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A tecela de sonhos – Angela Dutra de Menezes

Vozes altas, objetos metálicos entrechocando-se, gargalhadas. Som de pagode. O barulho a surpreende: samba é o ritmo do CTI. Pandeirinho sincopado, o mesmo que o filho de Dorotéia prometera tocar em seu casamento. Casamento? Berenice tenta se mover. Sobrevivera. Lembra-se de Dona Aranha, dos primeiros socorros, do helicóptero, início da barafunda que acabara em cirurgia. Inspira, o ar entra com facilidade. Inspira novamente e, novamente, o ar lhe enche o peito. Tranqüiliza-se. Cortaram-lhe o pulmão esquerdo, mas ela respira com facilidade. Berenice pensa em Deus — “obrigada, estou viva”. O peito, as pernas, a cabeça, as costas, todo o corpo dói. Uma enfermeira se aproxima, falando sem parar. Cada palavra muitos decibéis acima do necessário: — Oi, como vai? Hora de levantar. Vamos mexer o corpo, estimular a circulação… Ágil, enfia um braço sob o tórax de Berenice, tentando movê-la. O gesto a corta de dor. Quer protestar, a voz não sai. A cabeça roda nas palavras da enfermeira, mexendo, cutucando, perfurando, falando, falando, falando profissionalmente assustada: — Doutor, depressa, o leito seis. Correria. Ritmado, o alerta de um aparelho — bip, bip, bip. Calmamente, Berenice respira. Inspira e expira, curiosa em descobrir quem morre no leito seis. — Berenice, Berenice. Sente os tapas no rosto, alguém chama o seu nome.


Inspira. Desta vez, não consegue. Um tubo rasga a sua garganta, suprindo-a de ar. A luz forte, subitamente acesa, reconforta-a. Envolta em confusos sentimentos de perdas e reencontros, de medo e de muito alívio, Berenice descobre: “O leito seis sou eu.” Olha o relógio na parede: dez horas, três minutos, quase cinco segundos. Tanto, tanto silêncio. Berenice, irmãos & Dorotéia cia. ltda. Gente viva não respira. Ou melhor, não repara respirar. Repara — isso, sim — no sol manhoso, amoroso, escorregando na pele gostosa de morenice. Berenice acaba de chegar da praia. Corpo morno de verão. Mole, cansado, aquecido. Seu primeiro momento sensual, ela mal completou três anos. A babá lhe dá um banho. Depois, hora do almoço. — Não gosto. — Não tem que gostar, tem que comer. — Não. A babá finge ir embora, Berenice chora. — Não faz cena. Não é cena, é choro verdadeiro. Berenice adora a babá e, para não vê-la partir, resolve engolir as lágrimas.

Junto, o prato de arroz com feijão, franguinho e o maldito espinafre. Gosto amargo de mato, o amor é complicado, desvenda precocemente. — Promete não fazer manha? Dá um beijo na babá, concorda com a cabeça. A mulata põe Berenice na cama para o soninho da tarde, cantando algumas toadas que — passa boi, passa boiada — Berenice não esquece. Pombinha branca, O que estás fazendo? “Tô” lavando roupa Para o casamento A roupa é muita E eu sou vagarosa, Minha natureza É de preguiçosa. “Preguiçosa, preguiçosa.” Entra ano, sai ano, os irmãos não dão sossego. Também, analisa Berenice, precisava nascer mulher e, ainda por cima, desajeitada? Se os meninos soubessem que ela esconde outras Berenices, talvez não implicassem tanto. Mão-de-obra dividir-se entre a menina comportada, de lacinho no cabelo, e duas muito malucas: uma com fome de farra, outra com gosto de lua. Tanto uma quanto a outra inventam mil novidades na rotina protegida da Berenice educada, que, na verdade, prefere conviver com suas versões menos sérias. Sente-se mais feliz na pele dos alteregos execrados pelo mundo das pessoas bem-nascidas. Nostálgica, Berenice lamenta que a família renegue a Maluca e a Liberdade. Se conseguisse amarrá-las, criando uma só pessoa, Berenice viveria a Berenice de fato, que nunca lhe permitem ser. Na ânsia de conservá-las, não perder seu eu correto, Berenice Comportada esconde as outras faces no fundo do coração. Conforme a necessidade, recorre a cada uma. Às vezes, surge a errada e se instala a confusão. Felizmente, eu existo, agradece a Berenice Liberdade — a tal, com fome de farra —distribuindo cabos de vassouras em pontos estratégicos. Os irmãos e seus amigos, valentes cavalos, pularão obstáculos. O intransponível, o revelador do puro-sangue mais puro, equilibra-se entre o banheiro de empregada e a caixa-d’água construída no meio do quintal. Desafio assustador, não à toa é rigorosamente proibido pela mãe, pelo avô, pela avó, pela tia, pela babá, por todos os adultos da casa. Gente chata, ninguém repara a perfeição do óbice — é assim que fala o avô advogado? —construído com dois engradados de cerveja, coroados por baldes emborcados, pontos de equilíbrio dos cabos de vassoura. Muito animal importante já se esborrachou ali. Inclusive o do rei da Inglaterra, um vistoso alazão denominado Camoneboy (segundo os outros cavalos, Camoneboy, antes de ir para Buckingham, era o animal preferido do mocinho Roy Rogers). Berenice aprende cedo. Mocinhos, principalmente os metidos a corajosos, sempre acabam se estrepando.

