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A TABERNA DO PORTO – Georges Simenon

“… Porque é o melhor garoto da aldeia, e a mãe, que só tem a ele, morreria de tristeza. Tenho certeza, como todos aqui, que é inocente. Porém os marinheiros com quem falei acreditam que vão condená-lo, porque os tribunais civis nunca entenderam nada das coisas do mar. Faz tudo o que puderes; imagina que se trata de ti mesmo. Soube, pela imprensa, que te transformaste numa eminente personalidade da Polícia Judiciária e…”. Era uma manhã de junho. No térreo do Boulevard Richard-Lenoir, onde todas as janelas estavam abertas, Madame Maigret acabava de levar algumas grandes malas de vime, e Maigret, semcolarinho postiço, lia a meia voz. — De quem é? — De Jorissen. Fomos colegas de escola, e agora é professor em Quimper. Tens muita vontade de que passemos nossos oito dias de férias na Alsácia? Ao ouvir esta pergunta tão inesperada, ela o olhou, perplexa. Havia vinte anos que passavamas férias em casa de parentes, na mesma aldeia, no leste francês. — E se, desta vez, fôssemos ao mar? Releu, a meia voz, alguns fragmentos da carta: “… tu estás mais bem situado que eu para conseguir informações mais detalhadas. Em resumo, Pierre Le Clinche, um jovem de vinte anos, que foi meu aluno, embarcou, há três meses, a bordo do Océan, um barco de Fécamp que pesca bacalhau na Terranova. O pesqueiro regressou ao porto antes de ontem. Horas depois, descobriram o cadáver do capitão na doca e todos os indícios levam a pensar em assassinato. Prenderam Pierre Le Clinche…” — Descansaremos tão bem em Fécamp como em outro lugar — murmurou Maigret, sementusiasmo. Houve alguma resistência. Na Alsácia, Madame Maigret estaria rodeada pela família, e ajudava a fazer marmeladas e licor de ameixa. A ideia de alojar-se num hotel, à beira-mar, acompanhada de outros parisienses, a assustava. — Que farei durante todo o dia? Por fim, decidiu levar seus trabalhos de costura e tricô. — Acima de tudo, não me peças para tomar banho de mar. Aviso desde agora. Chegaram ao Hotel de la Plage às cinco e, imediatamente, Madame Maigret dedicou-se a reordenar o quarto, a seu gosto. Depois jantaram. E agora, Maigret, a sós, empurrava a porta de vidro esmerilhado de uma taberna de porto chamada “Rendez-Vous des Terres-Neuvas” Justamente, em frente à taverna, estava o pesqueiro Océan, amarrado no cais, próximo a uma fila de vagões.


À luz intensa das lâmpadas de acetileno que pendiam dos cordames, alguns homens descarregavam o bacalhau passando-o de mão em mão e o amontoavam nos vagões depois de pesálo. Eram dez os estivadores, homens e mulheres, sujos, esfarrapados, cobertos de sal. Diante da balança, um jovem muito asseado, com chapéu de palha ladeado sobre a orelha e uma caderneta na mão, anotava os pesos. Um cheiro rançoso e desagradável, que não diminuía ao afastar-se, infiltrava-se na taverna, onde se fazia mais penetrante, devido ao calor. Maigret sentou-se na extremidade livre de um banco. Na taverna, reinava alvoroço e agitação. Havia homens de pé, e outros sentados, com os copos sobre o mármore da mesa. Todos eram marinheiros. — Que vai tomar? — perguntou a garçonete. — Uma cerveja. O dono aproximou-se para cumprimentá-lo. — Já sabe que há outra sala ao lado para os turistas? “Esses” fazem tanto barulho — disse, e lhe piscou um olho. — Bom, depois de passar três meses no mar, compreende-se. — É a tripulação do Océan? — A maioria, sim. Os ouros barcos ainda não voltaram. Não dá para fazer-lhes muito caso, alguns tipos estão bêbados há três dias. Vai ficar aqui? Aposto que é pintor. De vez em quando aparece algum para tomar notas. Olhe! Um deles me fez um retrato. Veja, está ali em cima do balcão. Mas o comissário colaborava tão pouco com a conversa que o dono, desconcertado, afastouse. — Uma moeda de dez centavos de cobre! Quem tem uma moeda de dez centavos de cobre? — gritava um marinheiro, não mais alto nem maior do que um menino de dezesseis anos. Seu rosto, avantajado, era de feições irregulares. Alguns dentes estavam faltando. A bebedeira lhe fazia brilhar os olhos e uma barba de três dias lhe cobria as bochechas.

