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A Supremacia Bourne – Robert Ludlum

Kowloon. A fervilhante extensão final da China que não é parte do norte, exceto em espírito… mas o espírito vai fundo e penetra pelas cavernas das almas dos homens, sem qualquer consideração pelos aspectos práticos, duros e irrelevantes das fronteiras políticas. A terra e a água são a mesma coisa, e é a vontade do espírito que determina como o homem as usará… outra vez sem qualquer consideração por abstrações como a liberdade inútil ou o confinamento de que se pode escapar. A preocupação é apenas com barrigas vazias, com as barrigas das mulheres, as barrigas das crianças. Sobrevivência. Não há mais nada. Todo o resto é estrume espalhado pelos campos inférteis. Era o pôr-do-sol, e tanto em Kowloon como no outro lado de Victoria Harbor, na ilha de Hong Kong, um manto invisível baixava gradativamente sobre o caos do dia no território. Os estridentes Aiyas! dos mascates das ruas eram abafados pelas sombras, enquanto negociações discretas nos níveis superiores das estruturas frias e imponentes, de vidro e aço, que marcavam a silhueta da colônia terminavam com acenos de cabeça e dar de ombros, e breves sorrisos de silenciosa aquiescência. A noite estava chegando, anunciada por um ofuscante sol laranja, penetrando por uma imensa, irregular e fragmentada muralha de nuvens a oeste — hastes bem definidas de energia inflexível, prestes a mergulharem além do horizonte, relutantes em permitirem que aquela parte do mundo esquecesse a luz. Em breve a escuridão se estenderia pelo céu, mas não por baixo. Ali, as luzes feéricas de invenção humana iluminariam o mundo com fulgor — essa parte do mundo em que a terra e a água são avenidas de acesso e conflito. E com o interminável e estridente carnaval noturno, outros jogos começariam, jogos que a raça humana deveria ter abandonado com a primeira luz da Criação. Mas não havia vida humana então… e assim, quem podia registrar? Quem sabia? Quem se importava? A morte não era uma mercadoria. Uma pequena embarcação, o potente motor contrastando com o exterior em péssimas condições, avançava em alta velocidade pelo Canal Lamma, contornando a costa, em direção ao porto. Para umobservador desinteressado, seria apenas mais uma xiao wanju, o legado ao primogênito de umpescador outrora insignificante que obtivera uma pequena fortuna… uma noite de sorte incrível no mahjong, haxixe do Triângulo, jóias contrabandeadas de Macau, quem se importava como? O filho poderia lançar suas redes ou transportar sua mercadoria com mais eficiência, usando um hélice veloz em vez da vela lenta de um junco ou o lento motor de uma sampana. Mesmo os guardas chineses da fronteira e as patrulhas marítimas ao largo das praias de Shenzhen Wan não disparavam contra aqueles transgressores de menor importância; nada significavam, e quem sabia quantas famílias alémdos Novos Territórios no continente poderiam se beneficiar? Podia ser até a família de um deles. As doces ervas das colinas ainda podiam encher as barrigas… talvez as deles mesmos. Quem se importava? Que viessem. E que fossem. A pequena embarcação com a lona Bimini envolvendo os dois lados da cabine de proa diminuiu a velocidade e ziguezagueou cautelosamente pela flotilha dispersa de juncos e sampanas, voltando aos apinhados atracadouros em Aberdeen. Uns após outros, os tripulantes dessas embarcações gritaram insultos irados para a intrusa, seu motor insolente e sua esteira ainda mais insolente. Mas todos se tornavam estranhamente silenciosos quando a agressiva intrusa passava; alguma coisa sob a lona reprimia as súbitas explosões de fúria. A embarcação disparou pelo corredor do porto, uma trilha de água escura, agora margeado pelas luzes brilhantes da ilha de Hong Kong à direita e de Kowloon à esquerda. Três minutos depois o motor de popa mudou de maneira audível para o registro mais baixo, enquanto o costado passava devagar por duas barcaças imundas atracadas, esgueirando-se para um espaço vazio no lado oeste do Tsim Sha-tsui, o apinhado e valorizado cais de Kowloon.


