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A Sul. O Sombreiro – Pepetela

Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela, é um filho de puta. O maior filho de puta que pisou esta miserável terra. Pisou no sentido figurado e no próprio, pisou, esmagou, dilacerou, conspurcou, rasgou, retalhou. O filho de puta admito ser apenas no figurado, pois da mãe dele pouco sei, até dizem ter sido prendada senhora e de bem. Embora quem tal crocodilo deixou crescer no ventre pomba não deveria ser, afirmam os entendidos. Mas mereço eu, desgraçado padre, julgar o ventre de donas bem casadas? Ventres não se julgam, dão frutos, alguns podres. Sou sacerdote. De rito católico. A vida perigosa me fez assim. Talvez não o coração, mais de judeu. Entretanto, nestes pesados tempos dos bons reis Filipes de Espanha, quem quer ser judeu? Pior ainda, quem pode ser judeu? O meu prudente bisavô, de nascimento Jacob, mesmo antes de ser obrigado, mudou o nome de família para Oliveira e por isso me chamo Simão de Oliveira. Cristão-novo, marrano, pois claro. Mas poucos o sabem. E a minha ordem aceitou o ingresso e formou-me despachadamente, iam fazer mais como?, dada a falta de vocações religiosas entre as linhagens peninsulares, todas atraídas pela fortuna das Índias e do Brasil, para aí enviando os rebentos mais prometedores, os outros vegetando pelos paços. Ou nas ruas. Os superiores sempre conheceram as minhas origens, mas já não é crime ter proveniências hebraicas, crime é conservar as antigas lealdades de crença. Se acreditarmos em tudo que dizem. E eu sou como os outros todos, traímos a nossa religião milenar para guardar o pescoço, traímos o Deus do verdadeiro Livro para beijar os pés do deus pequeno do novo livro, o que fala de bondade, perdão e indulgência. Como se um Deus verdadeiro perdoasse as ofensas e não destruísse com um gesto cidades inteiras de pecadores. Como se um Deus verdadeiro fosse indulgente para os traidores, os idólatras, os ingratos, sem os transformar em estátuas de sal. Lá porque um desgraçado foi sacrificado numa cruz, se dizendo o filho dele, o pequeno deus das causas justas, já todos aceitaram a hipocrisia de rezar ao deus do amor para em terra praticaremas maiores atrocidades contra os seus semelhantes e dissemelhantes. Ao menos, o Deus verdadeiro dizia e obrigou a gravá-lo em fogo na pedra, quem com ferro mata com ferro morre, olho por olho, dente por dente. Assim é que é falar, nada de lamechices e perdões sem sentido, quem tem poder, poder a sério, sabe usá-lo com fúria, com rancor, sem perdão. Estarei a justificar por isso Manuel Cerveira Pereira, o brutamontes impiedoso? Dúvida insuportável. Não posso defender em público ideias religiosas tão perigosas como as que acabo de expor, apenas guardá-las nos recessos do silêncio temeroso, como fizeram o meu avô e o meu pai, esse dito agiota de Lisboa, com banca de penhores por baixo do castelo, banca herdada de avós e bisavós, escapando a todas as chacinas que se seguiram aos éditos dos reis católicos de Portugal, imitadores baratos dos da sangrenta Espanha, terminando os meus parentes por se prosternarem borrados de medo na Igreja de S.