Deram-lhe uma moeda. Dobrou-a, pressionando com os dedos, meteu-a na boca e partiu-a com os dentes. — Vamos ver quem é capaz de imitar-me. Pavoneava-se. Sentia-se o centro da atenção geral e faria qualquer coisa para continuar sendo. Ao ver que um mecânico bochechudo agarrava uma moeda, disse-lhe: — Espera! Também tens que fazer isto — pegou um copo vazio, triturou-o com os dentes e mastigou o vidro, imitando a satisfação de um sibarita. — Ha! Ha! Quero ver quem faz! Sirva-nos uma rodada, Leon! Dirigia ao redor uns olhares cômicos que se detiveram em Maigret. Então, franziu o cenho. Por um instante, ficou perturbado. Depois, deu um passo, tão bêbado que teve que apoiar-se em uma mesa. — Veio aqui por minha causa? — perguntou, fanfarrão. — Não te iludas, P’tit Louis! — Outra vez a história da carteira? Escutem, amigos! Há um momento não queriam acreditar quando eu contava as minhas aventuras na Rue de Lappe. Pois bem, aqui tem um policial importante que se incomoda, de propósito, por este desgraçado. Posso toma-me outro copo? Agora, todos olhavam para Maigret. — Senta-te, P’tit Louis! Não sejas imbecil. E o outro rolava de rir: — A sério, me convida para um copo? Não! Não é possível! Me permitem, rapazes? O senhor comissário me convida a beber! Uma aguardente, Leon! — Estavas a bordo do Océan? Produziu-se uma mudança. P’tit Louis fechou-se. Parecia que sua bebedeira tinha desaparecido. Desconfiado, retrocedeu um pouco. — Sim. Por quê? — Por nada. À tua saúde! Faz muito tempo que estás bêbado? — Faz três dias que estamos celebrando! Desde que desembarcamos. Dei todo meu dinheiro a Leon: mais de 900 francos. Ainda me sobra alguma coisa. Quanto me sobra, Leon, velho patife? — Certo que não o suficiente para pagar as rodadas até amanhã.

Uns 50 francos. Imagine que desgraça, senhor comissário! Amanhã quando perceber que não tem um centavo, será obrigado a embarcar como foguista em qualquer barco. Sempre igual. E quero que conste que eu não o incentivo a consumir. Pelo contrário! — Cala-te! Os outros haviam perdido a animação. Falavam em voz baixa e se voltavam, sem parar, para a mesa do comissário. — Diz-me, P’tit Louis, são todos do Océan? — Todos, menos o gordo do boné, que é piloto, e o ruivo, que trabalha de carpinteiro no estaleiro. — Conta-me o que aconteceu. — Não tenho nada para contar. — Cuidado, P’tit Louis. — replicou Maigret. — Lembra-te da história da carteira, quando comias vidro na Bastilha. — Isso só significa três meses, e precisamente, necessito descansar um pouco. Se estiver bempara você, podemos ir embora em seguida. — Trabalhavas nas máquinas? — Claro que sim, como sempre. Era segundo foguista. — Vias com frequência o capitão? — Pode ser que, no total, o tenha visto duas vezes. — E ao telegrafista? — Não sei… — Leon, enche os copos. P’tit Louis soltou um risinho depreciativo. — Nem caindo de bêbado lhe diria o que não quero dizer. Mas, já que está aqui, você poderia pagar uma rodada aos amigos. Depois do desastre que tivemos na expedição. Um marinheiro que não teria vinte anos aproximou-se, astucioso, e puxou P’tit Louis pela manga. Os dois começaram a falar em bretão. — Que disse? — Que é hora de ir dormir.