As hordas estridentes de mercadores, preparando suas armadilhas noturnas para os turistas, não prestaram a menor atenção; era apenas mais uma jigi voltando da pescaria. Quem se importava? Depois, como já acontecera com os tripulantes das embarcações no canal, as pessoas nos estandes mais próximos da insignificante intrusa, começaram a se aquietar. Vozes excitadas silenciaram, em meio a estridentes ordens e contra-ordens, enquanto os olhos eram atraídos para umvulto subindo a escada escura e oleosa para o píer. Era um homem santo. O corpo estava envolto por um cafetã branco, que acentuava a altura e a magreza… muito alto para um Zhongguo ren, talvez com mais de um metro e oitenta. Mas pouco se podia ver do rosto, pois a túnica era folgada e a brisa soprava o tecido branco pelas feições morenas, ressaltando o branco dos olhos… olhos determinados, olhos fanáticos. Qualquer um podia perceber que não era um sacerdote comum. Era um heshang, um eleito, escolhido pelos anciãos de muita sabedoria, que podiam perceber o conhecimento espiritual interior de um jovem monge destinado a coisas mais elevadas. E não fazia mal que um monge assim fosse alto e esguio, que tivesse olhos de fogo. Tais homens santos atraíam atenção para si mesmos, para a sua presença — para seus olhos —, e a decorrência era contribuições generosas, tanto por medo como por reverência; principalmente por medo. Talvez aquele heshang viesse de uma das seitas místicas que vagueavam pelas colinas e florestas de Guangze ou de uma fraternidade religiosa das montanhas da distante Qing Gaoyuan — descendentes, ao que se dizia, de um povo dos longínquos Himalaias —sempre muito ostentosos e a que geralmente se devia temer, pois poucos compreendiam os seus obscuros ensinamentos. Eram ensinamentos versados em suavidade, mas com insinuações sutis de agonia indescritível, caso suas lições fossem ignoradas. Havia agonia demais na terra e na água… quem precisava de mais? Assim, era melhor dar aos espíritos, aos olhos de fogo. Talvez ficasse registrado. Em algum lugar. O vulto de branco passou lentamente pelas multidões que se abriam à sua frente no cais, passou pelo congestionado píer da Star Ferry e desapareceu no crescente pandemônio do Tsim Sha-tsui. O momento passara, os estandes retomaram à sua histeria. O sacerdote encaminhou-se para leste, pela Salisbury Road, até alcançar o Peninsula Hotel, cuja elegância discreta estava perdendo a batalha contra o ambiente ao redor. Virou para o norte pela Nathan Road, seguindo até o começo da Golden Mile, a rua das ruas, exuberante, em que multidões opostas clamavam por atenção. Tanto os nativos quanto os turistas observavam o imponente homem santo em sua passagem pelas lojas apinhadas e vielas abarrotadas de mercadorias, discotecas de três andares e cafés eróticos, onde cartazes enormes e amadorísticos apregoavam os encantos orientais, por cima de estandes que ofereciam as iguarias fumegantes do dim sum. Andou por quase dez minutos pelo carnaval esfuziante, de vez em quando respondendo a olhares com ligeiros acenos de cabeça, duas vezes sacudindo-a com firmeza ao dar ordens para o mesmo Zhongguo ren baixo e musculoso, que alternadamente o seguia e depois o ultrapassava, com passos rápidos, que pareciam de uma dança, virando-se para contemplar os olhos ardentes à procura de um sinal. O sinal veio — dois bruscos acenos de cabeça —, e o sacerdote virou-se e passou pela entrada de cortina de contas de um cabaré ruidoso. O Zhongguo ren permaneceu do lado de fora, a mão discretamente por baixo da túnica folgada, os olhos correndo pela rua frenética, um lugar que não podia entender. Era uma insanidade! Uma afronta! Mas ele era o tudi; protegeria o homem santo com sua própria vida, por maior que fosse a agressão à sua sensibilidade. No interior do cabaré, as intensas camadas de fumaça eram cortadas por luzes coloridas errantes, a maior turbilhonando em círculos e se concentrando num palco elevado, onde um grupo de rock ululava num frenesi ensurdecedor, uma mistura incrível de punk e Extremo Oriente.