Domingos, batendo com vigor no peito contrito. Na igreja onde antes os sacerdotes da mesma ordem incitaram ao ódio e vingança contra os nossos, provocando impavidamente a carnificina que se seguiu em Lisboa. Talvez então o meu bisavô tenha apontado um antigo companheiro que recusou mudar para a nova religião, quereis um judeu?, aí o tendes, o Isaac. Com efeito, não há famílias inocentes. Voltarei talvez a falar de massacres semelhantes e a propósito do objeto do meu ódio, Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela. Mas noutro ponto deste relato visceral, odiento, vingativo. E perplexo. Diz ele, Manuel Cerveira Pereira, ter nascido em Ponte da Barca, seja isso onde for no pequeno território junto da grande Espanha. Não tem real importância, mas mesmo esse detalhe, por mais insignificante que seja, pode ser falso. Tudo nele soa a falso. Quem me garante que não nasceu emArraiolos ou Alcaídes? Ou até na digníssima vila de Águeda, onde por contraste dois grandes homens virão a nascer, honrando a vila e o nome? Espero bem que tenha sido em Ponte da Barca, para não misturar o bolor com o pão velho. Garante ele ter nascido nessa ignota terra e não me interessa. Pode ser. Que se dane. Ele e a terra onde foi parido. E mais aquela onde vai morrer. Pois seu corpo, mesmo putrefacto de morto, pode contaminar a região pelo pus maléfico expelido dos seus tumores. Nada pior para a natureza que fluidos saídos de um mau corpo, ainda por cima empestado por alma ruim. Pena não ter ficado em Ponte da Barca antes de nascer. Um aborto que pouparia muitos trabalhos e maldades ao mundo. Um dos deuses não quis, ou o Verdadeiro ou o pequeno, que interessa? Inclino-me mais para o pequeno, só faz mal com sua intrínseca bondade, essa mania insana de salvar toda a gente do horror do pecado, como é morrer sem batismo. Mas já não fala o antigo judeu, antes o católico profissional. Porque isto de ser sacerdote católico em África é uma profissão rentável, um simples negócio, nunca uma devoção desinteressada. As devoções foram tragadas no tráfico de escravos. Pertenço à ordem dos franciscanos.

Pelo facto, nunca poderia ser o chefe da Inquisição emBenguela, se ela aqui estivesse instalada. Seria muito longo de explicar, nem eu sou o mais dotado para o fazer, mas a ordem dos dominicanos ganhou provisoriamente o combate mortal contra outras, em especial a dos jesuítas, esses quase heréticos que tentam o poder através da instrução, e contra a minha organização, feita de frades mendicantes e pobres. Bem, nem todos vivem das esmolas, sobretudo nesta terra fonte de escravos, sempre com possibilidades de negócios, mas quem se importa? A jogada dos jesuítas é boa, formam as elites e naturalmente ficam com a influência posterior. Quem é o indivíduo criado numa escola que depois a renega, ao ter de dividir as benesses políticas e patrimoniais? De facto, a Companhia de Jesus começa a gozar de grande influência em Luanda, por formar as suas elites, quer dos brancos quer dos mulatos ou negros. Mas também cria anticorpos. E nós, os outros, os iletrados, pobres, beneficiamos disso. Sobretudo os dominicanos, esses seres tortuosos por excelência e dados a ganhar as jogadas mais sujas nas travessas escuras. Todos os principais inquisidores peninsulares saem hoje dessa ordem, segundo dizem os mais instruídos. Uma forma de o papa equilibrar influências, pois a nossa ordem goza do amor bondoso dele e dos cardeais, mas para aí, fica só pelo amor brando, os benefícios vão para os outros. O aspeto feliz da coisa é que a Santa Inquisição não existe de forma oficial em Benguela. Nem no Congo ou Angola, os demais reinos ao norte. Isso implica menos espionagem sobre os nossos atos e pensamentos. No entanto, apesar da inexistência local do Santo Ofício, os relatórios que enviamos para o Vaticano são lidos atentamente e algumas acusações levam a processos encobertos. Embora os dos dominicanos pareçam mais credíveis aos olhos da Santa Sé, talvez por terem ganhado inexcedível experiência em venenosas denúncias, os nossos relatórios também lá vão fazendo o seu laborioso caminho. Tudo no maior sigilo, como se deve. Houve mesmo um bispo, bispando sem vergonha por partes de África mais perto de Marrocos, que foi chamado à Europa e aí condenado por não respeitar os sagrados ensinamentos da Madre Igreja, ficando com a cabeça a alguns metros do corpo. Curiosamente, não foi queimado na fogueira, como é hábito na sagrada casa, mas degolado. Por ser bispo? Há privilégios. Pelo meu lado, não tenho poderes para fazer decepar uma cabeça. As minhas exposições contra o criminoso que se diz nosso governador caíram até hoje em saco roto, foi preciso tomar providências locais. Infelizmente de resultado duvidoso. Mas estou a avançar no relato dos factos, inconveniente para a compreensão. Resumindo, o meu objetivo é retificar as insuficiências do Santo Ofício e aqui, em letras escritas com vagar e sacrifício, fazer justiça terrena e divina ao conquistador de corpos em nome do rei de Espanha e Portugal, Dom Filipe como o seu antecessor, denunciando o grande criminoso e pecador chamado Manuel Cerveira Pereira. Este fidalgo, muito certamente fidalgo de papel e não de sangue, pois o seu ruim mais parece o de um bastardo de bode com galinha, conseguiu por certas influências arrebatar o governo de Angola em 1603. Não por merecimento mas por falta de outro nobre e por ações torpes exercidas em nome do monarca, seu grande protetor.