— É amigo teu? P’tit Louis encolheu os ombros, e ao ver que o outro queria tirar-lhe o copo, bebeu tudo de um trago, a modo de desafio. O bretão tinha sobrancelhas espessas e o cabelo comprido e ondulado. — Senta-te conosco. — disse Maigret. O marinheiro não respondeu e foi sentar-se à outra mesa, sem deixar de olhar para os dois homens. A atmosfera era pesada e desagradável. Na sala ao lado, mais iluminada e mais limpa, ouviam-se alguns turistas jogando dominó. — Muito bacalhau? — perguntou Maigret, obstinado e implacável como uma broca. — Bah! Uma porcaria! Chegou meio podre. — Por quê? — Pouco sal. Ou muito! Uma porcaria. Semana que vem nem a terça pare dos homens tornará a embarcar. — O Océan zarpa, de novo? — Sim, claro! Para que serviriam os motores? Os veleiros só fazem uma expedição, de fevereiro a setembro. Mas os pesqueiros com motor tem tempo de ir duas vezes à pesca. — Tu voltarás? P’tit Louis cuspiu no chão e encolheu os ombros, desanimado. — Tenho tanta vontade de embarcar quanto de ir para a cadeia de Fresnes. Uma porcaria! — Que sabes do capitão? — Não tenho nada para dizer! Pegou uma bagana de cigarro e a acendeu. Teve náuseas, correu para a rua e vomitou, de pé, na beira da calçada; o bretão saiu atrás dele. — É um desgraçado! — lamentou o dono do café. — Antes de ontem, levava quase mil francos no bolso. E hoje falta pouco para dever-me dinheiro. Pede ostras e lagostas. E convida todo mundo a beber, como se não soubesse o que fazer com o dinheiro. — Você conhecia o telegrafista do Océan? — Dormia aqui. Costumava comer nesta mesa e depois ia escrever na outra sala, para estar mais tranquilo.

— Escreve a quem? — Não só cartas. Eu diria que eram versos ou novelas. Um rapaz instruído, bem educado. Agora que sei que você é da polícia, posso dizer que cometeram um erro com… — Apesar de tudo, o capitão foi assassinado. O dono encolheu os ombros e sentou-se diante de Maigret. P’tit Louis voltou, dirigiu-se ao balcão e pediu outro copo. Seu companheiro, falando em bretão, tentava acalmá-lo. — Não faça caso — continuou Leon — uma vez em terra s comportam assim, bebem, guincham, brigam, quebram vidro. A bordo, trabalham como escravos! Inclusive, P’tit Louis! Ontem, o chefe de máquinas me contou que P’titi Louis faz a tarefa de dois homens. Durante a travessia emalto mar, aconteceu um escapamento de vapor. Era um conserto perigoso e ninguém queria fazer, mas P’tit Louis tomou a frente. Contanto que não o deixe beber… — Baixou a voz e olhou sua clientela com desconfiança. — É possível que, desta vez, tenham mais motivos para uma grande bebedeira. A você não diriam nada, porque não é marinheiro. Eu, que fui piloto, ouvi falar de certas coisas. — Que coisas? Tentarei explicar. Suponho que você sabe que em Fécamp não há marinheiros suficientes para todos os pesqueiros e trazem alguns da Bretanha. Esses rapazes tem suas próprias ideias e são supersticiosos. — Baixou ainda mais a voz, mal se ouvia. — Parece que desta vez, alguém lançou uma maldição. E começou na hora de zarpar, ainda no porto. Um marinheiro estava empoleirado no mastro para despedir-se da mulher. Segurava-se num cabo que rompeu. Ele caiu sobre a coberta, comuma perna quebrada. Precisaram levá-lo para terra num bote.

Havia também um grumete que chorava e gritava que não queria ir. Pois bem! Três dias depois, telegrafaram do barco dizendo que uma onda o tinha arrastado. Era um menino de quinze anos, pequeno e magro, com um nome quase feminino: Jean-Marie. E quanto ao resto… Julie, sirva-nos um copo de Calvados. A garrafa da direita. Não! Essa não! A com a tampa de vidro. — A maldição continuou durante a travessia? — Não sei nada de concreto. É como se todos tivessem medo de falar. Mas a polícia prendeu o telegrafista, porque ouviu falar que, durante toda a viagem, ele e o capitão não se falavam. Pareciam cão e gato! — E o que mais? — Murmuram coisas, mas isso nada significa. Por exemplo, o capitão obrigou-os a estender as redes numa zona onde jamais se pescou um bacalhau. E ficou muito zangado porque o chefe de pesca negou-se a obedecer. Chegou a pegar o revólver. Todos estavam como enlouquecidos. Em um mês, não recolheram nem uma tonelada de pescado! Depois, de repente, entrou uma boa quantidade de peixe. Entretanto, tiveram que vender o bacalhau pela metade do preço, porque estava mal preparado. E mais ainda! Ao entrar no porto, uma das lanchas foi a pique por causa de duas manobras mal feitas.Como se lhes tivesses lançado uma maldição! O capitão mandou todo mundo para terra, sem deixar ninguém de guarda. Ficou sozinho a bordo, já à noite. Às nove, a tripulação estava aqui, embebedando-se. O telegrafista subiu ao quarto e depois saiu. Viram quando se dirigiu ao barco. — Então ocorreu drama. Um pescador que saía do porto para ir para casa ouviu alguma coisa caindo ao mar. Largou a correr e se juntou a um guarda da alfândega que encontrou pelo caminho; acenderam lanternas e encontraram um corpo no cais, preso pela corda da âncora do Océan.

