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A Tenda Vermelha – Anita Diamant

Durante muito tempo andamos perdidas umas das outras. O meu nome nada significa para vós. A minha memória é pó. Nada disto é culpa vossa, nem minha. A cadeia entre mães e filhas quebrou-se e a palavra passou à guarda dos homens, que não tinham condição de saber. Por isso me tornei nota de rodapé, reduzindose a minha história a breve parte dentro da bem conhecida história do meu pai, Jacob, e da célebre crônica de José, meu irmão. Nas raras ocasiões em que fui recordada, de mim fizeram vítima. Pouco depois do início da Sagrada Escritura, há uma passagem que sugere a minha violação, seguindo-se a história sangrenta de como se vingou a minha honra. Até espanta que alguma mãe tenha voltado a chamar Dina a uma filha. Apesar de tudo, houve quem o fizesse. Talvez já tenham adivinhado: muito mais passei além da cifra muda do texto. Talvez a musicalidade do meu nome assim o sugira: a primeira vogal longa e aberta, como quando as mães chamam as crianças ao anoitecer, a segunda suave, como segredos sussurrados na almofada. Diii-nâ. Ninguém recorda a minha habilidade como parteira, nem as canções que entoei, nem os pães que cozi para os meus insaciáveis irmãos. Nada restou de mim, além de umas quantas alusões tibiamente atamancadas acerca daquelas semanas passadas em Siquém. Muito mais haveria a relatar. A ter de falar do assunto, começaria eu pela história da geração que me criou, única ponta por onde desatar. Quem quiser compreender qualquer mulher terá primeiro de perguntar como era a mãe e ouvir com atenção. A história da comida encerra ligações muito fortes. A melancolia dos silêncios denuncia assuntos inacabados. Quanto mais uma filha sabe acerca da vida da mãe (sem vacilações nem recriminações), mais forte se torna. Claro que tudo isto é bastante mais complicado no meu caso, porque tive quatro mães, todas elas a ralharem, ensinarem e incentivarem diferentes coisas a meu respeito, dando-me presentes diferentes, amaldiçoando diferentes medos. Lea deu-me a vida e a sua arrogância esplêndida. Raquel ensinoume a ser parteira e a arranjar o cabelo. Zilpah fez-me pensar.


Bilhah ouviu-me. Nenhuma das minhas mães cozinhava da mesma maneira. Nenhuma delas falava ao meu pai no mesmo tom de voz nem ele a cada uma delas. Fiquem sabendo que as minhas mães eram também irmãs entre si, filhas de Labão e de diferentes mulheres, embora o meu avô nunca tenha reconhecido Zilpah e Bilhah, reconhecê-las ter-lhe-ia custado mais dois dotes e ele era terrivelmente sovina. Como todas as irmãs que vivem juntas e partilham o mesmo marido, minha mãe e minhas tias urdiramuma teia apertada de lealdades e rancores. Traficavam segredos como quem troca braceletes, e tudo isso transmitiram a mim, única filha sobreviva. Disseram-me coisas ainda eu era demasiado nova para ouvi-las. Tomaram-me o rosto nas mãos e fizeram-me jurar que não esqueceria. As minhas mães orgulhavam-se da quantidade de varões que deram a meu pai. Os filhos faziam o orgulho e a medida duma mulher. Mas o nascimento sucessivo de rapazes não era fonte de felicidade plena na tenda das mulheres. O meu pai vangloriava-se da sua tribo turbulenta e as mulheres amavamos meus irmãos, mas também suspiravam por filhas e queixavam-se entre si da masculinidade da semente de Jacob. As filhas aliviavam o fardo das mães – ajudavam a fiar, a pilar, colaboravam na tarefa infindável de cuidar dos rapazes, sempre a fazerem xixi por todos os cantos das tendas, por mais que ralhássemos. Mas outra razão ainda levava as mulheres a desejar o nascimento das filhas, e essa era a de perpetuarem a sua memória. Os rapazes, depois de desmamados, não prestavam atenção às histórias das mães. De modo que eu era a única. A minha mãe e as minhas tias-mães contaram-me infinitas histórias acerca de si mesmas. Qualquer que fosse a labuta das suas mãos (segurar nas crianças, cozinhar, fiar, tecer), enchiam-me os ouvidos. Na sombra carmim da tenda vermelha, a tenda menstrual, passavam os dedos pelos caracóis do meu cabelo, recapitulavam as brincadeiras juvenis, as sagas da sua vinda ao mundo. Essas histórias eramcomo oferendas de esperança e arrimo derramadas diante da Rainha dos Céus, só que não se dirigiam a nenhum deus ou deusa – e sim a mim. Ainda hoje sinto o grande amor das minhas mães. Sempre acalentei o amor delas. Nele me sustentei. Foi ele que me manteve viva. Mesmo quando deixei de estar junto delas, e mesmo agora, tanto tempo depois de morrerem, encontro conforto na sua memória.

