coisa, exceto pornografia. Sei disso porque certa vez vi um sujeito (com dreads cinza que faziam sua cabeça parecer um agave morto e empoeirado) ser expulso da biblioteca por estar vendo pornografia na internet. Ele estava sentado ao meu lado, esfregando a genitália sob a calça jeans imunda e incrivelmente larga. Na tela havia duas mulheres nuas, de quatro, feito cães, lambendo o ânus uma da outra. Elas ficavam gemendo: “hummmm-assim!” e “hummmmm-aaaah-ISSO!”. Lembro-me de ter rido, porque era muito ridículo. Quer dizer, as mulheres agindo como cães, não o fato de o homem ter sido expulso. (As pessoas realmente gostam de ver mulheres se comportando dessa maneira? Acho difícil de acreditar, mas, se está na internet, deve existir um mercado para isso. E não só de frequentadores malucos de biblioteca, mas de pessoas com computadores em casa, onde essas exibições são permitidas.) Uma bibliotecária mais velha se aproximou e disse: “Isso não é apropriado. O senhor não pode se comportar dessa maneira aqui. É totalmente inaceitável! Existem regras, senhor. Senhor, por favor.

” O homem gritou com a bibliotecária, recusando-se a ir embora. Ele disse: “Não sou nenhum senhor! Eu sou um homem! H-O-M-E-M HOMEM! H-U-M-A-N-O SER H-U-MA-N-O!” Isso fez a velha bibliotecária dar um passo atrás. Ela não gostou do fato de ele ter soletrado para ela. A essa altura, todos na biblioteca tinham se virado e estavam olhando. Fiquei feliz que a Meninatecária não estivesse ali para ver. (A Meninatecária não teria sido capaz de lidar com a situação, e gosto disso nela. Ela age com uma belíssima lentidão. Pensa muito antes de se mexer. Certa vez eu a observei organizar livros que haviam sido danificados. Não tenho certeza, mas, com base nas minhas observações, supus que era seu trabalho decidir quais deveriam ser jogados fora e quais deveriam ser consertados e mantidos. A maioria das pessoas olharia de forma superficial e rapidamente daria um destino ao livro: direita ou esquerda, restaurar ou descartar. Mas ela examinava os livros com muito cuidado, analisando cada um deles como se fossem preciosas borboletas mortas que talvez ela pudesse fazer voar novamente, apenas sendo gentil o bastante. Durante três horas inteiras eu a observei do outro lado da biblioteca enquanto fingia ler o jornal. Era algo milagroso de se ver, até que uma das outras bibliotecárias apareceu e gritou com a Meninatecária por estar demorando muito. Ela disse: “Esses livros não foram encadernados com ouro, Elizabeth!” A Meninatecária estremeceu ao ouvir aquelas palavras e se escondeu atrás do longo cabelo castanho que cobre seu rosto, da mesma forma que uma cachoeira esconde a entrada de uma caverna misteriosa. A bibliotecária mais velha separou os livros restantes em menos de cinco minutos enquanto a Meninatecária observava através do cabelo com os ombros caídos. Vi a Meninatecária começar a mover as mãos para pegar vários livros à medida que eram jogados na pilha de descarte, mas ela conseguiu se conter e seus dedos não se afastaram mais de quinze centímetros das suas coxas cobertas de veludo branco. A impressão que dava era que a Meninatecária queria intervir e argumentar a favor de vários daqueles exemplares.) Você já reparou que muitas vezes as melhores pessoas do mundo não têm poder, Richard Gere? A China tem poder. O Tibete não tem poder. Está impressionado com minha pesquisa e meu conhecimento sobre sua causa favorita? Quando a polícia chegou, o homem da pornografia — que provavelmente era um sem-teto, porque cheirava a tripas de peixe apodrecendo dentro de uma bota de couro velha — balançou a cabeça diversas vezes, como se estivesse realmente consternado, até mesmo decepcionado, e então gritou: “Paguei impostos minha vida toda! Dezenas de vezes! Milhares de dólares. Eu já financiei o governo dos Estados Unidos, que é seu empregador! Você! E você! E você! Todos vocês são funcionários públicos! Servidores públicos. Vocês trabalham para a gente! Para as pessoas! Não o contrário. Eu sou seu chefe. Você! Você! VOCÊ!” Ele apontou o dedo indicador para todos os funcionários da biblioteca e para os policiais.

“Agora quero o que é meu por direito! Este é um país livre! Se quero ver pornografia, eu posso, porque é meu direito constitucional como cidadão americano. Pornô para todo mundo!” O sujeito esbravejou durante algum tempo, mencionando como os presidentes americanos adoravam sexo. O vestido manchado por Bill Clinton. Thomas Jefferson fazendo amor com suas escravas. JFK e Marilyn Monroe. Imediatamente, escrevi a maior parte daquilo no meu caderno, porque era interessante, real, espontâneo, mesmo que continue sem confirmação e, muito provavelmente, seja um exagero.

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