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A talentosa Highsmith – Joan Schenkar

Ela não era legal. Raramente era educada. E ninguém que a conhecesse bem diria que era uma mulher generosa. Patricia Highsmith era — além de uma artista marginal (outsider) de talento excepcional —como o negativo de uma velha fotografia, com todas as partes pretas, brancas, e todas as brancas, pretas. Diana Cooper disse o mesmo sobre Evelyn Waugh. “Eu não vejo as coisas assim. Nunca verei. Simplesmente não enxergo assim”, Pat Highsmith escreveu em 1942 aos 21 anos, com toda a franqueza possível. Falar com sinceridade era um hábito comum para ela, e o que não via era a maneira como as outras pessoas pintavam o mundo. Então, na acidez de sua obra impregnada de detalhes, ela desenvolveu sua própria imagem de um mundo alternativo — o País Highsmith. Um território psicologicamente tão ameaçador que mesmo seus leitores mais devotados esperavam nunca se reconhecer naquelas páginas. Seu lento rastejar literário sobre a superfície das coisas produziu um personagem simbólico, o talentoso Ripley, e centenas de retratos ásperos de atos transgressores. O fulgor tóxico de suas pegadas continua brilhando muito depois de sua autora — tão cruel com suas personagens como Henry James com os dele — despachar seus executores para as mortes ficcionais mais asquerosas. A própria morte de Highsmith foi um modelo de eloquência. Ela mandou uma última e devotada visitante para fora de seu quarto no hospital — “Vá embora, vá embora, não fique aqui, não fique aqui”, repetiu até a mulher sair — e depois morreu sem ninguém por perto.[1] Tudo que se referisse ao humano era estranho para ela. Colidindo com a cultura popular americana como um daqueles trens expressos onde suas personagens sublimemente indiferentes faziam muitas de suas (e dela) execuções casuais, Pat Highsmith — uma garota de 29 anos inteligente, original e muito sedutora, cheia de assassinatos na cabeça — viu seu primeiro romance, Pacto sinistro (1950), ser adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock em 1951. O livro apresentava o que seria a situação mais típica de Highsmith: dois homens ligados psicologicamente pela fixação de perseguir um ao outro, uma fixação que sempre envolvia uma fantasia perturbadora e homoerótica implícita. Nada poderia ser mais americano. Seu segundo trabalho, sob pseudônimo, Carol (1952), foi tão marcado por suas obsessões secretas que escrevê-lo foi quase um parto. “Ah, Deus”, ela se entusiasmava, “como eu pari essa história de dentro de mim!”[2] Nela, Pat Highsmith misturava imagens remanescentes dos contos de fadas dos irmãos Grimm e de Lolita (três anos antes de Nabokov publicar sua obra-prima) com uma atmosfera de insensatez e uma vaga pedofilia, para dar a um público ávido e (levemente) iludido o romance que foi a primeira narrativa popular de um caso bem-sucedido de amor lésbico. Carol vendeu milhares de cópias e foi um incômodo para a autora pelo resto da vida. E sua carreira estava só começando. Há uma avalanche de informações disponíveis sobre Patricia Highsmith, e a parte mais útil delas — se algumas correções necessárias forem feitas — é oferecida por ela própria. Fascinada pelos esconderijos em geral (caramujos eram seu molusco preferido) e silenciando sobre sua complicada vida particular (“Eu não respondo a perguntas pessoais sobre mim ou outra pessoa”), ela, no entanto, repetia o defeito fatal que atrapalhava cada um de seus “heróis-criminosos”, exceto Tom Ripley: esquivava-se de tudo o que podia.