Não é que, um belo dia, saltando o famoso obstáculo, Camoneboy aterrissa dentro da cisterna destampada? Destino humilhante para o herói mundial, Camoneboy não merecia. Mas a vida é assim, ensina a babá: cedo ou tarde, todo mundo cai do galho. Correria, gritaria, o irmão do meio — que, segundos antes, incorporava Camoneboy — debatese dentro d’água, com medo de se afogar. Salva-o a esperteza da mãe, atirando na cisterna a bóia de pneu, apetrecho essencial para as manhãs de praia. O susto transforma-se em festa. O irmão pára de chorar e inicia uma farra, recusando ajuda para voltar à terra firme. Vira Simbad, o marujo, apesar da cara feia do avô, ameaçando colocar a tampa na caixa. Sinceramente comportada, Berenice, aflita, implora: — Sai, Flopi, é perigoso. Convenhamos, a mãe devia estar doida quando batizou o filho de Floriano. Absolve-o o irmão mais velho de nome também infeliz — Honório, mais conhecido por Lã, ninguém pergunte o motivo. Um dia, em cerimônia nobiliárquica, Lã nomeia Floriano o mui digno cavaleiro Flopi, de aquém e além-mar. Maquinação da Berenice Maluca que, depois, oferece chazinho em xícaras de plástico e caramelos Flopes, batutas para arrancar dentes moles. A efeméride acaba em tragédia. O rei do Castelo, sir vovô, flagra o novo nobre — e toda a nobreza antiga, inclusive lady Berenice — fumando talos de samambaia. De castigo, descansam no calabouço, um dos quartos de empregada ainda desocupado. Tentando comover o soberano, a Berenice Maluca finge se descabelar, estratégia sem sucesso. Então, entra em cena a Comportada, chorando sentidamente. A chantagem funciona, o perdão real não demora. Enxugando as lágrimas, Berenice se enrosca no colo do avô, enquanto os irmãos comemoram. Só o caçula, pomposamente batizado de Alexandre Guilherme, nome que ele adora e que, de implicância, Berenice Maluca muda para Boggie-Woogie, continua impassível. Quieto, calado, ensimesmado, com o seu jeito de sempre. Exatamente o oposto do apelido que, aliás, pegou. A família inteira chama Alexandre Guilherme de Boggie-Woogie. Liberada do castigo, a garotada, de rabo entre as pernas, dispersa-se rapidinho. Vale a pena a confusão.