Calças pretas lustrosas, bem justas e malfeitas, tremiam vertiginosamente em pernas compridas e esguias, por baixo de blusões pretos de couro, sobre camisas brancas de seda abertas até a cintura, cada cabeça raspada, cada rosto grotesco, pintados, para acentuar seu caráter oriental essencialmente passivo. E como a enfatizar o conflito entre Oriente e Ocidente, a música dissonante parava de vez em quando, de maneira inesperada, e afloravam os acordes melancólicos de uma melodia chinesa simples, enquanto os vultos se enrijeciam sob o bombardeio turbilhonante dos refletores. O sacerdote permaneceu imóvel por um momento, contemplando a sala vasta e apinhada. Diversos fregueses, em graus variados de embriaguez, fitaram-no das mesas. Vários rolaram moedas em sua direção antes de se virarem para o outro lado, uns poucos se levantaram, largaram dólares de Hong Kong ao lado de seus drinques e se encaminharam para a porta. O heshang estava causando efeito, mas não o desejado pelo homem obeso, de smoking, que se aproximou dele. — Posso servi-lo em alguma coisa, Homem Santo? — indagou o gerente do cabaré. O sacerdote inclinou-se para a frente e sussurrou no ouvido do homem, pronunciando um nome. Os olhos do gerente se arregalaram, ele fez uma reverência e depois gesticulou para uma mesa pequena, junto à parede. O sacerdote acenou com a cabeça em agradecimento e acompanhou o gerente até a cadeira, enquanto os fregueses próximos olhavam, contrafeitos. O gerente inclinou-se e disse, com uma reverência que não sentia: — Gostaria de tomar algum refresco, Homem Santo? — Leite de cabra, se por acaso tiver. Se não, água pura será mais do que suficiente. E obrigado. — É um privilégio do estabelecimento. O gerente fez outra reverencia e afastou-se, tentando definir o dialeto lento e suave que não conseguia identificar. Mas não importava. Aquele sacerdote alto, de túnica branca., tinha negócios a tratar com o laoban, e isso era tudo o que importava. Chegara mesmo a pronunciar o nome do laoban, um nome raramente falado na Golden Mile. Naquela noite em particular, o poderoso taipan estava ali., numa sala que não admitiria publicamente conhecer. Mas não cabia ao gerente informar a o laoban que o sacerdote se encontrava no cabaré; o homem de túnica deixara isso bem claro. Insistira que naquela noite a priva cidade devia ser absoluta. Quando o augusto taipan desejasse recebê-lo, um homem viria encontrá-lo. E assim tinha de ser; era a maneira do discreto laoban, umdos mais ricos e ilustres taipans de Hong Kong.

— Mande um garoto da cozinha sair à rua para providenciar leite de cabra —ordenou o gerente asperamente ao responsável pelo andar. — E diga a ele para se apressar. A existência de sua fétida prole vai depender disso. O homem santo permaneceu sentado à mesa, passivamente, os olhos ardentes agora mais suaves, observando a atividade insensata, ao que tudo indicava sem condenar nem aceitar, mas apenas com a compaixão de um pai a contemplar filhos desgarrados. Abruptamente, através das luzes em movimento, houve uma claridade intrometida. A várias mesas de distância, um fósforo forte se acendeu e apagou. Depois outro e finalmente um terceiro, este último levantado para uma cigarrilha preta e comprida. A sucessão de clarões de fósforos atraiu a atenção do sacerdote. Virou a cabeça lentamente na direção da chama, fixando-se no chinês solitário, barbudo e rudemente vestido que se desenhava na fumaça. Os olhos se encontraram; o aceno de cabeça do homem santo foi quase imperceptível, mal chegou a ser um movimento? sendo correspondido por um gesto também quase indefinível, enquanto o fósforo se extinguia. Segundos depois, a mesa do fumante rudemente vestido pegou fogo, e as chamas se elevavam da superfície, espalhando-se depressa por todos os artigos de papel que ali estavam — guardanapos, cardápios, cestas de dim sum, em erupções isoladas de desastre em potencial. O desgrenhado chinês gritou e virou a mesa, com o maior estardalhaço, enquanto garçons corriam, berrando, na direção das chamas. Fregueses por todos os lados se levantaram, enquanto o fogo no chão — filetes de chamas azuis — inexplicavelmente se espalhava em torno dos pés a baterem. O pandemônio aumentou, enquanto as pessoas tentavam apagar as pequenas fogueiras com toalhas de mesa e aventais. O gerente e seus assistentes gesticulavam freneticamente, gritando que estava tudo sob controle, o perigo já passara. O conjunto de rock passou a tocar com uma intensidade ainda maior, tentando atrair a multidão de volta à sua órbita, afastando-a da área do pânico que já definhava. E, de repente, houve um distúrbio ainda maior, uma erupção mais violenta. Dois empregados do cabaré colidiram com o Zhongguo ren em trajes esfarrapados, cuja negligência e fósforos enormes haviam causado o incêndio. Ele reagiu com cuteladas rápidas de Wing Chun — as mãos rígidas acertando em omoplatas e gargantas — enquanto os pés acertavam em barrigas, jogando os dois shiji para cima dos fregueses ao redor. A agressão física aumentou o pânico, o caos. O corpulento gerente, agora gritando, tentou intervir e também caiu, atordoado por um pontapé bem colocado nas costelas. O Zhongguo ren barbudo pegou então uma cadeira e jogou-a contra os vultos que berravamperto do homem caído, enquanto três outros garçons se metiam na confusão, em defesa de seu Zongguan. Homens e mulheres que apenas poucos segundos antes se limitavam a gritar passaramagora a sacudir os braços, agredindo qualquer um e todos que estivessem próximos. O grupo de rock atingiu seu limite máximo, a dissonância frenética à altura da cena. O tumulto era total, e o atarracado camponês olhou para o outro lado da sala, na direção da mesa pequena junto da parede.