Era o capitão, e estava morto. Aplicaram respiração artificial, mas foi inútil. Ninguém entendeu, porque não havia passado nem dez minutos na água. O médico explicou o por que: ao que parece, tinha sido estrangulado antes de cair na água, compreende? Encontraram o telegrafista em seu camarote. Pode vê-lo daqui, é o camarote que está atrás da chaminé. Chegaram os policiais para revistas o quarto e encontraram papéis queimados. Você entende alguma coisa? — Dois Calvados, Julie! À sua saúde! P’tit Louis, cada vez mais excitado, colocou uma cadeira entre os dentes e, entre os marinheiros, levantava-a horizontalmente, desafiando Maigret com o olhar. — O capitão era daqui? — perguntou o comissário. — Sim. Um tipo curioso, um pouco mais alto e fornido do que P’tit Louis. E sempre educado e amável, muito elegante. Creio que nunca veio à taberna. Não era casado. De modo que se alojava na Rue d’Etretat, na casa de uma viúva; o marido tinha sido funcionário da aduana. Dizia-se, inclusive, que isso acabaria em casamento. O capitão Fallut, assim se chamava, fazia quinze anos que ia a Terranova, sempre para a mesma companhia. A Morue Française. Vai ser difícil, agora, para o Océan voltar a pescar. Está sem capitão e metade da tripulação não quer embarcar. — Por quê? — Oh, não tente compreender. A maldição, como lhe disse. Terão que desmontar o barco e deixá-lo no cais até o ano que vem. Além disso, a polícia pediu à tripulação que se mantenha a disposição. — Prenderam o telegrafista? — Sim. Levaram-no ontem à noite, com algemas e tudo isso.

Eu estava na porta… Serei sincero: minha mulher ficou com os olhos cheios de lágrimas. E não é que fosse um cliente extraordinário, não. Eu lhe fazia um bom preço. E ele quase não bebia. Um barulho repentino os interrompeu. P’tit Louis havia se atirado sobre o bretão, certamente porque este tentava fazê-lo parar de beber. Os dois rolavam pelo chão. Os outros apartaram. Maigret os separou, levantando-os, literalmente, do chão e segurou cada um com uma mão. — Quê? Queremos briga? O incidente durou pouco. O bretão, que tinha as mãos livres, tirou uma navalha do bolso, mas o comissário o viu justo a tempo de atirá-la a dois metros de distância com um chute. O sapato bateu no queixo do bretão, que começou a sangrar. P’tit Louis, cambaleante e bêbado, abaixou-se sobre o companheiro e começou a chorar pedindo perdão. Leon aproximou-se de Maigret com o relógio na mão. — Já é hora de fechar. Senão, vem os policiais. Todas as noites se repete a mesma história: é impossível tirá-los daqui. — Dormem a bordo do Océan? — Sim. A menos que, como aconteceu ontem com dois deles, não fiquem atirados na calçada. Encontrei-os esta manhã ao abrir a porta. A garçonete recolhia os copos das mesas. Os homens saíam em grupos de três ou quatro. Só P’tit Louis e o bretão não se mexiam. — Quer um quarto? — perguntou Leon a Maigret. — Obrigado, mas estou instalado no Hotel de la Plage.