Após a cerimônia, Flopi esquece o Floriano. Até Boggie-Woogie, radicalmente contrário a codinomes, adota o novo epíteto. Dentro da caixa-d’água, Flopi não parece disposto a colaborar com o clã, ansioso por trazê-lo à terra firme. Ri, afunda, sobe, volta a se agarrar na bóia. Malandro, muito malandro. Quando a encrenca aumenta e todos brigam com todos, Flopi pede ajuda para sair: — Quero fazer pipi. A avó aumenta o tom de voz: — Aí, não. Esta água abastece a casa inteira. Os cavalos relincham, gargalhando. A mãe dispersa a manada: — Voltem para as suas casas. Mas a cavalhada insiste, quer assistir ao malabarismo da babá, deitada no quintal, esticando-se para dentro da cisterna na intenção de pescar o quase-afogado. O motorista da família a segura pelos pés, pelas pernas, calcanhares. Berenice não entende tanta agitação de mãos, tanta alegria nos olhos. Afinal, Flopi naufragou e a babá, mergulhando para salvá-lo, corre risco de vida entre tubarões ferozes. Subitamente, Berenice Maluca descobre que o chofer é Jack, o estripador, história que devorara num livreco. Antes dos cinco anos, catando sílabas no jornal, as Berenices, sozinhas, aprendem a ler. A família, conservadora e pudica, só descobre seu talento para decifrar palavras quando, xeretando um crime passional, assunto que adora, ela pergunta o significado de “castrar”. Naquele tempo, anos 1950, ainda não haviam entrado em voga papos freudianos, de modo que ninguém conseguia sair pela tangente, explicando a existência de infelizes que “castram” os seus anseios. Num vôo de emergência, cabe à tia, especialista autodidata em vários ramos da medicina, esclarecer a dúvida. Berenice fica em estado de choque. Apesar da pouca idade, sabe perfeitamente o quanto os irmãos valorizam os seus penduricalhos, detalhe anatômico que, aparentemente, é passaporte para as benesses da vida. Ao menos, muita coisa lhe é proibida apenas por ser menina. Ou seja, não portar os instrumentos que — quem diria? — existe quem aprecie cortar. Coitados dos irmãos, Deus os livre da trágica castração, reza todas as noites. Este fato, aliado ao trauma das festas natalinas, transforma todas as Berenices em pacifistas radicais.

Enquanto Berenice Maluca divaga, o irmão desaparece na água turva da cisterna e a babá, segura por seu Inaldo, joga o corpo na água, permanecendo apenas com os pés de fora. Assustada, Berenice grita. A avó a repreende: — Não faz cena, Berenice. Quase que o seu Inaldo solta os pés da Anabela. Berenice não grita pela babá, grita pelo estripador que, há menos de uma semana, cortou em mil pedaços o seu burrinho de papier mâché. Um brinquedo idiota. Quase em tamanho natural, esculpido sobre quatro rodinhas. Burrinho bobo, não servia para nada. Permanecia estático e, se a babá o puxava, andava em sem-gracice. Mas fora presente do avô e, apenas por isso, Berenice fingia apreciá-lo. Aliás, mesmo se não fingisse, jamais desejaria ao burro morte assim violenta. Tal assunto, infelizmente, conhece de cabo a rabo. Seu pai morrera em instantes após despencar de umcavalo e enfiar a cabeça num pedregulho pontudo. Ela, recém-nascida, ignorou a tragédia e, apesar dos esforços, não consegue lembrar dele — embora sinta saudades. Enquanto Berenice Maluca inventa um enredo assombroso envolvendo o motorista, o burrinho esquartejado e o pai esborrachado, Flopi é resgatado anunciando: — Mijei. O mundo vem abaixo. Berenice não duvida, adultos são malucos. Todos se desesperam como se o Flopi mijasse algum veneno mortífero. Misturado à água da cisterna — milhares de litros —, o pipi, se é que pipi existe, transformara-se em coisa alguma. Mas Flopi é castigado: uma semana semsair de casa. Tempo que aproveita para, com a cumplicidade da cozinheira, derreter todos os soldadinhos de chumbo de Lã e transformá-los, num molde de caixa de fósforos, em goleiro de time de botão. O melhor do mundo chama-se Grosics. — Ué, e o Veludo? — Boba, o Veludo é ótimo, mas tem nome de cachorro. Goleiro com nome de goleiro é o Grosics. — Me deixa ficar no gol? — Menina não é goleiro.