O sacerdote desaparecera. O Zhongguo ren barbudo pegou uma segunda cadeira e espatifou-a contra uma mesa próxima, depois sacudiu uma perna quebrada para a multidão. Não faltava muito agora, mas aqueles poucos momentos eram cruciais. O sacerdote passou pela porta do outro lado, na parede ao lado da entrada do cabaré. Fechou-a depressa, ajustando os olhos à semi-escuridão do corredor comprido e estreito. O braço direito estava rígido por baixo das dobras da túnica branca, o esquerdo estendido em diagonal pela cintura, também oculto pelo pano branco. No fim do corredor, a não mais que sete ou oito metros, um homem surpreso afastou-se abruptamente da parede, a mão direita enfiada sob o paletó para sacar, de um coldre invisível no ombro, um revólver enorme e de grosso calibre. O homem santo acenou com a cabeça, devagar, impassível, repetidamente, enquanto se adiantava, em passos graciosos, apropriados a uma procissão religiosa. — Amita-fo, Amita-fo — murmurou ele suavemente, várias vezes, enquanto se aproximava do homem. — Tudo é sereno, tudo é paz, os espíritos assim querem. — Jou matyeh? — O guarda estava ao lado de uma porta; empurrou a arma para a frente e acrescentou, no cantonês gutural de quem foi criado nos povoados do norte. — Está perdido, sacerdote? O que está fazendo aqui? Saia! Não pode entrar aqui! — Amita-fo, Amita-fo… — Saia! Agora! O guarda não teve qualquer chance. O sacerdote puxou, das dobras na cintura, uma faca de gume duplo, fina como uma navalha. Passou-a pelo pulso do homem, quase separando do braço a mão que empunhava a arma, e depois passou a lâmina, com precisão cirúrgica, pela garganta de seu oponente; ar e sangue esguicharam, a cabeça foi arremessada para trás, numa massa de vermelho brilhante. O guarda caiu ao chão, já um cadáver. Sem a menor hesitação, o sacerdote-assassino guardou a faca manchada de sangue na túnica e do lado direito tirou uma pequena metralhadora Uzi, o pente curvo com mais munição do que precisaria. Levantou o pé e lançou-o contra a porta com a força de um tigre das montanhas, depois correu para o interior, ao encontro do que sabia estar ali. Cinco homens — Zhongguo ren — estavam sentados em torno de uma mesa, com bules de chá e copos de uísque forte perto de cada um; não havia papéis escritos em qualquer parte, não havia anotações ou memorandos, apenas ouvidos e olhos vigilantes. E à medida que cada par de olhos se virou em choque, os rostos se contorceram em pânico. Dois negociantes bem vestidos enfiaram as mãos por dentro dos paletós impecáveis, enquanto giravam em suas cadeiras; outro se jogou sob a mesa, enquanto os dois restantes se levantavam de um pulo, gritando, e corriam inutilmente para as paredes forradas de seda, desesperados, rogando por um perdão, mesmo sabendo que não haveria nenhum. Uma saraivada implacável atingiu os Zhongguo ren. O sangue jorrou de ferimentos fatais, crânios foram crivados de balas, olhos perfurados, bocas dilaceradas, num vermelho intenso, emgritos sufocados de morte. As paredes, o chão e a mesa envernizada reluziam de maneira chocante, com a prova sangrenta da morte. Por toda parte. Estava acabado.