— Ouça… — Diga-me. — Não é que eu queira dar-lhe um conselho, porque isto não me concerne. Mas gostaria de dizer que eu sentia carinho pelo telegrafista. Pode que não seja um mau sistema aquele de “cherchez la femme”, busque a mulher, como dizem nos livros. Eu ouvi falar de coisas desse tipo. — Pierre Le Clinche tinha uma amante? — Ele? Oh, não! Tinha namorada em sua aldeia e todo dia escrevia uma carta de seis páginas. — Então, quem? — Não sei de nada. É possível que seja mais complicado do que parece. E, além disso… — Além disso? — Nada! Seja razoável, P’tit Louis! Vá dormir! P’tit Louis estava muito bêbado. Lamentando-se, abraçava seu companheiro, cujo queixo continuava sangrando e ele pedia perdão. Maigret saiu com as mãos nos bolsos e o pescoço encolhido porque fazia frio. Ao chegar ao hotel, viu no vestíbulo uma jovem sentada numa poltrona de vime. Um homem levantou-se de outra poltrona e sorriu para o comissário com certo constrangimento. Era Jorissen, o professor de Quimper. Como fazia quinze anos que não via Maigret, não sabia se devia tratá-lo por “tu”. — Desculpe-me! Desculpe-me! Eu… Senhorita Léonnec e eu acabamos de chegar. Eu o procurei em todos os hotéis e me aqui me disseram que tu voltarias em seguida. É a namorada de… Pierre Le Clinche. Fez questão de vir. Era uma jovem alta, um pouco pálida e algo tímida. Entretanto, quando Maigret apertou-lhe a mão, compreendeu que sob a aparência de provinciana, coquete e circunspecta, ocultava-se uma vontade poderosa. Não falava. Estava impressionada, tanto quanto Jorissen que se tornara um simples professor, enquanto seu colega havia se convertido num dos chefes mais importantes da Polícia Judiciária. — Mostraram-me Madame Maigret no salão. Mas não me atrevi a… Maigret contemplava a jovem, que não era nem feia nem bonita, mas de uma simplicidade bastante comovedora.

— Você sabe que ele é inocente, não é? — acabou por articular, sem olhar para ninguém. O porteiro do hotel esperava que acabassem de falar para ir deitar-se. Já desabotoara o casaco. — Falaremos disso amanhã. Tem um quarto? — Sim, deram-me um quarto contíguo ao seu… ao teu… — Tartamudeou, confuso, o professor de Quimper. — A senhorita Léonnec está um andar acima. Eu tenho que ir embora pela manhã, por causa dos exames. Acreditas que tu…? — Amanhã. Falaremos disso amanhã. — repetiu Maigret. Enquanto se deitava, sua mulher murmurou semiadormecida: — Não te esqueças de apagar a luz. 2 Os sapatos amarelos Caminharam sem olhar-se ao longo da praia, que estava deserta a estas horas, e depois pelos molhes. Pouco a pouco, os silêncios se fizeram mais raros. Marie Léonnec falava quase comnaturalidade. — Imediatamente, simpatizará com ele. Não pode ser de outra maneira. E então, você entenderá que… Maigret lhe dirigia olhares ao mesmo tempo curiosos e admirados. Jorissen tinha voltado a Quimper ao nascer do dia, deixando a jovem sozinha em Fécamp. — Não insistirei para que ela me acompanhe. A senhorita Léonnec tem muito temperamento. — disse ele. Na véspera, ela havia se comportado como uma moça bem educada em uma tranquila cidade pequena. Pela manhã, há menos de uma hora, ela e Maigret haviam deixado o hotel. Maigret mostrava-se muito arisco, mas ela não se deixava impressionar; parecia não acreditar na atitude do comissário e lhe sorria com confiança. — Seu único defeito — seguia dizendo — é sua suscetibilidade.