— Por que não? Lã e Flopi não facilitam, cumprem os papéis sociais. Apesar dos times incompletos, relutam em permitir que a irmã faça o papel de kepper. Nem desconfiam que ela, apesar de pequenina, já descobriu, há tempos, a qual sexo pertence. Gosta de jogar no gol para olhar de pertinho as coxas dos jogadores. Tanto Berenice insiste, que os dois cedem: — Tá, vá para o gol. Mas não se atire no chão, nem cuspa. Ouviu? Berenice desconhece a função dos goleiros imóveis. Resultado da peleja: 15 x 3, para o lado adversário. Lã não deixa barato, arrasa Berenice. Flopi a chama de “gorda”. Boggie-Woogie escuta sem se manifestar. Berenice enfrenta os irmãos, não entende como pode amar meninos tão idiotas. Afinal, não foram eles que a mandaram não se mover? Distante das preocupações afetivo-desportivas de Berenice, Lã continua a censurá-la a golpes de machado: — Por que você faz tudo errado? Menina não serve pra nada. Humilhada, concorda com o irmão. Mulher não serve pra nada, nem para goleiro. Se ainda fosse bela, graciosa, penteada, alguma coisa certa que se espera das meninas, principalmente as ricas. Qual, apesar dos renovados esforços da mãe — bons vestidos, bons sapatos, bons perfumes, bonsde-um-tudo —, Berenice é um desastre. Além de fazer xixi na cama, só anda descabelada, descalça e distraída. Por sua culpa exclusiva, a família perde o chofer de décadas. Depois de confundi-lo com o famoso assassino das madrugadas londrinas, Berenice recusa-se a sair de carro. Nem para ir à escola. Chora e esperneia, arma tamanhos escândalos que o avô desconfia das intenções do empregado. Aperta o homem daqui, aperta o homem de lá, enquanto Berenice, assustada, pendura-se no pescoço da avó, da mãe, da babá, da tia também maluca. As cenas dramáticas e conseqüentes suspeitas ofendem seu Inaldo: — Se o doutor pensa que eu maltrato a menina, prefiro perder o emprego. E apresenta as contas.

Desastre para a avó, que adora seu Inaldo, ele sabe de cor cada igreja de cada santo do dia, 365 endereços, embora alguns se repitam. Mão-de-obra, nem os santos conhecema data de todos os onomásticos. Só seu Inaldo e a avó realizam este milagre. Já com seu Inaldo longe, o perigo afastado, Berenice confessa: — Ele matou o meu burro, cortou-o em mil pedaços. Saiu das folhas do livro, é o esquartejador. Muito a contragosto, Lã defende seu Inaldo. Ante a família muda — tanta e tanta maluquice, crianças encarnam o demo —, confessa a autoria da morte e do esquartejamento. Em noite de tempestade (horas após Berenice quebrar-lhe os carrinhos preferidos), passeava na savana africana quando encontrou um leão, disfarçado de burrinho. Lã pressentiu o desastre: — Logo identifiquei que, na pele do burrinho, escondia-se, selvagem, uma fera carniceira. Boggie-Woogie e eu travamos imensa luta. Mas vencemos o inimigo. Num fio de voz, a avó pergunta: — Flopi também viajou à África? — Não, preferiu dormir. Se ele entrasse na briga, o danado do leão morreria sem delongas. Três contra um é fácil. Mas sem Flopi, o bichou levou vantagem. Lutou tanto que até enfiou a rodinha — quero dizer, uma pata — dentro do meu olho esquerdo. Finalmente esclarecida a conjuntivite que, há dias, preocupa a mãe. A tia-saúde-pública examina a vista do sobrinho. Assombrada, relata o diagnóstico: — É um arranhão na córnea. Despachado para o oftalmologista, o valente caçador esclarece que utilizou no homicídio a faca de cortar pão: — Trabalhei sozinho. Seu Inaldo não se envolveu com a morte do leão. Ou melhor, do burro. Como nada mais lhe é perguntado, retira-se para o médico, de onde retorna com um tampão no olho e rebatizado de sir Francis Drake. Novidade da tia doida, que não garante se Drake era caolho, mas garante ter sido pirata. Desnecessário explicar que Lã adora a novidade.