O assassino contemplou sua obra. Satisfeito, ajoelhou-se ao lado de uma poça grande e estagnada de sangue, e passou nela o indicador. Tirou um pedaço de pano escuro da manga esquerda e estendeu-o por cima do que fizera. Levantou-se e saiu correndo da sala, desabotoando a túnica branca enquanto atravessava o corredor escuro; a túnica estava inteiramente aberta quando chegou à porta de ligação com o cabaré. Removeu a faca do tecido e ajeitou-a na bainha à cintura. Unindo as dobras do tecido com uma das mãos, o capuz no lugar, a arma letal segura do lado, abriu a porta e passou para o caos ruidoso, que não apresentava qualquer sinal de diminuir. Mas também por que deveria ser diferente? Ele se ausentara por apenas trinta segundos, não mais do que isso, e seu homem era bem treinado. — Faai-di! — O grito partiu do camponês barbudo e atarracado de Cantão, a três metros de distância, que virava outra mesa e riscava mais um fósforo, largando-o no chão. — A polícia vai chegar a qualquer momento! O homem do bar acabava de pegar o telefone! Eu vi! O sacerdote-assassino tirou a túnica do corpo e o capuz da cabeça. Às luzes frenéticas, seu rosto era tão macabro quanto o de qualquer componente do grupo de rock. Uma maquilagem intensa contornava os olhos, linhas brancas definindo o formato de cada um, o rosto de um castanho anormal. — Siga na minha frente! — ordenou ele ao camponês. Largou a túnica e a Uzi no chão, ao lado da porta, depois tirou um par de finas luvas cirúrgicas e guardou-as na calça de flanela. Chamar a polícia para um cabaré na Golden Mile não era uma decisão tomada facilmente. Havia multas altas para administração insatisfatória, penalidades rigorosas pelos riscos para os turistas. A polícia conhecia esses riscos e agia rapidamente quando eles ocorriam. O assassino correu atrás do camponês de Cantão, que se juntou à multidão em pânico na entrada do cabaré, gritando para sair. O pequeno homem era um touro; os corpos à frente se afastaram sob a força de seus golpes. Os dois passaram pela porta e saíram para a rua, onde outra multidão se concentrara, gritando perguntas e epítetos, gozando o infortúnio do estabelecimento. Esgueiraram-se pelos espectadores excitados, e outro chinês baixo e musculoso, que esperava lá fora, acompanhou-os. Este pegou o braço do sacerdote sem hábito e levou-o para o mais estreito dos becos, onde tirou duas toalhas de baixo da túnica. Uma era macia e seca, a outra estava dentro de um plástico, quente, úmida e perfumada. O assassino pegou a toalha úmida e começou a esfregá-la no rosto, em torno dos olhos, pela carne exposta do pescoço. Virou a toalha e repetiu o processo, com pressão ainda maior, limpando as têmporas e a linha dos cabelos, até que a pele branca apareceu. Enxugou-se com a segunda toalha, alisou os cabelos escuros e endireitou a gravata por cima da camisa creme, sob o blazer azulmarinho.

— Jau! — ordenou ele a seus dois companheiros, que saí ram correndo e desapareceram no meio da multidão. E um ocidental solitário e bem-vestido saiu para a rua dos prazeres orientais. Dentro do cabaré, o nervoso gerente censurava o homem do bar por ter chamado a jing cha; as multas cairiam em sua cabeça de merda! Pois a comoção inexplicavelmente se desvanecera, deixando os fregueses aturdidos. Garçons acalmavam os fregueses, dando tapinhas em ombros e removendo os destroços da confusão, endireitando mesas, providenciando novas cadeiras e distribuindo doses grátis de uísque. O grupo de rock concentrou-se nas músicas modernas prediletas e a ordem foi restabelecida, tão depressa quanto fora abalada. Com um pouco de sorte, pensou o gerente de smoking, a explicação de que um barman mais afoito confundira um bêbado beligerante com algo mais grave seria aceitável para a polícia. E, de repente, todos os pensamentos de multas e pressão oficial se desvaneceram quando se olhos foram atraídos para um pano branco no chão, no outro lado da sala… diante da porta para as salas internas. Pano branco, um branco imaculado… o sacerdote? A porta! O laoban! A reunião! Respiração ofegante, o rosto coberto de suor, o obeso gerente correu entre as mesas até a túnica descartada. Ajoelhou-se, os olhos arregalados, prendendo a respiração ao ver o cano escuro de uma arma estranha saindo por baixo das dobras brancas. E o que o deixou sufocado, em seu terror que se avolumava, foi a visão de pequenas manchas e filetes finos de sangue lustroso e ainda não de todo seco no pano. — Go hai maiyeh? A pergunta foi feita por um segundo homem de smoking, só que sem o realce conferido pela faixa — na verdade, irmão do gerente e seu primeiro-assistente. E ele acrescentou uma imprecação, baixinho, enquanto o irmão recolhia a arma de aparência estranha na túnica manchada de sangue: — Oh, maldito seja o cristão Jesus! — Venha! — ordenou o gerente, levantando-se e encaminhando-se para a porta. — A polícia! — protestou o irmão. — Um de nós tem de esperar aqui, falar com os guardas, acalmá-los, fazer o que for possível. — Talvez não possamos fazer outra coisa que não oferecer as nossas cabeças! Depressa! A prova estava no corredor escuro. O guarda abatido estava caído num rio do próprio sangue, a arma empunhada por uma mão quase que totalmente cortada do pulso. E a prova se tornava completa e irrefutável na sala de reunião. Cinco cadáveres ensangüentados estavam espalhados ali, numa confusão terrível. Um deles, de forma específica, chocante, atraiu o interesse horrorizado do gerente. Aproximou-se do corpo e crânio perfurados. Com um lenço, limpou o sangue e contemplou o rosto. — Estamos perdidos — balbuciou ele. — Kowloon está perdida, Hong Kong está perdida, tudo está perdido. — Como assim? — Este homem é o Vice-Primeiro-Ministro da República Popular, sucessor do próprio Presidente. — Olhe aqui! O irmão primeiro-assistente estava inclinado sobre o corpo do laoban morto.