A autoexposição impiedosa em seus diários e cadernos — um tanto comprometida pelos sorrisos frios que lançava à posteridade enquanto os redigia — preservou para nós o que é provavelmente a mais longa trajetória transgressiva na história da literatura americana. Com teimosia, religiosamente e em oito mil páginas de um trabalho que não mostrou para ninguém, ela registrou seus estados de espírito, a cor do cabelo de suas namoradas, a qualidade de um relacionamento passado, o custo do café da manhã em um hotel de Paris, o número de recusas que tinha recebido de editores, os pagamentos, os medos, as falsidades — bem como milhares de páginas de notas para contos, romances, poemas e textos críticos. Ela falava o que sabia (mas de jeito nenhum tudo o que sabia)[3] e num tom radicalmente mais direto e franco do que o lento, vulgar e constrangedor murmurar psicótico que tendia a usar em sua ficção. Ela facilita ao máximo ficarmos impressionados com seus romances, incomodados com seus preconceitos, chocados com seus crimes passionais, escandalizados com a manifestação corrosiva de seus ódios. Mas o longo depoimento no banco das testemunhas que eram seus cadernos, e também no painel de jurados e na cadeira de juiz que são seus diários, são muito mais reveladores do que qualquer coisa que tenha sido escrita ou dita sobre ela. Na sua adolescência e juventude, Pat leu obsessivamente, usando os livros, ela dizia, como uma “droga”.[4] Mas “ser influenciada”, para ela, significava ler os escritores que confirmavam seus próprios instintos. Inspirada por Dostoiévski (mas não do jeito que se diz sobre ela: metade de sua atração pelo trabalho do russo estava na luta dele com o cristianismo, que, como ela escreveu, “era mais excitante, perigosa e terrível do que qualquer história de assassinato que ele já inventara”),[5] Pat Highsmith também era atraída pelas psicocategorias mais cruas de Karl Menninger e Richard von Krafft-Ebing. E topou com algumas de suas mais fortes confirmações no trabalho de escritores homossexuais.[6] Foi Proust, além de tudo, quem escreveu que a neurose oferece o enredo da vida, e o próprio enredo de Pat, bem como o da maioria de suas personagens, estava calcado na repetição. Ela fazia as mesmas coisas infinitas vezes. Para variar, tentava fazê-las todas ao mesmo tempo. Em sua ficção e nos seus afetos, Patricia Highsmith, como todos os artistas obsessivos, girava ao redor das mesmas coordenadas, dos mesmos desgostos, das mesmas inspirações. Cada um de seus casos amorosos tinha vários pontos de contato com os outros. (A dedicatória do manuscrito de Pacto sinistro foi para “todas as Virginias”, porque ela havia dormido com muitas mulheres chamadas Virginia; depois, maliciosamente, mudou a dedicatória na versão impressa para “todas as virginianas”). Todos os seus romances têm temas parecidos. Nenhum escritor provou as dores ou sofreu os prazeres da repetição mais do que ela. Nada nesses procedimentos de trabalho torna Highsmith um bom tema para uma biografia cronológica e tradicional. Uma linha do tempo traçada a partir de sua infância de “órfã com pais” emFort Worth, Texas, até o seu concorridíssimo funeral em Tegna, na Suíça, que contou com a presença de diversas celebridades, não pode sequer servir de ponto de partida para se entender as perversidades que pairam com persistência nas bordas de sua escrita ou as fascinantes atitudes dúbias cravadas no centro de sua vida artística. A memória emocional era o que iluminava o trabalho de Pat e obscurecia seus dias, e essa raramente usa um relógio ou anda em linha reta. A “verdade” da vida de Pat — as guinadas, as reviravoltas e os giros intensamente excêntricos que tornam sua cabeça quase mapeável e seu trabalho sempre reconhecível — fica mal representada pelas longas enumerações de datas e horas, pelas listas sisudas de compromissos e aparições, pelo significado sisudo de anamnese médica que fazem de uma biografia cronológica uma leitura convencional e confortável. Exceto em suas aspirações, Pat Highsmith nunca foi uma mulher convencional — e nunca, jamais, uma escritora convencional. Pat usava suas listas de datas e dados de maneira defensiva, como os trilhos de um trem onde punha para funcionar seu valente Motorzinho de Ambição e Realização rumo a um futuro brilhante, no qual — por ter sempre tentado ser uma mulher prática — havia muito tinha deixado de acreditar. A cronologia era uma de suas maneiras preferidas de “se perder”.[7] Ela a empregava para se divertir fazendo algo que continuava a valorizar: seguir “em frente” com seus livros.