Inutilmente, a avó faz o possível e o impossível para o motorista voltar. Oferece-lhe mundos e fundos, além de astronômico aumento de salário. Ao saber da montoeira de dinheiro com que a avó pretende seduzir seu Inaldo, Flopi decide aprender a dirigir, economizar os salários e, um dia, comprar seu avião. Verdadeiro. Com hélices, bancos, instrumentos, do tipo que pousa e decola. O avô o provoca: — Não posso lhe dar o emprego. Você é baixinho, não enxergará o tráfego. Flopi argumenta que pode sentar num banquinho, igual ao das barbearias. O avô acha graça: — Então, precisamos providenciar pernas de pau para você acionar os pedais. Esperançoso, Flopi gruda no avô: — Você manda fazer? O sapateiro da vovó arruma as pernas falsas. Ele não aumenta a vovó com plataformas? Lã se ofende. Antes de o avô promover Flopi a motorista — e a futuro aviador —, precisa cumprir a promessa de construir o jardim zoológico no jardim. Com jaulas de grades pantográficas para não atrapalhar a entrada dos automóveis. Novamente, o avô pega carona: — Mas quando a jaula grudar na parede, onde colocaremos os animais? É raro um caso como o seu e de Boggie-Woggie, que mataram um leão. Cercada de conversas sem pé nem cabeça, a avó perde a paciência. Manda o marido e os netos pararem de falar bobagens. Coitada da avó, está triste e mal-humorada. A cozinheira acaba de lhe participar que seu Inaldo começara a trabalhar na casa vizinha. Ao saber da novidade, Berenice Comportada adoece com a imensidão da injustiça cometida. Cala-se — o mais sério sintoma temido pela família — e fica esperando satanás vir buscá-la. (…) Livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas para o céu. Acolhei, principalmente, as mais necessitadas. Nada a atemoriza tanto quanto satanás. No sofisticado colégio de freiras, enquanto as colegas rezam em coro lideradas pelo padre de vozeirão, sotaque italiano e mau hálito (nem sempre nesta ordem), Berenice, tentando driblar o diabo, posa de peregrina do Novo-Mundo, desembarcando do Mayflower puxando um peru pela coleira — nunca acerta o idioma para conversar com a ave, o inglês de ambos é péssimo. Letícia, colega e amiga fiel, questiona a puritana que, fugida da Inglaterra, tropeça na língua de origem.

Berenice não se aperta. Explica descender de Calvino: — Só sei alemão. Mas, agora, o importante é enganar o demônio, entrei no rol das almas mais necessitadas. Letícia recorda a infâmia contra seu Inaldo: — A mentira é pecado capital. — Eu não menti, eu pressenti. Mesmo assim, reza, penitencia-se, esgota-se em promessas. Pelo sim, pelo não, continua se imaginando puritana e conversando com o peru calvinista. O coisa-ruim não aparece. Berenice ignora se pelas preces cristãs ou se pela pose romana. Consta, relata à Letícia, que o demo tem por hábito desprezar solenemente tanto as preces quanto a pose: — Já que não veio e não me levou, o caso não foi tão sério. As preocupações religiosas levam o desemprego de seu Inaldo a cair em exercício-findo. Auxilia o esquecimento do motorista a chegada do verão e das férias, trazendo a reboque o sol, a praia e, infelizmente, a desgraceira do Natal. Quando a cozinheira, supervisionada pela avó, despeja a terceira caneca de cachaça na goela do peru católico, Berenice Comportada, que a própria Berenice confunde com a Berenice Medrosa, encolhe-se no banco do quintal. Matar o peru é torturar um animal indefeso. Como diz a babá, hora de cair do galho. A via-crúcis do peru não parece nem um pouco com a facilidade com que a família mata galinhas. Produção industrial: a governanta as compra na feira, coloca-as sobre a mesa e, sabe-se lá como, hipnotiza-as. Assim, com o ar idiotizado de quem engoliu várias caixas de Valium 10, consolo da mãe nas noites de angústia, elas entregam o pescoço na maior descontração. Enfrentam a faca sempiar. Berenice não entende por que a governanta não patenteia o método de chapar galináceas. Enriqueceria. Porém, no crime do peru há requintes de crueldade. O massacre começa em 20 de dezembro, quando a avó enfia um pterossauro, tal o tamanho da ave, numa caixinha de madeira de dimensões minúsculas, pomposamente denominado galinheiro, construído no fundo do quintal. Ali, torto e amassado, o infeliz permanece até a manhã do dia 23, início do ritual a que, entre fascinada e horrorizada, Berenice assiste anualmente. Desses festivais de brutalidade poderia emergir uma serial killer.