Ao lado do cadáver ensangüentado, crivado de balas, havia um lenço preto. Estava aberto, os arabescos brancos exibindo manchas vermelhas. O irmão levantou o lenço e descobriu aturdido o que estava escrito no círculo de sangue por baixo: JASON BOURNE. O gerente levantou-se de um pulo. — Grande Jesus Cristão! — exclamou ele, o corpo inteiro tremendo. — Ele voltou! O assassino está de novo na Ásia! Jason Bourne! Ele voltou! 2 O sol mergulhava por trás das Montanhas Sangre de Cristo, na região central do Cobrado, enquanto o helicóptero Cobra emergia ruidosamente da claridade intensa — uma gigantesca silhueta em movimento — e descia para o limiar da floresta na encosta. A pista de concreto ficava a várias dezenas de metros de uma casa grande e retangular, de madeira e vidro grosso. Além dos geradores e discos de comunicações camuflados, não havia qualquer outra estrutura à vista. Arvores altas formavam uma muralha compacta, escondendo a casa de todos os forasteiros. Os pilotos daqueles aparelhos extremamente manobráveis eram recrutados entre os oficiais superiores do complexo de Cheyenne, em Cobrado Springs. Nenhum deles tinha patente inferior à de coronel, e todos haviamsido submetidos ao crivo do Conselho de Segurança Nacional, em Washington. Nunca falavam de suas viagens ao refúgio na montanha; o destino era sempre eliminado dos planos de vôo. As instruções eram transmitidas pelo rádio depois que os helicópteros já estavam no ar. O local não constava de qualquer mapa público, e seu sistema de comunicações estava além do escrutínio de aliados e inimigos. A segurança era total; tinha de ser. Aquele era um lugar para estrategistas; seu trabalho era tão sensível e freqüentemente acarretava implicações globais tão delicadas que os planejadores não podiam ser vistos juntos fora dos prédios do governo ou mesmo lá dentro, jamais em salas contíguas com portas de ligação. Havia olhos hostis e inquisitivos por toda parte — tanto aliados como inimigos — que estavam a par do trabalho daqueles homens; se os observassem juntos, os alarmes disparariam no mundo inteiro. O inimigo era vigilante, e os aliados resguardavamciosamente os seus feudos de informações. As portas do Cobra se abriram. Uma escada de aço foi baixada e um homem obviamente aturdido desceu para a luz dos refletores. Estava acompanhado por um general-de-divisão. O civil era esguio, de meia-idade, estatura mediana, vestia um terno listrado, camisa branca e gravata estampada. Mesmo ao sopro forte das pás do rotor em desaceleração, seu aprumo impecável se manteve intacto, como se fosse algo muito importante para ele e que não podia ser afetado. Ele seguiu o general, subindo um caminho de concreto até uma porta no lado da casa. A porta foi aberta quando os dois se aproximaram.