E então ela registrava as horas, os dias e os anos de sua vida — e media, pesava e contabilizava tudo. Mas o Tempo — esse professor cruel, cujos alunos nunca saem vivos da aula — não tinha muito a ensinar a Pat Highsmith. Nem sua escrita, nem sua forma de viver “se desenvolveram” ou “amadureceram”. (Oscar Wilde disse que somente os medíocres se desenvolvem.) Ela era o que era desde o início: dona de um ódio implacável pelo padrasto desde os três anos e meio, percebendo a própria sexualidade aos seis, e a “traição” que alterou sua vida aos doze. Sua imaginação ficou marcada do mesmo jeito. “A heroína”, a história que escreveu aos doze sobre uma jovem criada problemática que coloca fogo em uma casa para “salvar” a criança de quem cuidava, era tão completamente desenvolvida (e tão boa) que ela a enxergava como a “maldição” que ofuscou seu trabalho nos dez anos seguintes. Virginia Woolf, cujo romance As ondas Pat uma vez quis imitar, chamava a biografia de uma “arte impura e bastarda” e reconhecia que a melhor maneira de contar uma vida “seria separar os dois tipos de verdade”: a “casca” (os fatos) e o “átomo” (a vida interior do sujeito). Deveria haver, segundo Woolf, uma lista dos fatos colocados “em ordem” e então deveria aparecer a “vida”, escrita como “ficção”.[8] Entre sua convicção de quais forças obscuras em seu “sangue” dirigiam sua vida (e quais forças ainda mais obscuras em seu subconsciente formatavam sua arte) e suas tentativas de controlar essas forças fazendo listas, diagramas e uma contabilidade compulsiva, Pat Highsmith tentava a sobrevivência dos dois tipos de “verdade” de Virginia Woolf a cada dia. Na vida ou na arte, o País Highsmith sempre precisava de organização. Era rara uma carta de Highsmith que não viesse com um mapa, uma lista ou vários e intrincados cálculos envolvendo números no meio dos textos. E tanto Pat como seus duplos ficcionais tinham como diversão especial projetar gráficos: eles desenhavam e pintavam, planejando prédios e livros, colecionando arte (e também copiando-a) e ordenando a vida com listas. Apesar de sua mente sempre trabalhar por intensas e repetitivas associações, os olhos de Pat e suas imagens moviam-se por superfícies comuns e se envolviam com formas e volumes arquitetônicos. Em muitos de seus romances, ela construía as casas “fortes” que desejava na vida — e então enfrentava o desafio ficcional de mobiliá-las. Ela gostava de prestar atenção nos utensílios, equipamentos e enfeites de diferentes tipos de trabalho, e algumas de suas objeções às mulheres vinham de sua fascinação por ferramentas e atividades. “Para mim é difícil compreender as mulheres porque elas não trabalham”, escreveu.[9] Mais do que tudo, porém, ela adorava formular — e meditar sobre — mapas, gráficos, planos, listas e diagramas. Por isso, a história de sua imaginação não pode ser contada sem eles. Assim, inspirada tanto por Virginia Woolf como por Patricia Highsmith, tentei colocar os aspectos sólidos de Pat — que Virginia Woolf teria chamado de “casca” — nos apêndices deste livro. Ali você vai encontrar “apenas os fatos”, a primeira cronologia inteiramente anotada de sua vida e obra. As páginas de datas, lugares e épocas são “a matéria de capa” de Pat. Ali está também a “Nova York de Patricia Highsmith”, um diagrama/gráfico/lista/mapa em que os endereços de sua vida nova-iorquina são referências cruzadas com as coordenadas de sua ficção nova-iorquina. O mapeamento dos caminhos da vida real de Pat coincidentes com os de sua vida imaginária produziu a “planta” de um coração que nunca saiu de casa de verdade: Pat ia direto ao assassinato de suas vítimas ficcionais, instalando seus assassinos fictícios em cada um dos endereços de Nova York em que ela ou suas amantes tinham alguma vez morado. Outros diagramas importantes para Pat estão também nos apêndices: um gráfico arrepiante que ela fez em 1945 para classificar e comparar suas namoradas; um mapa astrológico desenhado por umamigo íntimo em 1973; um plano de uma casa em que ela passou os seis meses mais importantes de sua vida; um enredo (storyboard) que ela criou para uma história em quadrinhos de super-heróis da editora Fawcett, durante os anos 1940, quando era a roteirista empregada com mais regularidade na Era de Ouro da História em Quadrinhos Americana.