Quem tem um rei como guarda-costas não precisa de para-vento. Tal honraria lhe subiu à cabeça de forma intempestiva, levando-o a cometer todo o tipo de despautérios, até mesmo troçar de símbolos sagrados. Vamos a alguns factos. Cerveira era apenas um capitão do exército, sem dúvida destemido e com uma boa folha de serviços, secundando um espanhol degredado, capitão-mor. O governador João Rodrigues Coutinho, com quem Manuel Cerveira Pereira veio de Portugal, morreu menos de dois anos depois de chegar, com as febres. Enquanto o rei não nomeasse outra chefia para a colónia de Angola, ficava o capitão-mor a despachar ou quem fosse escolhido pelos principais cabos de guerra, padres e conquistadores mais antigos. O novo governador mandava em pouco, pois a colónia era aquele arremedo de vila chamada de Luanda e mais um território ao longo do Kwanza que quase cabia na palma da mão. Mas o Cerveira ambicionava deitar as unhas sujas ao ridículo território, conquistado por se dizer haver imensas minas de prata no curso do rio. Moveu-se nas sombras. A uns dizia, como engolir isso, um rei espanhol e ainda mais um governante espanhol? E este candidato a governador não passa de um degredado, que tiraram da prisão porque mais gente não arranjamos para guerrear em África. A outros dizia cinicamente, temos de obedecer ao capitão-mor, apesar de ser espanhol e degredado por ter matado vinte pessoas inocentes. Para quem se dizia tão fiel partidário do rei Filipe e a favor do domínio castelhano sobre Portugal, tendo conquistado benesses por andar a beijar os cueiros do soberano na corte e a fazer guerras na Flandres com o duque de Alba, que ele chama de seu mestre eterno, estas afirmações só denotam mau caráter e hipocrisia. Até hoje não se descobriu como o capitão-mor apareceu apunhalado num ermo escuro, na subida da barroca, abraçado a um cato-candelabro, em Luanda. Para mim, foi Manuel Cerveira Pereira o mandante escondido no meio do exército de Massangano, mas, cala-te boca, só os mudos têm vida larga. Não possuo provas, no entanto, a quem aproveitou o homicídio? O assassinato do espanhol levou o Cerveira para o cargo de capitão-mor e portanto governador interino. A estória merece ser contada com alguns detalhes. O Manuel Cerveira nunca escondeu a amizade tecida com os hipócritas jesuítas, os verdadeiros chefes do território, passando no seu retiro maior parte do tempo ocioso de Luanda. Conspirando, evidentemente. Que sabe umjesuíta fazer quando não está na missa e nos velórios? Mesmo aí conspira. Contra Deus, contra o rei, contra os homens, até contra os cães pode conspirar. Pois bem. Mortos o governador Coutinho de doença no mato e em seguida o espanhol capitão-mor na vila de Luanda, um padre da Companhia de Jesus, Jorge Pereira de seu nome, logo se pôs aos gritos em Massangano dizendo que João Coutinho, antes de ir desta vida miserável, tinha deixado no seu escritório do presídio, fechado e lacrado, o nome do sucessor. E que este era Manuel Cerveira Pereira. Os capitães andavam todos agitados, disputando entre si e com os antigos conquistadores os despojos do extinto governador, que eram apetitosos, mas perante tal nome logo se acalmaram, calando despeitos e escondendo riquezas. Não se calaram por respeito, antes por temor.