Mas só o civil entrou; o general acenou com a cabeça, oferecendo uma saudação informal, que os militares veteranos reservam para os paisanos e oficiais do mesmo posto. — Foi um prazer conhecê-lo, Sr. McAllister — disse o general. — Será levado de volta por outro. — Não vai entrar? — Nunca estive aí dentro — respondeu o general, sorrindo. — Apenas me certifico de que é de fato a pessoa e a levo do Ponto B ao Ponto C. — Parece um desperdício para alguém do seu posto, general. — Provavelmente não é — comentou o militar, sem acrescentar qualquer outro comentário. — E agora tenho outros deveres a cumprir. Adeus. McAllister avançou por um corredor comprido, acompanhado agora por um homem corpulento, de rosto jovial, bem vestido, que apresentava todas as características externas de um agente da Segurança Interna — fisicamente ágil e competente, anônimo numa multidão. — Fez boa viagem, senhor? — perguntou o homem mais jovem. — E alguém pode fazer uma boa viagem numa coisa daquelas? O guarda riu. — Por aqui, senhor. Passaram por várias portas, nos dois lados do corredor, chegando à extremidade, onde havia uma porta dupla maior, com duas luzes vermelhas nos cantos superiores, esquerdo e direito. Eram câmaras em circuitos separados. Edward McAllister não via artefatos assim desde que deixara Hong Kong, dois anos antes… e mesmo então porque fora designado por um breve período para o MI-6 do Serviço de Informações britânico, Setor Especial, para consultas. Em sua opinião, os britânicos pareciam paranóicos em questões de segurança. Jamais compreendera aquela gente, especialmente depois que lhe concederam uma citação por lhes prestar um serviço mínimo, que eles já deviam para começo de conversa dominar por completo. O guarda bateu na porta, houve um discreto estalido e ele a abriu, dizendo: — Seu outro convidado, senhor. — Muito obrigado — agradeceu uma voz. O atônito McAllister reconheceu a voz no mesmo instante, de dezenas de noticiários de rádio e televisão, ao longo dos anos, as inflexões aprendidas numa escola preparatória exclusiva e diversas universidades de prestígio, com uma carreira de pós-graduação nas Ilhas Britânicas. Mas não houve tempo para se recompor. O homem de cabelos grisalhos, impecavelmente vestido, rosto alongado e vincado, que acusava os seus setenta e tantos anos, levantou-se de trás de uma mesa grande e atravessou a sala cautelosamente, com a mão estendida. — Que bom que tenha vindo, Sr.

Subsecretário! Posso me apresentar? Sou Raymond Havilland. — Sei quem é, Sr. Embaixador. É um privilégio conhecê-lo, senhor. — Embaixador sem pasta, McAllister, o que significa que só restou pouco privilégio. Mas ainda há muito trabalho. — Não posso imaginar qualquer Presidente dos Estados Unidos nos últimos vinte anos que tenha sobrevivido sem o senhor. — Alguns se confundiram, Sr. Subsecretário. Mas com sua experiência no Departamento de Estado, desconfio que sabe disso melhor do que eu. — O diplomata virou a cabeça. — Eu gostaria de apresentá-lo a John Reilly. Jack é um desses associados do Conselho de Segurança Nacional muito bem informados, sobre os quais não deveríamos ter qualquer conhecimento. Mas ele não é tão assustador, não é? — Espero que não — murmurou McAllister, atravessando a sala e indo apertar a mão de Reilly, que se levantara de uma das duas cadeiras de couro na frente da mesa. — Prazer em conhecê-lo, Sr. Reilly. — O prazer é meu, Sr. Subsecretário — disse o homem um tanto obeso, de cabelos ruivos e testa sardenta. Os olhos por trás dos óculos de aros de aço não transmitiam qualquer jovialidade; erampenetrantes e frios. Encaminhando-se para trás da mesa e indicando a cadeira vazia à direita para McAllister, Havilland disse: — O Sr. Reilly está aqui para cuidar que eu me mantenha na linha. Pelo que compreendo, isso significa que há algumas coisas que posso dizer, outras não, e umas poucas que só ele pode dizer. — O embaixador sentou. — Se isso lhe parece enigmático, Sr. Subsecretário, receio que seja tudo o que posso lhe oferecer a essa altura.