Mas, como poderia ser de outra maneira? Seu pai era só um pescador e sua mãe remendou redes durante muito tempo para poder pagar-lhe os estudos. Agora, ele a mantém. É muito culto e lhe espera um futuro brilhante. — Seus pais, ao contrário, são ricos? — perguntou bruscamente Maigret. — São donos da loja mais importante de cordas e cabos. Por isso, a princípio, Pierre não queria nem falar com meu pai. Víamos-nos às escondidas por um ano inteiro. — Eram muito jovens? — Ele tinha 18 anos, recém completados. Eu falei, por fim, com meus pais. E Pierre jurou que não se casaria comigo até que ganhasse, pelo menos, dois mil francos por mês. Já vê que… — Ele lhe escreveu alguma carta depois que foi preso? — Uma só, e muito curta. Ele, que me mandava todos os dias, páginas e páginas. Disse que, para meu bem e de meus pais, era melhor que eu anunciasse na aldeia que não há nada entre nós. Passavam perto do Océan; seguiam descarregando bacalhau e o barco, devido à maré alta, dominava o cais com seu casco negro. No castelo do navio, três homens com o torso desnudo se lavavam e, entre eles, Maigret identificou a P’tit Louis. Surpreendeu um gesto: um dos marinheiros tocou o ombro de outro, mostrando Maigret e a jovem. O comissário franziu o cenho. — Ele o faz por delicadeza, entende? — prosseguia a voz, ao seu lado. — Está consciente da dimensão que pode adquirir um escândalo em uma pequena localidade como Quimper. Quis me devolver a liberdade. — A manhã era límpida. A jovem com sua roupa de casaco cinza, parecia uma estudante ou professora. — Se meus pais me deram permissão para vir aqui, é porque eles tambémconfiam nele. Entretanto, meu pai preferia que me casasse com um comerciante. Maigret a fez esperar um longo tempo na antessala da delegacia de polícia.

Ali, o comissário anotou alguns dados do caso. Meia hora depois, os dois entraram na cela. Maigret mal humorado, com as mãos atrás das costas, o cachimbo fortemente apertado entre os dentes e inclinado para trás, apoiava-se num canto da cela. Havia avisado às autoridades que não se ocupava oficialmente da investigação e de que só a seguia por curiosidade. Várias pessoas já lhe haviam descrito o telegrafista, e a imagem que havia feito correspondia exatamente ao rapaz que tinha diante dos olhos. Era um jovem alto e magro, com uma roupa correta, ainda que amarrotado, e o olhar sério e tímido, típico do aluno primeiro da classe. Tinha algumas manchas debaixo dos olhos e o cabelo cortado à escovinha. Sobressaltou-se quando abriram a porta. E quando a jovem se aproximou, ele não se moveu. Ela teve que arrojar-se em seus braços e ficar à força neles, enquanto ele lançava ao redor olhares perdidos. — Marie…? Quem te…? Como…? Estava extremamente perturbado. Mas não era um homem dos que se alteram com facilidade. As lentes dos óculos estavam manchadas e lhe tremiam os lábios. — Não tinhas porque vir aqui. Espiava Maigret, a quem não conhecia, e depois olhava para a porta que tinha ficado entreaberta. Não usava colarinho, nem cordões nos sapatos, mas sim uma barba avermelhada de vários dias. Apesar dos fatos, tudo isso o incomodava. Tocava com mal estar o pescoço desnudo, o pomode-adão saliente. — Por acaso, minha mãe…? — Não, não veio, mas ela também não acredita que sejas culpado. A jovem não conseguiu expressar sua emoção. Era como uma cena frustrada, talvez por causa da crueza da atmosfera. Olhavam-se sem saber o que dizer, procurando as palavras. Marie Léonnec mostrou Maigret. — É um amigo de Jorissen. É comissário da Polícia Judiciária e aceitou ajudar-nos.

Le Clinche titubeou em estender-lhe a mão e, no fim, não chegou a fazê-lo. — Obrigado. Eu… A entrevista era um fracasso absoluto, e a jovem, que se dava conta disso, tinha vontade de chorar. Tinha suposto que um encontro patético convenceria Maigret. Olhava para o namorado com despeito e com uma pitada de impaciência. — Tens que contar-lhe tudo que possa ser útil para tua defesa. Pierre Le Clinche, estranho e inibido, suspirou. — Só quero fazer-lhe algumas perguntas — interveio o comissário — toda a tripulação disse que durante a viagem, suas relações com o capitão foram mais do que frias. Entretanto, quando zarparam, não havia problemas entre os dois. A que se deu esta mudança? O telegrafista abriu a boca, calou-se e contemplou desolado o chão. — Questões de serviço? Ainda nos dois primeiros dias você comeu com o segundo oficial e com o chefe das máquinas, depois preferiu comer com a tripulação. — Sim, eu sei. — Por quê? E Marie Léonnec, ansiosa, interrompeu: — Fala de uma vez, Pierre. Tenta salvar-te. Tens que dizer a verdade! — Eu não sei. Parecia tão debilitado e passivo, como desesperançado. — Discutiu com o capitão Fallut? — Não. — Mas viveu com ele três meses no mesmo barco sem dirigir-lhe a palavra. Todo mundo se deu conta. Alguns, inclusive, insinuam que, em determinados momentos, Fallut parecia ter ficado louco. — Não sei. Marie Léonnec, nervosa, conteve os soluços. — Quando o Océan chegou ao porto, você desceu à terra com os outros. Ao chegar ao quarto, queimou alguns papéis. — Sim.