Pois era conhecido o feitio irascível e desbragado do chefe designado pelos jesuítas. Maus tempos vinham e todos sabiam, ninguém era ingénuo. Mas cada um se pôs a jeito, ou para abrandar a pancada anunciada ou para estender a mão à fortuna corrupta. Manuel Cerveira Pereira, se já antes era façanhudo e tempestuoso, com o poder virou umanimal feroz e sedento, ao qual tudo era permitido. Eu estava então na vila de Luanda, hoje cidade, sei do que falo. Umas coisas vi, outras me foram contando na frescura dos claustros, no nosso tranquilo sítio, mais tarde convento, no final da Cidade Alta, onde a própria brisa do entardecer levava a ciciar notícias sigilosamente, nunca trombetear informações como um arauto antigo. As lições da brisa nunca se esquecem. Nem as dos claustros. 2 [Os claustros do convento de S. José dos franciscanos foram eliminados quando, no século XIX, deram origem ao hospital Maria Pia, hoje com outro nome oficial, mas continuando a ser um dos mais importantes de Luanda. Também o antigo colégio dos jesuítas cedeu o lugar ao arcebispado, mesmo colado ao palácio presidencial. No entanto, permaneceu a igreja de Jesus, a mais antiga de Luanda e com a fachada característica dos jesuítas. Tornou-se na sé da cidade já depois de 2000. Durante os séculos XVI e XVII, várias outras igrejas, conventos e edifícios públicos foram construídos no espigão entre a fortaleza de S. Miguel e o antigo convento dos franciscanos, constituindo o que até hoje se chama a Cidade Alta, atualmente como antes, o centro do poder político. Outrora também era o centro do poder religioso.] Quando Manuel Cerveira Pereira ascendeu, por merecimento ou intrigas religiosas, ao cargo de capitão-mor e portanto governador interino, ainda não existia o convento de S. José, apenas uma modesta ermida, e só no ano seguinte começariam as obras do colégio e igreja dos jesuítas. Que ele ajudou a edificar, tirando dos seus cabedais e sobretudo do erário público. Mas se tratava de obra meritória, acharam alguns dos mais neutros em partilhas de poder, porque os membros da Companhia de Jesus eram reconhecidos professores e homens severos. Aquela conquista de Angola estava tão periclitante desde o princípio que eram precisos homens de facto rígidos. Por isso também Cerveira Pereira foi aceite pelos colonos e conquistadores antigos e influentes, parecendo o mais inflexível e austero de todos. Alto e magro, trajava sempre de escuro, barba bicuda, cabelos longos mal aparados e bigodes a ficarem grisalhos mas empertigados e atrevidos. Andava muito direito, a cavalo ou a pé, puxando para a frente a fidalguia, uma espada reluzente batendo nas coxas. E a sua presença era sentida regularmente na primeira fila da missa dos jesuítas, dando a entender que conhecia todo o latim por trás do ritual.