— O que aconteceu durante as últimas cinco horas, desde que recebi a ordem para me apresentar na Base Andrews da Força Aérea, tem sido um enigma, Embaixador Havilland. Não tenho a menor idéia do motivo pelo qual me trouxeram até aqui. — Pois então vou explicar, em termos gerais —disse Havilland, olhando para Reilly e inclinando-se por cima da mesa. — Está em condições de prestar um serviço extraordinário a seu país… e a interesses muito além deste país… superando qualquer coisa que possa ter feito durante a sua longa e notável carreira. McAllister estudou o rosto austero do embaixador, sem saber como responder. — Minha carreira no Departamento de Estado tem sido satisfatória e, espero, profissional, mas não pode ser classificada de notável, no sentido mais amplo da palavra. Para ser franco, as oportunidades nunca se apresentaram. — Há uma agora. E se encontra numa posição excepcional para realizá-la. — De que forma? E por quê? — O Extremo Oriente — respondeu o diplomata, com uma estranha inflexão na voz, como se a resposta constituísse uma indagação. — Está no Departamento de Estado há mais de vinte anos, desde que concluiu o curso de doutorado em Estudos do Extremo Oriente, em Harvard. Serviu a seu país de maneira louvável, passando muitos anos na Ásia. Desde que voltou de seu último posto, seus julgamentos foram extremamente valiosos na formulação da política para aquela parte conturbada do mundo. É considerado um brilhante analista. — Agradeço suas palavras, mas quero lembrar que havia outros na Ásia. E muitos outros, que alcançaram uma posição igual ou superior à minha. — Acidentes de percurso, Sr. Subsecretário. Vamos falar francamente: tem se saído muito bem. — Mas o que me distingue dos outros? Por que sou mais qualificado para essa oportunidade do que eles? — Porque nenhum outro se compara ao senhor como um especialista nos problemas internos da República Popular da China… creio que desempenhou um papel fundamental nas conferências comerciais entre Washington e Pequim. Além disso, nenhum dos outros passou sete anos em Hong Kong. — Raymond Havilland fez então uma pausa e depois acrescentou: — E, finalmente, nenhumoutro em nossos postos asiáticos jamais foi designado ou aceito pelo MI-Seis britânico, Setor Especial. — Ahn… — McAllister compreendeu que a última qualificação, que lhe parecia a menos importante, tinha um certo significado para o diplomata. — Meu trabalho no serviço de informações foi mínimo, Sr. Embaixador.

A aceitação do Setor Especial foi baseada mais em sua própria… desinformação; creio que é esta a palavra, do que em qualquer talento especial meu. Eles simplesmente acreditavam nos conjuntos errados de fatos e as somas não conferiam. Não levei muito tempo para encontrar os “dados corretos”, como me lembro que eles disseram. — Eles confiaram em você, McAllister. E ainda confiam. — Posso presumir que essa confiança é essencial para essa oportunidade, qualquer que seja? — Claro. É vital. — E posso agora saber qual é a oportunidade? — Pode sim. — Havilland olhou para o terceiro participante da reunião, o homem do Conselho de Segurança Nacional. — Se quiser… — Muito bem, é a minha vez — disse Reilly, um tanto afável. Deslocou o tronco enorme na cadeira e fitou McAllister, os olhos ainda rígidos, mas sem a frieza que haviam exibido antes, como se agora pedisse por alguma compreensão. — Nossas vozes estão sendo gravadas neste momento… é seu direito constitucional saber disso… mas é um direito bilateral. Deve jurar que vai manter em segredo absoluto as informações que lhe serão transmitidas aqui, não apenas no interesse da segurança nacional, mas também no interesse possivelmente mais amplo de condições mundiais específicas. Sei que tudo isso parece uma isca para aguçar seu apetite, mas não é essa a intenção. Estamos falando muito sério. Vai concordar com isso? Se violar o juramento pode ser processado em julgamento secreto, sob os estatutos de sigilo da segurança nacional. — Como posso concordar com uma condição dessas se ainda não tenho a menor idéia de qual é a informação? — Posso lhe oferecer uma idéia geral e será suficiente para responder sim ou não. Se a resposta for não, será levado de volta a Washington. Ninguém sairá perdendo. — Pode falar. — Muito bem. — Reilly falava em tom calmo e suave. — Vamos discutir determinados eventos que ocorreram no passado… não a história antiga, mas também não acontecimentos atuais. As ações foram repudiadas… enterradas, para ser mais preciso. Isso lhe parece familiar, Sr.

Subsecretário? — Sou do Departamento de Estado. Enterramos o passado quando não há qualquer sentido emrevelá-lo. As circunstâncias mudam, os julgamentos feitos de boa fé ontem podem se tornar um problema amanhã. Não podemos controlar essas mudanças, e o mesmo acontece com os russos e chineses. — É isso mesmo! — exclamou Havilland. — Ainda não — objetou Reilly, levantando a mão para o embaixador. — O subsecretário é evidentemente um diplomata experiente. Não disse sim nem não. —O homem do CSN tornou a fitar McAllister, os olhos por trás dos óculos de aros de aço outra vez penetrantes e frios. — Qual é a sua resposta, Sr. Subsecretário? Quer continuar ou prefere parar por aqui? — Uma parte de mim quer se levantar e sair daqui o mais depressa possível — respondeu McAllister, olhando alternadamente para os dois homens. — A outra parte quer ficar. — Fez uma pausa, os olhos se fixando em Reilly, depois acrescentou: — Quer tenha sido essa a sua intenção ou não, o fato é que meu apetite está aguçado

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