Transmiti à geração seguinte os contos das minhas mães, mas as histórias da minha própria vida foram-me proibidas, e esse silêncio quase sufocou meu coração. Eu não morri, antes vivi tempo suficiente para virem outras histórias encher meus dias e minhas noites. Vi crianças abrirem os olhos perante um mundo novo. Encontrei motivos de riso e gratidão. Fui amada. E agora vêm vocês ter comigo – mulheres de mãos e pés macios como os das rainhas, com cópia de tachos e panelas acima das vossas necessidades, tão seguras na parição e tão soltas de língua. Vocês vêm esfomeadas da tresmalhada história. Anseiam por palavras capazes de colmatar o grande silêncio que me engoliu, a mim e a minhas mães, e a minhas avós antes delas. Bem gostaria de saber contar mais acerca das minhas avós. É terrível a quantidade de coisas esquecidas, razão bastante, julgo eu, para que a lembrança semelhe tanto o sagrado. Muito agradeço a vossa vinda. Aqui despejarei quanto trago dentro de mim, para que todas possam retirar-se desta mesa supridas e fortalecidas. Abençoadas sejam. Abençoados vossos filhos. Abençoado o chão que pisam. O meu coração é concha de água pura, assim a sirvo, transbordante. Selah. PRIMEIRA PARTE As Histórias da Minha Mãe CAPÍTULO 1 Esta história começa no dia em que o meu pai apareceu. Nesse dia irrompeu Raquel no acampamento em correria desatada, berrando como um bezerro desmamado. Antes que alguém tivesse tempo para repreendê-la por se comportar como um rapaz esgrouviado, extravasou dum só fôlego uma torrente de palavras que caíram como água na areia, uma história inverossímil acerca dum estranho à beira do poço. Um maluco sem sandálias. De cabelo emaranhado. Cara enfarruscada. Beijou-a na boca, um primo, filho da tia delas, a quem tinha apascentado carneiros e cabras e defendido o poço dos salteadores. – Que estás tu para aí a dizer? – perguntou Labão, seu pai.

– Quem é que veio ao poço? Quem é que o atendeu? Quantos sacos traz? – Ele vai casar comigo – disse Raquel peremptoriamente, assim que conseguiu recuperar o fôlego. – Diz que lhe estou destinada e que se pudesse casava comigo amanhã. Vem a caminho daqui para falar consigo. – Casar contigo? – disse Lea, de sobrolho carregado, ao mesmo tempo que cruzava os braços e atirava os ombros para trás. – Tu só és casadoira daqui a um ano – disse a rapariga, que apesar de poucos anos mais velha do que Raquel já tomava conta dos parcos haveres do pai. Quanto à mulher de Labão, já na casa dos quarenta, gostava de se dirigir à irmã em tom arrogante: – Que vem a ser isto? Que história é essa de ele te ter beijado? De fato, tratava-se duma terrível violação dos costumes, mesmo sendo primo, mesmo sendo Raquel suficientemente jovem para ser tratada como criança. Raquel espetou o lábio inferior, num beicinho que ainda poucas horas antes passaria por coisa infantil. Algo se passara desde que ela tinha aberto os olhos nessa mesma manhã com a idéia urgente de descobrir o lugar onde Lea escondia o mel. Lea, essa grande burra, nunca se dispunha a partilhálo com ela, guardava-o para os convidados, de vez em quando dava umas pitadas a Bilhah e a mais ninguém. Raquel só conseguia pensar no desconhecido desgrenhado cujos olhos tinham ido ao encontro dos dela com uma determinação que a fizera tremer até aos ossos. Raquel sabia o que Lea queria dizer, mas o fato de não ter tido ainda a primeira regra não era coisa que a preocupasse naquele instante. Sentiu a cara a arder. – Que vem a ser isto? – disse Lea, subitamente divertida. – Olhem para ela, a rapariga ficou apanhadinha, já alguma vez a tinham visto corar? – O que é que ele te fez? – perguntou Labão, rosnando como um cão ao cheiro de intrusos no rebanho. Cerrou os punhos, eriçou o sobrolho e concentrou toda a sua atenção em Raquel, a filha a quem nemuma só vez batera, a quem raramente olhava de frente. Ela assustava-o desde o instante em que nascera uma vinda ao mundo violenta, lastimosa e mortal. Quando a criança emergiu, as mulheres viram chocadas que a causa de tanta dor, sofrimento e sangue (e por fim da morte da mãe) era afinal uma menina invulgarmente pequena. A figura de Raquel era arrebatadora como a Lua e não menos bela. Ninguém podia negar-lhe a beleza. Mesmo quando eu era criança e adorava o rosto da minha mãe, já sabia que a beleza de Lea empalidecia perante a irmã mais nova, sensação que sempre me fez sentir traidora. E, no entanto negá-lo seria negar o próprio calor do Sol. A beleza de Raquel era invulgarmente cativante. Cabelo castanho com reflexos bronzeados, pele dourada, cor de mel, perfeita. Neste conjunto ambarino, a nota surpreendente de uns olhos escuros, não simplesmente castanho-escuros, mas negros como obsidiana polida e fundos como um poço. Embora fosse pequenina (de ossatura miúda, mesmo durante a infância), possuía mãos musculosas e voz rouca, como se falasse pela boca de outra mulher muito maior.