Frequentara a corte por mérito próprio, costumava dizer. Os que dele duvidavam em breve tiveram de reconhecer, devia mesmo exercer algumas influências em Espanha. Talvez por ter combatido nas guerras que o pai de Filipe II e o próprio provocaram nos Países Baixos, províncias indefinidas que tanto eram holandesas como belgas. Servira diretamente o mais prestigiado cabo militar de Carlos V e Filipe II, o temido duque de Alba. E ouvira algumas considerações do Duque sobre como se governam impérios tão poderosos como a Espanha, representando um mundo complexo, dividido por nações e províncias variadas, governadas por soberanos austríacos, primos de todos os aristocratas da Europa. Nenhuma nação podia se gabar, o meu rei é do meu puro sangue. Os reis muitas vezes nem sequer falavam a língua do país governado. As coisas não se passavam como aqui em África, onde o chefe é sempre alguém conhecido por todos os responsáveis e comungando da mesma maneira de ver as coisas, e até dançando de forma semelhante. Aproveito assim a ocasião para meter solenemente minha farpa afiada, sejamos condescendentes com os modos e hábitos dos europeus, para não parecermos copiar a falta de compreensão e mesmo desprezo que sempre mostraram pelos nossos costumes. O próprio governador se dizia chocado, quando conversava entre amigos, pela nossa falta de educação, pois aqui o filho nunca herda do pai mas sim do irmão mais velho da mãe. E refilava, bando de selvagens, consideram mais próximo o tio que o pai. Estava portanto de acordo comas tentativas de impor no Kongo como reis os filhos de reis, o que só conseguiram com canhões e a pressão insuportável dos sacerdotes católicos sobre os aristocratas kongueses. Não compreendia, o sobrinho é de certeza do mesmo sangue do tio materno, enquanto o filho provémobviamente da mãe, mas qual a certeza no pai? Aceitamos, pois nasceu em casa de um homem e temos por princípio de vida que criança nascida num casal é filho do marido. Acabou. Mas podemos duvidar, quem sabe por onde a nossa mulher andou? Porém o tio é ciente, aquela criança que nasceu da sua irmã só pode vir do seu sangue, os três tendo origem na mesma mulher, a mãe do tio. Portanto o sobrinho deve ser seu herdeiro. Para os europeus fique a dúvida, nós temos sempre a certeza das nossas origens, nos baseando nas ligações familiares das nossas mães. Isso, os padres e os governadores portugueses nunca se esforçaram por compreender. Ou então tinham medo de compreender muito bem mesmo, e nunca aceitaram, por pôr em dúvida a sua própria paternidade. Com essas ideias e imposições iam enfraquecendo o Kongo, roendo-o por dentro como fazem os ratos ou a formiga salalé. E era esperança do governador enfraquecer da mesma maneira o vizinho reino dos Ngola. Se informara de muitos detalhes junto dos padres tendo vivido no Kongo e aí conspirando. Sempre estava atento a quempodia ensinar dicas lhe servindo nas suas ambições. Por isso preferia os da Companhia de Jesus, os melhores mestres. Andava matutando nestes mambos, enquanto percorria o areal vermelho fora da fortaleza, dois guardas armados atrás.

Decidira visitar o vigário, adjunto do bispo do Kongo, comsoberania religiosa sobre o reino de Angola. Precisava de percorrer quatrocentos metros, os quais eram dolorosos, por causa do calor de fevereiro a meio da tarde. Estava com alguma pressa, por isso enfrentava o suor gotejando do fato escuro de pano grosso e se aglomerando nas botas altas. Tinha feito mais de dois anos de campanhas militares no interior, mas era escusado, as bolhas de água não lhe largavam os pés. Bolhas que depois rebentavam em dores quase intoleráveis. Sabia, era de andar longas caminhadas com botas altas no calor sufocante. Os pés dançavam dentro das botas, afogados no suor acumulado no fundo delas, provocando as bolhas. O barbeiro já lhe tinha explicado, era questão de tempo. O certo é que gente chegada há apenas alguns meses já não se queixava e ele continuava sempre com as bolhas a dificultarem a marcha. Ninguém notava, pois era demasiado orgulhoso para mostrar alguma fraqueza e evitava coxear. Também não usava outro tipo de calçado, mais leve e fresco, como faziam os franciscanos. As botas de montar eram signo da sua condição de cavaleiro e acima de todas as dores devia sempre ficar a insígnia de nobreza. A humildade de andar descalço ficava bem ao peregrino e ao homem atormentado pelos seus pecados. E aos negros. Nunca a um fidalgo de sua majestade Filipe de Espanha. Só o barbeiro sabia do seu tormento, pois era também o cirurgião da tropa. O barbeiro conhecia outra coisa, explicada com o gume de uma navalha espetada no pescoço, se espalhasse a notícia das bolhas seria um homem morto. Manuel Cerveira Pereira não gostava de falinhas mansas, entrava logo a direito nos assuntos. Se contar a alguém, por mais íntimo e recatado que seja, mesmo ao seu confessor, eu saberei. E lhe espeto sem hesitar este punhal no pescoço. Portanto trate-me dos pés e feche a boca para sempre sobre este assunto. O que o apavorado barbeiro cumpria religiosamente, cada vez mais aterrorizado à medida que o tempo passava e o seu comandante não apresentava melhorias. Mais cedo ou mais tarde se voltaria contra o curandeiro, dado como incompetente ou até mesmo sabotador. O pobre barbeiro, habituado a encostar a navalha ao pescoço dos outros, já sentia o seu cortado pelo punhal do homem de preto. Claro, o governador usava o cavalo sempre que podia e evitava longas marchas pedestres.