Os apêndices tornam os projetos de vida de Pat — seus encontros e informações, suas cartas e planos, a “casca” de sua existência — instantaneamente disponíveis para consulta. E deixam que o restante do livro conte como ela de fato levou a vida. Obsessão, além dos temas e as metáforas repetidos e as intensas relações que os organizam, é uma perspectiva muito melhor para pensar sobre as quentíssimas conexões entre as experiências e a escrita de Patricia Highsmith e entre sua escrita e sua vida. “Não se pode procurar o eu de alguém emuma situação estática… O eu vivo”, ela escreveu, “está sempre em fluxo.”[10] “O eu vivo” dela era um fluxo — e repeti-lo era como ela lhe dava vazão. “Obsessões são a única coisa que importa”, ela escreveu. “As perversões interessam-me muito e são meu guia na escuridão.”[11] Como o material de suas obsessões migrava de uma das modalidades que ela explorava tão bem para outra; como aparece em seus cadernos de escritora; como se multiplica em seus diários e se divide ao longo de sua ficção, com as viradas, as reviravoltas e as mudanças abruptas e chocantes desse material essencial de sua imaginação — tudo isso fornece um quadro vívido fascinante e sem precedentes, mais como um filme do que umdocumento da mente de um escritor trabalhando. Durante grande parte de sua vida, Patricia Highsmith foi uma mulher estranhamente rígida (e não apenas rígida, mas rígida à moda do Texas, como dizia seu lendário editor americano, Larry Ashmead), com um âmago bastante sofrido. Do começo ao fim, as esperanças dos muitos amigos e amantes soçobraram contra aquela concha impenetrável que ela era. O que viam debaixo dela, se é que viam alguma coisa, era frequentemente mais do que conseguiam suportar. Mas Pat podia, e ela suportava tudo como uma fortaleza. Apesar de quase todas as cartas que ela escreveu serem iniciadas e encerradas com torturantes queixas sobre as “pessoas, lugares e coisas” (uma categoria favorita de seus cadernos de escritora) que pareciam estar expressamente conspirando contra ela; apesar de ela vacilar entre profundos êxtases de desejo e o desejo ainda mais profundo de esgarçar seus transes até deixá-los em farrapos; ainda que estivesse preocupada com problemas psicológicos e pessoais como aqueles tão bemdetalhados por Dostoiévski na figura dos postulantes “meio loucos” em suas andanças pelas ruas geladas de São Petersburgo; apesar de tudo isso, Pat Highsmith administrava muito bem sua determinação de escrever seis, sete, oito páginas por dia. “Bem, agora estou trabalhando em uma peça… e também em um romance, do qual já escrevi 160 páginas em um mês, uma média normal —quarenta páginas por semana, mas isso esgota um pouco.”[12] “Minha obsessão pela dualidade me salva de muitas outras obsessões”, ela observava com sua costumeira praticidade.[13] E ela sempre soube por que estava escrevendo: “Todo artista trabalha para manter a saúde”.[14] Pat desenvolveu um método — enganosamente simples — que lhe permitia deixar o mundo exterior e mergulhar no trabalho: “Eu me levanto da mesa e tento fingir que não sou eu”.[15] No caderno onde anotaria o nome da mulher pela qual tinha acabado de se apaixonar após uma lista dos lugares que já tinha visitado (como se seu novo amor fosse mais um destino), Pat observou: “Não há uma personalidade constante para o escritor, um rosto com o qual ele encontra seus velhos amigos ou estranhos. Ele é sempre parte de suas personagens ou simplesmente está de bom ou mau humor, num dia e no outro”.[16] A mãe dela, Mary, achava que o teatro era a real vocação de Pat. Não era um elogio. Pat achava a mesma coisa que Mãe Mary — mas sem a vocação. “Ela precisa de atenção, como uma atriz”, Pat escreveu quando Mary, vegetando em um asilo no Texas, estava lhe fazendo gastar um pouco mais emfraldas geriátricas.[17] Mãe e filha se conheciam muito bem para trocar cortesias e se amavam muito para ser acolhedoras. Jamais uma mulher fácil de conviver, Patricia Highsmith me deu tanto trabalho quanto a todos os outros que tentaram entrar em sua vida com a intenção de se tornar mais íntimos ou saber algo mais.