Não tinham importância. — Você tem o costume de anotar num diário tudo o que vê. Foi o diário da viagem que queimou? Le Clinche continuava de pé, cabisbaixo, como um escolar que não sabe a lição e que olha para o chão com expressão teimosa. — Sim. — Por quê? — Já não sei. — Também não sabe por que voltou a bordo logo em seguida? Viram quando se escondeu atrás de um vagão, a uns 50 metros do barco. A jovem, cada vez mais desconcertada, olhou o comissário, depois o namorado e de novo ao comissário. — Sim. — O capitão cruzou a passarela e alcançou o cais. Nesse momento o atacaram. Seguia calado. — Responda-me, diabo! — Sim, responda, Pierre! É para teu bem. Não entendo, não… — As lágrimas se acumulavam nas pálpebras. — Sim. — Sim, o quê? — Eu estava ali. — E viu alguém? — Não pude vê-lo bem. Havia muitos barris e vagões. Dois homens brigavam e depois umdeles fugiu enquanto um corpo caía na água. — Como era o que se foi? — Não sei. — Estava vestido como marinheiro? — Não. — Então sabe como estava vestido. — Quando passou perto de um poste, vi somente uns sapatos amarelos. — Que fez depois? — Subi a bordo. — Por quê? E por que não foi socorrer o capitão? Sabia que estava morto? Seguiu-se um silêncio tenso. Marie Léonnec, angustiada, juntava as mãos.

— Fala de uma vez, Pierre! Fala, por favor! Ouviram-se passos no corredor. O guarda avisou que o juiz de instrução esperava Le Clinche. A namorada quis beijá-lo. Depois de vacilar, ele a abraçou lentamente, com ar ensimesmado. E não a beijou na boca, mas apenas na gaze rosadas das têmporas. — Pierre! — Não devias ter vindo! — replicou ele franzindo o cenho enquanto a seguia vigilante, comos passos cansados. Maigret e Marie Léonnec alcançaram a saída sem falar. Uma vez fora, ela suspirou, com tristeza: — Na verdade, não entendo — mas, erguendo a cabeça, completou: — De todo modo, estou certa de que é inocente. Não o compreendemos porque jamais estivemos numa situação parecida. Está preso há três dias, todo mundo o acusa! É muito tímido! Ainda que estivesse bastante desanimada, o entusiasmo que colocava nas palavras enternecia Maigret. — Apesar de tudo, fará algo, não é? — perguntou ela. — Com a condição de que você regresse a sua casa em Quimper. — Não! Isso não! Escute, permita-me que… — Então, vá à praia. Insta-se ao lado de minha mulher e procure manter-se ocupada. Tenho certeza de que ela terá algum trabalho de bordado para você. — Que pensa fazer? Crê que essa pista dos sapatos amarelos… As pessoas se voltavam para olhá-los, porque Marie estava tão agitada que parecia que brigavam. — Repito-lhe que farei tudo o que puder — disse Maigret. — Olhe! Siga essa rua e chegará ao hotel de la Plage. Diga a minha mulher que talvez me atrase e vá comer bastante tarde. Deu meia volta e dirigiu-se para o cais. Seu ar ranzinza havia desaparecido. Quase sorria. Ficara com medo de ter que assistir a uma cena demasiado dramática na cadeia: lamentos veementes, lágrimas, beijos, mas havia sido bem diferente, de um modo ao mesmo tempo mais simples, agudo e significativo. Gostara do jovem precisamente por sua atitude distante e concentrada. Ao passar na frente de uma loja, encontrou-se com P’tit Louis, que levava um par de botas de borracha na mão.

— Aonde vais?

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