Porém, bastava o calor apertar e os pés reclamavam. Ele tinha percorrido os pântanos salgados da Flandres e de França, tinha quase atravessado metade de Espanha e Portugal ao lado do cavalo, sem nunca ter tido problemas desses. Em África era um desgraçado. Mesmo no tempo mais fresco, indo de maio a setembro, as roupas pesadas e as botas grossas eram suficientes para o martirizarem. Por isso ainda tinha hesitado em sair para a visita ao vigário. A importância da missão obrigava-o. E não era conveniente convocar constantemente o padre à fortaleza. Apesar de duvidar do resultado, devia tentar as boas graças do sacerdote, já que o bispo escrevera para o Vaticano intrigando contra ele, o indevido captor do poder em Luanda, na opinião de sua eminência. De vez em quando podia convocar o vigário, mas semabusar. Um gesto de delicadeza só ficava bem, sobretudo tendo de solicitar um favor. O governador anterior tinha usado a casa de pau a pique perto da Companhia, a que mais tarde se chamaria palácio, muito sombreada por frondosas árvores, mulembas. Ele preferia dormir na fortaleza, entre os seus soldados, ao abrigo dos canhões. Ainda por cima, nunca tinha estado em Luanda senão por dias esparsos, sempre metido nas guerras do mato. Por um lado, na fortaleza controlava de perto a tropa. Por outro, beneficiava de proteção contra possíveis conspirações. Só não desconfia quem é santo. O vigário deu exageradas mostras de gratidão pela honra da visita. Manuel Cerveira Pereira fingiu não reparar na hipocrisia e respondeu ser normal fazê-lo. Ainda era novo na cidade, já tinha sido visitado por todos, seria a sua vez de retribuir as gentilezas. E trazia assuntos confidenciais para tratar. O seu gabinete na fortaleza garantia segurança, como é óbvio, no entanto preferira conversar com ele fora de portas. – De facto há dois assuntos. O primeiro, do padre Tomás Peres. Recebi cópia da corte, o rei não o quer cá. Penso que o senhor bispo terá recebido a notificação.