Talvez meus momentos com ela tenham sido um pouco mais complicados porque eu conhecia algumas das pessoas que ela conhecia,[18] vivi em alguns lugares em que ela viveu e pertenci a vários grupos (quatro, se o leitor quiser fazer contas tão compulsivas quanto as de Pat) contra os quais ela passou a parte final de sua vida vociferando com um ardor especial. Além disso, li seus livros antes de investigar sua vida, então pensei ter entendido no que tinha me metido: em anos de intenso, interessante e esgotante trabalho, focado em uma mulher que parece ter sido a curadora solitária de um Museu da Loucura Americana do Século xx.[19] Nada do que achei — ou decifrei — durante os últimos sete anos modificou essa primeira impressão. Pode haver muitas razões para se registrar a vida de Mary Patricia Highsmith, mas esta é a minha: tentar entender (e, com isso, tentar refletir sobre)[20] as constantes mudanças de identidade — da escritora na escrivaninha para a mulher que dali se levantava; da personalidade intensamente dividida para os passos simbólicos dados para se livrar de seus pesos — que criaram a integridade, a feroz peculiaridade e a originalidade estranha e áspera de seu trabalho. Ao fazer isso, tive de inovar a forma de sua biografia para não violar a substância de sua vida. Obsessão — as obsessões que governaram sua vida e inspiraram sua escrita — será o princípio organizador deste livro. Muitos pseudônimos para pessoas próximas a Patricia Highsmith foram usados neste livro. Apesar de os nomes terem sido alterados, seus depoimentos estão presentes exatamente como me foram dados. No delicado equilíbrio de verdades conflitantes que a biografia está sempre correndo o risco de abalar, tanto a vida como a morte merecem uma pequena proteção uma da outra. Um pseudônimo — o tipo de falsificação que a própria Pat cometia com alegria quando desejava encobrir seus vestígios e dizer o que tinha na verdade em mente — permite a essas testemunhas cruciais contar suas histórias pela primeira vez. Em sua única tentativa formal de explicar a maneira como trabalhava, Plotting and writing suspense fiction (1965), Pat escreveu que gostava de começar seus romances com um “início lento, até mesmo tranquilo… em que o leitor se familiariza totalmente com o herói-criminoso e com as pessoas ao redor dele”. E é assim que vou começar a história dela. Porém o fato de que ela poderia ir ao oposto de si mesma na sentença seguinte — “Mas não existe uma lei sobre isso, e em The blunderer comecei com uma enorme explosão” — é exatamente o que A talentosa Highsmith pretende ser. — Joan Schenkar Paris Berna Greenwich Village Como começar I Como começar Parte 1 Nenhum escritor jamais divulgaria sua vida secreta, seria como aparecer nu em público. Patricia Highsmith, 1940 O que era dificil é que você nunca a via sozinha, em sua rotina normal, porque, no momento em que você estivesse lá, ela era uma pessoa diferente. Barbara Roett, em conversa com a autora Um dia comum[21] Em 16 de novembro de 1973, num amanhecer úmido e frio, no pequenino vilarejo francês de Moncourt, na França, Patricia Highsmith, uma escritora americana de 52 anos vivendo com aparente tranquilidade perto de uma ramificação do Loing Canal, acende outro Gauloise, segura com mais firmeza sua caneta-tinteiro Parker favorita, curva os ombros sobre a escrivaninha de tampo retrátil —os braços estranhamente articulados e as mãos enormes eram longos o suficiente para alcançar a parte de trás do tampo enquanto ela ainda estivesse sentada — e anota em seu caderno de trabalho uma pequena lista de atividades úteis que “criancinhas” poderiam