Ouvi um dia dois pastores discutirem sobre o melhor traço de Raquel, jogo a que também eu já me dedicara. Para mim, o traço mais encantador de Raquel eram as maçãs do rosto, altas e salientes como figos. Quando eu era bebê, tinha a mania de tocar naquelas rosetas, a ver se conseguia colher o fruto do seu sorriso. Quando percebi que não podia arrancá-las, passei a lambê-las, à cata do gosto que teriam. E a minha linda tia ria-se com um riso que lhe vinha do fundo da barriga. Gostava mais de mim do que de todas as outras sobrinhas juntas pelo menos assim o dizia, enquanto me tecia elaboradamente as tranças, para as quais a paciência ou o tempo da minha própria mãe nunca bastavam. É praticamente impossível exagerar a dimensão da beleza de Raquel. Já em bebê era uma jóia onde quer que se encontrasse, um ornamento, um prazer raro a criança de olhos negros e cabelos dourados. Deram-lhe a alcunha de Tuki, que significa “doçura”. Todas as mulheres se prestaram a cuidar de Raquel quando Huna, a mãe dela, morreu. Huna era uma parteira expedita, famosa pelas suas risadas guturais e muito pranteada pelas outras mulheres. Ninguém se queixou por ter de cuidar da órfã de Huna, e até os homens, sobre quem as crianças exerciam tão pouco fascínio como as pedras da lareira, não se coibiam de passar as mãos calejadas por aquelas bochechas singulares. Depois levantavam-se, cheiravam a ponta dos dedos e abanavam a cabeça. Raquel cheirava a água. Verdade! Por onde quer que passasse a minha tia, sentia-se um cheiro a água fresca. Era um cheiro incrível, viçoso, delicioso, que enchia de vida e frescura aqueles montes empoeirados. O fato é que durante muitos anos o poço de Labão matou a fome à família. A princípio houve esperança de que Raquel viesse a tornar-se vidente e fosse capaz de descobrir veios de água. Ela não fez jus à expectativa, mas ainda assim o aroma a água manteve-se agarrado à sua pele e às suas roupas. Quando uma das crianças desaparecia, muitas vezes íamos encontrá-la adormecida nos cobertores de Raquel, a chuchar no dedo. Não admira que Jacob tivesse ficado igualmente rendido. Os outros homens tinham-se habituado à figura de Raquel e ao seu espantoso perfume, mas a Jacob deve ter semelhado uma aparição. Olhou-a diretamente nos olhos e ficou subjugado. Quando a beijou, Jacob gritou no mesmo tom do homem que se deita com a mulher. E por tal som despediu Raquel a sua infância.