Ou uma medrosa visceral. Acuada, Berenice Comportada embarca na segunda opção. Durante toda a vida só consegue assumir posição contra a pena de morte e a violência, não importa quais argumentos tentem justificá-las. Opinião, aliás, dividida com as suas outras personalidades. Raramente elas concordam. Nesse caso específico, as três tornam-se radicais. Odeiam a morte e a tortura sustentando ideologias, servindo de instrumento do Estado, maltratando animais — humanos ou não — por vingança, por sadismo, em nome de qualquer líder, em honra a qualquer deus. Explica-se: no íntimo, Berenice Comportada se identifica com o peru. Igual a ele, sente-se presa pelo não-existente. O peru, por um círculo de giz, que as empregadas desenham no chão. Ela, por algo tênue, que não identifica. Mas, no inexistente, Berenice e a ave enxergam uma muralha. Acuados, correm e se debatem. Ferem-se, mas não ultrapassam o metafísico limite, que os condena à morte. Solidária ao peru torturado — entupido de cachaça, trôpego no espaço imaginário —, Berenice se angustia. Mas a mãe e a avó são gentis, não lhe permitem assistir à degola, praticada pelo jardineiro, assassino oficial das infelizes penosas que adentram sua casa. Grande coisa, conclui Berenice, o pior ela já viu: os minutos finais, quando o peru embriagado pressente o fim. Agita-se, distribui bicadas, tenta voar, caga-se inteiro — meu Deus, que horror. Aguardando a lâmina cortar o próprio pescoço, Berenice imagina como a mãe e a avó (tão boas, meigas e doces) conseguemesconder um lado negro. E como o jardineiro de mãos milagrosas, nascedouro de flores lindas, cultiva um perfil carrasco — será que, no mundo inteiro, as pessoas têm dois lados? Será que também é má? Então Berenice Liberdade compreende que quem respeita limites impostos condena-se ao massacre. Assustada, enxerga ao longe um trator preparando-se para atropelá-la. É seu destino, dele não escapará. Berenice respira fundo e lembra da voz da mãe, volta e meia anunciando que, no mundo, há os fortes e os fracos. De tola, ela nasceu fraca e não existe conserto. O pterossauro assassinado reaparece numa assadeira imensa, depenado e temperado.

No fim da tarde, os criados o levam à padaria da esquina, onde passará a noite na geladeira industrial. Na manhã seguinte, entrará no forno, lado a lado com colegas igualmente portentosos. Na época, os minúsculos fornos domésticos não comportavam os exagerados espécimes. Finalmente, entre pêssegos e farofa, o executado ocupa lugar de honra no grande almoço que reúne a família festejando um nascimento. Credo, lamenta Berenice, o excesso de ignorância e crueldade seguramente provémda Inquisição. Talvez os adultos pensem que perus, de todos os quadrantes, são hereges calvinistas. Traumatizada com o sacrifício das aves, Berenice Medrosa, ano após ano, não emite um som nas comemorações de Natal. Para evitar os irmãos implicando, esconde-se na Berenice Maluca, habituada a, eventualmente, caminhar muda e descalça pelos desvãos da casa, a cabeça divagando além do mundo da lua. Respeitosamente, Flopi observa: — Quem sabe ela é mesmo protestante?

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