O vigário ficou admirado. Mais, pareceu subitamente receoso. – Desculpe, Vossa Excelência. Mas do Kongo não me informaram de nada. Talvez o senhor bispo ainda não tenha recebido as vontades de Sua Majestade. – Eu estava no interior do território, como sabe… – Obtendo grandes vitórias, como já tive ocasião de felicitar o senhor governador. Cerveira afastou com a mão os cumprimentos, em sinal de modéstia. De facto, não tinham sido pequenas vitórias. Depois de se tornar capitão-mor e governador em exercício, avançara contra o soba Kafuxi, um dos mais fortes e temidos nas cercanias de Kambambe, onde estavam as minas de prata. Derrotou-o em batalhas sucessivas. Com essa vitória, não só se aproximou das montanhas da prata, como fez milhares de escravos. E, importante consequência, mereceu o respeito do grande Ngola Kiluanji, pois o Kafuxi há muito recusava obediência ao rei do Ndongo. Agora os homens do governador construíam a fortaleza em Kambambe, para onde voltaria em breve, depois de despachar os assuntos que requeriam a sua presença em Luanda. Em seguida, era só apanhar prata. A maior parte para ele, uma pequena parte para o rei. Assim era o negócio. Já tinham andado a escavar e havia boas promessas. Trazia uns pedacitos de rocha no bolso, só para os sentir acariciarem a perna ao andar. Prazer quase tão sensual como roçar na coxa de uma mulher. – Sobre o padre Tomás Peres… – retomou Cerveira Pereira. – As ordens para o bispo no Kongo e a cópia para mim chegaram a Luanda no mesmo navio, o Albatroz. Daqui o barco seguiu para o Pinda. Até sei que já regressou ao reino. Portanto, é impossível que o bispo não tenha recebido as ordens. E é bem verdade que os bispos só devem responder perante o Sagrado Pontífice.

Mas, no fundo, todos conhecemos, são indigitados pelo rei. E são obrigados a seguir as orientações reais em tudo que diga respeito ao bom governo dos territórios. Eu não quero insistir. Porém, se tratando de um marrano… fica difícil esconder a presença de Tomás Peres nesta vila de Luanda. – Senhor governador, não sei de nada, a correspondência seguiu diretamente para o Kongo. Mas estou disposto, claro, a cumprir os desejos de Sua Majestade. Embora a ordem de embarque só possa ser dada pelo senhor bispo… – Sua Majestade mostra um grande desconforto por a maior parte dos sacerdotes aqui emAngola e no Kongo provirem da nação dos hebreus. Tem algumas dúvidas sobre a sua lealdade à verdadeira religião. Uns ficam mais escondidos, mas outros, como no caso de Tomás Peres… não há dúvida nenhuma, tem sangue judeu. E a mãe está na cadeia no Porto por ter sido apanhada em pleno culto de judiaria. Filho de judia, judeu é. Pelos documentos que recebi, não há sombra de uma dúvida. Por que razão o senhor bispo não cumpriu imediatamente a ordem de Sua Majestade e não o enviou pelo Albatroz? Ou outro barco que entretanto já seguiu? Estava de facto muito calor. No entanto, o sacerdote sufocava e se derretia em suor. De calor? De medo? De culpa? Cerveira estudava os olhos dele, sempre fugindo dos seus. Era uma caçada, uma luta contra um touro que se escondia sob a capa de uma raposa. Pouco importava, raposa ou touro, sentiu, tinha o bicho dominado. Se recostou na cadeira, mexeu o pé direito docemente dentro da bota, sentindo a dorzinha no meio do líquido. Este vigário também devia ser “da nação”, como eram denominados os judeus. Para chegar a vigário é porque tinha camuflado muito bem as origens. Não tivera tempo de se informar junto dos amigos da Companhia de Jesus, mas duvidava serem muito boas as relações entre eles e o vigário. Tinha sido nomeado pelo bispo, o qual, frei António de Santo Estêvão, ainda muito recente em África, franciscano, era feroz inimigo dos jesuítas. Por isso lhe dava prazer escarafunchar na ferida aberta, observar os pensamentos do vigário a serem refletidos pelos olhos fugitivos e atemorizados. Mal sabia que tinha olhos muito fáceis de ler por alguém perspicaz. – Senhor governador, se me der uma ordem, eu ponho o padre no primeiro barco.

Mas não seria melhor eu escrever ao senhor bispo primeiro pedindo autorização? Que acha? Vinha em missão de paz. Tinha um pedido a fazer. Portanto, uma concessão só parecia bem. Haveria muito tempo para investigar as origens do vigário e suas lealdades. Agora estava em posição de tudo saber sobre os habitantes da conquista, bastava pôr meirinhos a investigar, as pessoas adoravam contar os podres dos outros. E um governador age em consequência das informações, mas com toda a tranquilidade.

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