Labão reparou logo que ele vinha de mãos vazias, mas também viu que a roupa e a túnica eram de boa qualidade, o odre de bom fabrico, e o cabo da faca, talhado em osso polido. Jacob postou-se diante de Labão e, vergando a cabeça, apresentou-se: – Tio, eu sou filho de Rebeca, sua irmã, filha de Nacor e de Milca, assim como o tio é filho deles. Minha mãe ordenou-me de vir até vós, meu pai baniu-me para junto de vós. Contar-vos-ei toda a história quando não me encontrar tão sujo e descomposto. Solicito a vossa hospitalidade, tão afamada em toda a região. Raquel abriu a boca para falar, mas Lea deu-lhe um puxão no braço e num relance mandou-a calar, nem mesmo a juventude de Raquel justificava que ela interrompesse um homem quando este se dirigia a outro. Raquel bateu com o pé no chão e pensou pensamentos envenenados acerca da irmã, essa coruja mandona, cabra vesga. As palavras de Jacob acerca da afamada hospitalidade de Labão não passavam de mentira cortês, pois Labão estava longe de sentir satisfação pelo aparecimento do sobrinho. Poucas coisas provocavam contentamento no velho, e menos ainda a aparição inesperada de estranhos esfomeados. No entanto, nada havia a fazer – tinha de honrar a reclamação de parentesco, impossível negar a relação entre ambos. Jacob sabia os nomes e Labão reconheceu o rosto da irmã no homem que tinha diante de si. – És bem-vindo – disse Labão, sem sorrir nem retribuir a saudação do sobrinho. Deu meia volta e, conforme se afastou, apontou o polegar a Lea, encarregando-a de tomar conta daquela chatice. A minha mãe acenou em concordância, encarou o forasteiro e assim ficou a conhecer o primeiro homemadulto que não desviava a vista ao confronto dos seus olhos. A visão de Lea era perfeita. Segundo uma das fábulas ridículas tecidas à volta da história da minha família, arruinou os olhos ao chorar um rio de lágrimas perante a idéia de casar com meu tio Esaú. Se em tal acreditam, talvez estejam também interessados em comprar um sapo mágico que fará desfalecer de amor todo aquele que vos olhar. Mas os olhos de minha mãe não enfraqueceram, nem adoeceram, nem remelaram. A verdade é que os olhos dela enfraqueciam os outros e a maioria das pessoas preferia olhá-la de esguelha. Um era lápis-lazúli, o outro verde como o vidro egípcio. Quando ela nasceu, a parteira declarou vinda ao mundo uma bruxa e a necessidade de afogá-la antes que lançasse alguma maldição sobre a família. Mas a minha avó Ada esbofeteou a estúpida mulher e amaldiçoou-lhe a língua. – Mostra-me a minha filha – disse Ada em voz tão alta e altiva que até os homens lá fora a ouviram. Ada apelidou o seu último rebento de Lea, que significa “senhora”, e chorou uma prece para que a criança sobrevivesse, pois já enterrara sete filhos e filhas. Muitos continuaram convencidos de que a criança era um demônio.

Não se sabe porquê, Labão, alma supersticiosa além dos limites da imaginação, sempre a bufar e a reverenciar cada vez que virava à esquerda, sempre a uivar a cada eclipse lunar, recusou a sugestão de que Lea devia ser abandonada à morte no relento da noite. Resmungou umas quantas imprecações por causa do sexo feminino da criança, mas de resto passou a ignorar a filha e nunca mencionou a sua peculiaridade. Mais uma vez, as mulheres suspeitaram que o velho era incapaz de distinguir as cores. Nunca esmoreceu a cor dos olhos de Lea (ao contrário do que esperavam e prediziam certas mulheres), antes carregavam na diferença e na estranheza quando acicatada. Embora pestanejasse, como toda a gente, este reflexo era quase invisível, de modo que parecia nunca fechar os olhos. Mesmo o mais amoroso dos seus olhares dava parecenças de fixidez de cobra, poucos suportavamolhá-la a direito. As exceções eram recompensadas com beijos e risos e sopas de mel. Jacob voltou a fixar os olhos de Lea, tanto bastou para que ela simpatizasse imediatamente com ele. A verdade é que Lea já tinha reparado nele, por ser tão alto. Ela era uma mão travessa mais alta do que a maioria dos homens seus conhecidos, por isso a todos rejeitava embora soubesse fazer injustiça, pois certamente, de todas essas cabeças que mal lhe chegavam ao nariz, algumas pertenceriam a muito bons homens. Mas desagradava-lhe a idéia de deitar-se ao lado de um par de pernas mais curtas e fracas do que as suas. Não que alguém a tivesse pedido. Ela bem sabia que lhe chamavam Dragão, Olhos de Diabo e outras coisas ainda piores. O seu desagrado por homens baixos fora reforçado por um sonho em que um homem muito alto lhe sussurrara ao ouvido. As palavras não as recordava, mas tinham-na acordado e posto as coxas em brasa. Assim que viu Jacob lembrou-se do sonho e esbugalhou os olhos. Jacob também ficou com boa impressão de Lea. Embora ainda estivesse a zunir do encontro comRaquel, não podia ignorar a presença de Lea. Não só era alta, como bem proporcionada e forte. Fora abençoada com um peito cheio, alto, sempre a espreitar fora do vestido. Os antebraços eram de rapaz, mas a andadura era de mulher com quadris promissores

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