fazer “pela casa”. É uma lista informal, do tipo que Pat gostava de fazer quando estava esvaziando os sentimentos ocultos da mente, e isso tinha a mesma essência apressada de uma reflexão tardia. Mas, como sabe qualquer leitor cuidadoso de Highsmith, o momento de prestar atenção nela é quando parece estar divagando, negligente ou (nem pensar) levemente descontraída. Há um ser selvagem escondido emcada canto “indiferente” de sua cabeça de escritora que, com certeza, salta bem diante dos nossos olhos no título embaraçoso da lista: “Pequenos crimes para pequenos bebês”. E então, de quebra, ela acrescentou um subtítulo: “Coisas pela casa — que crianças pequenas podem fazer…”. Pat recentemente completara outra lista — para o criador de quadrinhos Jerry Bails, nos Estados Unidos — com algumas informações variadas sobre seu trabalho nas aventuras emquadrinhos do mundo do crime de Black Terror and Sergeant Bill King, então talvez ela ainda estivesse computando as muitas maneiras pelas quais crianças pequenas poderiam ser dissimuladamente associadas a crimes.[22] Em seu último diário de escritora, redigido no mesmo refúgio semissuburbano na França, ela também havia anotado algumas ideias sobre crianças. Uma dessas era um cálculo simples. Ela reconhecia que “uma pancada com raiva [poderia] matar uma criança, provavelmente, entre dois e oito anos” e que “as acima de oito exigem duas pancadas”. O assassino que ela imaginava realizando essa tarefa não era ninguém além dela mesma; a circunstância que a impulsionaria, simples: “Uma circunstância — talvez só uma — poderia me levar ao assassinato: a vida familiar, a companhia de alguém”.

[23] Assim, por mais difícil que seja imaginar Pat Highsmith gastando tinta para escrever sobre o universo infantil, seus escritos particulares nos mostram que ela às vezes gostava de deixar sua mente discorrer sobre o problema mais excêntrico de lidar com os jovens. E não apenas porque seus sentimentos por eles oscilavam entre um interesse clínico pelo modo como eram criados (ela fazia constantes interrogatórios sobre os filhos de amigos) e uma rejeição violenta à efetiva presença deles (ela não era capaz de suportar os ruídos que as crianças faziam enquanto brincavam). Como a sua intratável avó materna, Willie Mae Stewart Coates, que costumava enviar sugestões para melhorar os Estados Unidos ao presidente Franklin Delano Roosevelt (e recebia respostas manuscritas da Casa Branca),[24] Pat tinha uma gaveta repleta de ideias pouco convencionais sobre engenharia social prontinhas para ser implantadas. Seus cadernos estão cheios de grandes planos para pequenas pessoas, a maioria deles modelada conforme algum acontecimento traumático de seu passado turbulento. Cada um adiciona um terror novo ao estudo do desenvolvimento infantil. Um de seus planos para a juventude, por exemplo, apareceria na mal dissimulada repetição da violência sofrida em 1927, em sua infância, quando foi retirada dos cuidados de sua avó na pensão da família em Fort Worth, Texas, e obrigada a cruzar os Estados Unidos por força do novo casamento da mãe, indo morar num apartamento apertado no lado oeste elitizado de Manhattan. A ideia de Pat para uma infância melhor (retirada de uma anotação séria em seu caderno de 1966 para a mente da protagonista mentalmente instável do romance de 1977, O diário de Edith) era enviar crianças bem novinhas para viver em lugares afastados do mundo: “Orfanatos podem ser usados para recrutas voluntários!”, ela exclamou, entusiasmada com seu próprio modelo de praticidade. Então eles poderiam servir a seu país como “membros juniores do Corpo de Paz”.[25] Como uma amostra retirada de seus pensamentos, sua listinha esquisita e informal de 16 de novembro de 1973 (escrita na casa dela em uma aldeia tão pequena que uma ida ao correio a retardava com mostras indesejadas de atenção) veio a ser um exemplo útil da cabeça, do assunto e na mise-en-scène da talentosa Highsmith. Entre outras revelações, a lista faz recomendações para pessoas (as pequenas) cuja vida tinha um paralelo com a dela: pessoas frágeis a ponto de ficaremconfinadas em suas casas, livres a ponto de não precisarem de uma aparente supervisão da família e tensas a ponto de se preocupar com assassinatos. Eis a lista: 16/11/1973 Pequenos crimes para pequenos bebês. Coisas pela casa — que crianças pequenas podem fazer, como: 1) amarrar barbantes no alto das escadas para que adultos tropecem; 2) se a mãe tiver retirado, colocar de novo os patins na escada; 3) causar pequenos incêndios, para que outra pessoa leve a culpa, se possível; 4) trocar os comprimidos nos frascos da prateleira; comprimidos para dormir no vidro de aspirina. Laxantes no vidro de antibiótico que fica na geladeira; 5) veneno de rato ou de pulga na lata de farinha na cozinha; 6) serrar os suportes da portinha do sótão, assim quem andar sobre ela cairá da escada; 7) no verão: virar lentes de aumento na direção de folhas secas ou, de preferência, em trapos com gasolina. O fogo pode ser atribuído à combustão espontânea; 8) checar a existência de produtos antimofo no galpão do jardim. Veneno incolor para a garrafa de gim. Algo menor, mas muito fiel a ela, essa amostra avulsa, como quase tudo em que Pat colocava a mão, contém assassinatos e gira em torno da casa e seus arredores, menciona a mãe indiretamente e é muito prática em sua radical subversão. Lista escrita no estilo raso, intenso e imperturbável de sua meia-idade, não revela nenhumindício particular de que Pat estivesse fazendo piada, mas ela devia estar… não devia? A besta real na escrita de Highsmith sempre foi o dragão de duas cabeças da ambiguidade. E o dragão com frequência aparece com sua segunda cabeça escondida debaixo de sua garra, e suas indiretas — as que ela lançaria na nossa direção, ajudando-nos a encontrar respostas — ocultas em algum lugar por baixo de suas escamas. Pat é séria? Ou a encontrar é algo mais do que isso? Ela é séria e também é mais do que isso. Por toda a vida, Pat Highsmith fez listas. Ela adorava listas e mais ainda porque nada poderia ser menos representativo de seu interior caótico e enfurecido do que uma bela e organizada listinha. Como muito do que escreveu, essa lista particular faz uso dos materiais à mão: nenhuma necessidade, crianças, de procurar além do armário de remédios da mãe ou do galpão de jardim do pai algumas maneiras de assassinar seus pais. Muitas crianças na ficção de Highsmith, se são fisicamente capazes, assassinam um membro da família. Em 1975, ela devotaria uma coleção inteira de contos, O livro das feras, para animais de estimação que despacham seus abusivos “pais” humanos direto para o inferno. Nem a própria Pat olhava além do ambiente imediato em busca de ingredientes para elaborar seus temas artísticos.

(E, quando olhava, enfrentava problemas artísticos.) Tudo ao seu redor estava lá para ser usado — metodicamente — mesmo em assassinatos. Ela atirava as partes sinistras de seus jardins, sua vida amorosa, as formigas gigantescas do sótão, seus velhos manuscritos, sua compreensão do traçado das ruas de Nova York e os bares de travestis de Berlim na fornalha da imaginação e então deixava o fogo fazer seu trabalho.

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